EU ACHO …

INTELECTUAL? NÃO.

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que, agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. Além do que leio pouco: só li muito, e lia avidamente o que me caísse nas mãos, entre os treze e quinze anos de idade. Depois passei a ler esporadicamente, sem ter a orientação de ninguém. Isto sem confessar que – dessa vez digo-o com alguma vergonha – durante anos eu só lia romance policial. Hoje em dia, apesar de ter muitas vezes preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais preguiça de ler do que de escrever.

Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros “uma profissão”, nem uma “carreira”. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?

O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

INIMIGO INVISÍVEL

Um ano depois da descoberta do vírus, os assintomáticos são menos numerosos do que se supunha, mas continuam sendo os principais motores de transmissão da Covid-19

Eles são tão invisíveis quanto o próprio coronavírus. Formam uma legião de infectados sem sintomas, que exibem saúde, mas espalham vírus. São os chamados portadores assintomáticos. Passado um ano de pandemia, hoje se sabe que são menos numerosos do que se supunha. A pesquisa mais completa realizada sobre a transmissão assintomática do sars­ CoV-2, feita na Austrália, estima que sejam 17% dos infectados e que sua carga viral, isto é, a quantidade de vírus que carregam, seja menor do que a de pessoas com sintomas de Covid-19. Ou seja, não teriam a mesma capacidade que elas para contaminar alguém. Porém, isso em nada reduz sua importância.

Sua invisibilidade os faz motores da pandemia, destaca um artigo publicado em dezembro, em regime de urgência, na revista americana Science. O artigo salienta a necessidade de testes de diagnóstico rápidos e baratos para que pessoas possam se testar em casa, com regularidade, tenham ou não sintomas. Assinam o trabalho na Science dois dos mais ativos cientistas americanos no combate à pandemia: Michael Mina, da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Kristian G. Andersen, do Instituto de Pesquisa Scripps. “Testes acessíveis a um maior número de pessoas para detectar assintomáticos infecciosos são um dos instrumentos mais promissores para combater a pandemia de Covid-19, ainda que sejam pouquíssimo empregados”, disseram Mina e Andersen, na Science.

São os assintomáticos que transportam o sars-CoV-2 de lar em lar, bar em bar, dos Réveillons de Trancoso, na Bahia, à Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, sem febre, tosse ou espirro de alerta que seja. Por não se sentir doente, o assintomático é o meio de transporte ideal para o coronavírus. Ele vai à praia, ao bar, circula pelas ruas, faz compras e não se cansa. Ninguém, nem ele próprio, enxerga algum perigo. E o vírus avança e faz novas vítimas. “Os assintomáticos são cerca de 20% dos infectados, mas podem responder por até 80% das transmissões. A maioria é jovem. E eles emprestam a força de sua juventude à pandemia”, frisou a pneumologista e cientista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo, que desde o início da pandemia alerta sobre o risco da transmissão assintomática e o papel dos jovens na propagação do vírus.

Em março, quando a Covid-19 ainda não havia revelado toda a sua força destrutiva, pensava-se que 80% das infecções fossem assintomáticas. Porém, um estudo realizado pela equipe de Oyungerel Byambasuren, do Instituto para Saúde Baseada em Evidências, da Universidade Bond, em Queensland, na Austrália, mostrou que esse percentual é de 17%. O trabalho foi publicado na Jammi, a revista oficial da Associação de Microbiologia Médica e Doenças Infecciosas do Canadá. Teve ampla repercussão, merecendo análise na Nature.

Os pesquisadores australianos fizeram uma meta-análise. Isto é, analisaram dados da literatura científica. Ao todo, foram 13 pesquisas com informações sobre 21.708 pessoas. Foram incluídas somente pesquisas que acompanharam pessoas com diagnóstico positivo por RT-PCR (padrão ouro de detecção do coronavírus) por pelo menos sete dias, para que pudessem ser descartadas as que acabaram por manifestar algum sintoma ou mesmo desenvolver Covid-19 mais severa.

