EU ACHO …

LIBERDADE

Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.

Mamãe, tire esse cabelo da testa.

É um pouco da franja ainda.

Mas você fica feia assim.

Tenho o direito de ser feia.

Não tem!

Tenho!

Eu disse que não tem!

E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando – o quê, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O FUTURO JÁ CHEGOU

Através da realidade virtual, o ‘Microsoft Mesh’ permite enxergar hologramas de pessoas presentes em outros ambientes. Recurso pode mudar o mercado de trabalho

Imagine que você está na sua casa e precisa participar de uma reunião de trabalho, só que ao invés de um bate papo via telefone, liga seus óculos tecnológicos e consegue visualizar e interagir com seus colegas como se estivesse no mesmo ambiente que eles. Pensou? Acredite ou não, esse cenário já é possível.

Recentemente a Microsoft deu um passo rumo ao futuro ao anunciar os avanços com o Mesh, plataforma de realidade mista que promete revolucionar as relações humanas, sobretudo o mercado de trabalho. Por meio da tecnologia de “holoportação”, qualquer usuário presente na rede poderá interagir com colegas utilizando hologramas, esteja presente fisicamente ou não. Comum em filmes de ficção cientifica, como o badalado Star Wars, a ferramenta já está funcionando.

“Você pode realmente sentir que está no mesmo lugar com alguém compartilhando conteúdo ou se teletransportar de diferentes dispositivos de realidade virtual, mesmo sem estar junto fisicamente”, disse o brasileiro Alex Kipman, um dos desenvolvedores. “Essa é a ideia desde o início”, ressalta. Especialistas da área afirmam que a pandemia causada pela COVID-19 estimulou o setor a encontrar maneiras de “encurtar” o distanciamento social. Foi assim que plataformas de videoconferências ficaram tão populares. O Zoom, por exemplo, teve uma alta acima de 300% em 2020 — e foi de 10 milhões de usuários para mais de 200 milhões. Concorrente direta, a empresa de Bill Gates viu sua plataforma Microsoft Teams mais do que triplicar o número de usuários. O salto foi de 13 milhões para mais de 115 milhões, fato que estimulou o Mesh.

Emerson Cardoso Ferreira, diretor de Tecnologia na FC Nuvem, parte do grupo FCamara, especializado em transformação digital, conta que sua equipe é adepta do Teams, mas destaca que o Mesh pode modernizar sua forma de trabalhar. “Isso surge no momento certo por conta da pandemia”, diz. “É algo que irá funcionar em diversos dispositivos moveis e também vai unir as pessoas num ambiente virtual. É o futuro”, afirma.

TRABALHO REMOTO

Considerada uma das cinco empresas mais valiosas do mundo, segundo a revista Forbes, a Microsoft quer voltar ao topo do segmento tecnológico, e está utilizando seus maiores recursos para isso, como a plataforma Azure (nuvem), que hospeda ferramentas para trabalhos colaborativos à distância e o HoloLens, óculos de realidade virtual. Isso os coloca em uma posição privilegiada na corrida digital. “Nessas experiências colaborativas, o conteúdo que não está dentro do meu dispositivo ou aplicativo, está na nuvem”, conta Kipman. “Você só precisa das lentes especiais para ver”, ressalta. Para adquirir o equipamento é preciso abrir bem a carteira: o HoloLeans custa mais de R$ 50 mil.

A ferramenta tem uma viseira que cobre a região dos olhos, câmeras, microfones e sensores que reconhecem gestos e comandos de voz. Além disso, as imagens geradas nas lentes do HoloLens respondem aos movimentos da cabeça e do olhar. Alex Kipman afirma que o dispositivo trará autonomia para os usuários, seja em uma simples reunião ou para empresas que atuem com trabalhos manuais. Como o criador foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Kinect, tecnologia interativa integrada ao Xbox, videogame de sucesso da Microsoft, a nova solução de holograma possui credibilidade no mercado. A empresa de Bill Gates ainda não disponibilizaram a versão completa, contudo, é possível testar o Mesh. Basta pesquisar “Microsoft Mesh na internet” e fazer login. Há quem já seja fã. “Já usei e gostei. Daqui uns anos pode ser nossa realidade”, pontua Emerson Cardoso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE ABRIL

A SEGURANÇA DA POBREZA

Com as suas riquezas se resgata o homem, mas ao pobre não ocorre ameaça (Provérbios 13.8).

