EU ACHO …

A PERFEIÇÃO

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FEITOS EM CASA

Com medo de contágio pelo coronavírus em maternidades, um número maior de gestantes opta por partos domiciliares

Na manhã do dia 7 de abril, Mateus veio ao mundo. Chegou sob os olhares dosavós, do pai e até da irmãzinha, Malu, de 1 ano e meio. No lugar das luzes edo ar-condicionado do hospital, o quarto da mãe. A paulistana Camila Siqueira considerou o parto domiciliar uma opção mais segura em meio à pandemia do novo coronavírus. “Pesquisei os protocolos da maternidade. Mesmo com as medidas, não me sentia segura. Conversei muito com a equipe de parteiras, meu marido e família e decidimos embarcar no parto domiciliar”, contou Siqueira, que teve a primeira filha num hospital. “Tive medo, mas menos que no primeiro parto. Nunca achei que podia dar algo errado, estava muito tranquila de não ter de ir ao hospital e ter contato com outras pessoas. Aqui eu sabia que estava segura.”

Assim como Siqueira, um número maior de gestantes tem optado pelo parto domiciliar. Parteiras e doulas do Rio de Janeiro apontam um aumento de até 200% na procura. A enfermeira obstétrica Karina Trevisan, do Commadre, grupo paulista de apoio à gestação, parto e pós-parto, atua desde 2007 em partos hospitalares ou domiciliares e viu uma elevação na procura por partos em casa durante a pandemia. Antes, Trevisan fazia, em média, quatro atendimentos do tipo por mês, eagora são oito. “Percebi gente me procurando para parto domiciliar incentivada pela mãe ou sogra diante da situação que vivemos. Várias chegam sem uma visão real do que é o parto domiciliar, que não tem anestesia, por exemplo”, disse a enfermeira.

Muitas famílias estão adotando uma estratégia que pode ser descrita como um meio-termo. As mulheres fazem o acompanhamento da maior parte do trabalho de parto em casa e no momento da fase ativa e expulsiva vão para o hospital. Foi essa a opção da engenheira Gabriela Freitas, de 31 anos, que não se sentiu segura para ter seu primeiro filho sem ter todos os recursos médicos à disposição. “Achamos mais seguro contar com atendimento médico, mas reduzimos o tempo no hospital”, disse Freitas. Partos domiciliares não são indicados em qualquer circunstância. Dependem de uma gestação com baixo grau de risco e da existência de boa estrutura médica próxima ao local. Em resumo, precisam ser bem avaliados para minimizar eventuais problemas. “Complicações podem ocorrer no procedimento, como retenção placentária e uma ruptura uterina, além de condições específicas do recém-nascido que podem requerer condutas hospitalares”, disse a pediatra e nutróloga Aline Magnino, diretora médica do grupo Prontobaby.

A doula Maria de Lourdes “Fadynha” da Silva Teixeira, que dá apoio psicoemocional na hora do parto desde 1978 no Rio de Janeiro, também percebeu um aumento na demanda e tem preparado suas clientes para participar dos partos por meio de videochamadas. “O parto feito em casa não pode ser uma decisão de última hora”, contou. A enfermeira obstétrica Flávia Dantas, que integra a equipe Parto por Amor e realiza dois partos em casa por mês, faz questão de reforçar esse ponto.

“O parto domiciliar exige uma forte ligação entre enfermeira e gestante. Se a futura mamãe nos procura um a semana antes, qual será o vínculo que ela constrói com a equipe que vai entrar na casa dela nesse momento íntimo? Por isso não estamos aceitando essas demandas”, disse.

Ariana Santos, da equipe Sankofa Atendimento Gestacional, afirmou que não aceita mulheres com mais de 32 semanas de gestação. “Com menos de um mês para o parto não há tempo hábil para que a mulher conheça as evidências sobre o tema. No início, é feita uma consulta para avaliar os exames pré-natais e se é uma gestação de risco, o que impede o parto domiciliar. Além disso, traçamos o planejamento para uma eventual transferência a um hospital. Às vezes, após a primeira consulta, algumas mulheres optam pelo parto hospitalar”, disse.

Cientes dos temores das gestantes com a pandemia, as maternidades tentam se proteger contra a Covid-19. Na rede pública do Rio, caso a paciente tenha sintomas da doença, ela é isolada e tratada até o parto. Ao ser internada para ter o filho, é avaliada separadamente e orientada, após a alta, sobre o isolamento domiciliar.

