EU ACHO …

UMA EXPERIÊNCIA

Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.

Senti-me então como se eu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.

E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podem agradecer. Então eu, o tigre, dei umas voltas vagarosas em frente à pessoa, hesitei, lambi uma das patas e depois, como não é a palavra o que tem importância, afastei-me silenciosamente.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O NOVO MUNDO DO 5G

Carros autônomos e cirurgias a distância estão cada vez mais perto com a tecnologia que promete revolucionar a conectividade das pessoas e dos mais diversos serviços

Aos poucos, o mundo se dá conta da revolução que a tecnologia 5G vai provocar, e não apenas nos celulares. Algumas experiências já mostram que o 5G será determinante para os avanços em múltiplas áreas, daí já ser apelidado de Revolução Industrial 4.0. Essa corrida é liderada pelas empresas que estão na linha de frente da implantação das redes, como a chinesa Huawei, a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson, que disputam o monopólio da tecnologia em meio às tensões geopolíticas entre os EUA, a União Europeia e a China.

O foco já não está mais em conectar pessoas, mas equipamentos. É a trinfo da “tecnologia das coisas” (IoT, em inglês). “A chegada do 5G é comparável à descoberta da energia elétrica. É uma grandiosidade que ainda não conseguimos mapear por inteiro”, afirma Célio Hiratuka, professor livre-docente do Instituto de Economia da Unicamp e especialista em economia da Indústria e da Inovação.

O consumidor terá uma nova experiência nesse futuro cada vez mais próximo. Na indústria automobilística, gigantes como BMW, Honda e Nissan trabalham para o aperfeiçoamento do carro autônomo. No início de janeiro, a Microsoft despejou US$ 2 bilhões na Cruise, startup de veículos autônomos da GM, para participar do projeto na empresa americana. Como o 5G permite uma conexão até 40 vezes mais rápida do que o 4G, é possível confiar que os veículos respondam de forma quase imediata aos comandos externos. Com essa nova perspectiva, gigantes como a Tesla já veem seu valor de mercado decolar e superar as montadoras “analógicas”.

Na agricultura, tratores automatizados serão responsáveis pela colheita e drones inteligentes terão a capacidade de diagnosticar pragas. A companhia britânica RuralFisrt já utiliza microchips para receber atualizações diárias dos animais em suas fazendas. “Mais do que mudar o que já existe, o 5G cria situações inimagináveis até pouco tempo atrás”, diz.

CIRURGIAS A DISTÂNCIA

Na indústria do entretenimento, a ultra velocidade de download possibilita que filmes sejam baixados em segundos. Em um teste realizado na cidade de Chicago, há dois anos, a americana Verizon baixou oito episódios de uma série em 38 segundos utilizando a conexão 5G. Ao repetir o teste em um celular com velocidade 4G, o mesmo procedimento demorou 1 hora e 16 minutos. Entre os gamers, a expectativa também é grande. O 5G possibilita que jogos possam ser executados nos celulares com a mesma qualidade exibida na TV. Além disso, vai facilitar a performance, diminuindo o que os gamers chamam de “lag”, que é a demora na resposta entre o ato de apertar o botão do controle e a ação do personagem.

Na saúde, as inovações englobam a utilização de inteligência artificial, intervenções a distância, realidade aumentada e telemedicina. Unidades móveis de atendimento, como ambulâncias, poderão se comunicar em tempo real com profissionais de saúde nos hospitais. A menor latência do 5G (o tempo entre o comando dado e a resposta do equipamento) finalmente dará segurança para a realização de operações remotas, que exigem precisão. Um especialista poderá realizar uma operação em um paciente que está do outro lado do mundo, por exemplo. Também a telemedicina, que disparou na pandemia, será intensificada, facilitando o acesso a avaliações médicas. “Há uma infinidade de possibilidades permitidas pelo 5G”, afirma Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Enquanto o 5G já é uma realidade em países como China, Inglaterra, Coréia do Sul e EUA, a tecnologia engatinha no Brasil. Aqui, as empresas de telefonia celular têm feito projetos-piloto para testar o 5G. Desde 2019, a TIM desenvolveu projetos em Campina Grande (PB) e Florianópolis (SC), com demonstrações de realidade virtual e compartilhamento de dados. Em dezembro do ano passado, a Claro firmou parceria com o governo de Goiás para instalar o 5G no município de Rio Verde. O projeto-piloto, com a instalação de duas torres e duração de um ano foi autorizado pela Anatel. O objetivo é testar a tecnologia e a inteligência artificial no agronegócio. Mas o uso comercial depende do futuro leilão das linhas de frequência, que a Anatel tem adiado desde o início do governo Bolsonaro. A expectativa é que o certame aconteça em junho. “Nesse ritmo, o Brasil ficará ainda mais defasado no que diz respeito à competitividade industrial”, lamenta Hiratuka.

OS BENEFÍCIOS DO 5G

VELOCIDADE

O sistema 5G promete velocidade de aproximadamente 10 Gb/s. Atualmente, o 4G tem capacidade teórica de 300 Mb/s. Com isso, o sistema 5G será aproximadamente 40 vezes
mais rápido

LATÊNCIA

São os segundos de atraso em uma chamada de vídeo. Na rede 4G, a latência é de 50 milissegundos. O 5G deve praticamente acabar com o problema, reduzindo a latência para 1 milissegundo

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE MARÇO

VOCÊ NÃO É O QUE FALA, MAS O QUE FAZ

Melhor é o que se estima em pouco e faz o seu trabalho do que o vanglorioso que tem falta de pão (Provérbios 12.9).

O mundo está cheio de gente que fala muito e faz pouco, propagandeia seus feitos, mas não os apresenta; gente cujas obras negam suas palavras. O falastrão e vanglorioso é aquele que comenta aos quatro ventos que está construindo um arranha-céu, mas na verdade está levantando apenas um galinheiro. Ele superdimensiona sua imagem e faz propaganda enganosa de si mesmo e das suas obras. Gasta seu tempo falando de façanhas que nunca realizou, de planos que nunca concretizou, de fortunas que nunca granjeou, de influências que nunca exerceu. Aqueles que habitam na casa da ilusão e vivem no reino da mentira enfrentarão a dura realidade da pobreza extrema. A sabedoria mostra que é melhor falar pouco e dar conta do recado do que falar muito e nada fazer. É melhor ser humilde e realizar o seu trabalho. É melhor fazer do que falar, pois o homem não é aquilo que fala, mas aquilo que faz. O fim da linha da vanglória é o desprezo, mas a reta de chegada da humildade é a honra. Quem fala e não faz é alcançado pela pobreza, mas quem se estima em pouco e realiza o seu trabalho alcança a prosperidade.

GESTÃO E CARREIRA

TALENTOS À VENDA

Conhecida como acqui – hiring, a prática de comprar companhias para adquirir seus funcionários se populariza no Brasil – mas isso requer muitos cuidados

Não é de hoje que os executivos de recursos humanos se veem às voltas para resolver o problema de processos de recrutamento demorados, custosos – e que muitas vezes dão errado. Quando o desafio é montar uma equipe de tecnologia, então, a disputa por desenvolvedores, arquitetos de nuvem, especialistas em dados e outros profissionais de TI se torna quase uma batalha. E, como em muitos casos uma boa oferta de empregos, benefícios e salários polpudos não basta, para algumas companhias a melhor solução se torna comprar uma empresa inteira.

A prática é uma velha conhecida no Vale do Silício e tem até nome: acqui-hiring. Ela consiste na aquisição de uma companhia visando não sua carteira de clientes, seu produto ou suas inovações, mas os talentos que ela emprega. Nos Estados Unidos, o auge de transações como essa aconteceu entre 2013 e 2015, mas agora a prática começa a se popularizar no Brasil. Apenas no último ano, startups milionárias como iFood, Loggi e Nubank fizeram processos de acqui-hiring.

A Loft, plataforma de compra, reforma e venda de imóveis, que conta com 510 funcionários, engrossou essa lista no início de 2020. Em fevereiro, um mês após se tornar o mais recente unicórnio brasileiro (as companhias avaliadas em 1 bilhão de dólares), a empresa, fundada em 2018, adquiriu a Spry, startup de inteligência de mercado que empregava 15 pessoas. “Eu e meu sócio fomos investidores-anjos da Spry e conhecíamos o fundador, Florian Hagenbuch de longa data, o que ajudou nas negociações.

Reconhecíamos a compatibilidade entre as culturas e havia uma relação de confiança”, diz Mate Pencz, cofundador da Loft.

COMPRA UM, LEVA DOIS

Para suavizar o processo de integração da empresa, concluído em março, a Loft abriu um escritório em São José dos Campos, no interior de São Paulo, região da antiga sede da Spry, e distribuiu ações para os recém-chegados – atualmente apenas 100 funcionários da Loft possuem o benefício. “É preciso criar um ambiente para os novatos se sentirem em casa”, afirma Mate.

Embora o objetivo central da aquisição tenha sido incorporar o time de engenheiros da Spry, Mate admite que a Loft também estava de olhona tecnologia da empresa.     

Fundada em 2015, a startup de tendências de mercado havia se tornado conhecida por realizar pesquisas bastante abrangentes, por meio de um sistema desenvolvido internamente. Entre seus clientes estavam Ambev, 99 e Deloitte, além da própria Loft. “Agora esse tin1e e essa tecnologia seráde extrema importância para fazermos pesquisas em larga escala, em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, além de permitir ingressar em mercados que ainda não atuamos, como Belo Horizonte e Curitiba”, afirma Mate.

A mistura de interesses entre o time e os produtos e serviços da companhia comprada é algo comum nas operações de acqui­hiring. “O potencial de inovação, novos negócios e transformações obviamente está nas pessoas, mas os projetos desenvolvidos pela equipe também interessam”. Às vezes, é até difícil distinguir qual é o ponto central da aquisição”, diz André Barrence, diretor do Google For Startups, coworking e incubadora de novos negócios.

FALTA TALENTO

Não é por acaso que operações desse tipo se tornaram mais frequentes pela área de tecnologia. De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), até 2024 haverá uma demanda anual de 70.000 profissionais no setor. Por outro lado, segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação, em 2018 existiam apena 53.000 formandos na área. “Diante desse cenário, o acqui-hiring deve cresce no Brasil. Com essa lacuna resta às empresas buscar startups consolidadas, e com times prontos para acelerar projetos ou produtos”, afirma André.

A prática também é comum em outros setores – e já existia bem antes de ser conhecida pela terminologia em inglês. “Quando uma clínica médica adquire outra, ela está essencialmente interessada em seus especialistas. O mesmo ocorre com escritórios de direito”, afirma Luís Motta, líder de fusões e aquisições da KPMG no Brasil. “A evolução tecnológica e o surgimento do ecossistema de startups evidentemente levaram essa estratégia a outro patamar”, completa Luciana Lima, professora nos cursos de graduação e pós graduação do lnsper.

A escolha entre comprar equipes inteiras ou desenvolver os talentos desde a base irá variar de acordo com a necessidade de cada companhia. As indústrias, geralmente são da escola de criar pratas da casa, porque dependem mais do controle de custos para lucrar. “Já as empresas que querem se diferenciar nos mercados competitivos, se antecipar à concorrência ou ingressar em um nicho novo tendem a comprar equipes”, diz Luciana.

Com a rapidez das transformações, mesmo as companhias mais tradicionais se veem à frente desse dilema. Em 2019 segundo uma pesquisa da consultoria PwC com 3.500 CEOs 79% deles se preocupavam com a falta de profissionais no mercado. Há oito anos, o índice era de 53%.  O acqui-hiring exige um grande esforço para reter os talentos, o que afastam muitas empresas, mas diante do contexto atual todas as estratégias passam a ser válidas, pondera Silvia Martins, responsável pela área de pessoas e organizações da PwC Brasil.           

CHOQUE CULTURAL

Para fazer uma compra de talentos bem-sucedida é preciso entender a cultura e o estilo de liderança da companhia que será adquirida. Uma das dicas é levantar, durante o processo de due dilligence, os indicadores de gestão de pessoas, como pesquisas de clima e avaliações de desempenho.

Porém, por mais completo que seja o mapeamento, isso não é garantia de que os funcionários terão o mesmo desempenho quando migrarem para a outra empresa. O desafio aparece especialmente quando há diferenças marcantes nos processos e na maneira como as equipes e os líderes se relacionam. “Sorna-se a isso o fato de que os profissionais ‘adquiridos’ podem sair da companhia caso não se adaptem. Todos esses fatores tornam as transações de acqui-hiring bastante complexas”, afirma Luciana, do Insper.

E, mesmo nos casos de fundadores e diretores executivos, nos quais amarras jurídicas podem mantê-los na operação por um, tempo, a garantia de permanência é frágil. “Todo empreendedor valoriza autonomia e poder de decisão. Se não há engajamento e identificação, passado o período de contrato, eles saem da empresa – assim como os outros funcionários”, alerta André, do Gooogle for Startups.

Embora os processos de fusão e aquisição sejam velhos conhecidos da Cogna Educação (antiga Kroton Educacional), o grupo teve de se reinventar após a compra, entre 2016 e 2019, de quatro startups de ensino: Studiare, Eligis, Stoodi e AppProva. ”Nos preocupamos com a eventualidade de um choque cultural, tendo em vista as diferenças de porte e estrutura”, afirma Gabriela Diuna, diretora de gente, cultura e inovação da Cogna.

Então, mais do que incorporá-las à estrutura do grande conglomerado, a Cogna decidiu mudar a própria cultura. Desde 2017, a empresa extinguiu o dress code, implementou o home office para todos os 28.000 funcionários e reformou os escritórios de São Paulo, Valinhos (SP) e Londrina (PR), colocando paredes abaixo e criando espaços de convivência e descompressão. “Éramos muito tradicionais, com escritórios de madeira maciça e pessoas de terno e gravata. Nas startups, o pessoal usava bermuda e camiseta. Tínhamos de criar um ambiente em que eles se sentissem livres”, afirma Gabriela.

A empresa também mudou sua estrutura e passou a organizar alguns departamentos em squads, além de adotar metodologias ágeis. “O processo de adaptação não é fácil, mas precisamos agir rápido. Manter os talentos que traziam um mindset digital e a capacidade de resolver problemas, era nosso principal objetivo”, diz Gabriela. A estratégia parece ter dado certo: de todos os funcionários adquiridos, apenas um se demitiu. “O time tem de ficar. Só assim o acqui-hiring faz sentido”, finaliza a executiva.

OFERTA X DEMANDA

A relação entre vagas abertas no setor de tecnologia e o número de profissionais formados nas carreiras ligadas ao segmento

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A MÁGICA ILUDE O CÉREBRO

Há séculos, ilusionistas exploram os limites da cognição e da atenção dos espectadores. Agora, neurocientistas começam a estudar como o cérebro acompanha e se surpreende com os truques

O refletor se acende sobre a assistente, uma jovem de vestido branco curtíssimo irradia beleza do palco para o público. O Grande Tomsoni anuncia que irá transformar a cor da roupa, fazendo-a ficar vermelha. Tensos, os espectadores se concentram na mulher, gravando a imagem dela em suas retinas. Tomsoni bate palmas e os holofotes se apagam rapidamente, antes de criarem uma atmosfera vermelha. A mulher agora está inundada pela luz vermelha que vem dos projetores.

Mudar a cor com um holofote não era exatamente o que o público tinha em mente. Mas temos de concordar: o vestido ficou vermelho – junto com todo o resto. Ele brinca com o público, faz piadas sobre mágicos. Então, pede que o público o perdoe e preste atenção mais uma vez em sua bela assistente enquanto o ilusionista acende a luz para o próximo truque. Ele bate palmas e o palco é coberto por uma imensidão de branco. Surpresa! O vestido realmente ficou vermelho. O Grande Tomsoni conseguiu – mais uma vez!

O truque e a explicação dada por John Thompson (conhecido como o Grande Tomsoni) revelam um profundo conhecimento intuitivo dos processos que acontecem no cérebro dos espectadores – um tipo de entendimento que nós, neurocientistas, podemos usar. O truque funciona assim: quando Thompson apresenta sua assistente, o vestido branco e justo dela, silenciosamente, leva os espectadores a acreditar que nada poderia estar escondido sob as vestes brancas. Essa suposição razoável, é claro, está errada. A moça atraente em seu vestido apertado também ajuda a atrair a atenção das pessoas para onde Thompson quer – o corpo da mulher. Quanto mais olham para ela, menos percebem os dispositivos dissimulados no chão, e mais adaptados se tornam seus neurônios retinais à brancura da luz e à cor que percebem.

Durante a rápida fala de Thompson depois da pequena “piada”, o sistema visual de cada espectador passa por um processo cerebral chamado adaptação neural. A reação de um sistema neural a um estímulo constante diminui com o tempo. É como se os neurônios ignorassem efetivamente um estímulo constante para guardar energia e sinalizar que algo está mudando. Quando cessa o estímulo, os neurônios adaptados disparam uma resposta “de ricochete”, conhecida como pós-descarga.

Surge então o estímulo de adaptação, que nesse caso é o vestido iluminado de vermelho. E Thompson sabe que os neurônios retinais dos espectadores irão ricochetear por uma fração de segundo antes de as luzes se apagarem. O público continuará vendo uma imagem residual vermelha na forma da mulher. Em menos de um segundo, um alçapão se abre no palco, e o vestido branco, preso levemente ao corpo com velcro e amarrado a cabos invisíveis sob o palco, é retirado rapidamente do corpo dela. Depois, as luzes se acendem.

Dois outros fatores fazem o truque funcionar. Primeiro, a luz é tão intensa antes de o vestido ser retirado que, quando apagada, o espectador não consegue perceber os movimentos dos cabos e o vestido branco desaparecendo sob o palco. A mesma cegueira temporária pode nos dominar quando saímos de uma rua ensolarada e entramos em uma loja mal iluminada. Segundo, Thompson faz o truque verdadeiro só depois de o público pensar que já acabou. Com isso ele ganha uma vantagem cognitiva importante – os espectadores não estão procurando um truque naquele momento crítico, e por isso relaxam brevemente a atenção.

NEUROMÁGICA NA CARTOLA

O truque de Thompson ilustra muito bem a essência da mágica de palco. Os mágicos são, acima de tudo, artistas da atenção e da consciência. Eles manipulam o foco e a intensidade da nossa consciência. Isso é feito em parte pelo uso de combinações desconcertantes de ilusões visuais (como as imagens residuais), ilusões ópticas (fumaça e espelhos), efeitos especiais (explosões, tiros falsos, controles de iluminação regulados com precisão), prestidigitação, recursos secretos e artefatos mecânicos.

Mas o instrumento mais versátil na bagagem dos truques é a capacidade de criar ilusões cognitivas. Assim como ilusões visuais elas mascaram a percepção da realidade física, mas sua natureza não é sensorial, requer funções de alto nível como atenção, memória e inferência causal. Com todas essas ferramentas à disposição, mágicos experientes tornam praticamente impossível a percepção dos processos que realmente estão acontecendo – dando a impressão de que a única explicação para os acontecimentos é a mágica.

Obviamente os objetivos da neurociência são diferentes das intenções ilusionistas; os pesquisadores querem entender o cérebro e as bases neurais das funções cognitivas, enquanto os mágicos têm o objetivo de explorar as fraquezas cognitivas. Contudo, as técnicas desenvolvidas por eles ao longo de séculos também podem ser instrumentos preciosos nas mãos dos neurocientistas. Estudos feitos até agora sobre mágica confirmam o que se conhece sobre a cognição e a atenção com base em trabalhos anteriores na psicologia experimental.

Cientistas acreditam que as pesquisas podem levar a diagnósticos e métodos de tratamento para pacientes que sofrem de deficiências cognitivas – como déficits de atenção resultantes de traumatismo cerebral, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade e Alzheimer. Os métodos da mágica também podem ser colocados em prática para “induzir” pacientes a se concentrarem nas partes mais importantes de sua terapia, evitando distrações que provocam confusão e desorientação.

Os mágicos usam o termo geral “despiste” (misdirection) para se referir à prática de afastar a atenção do espectador de uma ação secreta. Essa técnica leva a atenção do público para o “efeito”, do segredo por trás do efeito, afastando-o do “método”. Tomando alguns termos da psicologia cognitiva, classificamos o despiste como “patente” e “encoberto”. É patente se o mágico direciona o olhar do espectador para longe do método – talvez pedindo apenas que o público se volte para determinado objeto. Quando o Grande Tomsoni apresenta sua adorável assistente, por exemplo, ele garante que todos os olhares estejam sobre ela. Mas também é o “encoberto” quando o mágico afasta o foco de atenção do espectador – ou foco de suspeita – do método, sem necessariam ente redirecionar o seu olhar. Sob essa influência, os espectadores podem olhar diretamente para o método por trás do truque sem nenhuma consciência dele.

A neurociência cognitiva já reconhece pelo menos dois tipos de despiste encoberto. No chamado de cegueira para a mudança, as pessoas não conseguem perceber que alguma coisa em relação à cena é diferente de como era antes. A alteração pode ser esperada ou não, mas o traço principal é que os observadores não a percebem olhando para a cena a qualquer momento no tempo. Em vez disso, o observador deve comparar o estado pós-mudança com o estado pré-mudança.

Muitos estudos mostraram que as alterações não precisam ser sutis para produzir essa cegueira. Até mesmo alterações extremas em uma cena visual passam despercebidas se ocorrem durante uma interrupção passageira como uma piscada, um movimento rápido dos olhos (em que o olho ligeiramente salta de um ponto para outro) ou uma cintilação da cena. O vídeo do “truque das cartas que mudam de cor” (color-changing card trick), feito pelo psicólogo e mágico Richard Wiseman da Universidade, de Hertfordshire, na Inglaterra, é um excelente exemplo do fenômeno. Na demonstração de Wiseman, os espectadores não percebem mudanças de cor que acontecem fora da área delimitada pela câmara. Vale notar que, apesar do nome, o vídeo do truque das cartas não usa mágica para provar o que quer.

A cegueira por desatenção difere da cegueira para a mudança, visto que não há necessidade de comparar a cena presente com uma cena lembrada. Em vez disso, as pessoas não percebem um objeto inesperado que está completamente visível bem na frente delas. O psicólogo Daniel J. Simons inventou um exemplo clássico do gênero. Simons e o psicólogo Christopher F Chabris, ambos da Universidade Harvard, pediram que observadores contassem quantas vezes um time de jogadores de basquete passava a bola um para o outro, enquanto ignoravam os passes feitos por três outros jogadores. Quando se concentraram na contagem, metade dos observadores não conseguiu perceber que uma pessoa vestindo uma fantasia de gorila passou pela cena (o gorila até para um pouco no centro da cena e bate no peito). Para criar o efeito, não foi necessário nenhuma interrupção abrupta ou distração; a tarefa de contagem era tão absorvente que muitos observadores que olhavam diretamente mira o gorila sequer o perceberam.

Os mágicos consideram a forma oculta do despiste mais elegante que a patente. Mas os neurocientistas querem saber que tipo de mecanismos neurais e cerebrais permitem que um truque funcione. Se o talento artístico dos mágicos deve ser adaptado pela neurociência, os pesquisadores querem entender que tipos de processos cognitivos são explorados por esse talento.

CIGARRO QUE DESAPARECE

Talvez o primeiro estudo a relacionar a percepção mágica com a medição fisiológica tenha sido publicado em 2005 pelos psicólogos Gustav Kuhn, da Universidade Durham, na Inglaterra, e Benjamin W Tatler, da Universidade de Dundee, na Escócia. Os dois pesquisadores mediram os movimentos dos olhos de observadores, enquanto Kuhn, que também é mágico, fazia um cigarro “desaparecer” jogando-o debaixo de uma mesa. Um de seus objetivos era determinar se os observadores não percebiam o truque porque não estavam olhando na direção certa, no tempo certo, ou porque não prestaram atenção, não importa a direção para onde olhassem. Os resultados foram claros: não fazia diferença para onde olhavam.

Um estudo semelhante com outro o truque de mágica, a “ilusão da bola es que desaparece”, traz indícios de que o mágico está manipulando a atenção dos espectadores em um alto nível cognitivo; a direção do olhar não é crucial para o efeito. Na ilusão da bola (o que desaparece, o mágico começa jogando uma bola para cima e pegando-a, diversas vezes sem maiores problemas. Depois, na última jogada, ele só tem a intenção de arremessar a bola. A cabeça e os olhos dele seguem a trajetória ascendente de uma bola imaginária, mas, em vez de jogar a bola, ele a esconde na mão secretamente. O que a maioria dos espectadores percebe, no entanto, é que a bola (não lançada) sobe – e depois desaparece no ar.

No ano posterior à sua pesquisa com Tarler, Kuhn e o neurologista Michael F. Land, da Universidade de Sussex, na Inglaterra, descobriram que o olhar dos espectadores não aponta para onde eles próprios afirmam ter visto a bola sumir. A descoberta sugere que a ilusão não engana os sistemas cerebrais responsáveis pelos movimentos dos olhos dos espectadores. Kuhn e Land concluíram que, ao contrário, os movimentos dos olhos e da cabeça do mágico foram cruciais para a ilusão, porque secretamente redirecionam o foco de atenção dos espectadores (em vez do olhar) para a posição prevista da bola. Os neurônios que responderam ao movimento implícito da bola sugerido pelos movimentos dos olhos e da cabeça do mágico encontram-se nas mesmas áreas visuais do cérebro que os neurônios sensíveis ao movimento real. Se o movimento implícito e o real ativam circuitos neurais semelhantes, talvez não seja surpresa que a ilusão pareça tão real.

Kuhn e Land criaram a hipótese de que a bola que desaparece deve ser um exemplo do “momentum representacional”. A posição final de um objeto em movimento que desaparece é percebida mais distante ao longo de seu trajeto do que sua real posição final – como se a posição prevista tivesse extrapolado a partir do movimento que acabou de acontecer.

Muitas vezes os espectadores tentam reconstruir truques de mágica para entender o que aconteceu durante o espetáculo – afinal, quanto mais o observador tenta (e não consegue) entender o truque, mais parece que foi “mágica”. Por sua vez, os mágicos costumam desafiar o público a descobrir seus métodos, por exemplo, “provando” que um chapéu está vazio ou que o vestido da assistente é apertado demais para esconder outro vestido por baixo. Praticamente tudo o que ocorre é feito para que a reconstrução seja o mais difícil possível, por meio do despiste.

COÇAR A CABEÇA

Mas, as cegueiras para a mudança por desatenção não são os dois únicos tipos de ilusões cognitivas que os mágicos tiram do chapéu. Suponha que um mágico precise levantar a mão para fazer um truque. Teller, integrante do grupo de ilusionismo conhecido como Penn & Teller, explica que, se ele ergue a mão sem nenhum motivo aparente, é mais provável que levante suspeitas do que se fizesse um gesto com a mão – como arrumar os óculos ou coçar a cabeça – que pareça natural ou espontâneo. Para os mágicos, esses gestos são conhecidos como “comunicando o movimento”.

Suposições não ditas e informações implícitas também são importantes tanto para a percepção de um truque quanto para sua reconstrução. O mágico James Randi (“the Amazing Randi”) observa que é mais fácil convencer os espectadores a aceitar sugestões e informações implícitas que asserções diretas. Por essa razão, o espectador deve lembrar, na reconstrução, das sugestões implícitas como se fossem provas diretas. Os psicólogos Petter Johansson e Lars Hall, ambos da Universidade de Lund, na Suécia, e seus colegas aplicaram essa e outras técnicas de mágica no desenvolvimento de uma forma completamente nova de abordar questões neurocientíficas. Eles apresentaram pares de figuras de rostos femininos para novatos em experimentos e pediram que escolhessem o mais atraente. Em algumas tentativas, eles tinham de descrever as razões da escolha. Algumas vezes os pesquisadores usavam uma técnica de prestidigitação, desconhecida para os sujeitos, aprendida com um mágico profissional chamado Peter Rosengren, para trocar um rosto pelo outro – depois de os sujeitos terem feito sua escolha. Assim, para os pares que foram manipulados secretamente, o resultado da escolha do sujeito se tomava oposto à intenção que ele tinha anteriormente. Estranhamente, os sujeitos perceberam a mudança em apenas 26% de todos os pares manuseados. Mais surpreendente ainda, quando as pessoas tinham de dizer as razões de suas escolhas em um reste manipulado, confabulavam para justificar o resultado – que era o oposto de sua escolha verdadeira. Johansson e seus colegas chamaram o fenômeno de “cegueira para a escolha.” Sugerindo tacitamente, mas de maneira firme, que os sujeitos já tinham feito uma escolha, os investigadores foram capazes de justificar as escolhas – até mesmo escolhas que não tinham feito.

Técnicas para desviar a atenção também podem ser apreendidas a partir das habilidades dos batedores de carteira. Esses ladrões, que geralmente agem em lugares públicos abarrotados, confiam amplamente no desvio de atenção baseado em aspectos sociais – contato pelo olhar, contato corporal e invasão do espaço pessoal da vítima, ou “alvo”. Batedores de carteira também movem suas mãos de forma distinta, dependendo do propósito existente.

Eles podem completar um caminho curvo com as mãos se quiserem atrair a atenção do alvo para toda a trajetória do movimento, ou podem fazer um caminho rápido e linear se querem tirar a atenção do trajeto e rapidamente mudar a atenção do alvo para a posição final.

As bases neurocientíficas dessas manobras são desconhecidas, mas nosso colaborador Apollo Robbins, batedor de carteiras profissional, ressaltou que dois tipos de movimentos são essenciais para desviar a atenção do alvo de modo eficaz. Assim foram propostas diversas explicações possíveis e passíveis de teste.

Uma proposta é que os movimentos curvos e retos da mão ativam dois sistemas de controle distintos no cérebro para mover os olhos. O sistema “de busca” controla os olhos quando eles seguem objetos que se movimentam suavemente, enquanto o sistema “sacádico” controla os olhos por meio do sistema de busca do alvo, e os movimentos rápidos e retilíneos podem levar o sistema rápido dos olhos a assumir o controle.

Assim, se o sistema de busca do alvo é fixado na trajetória curva da mão do batedor de carteiras, o centro da visão do alvo pode ser desviado do lugar onde se esconde o ladrão. E se os movimentos rápidos e retilíneos ativam o sistema sacádico do alvo, o batedor tem a vantagem de a visão do alvo ser suprimida enquanto o olho salta de um ponto ao outro. (0 fenômeno é bem conhecido nas ciências da visão como supressão sacádica).

Outra explicação possível para os deslocamentos distintos das mãos é que os movimentos curvos podem ser perceptivelmente mais visíveis que os lineares, e por isso chamam mais a atenção. Se for verdade, somente o sistema de atenção do cérebro – e não qualquer sistema de controle para os movimentos dos olhos – é afetado pelo desvio de atenção manual do batedor de carteiras.

CONSCIÊNCIA CONDICIONADA

Nossos estudos anteriores mostram que as curvas e os cantos dos objetos são mais salientes e geram uma atividade cerebral mais intensa que extremidades retas. É possível que isso se deva ao fato de curvas e cantos acentuados serem menos previsíveis e redundantes (e, portanto, mais curiosos e informativos) que extremidades retas. Pelo mesmo padrão, trajetórias curvas são menos redundantes, e por isso mais salientes que as retilíneas.

As possibilidades de usar a mágica como fonte de ilusão cognitiva no isolamento de circuitos neurais responsáveis por funções cognitivas específicas parecem intermináveis.

Neurocientistas recentemente se apropriaram de uma técnica da mágica que faz com que voluntários associem dois eventos como causa e efeito enquanto imagens de seu cérebro eram gravadas. Quando o evento A precede o evento B, geralmente concluímos que, de um jeito certo ou errado, A causa B. O mágico habilidoso aproveita-se dessa predisposição ao certificar-se de que o evento A (digamos, derramar água em uma bola) sempre precede o evento B (a bola desaparecer). Na verdade, A não causa B, mas sua aparência anterior ajuda o mágico a fazer com que seja dessa forma. Psicólogos cognitivos chamam esse tipo de efeito de correlação ilusória.

Em um estudo feito em 2006 por Kuhn e pelos neurocientistas cognitivos Bem A Parris e Tom L. Hodgson, ambos da University of Exeter, na Inglaterra, foram exibidos vídeos de truques de mágica que envolviam violações aparentes de causa e efeito para sujeitos submetidos a ressonância magnética. As imagens do cérebro dessas pessoas foram comparadas com as de um grupo de controle: pessoas que assistiram a vídeos sem violação de causa aparente. Os pesquisadores descobriram uma ativação maior no córtex cingulado anterior entre os sujeitos que assistiram truques de mágica que entre os controles. A descoberta sugere que essa área do cérebro pode ser importante para interpretar as relações causais.

O trabalho de Kuhn e de seus colegas só dá os primeiros indícios do poder das técnicas de mágica para manipular a atenção e a consciência durante o estudo da psicologia cerebral. Se os cientistas aprenderem a usar os métodos da mágica com a mesma habilidade dos mágicos profissionais, também serão capazes de controlar a consciência de modo preciso e em tempo real. Se relacionarem o conteúdo dessa consciência com o funcionamento dos neurônios, terão os meios para explorar alguns mistérios da própria consciência.

ENGANO DO OLHO OU DA MENTE

Uma ilusão baseada na pintura Enigma, do artista francês lsia Léviant, costuma induzir à falsa sensação de movimento em fluxo nos anéis concêntricos (fixe o olhar no ponto central da figura). Mas a origem dessa ilusão está na mente ou no olho? A evidência era contraditória até que os autores e seus colegas mostraram que o movimento ilusório é causado por microssacadas – movimentos mínimos e involuntários do olho – que ocorrem durante uma fixação visual. É essencial conhecer as funções do olho e da mente antes de usar as ilusões da mágica nas ferramentas experimentais da neurociência.