Isso foi necessário porque agora se sabe que, quase sempre, o assintomático de hoje é o sintomático de amanhã. Há dois tipos dessas pessoas não tão assintomáticas assim: as pré-sintomáticas e as oligossintomáticas. Na Nature, a cientista Krutika Kuppalli, da Universidade Médica da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, explica que muito da confusão reside na dificuldade de distinguir entre assintomáticos e pré-sintomáticos. “Assintomático é alguém que nunca desenvolve sintomas durante todo o curso da infecção. Já o pré-sintomático é alguém que tem sintomas nulos ou muito brandos, quase imperceptíveis, antes de apresentar um quadro mais relevante da Covid-19. Porém, nem sequer há uma definição padronizada”, observa ela na Nature.

Margareth Dalcolmo acrescentou que os oligossintomáticos são aqueles que têm sintomas, mas não os reconhecem como tais. São coisas brandas, como espirros matinais esporádicos, uma tosse discreta ou uma mera indisposição. As pessoas tendem a imaginar que se trata de alergia ou das antigas e benignas viroses de verão. E saem de casa para espalhar o coronavírus. “O que importa é que o vírus pode ser transmitido quando a infecção não é aparente, não fazendo diferença se a pessoa é assintomática, oligossintomática ou pré-sintomática. E a população tem de estar atenta a isso. Por isso, máscaras e distanciamento social são tão importantes”, enfatizou Dalcolmo.

A dificuldade de identificar os verdadeiramente assintomáticos está ligada à falta de acompanhamento dos casos positivos. Eles são testados, mas a evolução da doença não é acompanhada. Vira mistério médico aquilo que é apenas falta de dados. É o que mostra outro estudo recente sobre os assintomáticos, publicado no final de dezembro na revista médica internacional Lancet. De autoria de cientistas de Cingapura, país com um dos melhores sistemas de testagem do mundo, ele reforça os achados dos australianos.

O líder da equipe, Andrew Sayampanathan, do Ministério da Saúde de Cingapura, disse que seus dados sugerem que os assintomáticos são contagiosos, embora menos do que as pessoas com sintomas. O país asiático testa, e muito. Não apenas profissionais de saúde e de outras atividades de risco. Trabalhadores da construção civil, por exemplo, são testados a cada duas semanas, tenham ou não sintomas. Qualquer caso positivo leva ao rastreamento e ao isolamento dos contatos próximos. E contato próximo em Cingapura é alguém que tenha chegado a menos de 2 metros de um positivo por pelo menos 30 minutos. A equipe de Sayampanathan testou com RT-PCR 628 pessoas com Covid-19 e 3.790 contactantes. As cargas virais, isto é, as concentrações de vírus no trato respiratório superior, foram medidas. “A busca ativa de infectados e o rastreamento dos contactantes devem proativamente procurar pessoas assintomáticas, porque elas podem transmitir a Covid-19 e precisam ser contidas se o objetivo do país é reduzir casos e transmissão”, escreveram na Lancet os cientistas de Cingapura.

Outro trabalho científico, este de cientistas chineses que investigaram a propagação do coronavírus em Wanzhou, na China, mostrou que 75,9% da transmissão se deveu aos infectados assintomáticos e pré-sintomáticos. No estudo publicado na Nature Medicine no fim de novembro, eles concluem que a propagação da Covid-19 em Wanzhou foi controlada com sucesso por meio de distanciamento social, uso de máscara, testagem em massa, rastreamento de contatos e diagnóstico precoce de assintomáticos e pré-sintomáticos. Funciona, mas é tudo que o Brasil nunca fez”. Já disse e repito que teremos o janeiro mais triste de nossa história, com uma multiplicação de casos de doentes e mortos. Mas não precisava ser assim, se uma política nacional de distanciamento social e testagem tivesse sido implementada desde o início da pandemia pelo governo”, frisou Dalcolmo. Quando a pesquisadora foi ouvida, ainda não tinha sido divulgado que a pandemia alcançou um novo marco no Brasil no dia 12 de janeiro. Nessa data houve a maior média móvel de casos desde o início das infecções: 54.784 infectados por dia, em média, no intervalo de uma semana.

Faltam medidas de controle, mas a ciência continua a avançar, mesmo tendo como inimigo um vírus e uma doença que eram completamente desconhecidos há um ano. O abismo numérico entre a estimativa de 80% de janeiro a março e os 17% a 20% divulgados em novembro pela pesquisa australiana dá a dimensão do desconhecimento sobre o sars­ CoV-2 e a doença que provoca, a Covid-19. Os 80% foram baseados no conhecimento que se tinha sobre outros vírus. Mas o sars-CoV-2 é inteiramente novo, e compreendê-lo em tempo recorde é um dos maiores desafios que a humanidade já enfrentou, ainda em curso. A própria estimativa mais precisa é, na verdade, um avanço, e não um sinal de retrocesso. A ciência saltou abismos muito maiores para chegar ao ponto em que nos encontramos, com mais de uma dúzia de vacinas à vista no mundo, uma esperança concreta contra a pandemia.

