EU ACHO …

PERTENCER

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu, de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei essa fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade – sou individualista demais para que pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima –, eu, que não quero a popularidade, sinto-me, no entanto, feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que nada têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por “fazer parte”.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A COR SUBIU À CABEÇA

O estilo “cabelo fantasia” é tendência dos salões de beleza mundo afora e vai colorir o 2021 de muita gente. Não importa a idade ou a profissão, o arco-íris capilar está disponível para todos

Pintar os cabelos com cores exóticas não é mais coisa de adolescente e virou assunto nacional quando a apresentadora Ana Maria Braga apareceu no começo do ano com as madeixas cor-de-rosa. No último dia 08, ela decidiu pelo azul. Aos 71 anos, Ana Maria disse em seu Instagram que é “bom mudar de vez em quando”. Opinião que diversas celebridades já seguem à risca há tempos. Katy Perry, Dua Lipa, Miley Cyrus, Gwen Stefani e mais recentemente, Billie Eilish, que ganhou o mundo com suas mechas verdes fluorescentes. A novidade? Pessoas comuns agora estão aderindo ao colorido sem serem julgadas por isso. Seja para fugir do tédio causado pela pandemia ou para realizar um sonho de vida: colorir os cabelos pode ser a mudança que você quer ver no espelho.

FUGA DO TÉDIO

Esse foi o caso da médica veterinária Laís Taveiros que, aos 52 anos, decidiu riscar uma das metas de vida que mantém em uma lista de coisas para fazer ao longo de sua existência e “pintar o cabelo de azul” era uma delas. Por ter morado muitos anos na Alemanha, ela disse que quando mantinha os cabelos vermelhos, ninguém dava bola, mas agora que está no Brasil a situação talvez seja diferente. “Cheguei em um patamar da minha carreira que não preciso mais manter uma imagem de qualquer coisa que seja”, diz ela. Atualmente a profissional ensina futuros médicos veterinários e, como professora, acha que a curiosidade com a cor de seu cabelo pode até ajudar “a dar uma animada na aula.” Já a meteorologista Nicole Monteiro diz que a ideia de pintar o cabelo começou na adolescência como um sinônimo de revolta, mas foi algo passageiro. Contudo, em 2020 e, aos 23 anos, para fugir do tédio do isolamento social, apostou primeiramente no laranja e na última terça-feira aderiu ao roxo.

Se na ficção e em desenhos animados, é comum vermos personagens com cabelos coloridos, a tendência que chega aos meros mortais pode ser uma vontade de extravasar ou “alegrar a vida”. O cabelereiro das famosas coloridas, Raul Carvalho, começou com o salão “Novo Arte” em 1997 e hoje atende diversas celebridades como a cantora Baby do Brasil, uma veterana dos cabelos coloridos, e a escritora e influencer Maíra Medeiros, mas a lista é, segundo ele, bem diversa. “Esses dias atendi uma senhora de cabelos brancos. O público é variado”. Ele diz ainda que para muitas pessoas, manter um cabelo com cores fortes não é uma brincadeira ou uma moda passageira. Há ainda o “hair tattoo” que é a possibilidade de se usar a tinta para fazer desenhos e mandar mensagens, moda iniciada com jovens da periferia e jogadores de futebol.

Desde o início do movimento punk, na Inglaterra, moicanos coloridos faziam a cabeça da garotada, mas até chegarem à uma das apresentadoras mais famosas e respeitadas da televisão brasileira, demorou 40 anos. “Infelizmente, um advogado talvez ainda não possa tingir os cabelos de pink e ir trabalhar. Ainda depende muito da profissão e do estilo de vida da pessoa”, afirma Carvalho. Porém, para ele, esse é um cenário que pode ser contornado, já que existem perucas coloridas ou tinturas temporárias para quem quer a aventura para apenas um fim de semana. “O segredo é não levar a vida em preto e branco e nem tudo tão a sério”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE MARÇO

COBIÇA, O CAMINHO DO FRACASSO

O perverso quer viver do que caçam os maus, mas a raiz dos justos produz o seu fruto (Provérbios 12.12).

