A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DÉJÀ-VU – MOMENTOS REVISITADOS

De repente temos a impressão de já ter vivido algo – e a sensação é, quase sempre, de estranhamento; neurologistas e psicólogos tentam compreender esse misterioso fenômeno de percepção temporal

Você se recosta confortavelmente na cadeira, sobre a mesa à sua frente há uma xícara de café fumegante. Uma mosca aproxima-se da colher na qual estão grudados alguns cristais de açúcar. Você folheia uma revistae para em um artigo sobre déjà-vu. E, de repente, tem a impressão de que já esteve sentado nesse lugar, exatamente nessa cadeira, com esse gosto doce-amargo da bebida na boca; “lembra-se” até da mosca.  Você sabe que já leu antes, com um leve desconcerto, essas mesmas linhas impressas. Mas quando foi isso?  Será possível? Esse tipo de experiência de déjà-vu, a sensação difusa de já ter vivido uma situação exatamente da mesma forma, é comum. A maioria das pessoas pode relatar pelo menos uma experiência desse tipo. Apesar de, durante um déjà-vu, o acontecimento nos faz parecer extremamente conhecido, falta-nos a lembrança concreta de quando a vivenciamos.

Alguns, nesse momento, sentem o próprio corpo e o ambiente ao redor como irreais, uma espécie de sonho. Há os que relatam ter visto tudo como se fosse através de um véu ou que olham a si mesmos pela perspectiva de um observador externo. O sentimento de poder prever com exatidão o que vai acontecer no momento seguinte também não costuma ser raro. E, vez por outra, um lugar é estranhamente reconhecido por uma pessoa, apesar de ela ter certeza de nunca ter estado lá.

Por isso, em diferentes culturas, desde tempos imemoriais os déjà-vus são considerados indícios da existência de vidas passadas e “provas” de reencarnação ou paranormalidade.

NÃO É ALUCINAÇÃO

“O estudo metodológico do fenômeno é difícil de ser estruturado, uma vez que ocorre repentinamente e de forma rara. Assim, os pesquisadores quase sempre têm de confiar na memória dos voluntários que participam de seus experimentos quando eles relatam o fenômeno”, diz o professor Uwe Wolfradt, do Instituto de Psicologia da Universidade Martin, em Halle-Wittemberg, e pesquisador do tema. Segundo ele, é importante diferenciar essa experiência de distúrbios com os quais possa ser confundida. Enquanto as alucinações, por exemplo, são percepções não associadas a estímulos externos, as imagens no déjà-vu são sempre reais. A ilusão consiste no fato de que, por um curto instante, algo desconhecido desencadeia uma sensação de familiaridade. Já o fausse reconnaissance (o falso reconhecimento) – antigamente considerado um sintoma do fenômeno – também não pode ser confundido com ele, mas surge frequentemente durante uma fase esquizofrênica e pode durar horas, enquanto déjà-vus, em geral, duram alguns segundos.

Um caso muito interessante relatado em 2003 por cientistas japoneses apresenta forte semelhança com o déjà-vu: um rapaz com epilepsia do lobo temporal tinha certeza de sempre reviver vários anos de sua vida, até mesmo seu casamento. Angustiado, ele tentou suicídio várias vezes para escapar das repetições infinitas. Segundo os estudiosos, a situação diferencia-se de experiências de déjà-vu em um ponto fundamental: enquanto naquele caso o jovem insistia já ter vivido experiências exatamente iguais, em um déjà-vu a pessoa logo considera a sensação de reconhecimento corno ilusória e insensata.

Uwe Wolfradt coordenou urna pesquisa na qual foram entrevistados 220 estudantes da Universidade de Halle-Wittenberg e constatou que aproximadamente 80% disseram acreditar que, durante um déjà-vu, provavelmente estavam lembrando inconscientemente de um acontecimento do qual se haviam esquecido. Essa noção lembra a ideia de Sigmund Freud (1856-1939) de que déjà-vus resultam do desejo de recapitular eventos reprimidos e elaborá-los – ou seja, aparecem como um mecanismo de defesa contra experiências traumáticas. A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes, os processos da memória implícita (ou não declarativa), para explicar o déjà-vu. Essa teoria ressalta que podemos ter a sensação de que uma pessoa, um local, um objeto ou um acontecimento nos são familiares mesmo quando já experimentamos apenas um aspecto determinado deles – como um odor característico – em outro contexto.

“Suponhamos que você veja um velho armário em uma feira de usados e, de repente, toda a situação lhe pareça conhecida, mas você já não se lembra de uma coisa: quando ainda era criança, havia um armário muito parecido na casa dos seus avós”, exemplifica Wolfradt. Esse elemento unitário esquecido – no caso do exemplo, o armário – desencadeia uma sensação mais ampla de familiaridade, que é transferida para toda a “composição”.

