A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRENDIZAGEM INFLUENCIADA

Abordar a questão da personalidade dos professores é algo delicado, pois lida com dois temas que são controversos e polêmicos, além de serem áreas distintas: a Psicologia e a Educação

Eu acredito que todos nos lembramos de algum professor (ou alguns professores, se você puder falar no plural) que tivemos em nossa trajetória. Mas pelo menos um foi especialmente memorável? A resposta para esta pergunta nunca é simples e, como ocorre com a maioria das coisas, requer uma análise multifatorial.

Eu entendo que uma das possíveis respostas está na personalidade do professor. No entanto, falar sobre personalidade e sobre professor é algo delicado, pois abordamos dois temas que são controversos e também que são de áreas distintas, a Psicologia e a Educação, muito embora estas áreas sejam intercambiáveis. Para dar conta da árdua tarefa, em parte, a análise que farei será realizada com base em alguns autores selecionados e, em outra parte, a partir de minha experiência pessoal, tanto na figura de professor quanto na figura de gestor escolar, cuja tarefa é, entre outras tantas, analisar o trabalho de colegas professores e sugerir mudanças em prol da aprendizagem do aluno.

SITUAÇÃO COMUM

Estamos em uma escola pública hipotética, no centro de uma grande metrópole, aqui no Brasil. Nesta escola, que enfrenta os típicos problemas de qualquer instituição de ensino, há uma questão intrigante. Há uma turma de 8º ano do ensino fundamental, entre outras duas turmas de mesma escolaridade, que apresenta uma grande dificuldade para seus professores. É uma turma dispersa, com grande número de faltas de alunos; estes, em sua quase totalidade, são bastante indisciplinados e normalmente causam muitos problemas para os professores ministrarem suas aulas, em certos casos até impedindo; o rendimento da turma é baixo, com raras exceções, e há uma grande probabilidade de um alto índice de reprovação. A direção já tentou várias estratégias junto aos alunos e aos professores, mas as respostas não são satisfatórias.

Nesse quadro pouco animador para os professores da escola pública hipotética, há uma exceção. Uma professora. Ela consegue ministrar suas aulas nesta turma, e bem. Nos dias em que ela ministra suas aulas, há poucas faltas. O rendimento, com ela, é bem melhor do que a média dos demais professores nas respectivas disciplinas. Os alunos a adoram, e não reclamam nem mesmo quando ela solicita um tempo vago (pela falta de outro professor) para reforçar algum conteúdo que vê necessário. Essa professora se preocupa com a turma como um todo e com problemas em particular de alguns alunos, que são com ela divididos. A direção, ocasionalmente, ao passar pelo corredor de um andar da escola, tem a sua atenção chamada para duas situações possíveis: ou a sala da professora está em completo silêncio – e ao abrir a porta o diretor se depara com todos quietos, fazendo deveres, copiando do quadro ou ouvindo uma explicação – ou a sala está uma completa algazarra, com a professora rindo com os alunos, contando piadas ou fazendo alguma atividade divertida.

Por que será que essa professora consegue ministrar suas aulas, é querida pelos alunos, tem bom rendimento com a turma e os demais não? Qual será o segredo? Bem, vamos tentar responder isso ao final deste artigo.

Antes, vamos fazer outro exercício imaginativo. Vamos supor que você fez um curso de formação de professores juntamente com seu melhor amigo. Vocês tiveram a mesma formação, compartilharam estudos, se graduaram com notas semelhantes, possuem basicamente o mesmo conhecimento. Ministram a mesma disciplina. Porém, atuarão da mesma forma em sala de aula? Podemos supor que vocês atuarão de forma diferenciada perante suas turmas. E igualmente podemos supor que o que faz com que haja tal diferença reside, em grande parte, na sua personalidade.

SUBJETIVIDADE

Lígia Martins é uma das principais pesquisadoras na área da personalidade docente no Brasil. Ela aborda a questão da subjetividade do professor no sentido de reconhecer que não há como dissociar a personalidade do professor da tarefa docente. Por outro lado, a autora considera também, em uma abordagem socio- cultural de influência claramente vygotskyana, que o trabalho docente está inserido em um contexto político-econômico-ideológico, de forma que não há como dissociar a questão docente das demais questões que influenciam o contexto da escola. E este é, claramente, um fator importante a ser considerado.

Ao tratar da questão da personalidade, a autora a reconhece como sendo um termo de difícil definição pelo seu caráter polissêmico. Embora reconheçam-se a necessidade e a validade da análise desenvolvida para se poder conceituar tal termo, consideramos como suficiente para os propósitos aqui estabelecidos ponderar que a personalidade se refere ao sistema subjetivo de referências construídas pelo indivíduo para se relacionar com o mundo, mas que é condicionada a partir das suas atividades objetivas. Assim, define-se como “uma formação psicológica que se institui como resultado das transformações das atividades que pautam a relação do indivíduo com o meio físico e social”.