Autor de análises genéticas do coronavírus, o cientista Renato Santana, professor do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observou que não só a transmissão assintomática está associada à população mais jovem, como seu risco continua a ser ignorado e a surpreender mesmo os cientistas. Santana citou o caso de um jovem pesquisador de sua equipe que só descobriu estar infectado porque os cientistas se testam com regularidade. “Ele não tem qualquer sintoma de Covid-19, foi identificado no exame de rotina. Mas, não por acaso, de toda a equipe é o que trabalha em mais lugares e, por isso, circula e se expõe mais”, disse Santana.

Numa pandemia em que quase tudo surpreende, só não deveria causar espanto a história das pessoas que espalham doenças com enorme eficiência sem dar sinais disso. São os chamados superdispersores (do inglês superspreaders), capazes de contaminar muito mais pessoas que a maioria dos indivíduos. Eles não são a maioria, mas fazem enorme estrago. Margareth Dalcolmo explicou que, se houver um superdispersor numa festa com dez pessoas, cinco poderão ser contaminadas.

Esses assintomáticos superdispersores contemporâneos usam celular e vão ao bar. Mas alguns deles são, sem saber, a versão do século XXI de urna cozinheira irlandesa que causou comoção no início do século XX. Trata-se de Mary Mallon (1869-1938), que migrou para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor, em 1883. Mary havia tido febre tifoide em sua Irlanda natal. Nada muito grave, os sintomas sumiram, mas ela jamais se livrou da bactéria. Não apenas não se livrou, como ainda a transmitia com imensa facilidade. Tanta que seu nome acabou por ser inscrito na história da medicina com a triste alcunha de Mary Tifoide.

De tantos surtos que causou nos lugares em que trabalhava, Mary acabou sendo identificada por pesquisadores da época, num trabalho de investigação até hoje memorável. Ela mesma não tinha ideia de que espalhava doença e morte. Autoridades médicas a internaram num hospital, onde passou três anos. Foi libertada da quarentena com a condição de que jamais voltasse a ser cozinheira, pois a bactéria contamina água e alimentos. Porém, por necessidade, irresponsabilidade ou ambas – não se sabe -, Mary voltou a trabalhar como cozinheira. Mais gente adoeceu. Dessa vez, as autoridades perderam a paciência e exageraram no castigo. Mary Tifoide foi condenada a viver só e isolada. Morreu aos 69 anos. Uma autópsia confirmou que ela continuava infectada.

A história de Mary Tifoide conta muito sobre os percalços da medicina e a ameaça de doenças infecciosas. Hoje, a febre tifoide tem tratamento, com antibióticos, e vacina. Mary e sua triste sina inspiraram também uma personagem da Marvel, conhecida mais recentemente como a vilã Mutante Zero. Mas aí já é outra história.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMADIA

23 DE MARÇO

SER JUSTO, UMA GRANDE RECOMPENSA

Nenhum agravo sobrevirá ao justo, mas os perversos, o mal os apanhará em cheio (Provérbios 12.21).

A justiça é um escudo protetor contra o mal. Os que foram justificados por Deus, por causa da redenção em Cristo, estão guardados sob as asas do Onipotente. Praga nenhuma chega à sua tenda. As setas que voam de dia e a peste que assola à noite não destroem aqueles que estão sob o abrigo do sangue do Cordeiro de Deus. A tempestade furiosa que inunda o mundo inteiro não pode destruir aqueles que estão dentro da arca da salvação. Nenhum agravo sobrevirá ao justo, pois Deus é o seu protetor e seu escudo. Nenhum vingador de sangue pode atacar o justo, pois ele está escondido com Cristo, em Deus, na cidade de refúgio. Se o justo é guardado, os perversos são entregues ao mal que eles mesmos maquinam. O mal que eles planejam para os outros os apanhará em cheio. O malfeito cairá sobre sua própria cabeça. Os perversos cavam um abismo para os próprios pés. Como Hamã, constroem a forca onde eles mesmos serão executados. O mal que desejaram aos outros não apenas respingará sobre eles, mas os apanhará em cheio. A injustiça não compensa, mas ser uma pessoa justa traz enorme recompensa.