As maternidades particulares têm reforçado protocolos para aumentar a segurança. A Perinatal. que tem duas unidades no Rio, estabeleceu novas medidas, como permissão para apenas um acompanhante, suspensão de visitas à maternidade, aferição da temperatura de pacientes e acompanhantes na entrada, fluxo diferenciado para pacientes com Covid-19 e máscaras face sbield nos recém-nascidos.

A obstetra Karina Tafner, da Santa Casa de São Paulo, disse que ainda não há informações sobre uma gestante com Covid-19 transmitir o vírus ao feto ou ao bebê durante a gravidez ou o parto. De toda forma, o Ministério da Saúde passou a incluir, no início de abril, as gestantes e as mães de recém-nascidos na lista do grupo de risco para o novo coronavírus.

“Até agora, o vírus não foi encontrado em amostras de líquido amniótico ou de leite materno. Relatórios atuais mostram que mulheres grávidas, de baixo risco, não têm sintomas mais graves do que o público em geral. Mas alterações no corpo e sistema imunológico podem ocasionar infecções respiratórias”, explicou Tafner.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE MARÇO

ANSIEDADE, O ABATIMENTO DO CORAÇÃO

A ansiedade no coração do homem o abate, mas a boa palavra o alegra (Provérbios 12.25)

A ansiedade é o mal do século, a doença mais democrática da nossa geração. Atinge crianças e velhos, doutores e analfabetos, religiosos e ateus. No grego, a palavra ansiedade significa “estrangulamento”. A ansiedade sufoca e tira o oxigênio. Ela não nos ajuda a resolver os problemas hoje, apenas nos enfraquece para enfrentá-los amanhã. Ansiedade é ocupar-se de um problema que ainda não existe, e 70% dos assuntos que nos deixam ansiosos nunca acontecerão. A ansiedade é inútil, já que, por mais ansiosos que estejamos, não poderemos acrescentar um único dia à nossa vida. A ansiedade é prejudicial porque drena as nossas energias, rouba nossas forças e superdimensiona nossas crises. É sinal evidente de incredulidade, porque só aqueles que não confiam na providência de Deus vivem ansiosos quanto a seu futuro. A ansiedade abate o espírito do homem, mas a boa palavra o alegra. Devemos alimentar nossa alma com as palavras que emanam da boca de Deus, em vez de abastecer nosso coração com o alarido da ansiedade. Devemos olhar não para o fragor da tempestade, mas para aquele que está no controle da tempestade para nos trazer bonança.

GESTÃO E CARREIRA

ADEUS AO ESCRITÓRIO?

Sete em cada dez empresas pretendem instituir o home office definitivamente. Embora a diminuição de custos seja sedutora, a decisão deve levar em conta muitos fatores para dar certo.

Quando o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte no Brasil causada pela covid-19, em 16 de março de 2020, a empresa de big data Neoway estava com 100% da equipe de 450 funcionários trabalhando em casa havia três dias.

Embora permitisse o home office, a companhia não possuía uma política estruturada. Tanto é que teve de realizar uma força-tarefa para garantir acesso aos sistemas de forma remota para todos. Feito isso, com os empregados seguros, a expectativa era aguardar alguns dias para voltar à rotina.

O que não se esperava era que após cinco meses do início das medidas de isolamento social, a contaminação pelo coronavírus fosse seguir forte no Brasil, sem sinal de melhora. Diante do cenário, o CEO da Neoway, Carlos Eduardo Monguilhott, tomou uma decisão: manter todo mundo em teletrabalho até o final do ano e reestruturar os escritórios, localizados em Florianópolis, São Paulo e Brasília. “Vamos aumentar os espaços de convivência e reduzir a quantidade de mesas”, diz. O plano é ter uma operação híbrida, que mescle pessoas trabalhando em casa e presencialmente.

A ideia veio após uma pesquisa interna revelar que 86% dos empregados estavam adaptados e não se importavam em prolongar o home office por mais tempo. Para que a aprovação continuasse em alta, os líderes foram orientados a aumentar a comunicação, a transparência e a proximidade com as equipes, e o CEO passou a realizar reuniões semanais com todos. “Sabemos que a interação física é insubstituível, então estamos ouvindo constantemente os empregados e criando ações para não perder a conexão”, afirma Michele Martins, vice-presidente de recursos humanos da Neoway que assumiu o cargo durante a pandemia. “Minha própria experiência serviu de laboratório”, diz. Para complementar, a companhia reviu benefícios, permitindo a substituição do vale-refeição pelo vale-alimentação, custeou as contas de internet e auxiliou na compra de móveis de escritório para usar emcasa. “Acredito que não vamos, necessariamente, ter uma economia financeira porque aumentamos alguns benefícios. M s será possível contratar além das regiões onde estão as sedes. Temos funcionários, inclusive, que já se mudaram para cidades do interior”, afirma o CEO Carlos Eduardo.

