A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEIXA A VIDA ME LEVAR?

Como os novos tempos estão nos fazendo confundir expectativa com ansiedade patológica. Ambos os sintomas têm como principal comorbidade a depressão

Você já ouviu, leu ou falou para si mesma(o) algo desse tipo? Se já, eu preciso, por meio de comprovação científica, mostrar a você que essa vertente de pensamento (que está em voga com força total) vai contra a natureza humana. Afinal, somos seres desejantes e a ausência do desejo nos adoece.

E o que o desejo tem a ver com “expectativa”? Simples, são sinônimos. E por que “desejar, almejar, ansiar” são caraterísticas que passaram a ser vistas como “politicamente incorretas”?

E por que ambicionar algo ou criar grande expectativa ganharam essa conotação ruim? Será que isso se explica se observarmos as diferenças entre as gerações?

A geração X é provavelmente a que mais engloba o público que está lendo este artigo, que são adultos entre 39 e 58 anos. Somos a geração que teve que “absorver” o advento da internet e que tinha como principais características a ambição, o desejo por sucesso, independência financeira e crescimento pessoal. Somos a geração que misturou trabalho e prazer, que colocou de vez a mulher no mercado de trabalho de forma eficaz e competitiva. Infelizmente, também somos a geração que inaugurou o termo workaholic – viciado em trabalho.

Já a geração Y (entre 22 e 38 anos) se moldou com “outra pegada”, em que a individualidade dá lugar ao coletivo, com ideais pautados em diminuir cargas de estresse e deixar legados que contribuam para um mundo melhor, com o objetivo de não adoecer como sua geração anterior fez.

Pensar em si mesmo é visto como “egoísmo”, sucesso tem que ser coletivo e o bem-estar do todo vem antes do próprio bem-estar.

Para que ganhar tanto dinheiro se não tem tempo para seus filhos?

Como posso consumir algo que prejudica a camada de ozônio?

Por que toda minoria não pode ter a mesma voz da maioria?

Por que não podemos pensar da mesma forma, tendo como objetivo erradicar preconceitos, guerras, desigualdades?

Qualquer indivíduo que promova algo que afete o coletivo é um péssimo exemplar de ser humano e deve pagar por isso.

Por esse recorte podemos levantar a hipótese do porquê qualidades que eram vistas como virtudes caminham hoje para uma espécie de purgatório social.

CONSENSO?

Observando essas duas gerações podemos chegar a algum consenso de evolução entre uma e outra? Se pensarmos teoricamente, sim. As prioridades da geração Y são bem mais empáticas que as da geração X, mas se as ideologias dessa geração são tão fantásticas por que eles são os mais adoecidos desde os Baby Boomers, que eram a geração pós-guerra?

Apesar de toda liberdade de expressão, a ansiedade teve suas vertentes ampliadas na geração Y: vigorexia, ortorexia, lesões por repetição de exercícios, gordofobia, dismorfia corporal, além das boas e velhas ansiedades (agorafobia, pânico, ansiedade social generalizada, entre outras).

Por que as ideias da geração Y eram tão melhores que as nossas e seus resultados estão sendo tão negativos? Por que o objetivo de esvaziar a mente a ponto de não gerar expectativa alguma sobre nada fez desta a geração mais ansiosa de todos os tempos?

Uma outra hipótese não se relaciona com o duelo de gerações. Ela tem início ainda na década de 1940, quando Suzuki Daisetsu publica, em inglês, a primeira obra sobre zen budismo a ser difundida no Ocidente (Zen and Japonese Culture, 1938). Muitos foram os adeptos americanos a se mudarem para China, Tibete e Japão, em busca da “boa nova”, que prometia o sonho de se viver em paz, exterminando assim o estresse.

D. T. Suzuki (como era comumente chamado) foi um famoso autor japonês e o principal tradutor das obras orientais do zen budismo para o inglês. O mestre zen tinha como objetivo partilhar com os ocidentais a arte de não duelar, já que era sabido que nossa cultura era pautada na dicotomia e oposição (bem contra o mal, Deus cristão e Demônio, monoteísmo, certo e errado). Ele almejava propagar o zen budismo, descrevendo a paz que os indivíduos poderiam encontrar se não tivessem oposições em suas vidas, se não tivessem mais necessidade de se provarem “certos” ou “donos da verdade” e se conseguissem que o foco de sua existência fosse promover o bem-estar pessoal e comunitário, por meio de autoconhecimento, meditação e ampliação de consciência e atenção plena. Anos depois, o próprio Suzuki admitiu que o Ocidente absorveu o zen budismo não como sua visão de mundo, como os chineses, e sim como uma “filosofia alternativa de vida”.

Então, se misturarmos alguns itens da filosofia zen budista com nossa cultura opositiva, nos deparamos com um movimento no qual quem é zen está certo e quem não é zen ainda não evoluiu. Com isso, temos uma corrida em busca da paz, do relaxamento, da saúde e de tudo que nos deixe no controle de nossas emoções, pensamentos e comportamentos.

E será que viver bem está realmente relacionado a não gerar expectativas que possam nos frustrar, abalando, assim, nosso equilíbrio?

A Monja Coen (zen budista, brasileira, ordenada monja em 1983) afirma que todos sentimos ansiedade, que todos temos expectativas, e essas emoções geram reações corporais, ânsia e desejo. Será que não podemos sentir nenhuma dessas emoções? Será que toda alteração emocional é patológica? Será que “só” nos estressamos quando algo ruim ocorre?

