EU ACHO …

PEQUENOS GRANDES HÁBITOS

A importância de singelos rituais diários para o bem-estar

Acordar às 5 horas. Entrar no banho, tomar café, ler jornais, planejar o dia. Às 8, trabalhar.  Pausa das 12 às 13horas para almoçar e checar mensagens pessoais. Voltar ao trabalho, até as 17.  À noite, organizar a casa, jantar e se dedicar a algo divertido, como ouvir música ou bater papo. Às 22 horas dormir.

Não, essa não é minha rotina. A lista foi registrada há mais de 200 anos por Benjamin Franklin, inventor, escritor, filósofo, pioneiro no estudo da eletricidade e um dos pais fundadores dos Estados Unidos, entre outras credenciais. Para não perder o foco entre tantas atividades, o multitalentoso Franklin valorizava os pequenos rituais diários que agregam qualidade à nossa vida.

Costumamos pensar que grandes transformações são provocadas apenas por grandes eventos, sejam alegres ou traumáticos. A verdade, no entanto, é que mudanças significativas podem resultar também de micro- hábitos que todos somos capazes de introduzir em nosso dia a dia. Uma rotina organizada, recheada de pequenos rituais saudáveis, impacta nossa saúde e bem-estar mais do que qualquer “terapia de choque”. Observar uma rotina, no entanto, não é ligar o piloto automático. A boa rotina deriva da reflexão sobre o que nos faz bem. Ela pode ser mantida anos a fio. Ou pode ser adaptada a novas circunstâncias. O próprio Franklin estava atento a essa necessidade. No tempo arrastado das carruagens já se perguntava: “Alguma coisa pode ser constante num mundo que está sempre mudando?”

Quer alguns exemplos de mudanças positivas na rotina? Experimente ficar em uma perna só na hora de escovar os dentes. Parece pegadinha? Calma, eu explico: esse exercício simples fortalece a musculatura dos membros inferiores e treina o equilíbrio. Tente se apoiar na perna direita quando escovar os dentes pela manhã ena esquerda à noite (ou vice-versa). Quanto mais tempo conseguir ficar apoiado em uma perna, melhor. Assim mesmo sem dedicar uma parte do dia a exercícios físicos, é possível combater perdas musculares.

Outra sugestão: antes de dormir, deite com os ombros e a cabeço para fora da cama e os deixe pendurados por alguns minutos. Assim você dará uma bela alongada no pescoço e na coluna, algo essencial para quem trabalha o dia todo curvado sobre um computador. Além disso, você aumentará o fluxo sanguíneo no coração e no cérebro.

Algumas dessas práticas singelas ajudam a lidar com a ansiedade. Experimente, por exemplo, colocar o celular em modo avião quando for dormir. Se possível, deixe-o até em outro cômodo, para evitar dar aquela ú1tirna olhada nas redes sociais antes de pegar no sono.

Quem está preocupado com o peso também pode adotar alguns hábitos simples, como tomar água antes das refeições, esperar alguns minutos para pedir uma sobremesa, evitar olhar para telas enquanto almoça ou janta e até, por incrível que pareça, alimenta-se antes de fazer compras. Todos esses hábitos ajudam a controlar a compulsão de comer, dando tempo para que o corpo registre a impressão de saciedade.

E quando começar as mudanças? Que tal já? O nosso Franklin, que não gostava de procrastinar, dizia: “Um hoje vale mais do que dois amanhãs”.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

O QUE NÃO MATA, DESEMPREGA

Incapaz de conter o avanço da pandemia, o governo se distancia também de programas que promovam a geração de vagas de trabalho. Além de já ser o segundo país com mais vítimas da Covid-19, o Brasil se tornou o recordista em demissões.

Marcado pela pandemia do novo coronavírus, 2020 entrou para a história do Brasil também como o ano em que os empregos desapareceram. Nenhuma das inúmeras crises econômicas que o País enfrentou teve tamanho impacto sobre a redução de vagas de trabalho. Pelo menos nos últimos 120 anos. Isso porque, desde 1900, as circunstâncias que impuseram restrições à atividade econômica sempre impactaram menos a empregabilidade se comparadas aos efeitos da crise atual. Até a década de 1950, o processo de urbanização das cidades garantia postos de trabalho para pessoas de todas as escolaridades, enquanto o campo provia o sustento dos que não se aventuravam nos grandes centros. Nas três décadas seguintes, o crescimento do emprego acompanhou a expansão industrial e a entrada do Brasil na rota do comércio globalizado. Ainda que houvesse um sensível atraso no desenvolvimento de certos setores industriais brasileiros em relação aos países mais ricos, foi a indústria que absorveu um imenso contingente de trabalhadores. Desde os anos 1990, a taxa de desemprego nunca superou 15%. Com estabilização da moeda, o controle do câmbio e a abertura comercial, novos perfis de vagas e demandas garantiram taxas de empregabilidade relativamente estáveis. Tudo isso parece estar prestes a sucumbir diante de um inimigo desconhecido. Um vírus que, se não mata, pode desempregar em massa.