O homem rico vive inseguro apesar de sua riqueza. Anda com segurança particular, viaja em carros blindados e mora em palacetes com cercas elétricas e detalhado sistema de alarmes. Mesmo assim, vive com medo de assalto e sequestro. Sua riqueza, embora lhe proporcione conforto, não lhe oferece paz. No caso de um rapto, os criminosos exigem recompensa, e sua riqueza serve de resgate para sua vida. O pobre, contudo, nunca recebe ameaças. Não precisa andar blindado por fortes esquemas de segurança. Anda de peito aberto e com irrestrita liberdade. Sua pobreza, longe de colocá-lo na passarela da insegurança, é seu escudo protetor. Ele caminha sem preocupações de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Seus filhos vão e voltam da escola em segurança. Sua pobreza não lhe permite requintes e confortos, mas lhe oferece segurança. Ao pobre não ocorre ameaça. O pobre dorme tranquilo depois de um dia longo e árduo de trabalho. Seus músculos latejam de cansaço, e o sono reparador restaura-lhe as forças para um novo dia de jornada. O rico, com suas muitas preocupações, deita-se em lençóis de cetim, mas lhe foge o sono, porque, mesmo rico, ele quer mais; mesmo blindado, ainda se sente inseguro; mesmo cheio de bens, ainda se sente vazio.

GESTÃO E CARREIRA

NA CORDA BAMBA

Especialistas alertam empresas sobre como não cair na inadimplência em virtude da crise

A lenta retomada das atividades e a possível necessidade de uma nova suspensão em breve acendem novamente o alerta: muitas empresas deverão fechar nos próximos meses e o risco de mais demissões é iminente. Desemprego e inadimplência podem atingir níveis assustadores e é preciso estar atento para não quebrar nem entrar no vermelho.

Sem dinheiro, o acúmulo de dívidas torna-se inevitável e a economia passa a andar na corda bamba. Segundo o advogado e líder da área cível do escritório Marcos Martins Advogados, Mário Conforti, entre as pessoas mais afetadas pela crise, está a parcela da população que recebe até dois salários mínimos. ”A reabertura do comércio permitiu que as pessoas voltassem às ruas, visitassem salões de beleza, bares e restaurantes. Porém, além do medo provocado pelo vírus ainda em circulação, também é necessário considerar a redução da renda de boa parte das famílias. Mais de um milhão de brasileiros perderam o emprego como consequência da pandemia. Com menos posses e a incerteza do amanhã, a tendência é consumir cada vez menos e, assim, sobrevir uma retração na economia, dificultando ainda mais a saída da crise”.

Os efeitos da pandemia da Covid-19 e o isolamento social derrubaram o PIB (Produto Interno Bruto) em 5,9% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período em 2019. No segundo trimestre, a queda foi de 9,7% em relação ao primeiro trimestre, a maior já registrada desde 1996, segundo o CEO da Deep Center, empresa de gestão da Informação para escritórios de cobrança, Gabriel Camargo. “Isso faz com que as estimativas do PIB fechem o ano em queda de aproximadamente -5,11% a -5,3%. Essa queda foi puxada pelos setores econômicos da indústria, que caiu 6,5% no primeiro trimestre (transformação, construção, eletricidade). O desempenho no setor de serviços também foi negativo em 5,9% (transporte, comercio, saúde) e na agropecuária houve alta de 1,6%”.

