A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AÇÕES AUTOMÁTICAS

Processos inconscientes podem influenciar nas decisões mais simples de nosso dia a dia. A ciência estuda se é possível deter esses comportamentos

Apesar de não agir em uma área específica do cérebro, segundo o mestre em psicologia social Rodrigo Vieira, o inconsciente gera interesse pelo fato de “influenciar nossa racionalidade sem que estejamos cientes disso”. Sendo assim, de certo modo, ele é capaz de assumir o controle em boa parte das nossas tomadas de decisão. Assustador, não?

Como muitos estudos e pesquisadores apontam, apenas uma pequena parcela do cérebro trabalha de maneira consciente, cerca de 10% – alguns chegam a comparar o órgão com um iceberg, sendo a sua ponta visível a porção de processos realmente conscientes.

Ainda assim, foi possível entender como funciona, por exemplo, o processamento de informações em nosso cérebro, que é dividido em duas partes. Pelo menos, é o que aponta uma concepção do pesquisador israelense Daniel Kahneman, publicada em seu livro Rápido e devagar – Duas formas de pensar, de 2002.

Kahneman estudou esse processo durante cinco décadas. Apesar de relativamente nova e desconhecida por boa parte das pessoas, essa teoria tenta desvendar o funcionamento do cérebro. “O chamado sistema 1 é mais afetivo, automático e rápido. Já o segundo, conhecido como sistema 2, caracteriza-se por ser mais racional, controlado e lento”, descreve Rodrigo Vieira.

E é o primeiro que mais se relaciona com nosso inconsciente e, principalmente, nossas atitudes implícitas. Isso tem forte influência dos ancestrais, que precisavam estar atentos a qualquer ameaça por questão de sobrevivência. “O sistema 1 é o responsável por nossas avaliações não controladas, e sua ação se associa à atividade no sistema límbico do cérebro. Trata-se de um mecanismo adaptativo e de um tipo de funcionamento que nos permite decodificar o mundo sem consumo excessivo de energia psíquica”, explica Rodrigo. O profissional também comenta que esse sistema age de maneira automática e pode interferir nas tomadas de decisão em muitas situações do dia a dia.

AÇÕES RÁPIDAS

Em nossa rotina, dependendo da situação, somos exigidos a tomar decisões imediatas ou a longo prazo. Por exemplo, para comprar um smartphone novo, você pode pensar por dias e avaliar qual a melhor opção. Por outro lado, em outros momentos, necessitamos fazeres­ colhas em pouquíssimo espaço de tempo.

Assim como o processamento das informações, essas ações instantâneas são divididas em duas categorias. “A primeira é uma reprodução presente aprendida a partir de uma situação passada”, pontua o psicólogo Bayard Galvão. Nesse caso, os reflexos são resultado de uma aprendizagem, ou seja, alguma ocasião já vivenciada anteriormente.

O segundo conceito pode causar certa confusão com o primeiro. “É aquele em que a pessoa pensa e toma a atitude rapidamente, mas não percebe o que pensou ou sentiu”, diferencia Bayard. O profissional ressalta que isso é fruto de ações rápidas. Por exemplo, em uma quase colisão de trânsito, tal possibilidade faz com que atitudes sejam tomadas em até 0,2 segundo. Portanto, não necessariamente a pessoa passou por algo semelhante antes, mas, por já ver coisas relacionadas, criou base para a reação momentânea.

Em ambos os casos, nota-se a presença (e relevante influência) da memória. “Toda decisão inconsciente se baseia no que foi aprendido no passado. No que se refere à motricidade ou sentidos, é mais fácil apontar que parte do cérebro é responsável. Mas, em termos de memória, hoje se sabe que várias regiões do sistema nervoso estão envolvidas, como cerebelo, amígdala e hipocampo”, complementa Bayard.

POR TRÁS DAS ATITUDES

Para chegar até o momento de agir, começamos a criar nossa bagagem desde criança e absorvemos inúmeros pontos relacionados a questões sociais. “As decisões implícitas se sedimentam desde os primórdios de nossa socialização, quando ainda somos bem jovens, e tomam-se costumes mentais irresistíveis”, indica Rodrigo. O psicólogo ainda cita que essas normas se consolidam em nosso repertório sobre o mundo, embora não tenhamos a capacidade de questioná-las. O pré-julgamento também está diretamente relacionado com essa questão, já que, muitas vezes, a avaliação ocorre quase instantaneamente. “O que é belo ou feio, por exemplo, não passa de perspectiva, mas, quando um padrão de beleza é enraizado ao longo do desenvolvimento, torna-se um referencial sólido. Portanto, ao avaliar um objeto como bonito ou não, a ativação mental de modelos pré-estabelecidos acontece de forma muito natural e veloz”, frisa Rodrigo.

Bayard reitera que nossos sentimentos atuais são consequências do que ocorreu no passado. Contudo, as impressões que temos de algo ou alguém são utilizadas tanto para o bem quanto para o mal. “O ideal, quando possível, é julgar o presente e tomar decisões sobre ele com base na sabedoria e no questionamento de hoje, não do que já foi. O conceito de usar o passado para tomar decisões no presente pode perdurar os mesmos erros ao longo da vida inteira”, alerta.

