A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A IMPORTÂNCIA EM SER IMPORTANTE

Deixar marcas, ser notado, não passar em branco, ser alguém especial… por que isso é tão essencial e essa necessidade tem crescido tanto numa sociedade que valoriza até a ostentação da felicidade?

Amar e ser amado são necessidades inerentes à humanidade, somos seres sociáveis e, como tais, temos o desejo de pertencimento a um grupo e de compartilhar amor. Necessidade essa que nasce, fundamentalmente, na infância e nos acompanha no decorrer da vida.

O amor é o alimento da alma. Amor é preenchimento, transbordamento, alegria. Quando estamos cheios de amor genuíno e realmente conseguimos nos amar, esse amor transborda e atinge o outro, assim como preenche a vida e tudo que se faz! É o que dizem as escrituras sagradas em “amar o próximo como a ti mesmo”. Quando se pratica o amor, a vida se torna leve, colorida. Ele é o combustível da vida, o sentimento que dá sentido ao que somos e ao que fazemos. Quem é cheio de amor genuíno, amor-próprio, consegue amar o outro de forma incondicional. Ter amor ao que faz traz felicidade e uma sensação de paz e de completude na vida.

De acordo, porém, em como se dão as primeiras experiências em compartilhar amor, ainda na tenra infância, outros sentimentos podem nascer e comprometer fundamentalmente a forma como iremos ressignificar esse sentimento futuramente. Se essas experiências forem negativas, sentimentos como frustração e baixa autoestima surgirão, determinando os relacionamentos futuros e a visão sobre o amor.

Talvez esse seja um caminho para começarmos a entender, olhando para a atual sociedade, os motivos pelos quais as pessoas buscam incessantemente serem notadas e admiradas, para se sentirem valorizadas e amadas. É preciso voltar à infância para começar a entender esses processos.

Segundo Freud, a criança ao nascer se depara com uma sociedade neurótica e vai se moldando aos poucos, tornando-se mais e mais sensível a essa neurose.

A criança quer chorar, gritar, expressar livremente seus sentimentos e até sua agressividade, mas precocemente é reprimida em seus atos, para ser apreciada e amada. Ela deve se comportar para ser aceita e querida e assim pode ir aprendendo a ter a necessidade de aprovação externa sobre os seus comportamentos. Ela percebe, ou sente, que existe um padrão para “acessar o amor do outro” e, cada vez que ela não consegue alcançar esse padrão em suas experiências, se sente insegura e frustrada, dando início ao processo das neuroses.

O amor deixa de ser algo entendido como natural, inerente, incondicional, para ser visto como algo a ser conquistado, ou seja, surge a necessidade de “se fazer amado”.

Dessa forma, de acordo com essas primeiras experiências infantis e conforme as frustrações com estas vão crescendo, a autoestima vai diminuindo, criando-se uma lacuna entre o querer e o conseguir ser amado.

O amor-próprio diminui gradativa- mente frente às inseguranças surgidas. Sem amor-próprio o amor ao outro se torna um processo dificultoso, árduo.

Sem o amor-próprio não há como se valorizar e o conhecimento de si mesmo passa a ser um referencial no “reconhecimento externo”. Se alguém diz que você é bom, você se sente bom, e se diz que não é bom, sente-se deprimido. A necessidade de ser aprovado foi ensinada: se não há reconhecimento, não há valor. In- felizmente, esse sentimento pode acompanhar a pessoa no decorrer da sua vida. Nesse processo, passa a “valer tudo” para ganhar o olhar do outro, e a estratégia mais utilizada é a busca pela atenção. Chamar a atenção do outro passa a ser a tentativa de preencher a lacuna que surgiu lá trás. Quando amamos alguém prestamos atenção nesse alguém, naturalmente. Então, o raciocínio inverso passa a ser verdadeiro: quando alguém está atento a nós, nos sentimos amados.

A lacuna está preenchida!

Daí para frente, há alguns desdobramentos que irão resultar em outros: o amor verdadeiro e transcendental passa a ser substituído por um “amor banalizado”. Todos se amam, mesmo que tenham um relacionamento superficial, na vida, nas redes sociais, porque a palavra “amor” perdeu o significado primário.

A lacuna do verdadeiro sentimento é substituída pela busca infinita pela atenção do outro. E na ânsia por essa atenção usam-se as formas mais visíveis para a obtenção de olhares, holofotes e admiração: comportamento, fama, ostentação. Tudo para ser admirado e desejado.

Entende-se então, assim, que a necessidade de ser importante é o resultado da falta de autoestima, tornando-se uma busca de compensação para o vazio, a lacuna sentida na alma quando perdemos o amor-próprio e natural.

