A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FOFOCA, TÃO ANTIGA QUANTO FAZER FOGO

O que o hábito de falar sobre os outros diz sobre nós mesmos. Compartilhar e falar da vida alheia podem trazer grandes prejuízos para a vida de alguém

Imagine a seguinte cena: ainda é hora do expediente, você faz uma pausa para tomar um café. Aparece um colega e vocês logo começam a comentar amenidades e, quando percebem, estão falando sobre alguém. Imaginou? Se você teve facilidade para formar essa imagem mental é porque, com certeza, você já passou por isso e nem se deu conta que estava fazendo fofoca. Afinal, é normal comentar sobre a vida dos outros, não é? Na verdade, pode ser comum, mas normal não deveria ser.

Por mais que pareça uma atitude inofensiva, falar dos outros é uma prática extremamente prejudicial em todos os âmbitos de nossa vida. Uma das teorias sobre o surgimento da fofoca diz que ela apareceu juntamente com a capacidade do homem de controlar o fogo. Tal teoria justifica que, ao afastar o perigo e a escuridão, o ser humano passou a ter mais tempo para socializar, conversar e compartilhar histórias. Os comentários sobre os outros já não são mais compartilhados ao redor de fogueiras, nem mesmo a janela ou o telefone são tão comuns. Nosso problema está, literalmente, em nossas mãos. Basta um celular e um aplicativo de conversas que já temos a possibilidade de falar o que e com quem quisermos. É a fofoca ao alcance de todos. Aliás, muitas vezes ilustrada, com direito a foto e captura de tela. É a fofoca com provas, com riqueza de detalhes e pobreza de conteúdo.

Compartilhar e falar da vida alheia pode trazer grandes prejuízos para a vida de alguém. Recentemente, uma produção da Netflix, intitulada 13 Reasons Why, mostrou a história de uma adolescente que se suicida após uma sucessão de desventuras e abordou, também, como o fato de ela ter virado assunto entre as rodas de amigos da escola colaborou para a decisão de tirar a própria vida. Obviamente, a produção tem suas porções de exagero, que são peculiares às obras de entretenimento, mas é inegável como há uma inspiração de vida real para o roteiro.

De fato, não precisamos ir tão longe para avaliar o quão negativo é esse hábito que é comum e presente no nosso cotidiano. Basta olharmos para o lado e observar com atenção: quantos de nossos colegas já perderam uma promoção por terem sido alvo de fofocas? Quantos relacionamentos você conhece que foram destruídos por algo que alguém disse e nunca se comprovou verdade? Com certeza você responderá não só positivamente a pelo menos uma dessas perguntas, como também vai saber um ou dois exemplos de histórias reais.

Mas de onde vem essa necessidade de falar sobre alguém? Por que fazemos fofocas? As respostas são muitas, embora cada situação exija uma interpretação única. Ao observarmos a interação humana, podemos perceber que esse hábito está ligado à necessidade de aceitação. A fofoca gera curiosidade, que por sua vez aproxima as pessoas, cria uma conexão e faz do fofoqueiro o centro das atenções. O medo do sucesso alheio (que acontece por conta de uma crença oculta de escassez, como se o sucesso do outro impedisse o nosso ou significasse nosso fracasso) é outra maneira de dar espaço à fofoca. Nesse caso, além de diminuir o mérito do outro, ainda podemos, deliberadamente, prejudicá-lo.

CARÊNCIAS

A verdade nua e crua é que todos nós, seres humanos, sem exceções, temos nossas carências, dores e medos e é fundamental que conheçamos nossas partes mais sombrias ou não conseguiremos evoluir. Assumir que diminuímos outras pessoas por inveja pode parecer assustador, mas é um exercício para compreendermos que, por alguma razão, acreditamos que não somos capazes de alcançar nossos objetivos e acabamos colocando o foco no lugar errado, ao invés de virarmos todas as atenções a nós mesmos e dedicar esse tempo e energia em conquistarmos os nossos anseios.

No ambiente de trabalho, a fofoca pode ser explicada (não justificada) pela busca por conexões entre os membros da equipe que acabam formando as famosas “panelinhas”, grupos que se unem para falar mal daqueles que não são enturmados, ou de seus superiores e até mesmo das regras da empresa. Até a falta de assunto é gatilho para a fofoca. Quando não há o que falar, mas há a necessidade de se comunicar com o outro, mesmo que sem um assunto, é comum proferirmos aquela frase que quebra o gelo: “Você não sabe o que aconteceu com fulana…”.