Além da queda no PIB, números alarmantes foram registrados no desemprego e na inadimplência este ano. ”Antes da crise da Covid-19 havia um aumento gradativo no número de inadimplentes causado pelo reflexo da recessão de 2015. Entre 2018 e 2019 esse número saltou de 62,5 milhões de pessoas com dívidas em atraso para quase 64 milhões no final de 2019. Antes da crise, o número de famílias endividadas era de quase 63%. Durante a crise, esse número passou rapidamente para 68%”, comenta Camargo.

Ele explica que isso acontece porque, se uma papelaria fecha, por exemplo, deixa de remunerar toda uma cadeia de fornecimento, desde o locador do imóvel (se não for próprio) até os fornecedores de papel, canetas e tintas para impressão, que, por sua vez, com cenário de baixa demanda, terão de demitir e reduzir a renda de seus colaboradores. “À medida que as coisas ficam escassas em razão da crise, as taxas de juros são influenciadas”.

O principal sinal de melhora desse cenário, ressalta Camargo, dependerá da recuperação econômica nos próximos meses, dado que boa parte da população deixou. para pagar suas dívidas no futuro, ainda incerto. ”A inadimplência provoca uma desorganização muito grande nas finanças pessoais, e é preciso muito tempo para retomar patamares anteriores.

A expectativa dos bancos é que chegue a patamares de 4,7% em 2021, ou seja, ainda não entramos na tendência de piora da inadimplência, vivemos os efeitos dos benefícios emergenciais. O impacto dessa crise não tem precedentes”.

Com estimativas tão baixas, é preciso se organizar para não cair no buraco. Via de regra, as recomendações para empresários e consumidores são bem parecidas, conforme explica o CEO da ConsigaMais+, fintech de crédito consignado, Victor Loyola. “No seu negócio, o microempresário precisa de disciplina, ter certeza de que se faça cortes em despesas desnecessárias e que não sejam geradoras de receita. Em momentos de crises e situações de incerteza econômica é extremamente importante ter uma operação enxuta e eficiente”.

Loyola ainda aponta para a necessidade de o empresário certificar-se de que todas as despesas estão em seu nível mínimo e que, de fato, são despesas geradoras de negócio. “Feito isso, você precisa olhar o fluxo de caixa e ter o entendimento de que a despesa financeira que você tem não ultrapasse o valor do seu recebimento mensal, seu fluxo de caixa mensal. O microempresário não se diferencia muito da pessoa física, então é recomendado que ele não tenha mais de 30% da sua receita comprometida com despesas financeiras. Se ultrapassar esse valor, a situação fica mais complicada e seria o caso de fazer uma renegociação da dívida para alongar o prazo e permitir maior fôlego financeiro no dia a dia”.

ONDE ESTÁ O ERRO

Gabriel Camargo conta que é possível elencar o que empresários costumam fazer de errado, resultando em dívidas impagáveis. Não definir metas financeiras é, provavelmente, o erro mais comum, mas muitas empresas também não têm cuidado na hora de investir, não negociam antes de comprar, não renegociam as dívidas que fazem e ainda contraem novas dívidas. Outro erro grave, segundo ele, é que habitualmente empresários procuram pagar dívidas menores primeiro, o que pode ser bem perigoso. “Quanto maior a dívida, maiores os juros”, destaca. Completam a lista de erros que podem levar uma empresa à inadimplência: gastar mais do que tem e só perceber que as finanças saíram do controle quando estão endividadas.

O presidente da Omni Soluções Financeiras, Tadeu Silva, ainda aponta a falta de conhecimento financeiro como mais um erro clássico, capaz de tornar uma dívida impagável. “Os brasileiros não estavam preparados para o boom de crédito que tivemos nos últimos anos, contraindo empréstimos e financiamentos sem o devido planejamento de seu fluxo de renda e da real necessidade do consumo de determinados produtos e serviços, muitas vezes dispensáveis. Infelizmente a educação financeira ainda está distante da realidade da maioria”.