Tal inferência sobre a questão da personalidade do professor também está presente no trabalho de António Nóvoa sobre formação de professores, no qual este ressalta que o professor é, antes de mais nada, pessoa, e que parte importante da pessoa é professor, além de que o trabalho de formação docente é um “trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal”, indo muito além dos cursos, do conhecimento ou das técnicas acumuladas. Além disso, ressalta que as vivências e experiências de vida – pessoais – são fundamentais na formação docente.

VALORIZAÇÃO

Uma questão fundamental que discutimos no início deste artigo é que todos nós tivemos professores. E talvez ainda tenhamos. O que exatamente faz com que eles sejam marcantes e memoráveis para nós? Talvez seja a forma carinhosa, ou dura, ou genial, ou qualquer outro atributo que nos marcou de tal forma que tornaram esses professores importantes, ou mesmo modelos para quem se aventurou pela carreira docente (seja em relação ao aspecto positivo ou do que fazer, ou negativo, do que não fazer). Mas em se tratando de professores, normalmente são memoráveis para nós aqueles que, por características ou dimensões de sua personalidade que são facilmente distinguíveis, se fazem lembrar.

David Fontana escreveu, há pouco mais de duas décadas, um livro intitulado Psicologia para Professores. Na obra, ele faz uma pergunta importante: como deter- minar o que é um “bom” professor, que características ele deveria ter? Mas mais importante ainda é seu entendimento de que não é possível reconhecer o comporta- mento do professor sem reconhecer igualmente o comportamento de seus alunos. É uma interação. E podemos, ainda, tornar a tarefa mais difícil, ao determinarmos que é necessário incluir outros aspectos neste contexto, como a cultura da sociedade na qual trabalha esse professor, a microcultura local da escola, incluindo o professor, seus alunos, outros professores, direção, funcionários, responsáveis (enfim, a comunidade escolar) e até falar de outros aspectos, como o projeto político-pedagógico, a coordenação pedagógica e por aí vai.

Inobstante isso tudo, Fontana cita outro autor para estabelecer alguns traços que definem o professor bem-sucedido na forma de tendências: afetuoso, compreensivo, amistoso, responsável, sistemático, imaginativo e entusiástico, o que ele descreve como “um assustador catálogo de excelência”! Jésus Guillén também relata em seu livro algumas características, a partir da pergunta “o que você espera de um bom professor?” a alunos de bacharelado. Os maiores índices de resposta foram concentrados em cinco quesitos: “se preocupa com o aluno”, “mostra entusiasmo”, “conhece sua matéria”, “é compreensivo” e “é simpático”. Estes resultados podem evidenciar que as características socioemocionais positivas possuem importância dentro da questão do professor que é valorizado por seus alunos. Mas será que isso é suficiente para designarmos um bom professor a partir de suas características de personalidade?

BIG FIVE E O PROFESSOR

Sendo a personalidade uma formação psicológica que pauta nossa relação com tudo o que nos cerca, ela acaba sendo algo que nos define por meio de nossas ações. E é uma característica que, embora mutável, é igualmente relativamente estável. Wayne Weinten, Dana Dunn e Elisabeth Hammer definem a personalidade nestes termos, ao considerarem que “personalidade se refere à constelação única de traços comportamentais de um indivíduo” que, basicamente, dependem de dois fatores: a consistência, ou estabilidade do comportamento do indivíduo ao longo do tempo, e a distintividade, ou diferenças de reação individuais a situações idênticas.

Em termos das dimensões de personalidade que podem ser distinguíveis, os autores citam o trabalho de Robert McCrae e Paul Costa, que elencaram cinco componentes da personalidade em sua teoria dos cinco fatores: extroversão, neuroticismo, socialização, conscienciosidade (ou capacidade de realização) e abertura a experiências. Resumidamente, o primeiro componente, extroversão, se refere a um indivíduo otimista, amistoso, assertivo e gregário, ou seja, emocionalmente positivo. O neuroticismo, ao contrário, se refere a um indivíduo emocionalmente negativo, ou seja, ansioso, hostil e vulnerável. A socialização se refere aos vários tipos de interação social do indivíduo, em especial a altruísta. Na conscienciosidade, pessoas tendem a ser disciplinadas, bem organizadas, pontuais e confiáveis. Abertura a experiências se refere a curiosidade, flexibilidade, fantasia vívida, imaginação, sensibilidade artística e atitudes não convencionais.