MUNDO DAS REDES

Nesse contexto em que chamar a atenção irá preencher um vazio e trazer o sentimento de “plenitude” e valorização, surge um cenário maravilhoso que serve para mostrar ao mundo “que eu existo” da forma como eu quiser ser visto: a internet.

As redes sociais proporcionam a vitrine para o mundo. Nela, qualquer pessoa pode se mostrar da forma como gostaria de ser e arrematar para si os tão importantes olhares de aprovação que darão a falsa impressão de ser importante, de ser amado.

Ao postar uma foto ostentando alegria, felicidade, sucesso, realização profissional e social e começar a receber likes e comentários, o ego vai sendo massageado e inicia-se um vicioso ciclo de prazer, que vai sendo realimentado, fazendo com que haja uma dependência e necessidade cada vez maior desse ciclo.

Dessa forma, as pessoas vão criando “máscaras de felicidade”, procurando transparecer, cada vez mais, algo que muitas vezes não condiz com a sua realidade, mas que serve para alcançar os olhares, as curtidas e a aprovação.

Dentro de um contexto social em que valores materiais são supervalorizados em detrimento aos valores morais e éticos, é cada vez maior a ostentação no plano material, principalmente por jovens e adolescentes, em busca de autoafirmação. Surgem os braggers, termo que em inglês significa “fanfarrão”, mas que se refere àquele que se autopromove, o exibicionista nas redes sociais. O verbo brag em inglês está ligado ao ato de se vangloriar.

Ser uma pessoa de sucesso financeiro, profissional e pessoal é o modelo de alguém bem-sucedido, perseguido por milhares de pessoas que almejam a valorização e “ser notadas”.

Assim nasce a “cultura do exibicionismo”, com uma superexposição virtual, fingindo-se, na maioria das vezes, ter um estilo de vida que não é o real. Cria-se o “mito” da felicidade em cem por cento do tempo, a necessidade de se mostrar exuberante em tempo integral, ostentando um relacionamento perfeito, uma vida social intensa, uma vida profissional de extremo sucesso, uma vida financeira abundante.

A CULTURA DO EXIBICIONISMO

Estudos atuais relacionam essa superexposição às redes sociais a distúrbios psicológicos.

A Universidade da Pensilvânia (EUA) analisou 143 estudantes de 18 a 22 anos em três plataformas mais populares (Facebook, Snapchat e Instagram) e chegou à conclusão de que quanto mais tempo esses jovens passavam junto às redes, mais probabilidade apresentavam em relação a manifesta- rem sentimentos e comportamentos de tristeza, depressão e solidão.

Parece um paradoxo, uma vez que, ao inventar o Facebook, Mark Zuckerberg propunha um espaço de liberdade e de conexão, um ponto de encontro para amigos. Hoje, com mais de dois bilhões de usuários ativos por mês, a plataforma, tal qual algumas outras, pode instigar sentimentos negativos e prejudiciais à saúde psíquica.

Chega a ser irônico, diz Melissa Hunt, líder da pesquisa. Porém, ao analisar de perto o comportamento dos usuários, percebe-se que tudo faz sentido: há muita comparação entre aquele usuário que está vendo a publicação e exposição do outro com a sua própria vida. A impressão que se tem é que a do outro é sempre muito melhor do que a sua, estimulando o aparecimento de sentimentos de menos valia, incompetência e baixa autoestima.

O psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, aponta em seus estudos que, quanto mais tempo conectadas, mais insatisfeitas as pessoas ficam com suas próprias vidas.

Uma outra pesquisa, realizada pela Universidade Humboldt, em Berlim, entrevistou 357 universitários e descobriu que o principal sentimento manifestado em relação à vida virtual é a inveja. Uma a cada cinco pessoas pesquisadas aponta o Facebook como origem do sentimento de inveja em sua vida.

Quase 30% dos jovens entrevistados relataram sentir inveja ao ver posts sobre viagens, atividades de lazer de amigos e postagens vinculadas ao sucesso.

Alguns usuários, mesmo se exibindo, se mostram chateados quando suas postagens de ostentação não são notadas como gostariam, aumentando ainda mais um ciclo de disputa por curtidas e por serem notados.

Recentemente, o caso de uma jovem consumida pela mídia social e necessidade de aprovação foi exposta, por ela mesma, na rede social.

Essena O’Neil, uma jovem australiana de 18 anos, consagrada como webcelebridade e com mais de 712.000 seguidores, abandonou as redes sociais, revelando que sua vida virtual era uma “fraude”, uma farsa. Antes de deixar as redes, a garota resolveu repostar suas fotos reeditando as legendas, mostrando que a realidade era muito diferente da postagem virtual. Ela conta, por exemplo, em seus depoimentos sobre uma foto que tirou como modelo e do sacrifício realizado para a barriga estar perfeita: ficou sem comer o dia todo e tirou mais de cem fotos para achar a posição perfeita para expor sua barriga e estômago.

