EU ACHO …

O TERREMOTO

Ela estava muito ocupada: viera das compras de casa, deu vários telefonemas inclusive um dificílimo para chamar o bombeiro de encanamentos de água, foi à cozinha ver se o almoço dos meninos se adiantava, eles não podiam atrasar-se na ida à escola, riu de uma graça de uma das meninas, recebeu um telefonema convidando-a para um chá de caridade, preparou a merenda das crianças, e afinal fechou a porta à saída delas.

Então – então do ventre mesmo, como de um longínquo estremecer de terra que mal se sabe ser o sinal do terremoto, do ventre o estremecimento gigantesco de uma forte torre abalada, do ventre vem o estremecimento – e em caretas não só de rosto mas de corpo vem com uma dificuldade de petróleo abrindo terra dura – vem afinal o grande choro, um choro quase mudo, só a tortura seca do choro mudo entrecortado de soluços, o choro secreto até para ela mesma, aquele que ela não adivinhou, aquele que ela não quis nem previu – sacudida como uma árvore que é sempre mais sacudida que a fraca – e afinal rebentados canos e veias e tendões pela grossura da água salgada do choro. Só depois que passa percebe que nenhuma lágrima a molhou. Foi o seco terremoto de um choro.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O FIM DO GLAMOUR

A aposentadoria do Boeing 747, o colossal Jumbo, encerra a era de ouro da aviação, quando luxo e conforto eram prioridades para as companhias aéreas

Houve uma época em que viajar de avião era uma experiência glamorosa. Elegantes comissárias de bordo serviam caviar na primeira classe e champanhe à vontade na econômica. Distribuídos em poltronas espaçosas para todas as classes de bilhetes, passageiros vestiam terno e passageiras usavam salto alto. Os voos pareciam uma grande festa em céu de brigadeiro. Nenhum outro modelo foi tão marcante para a era de ouro da aviação quanto o Boeing 747. Primeira aeronave a jato do mundo com dois andares e dois corredores – era tão grande que recebeu o apelido de Jumbo, uma referência ao famoso elefante que inspirou a Disney -, ela oferecia todos esses mimos, mas suas mordomais iam além. Uma escada em espiral levava os viajantes para o luxuoso lounge no andar superior, onde era possível deleitar-se com concertos de renomados pianistas, jogar carteado ou simplesmente acomodar-se nos sofás, enquanto o avião cruzava oceanos e continentes.

Nos últimos 51 anos, o 747 fez do ato de voar uma aventura prazerosa, reduziu as distâncias entre os países e reinou absoluto como o jato mais importante da história da aviação. Agora isso ficará no passado. Há alguns dias, a Boeing anunciou o fim da fabricação do Jumbo. “O mercado simplesmente não suportará níveis maiores de produção neste momento, e nós não temos o que fazer a não ser nos adaptar à nova realidade”, disse o presidente da empresa, Dave Calhoun.

O Jumbo foi vítima daquilo que o consagrou: o tamanho. De 1969, quando foi lançado, até 2007, ano em que foi superado pelo Airbus A380, o 747 ostentou o título de maior aeronave do mundo, com capacidade para transportar até 500 passageiros, a depender da configuração. Com o desenvolvimento tecnológico, a vantagem virou um problema. Seus quatro motores têm sede insaciável de combustível, enquanto concorrentes menores e mais ágeis podem superar as mesmas distâncias consumindo 20% menos querosene. Outro obstáculo associado à fuselagem colossal diz respeito às restrições para pousos e decolagens. A crescente urbanização fez com que surgissem cidades ricas e abriu novos mercados, mas o 747 não consegue chegar até eles porque os aeroportos não possuem pistas de dimensões suficientes para recebê-lo. Enquanto isso, seus rivais são capazes de levar o mesmo número de passageiros com a mesma autonomia de voo, além de desbravar qualquer tipo de pista. Com o acirramento da competição, o preço das passagens caiu, e ninguém mais parecia ligar para o charme dos velhos tempos. Nesse cenário, era inegável que o Jumbo estava irremediavelmente ficando para trás.

