A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALTA EXIGÊNCIA SOBRE UM IDEAL

A principal característica da síndrome de burnout é o alto estresse provocado por condições de trabalho que exigem envolvimento interpessoal intenso e atividades laborais

A síndrome de burnout é um estado emocional e de estresse crônico que vem acometendo muitos profissionais, principalmente das áreas da saúde, educação, assistência social, policiais e agentes carcerários, mulheres que enfrentam jornadas duplas, entre outras profissões que lidam com altas cobranças e pressões constantes de produção. Estudos realizados apontam que existem atualmente comportamentos que se caracterizam por uma certa exaustão emocional, um afastamento das relações pessoais, baixa autoestima relacionada com a diminuição de sentimento de realização pessoal no trabalho. Existe um processo de alta insatisfação e desilusão com o futuro profissional, que vem sendo denomina- da de síndrome de burnout.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição (DSM- 5) não reconhece a síndrome como uma doença, e ela não consta em sua classificação.

O termo psicológico refere-se à exaustão prolongada e à diminuição de interesse em trabalhar. O termo vem do idioma inglês, burn (queimar) e out (inteiro), e foi utilizado para relacionar com o esgotamento mediante uma atividade laboral.

Os sintomas apontados pela classificação da CID-10 são: esgotamento causando estresse físico e psicológico, com apresentação de dores, cansaço, desânimo, apatia, irritabilidade, alteração no sono e tristeza profunda. Ainda apresenta um desgaste no empenho e na qualidade do trabalho, afetando a autoconfiança, abalo na perserveração e dedicação. Se relaciona também com a falta de repouso e de lazer, habilidades sociais inadequadas e conflitos sociais.

Os três componentes principais apontados pelas CID-10 e 11 são: esgotamento físico e mental, sensação de impotência e falta de expectativa. Pode-se dizer que é um colapso físico e emocional e em muitas vezes é necessária atenção médica imediata devido ao risco de suicídio.

Geralmente o diagnóstico é realizado por profissional de saúde mental, que pode ser o psicólogo e/ou psiquiatra. É feito a partir dos sintomas apresentados, a história pessoal e a contextualização atual. O tratamento é por via medicamentosa e psicoterapia. Mesmo para os pesquisadores da área da saúde que tratam a síndrome, a sua etiologia é incerta, e não se tem ao certo dados suficientes para se fechar um diagnóstico e nem dados estatísticos que mostram o quanto de pessoas são acometidas pela síndrome. Alguns dados sugerem que aproximadamente 40% dos profissionais atualmente apresentam muito estresse, mas não se pode afirmar que passaram a ter a síndrome ou não.

O alto grau de estresse pode ser compreendido pelo movimento inefável da pós-modernidade preconizado pelo capitalismo contemporâneo. Hoje tudo é muito rápido, volátil, a sociedade se liquidifica a cada instante, espalhando seu piche que objetaliza as relações pessoais. As pessoas estão inseguras, angustiadas, individualistas, competitivas até consigo mesmas, as ideias de produção desenfreada tomam conta do sujeito que trava verdadeiras lutas internas e externas para dar conta das exigências capitalistas. Hoje, se vale o que se tem, e aquele que não tem vai tentar conseguir de qualquer forma, vale até tirar a vida humana por causa de um celular. O ser humano está se desumanizando, está no processo de coisificação, se transformando em um robô de trabalho para não ser descartado como um mero objeto inútil.

Esse sinal de desumanização deixa o sujeito longe das relações humanas, ele não sabe mais como lidar com o outro nem suportar as frustações mínimas que fazem parte do humano.

Como exemplo, pode-se tomar a rede pública de trabalho no Brasil, como a saúde e a educação, e nem precisamos falar de outros setores, vamos compreender perfeitamente o universo incerto em que os profissionais vivem Trabalha-se muito, sem condições materiais e humanas, paga-se pouco, profissional precisa trabalhar em dois ou três empregos, a ética impõe que faça um trabalho decente, mas o Estado não dá as condições mínimas; a expectativas e cobranças sociais sã enormes, deixando o profissional em uma sinuca de bico. Os profissionais deparam com suas próprias necessidades, e com as péssimas condições para o trabalho e a impossibilidade de exercer dignamente sua profissão, isso leva o sujeito ao mais alto grau de estresse, e acaba no adoecimento.