PRÁTICA PERMANENTE

Assim como a Neoway, muitas companhias estão adotando o teletrabalho definitivamente após o surto de covid-19. Um levantamento da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield, que ouviu 122 executivos de multinacionais brasileiras, revelou que 74% das empresas pretendem instituir o home office, mesmo com o fim da pandemia. O estudo ainda apontou que para 59% deles a experiência de manter a operação da casa dos funcionários teve mais pontos positivos do que negativos.

Com cada vez mais empresas tomando esse caminho, talvez a era das companhias com sedes grandiosas ocupando diversos andares tenha ficado para trás. Estimativas da consultoria imobiliária JLL, por exemplo, apontam que a taxa de vacância de imóveis comerciais de alto padrão em São Paulo pode chegar a 23% até o final do ano. No primeiro trimestre de 2020, o índice foi de 19%. Já a mesma pesquisa da Cushman & Wakefield mostra que 29,5% dos executivos pretendem reduzir de 10% a 30% o total de metros quadrados da empresa por causa do teletrabalho, e outros 16% dizem que podem cortar até 50%.

Esse é o caso da startup de serviços de moradia por assinatura Housi. Com os seus 110 funcionários trabalhando de casa desde março, a empresa optou por entregar definitivamente o escritório que ficava em um coworking em São Paulo. “Tínhamos uma cultura de trabalhar online, e a adaptação ao home office deu muito certo. Quase todo mundo já tinha notebook e cadeira apropriada, então logo no primeiro mês encerramos o aluguel do espaço”, explica o CEO, Alexandre Frankel.

Mas a estratégia da Housi não é acabar de vez com o ambiente corporativo. Como alternativa, a empresa vai disponibilizar os espaços de coworking, localizados em seus 200 empreendimentos espalhados por São Paulo, para aqueles funcionários que não quiserem ficar em casa. Além disso, o prédio conceito da startup, na região central da cidade, será o ponto focal para reuniões físicas, integração de novos empregados e atendimento presencial de parceiros e clientes.

EFEITO QUARENTENA

O comportamento de manada de companhias decretando home office a torto e a direito traz um alerta. “As empresas descobriram uma mina de ouro, porque os custos para manter o escritório caíram. Mas é preciso acompanhar produtividade, motivação e diminuição de despesas no longo prazo”, diz Marineide de Oliveira Aranha Neto, professora de gestão de pessoas na Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas. “Quando a rotina voltar ao normal, a relação com o ambiente de trabalho precisará ser redesenhada.”

Os primeiros pontos que devem ser considerados ao tomar uma decisão como essa é o estilo de liderança e a cultura da empresa. Isso porque no home office é fácil perder a sinergia com os colegas. “É um equívoco achar que apenas cobrar resultados garante produtividade. É preciso uma série de fatores, como equipe alinhada, líderes empáticos, comunicações claras e o mais horizontais possível e o mais importante: uma motivação”, explica Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora no lnsper.

Outra dica para aqueles que querem decretar o fim do escritório é preparar a casa dos funcionários. “Não sabemos qual é o contexto do profissional, então é responsabilidade da empresa se preocupar com a ergonomia e outros fatores que podem atrapalhar a produtividade, como internet e até possíveis quedas de energia. Se não houver essa corresponsabilidade, as equipes vão se frustrar”, afirma Marineide, do Mackenzie.