VAMOS LER SEUS PENSAMENTOS!

Você consegue explicar os fantásticos resultados do seguinte experimento de leitura mental feito por Clifford Pickover, prolífico autor de livros populares sobre ciência e matemática? Faça um teste de Pickover aqui. Usando o sistema de Percepção Extrassensorial (PES) é possível predizer o resultado correto de sua escolha com 98% de precisão. Para começar, escolha uma das seis cartas acima e memorize-a.

Diga em voz alta o nome da carta várias vezes para não esquecê-la. Quando tiver certeza de que a memorizou, circule um dos olhos na fileira abaixo.

Agora, vá para a figura abaixo.

 NÓS LEMOS SUA MENTE

Retiramos sua carta!

Adivinhamos a carta que você escolheu na sequência acima? Se sim, o sistema PES de Pickover explica nossa resposta correta, ou há alguma explicação parecida? Não siga adiante a não ser que queira saber a resposta.

Desistiu? Olhe mais uma vez as cartas na sequência acima.

BRINCANDO COM A COGNIÇÃO

Neurocientistas estudam as formas usadas pelos mágicos para explorar lapsos mentais. Entre elas:

CEGUEIRA PARA A MUDANÇA: O observador não percebe mudanças feitas durante uma breve interrupção. Ex.: A cor dos acessórios é modificada entre as cenas.

CEGUEIRA POR DESATENÇÃO: O espectador não percebe fatos que estão totalmente à vista. Ex.: Uma pessoa vestida de gorila transita em uma cena e passa despercebida.

CEGUEIRA PARA A ESCOLHA: O espectador explica as razões para a tomada da decisão. Ex.: Um homem não percebe quando uma fotografia que escolheu é trocada por outra, em segredo, e explica sua “preferência” pela última.

CORRELAÇÃO ILUSÓRIA: Parece haver relação de causa e efeito entre dois eventos independentes. Ex.: O mágico balança a varinha e um coelho aparece.

NEURÔNIOS POR TRAS DAS ILUSÕES VISUAIS

Nem toda mágica é cognitiva. Explorar as propriedades bem conhecidas do sistema visual também pode levar a efeitos incomuns, entre eles:

COLHER TORTA: o mágico balança uma colher de modo que o cabo pareça flexível.

POR QUE FUNCIONA: Os neurônios do córtex visual sensíveis tanto ao movimento quanto a extremidades de uma linha respondem às oscilações de modo diferente que outros neurônios visuais. O resultado é uma aparente discrepância entre as extremidades de um estímulo e seu centro; um objeto sólido parece dobrar no meio.

RETENÇÃO DO DESAPARECIMENTO VISUAL: O mágico remove um objeto do campo visual, mas ele ainda fica visível durante determinado tempo.

POR QUE FUNCIONA: A pós-descarga neural produz imagens residuais por cerca de 100 milissegundos depois que um estímulo termina.

ESPIRAIS ROTATIVOS DE JERRY ANDRUS: Os espectadores olham para um disco rodando com três zonas de movimento em expansão e contração. Depois, quando olham para um objeto fixo, este também parece se expandir e contrair.

POR QUE FUNCIONA: Neurônios se adaptam de modo diferente aos movimentos nas três zonas do campo visual.

INDUZINDO NARRATIVAS FALSAS

Em um experimento foram mostrados pares de fotografias para os sujeitos (o) e pedido que escolhessem a imagem mais atraente (b). Depois de cada escolha os pesquisadores viravam as imagens para baixo (e) e usaram a prestidigitação para trocar algumas das imagens escolhidas pelas rejeitadas. A ” es colha”, então, era virada para cima e os sujeitos tinham de explicar a preferência. Mesmo quando a escolha mostrada era na verdade a imagem rejeitada (d), muitos sujeitos “explicavam” sua escolha. A ânsia das pessoas em ajustar o que falsamente pensam ser suas escolhas em uma narrativa internamente consistente pode, dessa forma, substituir a lembrança de suas verdadeiras escolhas.

COMO LIDAMOS COM O “IMPOSSÍVEL”

Durante um experimento, vídeos de truques de mágica que parecem retratar relações causais impossíveis, como fazer uma bola desaparecer (primeira fileira de fotos) foram exibidos para alguns sujeitos, enquanto eram submetidos a ressonância magnética cerebral. Um grupo de controle viu vídeos bem parecidos, com a exceção de que nenhum truque de mágica foi usado (fileira de baixo). As áreas demarcadas do cérebro (direita) mostram onde a atividade neural adicional aconteceu quando os sujeitos viam os vídeos de mágica em vez dos vídeos de controle.

EU ACHO …

CÉREBRO ELETRÔNICO: O QUE SEI É QUE É TÃO POUCO

Decididamente estou precisando ir ao médico e pedir um remédio contra a falta de memória. Ou melhor, uma amiga já me deu dois vidros de umas pílulas vermelhas contra a falta de memória, mas exatamente é minha falta de memória que me faz esquecer de tomá-las. Isso parece velha anedota, mas é a verdade.

Tudo isso vem a propósito de eu simplesmente não me lembrar quem me explicou sobre o cérebro eletrônico. E mais: tenho em mãos agora mesmo uma fita de papel cheia de buraquinhos retangulares e essa fita é exatamente a da memória do cérebro eletrônico. Cérebro eletrônico: a máquina computadora poupa gente. Os dados da pessoa ou do fato são registrados na linguagem do computador (furos em cartões ou fitas). Daí vão para a memória: que é outro órgão computador (outra máquina) onde os dados ficam guardados até serem pedidos.

Partindo deste princípio, chegamos ao definidor eletrônico: a partir de um desenho feito num papel magnético a máquina (ou o cérebro) pode reproduzir em matéria o desenho. Isto é: entra o desenho e sai o objeto (cibernética etc.) Há a experiência plástica, visual e também literária da reprodução (número e qualidade). A sensação é de apoio para o homem. Compensação do erro. Há possibilidade de você lidar com uma máquina e seus sensores como a gente gostaria de lidar com o nosso cérebro (e nossos sensores), fora da gente mesmo e numa função perfeita.

Bem. Acabo de dizer tudo, mas mesmo tudo, o que sei a respeito do cérebro eletrônico. Devo inclusive ter cometido vários erros, sem falar nas lacunas que, se fossem preenchidas, esclareceriam melhor o problema todo.

Peço a quem de direito que me escreva explicando melhor o cérebro eletrônico em funcionamento. Mas peço que use termos tão leigos quanto possível, não só para que eu entenda, como para que eu possa transmiti-los com relativo sucesso aos meus leitores.

Quando penso que cheguei a falar no mistério, que continua mistério, do cérebro eletrônico, só posso dizer como a gente dizia lá em Recife: Virgem Maria!…

Mas o amor é mais misterioso do que o cérebro eletrônico e no entanto já ousei falar de amor. É timidamente, é audaciosamente, que ouso falar sobre o mundo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A CULTURA DO DESAPEGO

O minimalismo, estilo de vida que prega ter menos bens e consumir só o essencial (inclusive na internet), faz sucesso com dupla de gurus na Netflix e a adesão de famosos

Há dez anos, Ryan Nicodemus encontrou o amigo Joshua Fields Millburn e ficou intrigado: 30 quilos mais magro e com um sorriso no rosto. Millburn parecia outra pessoa. A história dos jovens de Ohio, no Meio Oeste americano, convergia. Criados em famílias de baixa renda, por mães dependentes químicas, ambos mergulharam no mundo corporativo apostando que o acúmulo de bens seria o passaporte para uma vida melhor. O salário alto trouxe casas enormes e carros de luxo, mas também crises de ansiedade, relacionamentos frustrados e dívidas na casa dos 100.000 dólares. Quando sua mãe morreu de câncer e a então esposa pediu o divórcio, Millburn teve uma epifania: percebeu que “as coisas mais importantes da vida não são coisas”. Em questão de meses, livrou-se de mais da metade de suas posses. “Não sou alérgico a coisas ou dinheiro, mas decidi ter apenas o essencial”, disse ele. Inspirado por Millburn, Nicodemus fez seu próprio ritual de passagem em uma intervenção apelidada de “festa das caixas”. Tudo o que ele tinha em casa foi embalado. Ao longo de 21 dias, abriu só as caixas com utensílios de fato úteis. No fim do prazo, 80% delas continuavam fechadas – os itens sem função acabaram doados, vendidos ou descartados”. Eu me senti, de fato, rico”, disse, após a sessão de desapego.

Surgia assim a dupla de gurus que faz sucesso pregando um novo estilo de vida: o “minimalismo”. Os dois- hoje aos 39 anos – pediram demissão de seus empregos e fizeram fama entoando o mantra de que ter menos bens traz mais felicidade. Em 2010, criaram o blog The Minimalists – que atualmente soma 20 milhões de visitantes. Lançaram livros, podcast, canal no YouTube e viajam o mundo dando palestras. Dois documentários coroaram a jornada de popularidade: Mínimalismo, de 2015, e Minimalismo lá, lançado pela Netflix em janeiro deste ano. Os filmes apresentam desde depoimentos de quem aderiu ao movimento até vislumbres dos excessos das indústrias da moda e da tecnologia, que aceleraram os hábitos de consumo, produzindo mais e poluindo o planeta na mesma medida.

A nova cultura do desapego empresta o nome de um dos ”ismos” da arte contemporânea. Só que a corrente pós-moderna conhecida como minimalismo passa longe do evangelho da simplicidade dos gurus da Netflix: por trás de suas obras cerebrais, há uma superabundância de teorização. Faz mais sentido buscar as raízes do minimalismo comportamental em religiões orientais associadas a hábitos austeros, como o budismo e o hinduísmo. No Ocidente, a ideia já ganhava evidência nos anos 30, quando o filósofo Richard Gregg (1885-1974) criou o conceito da “simplicidade voluntária”. O americano deixou Harvard rumo à Índia para virar discípulo de Mahatma Gandhi (1869-1948) e, passou a condenar o “materialismo”.

No hiper conectado século XXI, o desapego ganhou novo fôlego e abarca uma ampla (e por vezes vaga) gama de hábitos, da compra de bens às refeições, passando pela espiritualidade. Celebridades como Keanu Reeves e Robert Pattinson seguem a vertente e doam boa parte dos milhões de dólares que embolsam. Buscas sobre o minimalismo alcançaram um pico no Google em 2019. Desde março de 2020, quando a pandemia obrigou a população a ficar em casa – e a notar a quantidade de coisas que possuía -, a média de visualizações de vídeos sobre o tema cresceu 70% no YouTube. Neles, casas pintadas de branco e com poucos móveis viram cenário para falar de meditação, decoração minimalista ou como ser um “consumista consciente”.

O que os minimalistas preconizam, no fundo, é uma nova ética do consumo, alicerçada em hábitos racionais. Um minimalista não para de fazer compras, mas o faz com menos frequência e prioriza itens de melhor qualidade. É o caso da curitibana Ana Desidério, de 33 anos, que inverteu a lógica do “tempo é dinheiro”. “Toda vez que compro algo desnecessário estou gastando meu tempo de trabalho nisso”, diz. A atriz cria o filho, Arthur, de 3 anos, à luz do conceito. “Fazemos brinquedos com material reciclável,” afirma. Tais hábitos se expandiram para a vida digital. A assistente social paulista Regina Lima, de 49 anos, “enxugou” os contatos nas redes sociais para alimentar relações mais intimas e perder menos tempo on-line. O minimalismo veio depois que ela se viu com uma dívida de 70.000 reais e precisou de um empréstimo de emergência. “Consumismo é uma doença difícil de vencer”, diz. Regina congelou o cartão de crédito – literalmente – no freezer. Hoje, só compra à vista e investe o que sobra. O mínimo pode ser o máximo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE MARÇO

MENTE LÚCIDA, HONRA CERTA

Segundo o seu entendimento, será louvado o homem, mas o perverso de coração será desprezado (Provérbios 12.8).

Deus nos criou à sua imagem e semelhança, por isso podemos pensar, refletir e ter entendimento acerca das coisas visíveis e invisíveis, materiais e espirituais. A falta de entendimento é uma degradação da natureza humana. Torna o homem uma fera selvagem ou faz dele uma mula que precisa de freio para ser governada. É por isso que o perverso de coração será desprezado, pois toda a cogitação da sua mente mira a autogratificação ou a exploração do próximo. Ele emprega sua inteligência para fazer o mal, e não para promover o bem. Por isso, sua memória será maldita na terra. Por outro lado, aqueles que usam seu entendimento para promover o bem alcançam os maiores louvores. Nossa inteligência é uma dádiva de Deus. Devemos usá-la para desenvolver nossos dons e talentos e colocá-los a serviço do nosso próximo. Não vivemos nem morremos para nós mesmos. Nossa vida precisa ser útil, e nossa morte deve ser um exemplo. Nossa vida tem de desafiar as pessoas no presente, e nossa morte precisa deixar um legado para o futuro. Não devemos entrar para o rol daqueles que são desprezados; podemos fazer parte daqueles que são louvados na terra e amados no céu.

GESTÃO E CARREIRA

UMA OPERAÇÃO DE GUERRA                                               

O que as empresas devem fazer para amenizar os efeitos da pandemia que ameaça a saúde dos funcionários – e o futuro dos negócios

No final do século 17, havia um consenso por toda a Europa de que cisnes eram brancos. Até que ornitólogos depararam com uma ave negra, derrubando uma teoria já consagrada. Desde então, a expressão “cisne negro” se tornou sinônimo de um evento imponderável, que vira nossas crenças de cabeça para baixo. No mundo dos negócios, o termo indica problema – e dos grandes. E foi justamente assim que a Sequoia Capital, um dos fundos mais importantes do Vale do Silício, definiu a atual situação. Em um relatório intitulado Coronavírus: o Cisne Negro de 2020 e enviado a CEOs e fundadores de startups no início de março, a empresa escreveu: “Ao resistir a todas as crises em quase 60 anos, aprendemos uma lição: ninguém se arrepende de fazer ajustes rápidos e decisivos para mudar as circunstâncias. Uma característica que diferencia empresas, duradouras é a maneira como seus líderes reagem a momentos como esses. Os seus empregados sabem da covid-19 e se questionam como você reagirá. Evite o falso otimismo, seja clinicamente realista e aja de forma decisiva. Demonstre a liderança de que sua equipe precisa neste período estressante”.

A crise é incomum. Diferentemente das demais, ela ataca várias frentes: ameaça a saúde de funcionários, causa ruptura na cadeia de suprimentos, afeta vendas e impõe o isolamento social. “Nenhuma companhia, seja microempresa, seja multinacional, está 100% preparada para algo assim”; diz Marcelo Rivani, professor de gestão de pessoas e inovação no lbmec.

Até o fechamento desta matéria no início de março, o vírus já havia contaminado mais de 2,5 milhão de pessoas mortas e 114,5 milhões de contaminados em todo o mundo, segundo a Universidade Johns Hopkins. No Brasil as previsões econômicas pessimistas se confirmaram: a FGV projetou, uma retração de 4;4 % na economia, e a gestora de investimentos XP previu 40 milhões de desempregados.

Nesse contexto, diz Jerri Ribeiro, professor de gestão de riscos na escola de negócios Saint Paul e sócio da PwC, duas preocupações devem orientar as demais: a saúde dos empregados e a continuidade da operação – nessa ordem. Definida essa premissa, vem o plano de ação. O primeiro passo é criar um comitê de crise com os principais executivos. “Sem isso, não há capacidade de reação nem velocidade nas respostas”, afirma o especialista.

Foi o que fez a Linx desenvolvedora de softwares de gestão para redes de varejo. Com 3.500 empregados em São Paulo e 15 filiais em nove estados brasileiros e em cinco países (Estados Unidos, Argentina, Chile, México e Holanda), assim que o problema ganhou  corpo no Brasil  em meados de março, a empresa formou um comitê gestor de crise com o CEO, Alberto Menache, os cinco vice-presidentes e pessoas imprescindíveis, como a médica-chefe do ambulatório da matriz, onde está um terço da equipe. Flávio Menezes, vice-presidente de pessoas e marketing, conta que a partir daí várias ações simultâneas foram adotadas. Para começar, houve um mapeamento do efetivo considerado de risco: gestantes, pessoas com mais de 60 anos, hipertensos, fumantes e diabéticos foram imediatamente migrados para o esquema de home office; e todos que tinham voltado de viagem de países considerados endêmicos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ficaram 14 dias em casa, mesmo sem sintomas. “Cancelamos participações em eventos, suspendemos viagens e determinamos que todo contato com clientes e fornecedores fosse virtual. Também reforçamos a infraestrutura tecnológica para atingir 100% de trabalho remoto e conscientizamos as pessoas dando a elas o máximo de informações”, afirma o executivo.

Fátima Motta, especialista em gestão de crise da plataforma de educação HSM e professora de gestão de competências na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), diz que deixar uma única pessoa despachar sozinha (ainda que seja o dono da companhia) é desaconselhável e insensato em cenários confusos e complexos como o do coronavírus. ”Estou vendo e ouvindo sobre profissionais que trabalham 12, 14 ou até mais horas por dia. Não há ser humano que aguente isso. Líderes também precisam descansar.” Por isso, de acordo com ela, é essencial “compartimentar a crise”, dividindo as tarefas e descentralizando a tomada de decisão: Um executivo cuida da disseminação de boas práticas no home office; outro, do monitoramento do grupo de risco; um terceiro, dos funcionários que não podem deixar a empresa; e assim por diante.

DRIBLANDO DIFICULDADES

De acordo com uma pesquisa da Citrix, multinacional americana especializada em workplaces digitais apenas 32% das companhias brasileiras permitiam o home office em 2019. O levantamento sugere o tamanho do susto que a maioria delas tomou diante da necessidade de mandar os empregados para casa. Segundo especialistas, de supetão, muitas organizações mal conseguiram garantir uma infraestrutura mínima. Nessa hora, o RH precisa ser funcional, seguindo passos ordenados, como levantamento das necessidades dos funcionários, disponibilização de computadores com acesso a VPN, que permite conexão remota segura, criação de plantão de dúvidas e organização de treinamentos para auxiliar na nova rotina.

Tão complicado quanto colocar 100 % das pessoas em home office é não ter essa prerrogativa, caso de companhias com força fabril ou negócios que demandam presença física. Nesses casos, o desafio é grande. Isso por que estudos sugerem que o novo vírus sobrevive por até nove dias em superfícies de metal, vidro e plástico. Em baixas temperaturas, por até 28 dias. “É uma doença nova, em grande parte desconhecida pela comunidade científica, e por isso exige cuidados redobrados”, diz o médico Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da OMS para as Américas.

Na Ambev, gigante multinacional do setor de bebidas, com quase 50.000 funcionários, nem todos puderam ser liberados para atuar de casa. Por isso, Ricardo Melo, vice-presidente de gente e gestão, faz reuniões diárias para acompanhar a situação com o comitê de crise contra o coronavírus. Uma das medidas imediatas da companhia foi criar um protocolo de segurança detalhado e rígido para os times comerciais. “Reduzimos o tempo de permanência no ponto de venda e criamos uma nova política de conduta social, sem aperto de mão nem compartilhamento de itens, como canetas”, afirma o executivo.

Nas cervejarias, a rotina de limpeza foi ampliada nas áreas de maior contato e circulação de pessoas, e refeitórios foram reposicionados para garantir a distância recomendada pela Organização Mundial da Saúde entre o pessoal. O número de fretados também aumentou para que ninguém embarque ao lado de um colega no mesmo assento.

Para evitar o pânico e as fake news, a empresa reforçou a comunicação divulgando em detalhes as medidas adotadas e distribuindo guias sobre como se manter seguro e evitar transmissão e contágio. “A desinformação é perigosa porque pode confundir os funcionários sobre como agir. Combatemos a covid-19 espalhando informação. Além dos comunicados, produzimos vídeos com nossa médica esclarecendo as principais dúvidas.”.

A FORÇA DA TRANSPARÊNCIA

A comunicação é uma das armas mais poderosas para combater os efeitos da coronavírus no moral das equipes. Quando a empresa hesita ou falha em suas orientações e explicações, os trabalhadores ficam tensos, desengajados e com raiva da companhia o que compromete a produtividade. E dá para evitar esse tipo de sentimento com medidas simples, como o envio de boletins diários sobre as diretrizes tomadas, encontros virtuais com CEO e executivos para passar atualizações do negócio e videoconferências entre as equipes para que troquem experiências e se mantenham sintonizadas.

A plataforma Glassdoor captou relatos de trabalhadores em mais de 100 países e ouviu companhias para montar uma fotografia da situação. Concluiu que, neste momento, os profissionais estão ávidos por atualizações e desejam ouvir das lideranças o que está sendo feito para combater a crise, inclusive estrategicamente, visto que temem por seus empregos. “Notamos muitas empresas pressionadas a dar respostas rápidas, estruturar home office e reforçar os procedimentos de segurança. Valores são lindos no papel, mas a vida real é o que conta”, diz Luciana Caletti, vice-presidente para a América Latina do Glassdoor. Se não priorizam a transparência e o foco nas pessoas, os negócios correm o risco de acabar na UTI, morrendo por falta de ar.

DE TEMPOS EM TEMPOS

Relembre outras epidemias que assolaram o planeta

DICAS SANITÁRIAS

O que fazer se você não pode colocar todos os empregados em home office

*** Limpe superfícies com desinfetantes à base de hipoclorito de sódio (o popular cloro.) Eles são mais eficazes do que o álcool em gel nesse caso.

*** Oriente seus profissionais a manter a distância social de pelo menos 1 metro entre as pessoas

*** Abra janelas, deixando o sol e o ar entrar no ambiente de trabalho, e higienize constantemente maçanetas, botões de elevadores, corrimãos, bancadas compartilhadas, marcadores de ponto, catracas e todos os objetos tocados por diversas pessoas.

*** Banheiros são críticos e, como não podem ser fechados, devem ter limpeza reforçada em torneiras, pias, descargas e vasos sanitários.

*** Trabalhadores que têm contato com o público precisam limpar as mãos sempre que tocarem em dinheiro e objetos de terceiros

*** Qualquer funcionário que apresente um dos principais sintomas (tosse seca, dores no corpo ou febre) deve ficar em casa por 14 dias.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O JOGO DAS EMOÇÕES

Alegria, tristeza, indignação, raiva, medo… O que sentimos influi em nossos pensamentos e ações. Ou seriam resultado do que vivemos e pensamos? A forma como os afetos surgem, suas funções e influências sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores

Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois, irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu lado ou sente medo do pit bull que um homem leva preso à coleira. No momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional para ajudá-lo; ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem esqueceu o aniversário de um grande amigo.

Algumas emoções nos absorvem – completamente, outras ressoam discretamente; algumas são terríveis, outras muito boas – mas todas vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo menos é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem nem mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, ou têm dificuldade em perceber o que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos, quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?

As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, “animalescos” e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do século XIX – com o surgimento da primeira teoria das emoções, desenvolvida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange (1834-1900). Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos.

Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que experimentamos quando esse estado se altera devido a acontecimentos do meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que não choramos porque estamos tristes, mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações físicas, como a dilatação dos vasos sanguíneos, fossem emoções. No entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações corporais permaneciam frias e insípidas.

SENTIR PARA PENSAR

A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso estado físico não se altera, mas experimentamos, mesmo assim, diversos sentimentos – e isso frequentemente depende apenas do que pensamos, seja na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.

Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher lança-lhe um olhar indignado – o que inevitavelmente lhe desperta sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia ter evitado a situação se tivesse prestado mais atenção, então provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.

ESPIÃO E ADRENALINA

Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer comprovaram por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem – os voluntários foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados, um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um “cúmplice” dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação – sempre de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.

Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções representadas pelo “espião”. Ao que tudo indica, portanto, estímulos internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos experiências emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.

As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho cerebral percorrido pelo sinal que passa ao largo do córtex cerebral – a sede da consciência. Esse atalho possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de queimado ou visão de algo perigoso.

As duas clássicas teorias das emoções – a “centrada no físico”, de James e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer – são parciais e não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes características:

1. típicas alterações fisiológicas, como coração acelerado, suor ou inquietação motora;

2. comportamentos específicos, como a mímica corporal;

3. a vivência subjetiva de perceber como é estar em um determinado estado emocional;

4. pensamentos associados a essa experiência;

5. existência de “objeto intencional”, ao qual se refere a emoção. É comum que se recorra também a “checagens avaliadoras”: entre outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento, pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente perigoso. Em seguida, coloca-se a questão: se esse acontecimento deve ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo (temerário, doloroso, desagradável). A isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e se ela “se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.

Inúmeras combinações dessas s características determinam a enorme extensão de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer, que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o que ele chama de “um complexo modelo processual das emoções” que, resumido em linhas gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento – digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida – inicialmente apenas a sua excitação interna cresce. Se o julgamento a seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente surpreso; se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus objetivos e contribui para melhorar sua autoimagem, esse sentimento acaba se transformando em orgulho. Do ponto de vista da psicologia evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis: pré-emoções, emoções básicas, emoções cognitivas primárias e secundárias.As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas.

ORGULHO OU VERGONHA?

Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, autoeficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral – e sentimos medo. Ao lado desse processamento rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma representação mais exata do objeto – o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim como reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maioria de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.

Nos níveis seguintes, os pensamentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação – como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua-se uma “mini-teoria” sobre expectativas e normas sociais – por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso de pende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.

Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal; já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas qualidades nobres.

Imagine que um menino de 10 anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogio-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente – e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amor dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.

MARCADORES SOMÁTICOS

O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas:

1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida;

2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir);

3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias intenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável);

4. ajuda ia no controle das relações sociais.

O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de “filtro” para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto externos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos – e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros -, mais fácil fica manter o equilíbrio e nos cuidar.

Os neurobiólogos Hanna e Antônio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos da Universidade de Iowa, demonstraram na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo e a consequente concretização de planos estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível de inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas e não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais. Nesse caso fica claro que a avaliação emocional no córtex pré-frontal do lobo frontal é crucial: se ela falha devido a algum distúrbio, as pessoas afetadas tomam decisões insensatas. Falta-lhes a memória emocional necessária de situações anteriores semelhantes, o que constitui nosso patrimônio emocional.

Damásio havia tornado esse conceito popular há alguns anos como “teoria dos marcadores somáticos”, segundo a qual todas as experiências de um indivíduo são assinaladas afetivamente. Assim, quando uma pessoa precisa decidir, faz uma rápida avaliação inconsciente da situação. Pessoas com um córtex pré-frontal lesionado, no entanto, não conseguem resgatar as marcas anteriores, sendo consequentemente obrigadas a reavaliar toda situação desde o início. É como se nunca aprendessem com suas escolhas, como se cada vez fosse a primeira.

Outros processos cognitivos são também fortemente dependentes de processos emocionais. Podemos, por exemplo, lembrar melhor de eventos associados a alguma emoção que de conteúdos matemáticos abstratos (a não ser que eles nos provoquem grande alegria ou irritação). O aprendizado é quase sempre mais fácil quando nos encontramos bem emocionalmente ou estamos afetivamente ligados àquele que nos ensina. Por outro lado, sentimentos negativos duradouros decorrentes de distúrbios afetivos como a depressão ou o estado de excitação exagerada (mania), assim como suas fases intermediárias alternantes, afetam a sensibilidade geral – e a capacidade cognitiva, que também se apresenta de maneira deprimida ou excitada.

O fato é que as emoções são indispensáveis para a interação e ação interpessoal: sem elas, os fundamentos para uma rotina bem-sucedida deixariam de existir. Além disso, as emoções estão intimamente ligadas aos processos cognitivos – elas são essenciais para a capacidade de aprendizagem implícita e inconsciente, assim como para as decisões sensatas. Em outras palavras: nossos sentimentos definem essencialmente quem somos e o que fazemos.

FUNCIONAMENTO DOS CIRCUITOS AFETIVOS

O sistema nervoso central desperta, regula e integra respostas emocionais. O córtex cerebral está envolvido na identificação, avaliação e tomada de decisões com base em dados sensoriais. Os pensamentos, expectativas e percepções desempenham papéis importantes para manter e dissolver afetos. A formação reticular, uma rede de células neurais alerta o córtex para informações sensoriais. Os dados a respeito de eventos despertadores de emoção são filtrados por esse sistema. A formação reticular desperta a atenção do córtex.

O sistema límbico, um grupo de circuitos inter-relacionados desempenha papel regulatório nas emoções e motivações. Embora as funções precisas de cada estrutura ainda não sejam claras, é certo que a informação sensorial passa pelo sistema límbico em sua trajetória para o córtex. Esse emite mensagens para outras áreas cerebrais. O hipotálamo, uma estrutura límbica responsável pela ativação do sistema nervoso simpático durante emergências está envolvido em situações de medo, raiva, fome, sede e atração sexual.

EU ACHO …

FAMILIARIDADE

Ando numa fase um pouco perigosa. É que estou estabelecendo contato com as pessoas com tanta facilidade que alguma ainda me acontece. Nesta fase, todo o mundo ou é meu irmão, ou meu filho, ou meu pai e minha mãe. No último domingo estive em perigo. Eu tentava pegar um táxi, o que nos domingos é mais difícil pois muita gente que nunca anda de táxi resolve sair do sério e tomar. Não encontrei nenhum no lugar onde geralmente acho com facilidade, e resolvi caminhar até um ponto deles: estava vazio, a rua limpa. Fiquei ali mesmo esperando que algum aparecesse. Depois de muito tempo quem apareceu foi um grupo de pré-adolescentes, de uns 14 anos cada, não mais. As duas mocinhas de saia pelo meio das coxas, um dos meninos de cabelos crescidos até metade do pescoço. Junto de mim pararam, e a conversa deles era insolente e falsamente livre. Pensei: estão esperando táxi, quem vai ganhar são eles, pois sempre me recuso a correr, acho feio correr. Pensamento vai, pensamento vem, resolvi perguntar: “Vocês estão esperando táxi?” Resposta em tom malcriado de um deles: “Estamos.” Eu disse: “Mas o primeiro que vier vai ser meu, pois estou aqui há mais tempo que vocês.” O menino cabeludo respondeu com o pior tom de voz: “E por que é que eu…” Interrompi-o: “Por causa do que eu já disse, e porque eu podia ser mãe de vocês e não pretendo disputar táxi com um filho meu.” Eles ficaram por meio segundo me olhando perplexos, e então o menino respondeu com a voz inteiramente obediente e de súbito como uma criança mesmo: “Sim senhora.”

O perigo passara.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

INFLUÊNCIA EM GRANDE ESTILO

A força das mulheres que não seguem padrões de beleza e ideais ultrapassados de feminilidade não pode mais ser ignorada. O arrebatador sucesso de personalidades como MC Carol, Jojo Todynho e a americana Lizzo são a prova dessa nova realidade

Se há cerca de dez anos o sonho de muitas mulheres era ser como uma modelo de lingerie da clássica marca Victoria’s Scret, hoje o cenário é outro. A empresa que levou manequins como as brasileiras Adriana Lima e Gisele Bündchen ao imaginário popular do que significa ser uma mulher bonita, hoje enfrenta dificuldades financeiras. Com diversos processos de falência em vários países em que opera, mais o fechamento de 250 lojas e o encerramento de seus desfiles televisionados, a marca que era sinônimo de modelos altas e magras, pode não sobreviver à pressão popular. Agora é o tempo de mulheres como Jojo Todynho, Mc Carol ou da americana Lizzo, muito mais próximas do mundo real.

Não é de hoje que as mulheres não se sentem representadas pelo que veem nas passarelas e a derrocada da gigante de lingeries é apenas um sintoma do que está por vir. A busca pelo corpo perfeito que entra em roupas minúsculas e padronizadas oferecidas pelas lojas de departamento, ainda não acabou por completo. Mas a mudança é irreversível e aparece nos mais variados setores do consumo, sendo acelerada pelas mídias sociais. Acesso à informação, pluralidade de ideias discutidas por qualquer pessoa com acesso à internet e pura ousadia transformaram a indústria da beleza: não há mais um padrão a ser seguido. A mulher de feição europeia: loira, magra e de olhos azuis ainda vende, claro, mas há tempos não é a escolha principal das empresas na hora de fazer publicidade, já que esse biotipo representa apenas uma pequena parcela da população do País.

Mc Carol, cantora, negra, gorda e periférica, como gosta de se apresentar, define o momento: “Estamos brilhando e não podemos mais ser ignoradas”, disse ela à ISTOÉ. Mc Carol, nome artístico de Carolina de Oliveira Lourenço, acaba de ser capa de uma das revistas de moda mais importante do mundo, a Elle, publicada em dezenas de países. O mesmo acontece com a cantora americana Lizzo, que foi a primeira mulher negra e obesa a aparecer na capa da Vogue, considerada a bíblia do mundo fashion. “Cresci ouvindo muita besteira, sabendo que ser negro é lutar contra ser diminuído e ser mulher e negra é ter que lutar muito mais. Eu nunca me via representada, me ver na capa da revista foi um sonho”, diz. Lizzo foi além e também desfilou, de fio dental e meia arrastão, para a marca de lingeries Fenty, da cantora Rihanna. Os desavisados que comentam na internet que cultuar a gordura é errado e que essas pessoas não deveriam ser exemplo de nada, perdem o foco da discussão. Aqui se fala em representatividade e não em regras de conduta. Mulheres gordas e negras existem, fazem sucesso e nunca lucraram tanto como agora.