A expectativa do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, é que, até o fim do ano, cerca de 40 milhões de pessoas estejam desempregadas ou subutilizadas. O número representaria quase 30% do contingente de trabalhadores ativos no País. Ele se somaria aos outros quase 8 milhões de pessoas com idade e capacidade profissional que desistiram de buscar emprego, os desalentados. Um retrato do que está por vir foi indicado em maio quando, segundo o IBGE, os pedidos de seguro desemprego saltaram 75%, somando mais de 500 mil. Até o fim do ano, segundo o Ministério da Economia, é possível que esse número dobre, podendo triplicar dependendo da extensão da crise. E poderia levar até cinco anos para voltarmos ao patamar de 2019, se mantido o ritmo de geração de vagas pré-pandemia.

Na avaliação de Cláudio Aragão, doutor em ciências econômicas e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) para mercado de trabalho, é possível que 40% dos jovens não tenham emprego no final de 2020. “Há um descompasso entre as políticas de emprego e os jovens, porque elas são voltadas ao estímulo do empresário e não do trabalhador”, afirma. O Brasil lida agora com uma situação que envolve boa parte dos trabalhadores capacitados. Para o historiador econômico Nilo Abreu, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a queda no rendimento do trabalhador será inevitável: “Haverá milhares de pessoas com diploma, experiência e currículo em busca de vagas”.

INVESTIMENTO PÚBLICO

Para evitar o pior seria necessário um grande esforço articulado entre os entes federativos, Três Poderes e iniciativa privada. Seria necessário investimento público massivo, programas emergenciais de transferência de renda, retomada de obras de infraestrutura, requalificação profissional e reforço escolar. Tudo isso para que as bases da pirâmide econômica consigam sustentar o topo.

Porém, com tantas demandas dependendo do poder público, as chances de se viabilizar algo desse porte é ínfima, não apenas porque o governo federal parece pouco disposto a realizar medidas dessa natureza, mas porque a necessidade de integração com os poderes estaduais e municipais torna difícil a coordenação de políticas públicas em um país continental e polarizado como o Brasil. A própria ineficácia demonstrada até agora no combate ao coronovírus expôs essa fragilidade.

RENDA BÁSICA SAI DO PLANO DAS IDEIAS

Se em um passado não muito distante a transferência de renda por meio do Bolsa Família parecia um atentado aos liberais por “dar o peixe e não ensinar a pescar”, em tempos de pandemia e na iminência de faltar mercado consumidor fez com que uma proposta conhecida por ser de esquerda ganhasse a simpatia até dos liberais mais ferrenhos. A renda básica de cidadania, que no Brasil é defendida por Eduardo Suplicy, um expoente da esquerda progressista, voltou a ganhar espaço nas discussões por ser uma das alternativas de manter a economia rodando minimamente enquanto a atividade está parada. “Tudo indica que vou viver para ver a Renda Básica ser implementada”, disse o atual vereador de São Paulo.

Por meio de um auxílio bancado pelo governo, as pessoas em situação de vulnerabilidade social teriam direito de receber uma ajuda que a manteria ativa no mercado consumidor. O sociólogo, filiado ao DEM e ex-deputado federal por Minas Gerais Emerson Moreira é um dos que defende o uso da renda. “A economia cresceu entre 2006 e 2014 com a inclusão de mais de 15 milhões de brasileiros que se bancarizaram e se tornaram economicamente ativos”, disse. Ele, que outrora foi crítico à medida de renda universal, hoje repensa o posicionamento. “É preciso pensar em um capitalismo mais moderno, em que o Estado não seja dono dos meios de produção, mas garanta que a população tenha acesso aos produtos”. A medida que também seria bem recebida por um empresariado cheio de incertezas sobre o futuro pode estar mais perto do que se imagina, uma vez que o Congresso Nacional, depois de estender o auxílio emergencial, estuda formas de garantir recursos para os brasileiros vulneráveis à crises de modo mais perene. Mesmo tendo no petista um notório defensor da medida, a primeira grande cidade do País a adotar um programa similar foi Campinas (SP), no começo dos anos 90, por decisão de José Roberto Magalhães Teixeira, então prefeito da cidade e um dos fundadores do PSDB.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE MARÇO

A VIDA DO JUSTO, UM GUIA CONFIÁVEL

O justo serve de guia para o seu companheiro, mas o caminho dos perversos os faz errar (Provérbios 12.26).