Essena desabafa: “Nunca estive tão miserável. Likes, visualizações e seguidores não são amor”. A jovem ainda relata que passou a adolescência, desde os 12 anos, tentando se tornar alguém importante, bonita e cool e que chegou a pesquisar medidas ideais de coxa e cintura de celebridades para se ajustar ao perfil.

FALEM MAL, MAS FALEM DE MIM

Chamar atenção a qualquer custo pode significar, inclusive, ser notado através de comportamentos negativos.

Muitas vezes, a autoestima é tão baixa que a própria pessoa duvida que possa ser apreciada por algo positivo, que tenha algo bom a oferecer ao outro. Pessoas que foram muito depreciadas, machucadas, julgadas podem “incorporar” comportamentos negativos e rebeldes, que incluem quebra de regras, comportamentos destrutivos, que acabam virando um ciclo, baixando ainda mais a autoestima, até que a pessoa só se reconheça de forma negativa.

Num outro aspecto, para muitos, quebrar regras faz com que pessoas comuns pareçam poderosas. É o que diz um estudo publicado no periódico Psychological na Personality Science. Os entrevistados na pesquisa, diante de várias situações simuladas, demonstraram que consideravam pessoas que quebravam regras e pessoas rebeldes mais poderosas do que as outras.

Nesse sentido, na busca incessante pelo olhar do outro e por holofotes, vale chamar a atenção de todas as formas, incluindo pelo lado negativo. Assim, indisciplina, rebeldia, vandalismo são, na verdade, pedidos de atenção, de alguém que quer gritar: “estou aqui, eu existo, quero ser notado, mas não tenho nada de bom a oferecer”!

Esse fenômeno explica alguns casos de atos de indisciplina em sala de aula, vandalismo e rebeldia de crianças, adolescentes e adultos que se sentiram um dia vítimas de abandono e desamor, viveram um sentimento de rejeição, que perderam o amor-próprio, a capacidade de confiar no outro e que encontram, nessas atitudes, uma forma de pedir ajuda e alcançar a atenção do outro.

EXISTE UMA SAÍDA?

Sim! Estudiosos e filósofos acreditam nisso!

Um deles é a pesquisadora Brené Brown, autora do livro A Coragem de Ser Imperfeito.

Em seus estudos, Brown diz que nascemos para a conexão com o outro, mas no decorrer de nossos caminhos essa conexão é rompida e o responsável por essa ruptura é o sentimento de vergonha que carregamos em não nos sentirmos suficientes (suficientemente belos, suficientemente magros, suficientemente bem-sucedidos). Isso cria uma sensação de vulnerabilidade que sustenta a vergonha e produz um ciclo infinito de vulnerabilidade diante do outro, das situações da vida.

Estudando, porém, os depoimentos de seus entrevistados, para sua pesquisa e tese, Brené Brown reparou que havia um grupo diferenciado, que acreditava no seu senso de merecimento, no amor e no poder da conexão.

Brown percebeu, então, que, paradoxalmente, o que diferenciava esse grupo do outro era exatamente a aceitação dessa vulnerabilidade diante da vida, do outro e a aceitação também de suas imperfeições. Eles tinham coragem de ser vistos “nus” como realmente eram, aceitando-se acima de tudo, e isso lhes trazia de volta o sentimento de pertencimento. Assim, conseguiam ser felizes, plenos, aceitando suas falhas, imperfeições e principalmente sua vulnerabilidade.

Através não só dos estudos de Brown, mas de um olhar profundo sobre aquela “lacuna” do passado, da infância, sobre a autoestima perdida, sobre a busca incansável pela atenção do outro, na ânsia por valorização e necessidade de sermos amados, podemos aprender que somente a aceitação das nossas imperfeições e vulnerabilidades e o resgate do amor-próprio, nos amando do jeito que somos, nos trarão de volta aquele amor genuíno e transbordante.

O amor genuíno é um sentimento tão forte, capaz de renascer nos solos mais áridos das nossas vidas. Ele renasce na disponibilidade em ser o primeiro a dizer eu te amo verdadeiramente, e não da forma banalizada, a quem se ama real- mente, em se doar por completo e em investir tempo e qualidade nas relações.

Ele renasce também e principalmente na capacidade de enxergar e aceitar nossas próprias fraquezas e resgatar o amor-próprio. E é esse amor que vai nos preencher totalmente, preencher aquela lacuna e transbordar pela vida afora.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.