Por falar em dinheiro, a cantora e influencer Jojo Todynho, nome artistico de Jordana Gleise de Jesus Menezes, acaba de ganhar R$ 1,5 milhão como vencedora do reality show “A Fazenda”, da Rede Record. No início do programa era comum ver comentários de fãs da atração dizendo que não iriam assistir à edição por terem “nojo” da participante. Palavras pesadas e que nem sempre foram levadas com leveza por Jojo. “Nunca me importei com julgamentos e carrego comigo somente as opiniões que me fazem crescer. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas é obrigado a respeitar”, diz. Foi sua participação em “A Fazenda”, inclusive, que garantiu boa parte desse respeito à Jojo. Na telinha ela mostrou que era “uma pessoa normal”. Sua personalidade, frases de efeito e jeito brincalhão conquistaram o Brasil e contratos “bem gordos” para ser a garota-propaganda de diversas marcas nacionais. Com mais de 15 milhões de seguidores só no Instagram, Jojo começou a fazer sucesso ao participar de biquíni em um clipe da cantora Anitta. Depois veio o hit “Que tiro foi esse?” tocado à exaustão e que rendeu à cantora dinheiro para ajudar a família. Hoje ela diz não se ver como milionária, mesmo com o prêmio que recebeu. “Sou uma trabalhadora que está alcançando seus objetivos com muito foco e dedicação. Tenho muita estrada pela frente, muitas lutas e conquistas. E sinto que estou pronta pra isso”, afirma. Tanto Jojo quanto Mc Carol já se cansaram de ouvir gente opinando sobre seus corpos e sugerindo dietas milagrosas. Se quiserem perder peso, o farão e se quiserem se aceitar como são, tudo bem também. Cabe apenas a elas decidir o destino de seus corpos. E quando o assunto é regime, Mc Carol é implacável: “Não sei se pode falar palavrão aqui então… Acho que o melhor seria mandar cada um olhar para sua própria vida”, diz.

Os últimos dados do IBGE, de 2019, apontam a realidade: uma em cada quatro pessoas acima de 18 anos estava obesa, o equivalente a 41 milhões de pessoas. Já o excesso de peso atingia 60,3% da população, o que corresponde a 96 milhões de pessoas, sendo que 62,6% são mulheres e 57,5%, homens. Mas o que isso significa? Que devemos abandonar uma dieta saudável e adotar o sedentarismo porque ser gorda está na moda? Não. Significa que devemos aceitar as pessoas como elas são, independente do possível nível de colesterol que ela possa vir a ter. Afinal, a anorexia e o excesso de magreza de muitas celebridades chegam a ser motivo de elogio e não causa de preocupação pelo exemplo que podem dar para a juventude. Agora é a vez das gordinhas!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE MARÇO

A CASA DO JUSTO, FIRMEZA NA TEMPESTADE

Os perversos serão derribados e já não são, mas a casa dos justos permanecerá (Provérbios 12.7).

Os perversos, não poucas vezes, tornam-se fortes e poderosos na terra. Adquirem riquezas ilícitas, saqueiam os pobres, torcem as leis e violam o direito dos inocentes. Colocam o seu ninho entre as estrelas e blindam-se com armaduras de aço. Pensam que seu dinheiro e seu prestígio político podem lhes dar segurança. Porém, o castelo dos perversos é um castelo de areia. Quando a tempestade chega, essa casa cai, e há grande ruína. Mesmo que os perversos escapem da justiça dos homens, não escaparão do reto juízo de Deus. Mesmo que sejam aplaudidos na terra, não serão aprovados no céu. Os justos nem sempre são notados na terra. Muitas vezes, enquanto o ímpio prospera, o justo é castigado. No dia da tempestade, contudo, enquanto a casa deste permanece de pé, a casa daquele entra em colapso. Porque o justo fez de Deus o seu alto refúgio e edificou sua vida sobre a rocha que não se abala, a chuva pode cair no seu telhado, os ventos podem bater em sua parede, e os rios podem chicotear seu alicerce, mas ele permanecerá imperturbavelmente de pé. A firmeza dos perversos é apenas aparente, mas a estabilidade dos justos é real. A casa dos perversos pode ser opulenta por um tempo, mas perecerá eternamente, ao passo que a casa do justo permanecerá para sempre.

GESTÃO E CARREIRA

ADEUS À AZULZINHA

Lançado em novembro de 2019, o Programa Verde Amarelo propõe desonerar a folha de pagamentos para estimular a contratação de jovens

Em novembro de 2019, quando o presidente Jair Bolsonaro lançou o Programa Verde Amarelo, o Brasil contava com 11,9 milhões de pessoas sem trabalho, sendo os jovens os mais afetados pelo desemprego. Por isso, a ação, idealizada pelo ministro Paulo Guedes, foi criada para estimular a contratação de profissionais entre 18 e 29 anos.

Com a promessa de criar 1,8 milhões de vagas até 2022, a Medida Provisória. Nº. 905/2019 aposta principalmente na desoneração da folha de pagamentos das empresas. Entre as alterações que ela propõe estão a diminuição da contribuição patronal do FGTS de 8% para 2%, a redução da multa em caso de demissão sem justa causa de 4º% para 20% e a isenção do pagamento de alíquotas ao Sistema S pelas companhias.

Entre as exigências, está a duração do contrato por, no máximo, dois anos e somente para novos postos de trabalho. Ou seja, as empresas não podem demitir funcionários CLT e contratá-los sob o novo regime.

O número de admissões também é limitado a 25% do quadro das companhias, que devem respeitar o teto de um salário mínimo e meio pago por trabalhador.

PRÓS E CONTRAS

A medida dividiu opiniões. Alguns argumentam que, além de modernizar as relações trabalhistas, ela será um incentivo necessário em meio ao período de lenta recuperação econômica – cenário que deve piorar por causa da pandemia de coronavírus. “A folha de pagamentos é um dos maiores encargos das empresas, então, sem sombra de dúvidas a medida favorecerá a abertura de vagas”, afirma a advogada Camila Fernanda da Silva, do escritório PSG Advogados.

Para os críticos, a proposta carece de efetividade. “A Reforma Trabalhista, aprovada pelo governo Temer, seguiu a mesma linha de flexibilizar a CLT e não conseguiu entregar os resultados prometidos. Não há dados que comprovem que baratear a mão de obra, sem nenhum outro estímulo à economia, traga benefícios”, diz o ádvogaa0 Pedro Villas Boas, do escritório Villas Boas e Reigada Advogados,

Outra polêmica é que, segundo estimativas do próprio governo, para bancar as novas vagas criadas sem o pagamento dos impostos, a União deixará de arrecadar 10 bilhões de reais por ano. Unia das soluções propostas foi a taxação de 7,5% para o INSS dos trabalhadores que recebem seguro-desemprego. “Não é pouca coisa você retirar esse montante do orçamento sem a garantia de que o dinheiro voltará para a economia”, diz Pedro.

COMO FICA O RH?

Por se tratar de urna medida provisória, ela entrou em vigência no momento em que foi assinada pelo presidente. De acordo com o documento, as empresas poderiam contratar sob o regime Verde Amarelo a partir de 12 de janeiro de 2020. Na prática, porém, as companhias estão receosas.

Primeiro porque, embora tenha sido aprovada na comissão mista do Congresso em março de 2020, a MP está pendente de votação no plenário da Câmara e no Senado. Caso isso não ocorra até o dia 20 de abril, a portaria perderá a validade. “Há muita insegurança jurídica e, por isso, ocorre a baixa adesão. A expectativa é que, com a aprovação, algumas empresas passem a adotar o modelo e a medida ganhe escala”, afirma Rosana Marques, gerente de recursos humanos da consultoria Crowe Horwath.

Mesmo que as questões legais sejam resolvidas, Rosana lembra que o RH deverá se esforçar para engajar esses profissionais que, por estarem em um contrato com menos direitos trabalhistas, poderão se sentir menos integrados à empresa. “Será necessário alinhar as práticas e os benefícios para mostrar que, do ponto de vista organizacional, não há distinção entre os empregados”, diz.

Outra dica é oferecer apoio para os interessados em crescer na companhia. “Poderá ser criado, por exemplo, um plano de carreira específico para esse grupo”, diz Rosana. O trabalho que muitas empresas fazem com estagiários e jovens aprendizes pode ser um norte para os RHs. Isso porque está mais do que provado que investir em talentos desde a base traz benefícios para todo mundo.

ANTES E DEPOIS

O que muda no Programa Verde Amarelo em relação ao contrato CLT

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TEMPERO PARA CURAR

Pesquisadores investigam como a curcumina, ingrediente do curry, pode combater doenças autoimunes, Parkinson, câncer e impedir o acúmulo de placas amiloides que afetam o cérebro e fazem o Alzheimer avançar

Há pouco tempo, diversos compostos naturais, como o resveratrol do vinho tinto e os ácidos graxos ômega-3 do óleo de peixe, começaram a ser investigados mais profundamente depois que pesquisas indicaram seu potencial para proteger o cérebro e prevenir doenças a custos baixos, com poucos efeitos colaterais. O açafrão-da-índia, pó amarelo-alaranjado da planta asiática Curcuma longa, está nessa lista. Ele já não é apenas um ingrediente dos pratos orientais que, desde os tempos antigos, tempera a comida e evita que ela estrague.

Nos últimos anos, mais de 300 artigos científicos e técnicos mencionaram componentes biologicamente ativos do açafrão-da-índia – a curcumina – no banco de dados PubMed, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, ante pouco mais de 100 há apenas cinco anos. Segundo um dos capítulos de um livro a ser lançado em breve, a curcumina e compostos relacionados, os curcuminóides, possuem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, antivirais, antibacterianas, antifúngicas e antissépticas, com atividade potencial contra doença de Alzheimer, Parkinson, câncer, diabetes, alergias, artrite e outras enfermidades crônicas. Na Universidade Johns Hopkins estão sendo investigadas as propriedades da curcumina, que podem proteger o sistema nervoso de prejuízos de doenças neurodegenerativas como o Parkinson. Cientistas já e observaram que a substância age sobre e proteínas que provocam a morte de neurônios: ao entrar em ação, diminui a proporção de células danificadas de 50% para cerca de 20%.

Pesquisadores também investigam como o condimento e seus derivados poderiam ser usados em tratamento ou medicamento preventivo de baixo custo para alguns dos males mais temidos. Apoiado em resultados positivos obtidos em pesquisas com roedores, Greg Cole, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, está organizando um ensaio clínico em humanos para testar se a curcumina é capaz de impedir o acúmulo de placas amiloides que sobrecarregam o cérebro dos pacientes com doença de Alzheimer. Caso seja bem-sucedido, ele planeja propor formulações a serem misturadas no óleo de cozinha e outros alimentos para impedir a acumulação de placas – receita disponível a ricos e pobres em um mundo em envelhecimento.

Por ter muitas vias biológicas como alvos, a curcumina poderia também melhorar a terapia de combate ao câncer: como as células comprometidas adquirem lentamente resistência à substância, elas teriam de passar várias mutações a fim de evitar ataque. Mas o composto estaria pronto para uso generalizado? Alguns estudos carecem fundamentos para precaução. Há pesquisas que mostram como composto capaz de afetar tantas biológicas pode atingir o interruptor errado – e causar um desastre.

Conhecido como haldi em hindi, jiang huang em chinês e manjai em tâmil, o açafrão-da-índia tem uma história medicinal de mais de 5 mil anos longo do tempo, foi usado como medicamento para tratar feridas, purificação do sangue e problemas do estômago. O primeiro registro de pesquisas sobre a atividade biológica da curcumina na PubMed, data de 1970, quando grupo de pesquisadores indianos relatou os efeitos da substância sobre os níveis de colesterol em ratos. O ritmo dos estudos se intensificou nos anos 90; um dos líderes foi o pesquisador indiano de tratamentos contra o câncer, Bharat Aggaiwal.

Na década de 80, a equipe coordenada por Aggaiwal foi a primeira a purificar duas importantes moléculas do sistema imune – os fatores de necrose tumoral (TNFs, na sigla em inglês) alfa e beta -, identificadas como possíveis compostos anticancerígenos. Essas moléculas podem, de fato, matar células doentes quando empregadas em áreas localizadas, mas, se colocadas para circular na corrente sanguínea, agem como potentes causadores de tumores. Os TNFs ativam uma proteína importante, o fator nuclear kappa B (NF-kappa B), que então passa a estimular uma série de genes envolvidos na inflamação e proliferação celular.

A ligação entre inflamação e proliferação desenfreada de células doentes incitou Aggaiwal a voltar às suas raízes. Em 1989, ele se transferiu para o Centro de Câncer M. D. Anderson, da Universidade do Texas, e começou a procurar compostos que pudessem interromper a inflamação e ter efeito anticancerígeno. Lembrando-se de sua juventude na Índia, onde o açafrão era um antiinflamatório da literatura aiurvédica, ele decidiu dar uma chance à especiaria. “Pegamos um pouco na cozinha e jogamos em algumas células. Não dava para acreditar. Bloqueou inteiramente o TNF e o NF-kappa B.”

Mais tarde, Aggarwal publicou estudos mostrando que o bloqueio da via do NF-kappa B com a curcumina inibe a replicação e disseminação de vários tipos de células do câncer. Esse trabalho serviu de trampolim para ensaios clínicos iniciais de pequeno porte no M. D. Anderson, utilizando a curcumina como terapia adjunta para tratar câncer de pâncreas e mieloma múltiplo. Diferentes centros iniciaram ensaios clínicos sobre a prevenção do câncer de cólon e a doença de Alzheimer, entre outras. Os primeiros estudos feitos com células isoladas e em animais mostraram que a curcumina pode agir contra uma gama de doenças inflamatórias, entre elas pancreatite, artrite, colite, gastrite, alergia e febre. Ela também se revelou promissora para diabetes e doenças autoimunes e cardiovasculares. Por ora, ainda precisam ser realizados ensaios clínicos de grande porte para comprovar a eficácia contra câncer e outras doenças. Ainda assim, Aggarwal tornou-se um dinâmico defensor da especiaria, levada pela primeira vez à Europa por Vasco da Gama.

O M. D. Anderson, instituição líder mundial em pesquisas sobre o câncer, também começou a promover o uso da curcumina de maneira mais intensa que seria de esperar para um tratamento que não passou pelos rigores deum conjunto completo de ensaios clínicos. Na seção de perguntas mais frequentes do site da entidade, sugere-se que os pacientes com câncer adotem de forma gradual uma dose diária de 8 gramas, cerca de 40 vezes a quantidade presente na dieta indiana média, e “ao final de oito semanas, espera-se uma melhora significativa”. Indagado sobre a preocupação com o aparecimento de possíveis efeitos colaterais com uma dose de 8 gramas, Aggarwal disse que ensaios clínicos menores de outras instituições ministraram até 12 gramas. Se houvesse qualquer efeito desfavorável com a dosagem recomendada pelo M. D. Anderson, os pacientes o teriam notificado. Aggarwal, que toma uma pílula de curcumina todos os dias, afasta-se da cautela típica dos pesquisadores antes que tenham sido realizados ensaios clínicos de larga escala bem controlados.

O site do M. D. Anderson e a torrente de comunicados de várias instituições sobre as maravilhas da curcumina, ignoram uma pequena parte da literatura que aponta para um lado obscuro: a possibilidade de que a especiaria estimule a sobrevivência de células cancerosas. Em 2004, Yosef Shaul, do Departamento de Genética Molecular do Instituto de Ciências Weizmann de Rehovot, Israel, estudava a enzima NQO1, que regula a quantidade de uma proteína bem conhecida, chamada p53. Quando os níveis de p53 aumentam nas células, a proteína institui uma manobra defensiva para o organismo, induzindo as células com câncer a parar de se dividir ou mesmo a suicidar-se.

CULTURA CELULAR

Shaul e seus colegas descobriram que um anticoagulante, o dicumarol, e compostos relacionados bloqueavam a NQO1, o que impedia a p53 de fazer seu trabalho. Os pesquisadores se perguntaram o que aconteceria se expusessem a p53 de células saudáveis e de células da leucemia mielóide a antioxidantes, como a curcumina e o resveratrol. Para surpresa deles, a curcumina, ao inibir a mesma enzima, impedia a p53 de dar às células aberrantes a sentença de morte; descoberta relatada em 2005 no Proceedings of the National Academy of Sciences USA. Outros pesquisadores relataram resultados semelhantes. Para responder a esse grupo de trabalho, Aggarwal cita estudos que mostram como a curcumina, na verdade ativa, a p53.

Os especialistas precisam investigar agora se o trabalho de Shaul em culturas celulares tem relação com o que acontece quando uma pessoa ingere o composto. As concentrações de curcumina usadas pela equipe do Weizmann em culturas de células – de 1O mM a 60 mM (micromolar) – podem ser comparáveis aos níveis atingidos em alguns dos experimentos em cultura celular realizados no M. D. Anderson. Mas como a curcumina é pouco absorvida do intestino para a corrente sanguínea e também é rapidamente degradada no corpo. Um paciente que consuma 8 gramas provavelmente acabará com uma concentração no plasma sanguíneo inferior a cerca de 2,0 mM, observa Shaul, embora esse nível possa variar para mais no trato gastrointestinal e no fígado. Também poderão permanecer em nível elevado se os pesquisadores conseguirem desenvolver maneiras diversas de aumentar a concentração da curcumina na corrente sanguínea.

É sempre fundamental definir a dose de um novo fármaco – qualquer agente terapêutico, incluindo a aspirina, se torna tóxico em níveis elevados. Para a maioria dos novos produtos farmacêuticos, a melhor forma para atingir os níveis plasmáticos desejados é, em geral encontrada por meio de uma incontável sucessão de ensaios clínicos em culturas celulares e camundongos. Ainda assim, as empresas farmacêuticas não estão em competição pelo primeiro lugar na condução de testes com curcumina. Elas têm preferência por terapêutica com alvos altamente específicos, golpear determinado receptor, por exemplo, pode tratar a doença e, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos colaterais, enquanto um fármaco com várias ações poderia, em teoria, aumentar as chances de que ocorra um efeito indesejado.

O açafrão-da-índia é um exemplo proeminente de um dos casos mais célebres de biopirataria de propriedade intelectual, que colocou um instituto de pesquisa apoiado pelo governo indiano contra uma patente de 1995 emitida para a Universidade do Mississippi para o uso do condimento no tratamento de feridas. O Gabinete de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos invalidou a patente depois que o Conselho Indiano de Pesquisas Científicas e Industriais questionou se um dos critérios da patenteabilidade – que uma invenção seja nova – havia sido satisfeito. Para fazer a objeção, o Conselho apontou um artigo de 1953 de uma revista indiana sobre o condimento e ofereceu uma citação sobre as propriedades curativas do açafrão de um texto em sânscrito antigo.

NOVAS SUBSTÂNCIAS

O gabinete de patentes emitiu registros para aplicação da curcumina como uma ação isolada. Mas a rejeição implica que as indústrias farmacêuticas jamais obterão uma patente de “produto” com um alcance bem mais amplo, que ajudaria a empresa a se defender de concorrentes com fármacos baseados no condimento. Algumas empresas ainda estão tentando explorar a promessa da substância, alterando a sua composição química a fim de aumentar sua atividade e, ao criar uma nova substância, justificar a proteção de propriedade intelectual

A AndroScience de San Diego planeja iniciar este ano a primeira fase de ensaios clínicos com candidatos a fármaco para acne à base de compostos derivados da curcumina que foram descobertos na Universidade da Carolina no Norte em Chapei Hill Da mesma forma, a Curry Pharmaceuticals, também da Carolina do Norte, tenta obter financiamento para passar a incluir os derivados da curcumina da Universidade Emory em ensaios clínicos. Mas, numa era de produtos farmacêuticos com alvos específicos, os aventureiros do capital de risco têm se mostrado hesitantes em patrocinar novos fármacos que atuam em várias vias. Mesmo sendo co-fundador da Curry Pharmaceuticals e dono de patentes sobre a curcumina, Aggarwal afirma que os químicos podem ter dificuldade em melhorar a natureza: é possível que a modificação da curcumina só aumente os efeitos colaterais indesejados nos pacientes. Se a infinidade de obstáculos ao desenvolvimento for superada e a segurança, garantida, a curcumina poderá oferecer uma alternativa econômica aos produtos farmacêuticos predominantes.”

ESTUDOS DEMONSTRAM POSSÍVEIS BENEFÍCIOS DA CURCUMINA…

…, MAS ALGUMAS PESQUISAS SUGEREM POSSÍVEIS EFEITOS CAUSADORES DE CÂNCER

EU ACHO …

SENTIR-SE ÚTIL

Exatamente quando eu atravessava uma fase de involuntária meditação sobre a inutilidade de minha pessoa, recebi uma carta assinada, mas só darei as iniciais: “Cada vez que me encontro com a beleza de suas contribuições literárias, vejo ainda mais fortalecida minha intensa capacidade de amar, de me dar aos outros, de existir para meu marido.” Assinada H. M.

Não fiquei contente por você, H. M., falar na beleza de minhas contribuições literárias. Primeiro porque a palavra beleza soa como enfeite, e nunca me senti tão despojada da palavra beleza. A expressão “contribuições literárias” também não adorei, porque exatamente ando numa fase em que a palavra literatura me eriça o pelo como o de um gato. Mas, H. M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão imponentes.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

QUANDO MENOS É MAIS

Cresce o número de mulheres que recorrem à cirurgia para a retirada ou redução das próteses de silicone para deixar os seios com aspecto natural, como vieram ao mundo

Sinuosos, salientes, fartos ou não, os seios são os órgãos da anatomia feminina mais adequados para narrar a história da civilização e seus humores. Para os povos primitivos africanos eles têm um caráter sagrado. Na Renascença, de modo a celebrar a força do leite materno, gênios da pintura os retrataram volumosos. Quando foi necessário protestar, na década de 60, as mulheres tiraram o sutiã para queimar a lingerie, como sinal de liberdade. Agora, os seios fazem parte de um movimento, digamos, de retrocesso – a procura por formatos naturais, tal qual vieram ao mundo. Cresce o número de mulheres que decidem reduzir o volume ou retirar completamente o silicone. Diz o cirurgião Eduardo Kanashiro, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e CEO da Academia da Pele: “Há pacientes que optam por retirar a prótese porque não estão satisfeitas com o resultado, outras não se adaptaram e também há aquelas que simplesmente acham que não faz mais sentido”.  A tendência foi encabeçada por celebridades de diferentes faixas etárias, como a atriz Scarlett Johansson, a modelo Chrissy Teigen e a empresária Victoria Beckham. “Por anos eu neguei que foi algo estúpido, era um sinal de insegurança. Apenas valorize o que você tem”, disse Victoria. A prótese mamária de silicone ainda é a cirurgia plástica mais procurada pelas brasileiras, mas vem caindo a cada ano – cerca de 16% em quatro anos. Dados da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos, em contrapartida, mostram que em um ano houve um aumento de 15% na realização da retirada de próteses. No Brasil, ainda não há números oficiais, mas consultórios médicos e redes sociais confirmam a toada.

Desde as primeiras aplicações de silicone, em 1962, as próteses evoluíram de forma drástica. Com as pioneiras, não havia nem a previsão de resultado, durabilidade ou segurança da substância. Nas décadas seguintes, o material evoluiu de forma a adquirir densidade parecida com a mama normal. O gel é coeso, o que ajuda a dar um aspecto natural. São qualidades que tornaram a necessidade da troca bastante rara. Nos últimos tempos não se fala mais em substituição preventiva a cada dez anos. A complicação mais comum, com ocorrência de 2%, é uma espécie de rejeição chamada de contratura capsular, quando a membrana formada pelo próprio organismo em volta da prótese inflama, o que causa dor. O que acontecia até então nesse caso era a troca do silicone. Agora, as mulheres as retiram totalmente. A extração é simples e pode ser feita pela mesma cicatriz do implante. Diz o cirurgião Dênis Calazans, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: “O que torna o procedimento razoavelmente complexo é, em certos casos, haver a necessidade de realizar a suspensão da mama que eventualmente pode cair com a retirada”. Nada que não se resolva, de olho na volta ao básico.

PARA CIMA E PARA BAIXO

Os números nos Estados Unidos, o país campeão em cirurgias plásticas de mama

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE MARÇO

A BOCA DO PERVERSO, ARMADILHA MORTAL

As palavras dos perversos são emboscadas para derramar sangue, mas a boca dos retos livra homens (Provérbios 12.6).

A língua é um pequeno órgão do nosso corpo, mas tem um grande poder. Assim como o leme governa um navio e o freio controla um cavalo, a língua dirige todo o nosso corpo. Quem domina a sua língua controla todo o seu corpo. A língua tanto arma emboscadas de morte como desarma bombas devastadoras. Tem a capacidade de matar e também de dar vida. A Bíblia diz que a morte e a vida estão no poder da língua (Provérbios 18.21). Esta é tanto remédio que sara as feridas como veneno que acarreta a morte. A boca dos perversos é uma tocaia perigosa. Seus lábios são mais venenosos do que uma víbora peçonhenta. Quando os perversos abrem a boca, o inocente é apanhado por sua emboscada mortal. Uma emboscada é uma armadilha invisível cuja finalidade é o derramamento de sangue. No entanto, a boca dos retos desfaz as tramas, desata os nós e desarticula os planos diabólicos dos perversos. Na boca dos retos há palavras de vida e paz. Os retos são mensageiros da paz e agentes da reconciliação. Não são semeadores de contendas, mas pacificadores que constroem pontes onde os perversos só cavaram abismos.

GESTÃO E CARREIRA

O DESAFIO DE SELECIONAR  

”É preciso saber escolher, selecionar e acessar o que vale a pena. Além disso, é fundamental lembrar que cada um de nós é responsável pelo que joga dentro de sua mente”

Muitas pessoas, inclusive empresários e empreendedores, têm me relatado um sentimento de perda de propósito na vida, de vazio existencial, de ausência de energia e desejo de abandonar a luta.

Ao conversar com essas pessoas, vejo que elas têm se exposto de forma demasiada e indisciplinada à leitura de assuntos irrelevantes, fofocas, fake news e opiniões de pessoas sem nenhuma formação que estão presentes às centenas nas redes sociais e mesmo nas mídias tradicionais.

Vejo que essas pessoas passam horas rolando suas telas, assistindo a filmes sem conteúdo algum para a sua formação ou desenvolvimento, assistindo a telejornais e lendo notícias devastadoras que só podem dar desesperança às suas vítimas.

Expostas a um turbilhão de asneiras, palpites, falsas receitas de sucesso que querem dizer como viver, o que comer, o que vestir, aonde ir ou deixar de ir, essas pessoas perderam o autodomínio, não se comandam mais, são verdadeiros robôs que deixaram de pensar por si próprias, de ter um objetivo e propósito na vida, a não ser rolar a tela dos smartphones e tablets e ficar grudadas em uma tela de televisão.

É preciso selecionar o que lemos e ao que assistimos, o que fazemos e mesmo as nossas amizades.

Existem na internet bons sites, bons filmes, documentários sérios, enfim, boas fontes de informação e de formação. Com centenas de canais fechados e provedores de filmes e séries via streaming, a própria televisão pode nos oferecer conteúdo de valor.

É preciso saber escolher, selecionar e acessar o que vale a pena. Além disso, é fundamental lembrar que cada um de nós é responsável pelo que joga dentro de sua mente. Se jogarmos lixo, é claro que só teremos lixo.

Em um mundo de muitas opções, cabe a cada um de nós fazer esforço de parar e pensar no que está lendo, assistindo, acessando, consumindo, com quem está se relacionando e aonde está indo. Do contrário, só nos restará a angústia, o desconsolo, a preguiça, a descrença, a desesperança.

Pense em suas escolhas e veja se você não está se deixando contaminar por escolhas erradas.

LUIZ MARINS – é antropólogo, professor e consultor de empresas no Brasil e no exterior. Tem 13 livros e mais de 300 vídeos e DVDs publicados. // http://www.marins.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O SIGNO DA INTUIÇÃO

Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta

Às vezes nos perguntamos se vale a pena dar ouvidos à voz interior que, como um alarme, pode sugerir algo inusitado ou mudanças de rumo em nossas vidas. Ou podemos acreditar que o apelo – vindo sabe-se lá de onde – não passa de cisma. O fato é que o modo como reagimos a esses “avisos” pode fazer toda a diferença em nosso cotidiano. E não são poucos os relatos a respeito.

Você provavelmente deve se lembrar dos comentários, logo após o terrível acidente que matou Airton Senna (1960-1994), em 12 de maio de 1994, em Ímola, na Itália. Quem compartilhava sua intimidade chegou a dizer que na noite anterior à fatídica corrida o piloto estava inquieto, arredio, como que prevendo algo que não soubesse explicar. O mesmo insight aconteceu com um dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, o vocalista Dinho, que num vídeo amador deixou gravado seu mau presságio em relação àquela viagem, de março de 1996, sem, entretanto, dar a devida importância à sua percepção. As consequências dessas atitudes todos nós conhecemos.

Também já passei por várias experiências semelhantes, e a mais marcante aconteceu anos atrás, numa viagem. Eu e uma amiga havíamos planejado férias de um mês, mas duas semanas depois de nossa partida tive uma noite péssima: sonhos terríveis me acordavam praticamente de hora em hora, como que impondo a decisão de antecipar minha volta para dali a dois dias. Foi o tempo necessário para despedir-me de minha irmã, que morreu exatamente na manhã seguinte ao meu desembarque em São Paulo.

Tanto o senso comum quanto pesquisadores poderiam atribuir à minha percepção o rótulo de premonição bruxaria. Mas é certo que algum atributo do nosso aparelho psíquico tem essa fantástica habilidade de enviar mensagens, que cada pessoa interpreta à sua maneira. É assim que a intuição age: segundos preciosos carregados de significado, e isso tanto para a vida afetiva quanto nas atividades profissionais. Todos nós temos a capacidade de registrar e compreender ou excluir essa linguagem de nossa vida. Chamada popularmente de sexto sentido, ela não é um predicado restrito às mulheres, embora muitos afirmem que nós somos mais intuitivas que os homens. Entretanto, há quem tenha maior ou menor facilidade para lidar com essa habilidade e desenvolvê-la que aparece nas mais variadas manifestações do nosso psiquismo: nos sonhos, nas sensações corporais, nos insights e nos atos criativos. Dizem que os gênios da música Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) atribuíram à intuição suas maiores realizações.

A intuição capta fragmentos das experiências de forma simbólica, imaginativa, de maneira que esses pequenos estilhaços possam ser organizados para compor uma espécie de vitral ou caleidoscópio, cuja combinação faz surgir um todo inovador. Mas para que essa nova informação aconteça deve-se abrir mão do raciocínio e da lógica, pois apesar de ela não se opor à razão, situa-se fora dos seus domínios.

Enquanto uma procura organizar os fragmentos de forma coerente, a outra busca uma combinação harmoniosa, obtida pela via da imaginação, do relaxamento e da quietude.

O psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961) criador da psicologia analítica, chamou a prontidão para compor esse vitral, tirando o máximo proveito do jogo que se forma entre luzes e sombras, de intuição, no qual flashes criativos desvendam possibilidades. A intuição é nossa habilidade de perceber o que pode vir a acontecer; pressentir o que ainda não está visível e reconhecer potencialidades ainda não realizadas. Essa característica é muito comum em empresários audaciosos, que têm a ousadia de projetar e comercializar projetos inovadores; em jornalistas e editores que “farejam” no mercado qual título será bem aceito no ano que vem; nos corretores da bolsa de valores, cuja destreza em prever a alta de determinado papel no mercado financeiro pode tornar seus clientes milionários; nos marchands, cuja capacidade de avaliar o potencial criativo de um pintor ou escultor surge antes mesmo que eles se deem conta da real qualidade de suas obras; em videntes, cartomantes, tarólogos e outros profissionais que trabalham com terapias alternativas, cuja extrema sensibilidade à atmosfera do lugar e às características das pessoas que os procuram, são capazes de revelar inúmeras coisas a seu respeito.

Fruto de seu próprio processo individual e de um período que Jung chamou de “doença curativa”, descrito em sua autobiografia Memórias, sonhos, reflexões (1961) o capitulo “Confronto com o inconsciente”, no volume VI de suas obras completas no qual expõe a teoria dos tipos psicológicos, ajuda-nos a compreender o que, na época, o autor sistematizou sobre o psiquismo. Aliás, nunca mais se viu uma obra sua com tal característica, tão cientificista. Publicado em 1921, o texto é o resultado de quase 20 anos de trabalho na prática clínica e a primeira produção intelectual depois do seu rompimento com Freud. Nele, o psiquiatra suíço constata que além das muitas diferenças individuais na psicologia das pessoas, existem também diferentes maneiras de nos relacionarmos com os fatos cotidianos.

No lugar de dividi-las em categorias, Jung tentou diferenciar os indivíduos por meio de suas singularidades, propondo duas atitudes e quatro movimentos psíquicos como os modos pelos quais a alma registra e reage às experiências da vida. Jung percebeu que o destino de uns é fortemente determinado pelos objetos de seu interesse, enquanto o de outros é regido pelo seu mundo interior, pela subjetividade. Isso faz com que as pessoas se inclinem naturalmente a lidar com a realidade sob a influência desses fatores. Ou seja, de um modo bem genérico, há quem tenha mais interesse pelo mundo dos objetos, dando a eles um valor preponderante que os atrai como um ímã (os extrovertidos) e aqueles cujo movimento psíquico não vai para o objeto, mas se volta para o sujeito e para seus próprios processos psicológicos (os introvertidos).

Ao lado das duas atitudes predominantes (a extrovertida e a introvertida), Jung também constatou a preponderância de quatro movimentos psíquicos básicos: pensamento, sentimento, sensação e intuição, funções da consciência que se interrelacionam com certo grau de mobilidade e fluidez, permitindo à pessoa experimentar todas as funções sem fixar-se naquela com a qual tenha mais familiaridade. Essa relativização das funções significa que não há um tipo puro, pois todas as atividades psíquicas são importantes para a vida saudável do indivíduo. Para tirar o máximo proveito da função intuitiva, ela precisa estar conectada com as outras funções, porque o pensamento é indispensável para organizá-la e só por meio da sensação somos capazes de realizá-la.