SAINDO DO BURACO

A solução, Tadeu Silva explica, é sempre ter uma reserva financeira e evitar linhas de crédito com alto custo (taxas de juros), como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. “E sempre priorizar o pagamento de suas dívidas, pois não existe nenhum investimento que compense o custo do crédito no mercado brasileiro. A melhor saída é buscar linhas de crédito com taxas de juros menores, como o crédito consignado e o refinanciamento de veículos ou imóveis e, assim, quitar o máximo possível de suas dívidas antigas de maior custo”.

Camargo ainda pontua algumas atitudes importantes que ajudam o microempresário a passar longe da inadimplência: antecipação de pagamentos que ofereçam desconto, organização, fluxo de caixa, pagamento das contas em dia, criação de um plano de ação, realização de projeções e utilização de softwares dedicados.

BOM SENSO E RAZOABILIDADE

O coordenador jurídico do escritório Marcos Martins Advogados, Jayme Petra de Mello Neto, afirma que controlar o orçamento é o primeiro passo para não entrar em uma bolha de inadimplência. E isso vale tanto para empresas quanto para consumidores endividados. “Acredito que na relação entre as empresas e os consumidores deve sempre prevalecer o bom senso. Sobretudo agora que ainda estamos passando e sofrendo os efeitos da pandemia. É preciso pensar que a mesma empresa que cobra dos seus clientes pode estar em dívida com fornecedores. É um ciclo e a situação não está fácil para ninguém. Do lado dos consumidores, a dica é priorizar o essencial e, sobrando dinheiro, pagar as contas com os encargos da mora mais pesados (multas, juros de mora, correção monetária). O custo do crédito no Brasil ainda é muito elevado se comparado com outros países. Essa situação decorre de diversos fatores, mas é certo que determinadas dívidas são muito mais “caras” do que outras, por exemplo, os juros do cheque especial e o crédito rotativo dos cartões de crédito. O consumidor deve, se tiver capacidade, priorizar a liquidação dessas dívidas mais caras”.

Mello Neto ainda ressalta que o custo da inadimplência pode ser mitigado pelas empresas com o oferecimento de descontos e parcelamento das dívidas em aberto. “Com isso, pode-se viabilizar a continuidade dos negócios e, consequentemente, a circulação de riqueza. Uma negociação eficiente evitará os riscos de uma disputa judicial, que envolve custos e tempo, e fortalecerá a relação entre consumidor e empresa. É preciso ter paciência e compreender o momento de dificuldade que todos estamos passando. Negociação é a palavra-chave para consumidores e empresas”.

Se o empresário sente que está em vias de perder o controle, a saída é pedir ajuda. Mello Neto sugere a procura de um advogado. “Em algumas situações, é possível revisar determinados contratos e afastar cobranças indevidas, o que pode levar à diminuição de uma dívida. No entanto, para não se ‘afogar’ em dívidas, é preciso ter consciência e responsabilidade. Sem isso, não haverá advogado que o salve”.

Outro caminho é apostar em créditos consignados. “É um produto bastante conveniente, porque não demanda maiores burocracias para se obter, é muito fácil. Não demanda preocupação em ter de pagar, já que é debitado direto da sua conta. Então você toma empréstimo e não tem de se preocupar com ele até o final do financiamento. Qualquer hora é hora de procurar crédito, desde que você tenha uma finalidade específica para utilizá-lo, que pode ser quitar dívidas mais caras ou fazer o refinanciamento da sua despesa financeira. O importante é que você tenha ciência de que poderá arcar com as prestações, com o financiamento da dívida”, comenta Victor Loyola.

FIQUE ATENTO

DICAS PARA O INADIMPLENTE:

•   Se há uma dívida em atraso que não poderá ser quitada no curto prazo, entre em contato com o credor e renegocie o débito. Isso evitará que o título seja protestado e o nome enviado para negativação.

