EU ACHO …

UM CONTO SE FAZ AO LARGO

“… e essa história só não é rápida porque as palavras não são rápidas. Trata-se de uma pessoa. Morava num quarto alugado na casa de uma família. Era uma família ocupada, embaraçada em seus inúmeros deveres e pouco tomavam conhecimento da mulher do quarto alugado. Às vezes o pai ou um dos filhos passava para o banheiro e havia frases curtas trocadas. Depois de algum tempo nem mesmo essa conversa se fazia senão como um murmúrio, e depois incorporou-se ao silêncio. Quanto à pessoa, era uma mulher de meia-idade. Tratava-se de pessoa cuidadosa com os seus pertences, ciosa da própria limpeza. Seu quarto, aliás, a refletia bastante: era limpo e quase vazio. Pois foi essa mulher – inclassificável a menos que se descesse com interesse às profundezas de seu pensamento, o que não ocorreria a ninguém, tão desinteressante ela era –, pois foi essa mulher que viveu silenciosamente uma aventura. E, por mais estranho, uma aventura espiritual…”

Simplesmente não me lembro que história eu estava pretendendo contar, ao escrever essas linhas. Sei que era para ser um conto, mas que aventura espiritual seria? Não me lembro mais, e deixo aos leitores menos experientes, que escrevem ainda como exercício, o trabalho de continuar… Apenas enfunei uma vela e esta se fez ao mar. Mas e o rumo? Perdi a bússola.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PORNÔ PARA CEGOS E SURDOS

O Brasil ganha seus primeiros filmes de sexo explícito com acessibilidade para deficientes visuais e auditivos

”Ele senta na cama de frente para ela. Se beijam. Ele aperta a coxa dela. Ela passa a mão na barba dele. Ele passa a mão no rosto dela, depois pelos cabelos. Ele a abraça com uma das mãos. Com a outra faz carinho pelo corpo”, diz a narração do filme. A voz feminina, com sotaque carioca, é ouvida entremeada por estalos das bocas dos atores. “Ela beija o pescoço e desabo toa a camisa dele. Se beijam. Ele segura o rosto dela. O homem tem uma tatuagem preta na parte de trás do pescoço e na mão direita. Ele acaricia, aperta e beija os peitos dela por cima do vestido. A mulher olha, sorri. Se beijam.” Nenhuma dessas palavras está no roteiro original do vídeo. Nele, tudo que a voz conta não passa de ação entre os personagens.

Na primeira semana de agosto, os deficientes visuais brasileiros – 3,4% da população, segundo o último Censo – ganharam pela primeira vez a chance de compreender um filme pornográfico. O trecho que abre a reportagem é da audiodescrição de Sugar daddy (expressão usada para designar homens que bancam as despesas das mulheres com que se relacionam), uma das duas produções já disponíveis com esse recurso no streaming do canal Sexy Hot e em plataformas de vídeo sob demanda de operadoras de TV por assinatura. O outro título, com temática de época, é Desejo proibido. Os dois filmes ganharam também legendas descritivas para pessoas com deficiência auditiva – 1,1% dos habitantes do país -, outro recurso com que o gênero nunca tinha contado no Brasil.

A intenção é adaptar todos os filmes novos que saírem em 2020 pelo selo Sexy Hot Produções, contou Cinthia Fajardo, diretora-geral do Grupo Playboy do Brasil, que é detentor da marca. O projeto faz parte de um esforço para ter conteúdos com maior diversidade e inclusão. “Além do passo para a adaptação para cegos e surdos, está também nos planos a criação de roteiros que coloquem na trama em si pessoas com deficiência”, completou Fajardo, que assumiu o comando em janeiro, tornando-se a primeira mulher a ocupar essa posição no país.

Fora do Brasil, a iniciativa mais famosa de acessibilidade no pornô só começou em 2016 no site Pornhub, um dos gigantes do segmento em língua inglesa, com 130 milhões de visitantes por dia, segundo dados da empresa. Na época, ao anunciar recursos de audiodescrição para deficientes visuais, o vice-presidente, Corey Price, destacou que a medida atende a 285 milhões de pessoas pelo mundo.

