EU ACHO …

CONVERSA TELEFÔNICA

Uma grande amiga minha se deu ao trabalho de ir anotando numa folha de papel o que eu lhe dizia numa conversa telefônica. Deu-me depois a folha e eu me estranhei, reconhecendo-me ao mesmo tempo. Estava escrito: “Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa. Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto o maior desamparo.”

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A SINFONIA DO FUTURO

A inteligência artificial (IA) já faz parte do cotidiano, mas as próximas ondas de inovação definirão o mundo como o conhecemos

Em janeiro de 1921, há exatos 100 anos, estreava a peça A Fábrica de Robôs, do escritor checo Karel Tchápek. Misto de ficção e crítica social, o texto de Tchápek – disponível em português – fazia uma previsão assustadoramente acurada do futuro, considerando-se que foi escrito quando a linha de produção de Henry Ford não tinha nem dez anos de funcionamento. Da fábrica imaginada pelo escritor checo saiam seres mecânicos feitos para substituir o homem em atividades braçais, causando uma crise social. O termo original robot, usado pela primeira vez na peça, foi adotado pelas principais línguas europeias até se tornar corriqueiro. E, uma vez que hoje é ouvido à exaustão, é fundamental saber que advém do substantivo feminino robota, que significa “trabalho forçado” ou “escravidão”.

Contudo, os robôs continuam a ser mal compreendidos. Em uma rádio paulistana, um comentarista afoito, ao ouvir a notícia de que 30% da mão de obra seria substituída por autômatos até 2030, prometeu nadar no rio poluído da cidade se isso acontecesse. Se alguém lhe explicasse que robô não é a máquina da antiga série Perdidos no Espaço, ele retiraria a promessa. A IA (inteligência artificial) está entre nós há algum tempo e não para de se espalhar. Enquanto você lê esta reportagem, um chip acaba de ganhar mais capacidade de processamento e, em algum lugar do mundo, um novo software foi inventado ou instalado para realizar a função que antes era de uma, dez ou 100 pessoas.

Em fevereiro de 2020, nos Emirados Árabes, um robô conduziu uma orquestra com músicos de carne e osso. Foi a melhor performance de Alter 3, androide japonês que marcou sozinho o ritmo da música e até cantou. Mas os céticos disseram que ele havia sido apenas o maestro da sinfonia, não seu compositor. Eles seriam menos ferinos se soubessem que, na Califórnia, o programa de computador Experiments in Musical Intelligence (EMI) aprendeu, por sete anos, tudo sobre Bach, um dos maiores compositores clássicos, para então fazer a própria música. Diante de uma plateia, três peças foram executadas por pianistas: uma composição do EMI, uma original de Bach e uma terceira de Steve Larson, autor contemporâneo. Ao final, o público foi convidado a apontar quem tinha feito o quê. A maioria disse que a peça de Bach fora composta por Larson, que Larson era o computador e, espantosamente, que a música do EMI era Bach autêntico. O que se conclui dos dois casos é que, se a IA terá ou não forma humanoide, é irrelevante. O que faz um robô aprender, indo além de sua programação original, é o Deep Learning, ou aprendizado profundo, constituído de velocidade de processamento e volume de dados. Durante 100 anos, desde a peça de Tchápek, cientistas da computação correram atrás do cálice sagrado que temos hoje: poderosos programas e bilhões de pessoas municiando-os de dados, voluntariamente ou não.

Isso nos traz ao momento de transformação que o doutor em computação, o taiwanês-americano Kai-Fu Lee, define como as “quatro ondas de IA”. Segundo Lee, autor de um reputado livro sobre o tema, duas dessas ondas já estão em andamento. A primeira é a da internet, que já mudou hábitos de compra, relacionamento, educação e informação, apenas para citar alguns. Nessa fase, a IA aprendeu mais do que ensinou, já que a internet extrai de nós mais dados do que nós pegamos dela. E foi isso que viabilizou a segunda onda: o Banco Central acaba de lançar o Pix, que permite pagamentos sem cartão e transferências instantâneas. Trata-se de mais um avanço em serviços já oferecidos por aplicativos de transporte, música e comida. O Pix não passa de um escravo cibernético, mas a cada transferência ele aprende mais sobre o usuário. As demais ondas, quando arrebentarem na praia, mudarão a paisagem para sempre. A seguinte é a da percepção: os dispositivos da Amazon já conversam com pessoas, mas em breve todos os eletrodomésticos se comunicarão com seus donos de uma forma ou de outra. Geladeiras estarão conectadas ao mercado para que nunca falte o que o cliente deseja, enquanto sensores sofisticados monitorarão a saúde substituindo exames de rotina. Mas o maior desafio, tanto para implementar quanto para lidar com as consequências, será a quarta onda: a da automação. É vital esclarecer que autônomo não é o mesmo que automático. Robôs de verdade não necessitam de supervisão: são drones que se autoabastecem e decolam para pulverizar a plantação ou caminhões que vão de um ponto a outro sem interferência humana. Para chegar a esse estágio, as máquinas continuarão aprendendo com os dados que são fornecidos a elas, não por programadores, mas por bilhões de pessoas. Teoricamente, se a IA da Tesla pudesse ver como todos os motoristas dirigem, os carros autônomos já estariam à venda. E o que será da humanidade quando a quarta onde chegar? Analistas estimam que a IA adicionará mais de 15,7 trilhões de dólares à economia mundial até 2030. Por outro lado, profissões como contador, bancário, operador, controlador, caminhoneiro, assistente jurídico e muitas outras estarão extintas antes que esta década acabe. Kai-Fu Lee afirma que a China superará os Estados Unidos em IA porque terá mais hardware e mais dados sem as restrições de privacidade ocidentais. Analistas e jornalistas, ele vaticina, também precisarão arrumar outra coisa para fazer. Em relação aos últimos, pelo menos, tomara que Lee esteja errado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE MARÇO