Os ímpios cobiçam as riquezas ilícitas acumuladas pelos maus. Como parasitas, procuram viver da seiva dos outros. Como sanguessugas, nunca se satisfazem e querem sempre mais. São ávidos pelo lucro fácil. São rápidos para armar esquemas de corrupção que assaltem os cofres públicos. São espertos para tirar vantagens imediatas. Para isso, estão dispostos a mentir, a corromper, a roubar e a matar. O perverso quer viver do que caçam os maus. Os maus são os predadores, as bestas-feras que atacam e sangram suas vítimas. Os perversos são aqueles que se repastam e se abastecem dos despojos deixados pelos maus. Nossa sociedade fermentada pela maldade, embriagada pela injustiça e dominada pela opressão tem produzido uma alcateia desses lobos devoradores. Suas vítimas estão espalhadas por todos os lados. O fruto dessa cobiça é maldição, miséria e morte, mas a raiz dos justos floresce e produz o seu próprio fruto. O justo não é governado pela ganância insaciável, mas pelo trabalho honesto. Não é um parasita que se alimenta da seiva alheia, mas floresce e produz o seu próprio fruto. O perverso é uma maldição para a sua geração, mas o justo é uma bênção entre o seu povo.

GESTÃO E CARREIRA

PRISÃO INTERIOR

Eles não querem estar na empresa, mas também não saem. Saiba identificar os profissionais entrincheirados, porque isso acontece e como lidar com a situação

Marlene Dias acorda todo dia às 6 horas para estar às 8 em ponto no setor de administração da empresa em que trabalha. Quando entrou na organização em 2016, ela despertava pronta para os desafios profissionais do dia. Dois anos depois, Marlene levanta sem o entusiasmo de antes. “Não aguento mais fazer a mesma coisa, mas não posso deixar o emprego. Tenho dois filhos na faculdade e preciso dos benefícios. Além disso, o mercado está ruim. Se saio, talvez não consiga um cargo tão bom quanto o que tenho”, afirma. Marlene não sabe, mas é uma profissional entrincheirada. O conceito, proposto pelos pesquisadores americanos Kerry Carson, Paula Carson e Arthur Bedeian, refere-se ao funcionário que permanece no serviço, sobretudo, por necessidade. Segundo os autores, o indivíduo entrincheirado leva em consideração três conjuntos de fatores para continuar no emprego. O primeiro seria o investimento para estar em seu cargo. Aqui, entram treinamentos feitos para realizar atividades específicas, o tempo que levou para se adaptar a processos corporativos, o reconhecimento conquistado e o relacionamento com colegas. Se o trabalhador sente que perderá isso saindo da empresa, ele acaba ficando. O segundo conjunto refere-se à estabilidade financeira e aos benefícios em geral, como férias, 13º salário, bônus e participação nos lucros. Se a pessoa está implicada financeiramente e não pode abrir mão dessas regalias, ela também permanece na organização. No entanto, é o terceiro conjunto de fatores que define a amarra invisível: quando o empregado desconfia que não conseguirá outra posição caso deixe a companhia, seja por enxergar lacunas em seu perfil profissional, seja por considerar que sua idade desfavorece sua reinserção no mercado de trabalho, entre outros.

IDENTIFIQUE OS APRISIONADOS

A tese de doutorado Trabalhador entrincheirado ou comprometido? da professora Ana Carolina de Aguiar Rodrigues, doutora em psicologia social e do trabalho pela Universidade Federal da Bahia, corrobora a ideia de que a percepção do funcionário sobre a falta de alternativa configura o entrincheiramento – e é um bom começo para o líder de RH. Com base nisso, pode-se perguntar: por que o empregado tem essa sensação? Quando, como e de que maneira as expectativas dele se desalinharam com as da corporação? Quando isso acontece, é o fim de um ciclo ou ainda há o que fazer? Para Márcia Fernandes, diretora da Fundação Promon de Previdência Social e diretora de RH há 20 anos, o primeiro passo é identificar os “aprisionados”- tarefa nem sempre fácil. “Pesquisas de clima e avaliações periódicas ajudam. Apesar de o entrincheirado não ser um funcionário ruim, essa situação acaba gerando alguma consequência em seu trabalho e nodos que estão à sua volta”, diz.

