EU ACHO …

O IMPULSO

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. Há um perigo: se reflito demais, deixo de agir. E muitas vezes prova-se depois que eu deveria ter agido. Estou num impasse. Quero melhorar e não sei como. Sob o impacto de um impulso, já fiz bem a algumas pessoas. E, às vezes, ter sido impulsiva me machuca muito. E mais: nem sempre meus impulsos são de boa origem. Vêm, por exemplo, da cólera. Essa cólera às vezes deveria ser desprezada; outras, como me disse uma amiga a meu respeito, são cólera sagrada. Às vezes minha bondade é fraqueza, às vezes ela é benéfica a alguém ou a mim mesma. Às vezes restringir o impulso me anula e me deprime; às vezes restringi-lo dá-me uma sensação de força interna.

Que farei então? Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PASSAPORTE DA IMUNIDADE

O mundo tenta retomar as condições de vida normais e, para alcançar essa situação, sistemas de controle de saúde estão sendo implantados nos aeroportos de vários países. A partir de agora, quem não fizer testes e não tomar vacina terá dificuldades para viajar

Viajar pelo mundo começa a ficar mais complicado e novas barreiras estão sendo criadas para impedir a circulação do coronavírus e identificar os movimentos de pessoas infectadas. Além de simples proibições, como a Alemanha fez agora com cidadãos do Reino Unido, da Irlanda, de Portugal, do Brasil e da África do Sul, impedidos de entrar no país, começa a haver um controle duplicado dos cidadãos que cruzarem qualquer fronteira. Eles só poderão entrar no país desde que estejam imunizados ou devidamente testados e, mesmo assim, serão monitorados à distância. Com o crescimento do nível de agressividade da Covid-19, essas medidas de controle se tornaram mais rigorosas e tendem a ser padronizadas. Na prática, um novo documento sanitário está sendo criado: uma espécie de passaporte da imunidade exigida para turistas. É certo que a pandemia ameaça a intimidade das pessoas com o controle em tempo real e a apresentação de atestados eletrônicos, mas não há outra saída. A partir de agora, quem não fizer testes e tomar vacinas será “persona non grata”.

Desde o início da pandemia há um esforço para o desenvolvimento de planos que possam contribuir para a contenção das contaminações e, consequentemente, a retomada da vida normal em vários países. Por isso, a União Europeia propôs, na quarta, 17, um projeto que pretende organizar as especificidades de cada região do bloco, oferecer segurança à população e, aos poucos, trazer de volta os turistas. O documento está sendo chamado de “Certificado Verde Digital”, que reunirá informações dos viajantes, como comprovante de vacinação, resultado de teste contra a Covid-19 ou um atestado de recuperação da doença. Além disso, no documento deve constar o nome do imunizante tomado, o número de doses aplicadas, a data e o local onde ocorreu a vacinação. Nesse caso, quem tomou doses de vacina da BioNTech/Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen terá total liberdade de circulação. No caso de imunizados com vacinas não reconhecidas pela Agência Europeia de Medicamento (EMA), caberá ao país que está recebendo o viajante aceitar ou não a sua estadia. A intenção de limitar a circulação com a quarentena não é à proposta de Israel. No Oriente Médio, destaca-se o compromisso do governo com o arrefecimento da pandemia por meio da vacinação em massa.

USO DE RASTREADORES

Mesmo assim foi estabelecido o uso da tecnologia para ajudar na batalha contra a Covid-19. O país distribuiu um sistema de rastreamento composto de celular, dispositivo rastreador e uma pulseira eletrônica aos turistas que desembarcam no aeroporto da capital, Tel Aviv. O turista apresenta o resultado negativo do teste, tipo PCR, e coloca a pulseira. O sistema emite um alerta caso a pessoa retire o dispositivo do braço, mas com isso o viajante pode ir direto para casa em vez de ficar confinado em um hotel. O turista deve usar a pulseira durante os 14 dias equivalentes ao período da quarentena.