MENTIRA, ABOMINAÇÃO PARA DEUS

Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor, mas os que obram fielmente são o seu prazer (Provérbios 12.22).

A mentira está presente nos tribunais e nos templos religiosos. Mostra sua carranca no comércio e nos parlamentos. Intromete-se nas famílias e aninha-se no coração. Mas o que é a mentira? A mentira é a negação da verdade. Pode também significar a distorção intencional ou até mesmo a ocultação dolosa da verdade. Os lábios mentirosos são abomináveis para Deus, porque o pai da mentira é o diabo, e quem mente não apenas revela seu caráter maligno, mas também executa seus planos perversos. A mentira é uma insensatez, pois tem pernas curtas; não pode ir muito longe nem manter-se de pé. Os lábios mentirosos caem em descrédito diante dos homens e são desprezíveis para Deus, pois os mentirosos não herdarão o reino de Deus. Por outro lado, aqueles que obram fielmente são o prazer de Deus. Aqueles que falam a verdade, juram com dano próprio e não se retratam são verdadeiros cidadãos dos céus. A mentira que hoje se disfarça e se veste com beleza será desnudada e se cobrirá de trapos, mas os fiéis andarão de branco na presença de Deus e jamais serão envergonhados!

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHOS MODERNOS

Uma pesquisa recente sobre ambiente de trabalho realizada pelo Ibope, sob encomenda da Microsoft, escancarou um fato ao qual os profissionais de recursos humanos precisam ficar atentos: a relação dos jovens com as tecnologias e a transformação que isso trará para as empresas em termos de estruturas e relacionamentos. Um ponto que me chamou a atenção foi a discrepância entre os setores público e privado – uma grande oportunidade, inclusive, para o RH.

De acordo com o estudo, flexibilidade de horário, espaços compartilhados e possibilidade de home office estão entre os principais elementos que definem um local de trabalho moderno. Dou aqui um exemplo dessa transformação: enquanto para as gerações anteriores o olho no olho sempre foi importante para a conquista de confiança, para os mais jovens, a presença física importa menos. Segundo 85% dos pesquisados, reuniões remotas oferecem experiência tão positiva quanto presenciais.

Essa é uma tendência inevitável e à qual devemos nos adaptar. Se o desafio já é grande para as organizações privadas, quem dirá para o setor público, onde essa realidade está ainda distante.

O levantamento aponta que os funcionários públicos são menos beneficiados pelo uso da informática em seu dia a dia. Quase 70% deles nunca fazem home office e somente 13% afirmam usar algum recurso de inteligência artificial no trabalho – apesar de 60% acreditarem que a tecnologia facilite o acesso a informações para fins profissionais. Nesse segmento, apenas 41% dos entrevistados consideram estar em uma empresa moderna, enquanto na análise geral esse percentual sobe para 62%.

Outro dado interessante é que 62% dos funcionários públicos enxergam o acesso e o compartilhamento de informações como o principal benefício trazido pela tecnologia no ambiente profissional ­ importante lembrar que o compartilhamento de informações não é um elemento cultural presente nesse setor, preso ainda ao conceito de que reter informação é poder.

De que forma os líderes de RH podem conduzir essas transformações, falar em conexão e flexibilidade, sendo que as estruturas públicas são mais engessadas do que o mercado privado? Especialmente no caso das estatais, realizar mudanças é uma questão de atitude. Se não houver uma mobilização interna e um real interesse em promover essa atualização, o processo de exclusão profissional poderá ser grande e as organizações perderão competividade. É preciso correr.

