GESTÃO E CARREIRA

ADEUS AO ESCRITÓRIO?

Sete em cada dez empresas pretendem instituir o home office definitivamente. Embora a diminuição de custos seja sedutora, a decisão deve levar em conta muitos fatores para dar certo.

Quando o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte no Brasil causada pela covid-19, em 16 de março de 2020, a empresa de big data Neoway estava com 100% da equipe de 450 funcionários trabalhando em casa havia três dias.

Embora permitisse o home office, a companhia não possuía uma política estruturada. Tanto é que teve de realizar uma força-tarefa para garantir acesso aos sistemas de forma remota para todos. Feito isso, com os empregados seguros, a expectativa era aguardar alguns dias para voltar à rotina.

O que não se esperava era que após cinco meses do início das medidas de isolamento social, a contaminação pelo coronavírus fosse seguir forte no Brasil, sem sinal de melhora. Diante do cenário, o CEO da Neoway, Carlos Eduardo Monguilhott, tomou uma decisão: manter todo mundo em teletrabalho até o final do ano e reestruturar os escritórios, localizados em Florianópolis, São Paulo e Brasília. “Vamos aumentar os espaços de convivência e reduzir a quantidade de mesas”, diz. O plano é ter uma operação híbrida, que mescle pessoas trabalhando em casa e presencialmente.

A ideia veio após uma pesquisa interna revelar que 86% dos empregados estavam adaptados e não se importavam em prolongar o home office por mais tempo. Para que a aprovação continuasse em alta, os líderes foram orientados a aumentar a comunicação, a transparência e a proximidade com as equipes, e o CEO passou a realizar reuniões semanais com todos. “Sabemos que a interação física é insubstituível, então estamos ouvindo constantemente os empregados e criando ações para não perder a conexão”, afirma Michele Martins, vice-presidente de recursos humanos da Neoway que assumiu o cargo durante a pandemia. “Minha própria experiência serviu de laboratório”, diz. Para complementar, a companhia reviu benefícios, permitindo a substituição do vale-refeição pelo vale-alimentação, custeou as contas de internet e auxiliou na compra de móveis de escritório para usar emcasa. “Acredito que não vamos, necessariamente, ter uma economia financeira porque aumentamos alguns benefícios. M s será possível contratar além das regiões onde estão as sedes. Temos funcionários, inclusive, que já se mudaram para cidades do interior”, afirma o CEO Carlos Eduardo.

PRÁTICA PERMANENTE

Assim como a Neoway, muitas companhias estão adotando o teletrabalho definitivamente após o surto de covid-19. Um levantamento da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield, que ouviu 122 executivos de multinacionais brasileiras, revelou que 74% das empresas pretendem instituir o home office, mesmo com o fim da pandemia. O estudo ainda apontou que para 59% deles a experiência de manter a operação da casa dos funcionários teve mais pontos positivos do que negativos.

Com cada vez mais empresas tomando esse caminho, talvez a era das companhias com sedes grandiosas ocupando diversos andares tenha ficado para trás. Estimativas da consultoria imobiliária JLL, por exemplo, apontam que a taxa de vacância de imóveis comerciais de alto padrão em São Paulo pode chegar a 23% até o final do ano. No primeiro trimestre de 2020, o índice foi de 19%. Já a mesma pesquisa da Cushman & Wakefield mostra que 29,5% dos executivos pretendem reduzir de 10% a 30% o total de metros quadrados da empresa por causa do teletrabalho, e outros 16% dizem que podem cortar até 50%.

Esse é o caso da startup de serviços de moradia por assinatura Housi. Com os seus 110 funcionários trabalhando de casa desde março, a empresa optou por entregar definitivamente o escritório que ficava em um coworking em São Paulo. “Tínhamos uma cultura de trabalhar online, e a adaptação ao home office deu muito certo. Quase todo mundo já tinha notebook e cadeira apropriada, então logo no primeiro mês encerramos o aluguel do espaço”, explica o CEO, Alexandre Frankel.

Mas a estratégia da Housi não é acabar de vez com o ambiente corporativo. Como alternativa, a empresa vai disponibilizar os espaços de coworking, localizados em seus 200 empreendimentos espalhados por São Paulo, para aqueles funcionários que não quiserem ficar em casa. Além disso, o prédio conceito da startup, na região central da cidade, será o ponto focal para reuniões físicas, integração de novos empregados e atendimento presencial de parceiros e clientes.