A implantação de sistemas tecnológicos de análise da saúde de turistas também é a forma preferencial de controle adotada pela China. O país colocou em prática a utilização do teste por QR Code. Assim que chega, o turista passa suas informações pessoais de viagem, especificamente se teve alguns dos sintomas principais relacionados com a Covid-19. Depois, ele recebe um código QR, que aponta se o viajante está ou esteve doente, ou ainda se é apenas uma suspeita de infecção. O dispositivo contempla os últimos 14 dias a partir da chegada. O aplicativo já funciona em mais de cem cidades da China e outros países, como Rússia e Japão, manifestaram interesse em adotar um sistema semelhante. A exigência de um passaporte de imunidade representa uma intromissão por parte do Estado na vida particular dos turistas, mas não tem jeito. A Covid-19 exige esse tipo de estratégia, pois o comportamento de cada pessoa e o controle de seus movimentos são importantes para debelar a contaminação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE ABRIL

O TRABALHO PRODUZ RIQUEZA

O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta (Provérbios 13.4).

A preguiça é a mãe da pobreza e a irmã gêmea da fome. O preguiçoso alimenta o coração com devaneios e o estômago, com escassez de pão. Ele fala de grandes projetos, mas não realiza nem mesmo pequenas coisas. Anuncia aos quatro cantos que está edificando um arranha-céus, mas lança as bases apenas de um galinheiro. O preguiçoso deseja muitas coisas, mas nada tem. Anseia pelos frutos do trabalho, mas não ama o trabalho. Prefere o sono e o conforto à fadiga da luta. O trabalho é uma bênção. Foi Deus quem o instituiu, e isso antes mesmo de o pecado entrar no mundo. O trabalho continuará na eternidade, mesmo depois que o pecado for banido da criação. O trabalho não apenas tonifica os músculos do nosso corpo, mas também fortalece a musculatura da nossa alma. O trabalho farta a alma dos diligentes, produz riquezas, promove progresso, multiplica os recursos naturais. Torna a vida mais deleitosa, a família mais segura e a sociedade mais justa. O trabalho engrandece a nação e traz glória ao nome de Deus. Fomos criados por Deus para o trabalho. Aquele que nos criou é nosso maior exemplo, pois ele trabalha até agora. Não se renda à preguiça; trabalhe com diligência!

GESTÃO E CARREIRA

RESILIÊNCIA E FOCO NO PROPÓSITO

Fundadora da marca de mobiliário infantil Ameise Design, a arquiteta Luciana Raunaimer atribui o sucesso da empresa à transparência e ao bom atendimento

Que 2020 foi um ano difícil e desafiador, não há dúvidas. Mas, além de encarar a pandemia da Covid-19 e suas consequências econômicas, imagine lidar com um incêndio na fábrica de seu principal fornecedor seguido por um alagamento no depósito em que estavam 80% do seu estoque.

Foi assim que a arquiteta e empresária Luciana Raunaimer e seu marido e sócio, Diego Verli, começaram o ano. No entanto, o que para muitos poderia ser o momento decisivo para abandonar o projeto ou mudar os planos, para eles foi mais um desafio a ser enfrentado com a Ameise Design, marca de móveis e decoração infantil.

A oportunidade de empreendedorismo foi desenhada e almejada pela Luciana logo após desligar-se de um emprego formal em arquitetura em obras de alto padrão, em fevereiro de 2012. Coincidentemente, na mesma época, resolveu presentear um amigo com um berço para o filho que iria nascer, mas, por não encontrar nada no mercado que lhe agradasse, decidiu revisitar um projeto com inspiração nostálgica da época da faculdade, pondo-o em prática. Luciana aproveitou o projeto para garantir espaço na feira Baby Boom, com objetivo de expor protótipos de mobiliário infantil. “Na graduação, eu já via no nicho de mobiliário infantil uma carência em alternativas diferenciadas e com capricho no design – era tudo ‘mais do mesmo’. Meu foco, nos desenhos, foi oferecer beleza e funcionalidade e, até por isso, parti daí para desenhar as primeiras peças, sem olhar ou me basear no que já tinha no mercado. E foi assim que acertamos”, conta a empreendedora.