Se para os vídeos na internet a adaptação foi tardia, em formas mais antigas de pornografia, como as revistas e os livros, ela nunca nem chegou para valer. Um dos raros trabalhos é o da fotógrafa Lisa Murphy, do Canadá. Desde 2007, ela já criou três livros no projeto Tactile mind, repletos de corpos em alto-relevo. Um quarto, ainda sem título, está a caminho. Seu processo, completamente artesanal, é tão incomum quanto trabalhoso. “Eu fotografo e então construo uma escultura. Sobre ela, derreto uma página de plástico em minha máquina de termoconformação (técnica que adapta o plástico a um molde, usando calor). Em seguida, levo essa folha a um revisor com deficiência visual, para feedback. Se necessário, faço ajustes na escultura e adiciono braille à página”, descreveu Murphy. Os livros, sob encomenda, saem entre RS 400 e RS 1 mil cada um.

“Nós, com deficiência, somos vistos como assexuados, como se não pudéssemos ter uma vida sexual ativa. Somos pessoas como as outras, com desejos e sonhos, mas, porque somos marginalizados, então surge esse tabu. Imaginam que as pessoas com deficiência são anjos, heróis, que se superam…Mas são pessoas como as demais, com qualidades, defeitos, que trabalham, estudam, xingam, ficam mal-humoradas”, disse Felipe Monteiro, consultor do trabalho de audiodescrição para o Sexy Hot. Em 42 anos de vida, ele passou a não enxergar nos últimos sete. De lá para cá, não consegue mais consumir filmes do segmento. “Ficou uma lacuna em minha vida. E ela ainda vai existir, porque esses filmes com que estamos começando a trabalhar são todos héteros, e eu sou gay.”

A percepção de que os deficientes estão excluídos do universo erótico ficou clara para Monteiro quando um dia se deparou com um audiolivro que dizia que os personagens colocavam a mão “na B”, “no C”, e aí por diante. O tema virou então objeto de estudo para ele. Em 2018, no trabalho de conclusão de sua especialização em audiodescrição na Universidade Estadual do Ceará, analisou parte do filme nacional A história da eternidade (2014), de Camilo Cavalcante, um drama que aborda sexo explícito em determinada cena. No cinema, explicou Monteiro, a audiodescrição foi coerente com as imagens, mas, quando o filme chegou à televisão, foi feita uma nova versão, com termos menos diretos. “Existiu uma censura. Por que a pessoa que enxerga pode ver uma cena de sexo, explícito, mas narrando não pode ser igual? Por que existe esse desequilíbrio?”

Apesar de ter estudado o assunto, a oportunidade para trabalhar com ele só veio mesmo agora, quando foi convidado a fazer parte da equipe com a missão de transformar as imagens dos filmes do Sexy Hot em palavras e legendas. O time é composto de sete pessoas, todas com experiência em adaptação de diversas produções culturais, mas, em matéria de pornô, todos eram virgens no assunto. A solução foi então ouvir quem mais aguardava pela novidade. “Chamamos 15 cegos consumidores de conteúdo pornô para uma pesquisa, para dizerem o que achavam do resultado. As respostas foram muito positivas, aí nos sentimos mais seguros, porque, como ninguém fez isso antes no Brasil, não tínhamos referência nenhuma… Queríamos entender se gostaram da voz, da velocidade, se entenderam a história”, contou Joana Peregrino, diretora da Conecta Acessibilidade, consultoria contratada pelo canal.

Acertar o tom da fala foi um ponto delicado. O padrão de diretrizes para uma boa audiodescrição pede uma voz “imparcial, que não concorra com o conteúdo. Assim, não importa quão quente seja a cena, a narradora não pode ser sexy. Por outro lado, não pode ser também tão mecânica a ponto de causar estranheza ou cortar a diversão. “Chegamos a algo ameno. A voz não pode entregar tudo”, disse Peregrino.

Nessa hora, a escolha das palavras também é estratégica. Não para evitar termos como “pau”, “buceta”, “cu”, muito pelo contrário, mas para encontrar sinônimos. Logo ficou claro que repetir a mesma palavra o tempo todo tornava a narrativa chata. A solução foi buscar sinônimos, como pênis e membro. Como os momentos sem diálogo entre os personagens costumam ser maioria no pornô, o trabalho de adaptação teve bastante liberdade para ocupar esses espaços. No caso de Sugar daddy, uma acelerada mais brusca no ritmo do filme só foi necessária no início da trama, quando a protagonista é apresentada em uma roda de amigos em um bar. Ali, tudo passa depressa, afinal, o foco é fazê-la chegar à casa do parceiro.

Por outro lado, em comparação a outros gêneros do audiovisual, faz falta os personagens geralmente não terem um nome próprio, disse Felipe Monteiro. “Outro dia pegamos um filme que tinha dois homens muito parecidos em cena com uma mulher, e com o rosto coberto. Tivemos de chamar de Mascarado 1 e Mascarado 2 para diferenciar”, disse. “Por isso, uma de nossas lutas é que a acessibilidade seja pensada na pré-produção, não só na pós-produção, mas já estamos evoluindo”, concluiu.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 31 DE MARÇO

FILHO, ESCUTE SEU PAI

O filho sábio ouve a instrução do pai, mas o escarnecedor não atende à repreensão (Provérbios 13.1).