O justo é aquele que, embora não tenha justiça própria, foi justificado pela imputação da justiça do Senhor Jesus Cristo, o Justo. Deus é justo e o justificador daquele que crê. O justo é aquele que foi coberto com o manto da justiça de Cristo, recebido na família de Deus, está quite com a lei de Deus e com as demandas da sua justiça. O justo foi transferido do reino das trevas para o reino da luz, da potestade de Satanás para o senhorio de Cristo. A vida do justo é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. O justo serve de guia para o seu companheiro. Ele é confiável. O caminho dos perversos, porém, é uma estrada larga, convidativa e cheia de atrações, mas o seu destino final é a perdição eterna. O caminho dos perversos é cheio de encruzilhadas e bifurcações. Ao longo desse caminho muitas placas prometem prazeres, aventuras e sucesso, mas tudo isso não passa de engodo e consumada farsa. O caminho do perverso, embora pareça muito iluminado, é coberto de densa escuridão. Os ímpios nem sabem em que tropeçam. O caminho dos perversos faz os homens errarem, pois distancia as pessoas de Cristo, que é ele mesmo o Caminho!

GESTÃO E CARREIRA

CORTINA DE FUMAÇA

Estruturar uma política antitabagista passa pela preocupação com a qualidade de vidados funcionários, mas é preciso tomar cuidado para que a prática não seja discriminatória ou invasiva

A companhia de mudanças americana U-Haul anunciou a suspensão da contratação de usuários de nicotina – seja ela em forma de cigarros, vapings, adesivos ou gomas de mascar. Com uma equipe de 30.000 trabalhadores por todo o país, a empresa é um dos maiores empregadores dos Estados Unidos que adotaram uma prática antitabagista desse porte. A restrição, que começou em fevereiro de 2020, se aplica aos novos contratados, dentro dos 21 estados norte-americanos que permitem a iniciativa legalmente – os funcionários efetivos mantêm seu emprego. E a U-Haul não é a única a fazer isso no país. Em 2008, a Cleveland Clinic, rede de hospitais, começou a aplicar testes químicos em todos os candidatos a emprego: aqueles que apresentam traços de nicotina detectados pelos exames não são contratados.

Na terra da liberdade individual, essas práticas acenderam o alerta: quais são os limites da ética médica e trabalhista ao descartar os fumantes? A discussão é longa, mas uma das justificativas das empregadoras é a preocupação financeira. Uma pesquisa da Universidade de Ohio mostra que usuários de nicotina podem custar mais de 5.000 dólares anualmente para suas empregadoras. Entram na conta despesas com plano de saúde e absentismo, além de perdas financeiras por causa das pausas no expediente (mais recorrentes entre os fumantes do que entre os abstêmios).

E O BRASIL?

Assim como nos Estados Unidos, contratar fumantes também tem um custo para as empresas brasileiras. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, divulgados em 2017, o Brasil tem prejuízo anual de 56,9 bilhões de reais com o tabagismo – 39,4 bilhões de reais são gastos com despesas médicas; e 17,5 bilhões, com custos indiretos ligados à perda de produtividade dos trabalhadores por incapacitação ou à morte prematura por doenças relacionadas. Mas, diferentemente das normativas dos estados norte-americanos, em nossa lei, desconsiderar um fumante no processo seletivo é considerado discriminatório e sujeito a ações judiciais, segundo Priscila de Moura Lozano, advogada trabalhista da Gameiro Advogados. “A exclusão de candidatos por serem fumantes está sujeita a encargos judiciais, sim, desde que se prove que o motivo do corte foi esse”, diz Jaqueline Scholz, médica assessora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, salienta que é um problema ético fazer exames para a identificação de nicotina e condenável discriminar o profissional por ser fumante. “O tabagismo é uma doença como qualquer outra. Não contratar um fumante é o mesmo que não contratar um hipertenso”, afirma. Mesmo que não sejam pedidos exames prévios, o vício em cigarro pode, sim, impedir um candidato de entrar numa empresa. “Existe uma lógica de contratação em cada companhia, um perfil profissional que está relacionado ao cargo ocupado e à cultura da empregadora. Diante disso, o tabagismo pode ser um limitador”, diz Katia Ackermann, diretora executiva da Produtive, consultoria de carreira. Mas a especialista aponta que, para algumas funções, é difícil contratar fumantes por causa das atividades exercidas. “No ambiente industrial, por exemplo, há cargos que ficam em confinamento por horas, sem poder se ausentar da posição. Um profissional fumante nesse posto estaria sujeito a abstinência e ansiedade por não poder fumar. Considerar tais questões também é uma obrigação na hora da contratação.”

