A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOLOGIA DA ARQUITETURA

Estruturas, cores, variações de luminosidade e peças de decoração influenciam estados de humor; especialistas tentam desvendara maneira como o cérebro processa estímulos ambientais para criar espaços mais confortáveis

Durante muitos anos, prevaleceu a ideia de que arquitetos, em geral, não planejam casas para que as pessoas se sintam bem dentro delas. Realmente, vários designers nos anos 70 viam seus projetos mais como uma obra de arte, guiando-se por prioridades estéticas. Não era esperado que os futuros moradores interferissem no processo de criação. Essa visão, entretanto, tem se modificado. A pergunta sobre o que torna um espaço realmente aconchegante, porém, ainda não foi totalmente respondida. No início dos anos 80, a psicologia da arquitetura dava seus primeiros passos, mas sabia-se muito pouco sobre como os ambientes influenciavam as pessoas. Nos anos 90, resultados da doutrina chinesa do feng shui, misturada às ideias new-age chamaram a atenção de muita gente: mesas de jantar quadradas foram substituídas por redondas, plantas com folhas pontiagudas foram banidas dos corredores, e irregularidades na planta das casas terminara resolvidas com espelhos. Foi nessa época, também, que as paredes ganharam cores.

No Brasil, embora os conhecimentos de psicologia ainda sejam pouco aplicados à arquitetura e apareçam de forma fragmentada, os olhares se tornaram mais apurados para identificar como prédios e ambientes podem ser mais adequados às necessidades humanas. Segundo o psicólogo Gary W Evans, da Universidade de Cornell, em Ithaca, Estados Unidos, o homem moderno, habitante das grandes cidades, passa mais de 90% da vida em prédios. Com base nos conhecimentos da psicologia ambiental, Evans e sua colega, Janetta Mitchell McCoy, definiram cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar de uma pessoa: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso. As denominações parecem abstratas, mas por trás delas há conceitos bastante compreensíveis.

A estimulação refere-se ao quão enfadonho ou instigante um ambiente pode parecer, considerando que a maioria funciona melhor em locais sem grandes excessos. Parece óbvio que uma arquitetura carregada de elementos, como cores gritantes e estampas chamativas causem desconforto; mas há outros fatores a ser considerados, como a proteção contra ruídos externos e a existência de espaço livre suficiente para cada morador, já que o grande número de interações sociais também provoca estimulação em excesso – e desconforto. A socióloga Wendy C. Regoeczi, da Universidade Estadual de Cleveland, em Ohio, observou, em 2003, que a proximidade espacial não leva as pessoas a um convívio mais íntimo, mas sim à retração ou a comportamentos agressivos, e esse efeito pode ser mais pronunciado quando há alta concentração habitacional por metro quadrado.

A segunda dimensão, a coerência, reflete-se principalmente na divisão de uma construção e determina o quão facilmente nos orientamos nela. Grandes prédios onde as pessoas se perdem nos corredores são exemplos de uma arquitetura incoerente; nesse caso a solução é simples: basta adotar sistemas indicadores de caminhos. Já a luminosidade de um prédio, garantida pelas janelas que possibilitem a visão de pontos de referência externos é vantajosa. A affordance é a qualidade de um ambiente que permite aos frequentadores realizar ações com mais ou menos facilidade. Naturalmente, seu grau depende do estilo de vida dos interessados. Por exemplo, desníveis e escadas podem ser um problema para famílias com crianças pequenas, pessoas com dificuldade de locomoção ou idosos.

SEM PROTEÇÃO

O controle trata da possibilidade de modificar o espaço de forma flexível. A impossibilidade de os funcionários de uma empresa determinarem a temperatura ou a iluminação em seu local de trabalho, eleva o nível de stress. O mesmo ocorre quando não há possibilidade de isolamento (ou ao contrário, a rotina é excessivamente solitária) seja no escritório ou na própria casa, pois privacidade e interação social bem dosadas contribuem para sensação de controle sobre o meio. Um dos elementos de design mais importantes nas casas é a hierarquia espacial de intimidade; idealmente, deve haver ambientes nos quais as pessoas possam ficar sozinhas, sem serem perturbadas. Móveis que podem ser rearranjados também favorecem a sensação de controle.

“A arquitetura atual raramente satisfaz a necessidade humana de proteção”, critica o pesquisador Riklef Rambow, do Instituto de Arquitetura e Psicologia Ambiental, em Berlim. “Hoje em dia, a proximidade dos prédios, grandes janelas frontais e cômodos de vidro estão na moda. Muitos arquitetos parecem não considerar o fato de ser desagradável quando o vizinho nos observa enquanto comemos, e ainda examina se estamos usando meias iguais.” Mesas de trabalho costumam ser posicionadas para fornecer boa visão do local e das pessoas que entram no espaço – cumprindo assim uma típica regra do feng shui. Em geral, o que nos parece espacialmente agradável satisfaz instintos humanos básicos. “É o caso da preferência da maioria das pessoas por se sentar com as costas para a parede, que corresponde à necessidade de controle territorial”, comenta a psicóloga habitacional, Antje Flade.