A obediência aos pais é o caminho mais seguro para a felicidade e a rota mais certa para a prosperidade. É ordem de Deus: Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá (Êxodo 20.12). O apóstolo Paulo disse que este é o primeiro mandamento com promessa. A obediência aos pais é uma atitude justa, um princípio universal. Sua ausência é sinal de decadência da sociedade. O filho sábio ouve a instrução do pai, mas o escarnecedor não atende à repreensão. Aqueles, porém, que não escutam os conselhos sofrerão a chibata. Aqueles que fecham os ouvidos à repreensão, esses oferecerão as costas aos açoites. Muitas tragédias acontecem ainda hoje porque os filhos tapam os ouvidos aos conselhos dos pais. Muitos casamentos errados acontecem porque os filhos não escutam os pais. Muitos acidentes ocorrem porque os filhos são rebeldes aos ensinamentos dos pais. As cadeias e os hospitais estão cheios de filhos vitimados pela rebeldia, e os cemitérios estão salpicados de jovens que foram ceifados precocemente porque, rebeldes, não quiseram ouvir o conselho de seus pais. Permanece o alerta: Filhos, escutem seus pais. Esse é o caminho deleitoso da vida!

GESTÃO E CARREIRA

QUAL É A REFERENCIA?

Interpretações jurídicas diferentes geram insegurança sobre quais índices de correção monetária devem ser aplicados nos processos trabalhistas

Uma das questões que mais têm gerado insegurança jurídica às empresas é a correção monetária sobre os valores devidos nos processos trabalhistas. O imbróglio é antigo, já que existem diversas interpretações sobre qual taxa aplicar para que o valor devido ao trabalhador seja ajustado para a realidade atual do mercado. Mas, desde a aprovação da Reforma Trabalhista em 2017, a incerteza aumentou.

De acordo com o advogado trabalhista Fernando Cha Messias, da Chiarottino e Nicoletti Advogados, os tribunais estão tomando decisões diferentes em cada caso. Segundo eles três soluções são as mais comuns aplicar o IPCA-E (o acumulado do índice Nacional de Preços ao Consumidor, indicador do IBGE que mede o índice de preços no país em determinados períodos), que gera valores mais favoráveis ao trabalhador e era usado antes de 2017; aplicar a TR (taxa referencial, que tem por base o índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança), que é o que a Reforma Trabalhista parece indicar; e uma solução intermediária, que usa os dois índices. Neste último caso, os juízes afirmam que as duas taxas podem ser aplicadas no mesmo processo: entre 2015 e 2017 usa-se o IPCA–E e a partir de 2017 usa-se a TR.

Mas não existe um consenso sobre qual correção utilizar. “O cenário é de muita insegurança jurídica. Cada hora uma taxa diferente é aplicada nas sentenças. E a adoção de uma taxa ou de outra pode significar uma diferença de até 30% no valor total da dívida”, explica o advogado Domingos Fortunato, sócio do escritório Mattos Filho.

A controvérsia chegou aos tribunais superiores. Em junho deste ano, o pleno do TST se debruçou sobre o tema e formou maioria para julgar inconstitucional a utilização da TR na correção monetária, no sentido oposto ao do texto da Reforma Trabalhista. A relatora do caso, ministra Delaíde Miranda Arantes, afirmou que a TR afronta o direito à propriedade, afinal, reduziria o valor real da dívida trabalhista.

Paralelamente foi ajuizada uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo que a Suprema Corte declarasse a constitucionalidade da norma da Reforma Trabalhista que previa a utilização da TR. Na iminência do julgamento no TST, a Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif), autora da ação no STF, pediu a suspensão de todos os processos sobre o assunto na Justiça Trabalhista. O pedido liminar foi atendido e o ministro Gilmar Mendes suspendeu os processos em tramitação no país que discutam qual índice deve ser aplicado para a correção monetária de dívidas trabalhistas. “A decisão liminar suspende apenas os processos que dependem só da escolha de qual será a taxa indicada para a correção monetária. Os demais correm naturalmente”, explica Fernando.