Algumas pistas ajudam a enxergar um empregado assim. Segundo Henrique Vailati, diretor de recursos humanos da Roche Diagnóstica, os que se sentem presos perdem o interesse em se atualizar e inventam desculpas pela carência de resultados. “Além disso, tendem a colocar a responsabilidade de suas ações, ou a falta dela, nos outros”, afirma. Márcia percebe ainda que a pessoa deixa de oferecer além do que é esperado para sua função. “Se a empresa implementa grupos, como os de estudo, e o funcionário nunca participa, isso pode ser um indício de entrincheiramento.”

COMPARTILHE A RESPONSABILIDADE

Não basta, entretanto, focar apenas as falhas do indivíduo. A área de gestão de pessoas também tem sua cota de responsabilidade nessas situações. “Se a corporação não oferece treinamentos, desafios, não valoriza o profissional que merece ser promovido nem institui uma boa política de feedback, ela pode frustrar as expectativas do trabalhador, a ponto de ele ficar no emprego só por necessidade”, afirma Márcia.

A executiva destaca que as trincheiras podem surgir de situações circunstanciais. “Investimos num MBA no exterior para um empregado, com o intuito de que ele voltasse à companhia e assumisse mais responsabilidades”, diz Márcia. Mas houve uma mudança de cenário e, quando o profissional voltou, a Promon não tinha um cargo adequado às suas novas habilidades. “Ele ficou um tempo conosco em seu cargo anterior, por necessidade. Como não tínhamos como suprir suas expectativas, preferimos desligá-lo e tê-lo no radar para outro momento da companhia.”

Francisco Cherny, diretor e especialista em liderança e gestão de pessoas na consultoria Axialent, afirma que o assunto é visto como tabu. “O funcionário teme falar que está na corporação por necessidade e ser demitido. A área de recursos humanos, por sua vez, encara a demissão do entrincheirado como única saída, o que é equivocado.” Apesar de não existir um manual aplicável a todos os “prisioneiros”, uma coisa deve ser feita em qualquer situação: conversar com empatia para entender por que a pessoa se sente presa, para, junto com ela, chegar a uma solução adequada para ambos os lados. “Se o profissional percebe que a companhia vai ajudá-lo, ele tende a falar com franqueza sobre assuntos importantes, como satisfação, motivação, engajamento e expectativas”, diz Cherny.

ENTENDA AS AMARRAS

Ana Carolina Rodrigues, que dá aulas na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, recomenda ao RH evitar uma visão rígida sobre motivação, satisfação e engajamento do entrincheirado – até porque nem sempre ele está completamente desmotivado, insatisfeito e desengajado. “Muitas vezes, vê-se a motivação como um conceito generalizado, mas ela está relacionada a uma atividade específica”, diz a professora. “O trabalhador pode se animar para realizar algumas atividades; outras, não. O que deve ser analisado são os estados de frequência motivacional.” A satisfação tampouco é única: o indivíduo pode estar satisfeito com a equipe, mas não com o líder, por exemplo. Dificilmente há contentamento em todos os aspectos do trabalho. Em relação ao engajamento, há duas variáveis: mobilização e aplicação de energia – e o significado das tarefas para o indivíduo.

Esses três conceitos (motivação, satisfação e engajamento) estão relacionados ao entrincheiramento e, por isso, devem ser pauta na conversa com os empregados. “A pessoa faz um balanço desses fatores para avaliar sua relação com a empresa. A organização, por sua vez, analisa resultados, motivação, satisfação e engajamento do funcionário para ver o que pode ou não ser melhorado. E esse alinhamento de expectativas que balizará a decisão a respeito da saída ou não de alguém”, diz Vailati, da Roche. Ele reitera a importância de mostrar às pessoas que essa, e uma percepção, não uma realidade. “Apesar de o profissional sentir que não tem saída, há sempre uma solução.”

Pequenas transformações também melhoram a percepção do indivíduo. “Às vezes, o empregado quer mudanças simples, como fazer home office uma vez por semana. Se a companhia oferece isso, ele pode se reengajar em suas atividades”, diz Cherny, da Axialent. Por isso, a importância de conversar abertamente.

