GESTÃO E CARREIRA

NA CORDA BAMBA

Especialistas alertam empresas sobre como não cair na inadimplência em virtude da crise

A lenta retomada das atividades e a possível necessidade de uma nova suspensão em breve acendem novamente o alerta: muitas empresas deverão fechar nos próximos meses e o risco de mais demissões é iminente. Desemprego e inadimplência podem atingir níveis assustadores e é preciso estar atento para não quebrar nem entrar no vermelho.

Sem dinheiro, o acúmulo de dívidas torna-se inevitável e a economia passa a andar na corda bamba. Segundo o advogado e líder da área cível do escritório Marcos Martins Advogados, Mário Conforti, entre as pessoas mais afetadas pela crise, está a parcela da população que recebe até dois salários mínimos. ”A reabertura do comércio permitiu que as pessoas voltassem às ruas, visitassem salões de beleza, bares e restaurantes. Porém, além do medo provocado pelo vírus ainda em circulação, também é necessário considerar a redução da renda de boa parte das famílias. Mais de um milhão de brasileiros perderam o emprego como consequência da pandemia. Com menos posses e a incerteza do amanhã, a tendência é consumir cada vez menos e, assim, sobrevir uma retração na economia, dificultando ainda mais a saída da crise”.

Os efeitos da pandemia da Covid-19 e o isolamento social derrubaram o PIB (Produto Interno Bruto) em 5,9% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período em 2019. No segundo trimestre, a queda foi de 9,7% em relação ao primeiro trimestre, a maior já registrada desde 1996, segundo o CEO da Deep Center, empresa de gestão da Informação para escritórios de cobrança, Gabriel Camargo. “Isso faz com que as estimativas do PIB fechem o ano em queda de aproximadamente -5,11% a -5,3%. Essa queda foi puxada pelos setores econômicos da indústria, que caiu 6,5% no primeiro trimestre (transformação, construção, eletricidade). O desempenho no setor de serviços também foi negativo em 5,9% (transporte, comercio, saúde) e na agropecuária houve alta de 1,6%”.

Além da queda no PIB, números alarmantes foram registrados no desemprego e na inadimplência este ano. ”Antes da crise da Covid-19 havia um aumento gradativo no número de inadimplentes causado pelo reflexo da recessão de 2015. Entre 2018 e 2019 esse número saltou de 62,5 milhões de pessoas com dívidas em atraso para quase 64 milhões no final de 2019. Antes da crise, o número de famílias endividadas era de quase 63%. Durante a crise, esse número passou rapidamente para 68%”, comenta Camargo.

Ele explica que isso acontece porque, se uma papelaria fecha, por exemplo, deixa de remunerar toda uma cadeia de fornecimento, desde o locador do imóvel (se não for próprio) até os fornecedores de papel, canetas e tintas para impressão, que, por sua vez, com cenário de baixa demanda, terão de demitir e reduzir a renda de seus colaboradores. “À medida que as coisas ficam escassas em razão da crise, as taxas de juros são influenciadas”.

O principal sinal de melhora desse cenário, ressalta Camargo, dependerá da recuperação econômica nos próximos meses, dado que boa parte da população deixou. para pagar suas dívidas no futuro, ainda incerto. ”A inadimplência provoca uma desorganização muito grande nas finanças pessoais, e é preciso muito tempo para retomar patamares anteriores.

A expectativa dos bancos é que chegue a patamares de 4,7% em 2021, ou seja, ainda não entramos na tendência de piora da inadimplência, vivemos os efeitos dos benefícios emergenciais. O impacto dessa crise não tem precedentes”.

Com estimativas tão baixas, é preciso se organizar para não cair no buraco. Via de regra, as recomendações para empresários e consumidores são bem parecidas, conforme explica o CEO da ConsigaMais+, fintech de crédito consignado, Victor Loyola. “No seu negócio, o microempresário precisa de disciplina, ter certeza de que se faça cortes em despesas desnecessárias e que não sejam geradoras de receita. Em momentos de crises e situações de incerteza econômica é extremamente importante ter uma operação enxuta e eficiente”.

Loyola ainda aponta para a necessidade de o empresário certificar-se de que todas as despesas estão em seu nível mínimo e que, de fato, são despesas geradoras de negócio. “Feito isso, você precisa olhar o fluxo de caixa e ter o entendimento de que a despesa financeira que você tem não ultrapasse o valor do seu recebimento mensal, seu fluxo de caixa mensal. O microempresário não se diferencia muito da pessoa física, então é recomendado que ele não tenha mais de 30% da sua receita comprometida com despesas financeiras. Se ultrapassar esse valor, a situação fica mais complicada e seria o caso de fazer uma renegociação da dívida para alongar o prazo e permitir maior fôlego financeiro no dia a dia”.

ONDE ESTÁ O ERRO

Gabriel Camargo conta que é possível elencar o que empresários costumam fazer de errado, resultando em dívidas impagáveis. Não definir metas financeiras é, provavelmente, o erro mais comum, mas muitas empresas também não têm cuidado na hora de investir, não negociam antes de comprar, não renegociam as dívidas que fazem e ainda contraem novas dívidas. Outro erro grave, segundo ele, é que habitualmente empresários procuram pagar dívidas menores primeiro, o que pode ser bem perigoso. “Quanto maior a dívida, maiores os juros”, destaca. Completam a lista de erros que podem levar uma empresa à inadimplência: gastar mais do que tem e só perceber que as finanças saíram do controle quando estão endividadas.