GESTÃO E CARREIRA

MEUS PÊSAMES

A pandemia da covid-19 tornou a morte um assunto inevitável. Saiba como as organizações estão agindo para acolher profissionais que vivem a dor da perda de parentes e amigos

Em 17 de março, o número de infectados pela covid-19 chegou a uma marca histórica no Brasil: 5 %  da população, representando mais de   11.609.601 milhões de pessoas. Para cada pessoa que falece, entre seis e dez são impactadas pelo luto, de acordo com as estimativas de especialistas no assunto.

São familiares e amigos que, por tempo indeterminado, vão viver uma espécie de afastamento da realidade e conviver com a sensação de que simplesmente não vai ser possível seguir em frente. Por definição, o luto é um processo natural desencadeado pelo rompimento de um vínculo. A morte é a perda mais óbvia e diretamente associada ao sentimento, mas não é a única. Divórcio, aposentadoria e demissão, por exemplo, também representam quebras de laços e podem gerar processos de luto profundo, dependendo da situação individual. Com a pandemia, o que estamos vivendo é um luto coletivo. “Além de mortes em massa, há a sensação de falência do mundo como conhecíamos até então e uma sobreposição de outras perdas, como a financeira, da liberdade, do convívio social, e a interrupção de planos e projetos”, explica a psicóloga Mariana Clark, especialista em luto, que trabalha com as famílias das vítimas do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG).

Falar de morte é algo que as pessoas costumam evitar. Ninguém se sente confortável em um velório nem sabe muito bem o que dizer a alguém que tenha acabado de perder um ente querido, por mais que a relação seja de consideração e afeto. No contexto do trabalho, o tabu também existe. “As organizações são locais onde muitas vezes as pessoas não têm espaço para demonstrar emoções e vulnerabilidade. Mesmo na situação de falecimento de um parente, o profissional tem medo de que a fragilidade seja interpretada como fraqueza e incapacidade de continuar produzindo”, diz Bernardo Leite Moreira, psicólogo e consultor em gestão e desenvolvimento organizacional. Ele coordenou a pesquisa Melhores Práticas para Lidar com o Luto no Ambiente Profissional, realizada em setembro de 2019 pelo Projeto Humanize, iniciativa da Best Homenagens, firma de soluções corporativas para prestação de homenagens.

Isso explica por que as empresas dificilmente têm políticas estruturadas para apoiar seus funcionários em situações de luto. “Quase sempre somos procurados quando a crise já está instalada, ou seja, quando alguma morte ocorreu, e a organização não sabe como enfrentar a situação”, afirma Valeria Tinoco, psicóloga do Instituto Quatro Estações, especializado em atendimento do luto. Ela destaca, ainda, que iniciativas de apoio normalmente são tornadas quando o impacto do falecimento é grande e afeta muitas pessoas, como no caso de ser o dono, o presidente ou um líder de equipe. Acidentes de trabalho com vítimas também desestruturam o ambiente e costumam exigir providências.

AMBIENTES ACOLHEDORES

A pandemia trouxe uma preocupação maior das empresas com a saúde mental dos empregados. Entre as razões estão o fato de que muitos perderam parentes ou colegas de trabalho para a doença e, também, a sensação geral de medo e incerteza que se instalou. Por isso, algumas companhias vão além do que está estabelecido na CLT (três dias de licença na morte de um familiar) e dão mais dias de afastamento, distribuem auxílio-funeral e enviam coroas de flores, por exemplo.

Por isso, algumas companhias vão além do que está estabelecido na CLT (t rês dias de licença na morte ele um familiar) e dão mais dias de afastamento, distribuem auxílio-funeral e enviam coroas de flores, por exemplo.

Outra iniciativa é falar sobre o assunto. Mesmo com a equipes trabalhando em home office, organizações passaram a realizar palestras e rodas de conversa virtuais sobre temas ligados às angústias geradas pelo momento que estamos vivendo, entre elas o luto. A Promon Engenharia criou o projeto Transformar, que consiste em uma série de encontros para discutir e ressignificar essas emoções, sempre mediados por um especialista na área e com interação via chat. Na edição focada em luto, 40% do efetivo total da firma participou. “Entendemos que todos estão vivendo de alguma forma um sentimento de perda, mesmo que não tenha sido pela morte de alguém próximo. Nosso objetivo é preparar o maior número de pessoas, incluindo as lideranças, para saber acolher o luto do outro. Isso passa por usar as palavras certas na hora de consolar, mas também saber escutar e ser flexível quanto ao momento de voltar ao trabalho”, afirma Gabriela Souza, gerente de RH da Promon.