•   Pague primeiro as dívidas de juros mais altos, como cartões de crédito e cheque especial.

•   Mapeie todos os gastos, registre em uma planilha ou em algum controle. Também registre os consumos e hábitos diários.

•   Defina quais gastos deverão ser cortados do orçamento.

•   Evite compras de impulso.

•   Faça pesquisas antes de novas compras e opte pelo melhor custo-benefício.

DICAS PARA O CREDOR:

•   Realize o controle de números e trabalho com dados e números.

•   Busque conhecer pelo que o seu cliente está passando no momento com tecnologias e soluções de análise de dados e speech analytics.

•   Proponha alternativas e flexibilização para bons pagadores que estão em momentos difíceis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A REALIDADE DO TDAH

É um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado, pois, inclusive, não existem exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade está classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (2014), como um transtorno do neurodesenvolvimento. Tem como principais características: desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Trata-se de um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado. O neurologista José S. Schwartzman chama atenção para o comportamento dissimulado que o indivíduo com TDAH pode apresentar dentro de um consultório, frente a um profissional desconhecido. Além disso, não há exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica. Por isso, a necessidade de um profissional experiente (neuropediatra ou psiquiatra infantil).

Ao longo dos anos, foram desenvolvidos alguns testes específicos que podem rastrear o transtorno; dentre eles destacamos: Child Behavior Cheklist (CBCL); Escala Conners (Brasil, validada por Barbosa, 1997); SNAP-IV; Escala de TDAH (Benczik, 2000); Escala Comportamental para Pré-Escola e Jardim de Infância; Escala Conners de Avaliação para Pais; Inventário para Crianças Pequenas – 4; versão de Lista de Conferência de Comportamentos para Crianças.

Existem três tipos do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade: predominantemente desatento; predominantemente hiperativo-impulsivo; tipo combinado (desatento e hiperativo-impulsivo).

Dessa forma, percebemos que não é regra todas as características se apresentarem juntas em um mesmo indivíduo. Normalmente, nas meninas, a desatenção prevalece. Enquanto que nos meninos a hiperatividade (agitação motora, fala alta e em demasia) é acentuada.

Diversos estudos afirmam que indivíduos com TDAH sofrem com alterações na região frontal do cérebro, em seus neurotransmissores. Portanto, suas conexões cerebrais funcionam de forma diferenciada, havendo menor controle sobre as funções superiores – pensamento, organização, comparação, classificação, análise. Dessa forma, controlar a fala, a agitação motora e a impulsividade torna-se tarefa extremamente difícil para quem tem TDAH. É o que diversos estudiosos chamam de prejuízo no “mecanismo de inibição do comportamento”. Importante ressaltar que não se trata de falta de educação ou falta de limites, mas, sim, de um descontrole ocasionado por um processamento cerebral diferente do dos demais indivíduos.

A herança genética é apontada como maior probabilidade do transtorno. O baixo peso à época do nascimento (menos de 1.500 gramas) pode ser um risco para a criança desenvolvê-lo. Fatores ambientais, como abuso infantil, colocação em diversos lares adotivos e negligência, também são vistos como riscos, conforme notificações do DSM-V.

Deficiências nutricionais e sensoriais (visão e audição), epilepsia, transtorno do sono e anormalidades no metabolismo podem ser considerados gatilhos para o TDAH.

RÓTULO

Dentro das instituições escolares, ouvimos muito falar em crianças agitadas e sem limites, que, equivocadamente, acabam recebendo o “rótulo” de hiperativas, fazendo referência ao transtorno. Nos últimos anos, parece haver uma “epidemia” de TDAH.