VICKY BLOCH – é psicóloga, sócia da Vicky Bloch associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AÇÕES VIRTUOSAS E FILANTROPIA

Como diversas formas de contribuição social são capazes de pavimentar um caminho poderoso de florescimento do indivíduo e da sua comunidade

Para alcançarmos uma vida mais feliz em sociedade, diversos estudos psicológicos examinaram como ajudar o próximo é capaz de afetar o nosso bem-estar. Existe uma correlação entre os benefícios aproveitados por quem recebe ações filantrópicas e, de modo correspondente, aqueles recebidos por quem age de modo generoso e altruísta.

A origem etimológica da palavra “filantropia” é o termo grego philantropia, que significa “amor à humanidade”. Esse comportamento faz parte da história humana, uma vez que a cooperação social em larga escala foi o que permitiu que os grupos humanos prosperassem e chegássemos ao estágio evolutivo atual.

Nesse contexto, a motivação para o altruísmo e a filantropia são as chamadas “ações virtuosas”, que, à luz da filosofia aristotélica, podem ser sucintamente explicadas como atividades conscientes e voluntárias que visam um bem maior e que expressam a excelência humana. Ações virtuosas são comumente definidas pela literatura da Psicologia Positiva como gratificações, excelências ou atividades de flow (fluxo), aquelas que envolvem você completamente, aproveitam suas forças e permitem que você perca a autoconsciência e mergulhe no que está fazendo.

Nos tempos presentes, os motivos principais para o envolvimento em ações filantrópicas são a proteção e a crença na necessidade de tomar responsabilidade social pelo bem-estar comunitário da sociedade. Esse tipo de ação social, portanto, representa uma ponte entre preocupações individuais e coletivas. É um caminho para que as pessoas conectem seus interesses aos dos outros, liguem-se a suas comunidades e envolvam-se com a sociedade em maior escala, sempre por meio de iniciativas de indivíduos e grupos para os quais esse envolvimento não é obrigatório.

Alinhado a isso, o modelo de ação e bem-estar da Psicologia Positiva apresenta implicações ricas para a teoria filantrópica. O dr. Martin Seligman, “pai” da Psicologia Positiva, invoca essas conexões com frequência, a ponto de definir a sua área de estudos como uma tentativa de mover a Psicologia do egocêntrico para o filantrópico.

Essa é a essência da contribuição que define os objetivos altruístas – cujos benefícios se estendem, também, a toda uma cadeia de pessoas, e que, por isso mesmo, são capazes de elevar os nossos níveis habituais de felicidade, saúde e bem-estar. Para tanto, diversos tipos de doação são possíveis – tempo, trabalho, atenção, conhecimento e, claro, recursos materiais.

Em um trabalho intitulado “Gastos pró-sociais e felicidade”, as psicólogas Elizabeth Dunn e Lara Aknin, juntamente com Michael Norton, da Harvard Business School, encontraram uma relação positiva consistente entre os chamados gastos “pró-sociais” e o bem-estar. Realizada em 136 países, com níveis de riqueza e contextos culturais diversos, a pesquisa revelou que indivíduos que recentemente haviam feito doações a instituições de caridade relataram maior bem-estar subjetivo, mesmo considerando diferenças individuais de renda.

No nível psicológico, os pesquisadores pontuam que a doação voluntária de recursos financeiros tem ligação com a teoria da autodeterminação, desenvolvida por Edward L. Deci e Richard M. Ryan. Segundo essa teoria, o bem-estar humano depende da satisfação de três necessidades básicas: relacionamento, competência e autonomia, as quais emergem quando as pessoas se conectam com os outros por meio dos gastos pró-sociais, veem como suas ações generosas são capazes de fazer a diferença e sentem que suas ações de caridade são escolhidas livremente.

Por trás disso está também a ideia de que o bem-estar de um indivíduo depende intrinsecamente do bem-estar dos seus relacionamentos e da comunidade em que ele reside. Para o dr. Isaac Prilleltensky, da Universidade de Miami, a própria definição de bem-estar engloba um estado positivo de relações, nutrido pela satisfação simultânea e equilibrada de diversas necessidades nas esferas pessoal, relacional e coletiva da vida de uma pessoa. Dessa forma, ele propõe em seu trabalho uma mudança de paradigma que dê às abordagens baseadas em forças, prevenção, empoderamento e comunidade mais destaque, visando impactar positivamente áreas como saúde e justiça social. O enfoque é fazer avançar e progredir os indivíduos e suas comunidades.

De muitas maneiras, trabalhando isolada ou coletivamente, as pessoas são capazes de atuar em prol da humanidade. Mas como você pode colocar isso em prática? Os caminhos são vários. O envolvimento filantrópico pode assumir a forma de participação em trabalho voluntário, grupos comunitários e organizações de bairro, ativismo social e movimentos políticos, tendo como objetivo maior o bem-estar conjunto e cidadão.

Atividades como essas são oportunidades de abordar e agir sobre problemas locais e globais, considerando que o poder da mudança e do florescimento está em cada um de nós.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.