A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

É POSSÍVEL NÃO TER EXPECTATIVAS?

Criar altas expectativas sem levar em conta outros cenários possíveis proporcionados pela vida ajudaria as pessoas a modificar mais rapidamente estratégias de ação e a superar frustração e desilusão

Não criar expectativas é um conselho comumente oferecido, sobretudo para quem está começando um relacionamento afetivo ou iniciando a vida profissional

Isso é possível? Não! Mas é possível tomar consciência dessas expectativas e ajustá-las, observando o que a vida e os outros na realidade podem nos oferecer.

As expectativas brotam de nossos desejos e necessidades e colocam nosso olhar no futuro. A imaginação dá corpo às expectativas: há pessoas que mergulham em devaneios, imaginando em detalhes o futuro sonhado, compartilhando a vida com uma pessoa maravilhosa ou tendo uma carreira de grande sucesso profissional. Nossos desejos criam um roteiro de “como a vida deveria ser” ou “o que os outros deveriam fazer”. Mas nem sempre a vida e as outras pessoas seguem esse roteiro sonhado.

Quanto mais altas as expectativas, maior o risco de tudo terminar em frustração, desilusão, decepção, raiva e revolta. Há pessoas que brigam com a vida e até com Deus: “Eu não mereço isso”, “Por que nada dá certo comigo?”, “Nada do que eu espero acontece”. As altas expectativas são inatingíveis, são construídas com uma nuvem de esperança e de ilusão, de pensamentos mágicos, sem raízes na realidade prática.

Ouvi de uma mulher amargurada com o fim do relacionamento: “Eu esperava que ele fosse tudo para mim: marido, irmão, amigo, companheiro de todas as horas”. Dá para algum ser humano preencher tantos buracos de carência afetiva? Querer que os outros ajam como gostaríamos é esperar mais dos outros do que de nós mesmos. Frustração na certa!

A REALIDADE

Já conheci pessoas que viveram o chamado “amor à primeira vista”, que, na verdade, é a paixão. Tipicamente, a paixão nos invade por completo: mal conseguimos nos concentrar no trabalho ou no estudo. Lembranças dos encontros recentes, imaginação vívida de cenas futuras, mergulho no estado de total encantamento, tudo gira ao redor do desejo de estar juntos. Há pessoas que se viciam na paixão, sem conseguir sair dessa etapa, que não costuma durar muito tempo, pois não resiste aos testes da realidade. No entra e sai dos relacionamentos apaixonados, sucedem-se ciclos de entusiasmo e decepção, e um grande vazio de amor.

Há casos de “amor à primeira vista” que resultam em relacionamentos duradouros e felizes. Mas, para isso, é preciso evoluir do estado de paixão para construir o amor. Muitos relacionamentos não se sustentam porque, ao vestir o outro com as nossas fantasias, mal conseguimos percebê-lo como realmente é. Ao projetar no outro a esperança de que vá satisfazer nossas necessidades de amor e proteção, não percebemos quando a pessoa não pode ou não está disposta a oferecer tudo o que desejamos. Como diz a letra de Coração Leviano, de Paulinho da Viola: “Ah, coração, teu engano foi esperar por um bem de um coração leviano que nunca será de ninguém”.

As expectativas irreais nutrem o autoengano e podem resultar em caminhos perigosos, como acontece nos casos de relacionamentos abusivos, em que a pessoa se agarra à crença de que seu amor e dedicação poderão mudar o outro. “Ele tem um temperamento forte, mas é ótima pessoa”, “quando a gente se casar ele vai ficar mais calmo”. Com isso, os comportamentos violentos nos momentos de destempero emocional são tolerados e perdoados, na esperança de que haja uma mudança no futuro próximo. No entanto, é preciso ter muito cuidado com nossas escolhas: é fácil a gente se iludir, achando que podemos transformar quem não quer se modificar.