O advogado Domingos, do escritório Mattos Filho, acredita que a Suprema Corte deve manter a aplicação da TR, validando o disposto na Reforma Trabalhista. “A expectativa é que o STF valide as alterações trazidas pela Reforma Trabalhista, como tem feito em decisões até aqui sobre outros temas alterados pela nova lei. Até porque trata-se de uma lei recente e deve- se respeitar a vontade do Legislador em consonância com o princípio da separação entre os poderes”, diz.

CORONAVÍRUS

Um dos argumentos usados por Gilmar Mendes para justificar sua decisão Liminar de suspensão dos processos foi a pandemia da covid-19. “Diante da magnitude da crise, a escolha do índice de correção de débitos trabalhistas ganha ainda mais importância”, afirmou o ministro.

Domingos concorda. “O que as empresas mais querem, ainda mais em um momento de incertezas como este da pandemia, é previsibilidade para planejar seus investimentos.  Os recursos em caixa nessa etapa da retomada serão poucos e sua aplicação deve ser muito bem calculada. Então, a decisão do STF para pacificar a questão é fundamental e urgente”, afirma.

A expectativa é que o número de processos trabalhistas aumente consideravelmente em 2021. Até o fechamento deste post já eram mais de 62.000 relacionados à pandemia, com valor total de 3,88 bilhões de reais. Os dados estão disponíveis no Termômetro Covid-19 na Justiça do Trabalho, plataforma online lançada em maio de 2020 que usa uma ferramenta para identificar todas as ações trabalhistas nas quais constem expressões como “pandemia”, “coronavírus” e “covid-19”.

Para as companhias, a saída é tentar negociar com os trabalhadores. “Já houve muitas dispensas e ainda teremos outras enquanto durar este cenário. Temos aconselhado nossos clientes no sentido de fazer acordos, que abreviam a resolução das questões e minimizam essa incerteza quanto à taxa a ser usada na correção monetária”, diz Domingos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS REDES SÃO SOCIÁVEIS?

Elas não agem por conta própria e sua manipulação fornece poder quanto à produção de subjetividades, portanto sua relação de causalidade é colocada em questão

No dicionário, o significado do adjetivo “sociável” é: “próprio para viver em sociedade; que tende para a vida em sociedade. De convívio agradável; civilizado, urbano, afável: caráter sociável e generoso. Que consegue viver socialmente, seguindo regras e práticas de convivência”.

Vendo esse conceito, pode-se dizer que as redes são mesmo sociáveis? A resposta obviamente é não.

Uma postagem recente no Twitter é útil e vale a pena reproduzi-la:

“…Leitor pergunta como seguir saudável nesta maré de obscurantismo. Sugiro a sabotagem: ler literatura, assistir a bons filmes, frequentar exposições de arte, ir à roda de samba, dançar forró, amar. Cultivar subversiva alegria. Contra a pulsão de morte, só a anarquia da felicidade…”

Mesmo não concordando que exista pulsão de morte, entendo o que ele propõe e quer dizer. Estaríamos vivendo tempos sombrios. E seguindo a narrativa, podemos inferir que o antídoto “alegria e felicidade” diga respeito também às formas de relação carregadas de desrespeito e ódio até inclusive (ou principalmente) nas redes.

É verdade que, do ponto de vista sociológico, as redes sociais retiraram dos grandes meios de comunicação a hegemonia da “informação” – colocada entre aspas – e isso não deixa de ter um aspecto meritório, benigno, na onda da valorização da organização espontânea da sociedade civil opondo-se à dependência exclusiva dos meios institucionais como gerenciadores das demandas e necessidades da sociedade.

Mas há também um ciclo pernicioso: posturas e manifestações esdrúxulas de entes públicos são toleradas e defendidas em redes sociais. Os defensores aprovam agressões e preconceitos na forma e conteúdo, e o fazem usando não somente linguagem virulenta, mas também favorecendo estigmatizações. Isso, por sua vez, legitima o ente público. As redes tornam-se assim “institutos de pesquisa” cotidianos.

Assim se forma o “novo normal”, em que o ódio e a intolerância tornam-se lugares-comuns. Não é “direita-esquerda”, “conservador-progressista” o elemento central, portanto.

Obviamente as redes sociais não agem por conta própria elas mesmas, e sua manipulação fornece poder quanto à produção de subjetividades só equiparado à propaganda na Alemanha nazista.

Mas é novamente a relação de causalidade que é colocada em questão. Seria raso e ingênuo pensar que a virulência manifesta nas redes é simplesmente consequência. Assim como seria raso e ingênuo adotar um conceito como o da pulsão de morte, que seria uma espécie de “pecado original” constituinte do psiquismo, como explicação para a espontaneidade das manifestações de virulência.

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/ UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com