Apesar de levar apenas dez projetos 3D de quartos infantis destinados ao público de O a 12 anos e um protótipo feito de última hora por um marceneiro, pai de um amigo, conseguiram fechar negócios com seus primeiros dez clientes, os quais buscavam itens diferenciados para seus pequenos. Isso impulsionou o casal a oficializar a abertura da Ameise Design, em 2012, que contou com um investimento inicial de R$3 mil.

A despeito do pontapé inicial dado sem grandes pretensões, o primeiro desafio da marca aconteceu logo em seguida: encontrar fornecedores e mão de obra especializada para tirar aqueles projetos do papel e transformá-los em realidade. “Fui para a feira com a cara, a coragem e a paixão por aquilo que estava ofertando. E nossos primeiros clientes enxergaram isso! Por sermos bem transparentes e honestos a respeito dos nossos problemas com fornecedores, foram extremamente pacientes e compreensíveis e, em junho e julho, conseguimos, enfim, entregar os primeiros projetos, feitos por um fornecedor que encontrei a quase 400 quilômetros de São Paulo, onde é a nossa sede, e que é, até hoje, nosso principal fornecedor”, pontua a fundadora da Ameise.

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

Por oferecer projetos inéditos e customizados, feitos em madeira maciça em design de alto padrão, em janeiro de 2013, a empresa já faturava de R$80 mil a R$100 mil por mês, ofertando produtos que não só propiciassem qualidade estética a quartos infantis, mas que oferecessem também caráter lúdico às peças.

Apesar do alto giro no caixa, a empresa ainda era comandada de maneira improvisada, na casa do casal. Com a contratação de uma secretária para ajudar no atendimento a clientes, Luciana sentiu a necessidade de buscar um local mais formal, em que pudessem estabelecer a loja/showroom e atender pessoalmente. Encontraram um lugar no tradicional bairro da Vila Olímpia, zona sul da capital paulista, local em que, pouco tempo depois, recebeu a artista plástica Adriana Varejão e o produtor Pedro Buarque de Hollanda para fazer o design do quarto da filha do casal. Na época, o estúdio buscou novas parcerias com fabricantes que produzissem seus projetos prezando alta qualidade, responsabilidade técnica e respeito ao meio ambiente, recheando sua cartela com novos itens, propostas de mobiliário, novos materiais e acessórios.

Em agosto de 2013, Luciana entendeu que precisava se dedicar à direção criativa, ao desenvolvimento de produtos e aos atendimentos a clientes, então formalizou a contratação do marido para dedicar-se fulltime à empresa, à frente da execução dos projetos (medição, marcenaria e montagem). Pouco mais de dois anos depois, chegaram a empregar mais de 30 profissionais diretamente para atender à demanda e ao aumento substancial que veio com a parceria com a Fast Shop. “Foi uma época bem intensa, de muitas entregas e crescimento alto. Mas, com a correria, entendemos que estávamos nos distanciado da nossa proposta de entregar design e qualidade em cada projeto; a demanda era tanta que não conhecíamos cada cliente com a intensidade que julgávamos necessária. Decidimos então, em 2016, focar e manter o formato de studio, deixando de lado o negócio de varejo para assumir o papel de empresa de design”, conta Luciana.