A crise do coronavírus acelerou o declínio da aeronave mais icônica da aviação. Segundo dados da consultoria Cirium, antes da pandemia havia 184 Boeing 747 em operação. Com o cancelamento de voos, apenas 23 permaneceram no ar. A tempestade perfeita levou muitas companhias aéreas a anunciar a aposentadoria definitiva de suas frotas. Há algumas semanas, a inglesa British Airways informou que não voará mais com o modelo, encerrando assim uma parceria de cinco décadas. A australiana Qantas antecipou o fim dos 747. A despedida do último avião da série estava prevista para dezembro, mas o voo derradeiro foi realizado em 22 de julho, sob forte emoção. “É difícil dimensionar o impacto que o 747 teve na história da aviação”, afirmou o presidente da Qantas, Alan Joyce. No Brasil, a Varig foi a única brasileira a voar com o modelo, de 1981 a 1999. Com ele, a empresa consolidou sua operação internacional e se tornou uma das principais parceiras da Boeing no mundo. Segundo a fabricante americana, a última encomenda do 747 será entregue em 2023, para um cliente especial: a Força Aérea dos Estados Unidos, que provavelmente usará a aeronave para viagens do presidente. Até o final, portanto, o 747 manterá a altivez.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE MARÇO

FANFARRONICE, PURA INSENSATEZ

O homem prudente oculta o conhecimento, mas o coração dos insensatos proclama a estultícia (Provérbios 12.23).

O sábio é aquele que sabe que nada sabe. O homem prudente não vive tocando trombetas acerca do seu conhecimento nem fazendo propaganda de suas virtudes. Fanfarronice é pura insensatez. Não devem ser os nossos lábios que nos louvam. A soberba é a porta de entrada do fracasso, a sala de espera da vergonha, o palco da queda. Os que se exaltam serão humilhados. Os que querem ocupar os primeiros lugares serão colocados no final da fila. O homem prudente oculta o conhecimento. Ele não enaltece a si mesmo como um fariseu soberbo nem se compara aos demais apenas para sobressair-se. A humildade é o caminho da honra, enquanto a altivez é a autopista da vergonha. O insensato não apenas proclama a estultícia, mas também anuncia virtudes que não possui. Apresenta-se como herói quando seu verdadeiro papel é o de vilão. Exibe-se em público como benfeitor, mas na verdade não passa de um larápio. O insensato é um falso intelectual e um falso filantropo. Vive apenas de aparência. É apenas um ator que representa um papel no palco da vida. Não vale a pena viver como um hipócrita, tentando enganar os outros e enganando a si mesmo.

GESTÃO E CARREIRA

É A ERA DAS LIVES?

O setor de eventos está sofrendo fortemente com a crise. E o ramo corporativo, que movimenta quase 210 milhões de reais anuais, tem que se reinventar

Os visitantes do Evento Business Show (conhecido como EBS), uma das principais feiras da indústria de eventos corporativos que acontecerá em setembro, encontrarão um cenário bem diferente das 18 edições anteriores. A multidão de 2.397 pessoas que, em 2019, visitaram mais de 90 expositores dará lugar a apenas 150 convidados, respeitando o limite de 40% da capacidade do Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo – e sem contar com nenhum estande para visitação.

Fora isso, as rodadas de negócios, que chegaram a somar 13.000 reuniões, e as palestras e bate-papos contarão com assentos demarcados e uso obrigatório de máscara pelos participantes, que deverão respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre em si. Em paralelo, os debates serão transmitidos ao vivo para aqueles que preferirem acompanhar a distância. Nem a tradicional distribuição de brindes e de panfletos nem os comes e bebes compartilhados terão vez este ano. “O EBS vai ser diferente, totalmente adaptado e com conteúdo mais enxuto. Optamos por fazer dessa forma em vez de não fazer”, diz Marcello Baranowsky, diretor do Evento Fácil, grupo que realiza o EBS.

Com a pandemia da covid-19 e as medidas de isolamento social, foram cancelados do dia para a noite de festivais de músicas a congressos e festas, fazendo com que o setor quase entrasse em colapso. Segundo uma pesquisa realizada pelo Sebrae, em parceria com a União Brasileira dos Promotores de Feiras (Ubrafe) e a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), que entrevistou 2.700 companhias do ramo, 98% foram impactadas negativamente pela pandemia e 37% não faturaram nada em março. Entre elas estão as companhias que atuam na área corporativa, que em 2019, por exemplo, faturaram cerca de 209,2 milhões de reais. Para sobreviver, uma vez que as feiras e convenções presenciais devem demorar a acontecer como antigamente, muitas tiveram que se reinventar e adotar protocolos semelhantes aos da EBS.