Jung comparou a intuição a uma bússola interior – uma função psíquica na qual a percepção dos fatos se dá por meio do inconsciente, utilizando os cinco sentidos (visão, paladar, audição, olfato e tato) para chegar a uma nova conclusão, que não depende da realidade concreta. Para ele, a intuição é uma espécie de apreensão instintiva e seu conhecimento é dotado de certeza e convicção intrínsecas. A atividade imaginativa da intuição descortina novos horizontes e perspectivas indispensáveis ao nosso tempo, sendo o desenvolvimento dessa função uma das mais importantes tarefas da psicoterapia contemporânea.

OLHAR DE LONGE

Do verbo intuire, que significa olhar para dentro, a intuição não é uma sensação dos sentidos (apesar de se utilizar deles), nem um sentimento ou uma conclusão intelectual, ainda que também possa aparecer sob essas formas. Nele, qualquer conteúdo se apresenta como um todo acabado, sem que saibamos explicar ou descobrir como esse conteúdo chegou a existir. Jung menciona que o filósofo Bento de Spinoza (1632-1677) considerou a scientia intuitiva como a forma mais elevada de conhecimento, sendo sua exatidão atribuída a algum conteúdo que repousa no inconsciente.

As pessoas que orientam sua atitude geral pelo princípio da intuição e, portanto, pela percepção por meio do inconsciente, pertencem ao tipo intuitivo. E assim como as demais funções, a intuição pode ser extrovertida ou introvertida conforme seja a sua utilização: para o conhecimento ou contemplação interior, ou para fora, para as realizações e o desempenho.

Segundo a psicóloga Marie-Louize von Franz (1915 – 19990, no livro A tipologia de Jung (1967 para a intuição “funcionar”, as coisas precisam ser olhadas de longe, ou de modo vago. Só assim é possível captar esse pressentimento vindo do inconsciente, porque quando o foco está voltado para os fatos da realidade exterior essa qualidade quase mágica não tem espaço para se manifestar.

É por isso que os intuitivos quase sempre são imprecisos e vagos. Pessoas “visionárias”, no bom sentido, cujas habilidades ganham um papel indispensável no mundo competitivo. Tanto que, atualmente, as empresas valorizam um novo perfil de profissional: indivíduos com aptidão para identificar tendências sem precedentes e com boa noção intuitiva para extrair tendências coerentes de dados conflitantes; que tenham capacidade para pensar além dos limites convencionais; dotadas de habilidade para influenciar atitudes e opiniões, além de disponibilidade para abraçar as incertezas. É o que Katharine Cook Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers – criadoras do Myers Briggs Type lndicator (indicador de tipos Myers Briggs) -, com base na tipologia junguiana, propõem como solução para o sucesso empresarial: a busca de profissionais capazes de descobrir novas formas de fazer as coisas, equilibrando um planejamento calculado com ações intuitivas.

Ao emprestar do matemático Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C.), a expressão “Eureca!”, o jornalista Nelson Blecher definiu com precisão o que a intuição significa para o mundo dos negócios. Em um artigo publicado em outubro de 1997, na revista Exame, ele apresenta inúmeros motivos para sua crescente valorização, entre eles a imprevisibilidade dos consumidores, a aceleração das mudanças econômicas e tecnológicas, que tornaram as coisas extremamente complexas, a exigência de soluções adequadas aos novos esquemas de produção e fontes de suprimentos. E se para essa habilidade inata do ser humano só existe um freio – aquele que nós mesmos colocamos -, a atitude fielmente junguiana para deixá-la seguir seu curso ou facilitar sua emersão da profundidade do inconsciente é um mergulho no autoconhecimento: um processo capaz de tirar da escuridão essa habilidade, ainda hoje, frequentemente menosprezada.

EU ACHO …

CALOR HUMANO

Não, não fazia vermelho. Era quase de noite e estava ainda claro. Se pelo menos fosse vermelho à vista como o era intrinsecamente. Mas era um calor de luz sem cor, e parada. Não, a mulher não conseguia transpirar. Estava seca e límpida. E lá fora só voavam pássaros de penas empalhadas. Mas era um calor visível, se ela fechava os olhos para não ver o calor, então vinha a alucinação lenta simbolizando-o: via elefantes grossos se aproximarem, elefantes doces e pesados, de casca seca, embora molhados no interior da carne por uma ternura quente insuportável; eles eram difíceis de se carregarem a si próprios, o que os tornava lentos e pesados.

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos, mas duros – e sobretudo boca voraz de nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada.

Seus olhos abertos e diamantes. Nos telhados os pardais secos. “Eu vos amo, pessoas”, era frase impossível. A humanidade lhe era como uma morte eterna que, no entanto, não tinha o alívio de enfim morrer. Nada, nada morria na tarde enxuta, nada apodrecia. E às seis horas da tarde fazia meio-dia. Fazia meio-dia com um barulho atento de máquina de bomba de água, bomba que trabalhava há tanto tempo sem água e que virara ferro enferrujado. Há dois dias faltava água na cidade. Nada jamais fora tão acordado como seu corpo sem transpiração e seus olhos diamantes, e de vibração parada. E Deus? Não. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.

Enquanto isso era verão. Verão largo como um pátio vazio nas férias da escola. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada: como a da casca lenta dos elefantes de couro ressequido. A esqualidez límpida e quente. Pensar no seu homem? Não, farpa na sola do pé. Filhos? Quinze filhos dependurados, sem se balançarem à ausência de vento. Ah, se as mãos começassem a se umedecer. Nem que houvesse água, por ódio não tomaria banho. Por ódio não havia água. Nada escorria. A dificuldade é uma coisa parada. É uma joia-diamante. A cigarra de garganta seca não parava de rosnar. E Deus se liquefez enfim em chuva? Não. Nem quero. Por seco e calmo ódio, quero isso mesmo, este silêncio feito de calor que a cigarra rude torna sensível. Sensível? Não se sente nada. Senão esta dura falta de ópio que amenize. Quero que isto que é intolerável continue porque quero a eternidade. Quero esta espera contínua como o canto avermelhado da cigarra, pois tudo isso é a morte parada, é a eternidade, é o cio sem desejo, os cães sem ladrar. É nessa hora que o bem e o mal não existem. É o perdão súbito, nós que nos alimentávamos da punição. Agora é a indiferença de um perdão. Não há mais julgamento. Não é o perdão depois de um julgamento. É a ausência de juiz e de condenado. E a morte, que era para ser uma única boa vez, não: está sendo sem parar. E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são duas pérolas secas. Vou vos dizer a verdade: por ódio enxuto, quero é isto mesmo, que não chova.

E exatamente então ela ouve alguma coisa. É uma coisa também enxuta que a deixa ainda mais seca de atenção. É um rolar de trovão seco, sem nenhuma saliva, que rola, mas onde? No céu absolutamente azul, nem uma nuvem de amor. Deve ser de muito longe o trovão. Mas ao mesmo tempo vem um cheiro adocicado de elefantes grandes, e de jasmim da casa ao lado. A Índia invadindo, com suas mulheres adocicadas. Um cheiro de cravos de cemitério. Irá tudo mudar tão de repente? Para quem não tinha nem noite nem chuva nem apodrecimento de madeira na água – para quem não tinha senão pérolas, vai vir a noite, vai vir madeira enfim apodrecendo, cravo vivo de chuva no cemitério, chuva que vem da Malásia? A urgência é ainda imóvel, mas já tem um tremor dentro. Ela não percebe, a mulher, que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava não era a tarde encalorada e sim o seu calor humano. Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MINHA CASA É O MEU MUNDO

Confinadas durante a quarentena, com o dinheiro das viagens parado no banco, as pessoas aproveitaram para renovar o lar, de modo a adaptá-lo à rotina transformada

Entre as dezenas de lições ensinadas à humanidade pela pandemia (nem todas aprendidas, diga-se), uma das mais permanentes é a importância de um lar confortável e completo. Durante alguns meses, casas e apartamentos se tornaram o universo exclusivo das famílias enclausuradas no trabalho remoto e no ensino a distância – e assim muitas seguem, com a rotina radicalmente reformulada. Entre quatro paredes, os quarenteners tiveram tempo de sobra para olhar em volta e avaliar cômodos, objetos e móveis do lar não mais tão doce e perceber seus defeitos no detalhe. Com novas demandas à mesa, necessidade de rearranjo de espaços e dinheiro (das viagens canceladas) para gastar, deu-se o estalo: é hora de reformar. O resultado é que nunca antes neste país, mesmo tendo ele passado meses parado e desanimado, se investiu tanto em melhorias domésticas.

O setor que engloba construção, arquitetura e decoração teve em 2020 um de seus anos mais surpreendentes. No início da crise, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) chegou a prever um encolhimento de até 11%, mas em dezembro, diante da demanda inesperada, a projeção recuara para 2,8%. Mais: em pleno avanço do desemprego, até outubro haviam sido criados quase 140.000 postos de trabalho. E a expectativa é de que o impulso se mantenha e alavanque uma subida de 4% em 2021 – a maior em quase uma década. “Após quatro anos de pouca procura, fico feliz em dizer que nunca trabalhei tanto”, diz a arquiteta Julia Oddone, que decidiu se tornar autônoma no fim de 2019 e não parou desde então. Outra pesquisa, essa do grupo Consumoteca, uma consultoria voltada para padrões de consumo, cultura e inovação, mostrou que 55% das pessoas de maior poder aquisitivo no Brasil fizeram alguma mudança na casa durante a quarentena. Nem só os ricos reformaram – 39% de famílias da classe C também mexeram em sua moradia.

O cômodo que mais atraiu as atenções foi, como era de se esperar, o escritório, um espaço que nem existia, ou se apertava em um vão de escada, na maioria das casas. ”As pessoas precisam de um mínimo de privacidade e conforto para fazer home office. Poucas tinham um local exclusivo e só perceberam isso quando a necessidade bateu à porta”, diz o arquiteto Alberto Barbour. Em segundo lugar nas reformas, empatadas, estão a cozinha e a sala. A psicóloga Jamile Gomes, que divide o apartamento no Rio de Janeiro com a mãe, o marido e um filho de 3 anos, teve de redesenhar a disposição dos eletrodomésticos para conseguir armazenar os mantimentos necessários à elaboração de três refeições diárias para a família. “A gente comia fora, no trabalho ou em restaurantes. De uma hora para outra, fiquei sem espaço”, conta Jamile, carioca de 36 anos, que ainda aproveitou para remodelar a varanda do apartamento.

A família de Jamile, como muitas, teve a renda reduzida durante a quarentena, mas as despesas também diminuíram bastante com o fim dos passeios no shopping, cinema, restaurantes e viagens – o que lhe permitiu poupar para a reforma. “Conseguimos nos organizar para adequar o espaço onde passamos quase 100% do nosso tempo”, diz. Transferir para a melhoria da casa os recursos economizados com o lazer interrompido foi a regra na pandemia. “Em um primeiro momento, quando ainda não se sabia quanto tempo ela ia durar, as pessoas investiram em coisas pequenas, como a compra de um ou outro móvel. Conforme o tempo passou, vieram as reformas mais ambiciosas”, diz Marina Roale, analista de pesquisa do Consumoteca.

Quem não conseguiu amealhar um pé de meia partiu para o plano B: pôr a mão na massa (corrida, no caso). No Google, as buscas por “como pintar parede” e “decoração” deram um salto, principalmente a partir de junho. A psicóloga paulista Ana Paula Figueiredo, de 54 anos, decidiu aproveitar o tempo livre e os dotes artísticos para repaginar diversos cômodos. “Sempre fui de deixar para depois. Ficando só dentro de casa, finalmente mudei o que me incomodava”, comemora. Além de pintar as paredes, Ana Paula trocou lâmpadas para melhorar a iluminação, comprou plantas para alegrar o ambiente e costurou novas almofadas. “Nunca gostei de chamar pessoas de fora para trabalhar na minha casa. Além de resolver problemas, me diverti muito”, afirma.

Segundo especialistas, a relação das pessoas com sua casa nunca mais será a mesma de antes da quarentena. “Ela foi reinventada. Ao nos isolarmos, valorizamos imensamente a segurança e o conforto do lar”, avalia Marina. A reviravolta tem sido comemorada pelos varejistas. A multinacional Saint-Gobain, dona de redes como Telhanorte, Tumelero e Norton, registrou aumento de vendas de quase 40% desde abril e fechou o ano com um crescimento de 12% em relação a 2019. “Nossos best-sellers são sofás, escrivaninhas e itens de cozinha, como panelas”, diz Flavia Marcolini, CEO do CasaShopping, no Rio de Janeiro, especializado em design de interiores, onde as vendas cresceram 50% desde o início do ano. A procura por matéria-prima de marcenaria e mobiliário foi tanta que houve até falta de alguns itens, como chapas de madeira e espuma para sofá. “Algumas fábricas acabaram parando no início da pandemia e não tiveram tempo de se recuperar antes do boom das vendas”, explica o arquiteto carioca Mauricio Nóbrega, que precisou reagendar a entrega de projetos. A indústria, no entanto, assegura que o abastecimento voltou ao normal e que está preparada para os próximos meses. Haja tinta para tanta parede a ser pintada.

LISTA DE COMPRAS

Os produtos de casa mais procurados por quem não sai dela

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE MARÇO

CONSELHO DO PERVERSO, ENGANO PERIGOSO

Os pensamentos do justo são retos, mas os conselhos do perverso, engano (Provérbios 12.5).

O justo é uma fonte de onde jorram a justiça e a retidão. Nas suas palavras há sabedoria, e nos seus conselhos, verdade; mas, quando o perverso abre a boca, seus conselhos são traiçoeiros e enganosos. Suas palavras produzem morte. Um clássico exemplo dessa fatídica realidade foi o conselho maligno que Jonadabe deu a Amnom, filho do rei Davi. O jovem príncipe apaixonou-se doentiamente por sua meia-irmã, Tamar. Em vez de buscar conselho em homens sábios, abriu seu coração para um jovem sagaz e perigoso, uma víbora venenosa. Os lábios de Jonadabe destilaram peçonha mortal. Seus conselhos deram início a uma tragédia irremediável na vida de Amnom e de sua família. Tamar foi violentada. Amnom foi assassinado. Absalão tornou-se homicida, e a casa de Davi foi transtornada. Os conselhos do perverso são como uma fagulha que incendeia toda uma floresta e trazem destruição e morte. Os pensamentos do justo, porém, são retos. O justo não se insurge contra Deus nem maquina o mal contra o próximo. Ele tem a mente de Cristo e o coração transformado. De sua boca fluem palavras de vida, e não conselhos de morte.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA EMPATIA

Colocar-se no lugar do outro nas crises é a melhor estratégia para preservar os resultados, inspirar a liderança e fortalecer o engajamento. Saiba como disseminar essa habilidade valorizada pela maioria dos CEOs

No início de março, a Organização Mundial da Saúde declarou uma pandemia global, ocasionada pela disseminação do novo coronavírus. Desde então, surgiram muitas histórias de solidariedade envolvendo pessoas de todo o mundo. Muitos casos de fabricantes de cosméticos suspendendo a operação para produzir álcool em gel, empresas oferecendo abastecimento de materiais e equipamentos gratuitos para profissionais de saúde, e até pessoas de cidades inteiras tocando instrumentos musicais de suas varandas para deixar a quarentena mais leve. A questão é que a empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro, nunca esteve tão em alta – seja nas ruas, seja nos corredores dos escritórios. Comum aos psicólogos, há um tempo essa palavra se tornou muito utilizada no vocabulário empresarial.

Um estudo da consultoria Businessolver divulgado em 2019, que ouviu 1.850 trabalhadores, profissionais de RH e executivos dos Estados Unidos, revelou que 79% dos CEOs reconhecem a empatia como chave para o sucesso das companhias. E essa percepção se fortaleceu nos últimos anos. Em 2017, a mesma pesquisa mostrava que 57% dos executivos acreditavam ser importante investir nessa habilidade no ambiente de trabalho. Em 2019, o índice saltou para 79%.

Por que isso acontece? uma das explicações é o fato de que profissionais que compreendem como os outros se sentem criam laços de afetividade com colegas e clientes conseguem resultados melhores. Prova disso é que as dez primeiras empresas no ranking Global Empathy Index de 2016, feito pela consultoria The Empathy Business e que analisou 170 empresas americanas, indianas e europeias em categorias como liderança e cultura organizacional lucravam 50% mais em comparação com as dez piores.

Mas a valorização da empatia pode ter explicações que vão além dos simples indicadores financeiros. “A globalização faz com que tenhamos mais contato com grupos diversos e os profissionais precisam desenvolver um bom relacionamento com pessoas cada vez mais diferentes”, explica Joana Story professora na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp).

É importante não confundir empatia com sociabilidade – as características são muito diferentes. Prova disso é uma pesquisa feita pela Universidade Estadual de Michigan que avaliou o nível de empatia em 63 países perguntando aos entrevistados se eles se importavam com situações que pudessem acontecer aos outros. O estudo ranqueou o Brasil, conhecido por seu calor humano, na 51ª colocação. O campeão foi o Equador: “O fato de sermos uma população comunicativa não significa que sabemos nos colocar no lugar dos outros, e isso explica muito a questão da polarização que vivemos hoje em dia: não conseguimos mais conversar”, afirma Virgínia Planet, sócia da House of Feelings, consultoria que trabalha os sentimentos dentro das companhias.

TRÊS PILARES

Ser empático envolve um processo ele compreensão emocional do outro, tocando suas reais necessidades e sentimentos diante de alguma situação. Daniel Goleman, jornalista especializado em estudos do cérebro e autor do já clássico Inteligência Emocional exemplificou bem o que é a empatia em um artigo escrito para a Harvard Business Review.  Ele disse que os executivos empáticos “são aqueles que encontram um consenso, cujas opiniões têm mais peso e com quem as outras pessoas querem trabalhar. Surgem como líderes naturais, independentemente da hierarquia organizacional ou social”.

Ainda de acordo com ele, essa habilidade é envolta por três pilares. O primeiro é a empatia cognitiva, a capacidade de compreender a perspectiva da outra pessoa e pensar em seus sentimentos. O segundo é a empatia irracional que diz respeito a sentir o que a outra pessoa sente, sem precisar refletir profundamente sobre isso. E o terceiro é a preocupação empática: interpretar e entender de quais formas a outra pessoa precisa de você.

Na teoria é até simples. O desafio é colocar isso na prática. “Quais são as atitudes que eu, como líder, parceiro ou alguém que é liderado, vou ter diante do conhecimento aprofundado de todas essas emoções? Isso é algo que não aprendemos na escola, na faculdade, em lugar nenhum”, explica Eduardo Albuquerque, fundador da Escola Conquer. Mas existe um alento: todos nós somos, em maior ou menor grau, naturalmente empáticos. “A empatia é própria do ser humano, nascemos com ela. A questão é quanto ao longo da vida nós a utilizamos e a desenvolvemos”, diz Regina Giannetti, coach de desenvolvimento pessoal, instrutora de mindfulness e criadora do podcast “Autoconsciente”.

Um dos primeiros passos para ser mais empático – e estimular esse comportamento internamente nas empresas – tem a ver com a diversidade. Isso porque, para entender o diferente, temos de necessariamente, nos colocar no lugar do outro. Grupos de afinidade, por exemplo, ajudam nesse sentido. Além de possibilitarem discussões de vieses inconscientes, eles estimulam a troca entre pessoas de diferentes origens, formações e histórias, o que permite ampliar o olhar de todos.

Também é importante desenvolver a escuta ativa (e atenta), algo fundamental na busca por sensibilidade. O ideal é conseguir formar um ambiente em que todos, independentemente do nível hierárquico, consigam ter disposição para se despir de conceitos preconcebidos e simplesmente se abrir para o que o outro tem a dizer. “É muito fácil você ouvir alguém e julgá-lo segundo suas próprias ideias. Já escutar sem julgar, essa, sim, é a prática que deve ser alimentada nas empresas e em todos os lugares”, diz Regina. Para conquistar isso, apoie-se também em seu lado emocional – importantíssimo para notar expressões corporais, tom de voz e como o outro se sente ao falar sobre determinado assunto (se está animado, apreensivo, estressado, sereno etc.).

SENSIBILIZANDO A LIDERANÇA

Importante saber que, além dos líderes que citamos no início da reportagem, os profissionais também estão mais atentos quando o assunto é empatia: 82% deles considerariam deixar o atual emprego para trabalhar em uma empresa mais empática, segundo o estudo da Businessolver. No entanto, as percepções de chefes e empregados sobre o grau empático da companhia são diferentes. Para 92% dos CEOs, a organização que lideram tem empatia – o índice cai para 72% sob a lente dos trabalhadores. O motivo dessa discrepância talvez esteja revelado em outro dado do levantamento: 58% dos CEOs não se sentem à vontade para criar vínculos. Isso pode ter a ver com o difícil equilíbrio entre a empatia e a cobrança por resultados.

“Em muitas empresas, a empatia só vai até a última semana do mês, quando está chegando a hora de bater as metas. Ainda existe uma dificuldade de falar de emoções e vulnerabilidade no ambiente de trabalho”, explica Lísia Prado, outra sócia da House of Feelings. Ela dizainda que a chefia não sabe lidar com a vulnerabilidade do outro. “Desde criança aprendemos a engolir o choro, ignorar os sentimentos e ir em frente. Fomos ensinados a seguir um padrão que não faz mais sentido hoje. Agora é parte do papel da liderança entender as dificuldades e os problemas dos funcionários é saber como direcioná-los.”

Esse foi um desafio para o RH da ExxonMobil, multinacional americana de petróleo e gás com 1.600 funcionários no Brasil. Em 2019, a pesquisa anual de clima revelou que a liderança não estava sendo tão bem avaliada quanto a companhia gostaria. “Mapeamos chefes que haviam sido apontados como focados em resultados práticos, e não na gestão humana”, diz Samantha Franco, gerente de recursos humanos da ExxonMobil.

Na busca pela solução do problema, a área de gestão de pessoas apostou em treinamentos de habilidades interpessoais e também de empatia. O programa dura três meses e trata temas como diversidade, vulnerabilidade e autoconhecimento – além de trocas de experiências com outras empresas no intuito de ampliar a visão de mundo. “Nossa intenção é criar um ambiente de trabalho psicologicamente seguro em que todos os funcionários se sintam livres para ser quem são e trazer suas dores quando precisarem”, diz Samantha.  Além dos cursos para os chefes, os funcionários também podem participar de dinâmicas sobre empatia. “É uma açãoeducacional voluntária”, diz. O sucesso foi tamanho que há lista de espera para ingressar nas novas turmas – e o feedback positivo de quem já participou chega a 80%. “As pessoas estão mais seguras em ser autênticas e compartilhar suas necessidades. O clima da empresa melhorou muito”.

EM OUTRA REALIDADE

Um dos aspectos cruciais do desenvolvimento da empatia é colocar-se no lugar do outro. Só assim conseguimos compreender, com profundidade quais são as dores e os desejos de quem está ao nosso lado. Mas essa é uma atitude que precisa ser cultivada dia a dia – pois demanda prática e treinamento. Para proporcionar esse olhar em seus futuros líderes, a Votorantim Cimentos criou, há dois anos, uma dinâmica de empatia em seu programa anual de trainees. Durante a seleção dos jovens profissionais, que é feita às cegas, existe uma dinâmica na qual eles trabalham lado a lado com coletores de materiais recicláveis que fazem parte da Pimp My Carroça, instituição que dá apoio a catadores e cooperativas de reciclagem. Os futuros trainees rodam as ruas de São Paulo procurando materiais recicláveis que, no final do dia são doados aos catadores. Além disso, há mentorias – para os postulantes às vagas e para os gestores que compartilham o projeto – com os catadores da organização parceira da Votorantim Cimentos. Cento e quarenta jovens passaram pelo processo.

“Nós começamos essa dinâmica de forma incipiente. Percebemos que a metodologia funciona e já estamos aplicando-a em outras temáticas, como o programa de estágio técnico para mulheres e o programa de liderança. Esse trabalho de empatia estimula a consciência social e humana de nosso público interno e externo”, afirma Aldo Frachia, gerente de diversidade da Votorantim Cimentos. As mudanças no processo seletivo dos trainees permitiram que a empresa ampliasse a presença de grupos minoritários entre os candidatos. Na edição para 2020, dos 80 concorrentes que participaram da dinâmica com os catadores, 62% eram mulheres; 31%, negros; e 15%, LGBT+.

A troca de papéis também é um método utilizado pela Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ) da lll Região. Em 2017, foi criado o projeto Vivendo o Trabalho Subalterno, que discute o tema da invisibilidade pública para melhorar a empatia dos juízes. “O juiz passa a matar parte do tempo escutando a narrativa de outras pessoas e tomando decisões. Esse projeto possibilita uma melhor capacidade de escuta”, explica Roberto Fragale Filho, Juiz auxiliar da Escola Judicial do TRT-RJ. Para isso, os juízes trabalham por um dia como garis, caixas de supermercado, auxiliares de limpeza, cobradores de ônibus, entre outras profissões.

Os participantes passam por urna carga horária de 60 horas, que são divididas entre atividades teóricas (aulas sobre relações sociais e metodologia de criação de um diário de campo), práticas (treinamentos para a função que será exercida) e momentos de feedback. Em três anos, 52 juízes já fizeram o curso e o sucesso foi tanto que a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho (Enamat) chegou a reformular seu ano acadêmico para melhorar as relações que existem entre a sociedade e o judiciário. ‘Isso permite formar juízes mais atentos, capazes de se colocar no lugar dos outros e com a oitiva aguçada”, explica Roberto.

É DANDO QUE SE RECEBE

Outra maneira de demonstrar o alcance empático das companhias é por meio de benefícios que são expandidos para a família dos funcionários. A pesquisa da consultoria americana Businessolver revela que 95% dos profissionais acham que empresas que cuidam dos parentes dos empregados são mais empáticas. Não é à toa que um dos programas mais valorizados pelos funcionários do Banco – RCI Brasil, braço financeiro das montadoras Renault e Nissan é o Programa de Apoio Pessoal Especializado (Pape), que     realiza atendimento sigiloso aos empregados por meio de um telefone 0800. Problemas financeiros, psicológicos, de saúde, inclusive de familiares, podem ser relatados em segredo. “Buscamos atender até mesmo a necessidades específicas em que, por vezes, cobrimos a despes do que foi pedido”, conta Roberta Nascimento, gerente de RH do banco. Casos como cobertura de plano de saúde, ajuda com dívidas e viagens emergenciais se enquadram no projeto, que já atendeu 5% do quadro de 161 trabalhadores.

EXISTEM LIMITES

As empresas podem – e devem – incentivar a prática da empatia, mas importante lembrar que ela tem limites que variam em cada um de nós. “Para qualquer palestra, aula ou ação funcionar, a pessoa tem de estar disposta àquele aprendizado. Ter autoconhecimento para entender os próprios sentimentos e julgamentos internos é fundamental na hora de estender a mão ao outro”, diz Regina. Nenhuma ação é infalível: sempre haverá aquelas pessoas que não conseguem ter empatia com seu próximo ou que não se importam o suficiente para mudar de comportamento ou atitude. Nesses casos, as empresas devem usar uma última abordagem: o hábito. Incentivar diálogos, promover grupos de afinidade, manter a liderança apta para a escuta ativa, são todas ações que se complementam e colocam os funcionários em             contato com a cooperação e a generosidade. “Mesmo que no início o sentimento não seja verdadeiro, o estímulo por meio do ambiente pode internalizá-lo”, diz Regina. O exemplo e a prática farão com que a empatia se espalhe – e é a disseminação de atitudes desse tipo o que precisamos com tanta urgência para enfrentar os grandes desafios do mundo hoje.

O QUE É SER EMPÁTICO?

Como os profissionais enxergam a empatia nos negócios, segundo o relatorio State of Workplace Empathy de 2019, feito pela consultoria Businessolver

EM SINTONIA

Como encorajar a empatia no ambiente de trabalho

1. FALE SOBRE O ASSUNTO:

Explique para os funcionários, independentemente do cargo que ocupam, por que a c0mpetência é importante para melhorar o desempenho das equipes. Leve dados objetivos e exemplos de outras companhias para conseguir convencer a todos.

2.ENSINE HABILIDADES DE ESCUTA:

Para entender os outros e sentir o que eles estão sentindo, precisamos ser bons ouvintes. demonstrar que estamos prestando atenção no que é dito e expressar entendimento sobre as preocupações e os problemas ajudam a aumentar a sensação de respeito.

3. INCENTIVE A DIVERSIDADE:

Cerca de 75% dos funcionários afirmam que empresas são mais empáticas quando têm diversidade em sua liderança, e nove em cada dez profissionais de RH e diretoria concordam, segundo dados da consultoria Businessolver.

4. CULTIVE COMPAIXÃO:

Crie um ambiente para que os gestores possam se preocupar com a forma como a equipe se sente no dia a dia de trabalho. E premie aqueles que se destacarem em promover isso em seus times. Ter uma cultura que proporcione boas relações entre as pessoas ajuda.

5. TREINE A LIDERANÇA:

Realize treinamentos de empatia e de vieses inconscientes com a liderança. A relação deles c0m os liderados é o cerne do clima da empresa. Além disso, se os chefes não derem o exemplo, fica mais difícil ter um time que queira agir com mais empatia na organização.

A TRÍADE DE OURO

Entenda o que são os três tipos de empatia, de acordo com o escritor Daniel Goleman

1. EMPATIA COGNITIVA:

O exercício da empatia cognitiva exige que os líderes racionalizem sobre os sentimentos dos outros. Essa é uma habilidade resultante da autoconsciência. A reflexão sobre nossos próprios pensamentos e o monitoramento dos sentimentos que fluem a partir deles permitem aplicar o mesmo raciocínio à mente de outras pessoas.

2. EMPATIA EMOCIONAL:

O acesso à empatia emocional depende da combinação de dois focos. O primeiro está centrado nas ideias e nos sentimentos da outra pessoa. O segundo se forma pelo rosto, pela voz e por sinais externos de emoção. Ter essa habilidade ajuda em trabalhos em grupo, momentos de feedback e apresentações.

3. PREOCUPAÇÃO EMPÁTICA:

Intimamente relacionada à empatia emocional, essa competência ajuda a compreender as expectativas dos outros em relação a nós. Aqui é importante ponderar até onde podemos ir para satisfazer as necessidades alheias.

PRONTAS PARA O FUTURO

Três características que serão importantes para as companhias acompanharem as transformações do mundo do trabalho, de acordo com Eduardo Albuquerque, fundador da escola Conquer

1. EMPATIA:

Muito além de se colocar no lugar do outro, empatia é a capacidade de tomar decisões com base não somente na perspectiva individual, mas na perspectiva dos demais.

2. COLABORAÇÃO:

Essa característica tem como principal papel acelerar a solução de problemas por meio da união de diferentes competências e habilidades. Esse é um traço essencial de empresas e pessoas que estão adaptadas à revolução digital em curso.

3. VULNERABILIDADE:

Cometer erros tem se mostrado a melhor maneira de aprender mais rápido e criar produtos e serviços. Para incentivar esse comportamento, a liderança precisa mostrar que é vulnerável, que pode falhar e que os deslizes são toleráveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PROPENSOS AO EXCESSO

Os jovens tomam contato cada vezmais cedo com o álcool e outras drogas psicoativas; sua vulnerabilidade cerebral e psicológica a essas substâncias merece redobrada atenção da família e da sociedade e demanda estratégias interdisciplinares de prevenção e combate ao uso abusivo antes que ele se torne dependência

A cada ano, estima-se que 1,7 milhão de adolescentes morram no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria é vítima de acidente, suicídio, violência, complicações decorrentes da gravidez e outros motivos passíveis de prevenção e tratamento. O abuso de álcool e outras drogas é um exemplo desta última categoria. O consumo de bebidas alcoólicas, que poderia ser apenas um “rito de passagem” para a vida adulta, traz consigo, a ameaça de um padrão de uso, cuja face mais comprometedora é a dependência.

Diante da instabilidade e das mudanças características da adolescência, período de “crise” no qual está em jogo a reestruturação psíquica, é fundamental compreender de que forma o uso de álcool e de drogas se insere na vida do adolescente. Em muitos casos, pode se tratar de uma fase de experimentação, transitória, decorrente da curiosidade e da elaboração do processo de entrada no mundo adulto.

A escala que vai do uso à dependência obedece a matizes, assim como um dégradé que vai do rosa-claro ao vermelho intenso, que nem sempre delimitam com clareza as fases da construção da dependência, como mostra a psicóloga Jandira Masur, falecida em 1990, em O que é alcoolismo (Brasiliense, 1991). Esse quadro se acentua quando lidamos com a população adolescente, dado que as variações ficam sobrepostas à própria instabilidade dessa fase.

Embora não possamos afirmar que haja um padrão de utilização absolutamente segura, existe a possibilidade da utilização recreativa do álcool e de outras drogas, que reflete o tipo de relação que o indivíduo estabelece com a substância. É importante ressaltar que tal uso não constitui um problema de ordem médica, passível de tratamento, mas muitas vezes requer algum tipo de esclarecimento à família e aos educadores a fim de ampliar sua compreensão sobre esse tipo de consumo.

Os pais, muitas vezes por falta de orientação, tomam medidas desesperadas ao descobrir que o adolescente usa determinadas substâncias, sobretudo se forem ilícitas, a exemplo da maconha. Por outro lado, percebe-se que o consumo de álcool é bastante tolerado pela sociedade, quando não incentivado, ocasionando maior dificuldade na detecção de um uso problemático.

Devemos dedicar particular atenção ao consumo de álcool entre adolescentes, em geral uma das primeiras substâncias psicoativas com as quais o jovem tem contato. Boa parte dos adolescentes começa a beber estimulada pelos pais (para muitos deles, o primeiro “porre” do filho adolescente pode ter conotação de masculinidade) ou é levada a experimentar por curiosidade quando vai comprar bebidas alcoólicas para os adultos.