FUTURO PROMISSOR

Com a criação de mais de 1O mil quartos nessa trajetória de oito anos, a arquiteta tem orgulho de elaborar cenários para as mais doces lembranças, atualmente oferecidos no showroom próprio em São Paulo e em mais 30 revendedores especializados em todo o Brasil, com perfil semelhante que oferece atendimento e assistência padrão Ameise. “Nos dedicamos constantemente à busca de novos fornecedores e à criação de novas linhas de mobiliário, decoração e acessórios, sempre com o objetivo de oferecer atendimento mais humanizado e individualizado a fim de proporcionar uma experiência completa ao cliente, com cuidado e carinho em todas as etapas da construção do quarto de crianças”, lembra Luciana.

Hoje, com menos de urna década de história, a marca se prepara para a demanda que virá com a parceria de cobranding de design acessível recentemente firmada com a rede varejista de móveis infantis Abra Cadabra. “Com a retração econômica de 2020, aproveitamos para revisitar nossos processos internos para conseguirmos aprimorar nossa excelência e aumentar, ainda mais, nossos padrões. E, mais do que vender milhões, queremos ser sempre reconhecidos corno produto de design que faz parte de um desejo e de um sonho em um momento/período tão especial para nossos clientes”, pontua a fundadora da Ameise, que se define como “arquiteta que brinca de design e rala como empresária”.

AMEISE EM NÚMEROS

• Entregas de seis quartos por dia, em média 100 quartos por mês

• Produtos entre R$50 e R$7 mil

• Tíquete médio de R$3 mil

• Cerca de 3 mil SKUs, entre poltronas, camas, cômodas, acessórios e outros

• 1 showroom em São Paulo e mais 30 revendedores especializados por todo o Brasil

• Faturamento de R$6 milhões em 2019

• Crescimento previsto em 2020 é de aproximadamente 80% do equivalente a 2019

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRENDIZAGEM INFLUENCIADA

Abordar a questão da personalidade dos professores é algo delicado, pois lida com dois temas que são controversos e polêmicos, além de serem áreas distintas: a Psicologia e a Educação

Eu acredito que todos nos lembramos de algum professor (ou alguns professores, se você puder falar no plural) que tivemos em nossa trajetória. Mas pelo menos um foi especialmente memorável? A resposta para esta pergunta nunca é simples e, como ocorre com a maioria das coisas, requer uma análise multifatorial.

Eu entendo que uma das possíveis respostas está na personalidade do professor. No entanto, falar sobre personalidade e sobre professor é algo delicado, pois abordamos dois temas que são controversos e também que são de áreas distintas, a Psicologia e a Educação, muito embora estas áreas sejam intercambiáveis. Para dar conta da árdua tarefa, em parte, a análise que farei será realizada com base em alguns autores selecionados e, em outra parte, a partir de minha experiência pessoal, tanto na figura de professor quanto na figura de gestor escolar, cuja tarefa é, entre outras tantas, analisar o trabalho de colegas professores e sugerir mudanças em prol da aprendizagem do aluno.

SITUAÇÃO COMUM

Estamos em uma escola pública hipotética, no centro de uma grande metrópole, aqui no Brasil. Nesta escola, que enfrenta os típicos problemas de qualquer instituição de ensino, há uma questão intrigante. Há uma turma de 8º ano do ensino fundamental, entre outras duas turmas de mesma escolaridade, que apresenta uma grande dificuldade para seus professores. É uma turma dispersa, com grande número de faltas de alunos; estes, em sua quase totalidade, são bastante indisciplinados e normalmente causam muitos problemas para os professores ministrarem suas aulas, em certos casos até impedindo; o rendimento da turma é baixo, com raras exceções, e há uma grande probabilidade de um alto índice de reprovação. A direção já tentou várias estratégias junto aos alunos e aos professores, mas as respostas não são satisfatórias.