MODELO HÍBRIDO

A HSM, plataforma de educação corporativa que já realizou, desde 2018, mais de 800 treinamentos in company e, por ano, produz cerca de 400 eventos, também foi impactada pela crise. O Agro Surnmit HSM, congresso sobre novidades no agronegócio, que aconteceria em agosto e tinha a expectativa de receber entre 600 e 800 pessoas foi adiado para o ano que vem, ainda sem uma data definida. Já o HSM Expo, maior evento da companhia, realizado há 19 anos e que reúne anualmente mais de 6.000 pessoas, foi marcado para os dias 9, 10 e 11 de novembro, em São Paulo. “Estamos estudando as melhores alternativas, mas definitivamente será uma edição menor e diferente por causa de todo o contexto sanitário que vivemos”, afirma Reynaldo Gama, CEO da empresa.

Embora descarte tornar o evento totalmente virtual, a HSM pretende aumentar as atividades online. “É normal ficar quatro, seis ou oito horas num evento grande, pois há muitas atividades e encontros, mas passar esse tempo na frente de um computador é inviável”, diz Reynaldo.

TENDÊNCIA

Mesclar o presencial com o virtual já era uma tendência antes mesmo da pandemia da covid-19 e agora isso veio para ficar. “Existem duas vantagens: custos menores, já que se economiza com passagens e estadias de palestrantes, e a possibilidade de gravar os conteúdos, permitindo que os espectadores assistam quando e onde desejarem”, afirma Luciane dos Santos Oliveira, professora na Escola de Negócios na Universidade Anhembi Morumbi, que completa: “A quarentena deu um impulso a esse hibridismo”.

CALOR HUMANO

A multinacional francesa Edenred, das marcas Ticket Log e Repom, já contava com eventos que uniam o digital e o offline há pelo menos dois anos. Mas, com 97% do time de 1.500 funcionários trabalhando em home office, foi preciso repensar os treinamentos e as comemorações. Além de continuar com as reuniões semanais entre os times e os lideres, lives para descontrair e informar foram incluídas na programação – entre elas houve shows, apresentação de stand-up comedy e bate-papos sobre como otimizar o trabalho a distância. Uma ação que cresceu no meio virtual foi o Supertalk, palestra organizada mensalmente pela Edenred com um especialista escolhido por votação dos funcionários. Quando o evento era presencial, o público chegava a 80 pessoas. Na versão digital, são mais de 300 participantes.

“As iniciativas foram pensadas para evitar a falta de unidade e conexão que o trabalho remoto poderia gerar”, afirma Lívia Alves, gerente de recursos humanos da divisão de fleet & mobility, que cuida do braço logístico do grupo. E os projetos parecem ter agradado ao time. Segundo uma pesquisa realizada pela companhia, 86% dos empregados aprovaram a grade de videoconferências.

“Mas nem tudo são flores. Em maio, a empresa tinha programado um evento mundial e simultâneo nos 46 países onde atua para lançar sua nova plataforma de RH global. No Brasil, o plano era realizar uma grande festa no escritório de São Paulo, com palestras, workshops, realidade aumentada, atividades em grupo e comida à vontade. A pandemia obrigou que tudo fosse cancelado. “Tivemos que recorrer a um lançamento virtual, com a palestra de um especialista em recursos humanos e uma live de entretenimento”, diz Lívia.

Os funcionários também sentem falta das interações em carne e osso. Segundo a executiva, as principais queixas são de saudade dos colegas, do cafezinho e da happy hour. Para atenuar o problema, a Edenred criou uma sala virtual para quem quiser tomar um café a distância com outro colega a qualquer hora do dia. “É um momento de pausa, para jogar conversa fora mesmo. Dá para ver quem está na sala e entrar ou então agendar um horário e convidar outras pessoas. Não é a mesma coisa que estar fisicamente, mas já ajuda”, afirma a RH.