A resposta é não! Nem toda desregulação emocional é ruim, mas todas as desregulações emocionais nos tiram do “eixo” e é por isso que, no início desse texto, citei que “zerar expectativas” não é algo saudável.

EQUILÍBRIO

Todos os animais, entre eles o Homo sapiens, possuem um sistema que trabalha o tempo todo para “conservar” o equilíbrio do seu organismo. O nome desse equilíbrio é “homeostase”. Esse sistema é poderoso e muitas vezes não recebe “ordens” conscientes e claras, afinal ele tem que agir antes que algo possa ameaçar a sobrevivência desse indivíduo.

Vamos citar um exemplo: você está mexendo em roupas guardadas há muito tempo e, de repente, leva uma picada na ponta do dedo. Automaticamente seu braço é puxado para trás, seu coração acelera e sua respiração se intensifica, fazendo com que fique ofegante. O que fez você puxar o braço antes mesmo de saber o que lhe machucou foi esse sistema de defesa. Nesse caso, foi acionada uma resposta que partiu da medula espinhal, antes mesmo da informação ser processada no seu lobo pré-frontal (responsável por nossas funções executivas).

A boa notícia é que esse sistema atua na promoção de nosso equilíbrio sem que tenhamos que pensar a respeito disso. A má notícia é também que esse sistema age na promoção de nosso equilíbrio sem que tenhamos que pensar a respeito disso. Sim, tudo na vida tem o lado bom e o ruim, e às vezes eles são iguais.

Como a resposta a “qualquer” desequilíbrio é automática e muitas vezes inconsciente (não foi uma escolha), todas as ocorrências que abalam esse equilíbrio são consideradas “vilãs” em um primeiro momento e são combatidas como tal, gerando estresse e reações físico-químicas.

OUTRO EXEMPLO

Se você abrir a porta de casa, receber uma caixa grande e ao abri-la se deparar com um cachorro fofo que tanto sonhou, as mesmas reações irão ocorrer, entre elas taquicardia, respiração alterada, e pode acontecer de você deixar a caixa com o filhote cair no chão, por quê?

Porque na promoção da regulação global do seu corpo, você reage automaticamente a qualquer estímulo novo. O mesmo pode ocorrer com novos pensamentos e por aí vai. A regra é, sendo novo, “poft”, essa reação gera estresse e depois, quando finalmente a informação for processada, poderá se eleger se foi um estresse positivo ou negativo.

Se for uma situação que desencadeie um estresse positivo (ganhar um prêmio em dinheiro, por exemplo), neurotransmissores trabalharão para que o corpo entenda que apesar da homeostase ter sido quebrada o organismo não está em perigo.

“Doutora, estou salva! Só tenho estresse positivo! Uhuuuuu.” Infelizmente, não é assim. Vejamos o caso do torcedor Aldo Darot. Ele faleceu de ataque cardíaco logo após seu time, o Internacional, fazer o gol da vitória contra o Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro de 2018. Darot estava no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, casa do seu time. Alguém duvida que o estresse que Aldo estava sentindo era o positivo (eustresse)? Talvez seja por esse motivo que muitos colocam a ansiedade em um mesmo pacote, já que emoções fortes, sejam elas boas ou ruins, podem se tornar patológicas quando sua incidência é alta e se prolonga por grandes períodos. O relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em 2017, que o Brasil é o país mais ansioso e deprimido do mundo. Os dados são alarmantes. O suicídio é hoje a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos de idade. Esse número nunca foi tão assustador.

Infelizmente a ansiedade, quando não tratada, tem como principal comorbidade a depressão. Por isso, temos que nos atentar aos sintomas do distresse.

O principal sintoma da depressão é a anedonia, ou seja, ausência de prazer e desejo. O indivíduo deixa de sonhar, de querer, de esperar. Não há projeção de futuro, não há expectativas, o que faz com que não haja esperança.

Vejo como algo preocupante esse discurso de “erradicação das expectativas”, no qual a paz suprema é procurada “loucamente”.

Deparo-me com pessoas que almejam a plenitude, quando na verdade somos seres em eterna evolução.

Quanto tempo vamos levar para nos percebermos humanos?

A expectativa exacerbada pode, sim, se tornar uma ansiedade patológica, assim como vimos ao longo deste artigo. Mas, sem desejo, o que somos? Sem esperar por nada, quem é você?

Encerro este texto com uma frase redigida há mais de 100 anos por um cidadão que era movido pelo desejo:

“O sonho é a satisfação de que o desejo se realize”, Sigmund Freud.

SIGNIFICADO DO SÍMBOLO YIN YANG

Uma das demonstrações de como somos afetados pela dualidade é o significado de Yin e Yang. Ocidentais descrevem esse símbolo como se representasse certo e errado, luz do bem e escuridão do mal, o que difere totalmente do real significado desse símbolo milenar. O conceito tradicional sustenta que Yin e Yang representam a relação oposta mais básica de tudo. É a lei objetiva da natureza, a origem da mudança do movimento de todas as coisas e a lei básica da compreensão humana das coisas. O conceito de Yin e Yang originou-se da visão natural do antigo povo chinês. Os antigos observavam vários fenômenos naturais opostos e conectados na natureza, como céu e terra, sol e lua, dia e noite, frio e calor, homens e mulheres, para cima e para baixo etc., e foram resumidos de uma maneira filosófica. O conceito de Yin Yang fala sobre os opostos complementares, a comunhão dos opostos e não o duelo ou a hegemonia.

AS NOVAS GERAÇÕES

ESTRESSE POSITIVO E NEGATIVO

A nomenclatura científica dada ao estresse positivo é eustresse. Já o estresse negativo é chamado de distresse.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.