DENTRO DA LEI

As empresas também precisam atentar para a legislação. A Lei nº 13.467/2107, elaborada na Reforma Trabalhista de 2017, regulamentou o trabalho remoto e facilitou a transição para as organizações. Porém, a Medida Provisória nº 927, publicada em março, permitiu algumas alterações, como a possibilidade de ignorar acordos coletivos e regras que envolvam banco de horas e férias. “O prazo para avisar que uma pessoa vai trabalhar em home office, por exemplo, mudou de 15 dias para 48 horas”, explica Luiz Eduardo Amaral ele Mendonça, especialista em direito trabalhista e previdenciário e sócio do FAS Advogados. Como a MP expirou e, até o fechamento deste post não havia sido votada pelo Congresso Nacional, as empresas precisam tornar alguns cuidados. “O primeiro passo será negociar a adoção integral do home office com os funcionários”, diz Luiz Eduardo. Esse acordo, inclusive, deve ser registrado e formalizado. Ou seja, é preciso elaborar um aditivo aos contratos de trabalho esclarecendo as regras do novo formato. Entre elas, por exemplo, o fornecimento de equipamentos, o compartilhamento de despesas como internet e energia elétrica ou até mesmo se será estabelecida alguma forma de controle de expediente. Por mais que a CLT desobrigue as empresas de controlar a jornada dos funcionários que estão em home office, o que elimina o pagamento de horas extras, as regras sobre acidentes de trabalho ficaram obscuras. “Não temos precedentes jurídicos, mas a tendência é que a Justiça do Trabalho entenda que ocorrências em casa sejam responsabilidade do empregador”, explica Luiz.

Até se a empresa mudar de ideia e quiser voltar ao modelo tradicional será preciso respeitar algumas regras, como a comunicação ao funcionário com ao menos 15 dias de antecedência. Caso o empregado não more na mesma cidade em que o escritório está localizado, ele pode se negar a cumprir a alteração. “Mesmo com a empresa arcando com os custos da mudança, há o direito de resistência. E, se essa pessoa for demitida e conseguir provar que o motivo foi a recusa, é possível entrar com recurso judicial e ganhar a causa”, diz Luiz. O advogado orienta que as organizações criem um comitê de implementação de teletrabalho para identificar todos esses pontos antes de lançar a política.

Durante a quarentena, com a ansiedade em alta por causa do confinamento e a insegurança em relação ao futuro, teve gente que fez do trabalho uma válvula de escape. O que pode justificar, aliás, o aumento de produtividade sentido por muitos. “Estamos todos vivendo uma situação inusitada. Só o tempo dirá se os efeitos da transposição dos limites entre organização e casa permanecerão numa relação saudável”, alerta Marineide, da Universidade Mackenzie.

NOVA REALIDADE

Três tendências para os espaços corporativos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEIXA A VIDA ME LEVAR?

Como os novos tempos estão nos fazendo confundir expectativa com ansiedade patológica. Ambos os sintomas têm como principal comorbidade a depressão

Você já ouviu, leu ou falou para si mesma(o) algo desse tipo? Se já, eu preciso, por meio de comprovação científica, mostrar a você que essa vertente de pensamento (que está em voga com força total) vai contra a natureza humana. Afinal, somos seres desejantes e a ausência do desejo nos adoece.

E o que o desejo tem a ver com “expectativa”? Simples, são sinônimos. E por que “desejar, almejar, ansiar” são caraterísticas que passaram a ser vistas como “politicamente incorretas”?

E por que ambicionar algo ou criar grande expectativa ganharam essa conotação ruim? Será que isso se explica se observarmos as diferenças entre as gerações?

A geração X é provavelmente a que mais engloba o público que está lendo este artigo, que são adultos entre 39 e 58 anos. Somos a geração que teve que “absorver” o advento da internet e que tinha como principais características a ambição, o desejo por sucesso, independência financeira e crescimento pessoal. Somos a geração que misturou trabalho e prazer, que colocou de vez a mulher no mercado de trabalho de forma eficaz e competitiva. Infelizmente, também somos a geração que inaugurou o termo workaholic – viciado em trabalho.

Já a geração Y (entre 22 e 38 anos) se moldou com “outra pegada”, em que a individualidade dá lugar ao coletivo, com ideais pautados em diminuir cargas de estresse e deixar legados que contribuam para um mundo melhor, com o objetivo de não adoecer como sua geração anterior fez.

Pensar em si mesmo é visto como “egoísmo”, sucesso tem que ser coletivo e o bem-estar do todo vem antes do próprio bem-estar.

Para que ganhar tanto dinheiro se não tem tempo para seus filhos?

Como posso consumir algo que prejudica a camada de ozônio?

Por que toda minoria não pode ter a mesma voz da maioria?

Por que não podemos pensar da mesma forma, tendo como objetivo erradicar preconceitos, guerras, desigualdades?

Qualquer indivíduo que promova algo que afete o coletivo é um péssimo exemplar de ser humano e deve pagar por isso.

Por esse recorte podemos levantar a hipótese do porquê qualidades que eram vistas como virtudes caminham hoje para uma espécie de purgatório social.