A cabine do avião e os aeroportos são locais em que fumar é impossível ou muito difícil. Por isso, a Gol criou, no ano passado, o programa Vida sem Tabaco. A companhia aérea realizou uma pesquisa interna com seus 16.000 funcionários pelo país e encontrou 503 fumantes, também perceberam que eles estavam perdendo quase uma hora do dia entre deslocar-se para a área em que é permitido fumar, tragar o cigarro e voltar ao posto de trabalho. Com o mapeamento feito, a empresa convidou os tabagistas a participar do projeto, que conta com acompanhamento psicológico, nutricional e médico – tudo virtual. ”Optamos por fazer online para que funcionários de todo o país pudessem participar”, diz Mário Mello Martins, médico do trabalho e gerente de gente e cultura da Gol. A primeira turma teve apenas 28 integrantes, mas 23 já conseguiram parar de fumar. “Empresas que contribuem para a saúde de seus funcionários estão trazendo ganhos para o negócio”, afirma o médico.

RESTRIÇÕES MAIS RÍGIDAS

Desde que entrou em vigor em 2014, a Lei Antifumo proibiu que pessoas fumem em ambientes fechados públicos e privados – o que acabou com os famosos “fumódromos” dentro dos anelares corporativos. Como não há indicação de que as companhias precisem criar espaços dedicados ao cigarro, cada empregador escolhe se os fumantes terão ou não local próprio para suas pausas.

“Com a lei antifumo, muitos trabalhadores tiveram que se adaptar a não fumar em locais fechados e outros tantos optaram por parar definitivamente, devido à limitação imposta”, diz Jaqueline. Talvez essa seja uma das explicações de por que o número de fumantes caiu 9% dentro das companhias, de acordo com levantamento feito pela RHMED, empresa de saúde e segurança no trabalho, com base nos resultados de 92.000 exames ocupacionais do Brasil entre janeiro de 2016 e junho de 2018.

Asrestrições acabam dificultando a vontade de satisfazer o vício. “As pessoas precisam encontrar espaços onde é possível fumar numa sociedade que está criando cada vez mais regras para o cigarro não estar presente. É um movimento que não parte apenas das empresas”, diz Katia, da Produtive. Mas, para a médica Jaqueline, a segregação não é a melhor forma de as companhias lidarem com o assunto. “É uma medida incompleta. Você impõe à pessoa a abstinência e ao isolamento sem nenhum apoio para que ela se cure. É importante dar alternativas.”

Até dezembro de 2019, na unidade Forged Technologies, que produz componentes automotivos e faz parte do conglomerado alemão Thyssenkrupp, era permitido fumar em áreas específicas localizadas em espaços da área externa. Porém, em janeiro deste ano, as duas fábricas da unidade em Campo Limpo Paulista (SP) e Santa Luzia (MG) declararam-se ambientes livres de tabaco. “Tiramos todos os fumódromos que existiam na empresa, e os funcionários que mantêm o hábito de fumar devem passar pelo portão até a área externa”, explica José Carlos Cappuccelli, CEO da unidade Forged Technologies.

A medida foi tomada depois de dois anos da implantação do programa Pare, iniciativa focada na recuperação do vício em nicotina. “Oferecemos a oportunidade e todos os meios disponíveis para que nossos funcionários façam uma transição saudável e menos traumática de recuperação do vício”, diz o executivo. Tudo começou em 2018 quando, ao aplicarem uma pesquisa interna para os 2.500 empregados, mapearam 150 fumantes.

Em seguida, a multinacional ofereceu palestras com um especialista cardiologista para falar sobre os riscos à saúde e o processo de cura. Só depois da conscientização, criou grupos de tratamento nos quais os 115 participantes passaram por acompanhamento médico, psicológico e nutricional. A empresa ainda custeia 70% dos valores de medicamentos aos pacientes que precisam. “Cada um define o seu dia D – aquele em que vai deixar de fumar. Comemoramos as conquistas nas reuniões de grupo e, no final do processo, há a entrega de um certificado e uma cerimônia em que os familiares são convidados”, diz José Carlos. Foi assim que 70 funcionários se tornaram ex-fumantes. Os demais continuam em acompanhamento para atingir o mesmo objetivo.

