GESTÃO E CARREIRA

É A ERA DAS LIVES?

O setor de eventos está sofrendo fortemente com a crise. E o ramo corporativo, que movimenta quase 210 milhões de reais anuais, tem que se reinventar

Os visitantes do Evento Business Show (conhecido como EBS), uma das principais feiras da indústria de eventos corporativos que acontecerá em setembro, encontrarão um cenário bem diferente das 18 edições anteriores. A multidão de 2.397 pessoas que, em 2019, visitaram mais de 90 expositores dará lugar a apenas 150 convidados, respeitando o limite de 40% da capacidade do Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo – e sem contar com nenhum estande para visitação.

Fora isso, as rodadas de negócios, que chegaram a somar 13.000 reuniões, e as palestras e bate-papos contarão com assentos demarcados e uso obrigatório de máscara pelos participantes, que deverão respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre em si. Em paralelo, os debates serão transmitidos ao vivo para aqueles que preferirem acompanhar a distância. Nem a tradicional distribuição de brindes e de panfletos nem os comes e bebes compartilhados terão vez este ano. “O EBS vai ser diferente, totalmente adaptado e com conteúdo mais enxuto. Optamos por fazer dessa forma em vez de não fazer”, diz Marcello Baranowsky, diretor do Evento Fácil, grupo que realiza o EBS.

Com a pandemia da covid-19 e as medidas de isolamento social, foram cancelados do dia para a noite de festivais de músicas a congressos e festas, fazendo com que o setor quase entrasse em colapso. Segundo uma pesquisa realizada pelo Sebrae, em parceria com a União Brasileira dos Promotores de Feiras (Ubrafe) e a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), que entrevistou 2.700 companhias do ramo, 98% foram impactadas negativamente pela pandemia e 37% não faturaram nada em março. Entre elas estão as companhias que atuam na área corporativa, que em 2019, por exemplo, faturaram cerca de 209,2 milhões de reais. Para sobreviver, uma vez que as feiras e convenções presenciais devem demorar a acontecer como antigamente, muitas tiveram que se reinventar e adotar protocolos semelhantes aos da EBS.

MODELO HÍBRIDO

A HSM, plataforma de educação corporativa que já realizou, desde 2018, mais de 800 treinamentos in company e, por ano, produz cerca de 400 eventos, também foi impactada pela crise. O Agro Surnmit HSM, congresso sobre novidades no agronegócio, que aconteceria em agosto e tinha a expectativa de receber entre 600 e 800 pessoas foi adiado para o ano que vem, ainda sem uma data definida. Já o HSM Expo, maior evento da companhia, realizado há 19 anos e que reúne anualmente mais de 6.000 pessoas, foi marcado para os dias 9, 10 e 11 de novembro, em São Paulo. “Estamos estudando as melhores alternativas, mas definitivamente será uma edição menor e diferente por causa de todo o contexto sanitário que vivemos”, afirma Reynaldo Gama, CEO da empresa.

Embora descarte tornar o evento totalmente virtual, a HSM pretende aumentar as atividades online. “É normal ficar quatro, seis ou oito horas num evento grande, pois há muitas atividades e encontros, mas passar esse tempo na frente de um computador é inviável”, diz Reynaldo.

TENDÊNCIA

Mesclar o presencial com o virtual já era uma tendência antes mesmo da pandemia da covid-19 e agora isso veio para ficar. “Existem duas vantagens: custos menores, já que se economiza com passagens e estadias de palestrantes, e a possibilidade de gravar os conteúdos, permitindo que os espectadores assistam quando e onde desejarem”, afirma Luciane dos Santos Oliveira, professora na Escola de Negócios na Universidade Anhembi Morumbi, que completa: “A quarentena deu um impulso a esse hibridismo”.

CALOR HUMANO

A multinacional francesa Edenred, das marcas Ticket Log e Repom, já contava com eventos que uniam o digital e o offline há pelo menos dois anos. Mas, com 97% do time de 1.500 funcionários trabalhando em home office, foi preciso repensar os treinamentos e as comemorações. Além de continuar com as reuniões semanais entre os times e os lideres, lives para descontrair e informar foram incluídas na programação – entre elas houve shows, apresentação de stand-up comedy e bate-papos sobre como otimizar o trabalho a distância. Uma ação que cresceu no meio virtual foi o Supertalk, palestra organizada mensalmente pela Edenred com um especialista escolhido por votação dos funcionários. Quando o evento era presencial, o público chegava a 80 pessoas. Na versão digital, são mais de 300 participantes.