Flexibilidade, empatia, tolerância e comunicação eficiente são habilidades-chave para a criação de culturas organizacionais sensíveis e abertas para que as pessoas possam expressar o que sentem. Se a importância de praticá-las no ambiente corporativo já vinha sendo bastante discutida, agora se tornou obrigatória para gerar engajamento, integração e produtividade. Afinal, está cada vez mais claro que trabalho e vida pessoal são dimensões inseparáveis da vida. “O luto afeta a pessoa em suas capacidades cognitiva, psicológica e física. Quanto mais acolhidos os profissionais se sentirem em um momento difícil como esse, mais depressa vão estar prontos para retomar o trabalho”, diz a psicóloga Valeria.

O tempo e o ritmo de volta à atividade, aliás, devem ser acordados entre profissional e gestor – mas sem cobrança para o empregado enlutado. “Para alguns, voltar a trabalhar é uma forma de entrar em contato com a vida normal, como era antes da morte, e pode ser útil para aliviar o sofrimento. Outros preferem se recolher. A decisão precisa ser tornada respeitando o desejo individual”, diz Valeria, ressaltando que não há fórmula pronta ou um único jeito correto de proceder em situações de apoio ao luto.

Ser viços de apoio psicológico, que já eram uma tendência, ganham força na realidade atual. Algumas organizações, inclusive, passaram a prover atendimento com profissional especializado em luto para trabalhadores que perderam entes para a covid-19. É o caso da Iguatemi, empresa de shopping centers, que oferece até dez sessões para empregados que perderam familiares, assim como para parentes imediatos de funcionários da empresa que faleceram. A firma também criou uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV) para a formação de grupos de conversa sobre temas ligados aos medos e emoções trazidos à tona neste momento, entre eles a morte e o luto. Vivian Broge, diretora de RH da Iguatemi, afirma que a pesquisa de clima mais recente revelou nível de satisfação mais alto do que o registrado normalmente.

O FATOR CHEFIA

Se a maioria das pessoas não sabe muito bem como se comportar diante da morte ou de alguém em processo de luto, isso também vale para os chefes. Mas é fundamental que eles se preparem para acolher, com palavras e atitudes um trabalhador nessa situação. Isso inclui pedir ajuda à equipe quando sentir que não está pronto para lidar com a demanda, engajando todos na coordenação de ações de acolhimento e em uma nova divisão de tarefas, se necessário. “O líder precisa extrapolar a função técnica e ter um olhar genuíno de interesse pelo outro, e não apenas pensar em resultado”, diz a psicóloga Mariana.

Apesar de estar frágil, o empregado precisa ser ouvido antes que as decisões que lhe dizem respeito sejam tomadas. Por exemplo, nunca se deve excluir um profissional de um projeto para poupá-lo porque está em luto – em vez disso, é preciso entender o que ele prefere fazer. Forçar um clima de alto-astral e evitar tocar no assunto também não funciona, já que, para alguns, conversar sobre o tema tem função terapêutica.

Desde o início da pandemia, a Iguatemi reforçou conversas e treinamentos para as lideranças com o objetivo de ajudar os gestores no acolhimento não só aos funcionários enlutados, mas àqueles com outras questões emocionais desencadeadas pela mudança de rotina – seja o medo da doença, a angústia por perdas financeiras, sejam conflitos familiares no isolamento. “A pandemia trouxe a percepção de como as relações são preciosas e precisam ser cuidadas. Apostamos na criação de espaços de diálogo para que todos se sintam atendidos em suas necessidades e seguros para expressar vulnerabilidades”, afirma a diretora de RH Vivian.

COMO AS EMPRESAS ENFRENTAM O LUTO?