Mas que a verdade seja dita, a fofoca não prejudica só quem é vítima. O feitiço também pode virar contra o feiticeiro e o fofoqueiro, por diversas vezes, pode acabar em saias justas quando confrontado ou quando é pego no flagra com uma mentira. Também é fato que tendemos a não confiar naqueles que sabemos que não conseguem guardar segredo e, principalmente, em quem percebemos ter um comportamento tóxico. Assim, no fim das contas, é um hábito que se inicia por carência, necessidade de atenção e traz ao indivíduo consequências como a solidão e falta de confiança, afinal nenhum vínculo sólido e verdadeiro é formado por meio da fofoca.

Uma vez consciente de que não quer mais fazer parte do ciclo vicioso que a fofoca pode gerar na sua vida, é hora de, então, aprender a construir vínculos sólidos com quem nos cerca, a interagir, sem falar de pessoas. Substituir o assunto “quem fez o que” por “vamos fazer tal coisa?”, “vamos colocar tal projeto em prática”. Compartilhar ideias, planos e projetos não só vai tirar a fofoca do radar como também abrir horizontes para que novas situações e oportunidades apareçam.

ACEITAÇÃO

Cabe-nos a percepção de que não precisamos ser aceitos por todos em todos os lugares, principalmente se a única conexão encontrada é falar mal de outras pessoas. Afastar-se de situações como essas (fazer fofoca) é abrir a porta para se aproximar de outros grupos que terão como foco discutir ideias e ideais. Uma das frases mais célebres relacionadas ao filósofo Platão (450 a.C.) e que traduz perfeitamente a fofoca é: “Pessoas normais falam

sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias, pessoas mesquinhas falam sobre pessoas”.

A frase de Platão pode até acender um alerta vermelho em nossa mente e logo começarmos a escanear toda a nossa vida até encontrarmos os momentos em que acreditamos ter feito uma fofoca. Mas é importante ressaltar que nem todo comentário sobre alguém é ruim. Aliás, pelo contrário, muitos podem ser baseados em admiração e inspiração e, quando falamos bem da vida alheia, aumentamos nossas emoções positivas e autoestima.

Expressar nossas opiniões, sem julgamentos, ressaltando apenas nossos pensamentos e linha de raciocínio, não é atitude condenável.

Inclusive, utilizar situações cotidianas para debater opiniões pode ser bastante interessante. Basta apenas lembrar que, por mais que o assunto seja uma pessoa, nosso foco são as ideias.

OS TRÊS FILTROS DE SÓCRATES

Um dia, veio ao encontro do filósofo um homem, seu conhecido, que lhe disse:

– Sabes o que me disseram de um teu amigo?

– Espera um pouco – respondeu Sócrates.

– Antes de me dizeres alguma coisa, queria que passasses por um pequeno exame. Chamo-lhe o exame do triplo filtro.

– Triplo filtro?

– Isso mesmo – continuou Sócrates.

– Antes de me falares sobre o meu amigo, pode ser uma boa ideia filtrares três vezes o que me vais dizer. É por isso que lhe chamo o exame de triplo filtro. O primeiro filtro é a verdade. Estás bem seguro de que aquilo que me vais dizer é verdade?

– Não – disse o homem.

– Realmente só ouvi falar sobre isso e…

– Bem! – disse Sócrates. – Então, na realidade, não sabes se é verdadeiro ou falso. Agora, deixa-me aplicar o segundo filtro, o filtro da bondade. O que me vais dizer sobre o meu amigo é uma coisa boa?

– Não. Pelo contrário…

– Então, queres dizer-me uma coisa má e que não estás seguro de que seja verdadeira. Mas posso ainda ouvir-te, porque falta um filtro, o da utilidade. Vai servir-me para alguma coisa saber aquilo que me vais dizer sobre o meu amigo?

– Não. De verdade, não…

– Bem – concluiu Sócrates.

– Se o que me queres dizer pode nem sequer ser verdadeiro, nem bom e nem me é útil, por que haveria eu de querer saber?

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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