E quando a desilusão é muito intensa ou as decepções se sucedem, o sofrimento é profundo e até desalentador. Em Modinha, Tom Jobim confessa: “Ai, não pode mais meu coração viver assim dilacerado, acorrentado a uma ilusão que é só desilusão”. Desse modo, há quem se feche na solidão, descrente da possibilidade de construir uma boa parceria.

Mas a vida flui e, muitas vezes, nos surpreende. Como descreve Johnny Alf em Céu e Mar: “Minha vida é uma ilha pequenina flutuando no oceano na aventura de viver”. Modulando as expectativas e abrindo os canais da intuição e da percepção sutil podemos acolher melhor o que a vida nos apresenta e deixar, ainda nas palavras desse compositor, “que o inesperado faça uma surpresa”.

HISTÓRIAS VIVIDAS

Tiago, 8 anos, esperava ansiosamente a visita de Miguel. Queria propor uma brincadeira nova que ele havia criado e imaginou que o amigo ficaria entusiasmado. Porém, Miguel não se interessou. Frustrado e aborrecido, Tiago cruzou os braços, sentou-se no canto do sofá e anunciou que não queria brincar de coisa alguma.

Na gravidez do primeiro filho, Ana desejava muito ter um parto normal. Para isso, preparou-se com cuidado, buscou informações, frequentou um grupo de gestantes, treinou respiração e relaxamento, escolheu um obstetra adepto do parto humanizado, contratou uma doula para acompanhá-la no processo. No entanto, o trabalho de parto não evoluiu bem e foi preciso fazer uma cesárea. O bebê nasceu bem, mas Ana ficou desapontada e desabafou com a melhor amiga: “Saiu tudo errado, começou mal”.

Tensa com a expectativa do primeiro encontro com Renato, com quem trocava mensagens por um aplicativo de relacionamentos, Inês experimentou vários vestidos antes de se decidir pelo azul. Havia terminado um longo namoro há quatro meses e ansiava por encontrar um homem carinhoso, atencioso e trabalhador com quem pudesse construir um relacionamento sério. Pelas conversas on-line, Renato parecia preencher todos os requisitos. Inês estava empolgada, descobrindo várias afinidades entre eles. O primeiro encontro foi maravilhoso, mas não houve uma segunda vez. Renato não voltou a ligar para Inês nem respondeu as mensagens que ela enviou.

Pedro enviou seu currículo para mais de dez empresas, na expectativa de conseguir um novo emprego, após o fechamento do escritório de contabilidade no qual trabalhava. Como era muito apreciado por seu chefe, criou a expectativa de que conseguiria se recolocar no mercado de trabalho facilmente. A cada nova recusa, sentia-se frustrado e desencorajado de continuar tentando.

O que há de comum entre Tiago, Ana, Inês e Pedro?

Eles criaram altas expectativas sem levar em conta outros cenários possíveis, o que os ajudaria a modificar mais rapidamente suas estratégias de ação e a superar a frustração e a desilusão.

OBSERVAÇÕES REALISTAS

O que eles podem fazer para equilibrar as expectativas com observações realistas e planejamento eficaz de suas ações?

Tiago: ao aprender a lidar melhor com a frustração, não ficará estacionado no sofrimento, que torna difícil pensar em alternativas. Mesmo desapontado, pensará: “E agora, o que posso fazer de melhor?”. Ficará aberto às sugestões de Miguel, aceitará suas ideias de brincadeiras, o que, provavelmente, tornará o amigo mais receptivo às suas sugestões. Com mais “jogo de cintura”, aproveitará melhor as oportunidades dos encontros com os amigos.

Ana: o sonho que alimentou a expectativa de ter um parto normal a ajudou a se preparar para concretizar seu desejo. Fez uma boa preparação, escolheu os profissionais que poderiam lhe prestar uma ótima assistência. Porém, não deu a devida importância à realidade de que o trabalho de parto, como muitas coisas que acontecem na vida de todos nós, é imprevisível. Não há como saber ao certo como irá se desenrolar. O mais importante é que o bebê nasça bem e que a mãe se recupere da melhor forma possível. Se valorizasse o parto possível como o melhor que poderia acontecer, celebraria o nascimento sem a sensação de que “deu tudo errado”.