Por isso, devemos aproveitar o espaço e comentar que nem todas as crianças mais agitadas ou desatentas possuem o transtorno. Esses indivíduos podem estar sofrendo com outros problemas (como perda de um ente querido; separação dos pais; falta de atenção de algum de seus responsáveis; ausência de papéis parentais; mudança de casa ou de escola; inadequação à metodologia utilizada pela escola; pedagogia extremamente tradicional; recebimento de conteúdos inadequados ao seu potencial de desenvolvimento real) e apresentarem algumas características parecidas em uma determinada época de sua vida, dentro das instituições escolares principalmente.

É importante salientar que para ser caracterizado como TDAH é preciso que o indivíduo apresente os sintomas há mais de seis meses ininterruptos e em diversos ambientes, como casa, escola, trabalho. Também devemos ressaltar que se algumas questões se apresentam depois dos 12 anos de idade, não se trata de TDAH, visto que este começa a se manifestar desde a primeira infância, sendo mais notável quando a criança inicia a escolarização. Além disso, indivíduos com TDAH apresentam inteligência mediana a superior.

Alguns sinais neurológicos leves, como atrasos motores brandos, podem ocorrer ao indivíduo com o mesmo transtorno. Déficits na linguagem expressiva, na coordenação motora ampla e fina, na solução de problemas e habilidades quanto às organizações também podem ser encontrados.

Dificuldades em se concentrar em um assunto específico, em organizar seu material e seu tempo, em seguir instruções complexas, além da fácil distração e dos esquecimentos são particularidades da desatenção. Não permanecer sentado, parado ou calado quando preciso, dedicar-se a mais de uma atividade e não terminá-las ou executá-las sem qualidade, apresentar agitação motora, falar em demasia e em volume alto constituem a hiperatividade. Responder perguntas antes que as mesmas sejam completadas e se intrometer em assuntos paralelos caracterizam a impulsividade. Todos são sintomas que refletem no processo ensino-aprendizagem, prejudicando não só a apreensão e o domínio do conhecimento como, também, o relacionamento com seus pares.

FRUSTRAÇÃO

indivíduos com TDAH são crianças, jovens ou adultos que sofrem ao serem frustrados, “sonham” acordados, trocam diversas vezes de atividade e possuem dificuldades significativas quanto à organização de seus pertences, afazeres e de seu tempo.

Lembramos que esse transtorno afeta cerca de 5% da população em idade escolar e 2,5% em idade adulta. Cerca de até 80% desses indivíduos sofrem com problemas de aprendizagem durante sua vida acadêmica, sendo repetência e evasão escolar acontecimentos frequentes.

Após os transtornos visuais, o TDAH é o fator mais prejudicial à escolarização de crianças e adolescentes.

O acometimento do transtorno existe na proporção de 2 meninos para 1 menina, na infância, e 1,6 homem para 1 mulher, quando adultos.

Já afirmamos que a genética é apontada como maior probabilidade do transtorno e devemos chamar atenção para pesquisas que apontam haver maior ocorrência de TDAH entre parentes (biológicos) de primeiro grau e entre gêmeos monozigóticos.

Interessante afirmar que o primeiro estudo divulgado sobre TDAH data de 1798, pelo médico escocês Alexander Crichton, analisando características de desatenção em algumas crianças. Crichton observava doenças mentais quando percebeu que algumas crianças apresentavam o sintoma da desatenção de forma significativa, o que chamou de “desatenção patológica”.

Em 1902, o pediatra inglês George Still foi um dos primeiros especialistas a realizar conferências sobre o mesmo transtorno, intituladas “Algumas Condições Psíquicas Anormais em Crianças”. Still comentava se tratar de uma condição resultante de: um “defeito da função inibitória da vontade” – sendo somente a punição um “tratamento” ineficaz à repetição de tais comportamentos –, havendo agressividade e desafio comumente associados, desatenção, hiperatividade, com o intelecto preservado.