É fato que a venda de bebidas alcoólicas a menores é pouco fiscalizada no Brasil. Entretanto, é extremamente importante que os pais se conscientizem de que essa é uma norma a ser seguida, e o modo como lidam com ela influirá no futuro comportamento de seus filhos diante do consumo de álcool e drogas.

Diferentemente da recreação, o abuso é um padrão de utilização que causa algum tipo de dano à saúde física ou mental do indivíduo, ou mesmo em outras áreas da vida como a social e a ocupacional, além de conflitos com a lei. Os prejuízos são recorrentes significativos e relacionados ao uso repetido da substância, mas não configuram ainda um quadro de dependência.

O adolescente, por exemplo, pode faltar às aulas, sofrer suspensão ou ter baixo desempenho escolar em decorrência do uso de substâncias psicoativas. É possível, ainda, apresentar-se repetidamente intoxicado em situações em que isso represente risco para sua integridade física, como durante a prática de esportes. Também são comuns problemas legais recorrentes, como condutas desordeiras, agressões, infrações, pequenos delitos e condução de veículos quando está intoxicado ou embriagado.

A dependência é caracterizada, sobretudo, pela perda de controle sobre o uso da substância, que se manifesta pelo consumo persistente e compulsivo, mesmo na vigência de problemas significativos decorrentes do uso. O quadro, em geral, é acompanhado de tolerância (necessidade de consumo cada vez maior para obter o efeito desejado) e síndrome de abstinência (presença de sintomas físicos e psíquicos ao diminuir ou parar o uso). Como diz o psiquiatra francês Claude Olievenstein em seu livro Destino do toxicômano (Almed, 1985), o estabelecimento da dependência ocorre a partir do encontro do indivíduo com a droga – suas particularidades farmacológicas e seus efeitos – em dado momento marcado por dificuldades específicas.

Sabe-se que a evolução entre os diferentes padrões de uso de substâncias psicoativas não apresenta uma divisão estanque, do mesmo modo que não necessariamente representa um continuum, em que, por exemplo, o uso recreativo passa ao abusivo e este à dependência. Tais fenômenos envolvem uma série de fatores, que incluem características individuais, propriedades farmacológicas e aspectos sociais. Por exemplo, um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) feito no final dos anos 90 indicou que, entre os indivíduos que já fizeram uso de maconha, apenas 5% desenvolveram de fato um quadro de dependência.

No que se refere à dependência de álcool, a história típica de seu desenvolvimento ocorre ao longo de alguns anos. Em geral, a pessoa começa a beber no período da adolescência ou no início da idade adulta, e aumenta de maneira progressiva a quantidade e a frequência do consumo, até chegar aos centros de tratamento por volta dos 35, 40 anos. Entretanto, esse perfil vem mudando. Os jovens estão começando a beber mais cedo e de forma mais intensa, apresentando problemas de saúde e alterações psíquicas ainda mais precocemente.

É por esse motivo que cada vez mais modelos de intervenção sobre o uso abusivo de álcool têm sido desenvolvidos, buscando por meio deles atingir a população jovem para que se interrompa o processo de estabelecimento da dependência.

O álcool distribui-se regularmente por todo o organismo. Quando alguém o consome em grandes quantidades, há o risco de vários órgãos e sistemas do corpo serem danificados.

Ao atingir o sistema nervoso central, a substância pode causar diversos problemas neurológicos e psiquiátricos, como depressão e ansiedade até problemas irreversíveis de memória, como é o caso da síndrome de Wemicke-Korsokoff, em que há perda da memória recente. Os jovens, cujo sistema central ainda está em formação são mais afetados.

O uso crônico de álcool também pode ocasionar a alteração denominada neuropatia periférica, caracterizada pela degeneração das ramificações de nervos, principalmente em membros (braços e pernas), levando a dores e formigamentos bastante desconfortáveis.

É bastante comum a associação do alcoolismo a problemas no fígado como a cirrose hepática – degeneração ocasionada pela agressão crônica ao órgão, em geral levando à morte quando não é possível realizar um transplante. Além disso, o fígado é um órgão vital responsável pela síntese e metabolização de diversas substâncias. Quando seu funcionamento está prejudicado, costumam ocorrer problemas variados, como alterações hormonais, varizes de esôfago, icterícia (coloração amarela da pele) e ascite (acúmulo de líquido no abdômen). Outras estruturas do sistema digestivo podem ser atingidas em decorrência do consumo excessivo de álcool. São bastante frequentes as esofagites e gastrites, problemas no pâncreas e na vesícula biliar.

A boca, que também integra esse sistema, pode sofrer diversas alterações, como mudanças do paladar, ulcerações, que algumas vezes resultam em câncer, sobretudo em tabagistas, e alterações da dentição, porque o consumo crônico de álcool modifica o equilíbrio ácido-base da cavidade oral, predispondo a essas modificações.

Os indivíduos dependentes de álcool são, ainda, mais propensos a problemas de impotência e infertilidade, tanto homens como mulheres. Essas alterações, embora sentidas diretamente, podem ser originárias de falhas na síntese de hormônios no fígado ou alterações no sistema nervoso central.

O uso crônico de álcool pode também fazer com que o indivíduo apresente diversas alterações nos sistemas imunológico e hematológico. Uma importante causa para isso deriva da desnutrição, com frequência verificada nessas pessoas, já que por conter uma concentração elevada de açúcares, o álcool diminui a fome. Na ausência de vitaminas, proteínas e sais minerais, o organismo fica predisposto ao aparecimento de doenças. No caso em questão, as comorbidades (presença de mais de um quadro patológico em um mesmo indivíduo) dizem respeito à presença de outro transtorno psiquiátrico, além do relacionado ao uso de substâncias. Diversos estudos têm mostrado as altas taxas de prevalência de comorbidades psiquiátricas, sobretudo depressão e ansiedade, entre usuários de álcool e drogas. Sabe-se que a comorbidade psiquiátrica modifica a evolução da dependência, exigindo abordagens terapêuticas específicas, como o uso de medicamentos.

Na população de adolescentes, fazer um diagnóstico adequado nem sempre é tarefa fácil. Muitas vezes, a presença de estados depressivos ou outros tipos de alterações de comportamento são encarados como parte “normal” do processo da adolescência, contribuindo para o agravamento do quadro. Os principais transtornos psiquiátricos associados ao uso de álcool e outras drogas nessa fase são os de humor, de ansiedade, de conduta, alimentares e do déficit de atenção e hiperatividade.

De acordo com dados do Cebrid, existem alguns fatores que, embora não possam ser apontados como desencadeantes, são úteis como “termômetros” para atentarmos à questão do uso de drogas nessa população. Embora não fique estabelecida uma relação direta entre seu consumo e a defasagem escolar em nosso meio, existem vários trabalhos científicos relatando forte associação entre uso de substâncias psicotrópicas e baixo rendimento escolar.

Outro fator que apresenta correlação importante com o uso de drogas é o absenteísmo às aulas. Levantamentos do Cebrid e diversos estudos internacionais têm demonstrado que, quanto mais intenso o uso de álcool e drogas, maior o número de faltas escolares. Com relação às classes socioeconômicas, algumas pesquisas afirmam que nos países em desenvolvimento há relação positiva entre o uso de certas drogas e o baixo nível socioeconômico. Ainda segundo dados do Cebrid, isso foi observado no Brasil, mas em uma população específica: meninos e meninas em situação de rua, ou seja, em crianças e adolescentes totalmente desprovidos de qualquer recurso social.

Com relação ao gênero, conforme pesquisa realizada em 1989 pela professora Beatriz Carlini-Cotrim, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e colaboradores, os indivíduos do sexo masculino tendem a fazer mais uso de substâncias como cocaína, maconha e álcool, enquanto os do sexo feminino tendem a usar mais medicamentos, como anfetaminas (remédios para emagrecer) e ansiolíticos (tranquilizantes). Tem-se notado, além disso, aumento do uso de esteroides anabolizantes e energéticos entre indivíduos do sexo masculino. No que se refere às idades, constata-se aumento de uso de drogas em pessoas acima dos 18 anos, mas com faixas estáveis de uso frequente nos últimos cinco levantamentos. Observa-se que os jovens têm, de forma geral, experimentado menos álcool que outros tipos de droga.

Diversos estudos nacionais, segundo dados do Cebrid, vêm apontando que a primeira experiência com drogas ocorre após contato prévio com álcool ou tabaco. Isso sugere que as estratégias preventivas devam ser orientadas para retardar as primeiras experiências com essas substâncias, aumentando a margem de segurança da experimentação de outras drogas. Quanto mais tardia for a experimentação de drogas, menores as chances de a pessoa desenvolver padrões de abuso e dependência.

Vários trabalhos têm mostrado que o tratamento ideal para indivíduos dependentes de drogas deve ser, a princípio, de caráter voluntário, em sistema ambulatorial e com equipe multidisciplinar em centros especializados. Ao pensar no tratamento ideal dirigido a adolescentes, sabe-se que, além desses fatores, deve-se contar com intervenções de apoio e suporte às famílias e com o emprego de atividades lúdicas e/ou artísticas, como forma de melhorar a adesão a este.

Do ponto de vista médico, é essencial que os pacientes sejam avaliados por um psiquiatra com o objetivo de verificar a presença de comorbidades e a necessidade de intervenção medicamentosa, bem como efetuar uma avaliação clínica criteriosa em função dos possíveis danos causados à saúde física desses indivíduos.

A indicação de internação no tratamento da dependência deve ser relativizada, sobretudo porque existe um mito em nosso meio de que ela tem capacidades “curativas”. O que se observa na prática, entretanto, é que diversas pessoas, uma vez internadas, dão início a um processo de sucessivas internações visando garantir a abstinência, mas com resultados frustrantes.

A internação não possui, de fato, caráter curativo e deve ser indicada, no que concerne ao uso de álcool e drogas, com o propósito de desintoxicação, para que o indivíduo se restabeleça e dê continuidade ao acompanhamento extra-hospitalar. Ela também pode ser levada em conta em casos semelhantes às internações psiquiátricas- por exemplo, na vigência de comportamentos que coloquem em risco a vida do usuário e dos outros, agressividade extrema e risco de suicídio -, bem como constituir uma forma de preservar a saúde física em situações em que a pessoa esteja extremamente debilitada ou haja risco de exposição social.

Os profissionais de saúde devem estar atentos às expectativas dos familiares quanto aos resultados do tratamento, é bastante frequente esperarem que o paciente consiga atingir um padrão de abstinência total logo no início do tratamento, não tolerando recaídas e fazendo julgamento moral sobre o uso. É por esse motivo que um sistema de apoio aos familiares dos pacientes deve fazer parte do tratamento, na forma de atendimentos individuais ou grupais, com o objetivo de fornecer informações, melhorar a comunicação entre eles e, não raras vezes, encaminhar a família para tratamento psicoterápico.

QUANTO MAIS CEDO, MAIS PERIGOSO

As chamadas drogas de abuso, como nicotina, cocaína e maconha, afetam o sistema límbico, conhecido como área de recompensa cerebral. Em geral, ela responde a experiências agradáveis, lançando no corpo o neurotransmissor dopamina, que proporciona sentimentos de prazer. Determinadas drogas, com tamanho e forma similares aos neurotransmissores naturais, aumentam a ação da dopamina e de outros neurotransmissores, como a noradrenalina e a serotonina.

Pesquisadores acreditam que a liberação de dopamina no núcleo accumbens seja o fator preponderante para o desenvolvimento da dependência. O hipocampo registra a satisfação rápida provocada pela droga e a amígdala cria uma resposta condicionada a esses estímulos.

A idade da exposição inicial a substâncias que viciam é inversamente proporcional ao risco de desenvolver drogadição, afirmam especialistas.

Estudos realizados com camundongos e cocaína têm favorecido a hipótese de que o cérebro adolescente seja mais vulnerável à dependência. A pesquisadora Michelle

Ehrlich, do Instituto Farber de Neurociências, da Universidade Thomas Jefferson, nos Estados Unidos, pesquisa as “adaptações moleculares” no cérebro em resposta a drogas psicoestimulantes.

Em 2002, um estudo liderado por ela, feito com camundongos, revelou que um fator de transcrição denominado delta-FosB (proteína envolvida na indução da síntese de outras proteínas) era produzido no corpo estriado desses animais quando expostos a cocaína e a anfetaminas com regularidade. A principal função dessa região cerebral parece ser o controle da motricidade. Os pesquisadores supõem que tal proteína integre um processo de “adaptação” do cérebro que programa respostas em longo prazo, como a dependência de drogas.

Eles descobriram que, em camundongos adolescentes, a proteína era produzida em escalas muito maiores em uma parte específica da estrutura associada à sensação de recompensa após o consumo de drogas. A experiência sugere que indivíduos jovens expostos a efeitos psicoestimulantes de drogas podem ter o equilíbrio químico do cérebro muito mais afetado do que se imaginava.

EU ACHO …

DECLARAÇÃO DE AMOR

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O VÔ TÁ LIGADO

Pessoas acima de 60 anos ficaram ainda mais ativas nas redes sociais e nas transações, on-line durante a quarentena: isso é ótimo, mas no universo digital traz riscos.

Pela primeira vez na história uma geração inteira de sessentões – e, quem sabe setentões e oitentões, noventões e o que mais vier por aí – terá pela frente a tecnologia. Como uma aliada da rotina. Por mais que a internet, as redes sociais e os gadgets pareçam, à primeira vista, destinados especialmente aos mais jovens, estudos recentes mostram que a turma sênior nunca esteve tão aberta às inovações trazidas pelos novos tempos. Eia está mais conectada, e isso não é apenas um retrato momentâneo, mas uma tendência que mudará para sempre a forma como a sociedade consome produtos e serviços. Com o avanço da medicina, está cada vez mais saudável envelhecer o envelhecimento da população, será preciso olhar para os idosos como um público capaz de entender, e desfrutar, as maravilhas do universo tecnológico. É lá que estão, por exemplo, as mídias digitais e os negócios on-line que ganharam nova dimensão na crise do novo coronavírus. É lá que os veteranos querem estar, e onde certamente estarão por muitos anos.

Não é exagero dizer que os sessentões e seus pares mais velhos são digitais hoje em dia. A avaliação pode ser comprovada por um amplo estudo realizado pela Kantar Ibope, que trouxe novas luzes sobre esse grupo etário. De acordo com o levantamento, 75% dos idosos com acesso à internet fizeram alguma transação on-line no ano passado, um recorde. Além disso, foi detectado um aumento de 66% nas interações via mídias sociais, na comparação com os últimos cinco anos. As mudanças não são à toa. Isoladas na pandemia, ou trabalhando em home office, as pessoas acima de 60 anos foram obrigadas a estreitar a relação com a tecnologia. Aprenderam a se virar, e gostaram do que viram. Os números da Kantar Ibope confirmam a percepção. A maioria delas aumentou a permanência na internet e nas redes sociais durante a pandemia, além de consumir mais streaming e itens on-line. A plataforma preferida foi o Facebook, acessada por 98% dos que têm acesso à internet, seguida pelo WhatsApp, com 95%.

Poucas atividades despertaram tanto o apetite dos mais velhos quanto o comércio eletrônico. Eles perceberam que as compras domésticas estão a um clique de distância, e uma pequena revolução foi desencadeada. Segundo a plataforma digital Supermercado Now, especializada em delivery de alimentos, bebidas, produtos de limpeza e tudo o que pode ser encontrado nas gôndolas, o número de usuários acima de 60 anos aumentou 1.575% em 2020, mais do que qualquer outra faixa de idade. Atualmente, eles representam 13% de clientes, e a participação não para de crescer. Como a digitalização é inevitável, surgiram iniciativas como o Vovó Hi-Tech, projeto que oferece aulas sobre tecnologia para idosos. “Nosso objetivo é trazer independência digital para as pessoas”, diz Paula Peleja, fundadora da empresa. Um dos alunos é Osvaldo Santana e Silva, psicólogo de 68 anos, de Brasília, que começou a frequentar o curso no início da pandemia. “Quando a crise chegou e tudo passou a ser feito virtualmente, entrei em pânico por não conhecer as ferramentas digitais”, revelou. “Por isso decidi buscar ajuda”.

Nem sempre é preciso dizer que a inclusão digital é bem-vinda. Sem ela, o acesso à informação é limitado, as oportunidades de trabalho desaparecem e a pessoa vive como se estivesse no limbo da sociedade. Tudo isso é verdade, mas existem riscos que não podem ser ignorados. Um exemplo é o fato de idosos serem mais suscetíveis a fraudes conhecidas como o phishing, método que se baseia na tentativa de obter dados pessoais por meio do envio de links falsos ou mensagens mal-intencionadas. Estudos já demonstraram que pessoas com mais de 60 anos são as vítimas preferidas dos criminosos. Não é só isso. Também há pesquisas indicando que elas caem mais frequentemente em fake News. De acordo com um artigo publicado recentemente na revista científica Science Advances, indivíduos acima de 65 anos são mais propensos a divulgar notícias falsas – em geral, isso ocorre porque não sabem identificar fontes confiáveis na internet.

A ciência demonstrou em inúmeros tratados os benefícios irrefutáveis da inclusão digital. Além da maior integração à sociedade, o acesso a dispositivos eletrônicos é um estimulante poderoso para o cérebro. A tecnologia também pode ser uma fonte de independência ao permitir a realização de compras, transferência bancárias e interações sociais pelo celular ou computador, mesmo para aqueles com dificuldade de locomoção. Não significa, porém, que basta largar o idoso conectado ao smartphone para deixar de visita-lo ou não fornecer o carinho indispensável. O vovô está ligado, mas ele não quer ficar sozinho.

CADA VEZ MAIS CONECTADOS

Ter idade mais avançada não é barreira para usar as tecnologias disponíveis

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE MARÇO

MULHER VIRTUOSA, COROA DO MARIDO

A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão nos seus ossos (Provérbios 12.4).

A Bíblia fala de dois tipos de mulheres. Não as classifica em belas e feias, ricas e pobres, jovens e velhas, mas em virtuosas e desavergonhadas. A mulher virtuosa é a recompensa de seu marido: traz- lhe alegria e honra (Provérbios 18.22). A desavergonhada é como câncer em seus ossos: produz-lhe sofrimento atroz e abrevia-lhe os dias. A virtuosa é fiel, e o coração de seu marido confia nela. A desavergonhada entrega-se às paixões e ao adultério, destruindo com suas mãos a própria casa. A mulher que procede vergonhosamente é aplaudida hoje em nossa cultura moribunda. A decadência dos costumes e o colapso da ética estimulam o adultério e promovem a infidelidade. O casamento tornou-se frágil, e o divórcio, banal. Os filhos estão se tornando órfãos de pais vivos, enquanto os cônjuges buscam com mais avidez novas aventuras. Nessa corrida desenfreada rumo à decadência dos valores morais, precisamos erguer bem alto a bandeira da verdade e dizer que a virtude traz honra, mas o comportamento despudorado promove sofrimento e morte. Precisamos alçar nossa voz e dizer que a mulher virtuosa é feliz e promove felicidade, mas a mulher desavergonhada é infeliz e fonte de profundo desgosto.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE FAZER COM O CANSAÇO MENTAL CAUSADO PELO EXCESSO ON-LINE?

De repente eu me vi toda arrumada para uma festa, cantando parabéns e brindando o aniversário de um amigo na frente da tela do computador com mais de 20 outras pessoas.

Parei para refletir sobre aquela cena que parecia surreal até alguns meses atrás. Por conta da pandemia do novo coronavírus, estamos, mais do que nunca, usando videochamadas no nosso dia a dia.

Se você está se sentindo mais exausto ao final do dia do que se sentia antigamente, não está sozinho!

Estamos olhando a tela do computador para basicamente quase tudo nessa pandemia: para trabalhar é na frente do computador, reuniões virtuais vieram para ficar, para estudar estamos on-line, falar com a família, idem, e por aí vai.

Mas isso pode trazer uma exaustão mental que nunca tivemos antes, o chamado Zoom fatigue. A expressão em inglês Zoom fatigue significa “cansaço do Zoom”, uma referência ao aplicativo de vídeos que se popularizou no mundo nos últimos meses.

Semana passada li uma matéria na Harvard Business Review sobre o tema e gostaria de compartilhar com vocês fazendo algumas contribuições para lidar com o cansaço on-line.

Segundo os especialistas, as reuniões em vídeo exigem muito do nosso cérebro e visão. Sem os detalhes do “ao vivo”, a comunicação não é totalmente eficiente e isso deixa a nossa cabeça estressada no fim do dia, aumentando a sensação de cansaço de trabalho.

Uma das razões que mais causam esse cansaço é a tentação da multitarefa. Isso mesmo: não caia na tentação! É fácil pensar que na frente do computador você pode fazer mais em menos tempo, abrindo várias janelas de programas diferentes para adiantar aquele relatório, responder a algumas mensagens do Whats App e até ler notícias do dia enquanto o colega fala na reunião à qual você deveria estar prestando atenção. Algo que não fariam se estivessem presencialmente com outra pessoa.

Quantos alunos eu chamo on-line que está conectado, mas bem longe de estar presente na minha aula. Isso não é legal para ninguém!

Pelo fato de olhar para a tela do computador, quase ninguém perceberá que você não está prestando atenção, por isso a tentação é grande de se deixar levar por fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas isso tem um preço para seu cérebro, que está registrando tudo.

Na próxima reunião on-line, feche todos os programas que podem distrair você, concentre-se na reunião para que termine logo. A propósito, procure trocar um pouco reuniões on-line por telefonemas e e-mails. Será mesmo que precisamos de tantas reuniões virtuais? Eu tenho usado também os áudios do WhatsApp para decisões na minha empresa, mas cuidamos para que não ultrapassem dois minutos de áudio (ninguém aguenta áudios longos que parecem podcasts).

Já é comprovado cientificamente que devemos fazer pausas a cada 52 minutos para melhorar nossa produtividade. A pausa não significa sair do Word e ir para o Excel, e sim tomar um café, fazer alongamento, andar pela casa, meditar, jogar um pouco de videogame e até assistir a um trecho da sua série favorita. Lembrando que cada pausa não é para ultrapassar 20 minutos. Fiquem atentos. Eu confesso que não paro a cada 52 minutos, faço as pausas a cada 1h30 ou a cada término de um trabalho específico e funciona para mim. Como se fosse “virar a página” para ler capítulo novo do livro.

O fim do isolamento social não significará o fim do home office para várias empresas estrangeiras e nacionais. Algumas estenderam o trabalho remoto até o fim do ano, outras já decidiram migrar de vez para o formato a distância e há aquelas que planejam voltar à medida que a crise sanitária melhorar, mas com flexibilização, possibilitando ao trabalhador ficar ou não em casa. Mesclar trabalho presencial e a distância deverá ser comum no cenário pós-pandemia.

Portanto, é preciso tomar cuidado para não desencadear novos problemas em nossa vida. Algumas dessas dicas apresentadas neste artigo talvez sejam difíceis no começo, mas poderão ajudar a prevenir a exaustão do seu cérebro e trazer mais tranquilidade para você trabalhar nesse novo normal.

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho. Mestra em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas. li http://www.danieladolago com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIGA-ME COM QUEM COME…

A quantidade de calorias ingerida por uma mulher depende do sexo da pessoa com quem ela compartilha a refeição. Pelo menos é o que mostra um estudo realizado na Universidade McMaster, no Canadá. Quando está com um homem, o total calórico de seu prato tende a ser menor do que se ela estiver acompanhada de outra mulher, constataram os pesquisadores em observações conduzidas na cafeteria da universidade.

Em grupos maiores, a quantidade de calorias foi inversamente proporcional ao número de homens que dividiam a mesa. Segundo os autores, os resultados reforçam a ideia de que a alimentação é uma atividade social. No caso das mulheres, explicam, é possível que pequenas porções de comida reflitam, de forma inconsciente, uma maior atividade que elas querem demonstrar para o sexo. O estudo foi publicado na revista Appetite.

EU ACHO …

ANONIMATO

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TELA EM EXPANSÃO

Nos EUA, é dado como certo que a Apple, a marca de smartphones mais desejada, prepara o lançamento de um aparelho com visor dobrável

Desde que lançou, em 1984, o Macintosh, primeiro computador pessoal de uso verdadeiramente amigável, a Apple tem mudado a sociedade com inovações que alteram até mesmo a percepção que as pessoas têm do mundo ao redor. Em 2001, ela levou a indústria fonográfica à lona com o iPod: uma nova forma de ouvir centenas de músicas em um único diminuto aparelho. O lançamento do primeiro iPhone, em 2007, e do iPad, três anos depois – com suas telas sem botões e sensíveis ao toque -, impactou a humanidade de tal forma que as crianças nascidas a partir de 2010 têm sido chamadas de geração Glass (vidro) devido à fácil assimilação da tecnologia “touchscreen” desde a tenra idade. De 2007 para cá, mais de 2,2 bilhões de unidades de iPhone foram vendidas em todo o planeta e o número não para de crescer. O próximo desafio, ao que tudo indica, terá a mesma magnitude das inovações anteriores, de imensa repercussão: oferecer ao público uma tela de smartphone maior que possa ao mesmo tempo ser transportada no bolso. Em outras palavras, uma tela dobrável.

Para alcançar a liderança também nessa família de produtos, puxada pela Samsung, Motorola e Huawei, com a Xiaomi correndo por fora, a Apple tem se desdobrado – e costura alianças improváveis. Segundo profissionais especializados em interpretar os bastidores da empresa (e eles não costumam errar, sempre muito bem informados), a companhia deu as mãos para a arqui-inimiga Samsung, que forneceria as telas. Soa estranho, mas não é. A fabricante sul-coreana é a principal fornecedora de telas do tipo OLED, que compõem o iPhone.

Lembre-se que a Samsung lançou o expansível Galaxy Fold em abril de 2019 debaixo de críticas. Muitos usuários experimentaram incidentes como rachadura na tela e problemas de conexão. As reclamações foram tantas que o então CEO da empresa, Koh Dongjin, em ato de contrição, desculpou-se publicamente. Superadas as dificuldades, 1 milhão de unidades já haviam sido vendidas três meses depois do relançamento, sinalizando alguma adesão do público à nova tecnologia.

Nesse período, a companhia liderada pelo executivo Tim Cook não dormiu no ponto. Sabe que pode depender da Samsung, e também da LG, na compra de telas OLED, mas montou caminho próprio de modo a dar o salto decisivo. Fontes próximas da empresa disseram a jornalistas americanos que a Apple está desenvolvendo uma versão de smartphone com uma dobradiça literalmente invisível, como mágica de Harry Potter, que faria a tela ganhar o dobro da área de um iPhone 12 Pro Max, modelo top de linha com visor de 6,7 polegadas (cerca de 17 centímetros na diagonal). Em outras palavras, quando aberto, o celular ficaria parecido com um iPad.

Para além dos problemas ligados à integridade da tela, existem outras preocupações rondando o desenvolvimento dos smartphones dobráveis, que vão desde a vida útil da bateria, menor que nos celulares existentes hoje, até uma dispendiosa adaptação do software para os novos aparelhos. Além disso, a menos que os técnicos consigam tornar o iPhone ainda mais fino, ele tenderia a ficar volumoso demais quando dobrado, algo que de fato ocorre com o Galaxy Fold – que tem quase 2centímetros de espessura na área da dobradiça e incomoda a manipulação do usuário.

Espera-se o anúncio de novos iPhones e iPads nos próximos meses, mas a Apple, bem a seu feitio, mantém sob sigilo máximo o projeto de telas dobráveis para smartphones. O que mais se fala no mercado é de um modo wireless mais eficiente de carregamento de bateria, que eliminaria definitivamente a porta do aparelho onde é conectado o cabo para carregar. A opção por indução magnética já existe, mas é pouco explorada. Em se tratando de Apple, entretanto, é sempre bom não subestimar o efeito-surpresa. Gigante da tecnologia e campeã em marketing – tanto na capacidade de compreender os anseios das pessoas quanto no esforço contínuo de se reinventar – , a empresa criada pelo visionário e irascível Steve Jobs (1955-2011) há 45 anos tem em seu DNA a marca do fundador: a inovação. Seu faturamento no ano fiscal de 2020 foi de 274 bilhões de dólares, sinal de impressionante robustez. Superando a Amazon como a marca mais valiosa do mundo, ela provavelmente continuará na liderança por um bom tempo, com ou sem telefones dobráveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE MARÇO

A VIDA DO JUSTO, FIRMEZA INABALÁVEL

O homem não se estabelece pela perversidade, mas a raiz dos justos não será removida (Provérbios 12.3).

A prática do mal não compensa. Pode até render benefícios imediatos, mas depois traz tormentos permanentes. Aqueles que tentam se firmar mediante a impiedade serão desarraigados repentinamente. Serão como a palha que o vento dispersa. Serão como uma casa construída sobre a areia. A tempestade passará e a arrastará irremediavelmente, e grande será a sua destruição. Quanto maior a altura conquistada pelos artifícios da corrupção, maior será o tombo. Quanto mais alto o posto ocupado mediante os expedientes da maldade, mais humilhante será sua descida ao fundo do poço. Se o perverso se torna como uma lasca solta num mar bravio, o justo é como uma árvore solidamente plantada, cujas raízes não podem ser removidas. O justo pode até passar por provas amargas, por injustiças violentas e por tempestades borrascosas, mas sua raiz não será removida. Ele pode até perder sua vida e seus bens, mas jamais perderá sua reputação e sua descendência santa. A vida do justo é sólida aqui e feliz eternamente. O tempo não pode apagar sua memória nem deslustrar seu nome. O justo ultrapassará os umbrais da eternidade e habitará com o Senhor para todo o sempre, na mais esplêndida bem-aventurança.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO COM A SABOTAGEM

Por causa de pressão exagerada, descontentamento ou até ordens da chefia, funcionários boicotam as empresas. Saiba como proteger a companhia desses desvios de conduta

No fim do ano passado, a cervejaria, Backer, de Belo Horizonte (MG), ganhou a atenção dos noticiários por um triste motivo: a intoxicação de pessoas por uma substância que estaria presente em suas bebidas, o dietilenoglicol. Uma das possibilidades levantadas na investigação, que totaliza 42 casos suspeitos e nove mortes, é que a empresa, teria sofrido sabotagem de um ex­ funcionário. Em janeiro, a Backer apresentou à Justiça um vídeo que mostraria sabotagem nos barris de monoetilenoglicol, usado em serpentinas de resfriamento. 

A Suspeita ainda está em análise, mas chama a atenção para o risco de uma companhia sofrer por causa de empregados mal-intencionados. No caso da Backer, que vinha ganhando mercado, isso representou uma paralisação em seus negócios e uma mancha em sua reputação que, talvez, nunca seja superada.

No Brasil, o tema vem na esteira dos escândalos de corrupção que marcaram os últimos anos com operações da Polícia Federal batendo à porta de Odebrecht e JBS, entre outras. Alexandre Borges, sócio da consultoria Deloitte na área de riscos, conta que vem testemunhando, em comitês e órgãos de governança, a discussão sobre como se proteger de desvios dos funcionários. “Cresce o conceito de risco de conduta, que deve ser mapeado pelas empresas”, diz. Entre os riscos, que passam a ser contemplados está o de sabotagem.

FATORES EMOCIONAIS

Um dos pontos que diferenciam a sabotagem dos outros desvios é que, nela, o foco tende a ser o benefício pessoal de quem comete o ato, não necessariamente trazendo ganhos para a empresa, como na corrupção. Além disso, a sabotagem costuma alterar ou prejudicar um processo ou produto, que, de outra forma, não sofreria nenhum malefício.

Casos graves como o da Backer podem ser mais raros, mas para os especialistas, há uma série de desvios no dia a dia que podem prejudicar a companhia e sua reputação. ”Já tive de substituir um executivo que fraldava as compras em seu setor – e depois descobrimos que havia uma série de 1pssoas agindo em conjunto. A estrutura toda teve de ser mandada embora”, diz João Marcio Souza, CEO da Talenses Exeutive, especializada em recrutamento de alta liderança.

A sabotagem pode ser motivada por fatores emocionais, estresse, muita pressão por resultados ou insatisfação profunda. “Normalmente, quem sabota tem raiva ou descontentamento”, diz Nelson Fragoso, professor de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. “A gente pode comparar com o sentimento de vingança”.

A Tesla, fabricante de carros elétricos e soluções de energia alternativa, parece ter sofrido com um profissional descontente por não ter recebido uma promoção. Segundo Elon Musk, presidente executivo da companhia, o sabotador alterou o código de programação do sistema de produção e enviou informações sigilosas da empresa para terceiros. O empreendedor citou ainda outro incidente: um pequeno incêndio em uma das instalações da organização, também possivelmente ligado à sabotagem. A Tesla é conhecida por suas inovações – como os carros voadores -, e a competição por estar sempre na vanguarda pode, também, aumentar a vulnerabilidade à sabotagem. “Grande parte das organizações está investindo muito em processos de inovação, que são a deixa para alguns funcionários tirarem vantagem”, diz Alexandre, da Deloitte.

MAPEANDO OS RISCOS

O risco da má conduta de um empregado, que pode ir desde a postagem de fake news sobre a companhia nas redes sociais até o desligamento de um sistema, costuma ter dois aspectos. O primeiro é comportamental e comum a todas as empresas, que precisam conhecer – e treinar – a conduta dos profissionais, principalmente no que diz respeito à ética e à conquista de prêmios e bônus (forçar muito a remuneração variável, por exemplo, pode incentivar atitudes perigosas). O segundo diz respeito a processos e cenários específicos daquele tipo de negócio, que devem ser mapeados para encontrar os pontos de atenção. “Grande parte das empresas nacionais ainda não tem esses riscos estabelecidos”, diz Alexandre.