Inês: ao renovar a esperança de encontrar um novo amor, em vez de mergulhar fundo nos devaneios românticos, procurará observar com mais cuidado o comportamento dos pretendentes para avaliar melhor os sinais de interesse ou desinteresse, e as contradições entre o que é dito e o que é feito. Afinal, de que adianta ouvir coisas do tipo “você é uma mulher especial” se ele não liga, não marca um novo encontro e ignora as mensagens enviadas? Prestará atenção aos pilares básicos da comunicação: palavra, expressão facial/corporal e ação. Quando esses pilares se desencontram, a palavra perde o valor.

Pedro: ao decidir analisar mais a fundo o cenário econômico e os elevados índices de desemprego no país, perceberá que precisa ampliar e diversificar suas estratégias para se recolocar no mercado de trabalho, incluindo a possibilidade de buscar emprego em outra cidade. Diante da dificuldade de conseguir emprego, poderá criar algum tipo de trabalho como, por exemplo, oferecer consultoria contábil presencial ou on-line para quem está abrindo uma micro- empresa. Se tiver outro tipo de habilidade como, por exemplo, recorrer às receitas da avó para fazer doces artesanais, poderá atuar como autônomo para gerar renda.

A partir de nossas experiências com nossos pais, construímos expectativas de como agiremos com nossos filhos: “Não quero ser tão rígido e autoritário como meu pai”; “Minha mãe não tinha a menor paciência com a gente, gritava e batia, não vou fazer isso com meus filhos!”. Na realidade: “Eu me pego gritando com eles do mesmo jeito que eu odiava em minha mãe!”.

NO CASO DOS FILHOS

No dia a dia com os filhos, muitas expectativas simplesmente se evaporam. O vínculo com cada filho é único, manejos que funcionam com um não dão certo com o outro. Criar a expectativa de que ler muitos textos, ver vídeos de profissionais e participar de grupos on-line sobre como criar filhos vão garantir que sempre saberemos o que fazer resulta, no mínimo, em profunda perplexidade. Na realidade, muitas vezes não saberemos como agir e nada garante que o modo como criamos nossos filhos vai “dar certo”. Até porque os pais não são as únicas influências importantes: outros adultos podem ser escolhidos como figuras de referência, há os amigos, o ambiente escolar e inúmeros “influenciadores digitais” que também contribuem (para o bem ou para o mal) para a formação de crianças e adolescentes. Como psicoterapeuta de famílias já vi muitas situações em que os pais fizeram “tudo certinho” e isso não impediu escolhas desastradas de adolescentes. Por exemplo, na família sempre houve uma conversa aberta sobre sexualidade, percepção de risco e autoproteção nas redes sociais, mas, apesar disso, a adolescente permitiu que o namorado filmasse a transa e, em seguida, compartilhasse nas redes sociais. Por outro lado, conheci crianças que se desenvolveram bem, apesar de manejos inadequados dos pais, como, por exemplo, críticas demolidoras, castigos pesados ou condutas de negligência.

Na gestação, o desejo de ter um “bebê perfeito” vem junto com o medo de que isso não aconteça. A quebra de expectativas quando a criança nasce antes do tempo previsto ou apresenta dificuldades especiais é enorme. O luto pela perda do bebê idealizado diante do filho real é um processo doloroso para muitas mães e pais. É preciso aceitar a realidade e buscar os recursos necessários para lidar com a situação de estimular o melhor desenvolvimento possível para a criança com síndrome de Down, microcefalia decorrente do vírus zika, paralisia cerebral, ou a que se encontra no espectro autista, entre outras questões.