EFEITO QUARENTENA

O comportamento de manada de companhias decretando home office a torto e a direito traz um alerta. “As empresas descobriram uma mina de ouro, porque os custos para manter o escritório caíram. Mas é preciso acompanhar produtividade, motivação e diminuição de despesas no longo prazo”, diz Marineide de Oliveira Aranha Neto, professora de gestão de pessoas na Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas. “Quando a rotina voltar ao normal, a relação com o ambiente de trabalho precisará ser redesenhada.”

Os primeiros pontos que devem ser considerados ao tomar uma decisão como essa é o estilo de liderança e a cultura da empresa. Isso porque no home office é fácil perder a sinergia com os colegas. “É um equívoco achar que apenas cobrar resultados garante produtividade. É preciso uma série de fatores, como equipe alinhada, líderes empáticos, comunicações claras e o mais horizontais possível e o mais importante: uma motivação”, explica Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora no lnsper.

Outra dica para aqueles que querem decretar o fim do escritório é preparar a casa dos funcionários. “Não sabemos qual é o contexto do profissional, então é responsabilidade da empresa se preocupar com a ergonomia e outros fatores que podem atrapalhar a produtividade, como internet e até possíveis quedas de energia. Se não houver essa corresponsabilidade, as equipes vão se frustrar”, afirma Marineide, do Mackenzie.

DENTRO DA LEI

As empresas também precisam atentar para a legislação. A Lei nº 13.467/2107, elaborada na Reforma Trabalhista de 2017, regulamentou o trabalho remoto e facilitou a transição para as organizações. Porém, a Medida Provisória nº 927, publicada em março, permitiu algumas alterações, como a possibilidade de ignorar acordos coletivos e regras que envolvam banco de horas e férias. “O prazo para avisar que uma pessoa vai trabalhar em home office, por exemplo, mudou de 15 dias para 48 horas”, explica Luiz Eduardo Amaral ele Mendonça, especialista em direito trabalhista e previdenciário e sócio do FAS Advogados. Como a MP expirou e, até o fechamento deste post não havia sido votada pelo Congresso Nacional, as empresas precisam tornar alguns cuidados. “O primeiro passo será negociar a adoção integral do home office com os funcionários”, diz Luiz Eduardo. Esse acordo, inclusive, deve ser registrado e formalizado. Ou seja, é preciso elaborar um aditivo aos contratos de trabalho esclarecendo as regras do novo formato. Entre elas, por exemplo, o fornecimento de equipamentos, o compartilhamento de despesas como internet e energia elétrica ou até mesmo se será estabelecida alguma forma de controle de expediente. Por mais que a CLT desobrigue as empresas de controlar a jornada dos funcionários que estão em home office, o que elimina o pagamento de horas extras, as regras sobre acidentes de trabalho ficaram obscuras. “Não temos precedentes jurídicos, mas a tendência é que a Justiça do Trabalho entenda que ocorrências em casa sejam responsabilidade do empregador”, explica Luiz.

Até se a empresa mudar de ideia e quiser voltar ao modelo tradicional será preciso respeitar algumas regras, como a comunicação ao funcionário com ao menos 15 dias de antecedência. Caso o empregado não more na mesma cidade em que o escritório está localizado, ele pode se negar a cumprir a alteração. “Mesmo com a empresa arcando com os custos da mudança, há o direito de resistência. E, se essa pessoa for demitida e conseguir provar que o motivo foi a recusa, é possível entrar com recurso judicial e ganhar a causa”, diz Luiz. O advogado orienta que as organizações criem um comitê de implementação de teletrabalho para identificar todos esses pontos antes de lançar a política.

Durante a quarentena, com a ansiedade em alta por causa do confinamento e a insegurança em relação ao futuro, teve gente que fez do trabalho uma válvula de escape. O que pode justificar, aliás, o aumento de produtividade sentido por muitos. “Estamos todos vivendo uma situação inusitada. Só o tempo dirá se os efeitos da transposição dos limites entre organização e casa permanecerão numa relação saudável”, alerta Marineide, da Universidade Mackenzie.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.