O presidente da Omni Soluções Financeiras, Tadeu Silva, ainda aponta a falta de conhecimento financeiro como mais um erro clássico, capaz de tornar uma dívida impagável. “Os brasileiros não estavam preparados para o boom de crédito que tivemos nos últimos anos, contraindo empréstimos e financiamentos sem o devido planejamento de seu fluxo de renda e da real necessidade do consumo de determinados produtos e serviços, muitas vezes dispensáveis. Infelizmente a educação financeira ainda está distante da realidade da maioria”.

SAINDO DO BURACO

A solução, Tadeu Silva explica, é sempre ter uma reserva financeira e evitar linhas de crédito com alto custo (taxas de juros), como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. “E sempre priorizar o pagamento de suas dívidas, pois não existe nenhum investimento que compense o custo do crédito no mercado brasileiro. A melhor saída é buscar linhas de crédito com taxas de juros menores, como o crédito consignado e o refinanciamento de veículos ou imóveis e, assim, quitar o máximo possível de suas dívidas antigas de maior custo”.

Camargo ainda pontua algumas atitudes importantes que ajudam o microempresário a passar longe da inadimplência: antecipação de pagamentos que ofereçam desconto, organização, fluxo de caixa, pagamento das contas em dia, criação de um plano de ação, realização de projeções e utilização de softwares dedicados.

BOM SENSO E RAZOABILIDADE

O coordenador jurídico do escritório Marcos Martins Advogados, Jayme Petra de Mello Neto, afirma que controlar o orçamento é o primeiro passo para não entrar em uma bolha de inadimplência. E isso vale tanto para empresas quanto para consumidores endividados. “Acredito que na relação entre as empresas e os consumidores deve sempre prevalecer o bom senso. Sobretudo agora que ainda estamos passando e sofrendo os efeitos da pandemia. É preciso pensar que a mesma empresa que cobra dos seus clientes pode estar em dívida com fornecedores. É um ciclo e a situação não está fácil para ninguém. Do lado dos consumidores, a dica é priorizar o essencial e, sobrando dinheiro, pagar as contas com os encargos da mora mais pesados (multas, juros de mora, correção monetária). O custo do crédito no Brasil ainda é muito elevado se comparado com outros países. Essa situação decorre de diversos fatores, mas é certo que determinadas dívidas são muito mais “caras” do que outras, por exemplo, os juros do cheque especial e o crédito rotativo dos cartões de crédito. O consumidor deve, se tiver capacidade, priorizar a liquidação dessas dívidas mais caras”.

Mello Neto ainda ressalta que o custo da inadimplência pode ser mitigado pelas empresas com o oferecimento de descontos e parcelamento das dívidas em aberto. “Com isso, pode-se viabilizar a continuidade dos negócios e, consequentemente, a circulação de riqueza. Uma negociação eficiente evitará os riscos de uma disputa judicial, que envolve custos e tempo, e fortalecerá a relação entre consumidor e empresa. É preciso ter paciência e compreender o momento de dificuldade que todos estamos passando. Negociação é a palavra-chave para consumidores e empresas”.

Se o empresário sente que está em vias de perder o controle, a saída é pedir ajuda. Mello Neto sugere a procura de um advogado. “Em algumas situações, é possível revisar determinados contratos e afastar cobranças indevidas, o que pode levar à diminuição de uma dívida. No entanto, para não se ‘afogar’ em dívidas, é preciso ter consciência e responsabilidade. Sem isso, não haverá advogado que o salve”.

Outro caminho é apostar em créditos consignados. “É um produto bastante conveniente, porque não demanda maiores burocracias para se obter, é muito fácil. Não demanda preocupação em ter de pagar, já que é debitado direto da sua conta. Então você toma empréstimo e não tem de se preocupar com ele até o final do financiamento. Qualquer hora é hora de procurar crédito, desde que você tenha uma finalidade específica para utilizá-lo, que pode ser quitar dívidas mais caras ou fazer o refinanciamento da sua despesa financeira. O importante é que você tenha ciência de que poderá arcar com as prestações, com o financiamento da dívida”, comenta Victor Loyola.

FIQUE ATENTO

DICAS PARA O INADIMPLENTE:

•   Se há uma dívida em atraso que não poderá ser quitada no curto prazo, entre em contato com o credor e renegocie o débito. Isso evitará que o título seja protestado e o nome enviado para negativação.

•   Pague primeiro as dívidas de juros mais altos, como cartões de crédito e cheque especial.

•   Mapeie todos os gastos, registre em uma planilha ou em algum controle. Também registre os consumos e hábitos diários.

•   Defina quais gastos deverão ser cortados do orçamento.

•   Evite compras de impulso.

•   Faça pesquisas antes de novas compras e opte pelo melhor custo-benefício.

DICAS PARA O CREDOR:

•   Realize o controle de números e trabalho com dados e números.

•   Busque conhecer pelo que o seu cliente está passando no momento com tecnologias e soluções de análise de dados e speech analytics.

•   Proponha alternativas e flexibilização para bons pagadores que estão em momentos difíceis.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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