VARIAÇÕES DE HUMOR

Por fim, algumas suposições também se baseiam no processamento inconsciente de informações, afirmando que falhas de atenção seriam as responsáveis pelo déjà-vu: ao dirigir um carro, por exemplo, você se concentra no trânsito. Vê uma senhora idosa que está na calçada, mas não a registra conscientemente. Um instante depois tem de parar no semáforo e há tempo para olhar em volta com calma. Nesse momento, a senhora que caminha com dificuldade apoiada em sua bengala lhe parece estranhamente familiar, apesar de você achar que jamais a viu antes. Expresso de forma generalizada, nessa situação, a primeira percepção sob distração é imediatamente seguida de uma segunda com atenção total. A informação pouco antes interiorizada inconscientemente é erroneamente interpretada como lembrança.

Estudos sobre percepção subliminar fornecem suporte empírico para essa hipótese. Em 1989, o psicólogo Lany L. Jacoby, da Universidade de Washington, em St. Louis, mostrou aos participantes da pesquisa que conduzia uma palavra em um monitor durante tempo tão curto que eles mal puderam percebê-la. Mais tarde, porém, declararam com mais frequência, durante uma nova apresentação da mesma palavra, que já a haviam visto antes. O processamento inconsciente de estímulos subliminares faz com que informações posteriores semelhantes sejam processadas mais rapidamente – um procedimento nominado priming (preparação).

Essa e outras hipóteses sobre a atenção impressionam principalmente porque são bastante adequadas às circunstâncias que acompanham o déjà-vu. Já no início do século passado, o holandês Gerhar Heymans, pioneiro da psicologia em seu país, realizou um estudo com 42 estudantes. Ele lhes pediu que, durante seis meses, preenchessem um questionário curto imediatamente após uma experiência de déjà-vu. Assim, descobriu que pessoas que sofrem de variações de humor, enfrentam fases de apatia ou têm um ritmo de trabalho irregular são as mais afetadas por essas ilusões da memória.

Vários autores associam os déjà­vus a um grande volume de viagens, variações de fuso horário, intenso cansaço e stress. Num estudo desenvolvido por Wolfradt, da Universidade de Halle-Wittenberg, no entanto, aproximadamente 46 % dos estudantes se lembravam de estar mais tranquilos na ocasião do fenômeno; cerca de um terço chegou mesmo a descrever seu estado de espírito como alegre. Provavelmente, o déjà-vu não é desencadeado imediatamente no momento da tensão, quando permanecemos extremamente atentos, mas depois, quando estamos cansados – e relaxamos. Porém, também são plausíveis outras circunstâncias nas quais nós, por um curto período, não percebemos mais nosso entorno conscientemente. “Um de nossos estudos com mais de 300 universitários mostrou, por exemplo, que déjà-vus estão fortemente relacionados à capacidade de mergulhar em fantasias e na imaginação. Hoje os déjà-vus estão incluídos entre os distúrbios da memória, mas nada indica que pessoas que os experimentam com frequência sofram de algum distúrbio”, afirma Wolfradt.

O Pesquisador salienta que os fundamentos neuronais do fenômeno ainda são conhecidos apenas de forma fragmentada. Durante muito tempo, foi bastante popular a ideia de que sua causa era a transmissão neural atrasada. Naturalmente, nos mais altos centros de processamento do cérebro, as informações ambientais vindas de diferentes regiões precisam ser fundidas a qualquer momento em uma impressão coerente. Seria, portanto, muito possível que atrasos em um dos caminhos de transmissão provocassem grande confusão – e talvez um déjà-vu.

Em 1963, o pesquisador Robert Efron, à época no Hospital Administrativo dos Veteranos em Boston, Massachusetts, levantou polêmica com a hipótese de que o hemisfério cerebral esquerdo, mais especificamente o lobo temporal, seria responsável pela organização das percepções temporais. Ali, todas as imagens que o cérebro recebe por meio da visão chegariam duas vezes, consecutivamente, com um intervalo de poucos milissegundos uma vez diretamente, e outra com um desvio pelo hemisfério direito. Se a transmissão indireta se atrasasse por algum motivo, então o lobo temporal esquerdo perceberia a diferença interpretando a cena, na segunda vez, como algo que já teria ocorrido.