Há pais que criam altas expectativas em relação à vida dos filhos adolescentes e jovens adultos e até tentam influenciar suas escolhas sobre profissão e namorados/as. A maioria dos filhos não toma suas decisões de acordo com as expectativas dos pais: “Meu pai queria que eu trabalhasse com ele no escritório de advocacia, mas isso não tem nada a ver comigo, quero trabalhar com produção de vídeos”; “O sonho da minha mãe é ser avó, mas eu não quero ter filhos”. Criar expectativas que não envolvem nossas próprias ações é caminho certo para a frustração: ter netos depende de decisões dos filhos quererem (ou não) ter filhos.

O PODER DA ESCOLHA

Quando a escolha da profissão, a orientação sexual e a decisão de continuar um relacionamento amoroso não correspondem às expectativas dos pais, o desapontamento e a decepção predominam e até culminam em rompimento: “Eu proibi minha filha de trazer o namorado aqui em casa. Nós não aceitamos essa relação de jeito nenhum, mas ela é adulta, não podemos obrigá-la a romper com esse sujeito. Ela ficou tão magoada que deixou de falar com a gente”.

Na medida em que os filhos crescem, os pais perdem progressivamente o poder de influenciar suas escolhas. Eles são responsáveis pelos caminhos que decidem trilhar e arcarão com as consequências de escolhas ruins. Os pais que aprendem a respeitar essas decisões e demonstram curiosidade para entender melhor o que motiva os filhos a fazerem suas escolhas poderão preservar um relacionamento de melhor qualidade, sem tanta construção de sofrimento por conta de terem “falhado” na criação dos filhos (sim, muitos pais se sentem culpados, além de decepcionados, quando os filhos escolhem caminhos de vida muito diferentes do que sonharam para eles).

ANSIEDADE NA VIDA

Faltavam três anos para Suzana se aposentar. Alfredo, seu marido, já estava aposentado, e eles haviam conseguido fazer uma reserva financeira confortável para concretizar seus planos de viajar pelo mundo. No entanto, Alfredo apresentou sinais da doença de Alzheimer, que evoluiu rapidamente. O futuro sonhado não se concretizou, e o planejamento da vida dos dois precisou ser refeito.

Após muitos anos trabalhando em horário integral e nem sempre em empregos satisfatórios, muitos contam os dias para se aposentar, sonhando em ter tempo livre de obrigações. Mas, para quem não construiu outro projeto de vida, a expectativa de se sentir feliz com o tempo livre pode resultar em tédio, por não saber o que fazer com tanta liberdade.

Ocasionalmente, somos surpreendidos quando acontece algo que “superou nossas expectativas”: “Depois de amargar três anos desempregada, nunca sonhei que eu pudesse ganhar tanto dinheiro trabalhando com produtos digitais!”. Isso nos mostra como é importante manter a mente aberta e alerta para acolher o que a vida oferece, prestar atenção às oportunidades que surgem e se dispor a aprender coisas novas que possam abrir caminhos promissores, mesmo quando, no início, seja preciso superar muitos.

Essencial também é aprimorar a capacidade de observar o contexto em que estamos e a realidade das outras pessoas. Além disso, é preciso cultivar a paciência para entender a lentidão de alguns processos para desenvolver habilidades que poderão nos conduzir a áreas atraentes de trabalho. Érico, um adolescente de 16 anos, queria montar um grupo musical de sucesso, e criou a expectativa de que poderia ser um ótimo guitarrista em pouco tempo. Esperar resultados rápidos é frustração na certa! Aprender a tocar um instrumento, falar fluentemente outros idiomas e muitas outras coisas dependem de tempo, dedicação e persistência para não desanimar diante das dificuldades que encontramos.

“O que posso fazer de melhor com o que a vida me apresenta?” é a pergunta-bússola que poderá nos guiar na construção do equilíbrio entre expectativas, observação do cenário e das pessoas, sonhos, metas e planos de ação.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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