ABRA AS CORRENTES

Além das pesquisas de clima e avaliação constante, outra forma de minimizar a sensação de prisão é abrir espaços para assuntos de interesse dos funcionários que estejam conectados à estratégia da organização. Na startup Social Miner, que implementa soluções de inteligência artificial em marketing, o RH criou o programa Missões, no qual o pessoal propõe e lidera projetos na companhia. Terena Sarpi, líder em gestão de pessoas, acredita que a iniciativa tem potencial para reconectar os profissionais. “Eles se sentem desafiados a fazer um cruzamento entre assuntos que os motivam e nossas áreas de atuação. Além disso, têm a oportunidade de exercitar habilidades que não necessariamente usam no dia a dia”, diz. Um exemplo é o da funcionária da área de atendimento ao cliente que montou um plano para conscientizar os colegas de trabalho sobre o impacto ambiental do lixo e elaborar uma proposta para a Social Miner descartar adequadamente os materiais.

O envolvimento da área de recursos humanos com os medos e os anseios dos trabalhadores é essencial para minimizar o entrincheiramento. A Roche Diagnóstica tirou o peso negativo que a palavra “avaliação” costuma ter. “Estabelecemos o check-in, uma maneira mais informal de o gestor dar feedback aos trabalhadores”, afirma Vailati. No lugar daquele processo com data marcada, os funcionários são incentivados a tomar um café com o chefe e a falar sobre expectativas e objetivos – inclusive ouvindo as aspirações do líder.

Com mais diálogo e sensibilidade, quem sabe as empresas conseguirão se reconectar às Marlene que existem mundo afora.

QUEM É O ENTRINCHEIRADO

O perfil mais comum é o que apresenta satisfação, motivação e engajamento baixos de forma geral. Há também aquele que demonstra níveis considerados adequados para a empresa, mas que gostaria de estar mais satisfeito, motivado e engajado. É possível que esse funcionário cumpra as expectativas do chefe, entregando o que precisa, mas que esteja deixando de lado as próprias expectativas de carreira. Nos dois casos, quando há um desalinhamento entre perspectivas e o trabalhador não sai porque não vê outra possibilidade no mercado, há o entrincheiramento.

ESTADOS PSICOLÓGICOS

Compreenda o que passa no interior de cada um

SATISFAÇÃO

Quando a percepção do funcionário em relação à companhia está alinhada com suas expectativas e seus valores.

MOTIVAÇÃO

Sempre se relaciona a uma atividade específica. O empregado pode ter mais motivação para realizar determinadas tarefas do que outras.

ENGAJAMENTO

É a mobilização e aplicação de energia nas atividades. Está ligada também ao significado do trabalho para o indivíduo.

ENTRINCHEIRAMENTO

Ocorre quando o profissional fica na empresa por não enxergar possibilidade de sair dela.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOLOGIA DA ARQUITETURA

Estruturas, cores, variações de luminosidade e peças de decoração influenciam estados de humor; especialistas tentam desvendara maneira como o cérebro processa estímulos ambientais para criar espaços mais confortáveis

Durante muitos anos, prevaleceu a ideia de que arquitetos, em geral, não planejam casas para que as pessoas se sintam bem dentro delas. Realmente, vários designers nos anos 70 viam seus projetos mais como uma obra de arte, guiando-se por prioridades estéticas. Não era esperado que os futuros moradores interferissem no processo de criação. Essa visão, entretanto, tem se modificado. A pergunta sobre o que torna um espaço realmente aconchegante, porém, ainda não foi totalmente respondida. No início dos anos 80, a psicologia da arquitetura dava seus primeiros passos, mas sabia-se muito pouco sobre como os ambientes influenciavam as pessoas. Nos anos 90, resultados da doutrina chinesa do feng shui, misturada às ideias new-age chamaram a atenção de muita gente: mesas de jantar quadradas foram substituídas por redondas, plantas com folhas pontiagudas foram banidas dos corredores, e irregularidades na planta das casas terminara resolvidas com espelhos. Foi nessa época, também, que as paredes ganharam cores.

No Brasil, embora os conhecimentos de psicologia ainda sejam pouco aplicados à arquitetura e apareçam de forma fragmentada, os olhares se tornaram mais apurados para identificar como prédios e ambientes podem ser mais adequados às necessidades humanas. Segundo o psicólogo Gary W Evans, da Universidade de Cornell, em Ithaca, Estados Unidos, o homem moderno, habitante das grandes cidades, passa mais de 90% da vida em prédios. Com base nos conhecimentos da psicologia ambiental, Evans e sua colega, Janetta Mitchell McCoy, definiram cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar de uma pessoa: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso. As denominações parecem abstratas, mas por trás delas há conceitos bastante compreensíveis.