Conhecê-los ajuda a definir que programas e diretrizes são necessários para orientar os funcionários, além de refinar processos de qualidade e auditoria interna. Estabelecer de forma clara as consequências dos atos de empregados de qualquer nível é essencial e não cabe somente à área de compliance – o RH precisa mapear os riscos em conjunto. “O grande acerto é na hora da contratação”, diz João Marcio. “É o pri­meiro-passo para não haver desvios de conduta lá na frente.”

Esse é o momento para fazer as checagens possíveis: falar com antigos pares, líderes e subordinados para entender como aquela pessoa se comporta em determinados cenários. Processos como o background check, que investiga o passado do candidato, podem ser importantes especialmente para contratações de alto nível. O grau de autoridade que cada profissional tem para interferir em processos da empresa também deve ser levado em conta.

Uma das práticas que vêm sendo adotadas são os testes de integridade. Eles podem ser úteis porque cada um possui gatilhos diferentes para se envolver em atitudes anti­éticas. “O objetivo não é ver se a pessoa é honesta, mas encontrar as situações em que ela pode ter menos resiliência”, explica Mário Junior, sócio fundador e diretor do Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental, IPRC Brasil.

JOGO CLARO

“Você precisa mostrar as consequências das atitudes, boas e más”, diz Mario. “Não podemos assumir que todos têm o julgamento correto de tudo.” Por isso, os treinamentos precisam ser constantes e gerar engajamento, com o uso de vídeos e simulações de cenários em que o funcionário é forçado a fazer uma escolha – debater as decisões é essencial.

Outra solução passa pela automatização de processos sensíveis para a companhia – e que possam ser robotizados sem que haja perda de qualidade. Carlos Plazza, consultor e especialista em gestão de crises, cita a governança sem intermediários, operada através de tecnologia blockchain. “Ela obriga todos a operar de acordo com o que foi determinado, e tudo no processo é visível, certificado e imutável”, diz. “Usar tecnologias que rastreiem o que é feito tem sido algo muito bem-visto no mercado.” A postura da liderança também faz toda a diferença. Além de dar o exemplo, os chefes devem evitar um clima de medo na equipe. Muitas vezes vem dos gestores a pressão para saber quem foi a pessoa que fez uma denúncia ou reportou um problema. Isso gera um cenário de desconfiança que desestimula os empregados a apontar condutas duvidosas.

PROBLEMAS DE CULTURA

Um agravante em questões comportamentais é que o fator humano não é tão previsível. É por isso que grande parte da prevenção passa pelo clima organizacional. Ambientes muito competitivos, baseados no controle ou em uma quantidade exorbitante de tarefas sem recompensas, podem deflagrar sentimento de impotência, além de gerar pouca colaboração. “Aspessoas sentem que precisam ‘matar’ as outras para não ser demitidas”, diz Carlos. “Podem surgir traços psicopáticos e outros transtornos, além de burnout.”

A falta de reconhecimento é mais um peso. Um funcionário que se sinta desprestigiado pode apelar para a sabotagem como compensação. “Ele racionaliza a situação: faz algo porque a empresa merece aquilo ou para ser, enfim, reconhecido”, diz Mário, do IPRC. A única forma que as companhias têm de evitar isso é observar como as pessoas estão se sentindo e abrir espaços de comunicação que acolham os sentimentos dos empregados. “A empresa precisa saber o que acontece com os profissionais, se estão aborrecidos, se passam por alguma dificuldade”, diz Nelson, do Mackenzie.

Um caso recente ilustra bem tudo isso: Em março desse ano, um funcionário da American Airlines, com mais de 30 anos de casa foi preso depois de admitir ter adulterado uma aeronave que ia partir do Aeroporto Internacional de Miami para Nassau, nas Bahamas   com 150 passageiros. Ele relatou aos investigadores que estava chateado como resultado de uma negociação entre a companhia e o sindicato. Com a ideia de conseguir horas extras, colou um pedaço de isopor em um dos tubos para fazer com que a aeronave fosse enviada à manutenção. Sua intenção, afirmou, não era causar danos a ninguém, mas ganhar um extra, já que passava por um período de muitas dificuldades financeiras.                 

QUANDO HÁ SUSPEITAS

Se a empresa suspeitar de sabotagem, alguns cuidados devem ser tomados. A investigação começa por meio de entrevistas com todos os possíveis envolvidos, aplicadas normalmente pela área de auditoria e compliance. Mas o pessoal de gestão de pessoas também deve participar. “Seria importante treinar o RH para conduzir entrevistas e identificar riscos comportamentais, inclusive em processos de recrutamento e de demissão”, diz Mário.

A investigação precisa ser feita de forma transparente, mas com confidencialidade. Isso inclui não expor sem necessidade as pessoas envolvidas – e ter empatia com suspeitos para entender todos os lados da história. “A maioria não entra na empresa querendo cometer uma sabotagem ou fraude”, diz Mário. “É necessário usar esse momento para entender o que se passou e evitar que se repita.”

A medida também vale para resguardar a empresa. “É importante dar oportunidade para a defesa do empregado”, diz Daniela Yuassa, do escritório de advocacia Stocche Forbes. O ideal é que tudo seja documentado. “Deve haver uma política de conduta por escrito, que precisa ser assinada pelos funcionários.” Quanto mais clara e direta for a política, melhor.

Nem sempre é possível reunir provas suficientes para uma demissão por justa causa. Nesses casos, Daniela diz que algumas companhias podem se ver obrigadas juridicamente, a readmitir um funcionário. Essa é uma das razões para recomendar sistemas de backup de todas as máquinas, por exemplo. Caso a empresa passe por uma sabotagem, o melhor caminho é o aprendizado: analisar profundamente os erros para não sofrer novamente no futuro.

MEDIDAS DIFERENTES

O Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC) conduziu uma pesquisa para entender como um mesmo grupo de pessoas pode reagir a situações de desvios comportamentais no trabalho. Muitas vezes, o que falta é uma definição clara de quais são as condutas apropriadas. Os dados também mostram que a atuação do líder tende a definir a do restante da equipe

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMITAÇÃO FORTALECE VÍNCULO AFETIVO EM PRIMATAS

O ato de imitar o semelhante é importante para estreitar laços afetivos entre primatas. Uma pesquisa com macacos-prego, realizada por cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde, nos Estados Unidos, apoia essa ideia – já demonstrada por outros trabalhos. O curioso desta pesquisa, no entanto, é que as evidências vieram não da observação da imitação entre os próprios macacos, mas do comportamento dos animais em relação aos pesquisadores.

Segundo artigo sobre o resultado do experimento, publicado na revista Science, os macacos preferiram a companhia dos cientistas que os imitaram, em detrimento daqueles que não reproduziram seus gestos e expressões. Os primatas não apenas gastaram mais tempo com os imitadores humanos como também preferiram participar de tarefas simples com eles, ignorando a solicitação dos pesquisadores que não os imitaram. Segundo os autores, a repetição de gestos e expressões parece ser compreendida como uma demonstração de empatia e tem um papel fundamental na formação dos grupos sociais.

EU ACHO …

INSÔNIA INFELIZ E FELIZ

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe se são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AH, NÃO, OUTRA REDE …

Uma nova plataforma, misto de clube privado e sala de bate-papo e programa de rádio, o Clubhouse virou mania entre jovens adultos – resta saber se vai sobreviver

Quando se pensava que não haveria nada de novo tão cedo em termo de redes sociais, uma vez que Facebook, Instagram, Twitter e Reddit, com alguns derivados e cópias têm presença hegemônica na internet, eis que surge uma sensação que está tomando de assalto os jovens adultos que adoram ouvir a conversa dos outros e até se meter nela. Trata-se do aplicativo clubhouse, uma tendência entre famosos, curiosidades do momento e tentação irresistível para quem teme perder as novidades.

Ao contrário de seus rivais pela atenção dos usuários, o Clubhouse não foi feito para a publicação fotos, vídeos e textos. A interface é sutil, ainda mais simplificada que a da maioria dos aplicativos, e permite apenas interação por voz. Assim, a rede se organiza em salas de bate-papo para os mais diversos temas – literatura, cinema, viagens, negócios, sexo -, dos mais amenos aos mais picantes, conforme a preferência do usuário.

De acordo com as predileções, o aplicativo sugere salas de bate-papo adequadas ao gosto do indivíduo. Dentro da conversa, cada pessoa adota a postura que preferir, seja apenas de ouvinte ou participando efetivamente do debate — mas ela só pode falar se o moderador permitir, já que ficaria impraticável 5.000 participantes (o limite por sala) falando ao mesmo tempo. As conversas podem ser informais, entre amigos, ou estruturadas, na forma de conferências. Não raro, por exemplo, um famoso é convidado a ser palestrante no grupo.

Lançado em abril do ano passado por um executivo e um engenheiro do Vale do Silício, Clubhouse virou assunto da hora quando Elon Musk, bilionário da Tesla e da SpaceX, comentou que teve uma conversa pelo app com Vlad Tenev, CEO da Robinhood, corretora protagonista na valorização inédita das ações da empresa de videogames GameStop. Em maio, a rede social tinha 1 500 usuários e valia cerca de 100 milhões de dólares. Agora, tem 6 milhões de inscritos e valor de mercado estimado em 1 bilhão de dólares, o que a instala no seleto grupo dos supervalorizados unicórnios digitais.

Seletividade, a propósito, é o termo apropriado para o aplicativo. Ele é exclusivo para convidados e cada usuário tem direito de convidar só duas pessoas. Além disso, só há versão para iPhone — donos de smartphones Android estão barrados no baile, pelo menos por enquanto. Além de Musk, estão na rede social o diretor da Globo, Boninho, e o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, entre outras celebridades. Outro diferencial é o fato de que nenhuma conversa fica registrada na plataforma, ainda que qualquer um possa gravar o bate­papo por outro dispositivo — a conversa de Musk, por exemplo, transmitida no YouTube.

A liberdade de expressão oferecida pelo Clubhouse mostrou-se atraente, mas não permanente. Quando chineses começaram a comentar assuntos polêmicos, como os protestos em Hong Kong, o governo tratou tirar logo a plataforma do ar. Quanto à exclusividade, aqueles que têm boa memória devem lembrar que, em 2011, o Google tentou criar sua própria rede social, o Google+, que funcionava por meio de convite. Apesar do alvoroço inicial, desidratou-se até ser desativado. Alguns anos antes, o próprio Facebook exigia que o convite para ingressar partisse de um usuário (ainda que sem limite de envios), política que acabou abandonada.

A exclusividade desse clube, porém, está com os dias contados. Se a empresa quiser mesmo ganhar dinheiro com sua plataforma, ela precisará ser abrangente, oferecendo mais convites e a versão para Android, sistema operacional predominante no mundo. No entanto, até que a festa seja aberta para todos, já tem gente disposta a pagar quase 300 reais por um convite no Mercado Livre. Isso faz com que analistas do setor fiquem empolgados com o futuro da nova plataforma. Só no Brasil, os programas de áudio chamados podcasts tem mais de 28 milhões de ouvintes, indicativo do potencial a ser explorado: “Tem tudo para ser um sucesso, pode ser um companheiro em tempos de home office”, diz Edney Soares de Souza, da Digital House Brasil. Já os mais céticos se perguntam para que ter mais uma rede social na vida, em um ambiente tecnológico que, em vez de ampliar o tempo livre, parece estrangular cada vez mais os momentos de lazer e aprendizado. Como diria Groucho Marx (1890-1977), o mais irônico da velha guarda de comediantes, “não quero fazer parte de nenhum clube que me aceite como sócio”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE MARÇO

BONDADE, O CANAL DO FAVOR DIVINO

O homem de bem alcança o favor do Senhor, mas ao homem de perversos desígnios, ele o condena (Provérbios 12.2).

Deus não tem prazer no homem mau. Não se deleita naqueles cujo coração é uma indústria de perversidades. O homem bom alcança o favor de Deus, mas aquele que planeja a maldade, o Senhor o condena. Deus não é um ser amoral, que faz vistas grossas ao pecado; nem é um ser imoral, que aplaude o vício e escarnece da virtude. Deus é santo e justo. Aborrece o mal e ama o bem. Ele é luz, e não há nele treva nenhuma. Ele aborrece os altivos de coração e resiste ao soberbo. Abomina até mesmo o sacrifício dos perversos. Deus reprova os intentos e desígnios dos perversos, mas abençoa aqueles que, de coração reto, buscam o bem. A bondade é um atributo moral de Deus. É fruto do Espírito. Só podemos ser homens de bem quando imitamos a Deus e somos conduzidos pelo seu Espírito. Andar por essa estrada é ter a promessa segura do favor divino. Deus se torna galardoador daqueles que o buscam. Entrar, porém, pelos labirintos da maldade é colocar-se sob a ira de Deus e expor-se ao seu reto e justo juízo.

GESTÃO E CARREIRA

ESCRITÓRIO NO DIVÃ

Aumenta a preocupação das empresas em cuidar do bem-estar e da saúde mental dos funcionários. Aprenda a estruturar bons programas

Estamos vivendo uma epidemia de transtornos mentais. No Brasil, mais de 18 milhões de pessoas sofrem de algum distúrbio de ansiedade – quase 10% da população -, pelos números mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2017. Quando se fala em depressão, estamos entre as nações com maior número de doentes: cerca de 12 milhões. E esses dados certamente já estão desatualizados, uma vez que não contabilizam os prejuízos que instabilidade econômica, desemprego, radicalização política e pandemia de covid-19 somaram à saúde mental do brasileiro.

Antes mesmo de o coronavírus virar tudo de pernas para o ar, as transformações pelas quais o mundo do trabalho está passando já apontavam para o que culminou em uma crise global de saúde mental. “Hiperconexão, cargas horárias excessivas, as demandas do mundo Vuca [sigla, em inglês para Volátil, incerto, complexo e ambíguo], deterioração das relações de trabalho, alta competitividade e forte pressão por resultados criaram desequilíbrio entre vida privada e profissional, insatisfação e sofrimento”, avalia Eduardo Ballia Santiago, médico e diretor da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).

A síndrome de burnout, provocada pelo excesso de estresse no trabalho, foi reconhecida em 2019 como fenômeno ocupacional. Boa parte dos casos de dependência química (álcool, drogas e medicamentos) e suicídio está ligada à mesma causa. O movimento recente das companhias de cuidar do bem-estar mental dos trabalhadores se fortaleceu depois de um alerta da OMS.

A instituição afirmou que doenças como ansiedade e depressão podem causar prejuízo em torno de 1 trilhão de dólares por ano à economia global em queda de produtividade. Nas duas últimas edições do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, as lideranças reunidas trataram da criação de investimentos em políticas de saúde mental como prioridade econômica e social.

No Brasil a explosão no número de pedidos de afastamento do trabalho por transtornos depressivos e ansiosos obrigou a empresas a agir. Pelos dados mais recentes da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia, referentes a 2017, eles foram o terceiro maior motivo para concessão de auxílios-doença no país, somando mais, de 72.000 benefícios. Diferentemente das doenças físicas que normalmente permitem que o profissional volte ao trabalho depois de algumas semanas, as mentais não têm essa previsibilidade”, diz Edwiges Parra, psicóloga organizacional e fundadora da Emind Mente Emocional, consultoria de desenvolvimento humano. “O retorno pós-depressão ou síndrome do pânico por exemplo, pode levar de seis meses a um ano. Ainda assim, a pessoa não volta no mesmo ritmo, além de ser comum ter recaídas e o desempenho comprometido.”

E o problema não são somente as licenças. “Os custos aparecem também na forma de absenteísmo, alta rotatividade e queda no rendimento do empregado que está ali, mas com dificuldade de se concentrar e tomar decisões”, explica Maria José Tonelli, professora no Departamento de Administração e Recursos Humanos da FGV Eaesp.

O PESO DO ESTIGMA

O preconceito em torno dos transtornos mentais é o principal obstáculo para que sejam tratados como merecem no contexto do trabalho. Muitas vezes parte do próprio empregado, que, por medo de demonstrar fragilidade, ficar estigmatizado ou ser demitido, segue trabalhando em vez de buscar tratamento. Por parte dos empregadores, o receio de ser invasivo e a falta de articulação entre as áreas de recursos humanos e saúde são apontados como obstáculos para criar programas de saúde mental consistentes.

A pesquisa Tendências de Saúde Mental 2019, da Mercer Marsh Benefícios, que levantou informações de 11 países da América Latina e do Caribe, revelou que somente 21% das empresas brasileiras têm programas ou políticas para gestão da saúde mental. São principalmente treinamentos e políticas de prevenção ao assédio e ao abuso de álcool e drogas, ainda de acordo com a pesquisa. Das companhias pesquisadas, 65% não realizaram estudo para obter dados de saúde mental dos funcionários nos últimos dois anos. Um erro, segundo os especialistas, já que o momento certo para trazer o tema à tona é quando todos estão saudáveis. “Cuidar da doença mental quando ela está instalada é enxugar gelo”, afirma Fatima Macedo, psicóloga organizacional e CEO da Mental Clean, consultoria de saúde mental. “O primeiro passo é falar sem medo sobre o assunto, tratando as doenças emocionais com a mesma naturalidade com que se fala das físicas”, diz.

O tratamento da saúde mental é como um quebra-cabeça, com peças que vão além do universo do trabalho. ”Paciente, família, médico, psicólogo, gestor e recursos humanos precisam se integrar para que as estratégias adotadas funcionem”, diz Eduardo, da. ABQ\T.

Do lado das empresas, as iniciativas são diversas e variam de acordo com o número de empregados, o segmento em que operam e a estrutura física. Mas uma delas pode ser aplicada em qualquer companhia: a educação. Campanhas, workshops, palestras e material gráfico sobre desdobramentos comuns das doenças mentais (dependência química; transtornos alimentares e suicídio) são úteis para remover o estigma e orientar sobre como procurar e oferecer ajuda.

BOTÃO DA CALMA

Incentivar um estilo de vida saudável por meio de convênios com academia, assessorias de corrida, consultorias de nutrição, aulas coletivas de ginástica laboral, sessões de meditação e mindfulness é outra medida interessante.

Essa é a aposta da farmacêutica Roche, que desde 2013 tem um programa global de saúde mental e bem estar. As práticas presenciais e semanais de mindfulness, por exemplo, têm boa adesão dos funcionários. Fora isso, em todos os telefones da empresa é possível ouvir áudios de meditação guiada de 5 e 20 minutos –  é só apertar um botão. As equipes são incentivadas a usar esse recurso antes de reuniões, uma vez dentro da sala, todos meditam por 5 minutos. O objetivo é desenvolver o hábito e levá-lo para fora do trabalho. Fazer essas pausas para reconexão é importante para o equilíbrio emocional”, diz Cyntia Silva, coordenadora de RH da Roche. Em home office por causa da pandemia da covid-19, os profissionais estão recebendo acesso às meditações para não interromper a prática.

AMBIENTES ACOLHEDORES

A estrutura física também pode contar a favor do bem-estar. Na Locaweb, o espaço da sede foi pensado para que as pessoas possam desconectar de vez em quando: há sala de descompressão e cochilo, área com pufes, sala de massagem e um jardim privilegiado onde acontecem meditações. “Acreditamos que é essencial criar meios para que os funcionários consigam equilibrar o trabalho com o lado pessoal. Com menos estresse e mais bem-estar, colhemos criatividade, produtividade e inovação”, diz Simony Morais, gerente de gente e gestão da companhia.

Outra prática importante é permitir o trabalho remoto, já que ficar em casa poupa o funcionário de gastar horas por dia se deslocando. Porém, para que seja de fato uma opção vantajosa para todos, é preciso criar uma rotina (para não trabalhar horas a fio ou até tarde da noite) e entrar em acordo com a família e a equipe a fim de estabelecer limites entre vida profissional e doméstica. “Mulheres podem se sentir especialmente sobrecarregadas se não se organizarem para fazer essa separação”, avisa Edwiges.

TERAPIA ONLINE

O atendimento à distância foi reconhecido recentemente pelo Conselho Federal de Psicologia. Consiste em uma sessão de terapia comum, com a diferença de a conversa entre paciente e psicólogo ser por videochamada. A plataforma Psicologia Viva, que atende mais de 40 empresas e operadoras de saúde, realizou cerca de 50.000 atendimentos em 2019, pelo menos 80% por meio de programas corporativos. “Ansiedade e depressão são as principais motivações para busca da terapia”, diz Edinei Santos, sócio fundador da startup. Para Fatima, da Mental Clean, quando o foco é a carreira, o psicólogo precisa estar preparado. “É importante ter conhecimento de saúde ocupacional e olhar para o paciente como um trabalhador”, diz.

Quando o atendimento é via empresa, normalmente uma linha telefônica é disponibilizada ao funcionário e ele é direcionado para uma espécie de consultoria para tirar dúvidas de ordem psicológica (sem ser uma terapia), jurídica, financeira e até pedagógica, no caso de mães e pais com alguma dificuldade na criação dos filhos. É uma forma de acolher o empregado em suas necessidades privadas e facilitar o equilíbrio entre todas as esferas da vida. “Para algumas pessoas, ajudar a resolver questões práticas é o suficiente para aliviar desconfortos emocionais, também pode auxiliar a identificar quando um problema merece terapia. Isso ajuda a prevenir o adoecimento”, diz Fatima.

CENÁRIO PÓS-PANDEMIA

A incerteza em relação ao avanço do coronavírus e ao futuro do emprego sornada às mudanças na rotina por causa da quarentena, tende a intensificar a ansiedade, o estresse e a depressão.

Assim, a busca por ferramentas e serviços de apoio on-line (de palestras sobre saúde emocional a sessões de meditação e atendimento psicológico à distância) vem crescendo. Só na primeira semana da quarentena; a plataforma Virtude, de terapia online, registrou aumento de 250% na busca de seu serviço para organizações. A Psicologia Viva viu saltar de 7.000 para 1.000 os atendimentos no primeiro mês de quarentena.

A mudança para jornadas mais flexíveis também parece um caminho sem volta. O home office será uma realidade – para cada vez mais pessoas, principalmente nas grandes cidades. Empresas que antes relutavam em dar essa opção aos times agora terão de aceitar o modelo para reduzir custos com estrutura e cuidar do bem-estar dos funcionários” diz Fatima.

O momento também é de reinvenção das lideranças, que mais do que nunca precisam ser direcionadas para a gestão de pessoas. “Habilidades como empatia, transparência, acolhimento e boa comunicação são indispensáveis neste momento de quarentena”, explica Maria José, da FGV Eaesp. Pressionados; os gestores também vão ter de apostar em muita inteligência emocional para equilibrar tudo. Por isso, vale o conselho da professora: “É preciso ter consciência da necessidade de cuidar de si para cuidar dos outros”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HORMÔNIO DA RESILIÊNCIA

Que características biológicas fazem uma pessoa mais ou menos resistente às adversidades da vida? Com essa pergunta em mente e certos de que a resposta a ela pode ajudar muitas pessoas a superar sofrimentos psíquicos, pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, chegaram ao hormônio deidropiandrosterona, mais conhecido como DHEA, secretado pelas glândulas adrenais em resposta ao stress.

O estudo foi realizado com soldados americanos que participaram de um curso militar de qualificação para combate debaixo d’água, seguido de exame altamente estressante devido a exercícios radicais de mergulhos noturnos. Os participantes foram avaliados, antes e depois do curso e da prova, por questionários psicológicos e medidas da concentração sanguínea de DHEA. Os resultados mostraram que, ao final do exame, aqueles com níveis mais elevados do hormônio se apresentavam mais tolerantes ao stress físico e psicológico.

Pesquisas com animais já haviam apontado que a DHEA age em receptores do hipocampo, região cerebral muito sensível aos efeitos negativos do stress. Segundo os autores do estudo publicado na revista Biological Psychiatry, os resultados abrem a perspectiva de que, no futuro, drogas similares à DHEA possam ser usadas para proteger soldados do intenso desgaste de operações militares.

EU ACHO …

CARTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destinadas para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sinto-me com mais direito de falar com o Ministro da Educação por já ter sido estudante.

O senhor há de estranhar que uma simples escritora escreva sobre um assunto tão complexo como o de verbas para educação – o que no caso significa abrir vagas para os excedentes. Mas o problema é tão grave e por vezes patético que mesmo a mim, não tendo ainda filhos em idade universitária, me toca.

O MEC, visando evitar o problema do grande número de candidatos para poucas vagas, resolveu fazer constar nos editais de vestibular que os concursos seriam classificatórios, considerando aprovados apenas os primeiros colocados dentro do número de vagas existentes. Esta medida impede qualquer ação judicial por parte dos que não são aproveitados, não impedindo, no entanto, que os alunos tenham o impulso de ir às ruas reivindicar as vagas que lhes são negadas.

Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! e que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas faculdades os que tirarem melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiraram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela. Eu mesma fui universitária e no vestibular classificaram-me entre os primeiros candidatos. No entanto, por motivos que aqui não importam, nem sequer segui a profissão. Na verdade eu não tinha direito à vaga.

Não estou de modo algum entrando em seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto.

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa.

Se a verba para universidades é curta, obrigando a diminuir o número de vagas, por que não submetem os estudantes, alguns meses antes do vestibular, a exames psicotécnicos, a testes vocacionais? Isso não só serviria de eliminatória para as faculdades, como ajudaria aos estudantes que estivessem em caminho errado de vocação. Esta ideia partiu de uma estudante.

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra “excedente”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentira desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.

O senhor sabe o preço dos livros para pré-vestibulares? São caríssimos, comprados à custa de grandes dificuldades, pagos em prestações. Para no fim terem sido inúteis?

Que estas páginas simbolizem uma passeata de protesto de rapazes e moças.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A TERAPIA DA AGULHA

Os bordados de tricô e crochê voltaram à moda como hobby, remédio contra o estresse e até oportunidades de negócios para pessoas de todas as idades

No passado, a tarefa de aprender a bordar era exclusiva de algumas “mulheres prendadas”, que se dedicavam a aprimorar essa qualidade essencial para quem desejava ser uma “boa esposa”. O mundo mudou e esse conceito ficou congelado no passado, mas o hábito em si, não: o bordado, o crochê e o tricô ganharam a indústria da moda, deixaram o sexismo de lado e atualmente são sinônimos de bem estar emocional para pessoas de todos os gêneros e idades.

“Comecei a postar vídeos quando ainda nem era possível ganhar dinheiro com o Youtube. Hoje tenho mais de meio milhão de inscritos no meu canal”, comemora Daísma Vaz, influenciadora digital conhecida como “Day Vaz” nas redes sociais. Prestes a lançar um aplicativo para celular voltado para o ensino de técnicas de tricô e bordado, ela garante que seu público é cada vez mais jovem e diversificado. “Tenho interessados dos 12 aos 65 anos.”

É o caso da artesã e empresária Caroline Weiss. Após trabalhar no setor de marketing de uma empresa de fios, descobriu no crochê uma vocação que acabou virando negócio próprio. “Decidi aprender para conhecer melhor o produto da minha empresa e não parei mais. É terapêutico e viciante”, diz. Caroline acredita que existe uma nova percepção sobre o trabalho manual e o artesanato. Visto até pouco tempo como uma coisa ultrapassada, passou a ser considerado algo moderno e divertido. “Você começa com um ponto simples e aos poucos vai aprendendo técnicas mais complexas. É um trabalho permanente da habilidade, como em um jogo de videogame”, compara. Durante a pandemia, Caroline abriu uma loja virtual com peças de decoração sob medida – todas produzidas por ela.

PAIXÃO

A aposentada Ana Yamaoka nunca foi obrigada a aprender a costurar: para ela, o crochê é uma paixão. No final de 2019, aos 53 anos, fez um curso durante o isolamento e bordou centenas de “quadradinhos”, estampas que vão se transformar em uma colcha repleta de detalhes. “Trabalho no meu cantinho aqui em casa e, se não presto atenção, esqueço do mundo. O tempo passa e você não vê.” Ela se matriculou em diversos cursos ao longo da vida, mas foi manuseando as agulhas que ela encontrou sua atividade favorita. “Sou apaixonada pelo crochê. Todos deveriam aprender”, recomenda. E garante que ninguém vai se arrepender. “É um caminho sem volta.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE MARÇO

DISCIPLINA, O CAMINHO DA SABEDORIA

Quem ama a disciplina ama o conhecimento, mas o que aborrece a repreensão é estúpido (Provérbios 12.1).

A disciplina não é castigo, mas um ato responsável de amor. Não visa esmagar ou destruir o ofensor, mas restaurar-lhe a alma. A disciplina é preventiva, evita que outros caiam no mesmo erro; e também restauradora, ajuda o caído a levantar-se. A disciplina não produz alegria imediata, mas frutos permanentes. As feridas provocadas por ela trazem cura, mas curar superficialmente uma ferida gera a morte. Deus só disciplina os filhos a quem ama. Os bastardos, que não são filhos, não são corrigidos. Por isso, perecem em seus pecados. Salomão é categórico: Quem ama a disciplina ama o conhecimento (Provérbios 12.1). Aprendemos pelos preceitos, pelos exemplos e também por meio dos nossos erros. Um fracasso só é fracasso quando não aprendemos com ele. Nossos erros não precisam ser nossos coveiros; podem ser nossos pedagogos. Só os estúpidos aborrecem a repreensão; os sábios amam a disciplina. A disciplina é o caminho do conhecimento prático e da sabedoria que vem lá do alto.

GESTÃO E CARREIRA

TIME DE CENTAUROS

Os desafios e as vantagens de montar uma equipe de RH metade humana, metade máquina com inteligência artificial

Em 11 de maio de 1998, em Nova York, o computador Deep Blue, da IBM, venceu o sexto e último jogo de xadrez contra Gary Kasparov, na ocasião o melhor enxadrista do mundo. Foram duas vitórias para Deep Blue, uma para Kasparov e três empates. Depois do sexto jogo, um Kasparov ainda agitado disse à imprensa que não era apenas ele quem havia perdido – mas toda a humanidade.

Passada uma década, Kasparov tornou-se o maior defensor de uma mudança radical nas regras do xadrez profissional, de modo a permitir uma disputa nova, chamada “xadrez-centauro”. Diferentemente de dois jogadores humanos, um de cada lado, Kasparov propõe duas duplas, compostas de um jogador de carne e osso e um computador. A pessoa decide quais movimentos gostaria de fazer; a tecnologia calcula as consequências possíveis daquela sequência. A combinação humano-máquina reduz imensamente o risco de um erro tático, mas mantém o indivíduo no comando da estratégia. “Quando jogamos com a assistência de um computador”, afirma Kasparov, “podemos nos concentrar no planejamento estratégico do jogo em vez de perder tempo calculando a força de cada posição. Nessas condições, a criatividade humana ganha imensa importância.”

Algo semelhante ao xadrez centauro está acontecendo no mundo corporativo. Em essência, cada empresa compete com as outras ao tentar reunir a melhor combinação possível de funcionários. Com a popularização da tecnologia, as organizações não têm mais somente o desafio de atrair e contratar os melhores trabalhadores, mas de montar o melhor time de centauros, mais ou menos à moda de Kasparov: metade humanos, metade máquinas com inteligência artificial (IA). A novidade é que essa exigência também vale para a área de recursos humanos, na qual o uso de IA é mais difícil.

NOTA 9

Um fato ocorrido na Embraer pode ilustrar bem a força de um time de centauros. Sempre que anuncia a intenção de contratar estagiários, milhares de jovens se inscrevem. Antes de agosto de 2018, a equipe de RH mais os responsáveis pelas vagas precisavam analisar 20.000 currículos, escolher, entre eles, 900 candidatos para a entrevista e, só no fim do processo, contratar 180 – ou, em outras palavras, de cada dez entrevistados, a Embraer admitia apenas dois deles. “A quantidade de inscritos sempre foi absurda”, diz Ricardo TozettI, gerente de RH da Embraer. “O processo seletivo durava meses, mas mesmo assim não era possível avaliar criteriosamente o currículo e o perfil de tanta gente.”

Em 2018, a fabricante de aeronaves obteve a ajuda de uma startup especializada em aplicar IA a processos de seleção, a Gupy. Para que um sistema assim funcione bem, ele precisa ser “treinado” com dados reais. Por isso, Ricardo e seus colegas passaram uma parte de 2018 procurando identificar, nas várias áreas da companhia, onde estavam as informações relevantes, e puderam treinar o sistema com elementos relativos a 15 anos de contratações. Quando o sistema ficou pronto, a Embraer anunciou o programa de estágio – os 18.000 interessados entraram num site próprio para o processo seletivo, inserido dentro do sistema de IA, forneceram algumas informações e fizeram testes (comportamental, inglês, lógica). O software escolheu sozinho, os melhores candidatos para cada vaga, usando as regras que inferiu durante o treinamento. O pessoal do recrutamento examinou brevemente a lista de selecionados para ver se não havia nenhum erro gritante, mas não achou nada. O sistema, então, enviou automaticamente os convites. Em agosto de 2018, em poucos dias, os 260 candidatos pré-selecionados por IA compareceram na Embraer, fizeram uma dinâmica de grupo de manhã, almoçaram e foram entrevistados à tarde. À noite, a empresa já sabia quem deveria contratar entre os visitantes do dia.

De cada dez entrevistados, sete foram admitidos. “Durante poucos dias, preenchemos todas as 181 vagas. Os gestores ficaram contentes por terem gastado menos tempo com uma seleção tão certeira de estagiários e deram nota 9 ao processo como um todo”, diz Ricardo.

TREINANDO SEM MENTIRAS

Sempre que um fornecedor como a Gupy e um cliente como a Embraer obtêm sucesso juntos, se esforçam para divulgar a notícia, e por isso o interessado em histórias desse tipo talvez elabore a seguinte tese: “Para que a área de recursos humanos use inteligência artificial e ajude sua organização a competir melhor, basta que ache um bom fornecedor de tecnologia”. Essa ideia é falsa. Um fornecedor competente, interno ou externo, é necessário para o sucesso da empreitada, mas não suficiente.