A falta de um contato mais próximo, inclusive, é uma das maiores dificuldades na adaptação do setor para o digital. Isso porque um dos atrativos dos eventos empresariais são, sobretudo, a possibilidade de networking e a oportunidade de relacionamento com parceiros, clientes e referências do mercado. “Há uma cultura de camaradagem nesses encontros, como apresentações, apertos de mão e rodas de conversa. Isso precisa ser olho no olho”, diz André Nogueira, diretor da agência Wemake Eventos, que há seis anos organiza lançamentos de produtos, festas, rodadas de negócios, encontros e convenções.

EQUILÍBRIO NECESSÁRIO

Se por um lado as transmissões ao vivo foram importantes aliadas para comunicar e manter funcionários engajados, por outro elas se multiplicaram de tal forma que há muita gente exausta do formato. ”Assisti a tantas que estou com medo de ir à cozinha, abrir a geladeira e encontrar uma live lá dentro”, brinca  Reynaldo, da HSM. Dados da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) mostram que a fadiga das transmissões é generalizada. De acordo com uma enquete online realizada com 1.000 associados, 65% afirmaram que estão cansados das lives corporativas. Segundo Paulo Sardinha, presidente da ABRH, o que muitas vezes falta é equilíbrio nas produções. “É preciso pensar melhor o formato.

Algo muito informal fica caseiro, com som e imagem ruins, e não funciona. Porém, ser formal demais também é cansativo e espanta os espectadores”, diz.

A opinião é compartilhada por Rodolpho Ruiz, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutor em comunicação. “As lives ficaram longas e repetitivas”, avalia. Rodolpho acredita que, depois da experiência em massa, o formato tenderá a melhorar. “As empresas e o público não estão satisfeitos, então será necessário dar mais atenção a todo o processo, desde a parte técnica até o conteúdo.”

Assim como em eventos presenciais, as pessoas acabam selecionando muito bem de quais irão participar e recusando aqueles que não despertam tanto o interesse. Diferenciar-se mostrando o valor do que é ofertado é algo que não muda – independentemente de o encontro ser virtual ou em carne e osso.

LUZ, CÂMERA, TRANSMISSÃO!

Cinco dicas para organizar eventos online

ROTEIRO

Defina bem o tema e a sequência dos conteúdos apresentados. Deixe isso claro para os espectadores logo no início da apresentação.

TEMPO

É recomendável fazer encontros virtuais de 45 minutos a 1 hora de duração. Lembre-se: diferentemente das Llves de famosos, acompanhadas por fãs que topam tudo, grande parte dos eventos precisa agradar a um público diversificado.

PESQUISA

Não imponha o conteúdo. A audiência e o engajamento aumentam quando o público ajuda a escolher o tema de lives epalestras. Saiba ouvir o que os outros têm a dizer.

CONVIDADOS

Palestrantes, debatedores e mediadores familiarizados com vídeos e eventos ao vivo ajudam no sucesso da transmissão.

INTERAÇÃO

Durante uma Live é possível interagir com os participantes via redes sociais, com hashtags ou usando chats específicos. Perguntas, enquetes e participações ao vivo mantém a atenção e fazem o público se sentir incluído.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESFERAS DE INFLUÊNCIA

Coaching de vida pode ajudar a preencher as lacunas em nossos planos mestres e esclarecer o caminho de onde estamos e para onde queremos ir. Não é para os fracos de coração

É possível treinar a vida? É útil ter alguém para dizer como viver a vida? Eu não sou capaz de buscar o melhor caminho sozinho? Essas são perguntas que muitas pessoas fazem a si mesmas quando se questionam a respeito da utilidade ou da importância de fazerem coaching, o que faz sentido, dada a incompreensão geral do que é o coaching de vida e, também, de como acontece esse processo que capacita os clientes a criarem uma vida mais satisfatória.

Segundo John Wooden, o sucesso vem de saber que você fez o melhor para se tornar o melhor que é capaz de ser. O coaching não é terapia ou aconselhamento, que associa um profissional de saúde mental a um cliente que busca orientação sobre o bem-estar. Não é mentoria nem treinamento, em que um profissional é acompanhado por um profissional mais experiente. É uma parceria entre o coach e o cliente, projetada para ajudar o segundo a explorar suas opções, focar em seus objetivos e criar um plano de ação personalizado.