A estimulação refere-se ao quão enfadonho ou instigante um ambiente pode parecer, considerando que a maioria funciona melhor em locais sem grandes excessos. Parece óbvio que uma arquitetura carregada de elementos, como cores gritantes e estampas chamativas causem desconforto; mas há outros fatores a ser considerados, como a proteção contra ruídos externos e a existência de espaço livre suficiente para cada morador, já que o grande número de interações sociais também provoca estimulação em excesso – e desconforto. A socióloga Wendy C. Regoeczi, da Universidade Estadual de Cleveland, em Ohio, observou, em 2003, que a proximidade espacial não leva as pessoas a um convívio mais íntimo, mas sim à retração ou a comportamentos agressivos, e esse efeito pode ser mais pronunciado quando há alta concentração habitacional por metro quadrado.

A segunda dimensão, a coerência, reflete-se principalmente na divisão de uma construção e determina o quão facilmente nos orientamos nela. Grandes prédios onde as pessoas se perdem nos corredores são exemplos de uma arquitetura incoerente; nesse caso a solução é simples: basta adotar sistemas indicadores de caminhos. Já a luminosidade de um prédio, garantida pelas janelas que possibilitem a visão de pontos de referência externos é vantajosa. A affordance é a qualidade de um ambiente que permite aos frequentadores realizar ações com mais ou menos facilidade. Naturalmente, seu grau depende do estilo de vida dos interessados. Por exemplo, desníveis e escadas podem ser um problema para famílias com crianças pequenas, pessoas com dificuldade de locomoção ou idosos.

SEM PROTEÇÃO

O controle trata da possibilidade de modificar o espaço de forma flexível. A impossibilidade de os funcionários de uma empresa determinarem a temperatura ou a iluminação em seu local de trabalho, eleva o nível de stress. O mesmo ocorre quando não há possibilidade de isolamento (ou ao contrário, a rotina é excessivamente solitária) seja no escritório ou na própria casa, pois privacidade e interação social bem dosadas contribuem para sensação de controle sobre o meio. Um dos elementos de design mais importantes nas casas é a hierarquia espacial de intimidade; idealmente, deve haver ambientes nos quais as pessoas possam ficar sozinhas, sem serem perturbadas. Móveis que podem ser rearranjados também favorecem a sensação de controle.

“A arquitetura atual raramente satisfaz a necessidade humana de proteção”, critica o pesquisador Riklef Rambow, do Instituto de Arquitetura e Psicologia Ambiental, em Berlim. “Hoje em dia, a proximidade dos prédios, grandes janelas frontais e cômodos de vidro estão na moda. Muitos arquitetos parecem não considerar o fato de ser desagradável quando o vizinho nos observa enquanto comemos, e ainda examina se estamos usando meias iguais.” Mesas de trabalho costumam ser posicionadas para fornecer boa visão do local e das pessoas que entram no espaço – cumprindo assim uma típica regra do feng shui. Em geral, o que nos parece espacialmente agradável satisfaz instintos humanos básicos. “É o caso da preferência da maioria das pessoas por se sentar com as costas para a parede, que corresponde à necessidade de controle territorial”, comenta a psicóloga habitacional, Antje Flade.

Segundo Evans e McCoy, acrescentar ao ambiente objetos que remetam a elementos da Natureza – como lareira, fonte de água, aquário, flores ou janela com vista para um jardim – serve ao repouso. O efeito tranquilizante desse tipo de elemento já foi comprovado. Em 1984, o diretor da Universidade de Delawar, Newark, Estados Unidos, Roger S. Ulrich, comprovou em um estudo que pacientes hospitalizados que podiam ver um parque de suas camas se recuperavam mais rapidamente e precisavam de menos analgésicos. Já os que olhavam para fachadas de casas se mostravam mais agitados e desestimulados.

Mas o que fazer se a vista da janela só dá para ruas e paredes? O pesquisador Yannick Joye, da Universidade Livre de Bruxelas, afirma que plantas, fotos de paisagens e até protetores de tela com motivos da Natureza favorecem o bem-estar. Essa influência sobre o desempenho intelectual foi mensurada. Em 2003, pesquisadoras japonesas da Universidade Doshisha, em Kyoto, submeteram 140 voluntários a um teste de criatividade e notaram que os que obtinham melhor desempenho intelectual eram os que podiam ver plantas ou tinham um vaso de plantas diante da mesa de trabalho.