Segundo Evans e McCoy, acrescentar ao ambiente objetos que remetam a elementos da Natureza – como lareira, fonte de água, aquário, flores ou janela com vista para um jardim – serve ao repouso. O efeito tranquilizante desse tipo de elemento já foi comprovado. Em 1984, o diretor da Universidade de Delawar, Newark, Estados Unidos, Roger S. Ulrich, comprovou em um estudo que pacientes hospitalizados que podiam ver um parque de suas camas se recuperavam mais rapidamente e precisavam de menos analgésicos. Já os que olhavam para fachadas de casas se mostravam mais agitados e desestimulados.

Mas o que fazer se a vista da janela só dá para ruas e paredes? O pesquisador Yannick Joye, da Universidade Livre de Bruxelas, afirma que plantas, fotos de paisagens e até protetores de tela com motivos da Natureza favorecem o bem-estar. Essa influência sobre o desempenho intelectual foi mensurada. Em 2003, pesquisadoras japonesas da Universidade Doshisha, em Kyoto, submeteram 140 voluntários a um teste de criatividade e notaram que os que obtinham melhor desempenho intelectual eram os que podiam ver plantas ou tinham um vaso de plantas diante da mesa de trabalho.

Nos manuais de decoração é comum ler que “vermelho estimula o apetite”, “laranja tem efeito energizante”, “verde acalma”, “amarelo provoca alegria”. É consenso que reagimos intuitivamente às cores e não é à toa que, na arquitetura, o jogo de tons e luzes é tão importante. Fazer afirmações sobre o efeito psicológico que exercem sobre as pessoas, porém, é um pouco mais complexo.

Por um lado, existem preferências relacionadas às culturas, pois as cores têm conteúdos simbólicos diferentes em cada cultura. Enquanto nos países ocidentais o preto é a cor do luto, na China, por exemplo, é o branco que simboliza a morte. Nesse país, o amarelo é a cor da realeza e da divindade, enquanto na Alemanha os marginalizados muitas vezes eram obrigados a usar amarelo (essa era a cor dos lenços de cabeça de prostitutas na Hamburgo medieval, e da estrela de Davi pregada à roupa dos judeus durante o regime nazista).

Nos anos 80, a psicóloga e socióloga Eva Heller realizou, na Alemanha, uma pesquisa com mais de 1.800 pessoas de diferentes faixas etárias, criando uma espécie de “instantâneo de ideias” associadas a determinadas cores. Aproximadamente 44% dos entrevistados vinculavam conforto à cor marrom e o mesmo porcentual classificou a cor como “fora de moda”. Independente das preferências culturais ou modismos, experiências pessoais também influenciam a forma como cada um percebe a cor: É comum as pessoas notarem, por exemplo, que o laranja parece “alegre”, pois os ônibus escolares da sua infância eram exatamente do mesmo tom, ou “odeiam o verde oliva” porque lembra um período de ditadura militar e repressão.

Assim, não surpreende que estudos sobre a influência das cores cheguem a resultados conflitantes. Várias pesquisas têm falhas metodológicas – por exemplo, quando tons de brilho e saturação claramente diferentes eram comparados entre si. Os pesquisadores Patrícia Valdez e Albert Mehrabian, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizaram em 1994 um experimento convincente sobre as emoções despertadas pelas cores. Eles testaram dez comprimentos de ondas, variando o brilho e o grau de saturação. Em uma ampla área percebeu-se que quanto mais clara uma cor, mais impressões positivas ela despertava. Quanto mais intensa e escura, mais crescia a tensão. E, surpreendentemente, não foram as ondas vermelhas, mas sim as verde-amareladas que provocaram maior agitação nos observadores.

Resultados obtidos em um estudo sobre o efeito das cores sobre o espaço, feito por Heiko Hecht e Susanne Marschall, da Universidade de Mainz, corroboram as conclusões da pesquisa americana. O ponto de partida foi uma cena do filme de Ingmar Bergman, Gritos e sussurros, de 1972, que ocorre em grande parte em uma sala decorada de vermelho-sangue. Mas será que é realmente essa cor que causa no espectador sensações desconfortáveis de estreitamento espacial?

Os pesquisadores trocaram o vermelho por um amarelo com o mesmo grau de brilho e saturação. Os sujeitos que observaram a imagem tingida com a nova coloração perceberam as distâncias entre as pessoas, exatamente da mesma forma que os participantes aos quais foi apresentada a cena original. Numa comparação direta, eles também utilizaram mais frequentemente os predicados “quente”, “agradável” e “calmante” para o quarto vermelho; já o amarelo foi classificado como “frio”, “desagradável” e “negativo”.