“As empresas raramente têm tudo aquilo que os manuais recomendam para o bom uso de inteligência artificial, especialmente bancos com dados no formato certo e na quantidade certa”, diz Vinicius Aloe, superintendente de RH do Santander. Se a corporação vai usar informações para permitir que o software inteligente depreenda as regras que definem determinadas atividades e decisões (é isso o que treinar um sistema de IA significa), os elementos precisam ter ótima correspondência com a realidade – quer dizer, devem refletir fielmente a história. Mas muitas vezes os dados contêm parcialidades ou injustiças (ou seja, vieses, a palavra da moda) especialmente aqueles relativos a processos de gestão de pessoas. Por exemplo: um gestor G gostaria de promover o funcionário no ano que vem, mas neste ano o desempenho de F foi medíocre (Talvez por causa de um problema pessoal). Pelas regras corporativas, contudo, F só pode subir de cargo se suas notas de desempenho forem maiores do que 8. Durante a avaliação anual do time, G tem a ideia de atribuir nota 9 a F- fazendo isso, os bancos de dados do RH já não correspondem mais à história real e não podem ser usados para treinar um sistema de IA.

Par a evitar que um problema grave como esse aconteça, Vinícius acumula no Santander o papel de responsável pelas informações analíticas. Ou seja, pelos bancos de dados que a instituição pode usar para elaborar análises do que está acontecendo com os recursos humanos. O executivo comanda uma equipe de especialistas em modelos preditivos, em técnicas estatísticas e em elaboração de relatórios de resultados. Com essas informações e esse time, o RH do Santander fornece aos empregados vários serviços. Para citar um exemplo, envia avisos aos gestores dizendo: “No ritmo com que o Fulano de Tal está tirando dias de folga, não conseguirá zerar suas horas extras antes do prazo legal”. Esses serviços, contudo, não são a principal missão de Vinícius – são secundários em relação à sua tarefa mais importante, que é garantir bancos de dados fiéis à história da organização, livres de parcialidades e injustiças, a fim de que no futuro possam ser usados para treinar sistemas de IA. “Se alguém usar Inteligência artificial a partir de documentos com vieses, mata o projeto, porque o sistema cometerá erros. E, como tais sistemas são automáticos e velozes, têm um potencial enorme para fazer besteiras”, diz Vinícius. Talvez pareça que a Embraer, ao usar IA para contratar estagiários, soube contornar o problema dos vieses em bancos de dados, mas não é verdade. A maior parte das Informações foi fornecida pelos próprios candidatos ao preencher as fichas e fazer os testes. A máquina não perguntou qual era a área de interesse do estudante nem qual faculdade ele fez. “Para nós, não interessava se íamos colocar um engenheiro no RH ou um advogado no marketing. Exceção feita, é claro, para os cargos em que um curso especifico era essencial”, diz Ricardo Tozetti. Portanto, o software utilizou elementos limpos de preconceitos porque os dados eram, na maior parte, novos e desenhados para que não contivessem soslaios. “Se não fizéssemos isso, não teríamos diversidade, um dos objetivos do novo processo de seleção.”

Agora, tanto Embraer quanto Santander procuram oportunidades para usar Inteligência artificial em outros processos de gestão de pessoas. Ambas as empresas estão na fase de criar os projetos-piloto. Parte importante desse desenho é rever os procedimentos que, no fim das contas, alimentam os bancos de dados que serão usados para treinar a IA, de modo a limpá-los de vieses. Graças à vontade de usar uma máquina Inteligente, as duas companhias vão se tornar um pouco melhores do que já eram – talvez mais verdadeiras.

PARA FICAR DE OLHO

Três dicas de Mark Essle, sócio da consultoria de negócios A.T. Kearney no Brasil

1. Ainda não existem sistemas de inteligência artificial que analisem o perfil do candidato segundo a técnica Myers-Briggs Type lndicator, mas tais sistemas vão surgir logo e mudar bastante o modo como o RH contrata profissionais no mercado.

2. O impacto da IA em tarefas repetitivas, mesmo que de natureza fortemente intelectual será imenso. Por isso, a principal característica do profissional do futuro é a habilidade de atuar lado a lado com essas máquinas, e isso significa a capacidade de aprender sozinho assuntos difíceis. “O pessoal de RH pensa assim: ‘Visto que trabalho com gente, não vou perder meu emprego para robôs, pois robôs não lidam com gente’. Mas essa ideia é falsa,” diz Mark.

3. Poucas companhias investem no treinamento de empregados. Retreinar significa fazer uma pessoa passar por um curso não para aprender o que não sabe, mas para refletir mais profundamente sobre o que já conhece. “Isso é muito importante, especialmente porque os sistemas de inteligência artificial forçam a empresa a olhar para si mesma de um jeito diferente.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SOLIDÃO DA PASSAGEM

Apesar de a morte ser um dos principais medos do ser humano, morrem hoje mais pessoas por suicídio do que nas guerras e as tentativas chegam a 10 milhões

Tabu profundo, aquilo que ninguém quer lembrar. Desejo de não mais desejar, dilema de toda a vida. Algumas pessoas não pensam nisso e outras evitam pensar. Quantas pensam todo dia? Por tristeza, vergonha, dor, ódio, culpa ou ansiedade, a cada ano 1 milhão de pessoas em todo o planeta tiram voluntariamente a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número anual de tentativas fracassadas de suicídio chegue a 10 milhões. Eis aí, afinal, um comportamento tipicamente humano?

Talvez. Muitos animais são capazes de expressar tristeza, mas em geral lutam arduamente para permanecerem vivos. Dessa regra não escapa nem mesmo o lemingue, roedor do Ártico que ficou famoso em filmes de Walt Disney – como o documentário de 1958, White wildemess, sem título em português, mas – que poderia ser Imensidão branca – pela suposta propensão ao suicídio em massa. Na verdade, o comportamento de lançar-se coletivamente de altas falésias é um desafortunado acidente migratório na história natural da espécie, fruto de superpopulação e desconhecimento da rota. Com seres humanos não é tão simples. Morre mais gente por suicídio do que nas guerras. Uns porque almejam o paraíso pós-morte e outros porque não suportam o inferno da vida. Na maior parte dos casos, por uma angústia insuportável de existir. O que há de errado conosco?

Se nascemos e morremos sós, nada lembramos do parto, pois nessa hora a consciência está em fase de formação. Entretanto, na porta de saída, temos encontro marcado com a suprema solidão. Quando partimos rumo ao desconhecido, esperar uma vida nova causa menos ansiedade do que encarar o vazio de frente. Com ou sem expectativa de continuação, o temor da morte é o maior de todos os medos. Por isso, mesmo no sofrimento mais atroz, grande parte das pessoas se agarra à vida com unhas e dentes. O que faz o suicida é o sofrimento psíquico. No momento derradeiro, prestes a cometer o ato, pior do que estar sozinho é não ter nem a si mesmo por perto.

O suicídio é uma opção, e o tratamento também. Há 100 anos, usava-se ópio para amortecer o desespero. Atualmente, os antidepressivos se baseiam no aumento direto ou indireto dos níveis de neurotransmissores como a serotonina. Eficaz no início, a terapia farmacológica frequentemente esbarra no problema da tolerância. Doses cada vez maiores podem ser necessárias para manter um estado que não chega a ser de felicidade, mas de conformação. Nos quadros de extrema depressão, por vezes apenas a eletroconvulsoterapia consegue retirar o paciente do mundo em que tudo é triste, doloroso e frustrante.

Mas existe outro caminho, difícil e precioso, que precisa ser trilhado bem antes do precipício. Com disciplina e coragem, voltar-se para dentro. Nutrir a mente integrada ao corpo, enraizar-se no real, mergulhar no infinito íntimo e celebrar o mistério último. Cantar, dançar, meditar e criar. Sem pressa de chegar, sorver a emoção de viajar. Acompanhar-se integralmente na passagem, na presença completa de si. Deve ser melhor assim.

SIDARTA RIBEIRO – é neurobiólogo com Ph.D. pela Universidade Rockefeller e pós-doutorado pela Universidade Duke. Atualmente é chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde investiga as bases neurais do aprendizado, comunicação, sono e sonhos.

EU ACHO …

AS TRÊS EXPERIÊNCIAS

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte, mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.

Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.

Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?

Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FELIZ NO INFINITO MUNDO DAS PALAVRAS

Os clubes de livros se expandem no País e mostram que o brasileiro aderiu a uma nova forma de adquirir obras literárias que abrangem os mais diversos gêneros

Ao mesmo tempo em que o movimento de compradores diminuiu no interior das livrarias, tanto que diversas delas encerraram suas atividades, aumentou o número de adeptos de clubes de livros. Trata-se de um fenômeno paradoxal e cabe indagar: o que está levando gente apaixonada por leitura a essa mudança de comportamento? A resposta não é única, mas a principal delas é a união daquilo que se pode chamar de tradição mercadológica com a sofisticação da tecnologia. Essa nova forma de demanda fez com que as editoras passassem por uma adaptação nos moldes de comercialização, agora enviando os seus produtos diretamente aos clientes. Os assinantes dos clubes pagam mensalmente um valor fixo e recebem um livro escolhido por renomados curadores que trabalham para essas empresas literárias — é como se a obra escolhesse o leitor e não mais o contrário, já que os títulos são, na maioria das vezes, surpresa. Em um mundo onde tudo é virtual, tais clubes também disponibilizam a possibilidade de conexões. Ou seja: os assinantes têm acesso a encontros e debates online e usam aplicativos para interação com demais associados. Aí mora boa parte da magia e sucesso desse novo negócio.

OUTRA HISTÓRIA

O universo dos clubes de livros não é um ambiente totalmente desconhecido. Entre a década de 1970 e o início dos anos 2000 existiu no Brasil o chamado “Círculo do Livro”. A ideia era a mesma: fazer chegar mensalmente uma nova obra na residência dos associados. A diferença é que hoje os livros que os curadores elegem mensalmente seguem critérios editoriais com olhos em temas que estão colocados na sociedade. Por exemplo: acompanhando o justo e bom crescimento da luta contra o racismo, os clubes podem enviar uma obra atual, mas, também, um clássico do século 19 que já condenava a escravatura. Outro ponto: se alguém, em uma suposição, quiser ler somente histórias de terror, basta avisar o clube do qual é cliente e só receberá esse gênero literário. E há algo extremamente sofisticado: se um participante quiser um livro estrangeiro que ainda não foi traduzido no Brasil, pode requisitá-lo. O clube faz a tradução e o envia ao destinatário. “Eu assino cinco clubes diferentes e optei por aqueles que não anunciam qual será a próxima leitura”, diz Shirlei Milane. “Além disso, os encontros virtuais tiram o sentimento de solidão que me abate quando termino de ler e não tenho com quem compartilhar a história”.

Entre as principais editoras que escolheram esse nicho de mercado estão a Tag, Intrínseca, Todavia e Boitempo. Os números mostram que o conceito de comprar e ler está, de fato, mudando. Somente a Tag conta com mais de cinquenta mil assinantes em todo o País. Já o clube da editora Intrínseca teve um crescimento de clientes na casa dos 124% ao longo de 2020. “Eu acho que é uma mudança que vai continuar acontecendo porque a demanda por troca de conhecimento sempre existiu”, diz Marcelo Bueno Catelan. “É uma fórmula que o mercado editorial brasileiro fez bem em descobrir”. Essa nova atmosfera que se criou dentro do mercado editorial claramente expandiu-se para demais horizontes. Aficionados por livros também passaram a se reunir de maneira independente. Pequenos ou grandes grupos fazem leituras orientadas, discutem capítulo por capítulo e reúnem-se para dirimir dúvidas, ampliar descobertas e questionamentos. “São percepções diferentes sobre um mesmo assunto. E, durante a pandemia, serviu como gigantesco refúgio”, diz Letícia Teixeira. “Envolvem estilos de vidas diferentes que transformam o simples fato de ler em uma nova experiência de vida”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE MARÇO

PUNIÇÃO DO ÍMPIO, CERTA E RIGOROSA

Se o justo é punido na terra, quanto mais o perverso e o pecador! (Provérbios 11.31).

Não é verdade que a vida do justo é um mar de rosas. Ser um cristão não é viver numa colônia de férias ou num parque de diversões. O justo é afligido na terra, ora por suas fraquezas, ora mesmo quando pratica a justiça. O apóstolo Paulo diz que nos importa entrar no reino de Deus por meio de muitas tribulações. Contudo, se o justo não é poupado de punição na terra, quanto mais o perverso e o pecador. Eles estão acumulando ira para o dia da ira. Sofrerão não apenas o castigo que seus atos merecem, mas também a penalidade de eterna destruição. Serão banidos para sempre da face do Deus vivo e acabarão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. O sofrimento do justo é disciplina, e não castigo. Deus disciplina a quem ama. A disciplina é um ato responsável de amor. As aflições do justo não vêm para o destruir, mas para lhe fortalecer a alma. O castigo do perverso, porém, em vez de quebrantar-lhe o coração, ainda o torna mais duro e rebelde, pois o mesmo sol que amolece a cera endurece o barro. O justo é disciplinado e corre para os braços do Pai arrependido; mas o perverso é afligido e blasfema contra o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

SEGUNDA CHANCE

Para não perder funcionários que estão com problemas de desempenho, empresas oferecem programa de recuperação. Aprenda como eles devem ser estruturados

É praticamente impossível manter, por um longo período, um altíssimo nível de produtividade, dedicação, atenção e criatividade no trabalho.

Nem máquinas são capazes de fazer isso – elas se desgastam e necessitam de manutenção de tempos em tempos. E os humanos também precisam ser recauchutados de vez em quando. Mas nossa gama de problemas vai além de parafusos soltos e curtos-circuitos. Passa por assuntos pessoais – doença na família, divórcio ou dívida – e por questões do dia a dia do trabalho – desalinhamento de perfil como chefe, despreparo para uma nova função ou incômodo com uma transferência de localidade.

O entendimento de que a queda de desempenho é natural, e muitas vezes passageira, leva empresas a criar programas para recuperar funcionários que não estão indo bem. “Não existe receita de boio. Há várias modalidades, desde as mais simples, com base em feedbacks objetivos, até as mais complexas, que envolvem processos de coaching e assessoria psicológica”, diz Silvio Celestino, sócio sênior na Alliance Coaching, consultoria de treinamento.

BOM PARA TODOS

Mas isso não é feito simplesmente por uma questão humanitária. Quando a volta por cima dá certo, os benefícios são para as duas partes: o profissional tem a chance de se reerguer e contribuir novamente com a companhia; e as organizações economizam tempo e dinheiro ao evitar os processos de demissão e recrutamento. “As empresas têm de se pautar pelo racionalismo de recursos e de gestão. É um pensamento pragmático: o que é melhor para o funcionário muitas vezes é o que também ajuda a corporação”, diz José Augusto Minarelli, sócio da Lens & Minarelli, consultoria de recrutamento executivo.

Na MSD Saúde Animal, fabricante de medicamentos veterinários, o programa de reabilitação profissional existe há dez anos com um índice de sucesso que varia de 60% a 70%. O plano, disponível para todos os níveis hierárquicos, envolve necessariamente o empregado, o gestor e um diretor. Com esse tripé, a empresa tenta se precaver de julgamentos pessoais resultantes de animosidades criadas em relações hierárquicas problemáticas. “A oportunidade é oferecida a todos, mas cabe à pessoa aceitar participar”, diz Odair Castro, gerente de RH. A prática é importante para a multinacional não apenas para preservar o investimento no treinamento técnico e altamente especializado, mas também por uma questão de alinhamento com a missão da companhia. “Um dos valores é melhorar a vida das pessoas. Se eu defendo isso para fora, tenho de praticar dentro de casa. Não podemos ser disfuncionais”, diz Odair.

GUARDIÕES DA CULTURA

O fator cultura é crucial para entender porque é preciso dar mais uma chance antes de demitir. Afinal, funcionários com tempo de casa são guardiões dos valores organizacionais. “A cultura tem de ser mantida e preservada para a construção de uma identidade duradoura”, diz Silvio. Por isso, até na fabricante de bebidas Ambev, conhecida por exigir alta performance de seus empregados, há um plano de reversão para quem está com dificuldade de cumprir as entregas. O programa, desenhado por gestor e subordinado, tem no mínimo três meses de duração e acompanhamento constante do líder. “Queremos formar e manter funcionários que se identificam com nosso jeito de ser, se desenvolvam internamente e construam resultados. É mais fácil recuperar gente com potencial de crescimento do que recontratar e iniciar um novo processo do zero”, afirma Camilla Tabet, diretora de desenvolvimento e gente da Ambev.

O OLHAR DOS LÍDERES

As ferramentas formais de avaliação de desempenho ajudam (e muito) a acompanhar a evolução e as entregas. Mas os gestoresprecisam estar atentos para notar se alguém de sua equipe apresenta desvios de comportamento que possam levar a um baixo comprometimento com o trabalho. “Tem de saber identificar, principalmente, os fatores extraprofissionais. É preciso observar os detalhes, como aumento de uso do celular, ausências para ligações particulares e tensão”, diz José Augusto. Na BrasilPrev, empresa de previdência complementar do Banco do Brasil isso tem sido uma preocupação do RH. “Nossos gestores são treinados para identificar situações críticas. Eles têm de se antecipar para avaliar se o funcionário está ou não feliz e avaliar os impactos que isso pode gerar na produtividade”, diz Rosiney Acosta, gerente de pessoas da instituição. Uma vez identificado um problema sério de desempenho, entra em prática o programa de recuperação – acordado entre empregado, gestor e RH. “Explicamos o que está acontecendo e o que vamos fazer para que o funcionário melhore. Há um cronograma definido conjuntamente e o processo dura no máximo três meses”, diz Rosiney. Com essas medidas, a BrasilPrev consegue recuperar 50% dos funcionários.

Outro aspecto importante – e que deve ser respeitado por todos os RHs que queiram construir um projeto de recuperação – é a confidencialidade. “O processo deve ser discretíssimo ou até sigiloso. Há um acanhamento inegável para o profissional, que deve ser preservado para sua melhor recuperação”, afirma Silvio. Por isso, a BrasilPrev cuida para que apenas as partes interessadas saibam o que está acontecendo. “Para os empregados que estão no plano, é constrangedor, eles sabem que estão na berlinda,” diz Rosiney. Afinal, o objetivo não é envergonhar, mas trazer de volta alguém que um dia já contribuiu com a empresa.

5 FATOS SOBRE PROGRAMAS DE RECUPERAÇÃO

Quais são os aspectos mais comuns desse tipo de prática

1. CADA CASO É UM CASO

Os projetos devem ser adequados à realidade da empresa e ao perfil do empregado. Um funcionário de vendas com baixo desempenho necessita de requalificação diferente da aplicada para um gerente de projetos, por exemplo.

2. METAS SÃO ESSENCIAIS

Desenhar um plano com objetivos específicos e resultados realistas para os funcionários aumenta a chance de sucesso. Também é importante estabelecer um período para que as metas sejam alcançadas e maneiras como elas devem ser medidas. Assim, evita-se margem para interpretações subjetivas e frustrações ­ tanto da empresa quanto do empregado.

3. SEM SIGILO, HÁ CONSTRANGIMENTO

O funcionário em recuperação pode se sentir inibido. Por isso, para que o programa tenha sucesso, épreciso evitar a exposição de quem se encontra nessa situação. Os colegas não devem saber o que está acontecendo.

4. QUANTO MAIS ÁGIL, MELHOR

Sempre que um problema de desempenho for detectado, a liderança precisa agir para identificar o motivo do baixo nível das entregas e da insatisfação. Feedbacks formais e informais e avaliações de desempenho ajudam nesse sentido.

5. NEM TODOS PODEM SER SALVOS

Especialistas e gestores de RH são unânimes em apontar a impossibilidade de reverter todos os casos desse tipo. Por isso, o índice de 50% de sucesso é considerado aceitável

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU, VOCÊ E OS OUTROS

Nestes tempos modernos, em que a internet oferece um leque variado de opções amorosas, jovens estão trocando a monogamia por relacionamentos abertos

Já famosos e celebrados em meados do século passado, os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir chocavam o mundo com seu escandaloso relacionamento:  formavam um casal que vivia cada um em sua casa, sem filhos e receptivos a envolvimentos amorosos com outras pessoas. Fosse hoje, a relação aberta dos papas do existencialismo – bem mais existencial para ele do que para ela, diga-se – não seria visto com tanta surpresa. Mergulhada em sua individualidade, o motor dos tempos modernos, e impulsionadas pela facilidade de encontrar parceiros via internet, as novas gerações parecem cada vez mais dispostas a desatar as amarras da monogamia e se deixar levar pela tentação da carne, tudo devidamente combinado e acordado entre as duas metades da laranja.  “As pessoas vêm perdendo o interesse em se fechar em um contrato a dois, cheio de possessividade. Não me surpreenderia se, daqui a algumas décadas mais casais optem por ligações abertas do que pelas que exigem exclusividade”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de livros sobre o tema.

As relações abertas modernas são consensuais e igualitárias, praticadas por casais que admitem contato sexual com outra pessoa, mas mantém o companheiro ou companheira como prioridade. “Há pessoas que não se adaptam à exclusividade e precisam buscar alternativas para viver um relacionamento saudável”, avalia Carmita Abdo, psiquiatra e coordenadora geral do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. “Mas não é para todo mundo. Demanda muito equilíbrio entre as partes, comunicação, maturidade e, claro, desapego”, avisa ela, que ainda acrescenta a ressalva: “Muitas mulheres principalmente fazem concessão para tentar salvar o casamento, mas, assim que percebem o que de fato significa, tudo vai por água abaixo”.

Não há números que comprovem a crescente prática da relação aberta no Brasil, mas basta uma pesquisa na internet – e olhar em volta, no caso dos mais jovens – para confirmar a tendência. A gaúcha teca Curio, de 39 anos, é coordenadora da Rede Relações Livres (RLi), um coletivo que reúne não monogâmicos em todo o Brasil. Casada há 21 anos, viveu com o marido, Alessandro, um casamento tradicional por mais de uma década, mas aos poucos começou a notar que ambos gostariam de ficar com outras pessoas. “Não queríamos enganar um ao outro. Antes que nos magoássemos, decidimos abrir a relação”, diz teca, que passou a pesquisar sobre o tema e foi conhecendo os demais membros do grupo. “A monogamia criou um peso enorme nos primeiros aos de casamento, gerava competitividade e ciúme. Agora resolvemos tudo com diálogo”, afirma. Teca e Alessandro são tão bem resolvidos em sua decisão que passaram o conceito para a filha, de 21 anos, também avessa à monogamia. Mas o casal até hoje enfrenta resistência, inclusive da família dele. “É porque incomoda, mexe no mito do príncipe encantado”, acredita ela.

A ideia de adicionar terceiros à equação do casal seria, de certa forma, uma volta às origens das relações comunitárias, quando homens e mulheres não tinham parceiros fixos e as crianças eram responsabilidade de todos. O conceito de família começou a se desenhar há cerca de 5.000 anos, com a invenção da propriedade privada e, por tabela, da herança – fórmula facilitada pela existência de um núcleo familiar definido. Daí para a imposição da fidelidade foi um passo e a posterior associação do amor romântico ao casamento direcionou os seres humanos, definitivamente, para as convenções sociais que ainda prevalecem. A corrente que prega a quebra de restrições nunca deixou de existir, crescendo ou minguando de acordo com a conjuntura social e política. Agora, pegando carona na opção preferencial de cada um por si, está em viés de alta. “A juventude atual explora sua sexualidade cada vez mais cedo e com mais liberdade, sem tantas amarras”, diz Stella Schrijnemaekers, professora da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP-SP).

As redes sociais e os aplicativos de namoro, que ampliam as possibilidades para conhecer pessoas e marcar encontros sexuais, abriram caminho para a expressão dos novos sentimentos. A atriz Fernanda Nobre, que há três anos vive um casamento aberto com o dramaturgo José Roberto Jardim, explica que foi atraída pela liberdade oferecida às mulheres pela não monogamia – e hoje não se vê vivendo de outra forma. “No início tive de lidar com o medo de, quem sabe, estragar nossa relação. Mas tudo mudou conforme amadurecemos”, contou em vídeo postado em seu Instagram; “Acho que atingimos, sim, a igualdade que eu tanto reivindicava”.

Um estudo desenvolvido nos Estados Unidos pelo economista David K. Levine, professor do Instituto Universitário Europeu, mostrou que entre 4% e 9% dos adultos americanos estavam envolvidos em algum tipo de relação aberta em 2020. No Brasil, as pesquisas pela pergunta “o que é relacionamento aberto?” aumentaram 70% nos últimos doze meses, enquanto a busca por “relacionamento aberto significado” cresceu 300%. “recebo com frequência em meu consultório pacientes com dúvidas sobre como poderiam trazer essa discussão ao casamento para melhorar sua dinâmica ou solucionar o problema da falta de sexo após muitos anos”, diz Regina Navarro Lins. “A curiosidade é um sintoma de que o modelo amoroso da nossa cultura não está mais funcionando para todos”.

Honestidade e independência foram as engrenagens que fizeram o professor de educação física Flávio Chiari, de 27 anos, se envolver em seu primeiro namoro não exclusivo, há cerca de cinco anos, e reproduzir a experiência no atual romance, com a analista de relações públicas Carolina Vachi, de 26. “Nos comunicamos com muito mais clareza, presença e franqueza”, diz ele. O incentivo ao diálogo é visto como uma das principais vantagens desse tipo de arranjo. Assim como a maior parte dos casais que se aventuram no modelo sem exclusividade, Flávio e Carolina estabeleceram algumas regras para evitar conflitos. Os dois combinaram nunca apresentar demais parceiros um ao outro, e amigos próximos estão fora de cogitação. A estudante de psicologia Milena Depentor, de 22 anos, leva uma relação aberta há um, a primeira que encara. Ela admite que a transição não foi fácil. “Era muito ciumenta e senti insegurança”, diz. E, embora se sinta julgada por quem não aprova sua escolha, também faz críticas aos adeptos mais radicais. “Eles tendem a falar com um ar de prepotência, como se fossem mais evoluídos, o que não tem nada a ver”, afirma.

A busca pelo novo modelo cresceu tanto que já existem aplicativos específicos para quem busca encontros passageiros fora do relacionamento principal ou sexo a três. O 3Fun, disponível no Brasil, se vende como uma rede para encontrar solteiros e casais “mente aberta”, enquanto o 3Somer faz o mesmo serviço e garante o anonimato dos usuários. As novas plataformas não diminuíram a popularidade do Tinder e de outros aplicativos mais tradicionais, nos quais os adeptos da relação aberta expões claramente a preferência em seus perfis. Como se pode imaginar, a passagem de um relacionamento tradicional para um formato mais flexível, em geral, não é um passeio. A empresária Thuany Ribeiro, 27 anos, conta que sentiu muito ciúme em sua primeira experiência não monogâmica, em 2005, com um namorado de cinco anos. Hoje, acha que já superou as dúvidas e está mais madura para se adaptar. “Consigo estar com uma pessoa só, mas gosto da liberdade de saber que, se surgir o desejo, posso ir em frente sem magoar ninguém”, diz Thuany, que mora no Rio de Janeiro. Ela reclama, no entanto, de certo preconceito: “Muita gente relaciona minha forma de viver com promiscuidade, quando é só um jeito diferente de amar”. O tempo dirá se os relacionamentos abertos vão virar o casamento de cabeça para baixo e entrar, como tantas outras coisas neste mundo em mutação, para o rol do novo normal.

EU ACHO …

O ÚLTIMO CONFINADO

Como não ceder aos apelos para ignorar o coronavírus – e cair na farra

Veio o carnaval, eu no Rio de Janeiro. Uma revoada de amigos começou a ligar: “Vamos nos ver?”. Tinham vindo para fazer farra. Respondia: estou confinado. Ouvia um “oh!” de decepção. “Só um papo, um café… eu estou bem…” Como se o fato de ser amigo anulasse os riscos. E me tratavam como chato. Já perdi muitos amigos desde que a pandemia começou. Simplesmente não entendem que confinado quer dizer confinado. Estive em Portugal, em dezembro. Lá, é completamente diferente. Desci no aeroporto, todos de máscara. Logo vieram verificar meu visto e o exame de Covid. Só entrei no país porque tenho residência. Ruas vazias. Comida, só por aplicativo de entrega. Ao voltar, a diferença gritou já no aeroporto. Raríssimos com máscara. Fui para casa e me tranquei. Eu tinha um grupo de amigos no condomínio e todas as quartas tomávamos vinho no quiosque. Descobri que o vinho estava suspenso: casos haviam surgido no condomínio. E beber vinho de máscara é tecnicamente impossível.

Continuei confinado. No Instagram, contemplava amigos em jantares incríveis, erguendo taças de vinho. Sou próximo de um casal que fez teste de Covid para me encontrar. Eu me senti exagerado… A maior parte das pessoas que conheço flutua na inconsciência. Veio o Carnaval. Pensei: vou ressignificar. Ser calmo. A vantagem de ser escritor é que trabalho não falta, dentro de casa. Se falta, a gente inventa um conto, um romance… Agora estou afundado até as orelhas em Verdades Secretas 2, para a Globo. Logo que começou o distanciamento social, eu e meus amigos autores de televisão achamos normal. Estamos todos acostumados a passar meses trancafiados durante uma série, uma novela… demorei para perceber que para boa parte das pessoas o confinamento não é bem assim. Só tomei consciência quando vi as fotos de um amigo numa festa clandestina (que ele postou). “Eu estava precisando” – explicou-se. Bem, mas quem não está?

A ideia de ressignificar o Carnaval era boa. Fazer artesanato… o crochê está voltando à moda. Cozinhar, sempre dá certo. Dedicar-se, ó esperança, a um relacionamento mais profundo. O confinamento não seria para casar? Mas não, a farra continua. Reconheço, muita gente não pode ficar reclusa. Tem de trabalhar, comer. E, se já não está reclusa o ano inteiro, para que se trancar no Carnaval que passou?

Dá vontade de dizer que brasileiro não gosta de seguir regras. Adora quebrar. Não somos só nós. Quem realmente queria pular o Carnaval e tinha dinheiro foi para Cancún. Lá teve balada, festa de todo tipo, gente fervendo na praia. A Riviera Maya transformou-se no novo Rio de Janeiro. (Não é por acaso que a Covid está explodindo no México.)

As pessoas rindo, se divertindo… eu continuo sendo o chato. Que fazer? Sou um chato calmo, meditativo. Estou lendo um livro de 500 páginas, vendo filmes… Mesmo que venha a vacina, a vida nunca será a mesma. Peguei o hábito de ficar em casa. Quieto. Que venham outros Carnavais, continuo lendo!

Esta é minha vocação. Serei o último confinado.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A VIDA NA CASA DA MAMÃE

Mesmo depois dos 30 anos, um número cada vez maior de filhos descobre as delícias de morar junto com os pais. Com isso, livram-se das obrigações dos adultos

Maturidade é sempre um tema em debate. Um adulto com mais de 30 anos morando na casa dos pais é quase um tabu. Mas há uma mudança de comportamento e os casos estão cada vez mais corriqueiros. O ciclo habitual é que os filhos fiquem em casa enquanto não formam uma nova família ou não se sustentem economicamente. Mas há muitos filhos que discordam. O psicólogo Yuri Busin diz que existem vários motivos para a permanência na casa dos pais. “A formação das famílias e a entrada no mercado de trabalho acontecem cada vez mais tarde”, explica o psicólogo. “E também há adultos com a Síndrome de Peter Pan, que não querem crescer, não gostam de responsabilidades e não lidam bem com as frustrações”.

“A cobrança feita às pessoas que ainda moram com os pais depois dos 30 é gigantesca”, relata a relações públicas Ana Paula Prado, 50 anos. Ela mora com a mãe de 83 anos – o pai faleceu há sete anos – e se incomoda com o preconceito que sofre. Diz que sempre morou com os pais e foi assumindo novas responsabilidades dentro da família, especialmente as financeiras, num movimento natural. “Eu me sustento desde os 22 anos, mas sempre gostei do ambiente que tenho em casa. Sair para que?”, questiona. Ana diz que já terminou um relacionamento por morar com os pais. “Um namorado dizia que era uma situação muito infantil”, lembra. Para ela, o problema é quando a pessoa mora com os pais e fica dependente economicamente, não trabalha e nem estuda.

Há uma comodidade evidente no cotidiano do servidor público e bailarino Thomás Côrtes. Aos 30 anos ele mora com o pai de 53 e um irmão de 31. A mãe se separou do pai quando ele tinha 15 anos. “Ficamos eu e meus irmãos com nosso pai. Em casa a gente não tem obrigações. Ele provê tudo, inclusive a empregada doméstica”, diz. O bailarino acha que não seria bom emocionalmente sair de casa e diz que o problema não é financeiro. “Tenho um bom salário, mas tive uma criação muito próxima e tenho dificuldade em sair”, afirma. Para o psicólogo Francesco Pellegatta, o medo é o principal sentimento da relação entre pais e filhos adultos. “Alguns pais ficam felizes por proteger os filhos. E os filhos temem enfrentar a vida. Existe um acordo”, diz. Já o psicólogo Yuri Busin não classifica esses filhos que vivem na casa dos pais como imaturos, embora alerte que a experiência de morar sozinho é importante como aprendizado e lição de vida. Cada vez mais adultos jovens, porém, estão dispensando essa experiência.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE MARÇO

GANHAR ALMAS, GRANDE SABEDORIA

O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio (Provérbios 11.30).