Nesse quadro pouco animador para os professores da escola pública hipotética, há uma exceção. Uma professora. Ela consegue ministrar suas aulas nesta turma, e bem. Nos dias em que ela ministra suas aulas, há poucas faltas. O rendimento, com ela, é bem melhor do que a média dos demais professores nas respectivas disciplinas. Os alunos a adoram, e não reclamam nem mesmo quando ela solicita um tempo vago (pela falta de outro professor) para reforçar algum conteúdo que vê necessário. Essa professora se preocupa com a turma como um todo e com problemas em particular de alguns alunos, que são com ela divididos. A direção, ocasionalmente, ao passar pelo corredor de um andar da escola, tem a sua atenção chamada para duas situações possíveis: ou a sala da professora está em completo silêncio – e ao abrir a porta o diretor se depara com todos quietos, fazendo deveres, copiando do quadro ou ouvindo uma explicação – ou a sala está uma completa algazarra, com a professora rindo com os alunos, contando piadas ou fazendo alguma atividade divertida.

Por que será que essa professora consegue ministrar suas aulas, é querida pelos alunos, tem bom rendimento com a turma e os demais não? Qual será o segredo? Bem, vamos tentar responder isso ao final deste artigo.

Antes, vamos fazer outro exercício imaginativo. Vamos supor que você fez um curso de formação de professores juntamente com seu melhor amigo. Vocês tiveram a mesma formação, compartilharam estudos, se graduaram com notas semelhantes, possuem basicamente o mesmo conhecimento. Ministram a mesma disciplina. Porém, atuarão da mesma forma em sala de aula? Podemos supor que vocês atuarão de forma diferenciada perante suas turmas. E igualmente podemos supor que o que faz com que haja tal diferença reside, em grande parte, na sua personalidade.

SUBJETIVIDADE

Lígia Martins é uma das principais pesquisadoras na área da personalidade docente no Brasil. Ela aborda a questão da subjetividade do professor no sentido de reconhecer que não há como dissociar a personalidade do professor da tarefa docente. Por outro lado, a autora considera também, em uma abordagem socio- cultural de influência claramente vygotskyana, que o trabalho docente está inserido em um contexto político-econômico-ideológico, de forma que não há como dissociar a questão docente das demais questões que influenciam o contexto da escola. E este é, claramente, um fator importante a ser considerado.

Ao tratar da questão da personalidade, a autora a reconhece como sendo um termo de difícil definição pelo seu caráter polissêmico. Embora reconheçam-se a necessidade e a validade da análise desenvolvida para se poder conceituar tal termo, consideramos como suficiente para os propósitos aqui estabelecidos ponderar que a personalidade se refere ao sistema subjetivo de referências construídas pelo indivíduo para se relacionar com o mundo, mas que é condicionada a partir das suas atividades objetivas. Assim, define-se como “uma formação psicológica que se institui como resultado das transformações das atividades que pautam a relação do indivíduo com o meio físico e social”.

Tal inferência sobre a questão da personalidade do professor também está presente no trabalho de António Nóvoa sobre formação de professores, no qual este ressalta que o professor é, antes de mais nada, pessoa, e que parte importante da pessoa é professor, além de que o trabalho de formação docente é um “trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal”, indo muito além dos cursos, do conhecimento ou das técnicas acumuladas. Além disso, ressalta que as vivências e experiências de vida – pessoais – são fundamentais na formação docente.

VALORIZAÇÃO

Uma questão fundamental que discutimos no início deste artigo é que todos nós tivemos professores. E talvez ainda tenhamos. O que exatamente faz com que eles sejam marcantes e memoráveis para nós? Talvez seja a forma carinhosa, ou dura, ou genial, ou qualquer outro atributo que nos marcou de tal forma que tornaram esses professores importantes, ou mesmo modelos para quem se aventurou pela carreira docente (seja em relação ao aspecto positivo ou do que fazer, ou negativo, do que não fazer). Mas em se tratando de professores, normalmente são memoráveis para nós aqueles que, por características ou dimensões de sua personalidade que são facilmente distinguíveis, se fazem lembrar.