Coaches não dão aos seus clientes uma lista de opções para escolher ou um rigoroso conjunto de passos a seguir, em vez disso eles pretendem ajudar seus clientes a descobrirem seus próprios motivos e objetivos e auxiliá-los a encontrar o melhor caminho para cada um. É um plano de ação que permite que você use suas habilidades para fazer as melhores escolhas, facilitando o crescimento pessoal e profissional.

Existem diversos temas e questões através dos quais precisamos transitar para fortalecer nossas escolhas e facilitar o alcance de nossas metas. Uma questão essencial para que direcionemos nossa vida de forma mais clara e precisa é refletirmos sobre uma das muitas ameaças que tendem a nos desviar do curso e está relacionada às nossas “esferas de influência”. A ideia por trás das esferas de influência é que existem três possibilidades distintas que podemos atravessar nas idas e vindas da vida: coisas que podemos controlar, coisas que podemos influenciar e coisas que não podemos influenciar, agora ou nunca.

Embora saibamos que não há nada sob nosso absoluto controle, muitas vezes há pelo menos uma variável sobre a qual ainda temos controle direto – nossas atitudes e comportamentos. Mesmo quando sob enorme pressão ou quando nos sentimos presos, sempre temos escolha. Essa escolha passa pela consciência sobre nossas crenças, que filtram a forma como percebemos a realidade. A nossa crença em espíritos, por exemplo, filtra a maneira como vemos e compreendemos certos acontecimentos. Estarmos conscientes disso e buscarmos outras oportunidades de leitura e interpretação nos oferecem maior possibilidade de controle sobre nossas atitudes. O preço dessa liberdade de escolha reside no desapego da necessidade de estarmos sempre certos. Não ter medo de encarar nossa falibilidade é libertador porque nos permite mudar de perspectiva ao analisar uma situação ou acontecimento, o que flexibiliza nosso olhar para a realidade e nos permite ter maior controle de nosso comportamento.

A segunda possibilidade que enfrentamos em nossa esfera de influência é a capacidade de influenciar certos fatores que podemos direcionar para nossos interesses, mesmo quando não podemos alterá-los completamente. Por exemplo, embora não possamos controlar as atitudes ou o comportamento dos outros, podemos oferecer-lhes conselhos e orientações ou fornecer provas para ajudá-los a tomar decisões de nosso interesse. Abre-se, aqui, a necessidade de refletirmos sobre o ato de influenciar.

Todos nós influenciamos e somos influenciados em função de nossa natureza gregária. Somos animais sociais e, como tais, não temos autonomia existencial. Existimos em função de outros e precisamos legitimar nossas crenças e atitudes dentro da teia social, sob pena de sermos colocados à margem. As influências externas nos ajudam a construir a noção da realidade, e esta é dinâmica, tem um movimento que resulta, inclusive, de alguns estágios de contradição ou de oposição de crenças. Segundo Hegel, grande filósofo alemão do século XIX, a realidade é construída por três “seres”: o ser em -si, o ser fora-de-si e o ser para-si. Na metodologia científica, esses três seres costumam ser chamados de tese, antítese e síntese. Hegel criou a ideia da dialética da vida, um movimento permanente. Dizia que uma semente deve morrer para nascer a planta, da mesma forma que um conceito velho precisa morrer para dar lugar a um novo.

A terceira e mais inquietante possibilidade colocada pela vida é o conjunto de coisas sobre o qual não temos nenhum controle ou influência. Essa é a maior dimensão que temos que encarar na vida, uma vez que a maior parte do que acontece não está sob nosso controle direto. O papel do coaching, nesse caso, é ajudar a reconhecer e aceitar que há muito que nós não podemos controlar e como concentrar a energia naquilo que podemos, ao menos, influenciar.

JÚLIO FURTADO – é professor, palestrante e coach. É graduado em Psicopedagogia, especialista em Gestalt-terapia e dinâmica de grupo. É mestre e doutor em Educação. É facilitador de grupos de desenvolvimento humano e autor de diversos livros. www.juliofurtado.com.br