CONSENSO?

Observando essas duas gerações podemos chegar a algum consenso de evolução entre uma e outra? Se pensarmos teoricamente, sim. As prioridades da geração Y são bem mais empáticas que as da geração X, mas se as ideologias dessa geração são tão fantásticas por que eles são os mais adoecidos desde os Baby Boomers, que eram a geração pós-guerra?

Apesar de toda liberdade de expressão, a ansiedade teve suas vertentes ampliadas na geração Y: vigorexia, ortorexia, lesões por repetição de exercícios, gordofobia, dismorfia corporal, além das boas e velhas ansiedades (agorafobia, pânico, ansiedade social generalizada, entre outras).

Por que as ideias da geração Y eram tão melhores que as nossas e seus resultados estão sendo tão negativos? Por que o objetivo de esvaziar a mente a ponto de não gerar expectativa alguma sobre nada fez desta a geração mais ansiosa de todos os tempos?

Uma outra hipótese não se relaciona com o duelo de gerações. Ela tem início ainda na década de 1940, quando Suzuki Daisetsu publica, em inglês, a primeira obra sobre zen budismo a ser difundida no Ocidente (Zen and Japonese Culture, 1938). Muitos foram os adeptos americanos a se mudarem para China, Tibete e Japão, em busca da “boa nova”, que prometia o sonho de se viver em paz, exterminando assim o estresse.

D. T. Suzuki (como era comumente chamado) foi um famoso autor japonês e o principal tradutor das obras orientais do zen budismo para o inglês. O mestre zen tinha como objetivo partilhar com os ocidentais a arte de não duelar, já que era sabido que nossa cultura era pautada na dicotomia e oposição (bem contra o mal, Deus cristão e Demônio, monoteísmo, certo e errado). Ele almejava propagar o zen budismo, descrevendo a paz que os indivíduos poderiam encontrar se não tivessem oposições em suas vidas, se não tivessem mais necessidade de se provarem “certos” ou “donos da verdade” e se conseguissem que o foco de sua existência fosse promover o bem-estar pessoal e comunitário, por meio de autoconhecimento, meditação e ampliação de consciência e atenção plena. Anos depois, o próprio Suzuki admitiu que o Ocidente absorveu o zen budismo não como sua visão de mundo, como os chineses, e sim como uma “filosofia alternativa de vida”.

Então, se misturarmos alguns itens da filosofia zen budista com nossa cultura opositiva, nos deparamos com um movimento no qual quem é zen está certo e quem não é zen ainda não evoluiu. Com isso, temos uma corrida em busca da paz, do relaxamento, da saúde e de tudo que nos deixe no controle de nossas emoções, pensamentos e comportamentos.

E será que viver bem está realmente relacionado a não gerar expectativas que possam nos frustrar, abalando, assim, nosso equilíbrio?

A Monja Coen (zen budista, brasileira, ordenada monja em 1983) afirma que todos sentimos ansiedade, que todos temos expectativas, e essas emoções geram reações corporais, ânsia e desejo. Será que não podemos sentir nenhuma dessas emoções? Será que toda alteração emocional é patológica? Será que “só” nos estressamos quando algo ruim ocorre?

A resposta é não! Nem toda desregulação emocional é ruim, mas todas as desregulações emocionais nos tiram do “eixo” e é por isso que, no início desse texto, citei que “zerar expectativas” não é algo saudável.

EQUILÍBRIO

Todos os animais, entre eles o Homo sapiens, possuem um sistema que trabalha o tempo todo para “conservar” o equilíbrio do seu organismo. O nome desse equilíbrio é “homeostase”. Esse sistema é poderoso e muitas vezes não recebe “ordens” conscientes e claras, afinal ele tem que agir antes que algo possa ameaçar a sobrevivência desse indivíduo.

Vamos citar um exemplo: você está mexendo em roupas guardadas há muito tempo e, de repente, leva uma picada na ponta do dedo. Automaticamente seu braço é puxado para trás, seu coração acelera e sua respiração se intensifica, fazendo com que fique ofegante. O que fez você puxar o braço antes mesmo de saber o que lhe machucou foi esse sistema de defesa. Nesse caso, foi acionada uma resposta que partiu da medula espinhal, antes mesmo da informação ser processada no seu lobo pré-frontal (responsável por nossas funções executivas).