A vida do justo é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, e o fruto do justo é árvore de vida. O fruto do justo alimenta os famintos e fortalece os fracos. Da boca do justo saem palavras de vida eterna, e das suas mãos, obras da bondade. O justo também é sábio, e a maior expressão de sabedoria é investir na salvação dos perdidos. Aquele que ganha almas faz um investimento eterno e ajunta tesouros que os ladrões não podem roubar, nem a traça pode destruir. Investir na salvação de almas é entrar numa causa de consequências eternas. Uma alma vale mais do que o mundo inteiro. De nada adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma. De nada adianta ajuntar tesouros na terra se esses bens não estão a serviço de Deus para ganhar almas. O melhor e mais duradouro investimento que podemos fazer é investir na salvação de vidas. O melhor e mais sábio uso do nosso tempo é proclamar as boas-novas de salvação. A maior alegria que podemos ter é gerar filhos espirituais. A maior recompensa que poderemos receber é ver almas se rendendo aos pés de Jesus como fruto do nosso labor. Seja sábio, invista seu tempo, seu dinheiro e sua vida na grande empreitada de ganhar almas!

GESTÃO E CARREIRA

CAUSA MORTIS: TRABALHO

O ritmo diário, os salários baixos e a falta de tempo para cuidar da própria saúde levam à morte 120.000 pessoas por ano apenas nos Estados Unidos – um prejuízo de 180 bilhões de dólares

As pessoas estão morrendo por um salário. Essa é a conclusão do professor de comportamento organizacional da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas em gestão de pessoas do mundo, Jeffrey Pfeffer. Sua estimativa é que o emprego acabe com a vida de 120.000 pessoas por ano apenas naquele país – um prejuízo de 180 bilhões de dólares, ou 8% do custo total com saúde. Para chegar a esses números, ele avaliou dados coletados por organismos públicos e privados, corrigindo fatores como idade, gênero e classe social. O resultado da análise está no livro Dying for a Paycheck (Harper Business, sem edição no Brasil), lançado em meados de 2018. “A má notícia é que o trabalho está matando,” disse Jeffrey. “E ninguém realmente se importa.”

Esse problema não estaria restrito à nação mais poderosa do planeta. Uma consulta rápida nos dados da Previdência Social no Brasil mostra que, nos nove primeiros meses, foram concedidas pelo INSS 8.015 licenças por transtornos mentais e comportamentais adquiridos no serviço – um avanço de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o afastamento por depressão e ansiedade aumentou quase 5 pontos percentuais. Há uma década, quando começaram a ser mapeadas, as doenças mentais representavam menos de 4% dessas situações. Assim como nos Estados Unidos, a conta brasileira é alta. Em quatro anos (de 2012 a 2016), os gastos públicos ligados a transtornos psicológicos e comportamentais somaram 784,3 milhões de reais, o equivalente a 7% das despesas médicas do país.

Situações relacionadas ao dia a dia do trabalho, aos baixos salários e à falta de tempo para cuidar da própria saúde seriam os principais agentes de causa mortis (veja quadro abaixo). Parte, claro, é consequência da sociedade moderna, que exige indivíduos conectados 24 horas por dia. As pessoas, acredita Sigmar Malvezzi, professor de psicologia da Universidade de São Paulo, têm dificuldade de se adaptar a um ritmo tão intenso. “Oseventos acontecem numa velocidade alta e a competitividade é grande.” Essas condições roubam o ser humano dele mesmo, a fim de colocá-lo a serviço de outros. Variados estímulos repetitivos tornariam os indivíduos reativos, sem tempo de reflexão e, no limite, autoritários. “O que seobserva é que osprojetos de vida são pequenos”, afirma Sigmar. “A gente vive uma situação de desumanização.”

Contudo, outra parte é sequela da cultura corporativa instalada nos últimos anos. “Falamos ‘reter’, ‘pipeline’, ‘selecionar’, uma linguagem na qual as pessoas são tratadas como um recurso a explorar”, diz Marcelo Cardoso, ex-CEO do Hopi-Hari e hoje presidente da Chie, consultoria especializada em transformação organizacional. A conjuntura seagrava conforme mudam as relações trabalhistas. cada vez mais gente atua na chamada gig economy, fazendo bicos ou prestando serviços extras com a ajuda de aplicativos, como quem dirige pela Uber ou faz entregas pela Rappi. Isso resulta em uma quantidade maior de trabalhadores que precisam se virar por conta própria, não têm acesso a planos de saúde nem outros benefícios e sofrem de insegurança financeira. “Os profissionais são vistos como únicos responsáveis por si mesmos, e isso intensifica a pressão”, afirma Anderson Sant’Anna, professor do mestrado profissional em Administração na Fundação Dom Cabral, onde também coordena o Observatório de Relações Individuo-Organizações-Sociedade.

Fora ou dentro do mundo empresarial, os humanos se transformaram em meras engrenagens.

CUSTO DE MANUTENÇÃO

Toda máquina, até mesmo a humana, precisa passar por urna revisão. Quando isso não acontece, entra em parafuso. Criou-se até um termo para definir quem se exaure de trabalhar: burnout. A rotina extenuante, o excesso de cobrança, a escassez de recursos são a combinação perfeita para a instalação de doenças crônicas (como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares), que representam três quartos dos gastos com saúde nos Estados Unidos. Para Jeffrey Pfeffer, esses males estão intimamente relacionados ao estilo de vida e à higiene mental dos indivíduos – duas coisas impactadas pelo trabalho. “Se você abusa de um equipamento e faz com que o custo de manutenção seja alto, você é demitido. Mas se abusa de alguém, causando desgaste, ninguém parece prestar tanta atenção”, diz o professor, ao concluir que as empresas são o mal e não a vítima, da famosa inflação médica.

No Brasil segundo Alberto Ogata, conselheiro de gestão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), essa perda poderia representar 6% da folha de pagamentos das organizações só no aumento de taxas de seguro de saúde. Além dos gastos, funcionários adoentados e estressados pioram os índices que os líderes de recursos humanos adoram medir, como os de rotatividade e de produtividade.

Quem tem Burnout, por exemplo, “questiona todo dia a própria capacidade, e isso tem impacto direto no desempenho”, diz Brian Heap, sócio da Gallup no Brasil. De acordo com um estudo da consultoria americana, os funcionários esgotados são 50% menos propensos a conversar com o chefe sobre suasnecessidades de entrega e 63% mais propensos a faltar no trabalho por causa de doença. Ao mesmo tempo, sua probabilidade de procurar um novo emprego é três vezes maior. Resultado: gente infeliz, improdutiva e entrincheirada.

Jeffrey calcula que os custos indiretos provenientes do desengajamento, da desmotivação e do presenteísmo sejam cinco vezes superiores ao montante das despesas médicas diretas.

MARIONETES DO TRABALHO

Um determinante na saúde das pessoas é o nível de controle sobre seus afazeres – o que Jeffrey chama de job control. Em sua análise, ele diz que, assim como o fumo é um fator Importante para predizer o risco de doenças cardíacas, a autonomia sobre horários e local de trabalho e a clareza nas responsabilidades seriam tão ou mais relevantes para avaliar o nível toxicológico de um emprego.

Nem sempre o controle é explícito. Longos períodos de deslocamento, jornadas extensas, mudanças constantes e pressão por resultado também geram a impressão de comando. “O que mata é não ter uma visão de futuro”, diz Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de liderança da empresa que leva seu sobrenome. “Se o trabalho é pesado e o funcionário sente que vai perder o emprego ou que não dará conta, o estresse é duplo.” Às vezes, nem descansar é possível, pois há a percepção de que e-mails e mensagens de WhatsApp precisam ser respondidos em tempo real.

Essa rotina está tão entranhada na cultura corporativa e na forma como gestores lidam com a equipe que é difícil perceber suas consequências. Por isso, Jeffrey Pfeffer defende políticas para limitar as horas trabalhadas – dentro e fora das organizações – e para acabar com a “glamourização” do estresse. Menos radical, Jennifer Deal, pesquisadora do Center for Creative Leadership, nos Estados Unidos, acredita que o fim da microgestão e de prazos impossíveis tornaria o trabalho mais agradável. “As companhias precisam dar autonomia e colocar prazos específicos nas tarefas, para que sejam plausíveis”, diz. “As práticas de carreira devem ser transparentes e apoiar questões pessoais e financeiras.”

O Grupo Algar, que reúne empresas de tecnologia a turismo, tenta seguir esses conselhos. No fim de 2018, optou por dar autonomia aos 19.000 funcionários. Dessa forma, eles, que já contavam com práticas de home office e horário flexível, foram beneficiados com o Talento Flex, que abre a possibilidade do horário intermitente e de cada um acertar sua jornada. “A gente via que algumas mulheres, por exemplo, paravam de trabalhar quando tinham filhos”, diz Eliane Garcia Melgaço, vice-presidente de gente do grupo Algar. A ideia é que, em vez de se demitirem, elas reajustem o expediente com o gestor de forma a facilitar a vida. Já o horário Intermitente permite aos empregados entrar e sair do serviço conforme necessário, em acordo com o chefe. Agora, o time de RH busca casos de sucesso para divulgá-los ao restante da corporação: o desafio é convencer a liderança. “Precisamos identificar pontos de resistência e criar um ambiente propício para a nova política”, diz Eliane. O foco tem sido explicar a estratégia dessas ações, motivadas pela crença de que dá para cobrar pela entrega de resultados, e não pelo tempo no escritório. “Isso se torna um fator de atração, principalmente de jovens, que buscam liberdade.” Em dezembro também foi lançado o projeto Estação, uma unidade especial da Algar Telecom que pretende testar modelos ágeis de gestão, com as equipes organizadas em squads, com menos hierarquia e mais liberdade. “Precisamos ser um bom lugar para trabalhar, porque é uma questão de longevidade do negócio”, diz a executiva. A expectativa é que cerca de 10.000 funcionários possam se beneficiar das novas modalidades.

Rever uma mentalidade enraizada há tanto tempo não é tarefa fácil. Ainda mais quando isso exige mudar radicalmente a forma como se enxerga o emprego: em vez de um local de cobrança, um de confiança; diferentemente de trabalhadores tratados como centros de despesa, eles seriam parceiros necessários para atingir a estratégia do negócio. O professor de Stanford sugere que as pessoas sejam geridas não com base nos custos que incorrem, mas como ativos.

Enquanto essa mudança não acontece, as companhias investem em ações sutis para minimizar os danos. Foi o que fez a Multiplus, empresa de planos de fidelidade. Há três anos, o escritório saiu do centro de São Paulo para Alphaville, a 26 quilômetros de distância. O risco de perder gente e sofrer uma queda na motivação era alto. Isso fez com que o RH buscasse ouvir a opinião dos empregados. Um canal de comunicação foi aberto para receber as preocupações; em paralelo, o time de recursos humanos revia os benefícios. A Multlplus decidiu assumir o dinheiro gasto com pedágio e gasolina, e ainda contratou fretados. Para compensar as horas de deslocamento, deu força ao home office (permitido por dois dias) e à flexibilidade de horário. Os chefes passaram por um mês de teste antes de o projeto serestendido. “No começo, as pessoas achavam que quem ficava em casa estava de folga ou inacessível”, diz Heloísa Scarantino, gerente sênior de gestão de pessoas. Essa crença foi sedissipando conforme a prática se consolidava. Hoje, os benefícios estão claros. “Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é nosso segundo fator de retenção, só perde para oportunidade de crescimento”, diz Heloísa, que comemora 89% de satisfação na última avaliação de clima.

ATIVOS PRECIOSOS

Além de mudar a cultura de comando e controle, as empresas teriam de repensar suas práticas de qualidade de vida, uma vez que a maioria delas foca o comportamento dos indivíduos, mas não faz uma mea culpa das condições corporativas. “Você diz para as pessoas fazerem meditação, massagem, mas o problema é a organização do trabalho, com pouca transparência, comunicação falha e sensação de injustiça”, afirma Alberto Ogata, da ABQV. Uma alteração significativa exigiria a criação de indicadores médicos que fossem além do gasto com sinistros e afastamentos por licença. Afinal, a saúde, estudos científicos já provaram, engloba aspectos como relacionamentos, lazer, realização e estabilidade financeira – nenhum deles isolado entre si.

Uma das melhores formas de medir essa relação é perguntando diretamente aos funcionários. A autoavaliação, segundo indica Jeffrey em seu livro, é um preditor importante de problemas, podendo ser mais eficiente do que check-ups.

Essa é a abordagem do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que desde 2010 mantém o programa Bem-Estar, premiado internacionalmente. Sua principal ferramenta é o questionário de autoavaliação que os mais de 3.000 funcionários preenchem. Com ele, o RH analisa indicadores como sedentarismo e estado emocionai. E, graças a ele, o time de gestão de pessoas colocou em prática coisas como aulas de canto e toga e uma academia com orientação de um profissional para fortalecimento e fisioterapia. O ambulatório conta ainda com médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e farmacêuticos. “Isso se alinha ao nosso lema, que é “quando somos bem cuidados, podemos cuidar melhor”, diz Cleusa Ramos, superintendente de desenvolvimento humano e institucional do Oswaldo Cruz.

Mais de 50 profissionais foram certificados em coaching de saúde e bem-estar para atuar no programa. “Essa capacitação é para auxiliar o empregado a montar uma agencia única com o objetivo de melhorar sua vida”, diz Cleusa. Ao longo dos anos, essa equipe, coordenada pelo gerente de qualidade de vida Leonardo Mendonça, começou a ser procurada com frequência para orientar em mudanças de hábito, com foco em atuação preventiva, o que trouxe às pessoas uma nova mentalidade em relação às consultas de rotina. Para aumentar a adesão, o RH implantou um sistema de milhagem: as equipes concorrem entre si para ver qual teve mais participação e as vencedoras recebem prêmios. Os setores que apresentam problemas são acompanhados de perto e o gestor é chamado para conversar. Os resultados vieram. Em 2010, a empresa tinha apenas 48% de adesão aos exames periódicos – que, aliás, são obrigatórios por lei. Hoje, ela é de 98%. Além disso, de 2010 a 2017, houve uma redução de 37% na média de pressão arterial, de 35% no colesterol e de 46% no tabagismo. O nível de estresse, avaliado por meio do questionário, caiu 31%; já o absenteísmo passou de 3,6% para 2,4% a partir de 2013. Graças ao quadro saudável, o hospital passou três anos sem renegociar os valores do plano de saúde. No fim do ano passado, o programa foi ampliado aos dependentes e agora são 6.500 vidas atendidas.

EM PRIMEIRO PLANO

Casos como o do Oswaldo Cruz mostram que investir é a melhor estratégia no longo prazo. Em tempos de crise econômica e política, como esta pela qual passa o Brasil, torna-se ainda mais urgente propiciar um ambiente de segurança psicológica para os trabalhadores. Contudo, na prática acontece o contrário. Na tentativa de equilibrar o caixa, as companhias entoam o mantra “cortar, cortar, cortar”. De acordo com uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh com 690 organizações no país, metade delas pretende redesenhar o programa de benefícios com foco no controle dos custos – muitas rebaixaram ou mudaram de operadora de saúde nos últimos trêsanos para economizar. Apenas 38% planejavam expandir os programas voltados para o bem-estar nos próximos dois anos. A fabricante de cosméticos Avon segue esse caminho. Há três anos, o RH notou um número maior de funcionários faltando no emprego para ir ao pronto-socorro, mas a ida ao médico não solucionava o problema e a visita se tornava recorrente. Foi quando veio a percepção de que era preciso melhorar a qualidade de vida. “Se não temos um ambiente em que o funcionário possa cuidar de sua saúde, ele vai deixá-la em segundo plano, mesmo que diga que é prioridade”, diz Meire Blumen, gerente de saúde e bem-estar na Avon. As práticas e os benefícios foram consolidados num só programa, o VivaBem. A evolução começou do básico, com a reforma do ambulatório, que passou a ocupar um lugar mais visível e a oferecer consultas odontológicas, ginecológicas e de clínica-geral, além de coleta de exames básicos. Como o público é em grande parte feminino, há salas específicas para amamentação e creches. Todas as informações ficam armazenadas em um sistema único, junto com atestados e dados de medicamentos comprados com o subsídio da empresa (de75%), e são usadas em análises preditivas. A Avon ainda acompanha cerca de 600 funcionários e dependentes com doenças crônicas, que recebem orientação continua. “Mostramos às lideranças que isso não é uma questão de custo, mas de valor”, diz Meire. E os gastos diminuíram. O contrato do plano de saúde foi renegociado para o modelo de pós-pagamento, já que o conhecimento da população possibilita prever o uso. Entre 2017 e 2018, o sinistro teve queda de quase 14% com exames, 19% com consultas e 13% com Internações.

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE

Se nas últimas décadas, em meio à competição acirrada pela globalização, o discurso em relação à carreira foi se alterando, com Ideias como “empregabilidade” (que colocam a responsabilidade da vida no trabalho sobre as próprias pessoas), para Jeffrey Pfeffer isso não exime as companhias dos efeitos que seu ambiente causa aos indivíduos. “Esse argumento presume que se pode facilmente encontrar outro emprego, o que não é verdade”, diz. Além disso, há uma série de fatores psicológicos que dificultam a troca de serviço, especialmente quando o trabalhador está doente, estressado e esgotado. Segundo Jeffrey, aspessoas não podem ser responsabilizadas por questões de estrutura ou gestão.

Mas o professor de Stanford não acredita que, sozinhas, as organizações farão muita coisa para rever esse quadro. Seria preciso os funcionários se organizarem politicamente. Um dos motivos de sua descrença está na competitividade exacerbada e nas mudanças aceleradas, que fazem com que o pensamento no mundo corporativo seja de curto prazo. “Quando asempresas precisam se reportar aos acionistas a cada trimestre, isso cria um conflito de interesses”, diz o consultor Roberto Aylmer. O padrão é cobrar (e priorizar) o retorno financeiro imediato.

Para Andersen Sant’Anna, da Dom Cabral, isso prejudica a todos: “Pode parecer vantagem no curto prazo, mas para o negócio é danoso. O risco é de minar a inovação e a competitividade”. Ambientes inseguros provocam medo de inovar e arriscar com novas ideias. E nenhum serhumano é capaz de pensar – nem em inovação nem em nada – com a cabeça cheia e o corpo cansado. O organismo entra em colapso.

Por isso, Jeffrey Pfeffer insiste: “Só se cria valor e se oferece o melhor serviço por meio de melhores funcionários”. Mirar a redução de custos não acrescenta perenidade ao negócio, pelo contrário.

Da mesma forma, cortar gente traz consequências nefastas. É preciso começar a impor limites – a pensar na sustentabilidade humana.

IMPACTO DA DEMISSÃO

Segundo Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford nos Estados Unidos, ninguém ganha com dispensas em massa – nem empresas nem sociedade. Para as companhias, há gastos com multas, outplacement e impostos, além de novas contratações. Já o custo social é grande. Taxas de suicídio crescem duas vezes e meia depois de uma demissão; mortes decorrentes de doenças cardiovasculares aumentam até 40%

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O ATAQUE DA MENTE

Da mesma forma que a sugestão é capaz de beneficiar a saúde, o efeito nocebo, espécie de “gêmeo mau” do placebo, pode levar pessoas a adoecer gravemente; em alguns casos, a convicção de morte iminente conduz de fato a esse desfecho

Tarde da noite, atravessando um pequeno cemitério no Alabama, nos Estados Unidos, Vance Vanders deu de cara com um curandeiro local que espirrou um líquido mal cheiroso de uma garrafa em seu rosto, dizendo que ele iria morrer e ninguém poderia salvá-lo. Ao voltar pra casa, Vanders enfiou-se na cama, sentindo-se mal. E desde então passou a definhar. Algumas semanas depois, muito magro e debilitado, parecendo estar à beira da morte, ele foi internado no hospital de sua cidade, onde os médicos não conseguiram encontrar a causa de seus sintomas – e nada que fizessem trazia melhora. Foi então que sua mulher contou a um dos médicos, Drayton Doherty, sobre o feitiço. Na manhã seguinte, ele chamou a família do paciente para a cabeceira de sua cama. Disse que, na noite anterior, havia atraído o médico-feiticeiro para o cemitério e o pressionado até que ele explicasse como funcionava a maldição. Segundo Doherty, o curandeiro havia posto ovos de lagarto no estômago de Vander, que eclodiram em seu corpo. Um dos répteis sobrevivera e estava devorando suas entranhas.

Em seguida, convocou uma enfermeira que, antecipadamente, havia enchido uma grande seringa com um líquido, que Doherty disse ser “poderoso”. Com gestos teatrais, como se participasse de uma grande cerimônia, ele inspecionou o instrumento e injetou o conteúdo no braço do paciente. Alguns minutos depois, o homem começou a vomitar descontroladamente. No meio da confusão, sem que ninguém visse, Doherty deu seu golpe de mestre – apresentou a todos um lagarto verde que estava escondido em sua mala preta. “Veja o que saiu de você, Vanders! A maldição está quebrada”, gritou.

O paciente recuou para a cabeceira da cama e caiu em um sono profundo. Quando acordou, na manhã seguinte, estava alerta e faminto. Rapidamente recuperou suas forças e recebeu alta depois de uma semana.

Os fatos desse caso, ocorridos há 80 anos, foram corroborados por nossos pesquisadores. Talvez, o mais notável seja o fato de Vanders ter sobrevivido, pois existem, em muitas partes do mundo, vários casos documentados de pessoas que morreram após serem amaldiçoadas. Sem registros médicos ou resultados de autópsias, porém, não há como ter certeza do que, exatamente, causou a morte dessas pessoas. Mas essas histórias, em geral, começam com uma figura respeitável, que ocupa um lugar de suposto saber, e amaldiçoa uma pessoa. Algum tempo depois, a vítima morre, aparentemente de causas naturais.

Você pode pensar que esse tipo de coisa é cada vez mais rara e limitada a tribos remotas. Mas, de acordo com o pesquisador Clifton Meador, médico da Escola de Medicina Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, Estados Unidos, que documentou casos como o de Vanders, maldições têm hoje uma “nova cara”. Um exemplo é o caso de Sam Shoeman, que faz parte da literatura médica. O paciente recebeu diagnóstico de câncer terminal de fígado na década de 70. Os especialistas lhe deram apenas alguns meses de vida. E Shoeman morreu pontualmente dentro do período de tempo estimado – entretanto, a autópsia revelou que os médicos haviam cometido um equívoco. O tumor era minúsculo e não havia se espalhado. “Ele não morreu de câncer, mas por acreditar que estava morrendo de câncer. Se todos o tratam como se estivesse no fim, você acredita e todas as partes do seu ser começam a morrer”, afirma Meador.

Situações como a de Shoeman podem ser exemplos extremos de um fenômeno amplamente distribuído. Estudos comprovam que aqueles que acreditam ter risco de desenvolver certas doenças mostram maior probabilidade de apresentá-las que os que têm os mesmos fatores de risco, mas não se consideram em situação de perigo. E mais: muitas pessoas que sofrem com efeitos colaterais negativos de algum tratamento, de fato, apresentam os sintomas após saber que essas reações eram esperadas. Isso nos faz pensar que os feiticeiros modernos usam jaleco branco e carregam estetoscópios. Ou têm um diploma de psicólogo pendurado numa parede.

ESTRANHO FENÔMENO

A ideia de que acreditar que está doente pode realmente adoecer uma pessoa parece ilógica. Mas estudos rigorosos estabeleceram que, sem sombra de dúvida, o inverso é verdade – o poder da sugestão é capaz de beneficiar a saúde. É o conhecido efeito placebo. Placebos não fazem milagres, mas produzem efeitos físicos mensuráveis.

E esse efeito tem um gêmeo do mal: o nocebo, no qual pílulas falsas e expectativas negativas podem produzir um efeito nocivo. O termo, criado em 1960, vem do latim, e significa “fazer mal”, “prejudicar”. Trata-se de um fenômeno que é muito menos estudado do que o efeito placebo, uma vez que não é nada fácil conseguir aprovação ética para estudos que planejam fazer com que as pessoas se sintam mal.

Mas o que se sabe sugere que o efeito nocebo tem amplo alcance. “As mortes por vodu, se existirem, podem representar apenas uma forma estranha do fenômeno nocebo”, diz o antropólogo Robert Hahn, do Centro para Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos, em Atlanta, Geórgia, que estudou o assunto.

Em testes clínicos, cerca de um quarto dos pacientes nos grupos de controle – que recebem terapias supostamente inertes – apresentam efeitos colaterais negativos. A severidade dessas reações adversas, em alguns casos, é igual à associada à droga real. Um estudo retrospectivo de 15 experimentos que envolviam milhares de pacientes que receberam betabloqueadores ou um medicamento com propriedades inócuas mostrou que ambos os grupos relataram níveis comparáveis de efeitos colaterais, incluindo fadiga, sintomas depressivos e disfunções sexuais. Um número similar de participantes das duas equipes teve de ser afastado dos estudos por causa disso.

Ocasionalmente, os efeitos podem representar risco para a vida dos pacientes. “Crenças e expectativas não são apenas um fenômeno consciente e lógico e também têm consequências físicas”, diz Hahn. Os efeitos nocebo são também vistos na prática médica cotidiana. Cerca de 60% dos pacientes que passam por quimioterapia começam a se sentir mal antes mesmo que o tratamento surta efeito. “Isso pode acontecer até alguns dias antes do procedimento ou no caminho para o hospital”, diz o psicólogo clínico Guy Montgomery, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York. Algumas vezes, um mero pensamento sobre o tratamento ou a voz do médico é o suficiente para fazer com que o paciente se sinta mal. Essa “náusea antecipada” pode ocorrer, em parte, pelo condicionamento – quando os pacientes ligam subconscientemente algo na experiência ao mal-estar – e, em parte, pela expectativa. Não raro, a pressão arterial das pessoas também sobe apenas porque um profissional da saúde se aproxima para fazer a medição.

É alarmante: o efeito Nocebo pode ser, até mesmo, contagioso. São conhecidos há séculos casos em que sintomas, sem razão aparente, se espalham entre integrantes de um grupo – é o chamado distúrbio psicogênico em massa. Um caso inspirou um estudo recente, desenvolvido pelos psicólogos Irving Kirsch e Giuliana Mazzoni, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Os pesquisadores disseram aos estudantes que participavam da investigação que estavam testando uma amostra de gás que continha “uma toxina ambiental suspeita”, capaz de provocar dores de cabeça, náuseas, coceiras e tontura. Em seguida, pediram a alguns dos voluntários que inalassem uma porção de ar comum durante alguns segundos, sem dizer exatamente do que se tratava. Metade dos jovens também assistiu à cena de uma mulher inalar a amostra e, aparentemente, desenvolver esses sintomas. Embora o ar fosse inócuo, os estudantes que fizeram a aspiração se mostraram mais propensos a relatar os sintomas, que também eram mais pronunciados em mulheres, especialmente naquelas que haviam visto a moça ficar “doente”.

Os cientistas observaram que, ao assistir à expressão de um possível efeito colateral ou ouvir sobre ele, as pessoas se tornam mais propensas a desenvolvê-lo. Isso coloca os médicos em uma situação difícil. “Por um lado, pessoas têm o direito de ser informadas sobre o que devem esperar, mas isso torna mais provável que sofram com esses efeitos”, diz Mazzoni. Isso significa que os médicos precisam escolher suas palavras cuidadosamente para tentar minimizar expectativas negativas. “Tudo está relacionado mais com o como você fala do que com o que se fala”, afirma Montgomery. Em sua opinião, em muitos casos a hipnose pode ajudar a diminuir expectativas, ansiedade e stress.

BECO SEM SAÍDA

Especialistas reconhecem que há atualmente muitas questões em torno do nocebo – e grande parte delas ainda sem resposta. Não se sabe ao certo, por exemplo, se há predisposição determinada por traços de personalidade, em que circunstâncias ocorre o efeito e quanto tempo os sintomas duram. Parece que seus resultados variam bastante e dependem muito do contexto. “Em espaços clínicos, os placebos, por exemplo, são frequentemente muito mais potentes do que os induzidos em laboratório. Talvez em relação aos nocebos o ambiente também tenha grande influência”, comenta o psicólogo Paul Enck, do Hospital Universitário de Tübingen, na Alemanha.

Também não está claro se há pessoas mais ou menos suscetíveis. Sabe-se que estados de humor, o nível de labilidade, o otimismo ou o pessimismo podem ter papel nas dinâmicas psíquicas, mas não há indicadores consistentes. Indivíduos de ambos os sexos podem sucumbir ao distúrbio, embora as mulheres relatem mais sintomas do que os homens. Enck mostrou que, em homens, os sintomas nocebo são mais influenciados pela expectativa do que pelo condicionamento. Nas mulheres, ocorre o oposto. “Elas tendem a se deixar influenciar mais por experiências passadas, enquanto que os homens parecem mais relutantes em levar o próprio histórico para uma situação atual”, diz ele. Está se tomando claro que o fenômeno, aparentemente psicológico, tem consequências reais no cérebro. Usando técnicas de neuroimagem, o cientista Jon-Kar Zubieta, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Estados Unidos, observou o cérebro de pessoas que haviam recebido um placebo ou nocebo, no ano passado. Ele constatou que os efeitos negativos estavam ligados à diminuição da dopamina e da atividade opioide. Isso explicaria por que os nocebos podem aumentar a dor – e o placebos produzem a resposta oposta.

Enquanto isso, Fabrizio Benedetti, da Escola de Medicina da Universidade de Turim, na Itália, descobriu que a dor induzida pelo nocebo pode ser suprimida por uma droga chamada proglumida, que bloqueia receptores para o hormônio colecistocinina (CCK, na sigla em inglês). Normalmente a expectativa de dor induz a ansiedade, que ativa os receptores de CCK – aumentando a sensação dolorosa. A causa final do efeito nocebo, entretanto, não é neuroquímica, mas sim, uma crença.

De acordo com o antropólogo Robert Hahn, é muito comum que cirurgiões fiquem receosos ao operar pessoas que acreditam que vão morrer – porque esses pacientes em geral morrem durante ou logo após a intervenção. Da esma forma, a mera crença de uma pessoa de que é suscetível a um ataque cardíaco pode ser um fator de risco. Um estudo descobriu que mulheres que acreditavam ser propensas a ter um ataque cardíaco tenham quatro vezes mais chances de morrer de condições coronarianas do que outras com os mesmos fatores de risco.

Mas mesmo com as evidências crescentes de que o efeito nocebo é real, é difícil, numa era racional, aceitar que a crença de uma pessoa pode matá-la. Afinal, a maioria de nós riria de um homem estranhamente vestido pulando, acenando com um osso na mão e dizendo que vamos morrer. Mas imagine corno você se sentiria se ouvisse a mesma coisa de um médico bem vestido, com uma parede cheia de diplomas e um computador repleto de resultados de exames. A base socio­cultural é crucial. Meador discute que o erro no diagnóstico de Shoernan e seu falecimento subsequente têm os mesmos elementos essenciais de uma “morte por bruxaria”. Um médico poderoso pronuncia uma sentença de morte, que é aceita sem questionamento pelo paciente vítima e sua família – e todos passam a agir de acordo com a crença. Shoeman, seus parentes e médicos acreditavam que ele estava morrendo de câncer. Isso se tornou uma profecia – que se completou quase que automaticamente.

“Más notícias promovem má fisiologia. Por isso é possível persuadir pessoas dizendo que elas vão morrer e isso, de fato, acontecer. Não existe nada místico nisso, embora muitos de nós se sintam desconfortáveis com a ideia de que palavras ou ações simbólicas podem causar a morte porque isso desafia nosso modelo biomolecular do mundo”, observa Meador.

A OVERDOSE

Deprimido, depois de terminar com sua namorada, Derek Adams tomou todas as suas pílulas… e se arrependeu. Com medo de morrer, pediu a um vizinho para levá-lo ao hospital, onde teve um colapso. Tremendo, pálido e tonto, a pressão caiu e sua respiração ficou acelerada. Mesmo assim, os testes toxicológicos voltaram limpos. Nas quatro horas seguintes, Adams recebeu 6 litros de solução salina, mas melhorou pouco. Então, chegou um médico do estudo clínico de antidepressivos do qual Adams participava, havia cerca de um mês. Ele contou que, inicialmente, se sentira bem-humorado e calmo ao tomar a droga, mas a briga com a ex-namorada o motivou a engolir os 29 tabletes que restavam. Foi então que o médico revelou que Adams fazia parte do grupo Controle e as pílulas que havia tomado eram inofensivas. Ao ouvir isso, Adams ficou muito surpreso, emocionado – e aliviado. Em 15 minutos, sua pressão e taxa cardíaca voltaram ao normal.

O CONTÁGIO PELA OBSERVAÇÃO

Em novembro de 1998, uma professora de uma escola no Tennessee notou um cheiro parecido com gasolina e começou a reclamar de dor de cabeça, náusea, falta de ar e tontura. A escola foi evacuada e, na semana seguinte, mais de cem funcionários e alunos apareceram no pronto-socorro local reclamando de sintomas semelhantes. Depois de muitos testes, não foi encontrada uma explicação médica para a doença relatada. Um questionário, feito um mês depois, revelou que as pessoas que apresentaram os sintomas eram, na maioria, mulheres e haviam visto ou sabido de um colega de classe doente. “Foi o efeito do nocebo em grande escala. Não havia nenhuma toxina no ambiente, mas as pessoas começaram a se sentir realmente mal”, diz o pesquisador Irving Kirsch, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Ele acredita que ver os colegas desenvolverem os sintomas moldou as expectativas de doença em outras crianças e adolescentes, disparando um distúrbio psicogênico de massa. Há registros desse tipo em várias partes do mundo. Na Jordânia, em 1998, 800 crianças, aparentemente, sofreram efeitos colaterais de uma vacina e 122 foram internadas, mas não foi encontrado nenhum problema com a vacina.