Nos manuais de decoração é comum ler que “vermelho estimula o apetite”, “laranja tem efeito energizante”, “verde acalma”, “amarelo provoca alegria”. É consenso que reagimos intuitivamente às cores e não é à toa que, na arquitetura, o jogo de tons e luzes é tão importante. Fazer afirmações sobre o efeito psicológico que exercem sobre as pessoas, porém, é um pouco mais complexo.

Por um lado, existem preferências relacionadas às culturas, pois as cores têm conteúdos simbólicos diferentes em cada cultura. Enquanto nos países ocidentais o preto é a cor do luto, na China, por exemplo, é o branco que simboliza a morte. Nesse país, o amarelo é a cor da realeza e da divindade, enquanto na Alemanha os marginalizados muitas vezes eram obrigados a usar amarelo (essa era a cor dos lenços de cabeça de prostitutas na Hamburgo medieval, e da estrela de Davi pregada à roupa dos judeus durante o regime nazista).

Nos anos 80, a psicóloga e socióloga Eva Heller realizou, na Alemanha, uma pesquisa com mais de 1.800 pessoas de diferentes faixas etárias, criando uma espécie de “instantâneo de ideias” associadas a determinadas cores. Aproximadamente 44% dos entrevistados vinculavam conforto à cor marrom e o mesmo porcentual classificou a cor como “fora de moda”. Independente das preferências culturais ou modismos, experiências pessoais também influenciam a forma como cada um percebe a cor: É comum as pessoas notarem, por exemplo, que o laranja parece “alegre”, pois os ônibus escolares da sua infância eram exatamente do mesmo tom, ou “odeiam o verde oliva” porque lembra um período de ditadura militar e repressão.

Assim, não surpreende que estudos sobre a influência das cores cheguem a resultados conflitantes. Várias pesquisas têm falhas metodológicas – por exemplo, quando tons de brilho e saturação claramente diferentes eram comparados entre si. Os pesquisadores Patrícia Valdez e Albert Mehrabian, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizaram em 1994 um experimento convincente sobre as emoções despertadas pelas cores. Eles testaram dez comprimentos de ondas, variando o brilho e o grau de saturação. Em uma ampla área percebeu-se que quanto mais clara uma cor, mais impressões positivas ela despertava. Quanto mais intensa e escura, mais crescia a tensão. E, surpreendentemente, não foram as ondas vermelhas, mas sim as verde-amareladas que provocaram maior agitação nos observadores.

Resultados obtidos em um estudo sobre o efeito das cores sobre o espaço, feito por Heiko Hecht e Susanne Marschall, da Universidade de Mainz, corroboram as conclusões da pesquisa americana. O ponto de partida foi uma cena do filme de Ingmar Bergman, Gritos e sussurros, de 1972, que ocorre em grande parte em uma sala decorada de vermelho-sangue. Mas será que é realmente essa cor que causa no espectador sensações desconfortáveis de estreitamento espacial?

Os pesquisadores trocaram o vermelho por um amarelo com o mesmo grau de brilho e saturação. Os sujeitos que observaram a imagem tingida com a nova coloração perceberam as distâncias entre as pessoas, exatamente da mesma forma que os participantes aos quais foi apresentada a cena original. Numa comparação direta, eles também utilizaram mais frequentemente os predicados “quente”, “agradável” e “calmante” para o quarto vermelho; já o amarelo foi classificado como “frio”, “desagradável” e “negativo”.

Em seus últimos experimentos, Hecht testou a percepção espacial associada à claridade dos tons de cor de paredes e tetos. Os voluntários olhavam para um ambiente simulado, no qual a altura e a largura, assim com a cor de paredes, teto e chão variava. Resultado surpreendente: o contraste entre o teto e a parede não teve nenhum efeito direto sobre a avaliação da altura do ambiente. Somente a clareza foi decisiva: quanto mais claro o teto, mais alto ele parecia; quanto mais suave o tom das paredes, maior a sala “ficava”.