O PODER DA CULTURA

Não, aqui não falamos sobre filmes ou livros e a maneira como tais obras agem sobre nós. Na verdade, abordaremos o ambiente em que somos criados, já que ele influencia grande parte das concepções que levaremos para quase toda a vida. “A cultura se reflete no modo de funcionamento de um povo, seja na esfera pública ou privada, e é assimilada, geralmente, sem esforço. Em relação à beleza, por exemplo, nota-se que os paradigmas podem variar em diferentes culturas. E, por mais que haja variações individuais nos modos de percepção, as representações de uma cultura sempre servirão como parâmetro”, esclarece Rodrigo.

A absorção de princípios pode vir da mãe ou do pai (que, muitas vezes, possuem aspectos diferentes), dos professores, da música, entre outros fatores que fazem parte do nosso dia a dia. “As pessoas acreditam no que veem e ouvem das suas fontes culturais antes de saberem questionar. Depois, contestam tudo o que for diferente do que aprenderam a acreditar”, pontua Bayard.

Além disso, o psicólogo cita que a falta de autoavaliação é muito recorrente, já que poucos indivíduos costumam analisar a própria cultura. Com isso, não há mudanças das características principais e, quando ocorre certa reflexão, surgem as famosas crises existenciais.

CRIANÇA X ADULTO

“As crianças não têm maldade”. Quase todo mundo já deve ter ouvido essa frase quando algum pequeno soltou uma frase sem papas na língua e deixou todo mundo sem jeito. Segundo Rodrigo, isso ocorre porque na infância não há a submissão aos padrões de desejabilidade social e, por isso, tornam-se comuns avaliações sobre algo ou alguém quando o desejável seria, de certo modo, disfarçá-las. “Nesses casos, o que existe é uma ligação entre o padrão aprendido, implícito e ativado automaticamente, e sua expressão transparente ou explícita”, complementa.

Conforme o tempo vai passando, desenvolvemos uma maior capacidade de credenciar alguns pensamentos como inadequados para determinadas situações. “Mas isso não acontece apenas porque as pessoas escondem suas visões reais. À medida que amadurecemos intelectualmente, podemos, de fato, desenvolver concepções contrárias àquelas que absorvemos historicamente”, ressalta Rodrigo.

Contudo, isso não quer dizer que tal processo seja simples, muito pelo contrário. Rodrigo afirma que as avaliações automáticas devem continuar existindo e podem se tornar difíceis de controlar. “Por exemplo, sabe-se que o sistema 1 está repleto de conteúdo afetivo; sendo assim, como anular racionalmente reações espontâneas de nojo e aversão? Na psicologia social, entende-se que cabe aos indivíduos fazerem uso de suas aprendizagens posteriores para minimizar o efeito desses conteúdos”, aponta. O profissional indica que isso pode ocorrer de duas maneiras: coibindo-os internamente de forma sistemática ou, simplesmente, evitando comportamentos discriminatórios.

MEIOS DE IDENTIFICAÇÃO

Há diversas maneiras de estudar as atitudes de um indivíduo. Rodrigo explica que, para identificar as explícitas, podem ser utilizados “questionários ou escalas cujas respostas são usadas para avaliar as dimensões do fenômeno”. Contudo, as características intrínsecas são capazes, de certo modo, de mascarar as reais ações. Para “burlar” tal mecanismo, os profissionais tentam desviar a atenção dos pacientes de inúmeras formas, como sobrecarga mental ou perguntas menos diretas.

Por outro lado, para identificar as questões menos expostas, há a possibilidade de utilizar o teste de associações implícitas, conhecido como IAT (lmplicit Association Test). “Nesse caso, os respondentes geralmente apresentam maior dificuldade para associar grupos minoritários a conceitos positivos, revelando uma atitude implícita negativa”, descreve Rodrigo. Contudo, o profissional demonstra certa cautela com os resultados obtidos nesse teste, já que não necessariamente o indivíduo irá traduzir seus pensamentos em comportamentos discriminatórios.

É POSSÍVEL REVERTER COMPORTAMENTOS DISCRIMINATÓRIOS?

Atualmente, não existe uma fórmula eficaz para alterar completamente o que age no sistema 1 (mais afetivo, rápido e automático). “A psicologia social vem propondo meios relativamente frutíferos de redução de preconceito, como a promoção de contatos colaborativos e não hierarquizados entre membros de diferentes grupos para que as avaliações entre eles sejam otimizadas,” explica o mestre em psicologia social Rodrigo Vieira. Já o psicólogo Bayard Galvão indica dois caminhos para atenuar os preconceitos e atitudes implícitas:

*** “Tentar se colocar no lugar do outro, com valores, cultura e a história”;

*** “Aprender a respeitar o direito de o outro valorizar, aparentar ou ser o que quiser, não necessariamente valorizando o que ele valoriza”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.