A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÚDE MENTAL NO CONVÍVIO FAMILIAR

A família é um sistema em que se espera que todos estejam aptos a desenvolver suas funções. Como lidar com a ruptura dessa engrenagem quando há alguma disfunção?

O que significa ter saúde mental? O que significa “ser normal”? Quando essa questão foi feita a Sigmund Freud ainda no século XIX, ele respondeu: “normal é a pessoa capaz de amar e trabalhar”.

A partir dessa resposta de Freud podemos imaginar o quanto a doença mental pode impactar o ciclo familiar. A família é um sistema como se fosse uma engrenagem, na qual os membros possuem funções, missões e expectativas de futuro, ou seja, se espera que todos estejam aptos a desenvolver suas funções esperadas para cada idade e que amem não só os seus parentes, como tenham empatia pelas pessoas que não fazem parte da família, mas que ocupam um lugar de importância em nossas vidas. São os colegas de escola, amigos, vizinhos e até parentes distantes. Pode não haver amor, mas há afeto e empatia.

Pensemos agora em uma família que possui algum membro com uma questão que interfere e atrapalha a homeostase da casa. São inúmeros os casos. Parentes com depressão, ideação suicida, bipolaridade, distimia, psicose, esquizofrenia, dependência química de qualquer ordem, transtornos de personalidade e tantas outras questões que tensionam e atingem diretamente as famílias, especialmente quando o grau de gravidade da doença mental torna o indivíduo incapacitado para amar e trabalhar. Vamos utilizar o conceito de Freud para comentar essa matéria, pois, apesar de parecer reducionista e simplório, resume muito bem o que acontece com o indivíduo e seus familiares.

Sendo a família um sistema, também é um ciclo hierárquico. Vamos refletir sobre alguns exemplos. Se a pessoa com doença mental é uma criança, ela precisa de duplo cuidado. Além dos cuidados naturais do ser criança, o tempo da família é dedicado às visitas médicas, terapias, m medicação. Em geral um membro paralisa suas atividades laborais para cuidar, sem nenhum prazo objetivo de quando essa situação vai terminar.

Na adolescência não é muito diferente, pois o adolescente tende a querer a sua independência e liberdade para ir à rua sem companhia, frequentar festas e eventos, mas nem sempre isso é possível. A decorrência é a revolta do adolescente e mais tensão dentro de casa.

Na fase adulta, quando a medicação não faz o efeito desejado do sujeito poder ter autonomia e empatia, a vida incapacitante permanece imobilizando um ou vários membros da família para cuidar sempre. Temos uma situação de congelamento do tempo, pois parece que aquela criança trabalhosa agora é um adulto com pais mais envelhecidos e frágeis.

Os principais impactos que podemos citar podem ser financeiros, uma vez que os tratamentos e medicamentos têm alto custo, somado a uma queda de receita, pois alguém que poderia estar no merca- do de trabalho é escolhido pela família para cuidar do membro que necessita de atenção e vigilância.

As famílias que não possuem recursos buscam apoio na rede pública, e a maior queixa que recebemos é que nem sempre há eficácia, porque as consultas possuem intervalos grandes entre uma e outra, e a impossibilidade de arcar com o custo dos remédios.

A inversão da hierarquia familiar também é algo muito comum, pois, quando são os filhos que cuidam dos pais, esse filho fica descoberto da proteção familiar e muitas vezes, mesmo sem maturidade e condições adequadas, cuida de quem deveria cuidar dele.

O estresse familiar acontece pelos comportamentos antissociais, impulsos, precisar vigiar por quase 24 horas a pessoa com ideação suicida, vigiar os remédios para evitar abusos e cumprir os papéis familiares que pertenceriam a quem está doente.

Em famílias com mais de quatro membros, encontramos também a descrença e a falta de colaboração a partir das expressões de opiniões como: “eu não quero saber dele”, “é falta de vergonha, pois deve ser ótimo ficar na cama todo o tempo enquanto é sustentado pelos outros!”. É fato que a revolta nasce do cansaço de cuidar ou do ambiente estressante, e exatamente por isso que a psicoeducação da família é indispensável. Por psicoeducação entendemos a orientação sem interrupção que será dada aos membros familiares para estimular a solidariedade e a divisão de tarefas. Assim ninguém fica sobrecarregado. Orientar sobre a evolução do quadro e o que se pode esperar do futuro. Orientar quando novos quadros surgem e sobre os riscos que todos correm e, principalmente, orientar sobre como podemos vislumbrar a melhora e a vida produtiva do parente.

A Organização Mundial da Saúde possui dados alarmantes, tais como: a cada três pessoas, uma apresenta doença mental. Mostra também que em 2020 a depressão, o mal do século, poderá matar mais que o câncer e as complicações do HIV. Não são dados animadores, mas é preciso exercer a nossa cidadania para a formulação de políticas públicas para a saúde mental.

Somos conhecedores do colapso da saúde no Brasil, mas na saúde mental o quadro é muito pior.

Finalizamos perguntando: quem cuida de quem cuida? Sem dúvida que os cuidadores precisam de apoio terapêutico, descanso e lazer. Só cuida bem quem está bem, e viver em alerta todo o tempo adoece o cuidador, interfere na conjugalidade e na relação com os demais filhos, quando o filho que apresenta o quadro mental rouba toda a cena e os demais precisam exercer o autocuidado.

Ações preventivas sempre são o melhor remédio. Como prevenir? As ações cotidianas e aparentemente comuns nos protegem do adoecimento, a construção da resiliência: estudar, trabalhar, ter oportunidade de lazer e ter um amigo. O outro fraterno. Pessoas que têm amigos adoecem menos, sem dúvida. É fato que o amor cura.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC-Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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