David Fontana escreveu, há pouco mais de duas décadas, um livro intitulado Psicologia para Professores. Na obra, ele faz uma pergunta importante: como deter- minar o que é um “bom” professor, que características ele deveria ter? Mas mais importante ainda é seu entendimento de que não é possível reconhecer o comporta- mento do professor sem reconhecer igualmente o comportamento de seus alunos. É uma interação. E podemos, ainda, tornar a tarefa mais difícil, ao determinarmos que é necessário incluir outros aspectos neste contexto, como a cultura da sociedade na qual trabalha esse professor, a microcultura local da escola, incluindo o professor, seus alunos, outros professores, direção, funcionários, responsáveis (enfim, a comunidade escolar) e até falar de outros aspectos, como o projeto político-pedagógico, a coordenação pedagógica e por aí vai.

Inobstante isso tudo, Fontana cita outro autor para estabelecer alguns traços que definem o professor bem-sucedido na forma de tendências: afetuoso, compreensivo, amistoso, responsável, sistemático, imaginativo e entusiástico, o que ele descreve como “um assustador catálogo de excelência”! Jésus Guillén também relata em seu livro algumas características, a partir da pergunta “o que você espera de um bom professor?” a alunos de bacharelado. Os maiores índices de resposta foram concentrados em cinco quesitos: “se preocupa com o aluno”, “mostra entusiasmo”, “conhece sua matéria”, “é compreensivo” e “é simpático”. Estes resultados podem evidenciar que as características socioemocionais positivas possuem importância dentro da questão do professor que é valorizado por seus alunos. Mas será que isso é suficiente para designarmos um bom professor a partir de suas características de personalidade?

BIG FIVE E O PROFESSOR

Sendo a personalidade uma formação psicológica que pauta nossa relação com tudo o que nos cerca, ela acaba sendo algo que nos define por meio de nossas ações. E é uma característica que, embora mutável, é igualmente relativamente estável. Wayne Weinten, Dana Dunn e Elisabeth Hammer definem a personalidade nestes termos, ao considerarem que “personalidade se refere à constelação única de traços comportamentais de um indivíduo” que, basicamente, dependem de dois fatores: a consistência, ou estabilidade do comportamento do indivíduo ao longo do tempo, e a distintividade, ou diferenças de reação individuais a situações idênticas.

Em termos das dimensões de personalidade que podem ser distinguíveis, os autores citam o trabalho de Robert McCrae e Paul Costa, que elencaram cinco componentes da personalidade em sua teoria dos cinco fatores: extroversão, neuroticismo, socialização, conscienciosidade (ou capacidade de realização) e abertura a experiências. Resumidamente, o primeiro componente, extroversão, se refere a um indivíduo otimista, amistoso, assertivo e gregário, ou seja, emocionalmente positivo. O neuroticismo, ao contrário, se refere a um indivíduo emocionalmente negativo, ou seja, ansioso, hostil e vulnerável. A socialização se refere aos vários tipos de interação social do indivíduo, em especial a altruísta. Na conscienciosidade, pessoas tendem a ser disciplinadas, bem organizadas, pontuais e confiáveis. Abertura a experiências se refere a curiosidade, flexibilidade, fantasia vívida, imaginação, sensibilidade artística e atitudes não convencionais.

No que diz respeito à questão da importância dos traços de personalidade na escolha de carreira por alunos de cursos de formação de professores, Robert Tomšik e Victor Gatial asseveram que os traços de personalidade socialização, conscienciosidade, abertura a experiências e neuroticismo são preditores da escolha entre estagiários de cursos de formação de professores. Porém, não da mesma forma. Naqueles que escolhem ser professor como principal motivo, altos traços de socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e baixos traços de neuroticismo estão presentes, enquanto que em outros que escolhem ser professor como segunda opção encontra-se exatamente o oposto: altos traços de neuroticismo e baixos traços dos demais. Como características importantes, consideram, entre outros, autoconfiança, paciência, flexibilidade, persuasão, conscienciosidade, sociabilidade, tolerância e altruísmo.