No que diz respeito à questão da importância dos traços de personalidade na escolha de carreira por alunos de cursos de formação de professores, Robert Tomšik e Victor Gatial asseveram que os traços de personalidade socialização, conscienciosidade, abertura a experiências e neuroticismo são preditores da escolha entre estagiários de cursos de formação de professores. Porém, não da mesma forma. Naqueles que escolhem ser professor como principal motivo, altos traços de socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e baixos traços de neuroticismo estão presentes, enquanto que em outros que escolhem ser professor como segunda opção encontra-se exatamente o oposto: altos traços de neuroticismo e baixos traços dos demais. Como características importantes, consideram, entre outros, autoconfiança, paciência, flexibilidade, persuasão, conscienciosidade, sociabilidade, tolerância e altruísmo.

Em outro estudo com 416 professores de Istambul, Hasan Bozgeyikli relatou que traços de personalidade como extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e as subdimensões otimismo, esperança, resiliência e autoeficácia estão presentes em alto grau, porém não com o traço de personalidade de neuroticismo.

ALGUMAS APROXIMAÇÕES

Neste ponto do artigo já parece bem estabelecido que há influências da personalidade do professor na aprendizagem em sala de aula, seja em termos de seu comportamento, seja pela escolha da metodologia ou de outros procedimentos em sala de aula. As escolhas parecem ser determinadas, parcialmente, por sua personalidade.

Que fique claro, não se trata aqui de culpabilizar o professor que tem determinada personalidade por um suposto fracasso escolar, ou ainda dizer que o professor que tem outra determinada personalidade terá garantia de sucesso. Já foi mencionado que há uma multiplicidade de fatores que influenciam o trabalho docente. O que se pretendeu neste artigo foi determinar até que ponto a personalidade do professor influencia na aprendizagem em sala de aula. E como podemos usar nossos traços de personalidade a nosso favor. E em relação à prática docente, podemos inferir de forma bastante segura que aqueles professores que possuem características de personalidade relacionadas à estabilidade emocional costumam apresentar melhor interação com os alunos, melhor controle de turma e melhor rendimento. Ao analisarmos os traços do Big Five apresentados como relacionados a um bom trabalho docente, extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências aparecem como importantes. Vimos que foram identificados subdimensões como otimismo, esperança, tolerância, flexibilidade, persuasão, resiliência, altruísmo e autoeficácia como também importantes.

Considerando que os principais traços e subdimensões entendidos como importantes elementos de personalidade do professor bem-sucedido na escola nos remetem a um indivíduo organizado, emocionalmente estável e proativo, podemos supor que tais características podem ter profundas implicações no trabalho docente. Quando temos dificuldades para escutar os alunos, para dialogar, para termos sensibilidade emocional em lidar com os (inúmeros) problemas que surgem em sala de aula, estamos também permitindo que nossa personalidade influencie negativamente nossa ação docente?

Voltando à nossa professora hipotética do início deste artigo – e creio que você deva ter desconfiado que não seja tão hipotética assim –, vários destes traços foram identificados em sua personalidade: extroversão, conscienciosidade, abertura a experiências e socialização certamente estiveram presentes em altos níveis, bem como neuroticismo em baixos níveis. Em nosso contato pessoal, podemos dizer, tais traços e as características deles decorrentes fizeram uma grande diferença no trabalho docente em sala de aula. E talvez aqui esteja nossa resposta, pelo menos parcialmente, às perguntas feitas no início do artigo.

Mas a grande questão que se impõe agora é: temos então que mu- dar nossa personalidade para termos sucesso na ação docente? Não creio que se trate disso, até porque vimos que a personalidade envolve características relativamente permanentes, embora também sejam possivelmente mutáveis. De fato, você não é a mesma pessoa que há cinco anos. Mesmo que sutilmente, seus interesses provavelmente mudaram, e a forma como você lida com as pessoas também.

A reflexão sobre nós mesmos transformadas em ações, e sobre como podemos equalizar nossas questões pessoais e nossa personalidade com as ações docentes parece ser um bom caminho para o sucesso no ambiente escolar, em nosso próprio benefício. Muitas vezes, uma mudança de estratégia no lidar com determinados problemas inerentes ao ambiente escolar pode impactar na forma como enxergamos nossas atitudes e provocar aquelas sutis mudanças em nossa personalidade.

O que talvez possa ser menos discutível é que determinadas características que estão associadas à personalidade, como bom humor, tolerância a frustrações, flexibilidade, paciência/resiliência e persuasão auxiliam muito no trabalho docente, especialmente em um momento sócio-histórico em que a baixa tolerância, o enfrentamento e a violência, em suas várias manifestações, parecem ser lugar-comum dentro das escolas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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