Mas e aqueles que não desejam parar de fumar? Uma pesquisa da consultoria Gallup, feita em 2017 com 1.021 respondentes, descobriu que 56% dos fumantes americanos sentem que são discriminados por seu hábito de usar nicotina, seja na vida pública, seja no emprego. Para o CEO, nenhum direito foi vedado com o programa, pois a empresa não proíbe que os funcionários saiam para fumar no ambiente externo e também não exclui candidatos na hora de contratar. “Informamos aos profissionais sobre nossa posição em relação ao fumo. Entendemos que é mais uma escolha deles do que nossa manter o interesse pela vaga”, diz Camila Macedo, gerente de RH da Thyssenkrupp.

SEM SEGUNDAS INTENÇÕES

Mesmo visando a saúde, essas medidas podem ser consideradas invasivas e fora do escopo das empresas, visto que fumar é uma questão individual. Mas Katia, da Produtive, pondera: “Seguindo por essa linha, programas de alimentação saudável, ergonomia e bem-estar também não estão no escopo da empresa, mas esses são elogiados”. Para a especialista, o contexto da saúde do funcionário compete, sim, às empresas. Ainda mais porque o tratamento para o fumo pode ajudar a lidar com sentimentos como ansiedade e estresse.

O importante é a maneira como a companhia endereça a temática. Lançar um programa antitabagismo com enfoque nos custos corporativos com a saúde dos fumantes ou nas perdas de produtividade pode gerar um efeito contrário e afastar os funcionários, em vez de engajá-los. “Eles sabem que fumar faz mal e o quanto prejudica diferentes momentos da vida. Se a empresa começa falando de resultados para o negócio, fica nítido que o dinheiro é mais importante do que o indivíduo. Isso é um erro”, explica Katia.

O cenário ideal, segundo a médica Jaqueline, é aquele em que a companhia cumpre com a lei antifumo, mas concede a alternativa aos dependentes de nicotina. “Quando a empresa dá a opção, a mensagem que passa é: ‘Você quer se tratar? Oferecemos essa possibilidade a você.” Às vezes, tudo o que falta ao fumante é o apoio para se livrar do vício.

FICHANDO O CERCO

Práticas antitabagistas estão ganhando força ao redor do mundo. Veja alguns exemplos:

ESTADOS UNIDOS

Companhia de mudanças americana U-Haul anunciou a suspensão da contratação de usuários de nicotina – como consumidores de cigarro, vapings, adesivos ou gomas de mascar – para seu quadro de funcionários.

ESPANHA

Tribunal espanhol permitiu que a empresa Galp Energia Espanha desconte do salário dos funcionários as paradas para cigarro. Foi instituído que eles marquem ponto em cada pausa e justifiquem o motivo.

JAPÃO

Piala Inc., empresa de marketing japonesa, concedeu aos funcionários não fumantes seis dias extras de férias para compensar o tempo que trabalham a mais, comparado às pausas de fumantes.

REINO UNIDO

Na inglesa KCJ Training & Employment Solutions os não fumantes são recompensados com quatro dias a mais de férias anualmente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ASSÉDIO MORAL

Esse comportamento é o escoamento da integridade psicológica do indivíduo e não pode ser considerado um fenômeno da atualidade, pois ele acontece desde que surgiram as primeiras relações de trabalho

O assédio moral não pode ser considerado um fenômeno da atualidade. Desde que surgiram as primeiras relações de trabalho já podia ser observado o assédio moral. O que pode ser chamado de atual é a forma como as pessoas passaram a reagir diante desse fenômeno; foi a partir da década de 1980 que passou a ser visto como problema social e ato ilícito a ser combatido justamente por suas consequências danosas. Isso mostra que buscar ajuda, informação e denunciar abusos indicam saúde mental e evitam maiores efeitos negativos.

Com todo avanço tecnológico, situações podem ser gravadas e/ou filmadas, e, ainda com a possibilidade de se poder falar a respeito, seja através das mídias ou no próprio ambiente de trabalho, as vítimas se sentem mais encorajadas a comunicar situações de crueldade no ambiente institucional.

Ainda se nota o medo de perder o emprego, ou de denunciar por receio de represálias, ou também que a situação possa ser invertida a favor do agressor, como, por exemplo, criando caminhos para a vítima ser demitida por justa causa.