Em seus últimos experimentos, Hecht testou a percepção espacial associada à claridade dos tons de cor de paredes e tetos. Os voluntários olhavam para um ambiente simulado, no qual a altura e a largura, assim com a cor de paredes, teto e chão variava. Resultado surpreendente: o contraste entre o teto e a parede não teve nenhum efeito direto sobre a avaliação da altura do ambiente. Somente a clareza foi decisiva: quanto mais claro o teto, mais alto ele parecia; quanto mais suave o tom das paredes, maior a sala “ficava”.

Um dado curioso: tetos altos facilitam voos intelectuais e sob eles as pessoas têm mais ideias “livres”. Isso foi comprovado em 2007 por Joan Meyers-Levy e Rui Zhu, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis. Os participantes da pesquisa deviam criar novas palavras por meio do rearranjo das letras. Um grupo ficava em uma sala com três metros de altura, e o outro, em um ambiente com dois metros. Os voluntários das salas mais altas montaram as palavras mais rapidamente. Além disso, comparados aos da outra equipe, eles assinalaram com maior frequência, em um questionário, os itens em que se referiam às sensações de liberdade.

MAIS LUZ, MAIS PRAZER

Assim como a cor, as condições de iluminação também exercem influência mensurável sobre as pessoas. Vários estudos comprovam que ambientes claros com muita luz natural têm efeitos positivos. Os resultados foram fornecidos por pesquisas nas quais foram comparadas intensidade de luz natural em escritórios panorâmicos, onde normalmente, apenas uma parte dos lugares está perto das janelas. Em 2007, por exemplo, os pesquisadores da Universidade Gazi, em Ankara, entrevistaram aproximadamente 100 profissionais que trabalhavam em escritórios panorâmicos: quem ficava sentado mais distante das janelas mostrou-se bem menos satisfeito e fez pior avaliação das condições de trabalho de maneira geral.

Se é possível que as lâmpadas compensem a falta de luz natural, é questionável: as características da luz artificial ainda estão muito distantes das da luz solar e, acima de tudo, elas não alcançam o grau de luminosidade adequado. Sob o ponto de vista das psicólogas Shelley McColl e Jennifer Veitch, da Universidade McGill em Montreal, essas lâmpadas não são superiores a outras fontes de luz artificial no que diz respeito aos efeitos sobre o desempenho intelectual ou a saúde.

O pesquisador lgor Knez, do Instituto Real de Tecnologia da Suécia, trabalhou nos últimos anos em vários estudos, com os efeitos da luz artificial. Ele deparou com um quadro diferenciado: a preferência individual por uma luz mais quente (avermelhada) ou uma mais fria (azulada) parece estar relacionada à idade e, talvez, ao sexo. Pessoas mais idosas sentiam-se melhor com uma iluminação mais fria, ao contrário dos jovens, e em especial as mulheres. Sob condições que as pessoas consideravam mais confortáveis, o humor e o desempenho intelectual melhoravam significativamente. Ou seja: para ter melhores condições de trabalho e produzir mais, sem tanto desgaste, cada pessoa deveria ter a possibilidade de escolher a fonte de luz, natural ou artificial, que mais o agrade e determinar o grau de luminosidade que prefere.

Apesar desses estudos isolados, o que se vê é que a maioria dos locais de trabalho ainda não é organizada com o objetivo de proporcionar bem-estar a seus ocupantes. Cabe a cada um, portanto, observar a si mesmo e usar criatividade para personalizar os espaços onde passa tantas horas de seu dia. Talvez um conselho do arquiteto alemão Cünter Behnisch, nesse caso, seja bem-vindo: “Se quer conforto, arrume um gato, ou melhor, dois de uma vez!”. Por quê? Ainda não há comprovação científica, mas qualquer um que os observe é obrigado a reconhecer: em qualquer residência, esses bichinhos sempre encontram um lugar agradável e adequado para uma soneca restauradora.

O BENEFÍCIO DAS PAREDES ALTAS

Nos últimos anos, escritórios panorâmicos e lofts tornaram-se cada vez mais frequentes. Eles deviam tornar os espaços multifuncionais, mais amplos e flexíveis. Além disso, nos ambientes de trabalho, a ausência de paredes deveria facilitar a comunicação entre os funcionários. O que os estudos mostram, porém, é que nesses ambientes as pessoas se distraem com mais frequência e sofrem mais com interrupções e ruídos das conversas de outras pessoas, toque de telefones e pelo ir e vir geral. Em 2002, pesquisadores da Universidade Calgary, no Canadá, detectaram altas taxas de stress entre empregados que haviam sido transferidos de um escritório convencional para um ambiente sem divisórias. Segundo um estudo australiano, a satisfação e o desempenho diminuem principalmente entre as pessoas que precisam realizar tarefas complexas, que exigem concentração. Já as meias-paredes ajudam a reduzir as interrupções, mas não as eliminam. De qualquer forma, quanto mais altas as paredes, mas satisfeitos se mostram os funcionários.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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