A boa notícia é que esse sistema atua na promoção de nosso equilíbrio sem que tenhamos que pensar a respeito disso. A má notícia é também que esse sistema age na promoção de nosso equilíbrio sem que tenhamos que pensar a respeito disso. Sim, tudo na vida tem o lado bom e o ruim, e às vezes eles são iguais.

Como a resposta a “qualquer” desequilíbrio é automática e muitas vezes inconsciente (não foi uma escolha), todas as ocorrências que abalam esse equilíbrio são consideradas “vilãs” em um primeiro momento e são combatidas como tal, gerando estresse e reações físico-químicas.

OUTRO EXEMPLO

Se você abrir a porta de casa, receber uma caixa grande e ao abri-la se deparar com um cachorro fofo que tanto sonhou, as mesmas reações irão ocorrer, entre elas taquicardia, respiração alterada, e pode acontecer de você deixar a caixa com o filhote cair no chão, por quê?

Porque na promoção da regulação global do seu corpo, você reage automaticamente a qualquer estímulo novo. O mesmo pode ocorrer com novos pensamentos e por aí vai. A regra é, sendo novo, “poft”, essa reação gera estresse e depois, quando finalmente a informação for processada, poderá se eleger se foi um estresse positivo ou negativo.

Se for uma situação que desencadeie um estresse positivo (ganhar um prêmio em dinheiro, por exemplo), neurotransmissores trabalharão para que o corpo entenda que apesar da homeostase ter sido quebrada o organismo não está em perigo.

“Doutora, estou salva! Só tenho estresse positivo! Uhuuuuu.” Infelizmente, não é assim. Vejamos o caso do torcedor Aldo Darot. Ele faleceu de ataque cardíaco logo após seu time, o Internacional, fazer o gol da vitória contra o Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro de 2018. Darot estava no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, casa do seu time. Alguém duvida que o estresse que Aldo estava sentindo era o positivo (eustresse)? Talvez seja por esse motivo que muitos colocam a ansiedade em um mesmo pacote, já que emoções fortes, sejam elas boas ou ruins, podem se tornar patológicas quando sua incidência é alta e se prolonga por grandes períodos. O relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em 2017, que o Brasil é o país mais ansioso e deprimido do mundo. Os dados são alarmantes. O suicídio é hoje a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos de idade. Esse número nunca foi tão assustador.

Infelizmente a ansiedade, quando não tratada, tem como principal comorbidade a depressão. Por isso, temos que nos atentar aos sintomas do distresse.

O principal sintoma da depressão é a anedonia, ou seja, ausência de prazer e desejo. O indivíduo deixa de sonhar, de querer, de esperar. Não há projeção de futuro, não há expectativas, o que faz com que não haja esperança.

Vejo como algo preocupante esse discurso de “erradicação das expectativas”, no qual a paz suprema é procurada “loucamente”.

Deparo-me com pessoas que almejam a plenitude, quando na verdade somos seres em eterna evolução.

Quanto tempo vamos levar para nos percebermos humanos?

A expectativa exacerbada pode, sim, se tornar uma ansiedade patológica, assim como vimos ao longo deste artigo. Mas, sem desejo, o que somos? Sem esperar por nada, quem é você?

Encerro este texto com uma frase redigida há mais de 100 anos por um cidadão que era movido pelo desejo:

“O sonho é a satisfação de que o desejo se realize”, Sigmund Freud.

SIGNIFICADO DO SÍMBOLO YIN YANG

Uma das demonstrações de como somos afetados pela dualidade é o significado de Yin e Yang. Ocidentais descrevem esse símbolo como se representasse certo e errado, luz do bem e escuridão do mal, o que difere totalmente do real significado desse símbolo milenar. O conceito tradicional sustenta que Yin e Yang representam a relação oposta mais básica de tudo. É a lei objetiva da natureza, a origem da mudança do movimento de todas as coisas e a lei básica da compreensão humana das coisas. O conceito de Yin e Yang originou-se da visão natural do antigo povo chinês. Os antigos observavam vários fenômenos naturais opostos e conectados na natureza, como céu e terra, sol e lua, dia e noite, frio e calor, homens e mulheres, para cima e para baixo etc., e foram resumidos de uma maneira filosófica. O conceito de Yin Yang fala sobre os opostos complementares, a comunhão dos opostos e não o duelo ou a hegemonia.

AS NOVAS GERAÇÕES

ESTRESSE POSITIVO E NEGATIVO

A nomenclatura científica dada ao estresse positivo é eustresse. Já o estresse negativo é chamado de distresse.