“As iniciativas foram pensadas para evitar a falta de unidade e conexão que o trabalho remoto poderia gerar”, afirma Lívia Alves, gerente de recursos humanos da divisão de fleet & mobility, que cuida do braço logístico do grupo. E os projetos parecem ter agradado ao time. Segundo uma pesquisa realizada pela companhia, 86% dos empregados aprovaram a grade de videoconferências.

“Mas nem tudo são flores. Em maio, a empresa tinha programado um evento mundial e simultâneo nos 46 países onde atua para lançar sua nova plataforma de RH global. No Brasil, o plano era realizar uma grande festa no escritório de São Paulo, com palestras, workshops, realidade aumentada, atividades em grupo e comida à vontade. A pandemia obrigou que tudo fosse cancelado. “Tivemos que recorrer a um lançamento virtual, com a palestra de um especialista em recursos humanos e uma live de entretenimento”, diz Lívia.

Os funcionários também sentem falta das interações em carne e osso. Segundo a executiva, as principais queixas são de saudade dos colegas, do cafezinho e da happy hour. Para atenuar o problema, a Edenred criou uma sala virtual para quem quiser tomar um café a distância com outro colega a qualquer hora do dia. “É um momento de pausa, para jogar conversa fora mesmo. Dá para ver quem está na sala e entrar ou então agendar um horário e convidar outras pessoas. Não é a mesma coisa que estar fisicamente, mas já ajuda”, afirma a RH.

A falta de um contato mais próximo, inclusive, é uma das maiores dificuldades na adaptação do setor para o digital. Isso porque um dos atrativos dos eventos empresariais são, sobretudo, a possibilidade de networking e a oportunidade de relacionamento com parceiros, clientes e referências do mercado. “Há uma cultura de camaradagem nesses encontros, como apresentações, apertos de mão e rodas de conversa. Isso precisa ser olho no olho”, diz André Nogueira, diretor da agência Wemake Eventos, que há seis anos organiza lançamentos de produtos, festas, rodadas de negócios, encontros e convenções.

EQUILÍBRIO NECESSÁRIO

Se por um lado as transmissões ao vivo foram importantes aliadas para comunicar e manter funcionários engajados, por outro elas se multiplicaram de tal forma que há muita gente exausta do formato. ”Assisti a tantas que estou com medo de ir à cozinha, abrir a geladeira e encontrar uma live lá dentro”, brinca  Reynaldo, da HSM. Dados da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) mostram que a fadiga das transmissões é generalizada. De acordo com uma enquete online realizada com 1.000 associados, 65% afirmaram que estão cansados das lives corporativas. Segundo Paulo Sardinha, presidente da ABRH, o que muitas vezes falta é equilíbrio nas produções. “É preciso pensar melhor o formato.

Algo muito informal fica caseiro, com som e imagem ruins, e não funciona. Porém, ser formal demais também é cansativo e espanta os espectadores”, diz.

A opinião é compartilhada por Rodolpho Ruiz, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutor em comunicação. “As lives ficaram longas e repetitivas”, avalia. Rodolpho acredita que, depois da experiência em massa, o formato tenderá a melhorar. “As empresas e o público não estão satisfeitos, então será necessário dar mais atenção a todo o processo, desde a parte técnica até o conteúdo.”

Assim como em eventos presenciais, as pessoas acabam selecionando muito bem de quais irão participar e recusando aqueles que não despertam tanto o interesse. Diferenciar-se mostrando o valor do que é ofertado é algo que não muda – independentemente de o encontro ser virtual ou em carne e osso.

LUZ, CÂMERA, TRANSMISSÃO!

Cinco dicas para organizar eventos online

ROTEIRO

Defina bem o tema e a sequência dos conteúdos apresentados. Deixe isso claro para os espectadores logo no início da apresentação.

TEMPO

É recomendável fazer encontros virtuais de 45 minutos a 1 hora de duração. Lembre-se: diferentemente das Llves de famosos, acompanhadas por fãs que topam tudo, grande parte dos eventos precisa agradar a um público diversificado.

PESQUISA

Não imponha o conteúdo. A audiência e o engajamento aumentam quando o público ajuda a escolher o tema de lives epalestras. Saiba ouvir o que os outros têm a dizer.

CONVIDADOS

Palestrantes, debatedores e mediadores familiarizados com vídeos e eventos ao vivo ajudam no sucesso da transmissão.

INTERAÇÃO

Durante uma Live é possível interagir com os participantes via redes sociais, com hashtags ou usando chats específicos. Perguntas, enquetes e participações ao vivo mantém a atenção e fazem o público se sentir incluído.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.