A hiperatividade mental é pouco comentada dentre os estudiosos do transtorno. No entanto, trata-se de uma frequente agitação mental que ocasiona abstrações variadas, pensamentos rápidos, concorrendo a impulsividade e a mudança de assuntos sem que estes tenham sido findados. Essa agitação cerebral, muitas vezes, causa o cansaço mental, a exaustão, uma grande fadiga, o que para muitos pode ser visto e entendido como pura preguiça. Consequentemente, ocorre a insônia, dentre outras situações não desejadas.

Depressão, síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de conduta podem ocorrer simultaneamente ao TDAH – identificados como comorbidades.

O transtorno de oposição desafiante prevalece em metade das crianças com o subtipo combinado, enquanto que nas com subtipo predominantemente desatenta, em cerca de um quarto. Transtorno obsessivo-compulsivo, da personalidade antissocial, de tique e de espectro autístico também são co-mórbidos ao TDAH. Graef e Vaz afirmam que até 65% dos casos de TDAH estão associados a outros distúrbios.

Indivíduos com TDAH, não tratados, podem apresentar grande sofrimento devido à baixa autoestima que desenvolvem ao longo de sua jornada acadêmica, profissional e relacional. O nível de escolaridade cai e transtornos de conduta podem ser adquiridos, dificultando ainda mais a vida de quem tem o problema. Relacionamentos instáveis e de curta duração “acompanham” os adultos. E acidentes, brigas, discussões, delitos tornam-se mais comuns para essas pessoas que não se trataram na infância ou na juventude.

A medicação pode ser um grande aliado na luta contra os sintomas indesejados do TDAH. No entanto, é de grande relevância que a criança ou o adolescente sejam acompanhados por terapias que os façam refletir sobre seu comportamento, melhorando dia a dia seu entendimento sobre si mesmos e suas ações. Os esportes também são excelentes, principalmente para as crianças. Natação, futebol, judô, dentre outros, gastam a energia excessiva e ajudam a melhorar a socialização, visto que exigem disciplina dos participantes. Além disso, trabalham regras que devem ser compreendidas e obedecidas.

AVANÇO

No estado do Rio de Janeiro, houve um avanço para os indivíduos com TDAH e dislexia em idade escolar. A Lei no 8.192, de 4/12/18, obriga escolas públicas e privadas a cumprirem determinadas regras que visam beneficiar o processo ensino-aprendizagem dos alunos com os transtornos mencionados. São:

– Assentos disponíveis na primeira fileira e longe de possíveis distrações;

– Realizar avaliações e provas em local e tempo diferenciados, com auxílio de um profissional de educação especial;

– Organização de classes, flexibilizações e adaptações curriculares, metodologias, recursos e avaliações adequados às necessidades educacionais especiais.

Para que essas normas sejam executadas, é necessário que os responsáveis apresentem ao corpo docente, à instituição escolar laudo com diagnóstico de TDAH ou dislexia.

Pouco a pouco percebemos que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade supera a descrença dos leigos, provando se tratar de um pro- cessamento cerebral diferenciado que afeta crianças, adolescentes e adultos de forma significativa. Infelizmente, por muitas vezes, incapacitante. Enfim, uma realidade que precisa ser estudada, discutida e normatizada para ajudarmos aqueles que têm o transtorno a alcançar méritos com dignidade e igualdade de oportunidades.

QUEM APRESENTA TDAH TEM CAPACIDADE DE FOCO

A psiquiatra Ana Beatriz Silva ressalta que todo indivíduo com TDAH jamais deixará de apresentar a desatenção. No entanto, quando se trata de algo de seu extremo interesse, ou uma novidade estimulante, esse mesmo indivíduo com TDAH tem capacidade de foco, de concentração altíssima, gerando, logo, a compreensão do assunto e de novas ideias – uma ironia ao nome déficit de atenção. Verificamos, portanto, que tal fator deve ser levado em conta por professores, pedagogos, profissionais da área educacional durante o processo ensino-aprendizagem. Partir do interesse do aluno pode trazer excelentes resultados.