Um dado curioso: tetos altos facilitam voos intelectuais e sob eles as pessoas têm mais ideias “livres”. Isso foi comprovado em 2007 por Joan Meyers-Levy e Rui Zhu, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis. Os participantes da pesquisa deviam criar novas palavras por meio do rearranjo das letras. Um grupo ficava em uma sala com três metros de altura, e o outro, em um ambiente com dois metros. Os voluntários das salas mais altas montaram as palavras mais rapidamente. Além disso, comparados aos da outra equipe, eles assinalaram com maior frequência, em um questionário, os itens em que se referiam às sensações de liberdade.

MAIS LUZ, MAIS PRAZER

Assim como a cor, as condições de iluminação também exercem influência mensurável sobre as pessoas. Vários estudos comprovam que ambientes claros com muita luz natural têm efeitos positivos. Os resultados foram fornecidos por pesquisas nas quais foram comparadas intensidade de luz natural em escritórios panorâmicos, onde normalmente, apenas uma parte dos lugares está perto das janelas. Em 2007, por exemplo, os pesquisadores da Universidade Gazi, em Ankara, entrevistaram aproximadamente 100 profissionais que trabalhavam em escritórios panorâmicos: quem ficava sentado mais distante das janelas mostrou-se bem menos satisfeito e fez pior avaliação das condições de trabalho de maneira geral.

Se é possível que as lâmpadas compensem a falta de luz natural, é questionável: as características da luz artificial ainda estão muito distantes das da luz solar e, acima de tudo, elas não alcançam o grau de luminosidade adequado. Sob o ponto de vista das psicólogas Shelley McColl e Jennifer Veitch, da Universidade McGill em Montreal, essas lâmpadas não são superiores a outras fontes de luz artificial no que diz respeito aos efeitos sobre o desempenho intelectual ou a saúde.

O pesquisador lgor Knez, do Instituto Real de Tecnologia da Suécia, trabalhou nos últimos anos em vários estudos, com os efeitos da luz artificial. Ele deparou com um quadro diferenciado: a preferência individual por uma luz mais quente (avermelhada) ou uma mais fria (azulada) parece estar relacionada à idade e, talvez, ao sexo. Pessoas mais idosas sentiam-se melhor com uma iluminação mais fria, ao contrário dos jovens, e em especial as mulheres. Sob condições que as pessoas consideravam mais confortáveis, o humor e o desempenho intelectual melhoravam significativamente. Ou seja: para ter melhores condições de trabalho e produzir mais, sem tanto desgaste, cada pessoa deveria ter a possibilidade de escolher a fonte de luz, natural ou artificial, que mais o agrade e determinar o grau de luminosidade que prefere.

Apesar desses estudos isolados, o que se vê é que a maioria dos locais de trabalho ainda não é organizada com o objetivo de proporcionar bem-estar a seus ocupantes. Cabe a cada um, portanto, observar a si mesmo e usar criatividade para personalizar os espaços onde passa tantas horas de seu dia. Talvez um conselho do arquiteto alemão Cünter Behnisch, nesse caso, seja bem-vindo: “Se quer conforto, arrume um gato, ou melhor, dois de uma vez!”. Por quê? Ainda não há comprovação científica, mas qualquer um que os observe é obrigado a reconhecer: em qualquer residência, esses bichinhos sempre encontram um lugar agradável e adequado para uma soneca restauradora.

O BENEFÍCIO DAS PAREDES ALTAS

Nos últimos anos, escritórios panorâmicos e lofts tornaram-se cada vez mais frequentes. Eles deviam tornar os espaços multifuncionais, mais amplos e flexíveis. Além disso, nos ambientes de trabalho, a ausência de paredes deveria facilitar a comunicação entre os funcionários. O que os estudos mostram, porém, é que nesses ambientes as pessoas se distraem com mais frequência e sofrem mais com interrupções e ruídos das conversas de outras pessoas, toque de telefones e pelo ir e vir geral. Em 2002, pesquisadores da Universidade Calgary, no Canadá, detectaram altas taxas de stress entre empregados que haviam sido transferidos de um escritório convencional para um ambiente sem divisórias. Segundo um estudo australiano, a satisfação e o desempenho diminuem principalmente entre as pessoas que precisam realizar tarefas complexas, que exigem concentração. Já as meias-paredes ajudam a reduzir as interrupções, mas não as eliminam. De qualquer forma, quanto mais altas as paredes, mas satisfeitos se mostram os funcionários.