Uma das situações que podem ocorrer é o desgaste emocional da vítima e, como consequência, a diminuição da capacidade laboral, caminhando assim para o rompimento da relação de trabalho. É fato que situações como essas, lamentavelmente, podem acontecer. E é exatamente por isso que os indivíduos precisam ser informados de que não se trata de algo normal, mas que é infelizmente comum, o fato de serem subjugados e agredidos psicologicamente no ambiente de trabalho.

O assédio moral afronta a dignidade e escoa a integridade psicológica da vítima deixando-a com alto grau de ansiedade e medo; a relação passa a ser permeada pela angústia, o rendimento tende a diminuir e a pessoa fica debilitada devido aos ataques a sua saúde mental. A autoestima é prejudicada e as sucessivas agressões psicológicas podem funcionar como gatilho para diversos distúrbios emocionais e psiquiátricos; aos poucos vai se destruindo sua capacidade de trabalho e resistência psicológica; afetam-se, além do ambiente de trabalho, também as relações sociais e familiares.

Os principais distúrbios emocionais encontrados em vítimas do assédio moral são a depressão, a ansiedade que pode levar a crises de pânico, burnout, distúrbios alimentares e do sono, alcoolismo, e até mesmo, em situações mais graves, o suicídio.

Na prática, o assédio moral se configura por terror psicológico que se manifesta através de sucessivas e frequentes ações de maus-tratos através de atos como humilhações, ofensas verbais, sabotagens, exposição ao constrangimento, hostilidade declarada ou encoberta, intimidação, chantagens e/ou ameaças veladas ou explícitas durante o exercício de sua função no ambiente laboral.

Como o assédio moral afeta o equilíbrio emocional da vítima, a forma de se relacionar com o seu entorno fica prejudicada. O sentimento de impotência, de frustração, de não aceitação, pode fazer emergir com mais facilidade a agressividade contra si próprio ou ao outro.

O agressor/assediador com seu narcisismo e egocentrismo preponderantes intimida, se sente mais forte e mais apto que o outro; e através de sua alta capacidade de observação sobre o comportamento alheio, identifica a vulnerabilidade; é nessas circunstâncias que sente que há espaço para destilar sua agressividade e transformar a vítima em sua presa.

O mais importante a fazer quando se identifica que se está sendo vítima de assédio é buscar criar mecanismos de auto- proteção, já que o agressor vai se utilizar da fragilidade e da vulnerabilidade emocional para se beneficiar.

Desvencilhar-se dessa teia perversa é difícil porque a dinâmica estabelecida aprisiona, mas é possível encontrar a melhor saída. O apoio psicológico é fundamental para que se possa fortalecer a autoestima e não se deixar abater pelos ataques.

Infelizmente, o que se verifica é que a legislação brasileira ainda se mostra insipiente quanto aos critérios que possam configurar o assédio e suas consequências. Alguns dispositivos de repressão podem ser encontrados no funcionalismo público, diferentemente de empresas privadas que ainda não possuem instrumentos claros para coibir o assédio. Em não havendo uma legislação unificada torna-se compreensível o receio das vítimas em denunciar.

É importante que as empresas adotem formas de coibir o assédio, seja por parte dos superiores hierárquicos ou de seus pares, seja por meio de políticas preventivas, campanhas educativas e informativas, a fim de promover bem-estar e saúde ao trabalhador através de um ambiente de trabalho saudável.

Diante das consequências desastrosas do assédio, que podem trazer adoecimento à vítima, a empresa será responsabilizada e poderá ter que arcar com o ônus de um processo judicial, com pagamento indenizatório por danos morais.

É importante lembrar que uma pessoa passa muito tempo em seu local de trabalho ou em função dele; isso significa que o trabalho é um ponto importante na vida de uma pessoa; mas não pode ser considerado o único. As sequelas emocionais causadas pelo assédio moral podem chegar a incapacitar parcialmente ou até plenamente uma pessoa.

Submeter o trabalhador a pressão psicológica não aumentará a produtividade, ao contrário, levará à estafa emocional, diminuindo sua capacidade criativa, funcional e psicológica. Proporcionar um ambiente saudável, com postura mais humana, contribuirá no aumento do bem-estar e poderá ajudar no crescimento da produtividade.

RENATA BENTO – é psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à IPA – International Psychoanalytical Association, à Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação Brasileira de Psicanálise. renatabento.psi@gmail.com