A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A REALIDADE DO TDAH

É um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado, pois, inclusive, não existem exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade está classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (2014), como um transtorno do neurodesenvolvimento. Tem como principais características: desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Trata-se de um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado. O neurologista José S. Schwartzman chama atenção para o comportamento dissimulado que o indivíduo com TDAH pode apresentar dentro de um consultório, frente a um profissional desconhecido. Além disso, não há exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica. Por isso, a necessidade de um profissional experiente (neuropediatra ou psiquiatra infantil).

Ao longo dos anos, foram desenvolvidos alguns testes específicos que podem rastrear o transtorno; dentre eles destacamos: Child Behavior Cheklist (CBCL); Escala Conners (Brasil, validada por Barbosa, 1997); SNAP-IV; Escala de TDAH (Benczik, 2000); Escala Comportamental para Pré-Escola e Jardim de Infância; Escala Conners de Avaliação para Pais; Inventário para Crianças Pequenas – 4; versão de Lista de Conferência de Comportamentos para Crianças.

Existem três tipos do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade: predominantemente desatento; predominantemente hiperativo-impulsivo; tipo combinado (desatento e hiperativo-impulsivo).

Dessa forma, percebemos que não é regra todas as características se apresentarem juntas em um mesmo indivíduo. Normalmente, nas meninas, a desatenção prevalece. Enquanto que nos meninos a hiperatividade (agitação motora, fala alta e em demasia) é acentuada.

Diversos estudos afirmam que indivíduos com TDAH sofrem com alterações na região frontal do cérebro, em seus neurotransmissores. Portanto, suas conexões cerebrais funcionam de forma diferenciada, havendo menor controle sobre as funções superiores – pensamento, organização, comparação, classificação, análise. Dessa forma, controlar a fala, a agitação motora e a impulsividade torna-se tarefa extremamente difícil para quem tem TDAH. É o que diversos estudiosos chamam de prejuízo no “mecanismo de inibição do comportamento”. Importante ressaltar que não se trata de falta de educação ou falta de limites, mas, sim, de um descontrole ocasionado por um processamento cerebral diferente do dos demais indivíduos.

A herança genética é apontada como maior probabilidade do transtorno. O baixo peso à época do nascimento (menos de 1.500 gramas) pode ser um risco para a criança desenvolvê-lo. Fatores ambientais, como abuso infantil, colocação em diversos lares adotivos e negligência, também são vistos como riscos, conforme notificações do DSM-V.

Deficiências nutricionais e sensoriais (visão e audição), epilepsia, transtorno do sono e anormalidades no metabolismo podem ser considerados gatilhos para o TDAH.

RÓTULO

Dentro das instituições escolares, ouvimos muito falar em crianças agitadas e sem limites, que, equivocadamente, acabam recebendo o “rótulo” de hiperativas, fazendo referência ao transtorno. Nos últimos anos, parece haver uma “epidemia” de TDAH.

Por isso, devemos aproveitar o espaço e comentar que nem todas as crianças mais agitadas ou desatentas possuem o transtorno. Esses indivíduos podem estar sofrendo com outros problemas (como perda de um ente querido; separação dos pais; falta de atenção de algum de seus responsáveis; ausência de papéis parentais; mudança de casa ou de escola; inadequação à metodologia utilizada pela escola; pedagogia extremamente tradicional; recebimento de conteúdos inadequados ao seu potencial de desenvolvimento real) e apresentarem algumas características parecidas em uma determinada época de sua vida, dentro das instituições escolares principalmente.

É importante salientar que para ser caracterizado como TDAH é preciso que o indivíduo apresente os sintomas há mais de seis meses ininterruptos e em diversos ambientes, como casa, escola, trabalho. Também devemos ressaltar que se algumas questões se apresentam depois dos 12 anos de idade, não se trata de TDAH, visto que este começa a se manifestar desde a primeira infância, sendo mais notável quando a criança inicia a escolarização. Além disso, indivíduos com TDAH apresentam inteligência mediana a superior.

Alguns sinais neurológicos leves, como atrasos motores brandos, podem ocorrer ao indivíduo com o mesmo transtorno. Déficits na linguagem expressiva, na coordenação motora ampla e fina, na solução de problemas e habilidades quanto às organizações também podem ser encontrados.

Dificuldades em se concentrar em um assunto específico, em organizar seu material e seu tempo, em seguir instruções complexas, além da fácil distração e dos esquecimentos são particularidades da desatenção. Não permanecer sentado, parado ou calado quando preciso, dedicar-se a mais de uma atividade e não terminá-las ou executá-las sem qualidade, apresentar agitação motora, falar em demasia e em volume alto constituem a hiperatividade. Responder perguntas antes que as mesmas sejam completadas e se intrometer em assuntos paralelos caracterizam a impulsividade. Todos são sintomas que refletem no processo ensino-aprendizagem, prejudicando não só a apreensão e o domínio do conhecimento como, também, o relacionamento com seus pares.

FRUSTRAÇÃO

indivíduos com TDAH são crianças, jovens ou adultos que sofrem ao serem frustrados, “sonham” acordados, trocam diversas vezes de atividade e possuem dificuldades significativas quanto à organização de seus pertences, afazeres e de seu tempo.

Lembramos que esse transtorno afeta cerca de 5% da população em idade escolar e 2,5% em idade adulta. Cerca de até 80% desses indivíduos sofrem com problemas de aprendizagem durante sua vida acadêmica, sendo repetência e evasão escolar acontecimentos frequentes.