Em outro estudo com 416 professores de Istambul, Hasan Bozgeyikli relatou que traços de personalidade como extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e as subdimensões otimismo, esperança, resiliência e autoeficácia estão presentes em alto grau, porém não com o traço de personalidade de neuroticismo.

ALGUMAS APROXIMAÇÕES

Neste ponto do artigo já parece bem estabelecido que há influências da personalidade do professor na aprendizagem em sala de aula, seja em termos de seu comportamento, seja pela escolha da metodologia ou de outros procedimentos em sala de aula. As escolhas parecem ser determinadas, parcialmente, por sua personalidade.

Que fique claro, não se trata aqui de culpabilizar o professor que tem determinada personalidade por um suposto fracasso escolar, ou ainda dizer que o professor que tem outra determinada personalidade terá garantia de sucesso. Já foi mencionado que há uma multiplicidade de fatores que influenciam o trabalho docente. O que se pretendeu neste artigo foi determinar até que ponto a personalidade do professor influencia na aprendizagem em sala de aula. E como podemos usar nossos traços de personalidade a nosso favor. E em relação à prática docente, podemos inferir de forma bastante segura que aqueles professores que possuem características de personalidade relacionadas à estabilidade emocional costumam apresentar melhor interação com os alunos, melhor controle de turma e melhor rendimento. Ao analisarmos os traços do Big Five apresentados como relacionados a um bom trabalho docente, extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências aparecem como importantes. Vimos que foram identificados subdimensões como otimismo, esperança, tolerância, flexibilidade, persuasão, resiliência, altruísmo e autoeficácia como também importantes.

Considerando que os principais traços e subdimensões entendidos como importantes elementos de personalidade do professor bem-sucedido na escola nos remetem a um indivíduo organizado, emocionalmente estável e proativo, podemos supor que tais características podem ter profundas implicações no trabalho docente. Quando temos dificuldades para escutar os alunos, para dialogar, para termos sensibilidade emocional em lidar com os (inúmeros) problemas que surgem em sala de aula, estamos também permitindo que nossa personalidade influencie negativamente nossa ação docente?

Voltando à nossa professora hipotética do início deste artigo – e creio que você deva ter desconfiado que não seja tão hipotética assim –, vários destes traços foram identificados em sua personalidade: extroversão, conscienciosidade, abertura a experiências e socialização certamente estiveram presentes em altos níveis, bem como neuroticismo em baixos níveis. Em nosso contato pessoal, podemos dizer, tais traços e as características deles decorrentes fizeram uma grande diferença no trabalho docente em sala de aula. E talvez aqui esteja nossa resposta, pelo menos parcialmente, às perguntas feitas no início do artigo.

Mas a grande questão que se impõe agora é: temos então que mu- dar nossa personalidade para termos sucesso na ação docente? Não creio que se trate disso, até porque vimos que a personalidade envolve características relativamente permanentes, embora também sejam possivelmente mutáveis. De fato, você não é a mesma pessoa que há cinco anos. Mesmo que sutilmente, seus interesses provavelmente mudaram, e a forma como você lida com as pessoas também.

A reflexão sobre nós mesmos transformadas em ações, e sobre como podemos equalizar nossas questões pessoais e nossa personalidade com as ações docentes parece ser um bom caminho para o sucesso no ambiente escolar, em nosso próprio benefício. Muitas vezes, uma mudança de estratégia no lidar com determinados problemas inerentes ao ambiente escolar pode impactar na forma como enxergamos nossas atitudes e provocar aquelas sutis mudanças em nossa personalidade.

O que talvez possa ser menos discutível é que determinadas características que estão associadas à personalidade, como bom humor, tolerância a frustrações, flexibilidade, paciência/resiliência e persuasão auxiliam muito no trabalho docente, especialmente em um momento sócio-histórico em que a baixa tolerância, o enfrentamento e a violência, em suas várias manifestações, parecem ser lugar-comum dentro das escolas.

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