CONEXÃO COM EPILEPSIA

A ideia básica de Efron da dupla percepção até hoje não foi refutada nem comprovada. O que se sabe é que os lobos temporais têm um papel importante nesse processo. Pacientes com algum dano nessa região relataram frequentes experiências de déjà-vu. O mesmo ocorreu com pessoas que sofriam de epilepsia, e o foco epiléptico encontrava-se no lobo temporal. Desde então, alguns estudiosos supuseram que os déjà-vus fossem nada menos que miniacessos para o cérebro. Quando um grupo de pesquisadores, coordenado pelo neurocirurgião Wilder Penfield (1891-1976), em Montreal, estimulou eletricamente o cérebro aberto de seus pacientes epilépticos durante uma operação, em 1959, alguns deles relataram experiências de déjà-vu. O neurofisiologista Jean Bancaud (1921-1993) e seus colegas do Centro Paul Broca, em Paris, fizeram um relato semelhante em 1994: a estimulação do lobo temporal lateral ou medial desencadeou, ocasionalmente, “estados oníricos”, entre os quais o déjà-vu está incluído.

Apesar de ser questionável o quanto a experiência induzida artificialmente se assemelha às naturais, as descobertas são plausíveis: afinal, o lobo temporal medial participa comprovadamente da memória declarativa e consciente. Fazem parte dele não apenas o hipocampo, que nos ajuda a memorizar eventos episódicos, fazendo com que possamos revivê-los mentalmente mais tarde, como se fosse um filme, mas também o córtex para-hipocampal e o rinal, assim como as amígdalas e o lobo temporal médio.

Há cerca de uma década o pesquisador John D. E. Gabrieli, da Universidade Stanford, apresentou na Science resultados que sugerem que o córtex para-hipocampal e o hipocampo cumprem diferentes funções no processo da memória: enquanto o último permite a lembrança consciente de vivências. o outro poderia distinguir entre estímulo   conhecidos e não conhecidos em obrigatoriamente recorrer a uma lembrança concreta. Com base nesta tese, Josef Spatt, do Instituto Ludwig Boltzmann, em Viena, formulou em 2002 a hipótese de que um déjà-vu surge quando o para-hipocampo desencadeia uma sensação de familiaridade sem que haja participação do hipocampo. Justamente nesse instante, uma cena momentaneamente percebida poderia ser entendida como conhecida, mesmo que não houvesse uma clara referência temporal.

Wolfradt observa que, provavelmente, diversas regiões cerebrais participam do déjà-vu: a intensiva sensação de estranhamento de si mesmo e da realidade, por exemplo, assim como a noção de tempo, às vezes alterada, indicam complexos processos conscientes. “Durante essa experiência, duvidamos da realidade por uma fração de segundo. Por outro lado, essa pequena falha possibilita aos neurocientistas uma olhada nos processos do consciente”, diz o pesquisador. Ele acredita que o aprofundamento das pesquisas sobre o tema ajudem não apenas a explicar como surgem distúrbios de memória, mas também como o cérebro consegue produzir uma imagem contínua da realidade.

MEMÓRIAS FABRICADAS

Ao longo dos séculos, filósofos, psicólogos e até especialistas em paranormalidade formularam teorias para explicar o déjà-vu. A mais recente descoberta científica sobre o fenômeno foi publicada na revista New Scientist, em 2006. A pesquisa realizada por uma equipe de cientistas da Universidade de Leeds, na Inglaterra, tentou provocar, de modo artificial, a sensação de já ter vivido determinada experiência em voluntários. Os cientistas mostraram a eles 24 palavras associadas à cor vermelha, em seguida os induziram a um estado alterado de consciência, semelhante à hipnose, e disseram aos participantes que, quando estivessem diante de uma palavra em uma moldura vermelha, “a sentiriam como sendo familiar, embora não soubessem quando foi a última vez que a viram”. Mas se vissem uma palavra em uma moldura verde, eles pensariam que ela pertencia à lista original de 24 palavras. Em seguida, os voluntários foram tirados do estado de hipnose e expostos a uma série de palavras em molduras de cores variadas. Algumas não pertenciam à lista original de 24 palavras, outras estavam em molduras verdes ou vermelhas. Dez voluntários disseram ter experimentado uma “estranha sensação” quando viram novas palavras em vermelho, e outros cinco afirmaram que a impressão definitivamente se parecia com um déjà-vu. Os resultados sugerem que o fenômeno pode ser provocado de forma independente, sem que haja memória real para acioná-lo. Essa é uma novidade, já que outros estudos enfatizavam a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas”.

FALHA NA DIVISÃO DE TRABALHO

Segundo hipótese recente, durante um déjà-vu o córtex para-hipocampal desencadeia sensação de familiaridade, apesar de o hipocampo não conseguir fornecer nenhuma lembrança concreta

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.