Considerando as perspectivas do mundo pós-moderno e o sujeito visto pela Psicanálise, entende-se que os sintomas evoluem de acordo com a cultura. Pode-se dizer que a síndrome de burnout é um desses sintomas modernos.

O olhar da Psicanálise se volta para um ego decepcionado, por sua alta exigência sobre um ideal que busca realizações constantes e se decepciona consigo mesmo, provocando sintomas como uma defesa depressiva do narcisismo despedaçado.

Ego é uma forma de funcionamento em decorrência de um conjunto de representações inconscientes, é uma parte do psiquismo que lida com a realidade e tenta de alguma forma neutralizar os impulsos incessantes do id, que é uma outra instância movida somente pelo princípio do prazer, é o lugar que aloja o inconsciente humano. É um campo de força constante que exige do ego um enorme esforço para não o deixar tomar conta das nossas emoções, e uma das maneiras encontradas de defesa contra essa pulsão são os mecanismos de defesa psíquica, sendo os sintomas uma delas.

No caso da síndrome de burnout, pela perspectiva psicanalítica é uma ferida narcísica, uma das piores dores psíquicas, que resulta da distância entre os projetos ideais (ego ideal) e a realidade. Uma experiência de fracasso, mesmo sendo algo impossível, leva o sujeito a uma frustação visceral, a um processo de autodepreciação, como se ele perdesse uma parte de si próprio. Ele se sente o pior dos seres vivos, os fatos não são observados, as faltas não são sentidas como uma contingência da condição humana, mas uma derrota pessoal.

Tem casos que podem chegar até a uma despersonalização, na qual o ego cinde para não lidar com a realidade, é uma defesa para lidar com o outro de uma maneira saudável.

Voltando ao texto freudiano, O Mal-Estar na Civilização (1930), ele diz que o convívio humano impõe sacrifícios e renúncias que geram mal-estar e infelicidade. E no caso especificado neste texto, a síndrome seria uma forma de sobreviver ao mal-estar inerente às relações humanas.

No caso de tratamento pelo viés psicanalítico, teria que se trabalhar o sujeito em seus mais profundos sentimentos relacionados com a imagem de si, imagem do corpo, com o desejo dos outros (figuras parentais), que permearam a sua vida. Trabalhar a onipotência, a impotência, onisciência, onipresença, que são as formas primitivas do inconsciente, para que esse sujeito possa lidar minimamente com a realidade. Somente um processo analítico que permita que esse sujeito se veja e faça suas res- significações é que pode levá-lo a uma estrutura egoica melhor. Há casos que precisam de ajuda médica e medicamentosa para poder preservar a saúde física e psíquica do sujeito que está mergulhado em um sofrimento profundo. Mas também é necessário um acompanhamento psíquico para ajudá-lo a se reconhecer e promover mudanças na sua vida pessoal e interpessoal.

A Psicanálise não vê o sujeito como uma doença, mas uma maneira de se conduzir na vida mediante a história de cada um, é a novela familiar vivida na primeira infância que norteará a maneira de existirmos no mundo. E às vezes essa história vivida leva às profundidades das dores. Mas tem saída, uma aná- lise ajuda o sujeito a viver melhor.

A Psicanálise é um processo terapêutico que trabalha os conteúdos inconscientes que são as causas do sofrimento; isso faz com que o sujeito sustente o seu desejo, que lide com a realidade de uma forma possível, que conheça os seus sentimentos, que reconheça suas potencialidades e impossibilidades, que estabeleça laços sociais, que conheça principalmente as causas do seu sofrimento e assim possa eliminá-las para ter melhor qualidade de vida.

ARACELI ALBINO – é doutora em Psicologia pela Universidad del Salvador (Buenos Aires, Argentina). Presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – Sinpesp. Psicóloga e psicanalista, pós-graduada na PUC. Possui especializações em: Psicoterapia/Psicodinâmica de adultos e adolescentes; Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea; professora e coordenadora do Curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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