Os resultados a seguir são da pesquisa Melhores Práticas para Lidar com o Luto no Ambiente Profissional, realizada em setembro de 2019 pela Best Homenagens com coordenação técnica de Bernardo Leite Moreira. Foram entrevistados empregados de 315 empresas de pequeno, médio e grande porte

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CAPACIDADE DO PERDÃO

Da mesma forma como devemos obedecer às necessidades do corpo enfermo, temos que respeitar o tempo e o processo da mágoa em direção de perdoar o outro e a si mesmo

Em Portugal, a parte do corpo machucada está “magoada”. Aprendi isso na prática, quando, enganada pelo penúltimo degrau de uma escada, que aparentava ser o último, caí, torci o pé e fui acudida por uma senhora que perguntou se ele estava magoado. Meus próprios sentidos haviam me iludido – nesse caso, minha visão pouco confiável –, mas a escadaria do metrô passou a representar perigo e levei muito tempo para voltar a descê-la correndo.

No Brasil usamos mágoa somente para aflições psicológicas, mas emprestamos outras palavras do universo fisiológico, como feridas, machucados ou cicatrizes, para descrever a dor no coração. Afinal, o processo é o mesmo: existe a dor, a busca por alívio, a proteção, o medo e a cura. É dessa última etapa que nasce o perdão. Com o pé doendo, ainda muito magoado, forçar-se a retirar a mão do corrimão e encarar os degraus com confiança seria um desrespeito ao próprio corpo. Estar disposto a perdoar, nem que seja pelo próprio bem-estar, parece simples quando você acredita que é uma boa pessoa, compreensiva e empática. Até quem é ferido de uma forma estranhamente profunda precisa ressignificar a palavra perdão. Não se trata mais de uma decisão. Esquecer ou passar por cima também não são possibilidades e, se fossem, não seriam escolhas sensatas: a mágoa e sua relação com a verdade são estradas sem retorno e você sabe que precisa atravessá-las e deixar se transformar por elas. Deve tratá-la da mesma forma como obedece às necessidades do corpo enfermo: segurando no corrimão, andando devagar e cuidando da parte machucada por respeito a si próprio.

Nesse processo, não há muito espaço para empatia. Em um nível biológico básico, um organismo intimidado se contrai, se fecha, em uma reação de fuga ou luta que é automática e egocêntrica: diante da ameaça, o sistema nervoso faz uma série de movimentos inconscientes que protegem – e isso não inclui entender como o outro está se sentindo. Nessa fase, lembra a psicóloga budista Tara Brach, em uma meditação sobre o tema, simplesmente não é possível enxergar o cenário amplo. “A capacidade de empatia é ‘desligada’ por um tempo. E é muito importante reconhecer que existe um período em que não se deve mesmo ser compassível: deve-se cuidar de si, pois ainda não há recursos para perdoar.” A reação límbica, ela lembra, tem sua própria inteligência, mas, depois de cumprir sua função, precisa dar espaço para que se possa continuar evoluindo. Cuidar de si, portanto, não significa se entregar à desesperança e à inatividade: o corpo magoado precisa ser reeducado a partir do movimento, por mais incômodo que seja; o coração segue a mesma indicação e, à medida que se fortalece, volta a assumir riscos de tombos, andando em direção ao perdão. Ou à compaixão, se a palavra parecer mais adequada, uma vez que é resultado da capacidade de olhar para o outro, de olhar por cima da própria dor, sem a necessidade de esquecê-la, conforme coloca o filósofo David Whyte no livro Consolações: “É a parte ferida, marcada e jamais ignorada que faz do perdão um ato não de esquecimento, mas de compaixão. Perdoar é assumir uma identidade maior que a da pessoa que foi ferida, é amadurecer e poder abraçar não apenas a parte afligida do  próprio ser, como as memórias cauterizadas pelo golpe original e, de forma virtuosa, estender a compreensividade àquele que o entregou.”

O perdão, complementa, não afasta a ferida, mas leva a uma releitura da sua relação com ela, colocando-o mais próximo à fonte da dor. Estranhamente, ele nunca surge da parte que estava atingida. “Essa parte é possível que nunca possa ou realmente não deva esquecer, pois, assim como os fundamentos do sistema imunológico do organismo, nossas defesas psicológicas precisam ter memória e se organizar contra futuros ataques.” Essa organização se soma à sua identidade, lhe entrega novas perspectivas, novas formas de sentir, se relacionar, se entender e entender os outros. Nessas transformações, muito se ganha, muito se perde. Mas todos os caminhos que levam a uma versão fortalecida de si mesmo passam pelo perdão.

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br