Após os transtornos visuais, o TDAH é o fator mais prejudicial à escolarização de crianças e adolescentes.

O acometimento do transtorno existe na proporção de 2 meninos para 1 menina, na infância, e 1,6 homem para 1 mulher, quando adultos.

Já afirmamos que a genética é apontada como maior probabilidade do transtorno e devemos chamar atenção para pesquisas que apontam haver maior ocorrência de TDAH entre parentes (biológicos) de primeiro grau e entre gêmeos monozigóticos.

Interessante afirmar que o primeiro estudo divulgado sobre TDAH data de 1798, pelo médico escocês Alexander Crichton, analisando características de desatenção em algumas crianças. Crichton observava doenças mentais quando percebeu que algumas crianças apresentavam o sintoma da desatenção de forma significativa, o que chamou de “desatenção patológica”.

Em 1902, o pediatra inglês George Still foi um dos primeiros especialistas a realizar conferências sobre o mesmo transtorno, intituladas “Algumas Condições Psíquicas Anormais em Crianças”. Still comentava se tratar de uma condição resultante de: um “defeito da função inibitória da vontade” – sendo somente a punição um “tratamento” ineficaz à repetição de tais comportamentos –, havendo agressividade e desafio comumente associados, desatenção, hiperatividade, com o intelecto preservado.

A hiperatividade mental é pouco comentada dentre os estudiosos do transtorno. No entanto, trata-se de uma frequente agitação mental que ocasiona abstrações variadas, pensamentos rápidos, concorrendo a impulsividade e a mudança de assuntos sem que estes tenham sido findados. Essa agitação cerebral, muitas vezes, causa o cansaço mental, a exaustão, uma grande fadiga, o que para muitos pode ser visto e entendido como pura preguiça. Consequentemente, ocorre a insônia, dentre outras situações não desejadas.

Depressão, síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de conduta podem ocorrer simultaneamente ao TDAH – identificados como comorbidades.

O transtorno de oposição desafiante prevalece em metade das crianças com o subtipo combinado, enquanto que nas com subtipo predominantemente desatenta, em cerca de um quarto. Transtorno obsessivo-compulsivo, da personalidade antissocial, de tique e de espectro autístico também são co-mórbidos ao TDAH. Graef e Vaz afirmam que até 65% dos casos de TDAH estão associados a outros distúrbios.

Indivíduos com TDAH, não tratados, podem apresentar grande sofrimento devido à baixa autoestima que desenvolvem ao longo de sua jornada acadêmica, profissional e relacional. O nível de escolaridade cai e transtornos de conduta podem ser adquiridos, dificultando ainda mais a vida de quem tem o problema. Relacionamentos instáveis e de curta duração “acompanham” os adultos. E acidentes, brigas, discussões, delitos tornam-se mais comuns para essas pessoas que não se trataram na infância ou na juventude.

A medicação pode ser um grande aliado na luta contra os sintomas indesejados do TDAH. No entanto, é de grande relevância que a criança ou o adolescente sejam acompanhados por terapias que os façam refletir sobre seu comportamento, melhorando dia a dia seu entendimento sobre si mesmos e suas ações. Os esportes também são excelentes, principalmente para as crianças. Natação, futebol, judô, dentre outros, gastam a energia excessiva e ajudam a melhorar a socialização, visto que exigem disciplina dos participantes. Além disso, trabalham regras que devem ser compreendidas e obedecidas.

AVANÇO

No estado do Rio de Janeiro, houve um avanço para os indivíduos com TDAH e dislexia em idade escolar. A Lei no 8.192, de 4/12/18, obriga escolas públicas e privadas a cumprirem determinadas regras que visam beneficiar o processo ensino-aprendizagem dos alunos com os transtornos mencionados. São:

– Assentos disponíveis na primeira fileira e longe de possíveis distrações;

– Realizar avaliações e provas em local e tempo diferenciados, com auxílio de um profissional de educação especial;

– Organização de classes, flexibilizações e adaptações curriculares, metodologias, recursos e avaliações adequados às necessidades educacionais especiais.

Para que essas normas sejam executadas, é necessário que os responsáveis apresentem ao corpo docente, à instituição escolar laudo com diagnóstico de TDAH ou dislexia.

Pouco a pouco percebemos que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade supera a descrença dos leigos, provando se tratar de um pro- cessamento cerebral diferenciado que afeta crianças, adolescentes e adultos de forma significativa. Infelizmente, por muitas vezes, incapacitante. Enfim, uma realidade que precisa ser estudada, discutida e normatizada para ajudarmos aqueles que têm o transtorno a alcançar méritos com dignidade e igualdade de oportunidades.

QUEM APRESENTA TDAH TEM CAPACIDADE DE FOCO

A psiquiatra Ana Beatriz Silva ressalta que todo indivíduo com TDAH jamais deixará de apresentar a desatenção. No entanto, quando se trata de algo de seu extremo interesse, ou uma novidade estimulante, esse mesmo indivíduo com TDAH tem capacidade de foco, de concentração altíssima, gerando, logo, a compreensão do assunto e de novas ideias – uma ironia ao nome déficit de atenção. Verificamos, portanto, que tal fator deve ser levado em conta por professores, pedagogos, profissionais da área educacional durante o processo ensino-aprendizagem. Partir do interesse do aluno pode trazer excelentes resultados.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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