EU ACHO …

FRASE MISTERIOSA, SONHO ESTRANHO

Às vezes me vêm frases completas, resultado retardado de pensamentos anteriores. São misteriosas essas frases porque, ao virem, não se ligam mais a nenhuma fonte. Por exemplo, a frase seguinte chegou-me e poderia ter sido dita por tantas pessoas infelizes: “Eu queria te dar pão para a tua fome, mas tu querias ouro. No entanto tua fome é grande como a tua alma que apequenaste à altura do outro.”

Por que estas palavras que não vivi eu própria? A única hipótese, por causa da palavra ouro, vem do sonho que uma leitora teve a meu respeito. Ela o escreveu para mim. A leitora assina-se Azalea, que depois se tornou uma grande amiga. E me escreveu: “Não se impressione, nem se assuste. A interpretação é a melhor possível. Sonhei com uma espécie de canteiro imenso, com a terra toda revolvida para os lados. Junto a este canteiro, abaixadas, ajoelhadas, muitas pessoas. Todas desconhecidas para mim, que, de perto, olhavam a cena. Umas, nem eu poderia saber se as conhecia ou não, tão enterrados estavam os rostos no trabalho de revolver e revirar a terra. Procuravam ouro, Clarice. E achavam. Porque, à frente de cada uma delas se avolumava, cada vez mais, um monte brilhante que não podia deixar de ser ouro.

“No meio daquela gente, alucinada, cavando também, uma pessoa de cara muito conhecida minha: Clarice Lispector, a escritora – a que para mim, sempre foi, desde o tempo de classe de literatura do clássico, a melhor escritora de nossa língua. O rosto era tão familiar que era visto por mim como se ali estivesse alguém de minha família. Então, com ansiedade igual à sua, passei a acompanhar o seu trabalho de cavar ouro.

“Ao contrário dos outros, à sua frente, havia um monte imundo de terra. Ouro, não. Os outros cavavam e, felizes, separavam o metal brilhante, aumentando sempre mais os montes. Você, não. Cada vez que, desesperada, enterrava suas mãos na terra remexida, dali retirava punhados de cabelos, escuros, sujos, horríveis.  E olhava para trás, com desespero, à minha procura, mostrava o resultado de sua busca.

“E novamente se entregava àquela louca, desesperada escavação. Seus olhares e seus gestos, mostrando-me as mãos sem ouro – nem cabelos dourados você tirava –, tudo isso me chegava como um apelo para que a ajudasse. Então, eu me dirigi até você. Toquei no seu ombro. Pedi-lhe que saísse dali. Aquilo não era para você. Esquisito porque em todos os momentos eu me sentia aflita, desesperada e doente, como se eu fosse a própria Clarice Lispector. Você me atendeu. Levantou-se e se dispôs a me acompanhar. De costas já para o grupo que continuava, sofregamente cavando, saí levando-a pela mão. Senti, então, que você relutava ainda. E olhava para trás. Pesarosa de se afastar dali, como se lá estivesse guardada a sua última esperança. Caminhamos um pouco, mãos dadas, sem falar. Você chorava muito, e de vez em quando se desprendia de mim e fitava longamente suas duas mãos vazias. Uma ao lado da outra. E soluçava: vazias, Azalea! Eu as retomava, com medo que você voltasse para aquele trabalho de loucos. Foi aí, então, que surgiu à nossa frente o homem. Todo em ouro, mas era vivo pois andava e sorria bondoso, amigo. Conhecido seu. Meu, não. Você gritou o nome e correu para ele. Abraçados, muito unidos, eu já não distinguia quem era de ouro, você ou ele. Ambos brilhavam e uma claridade, uma luz intensa tomou conta de tudo. Acordei chorando muito. Contei o sonho aos meus, na mesa do café. Era domingo. Meu cunhado disse: ‘Olhe, Clarice Lispector deve estar hoje no Jornal do Brasil, vou lá fora comprar um para você.’ Daí já comecei com esta vontade de lhe falar. Escrevendo, pelo telefone, de algum modo eu queria lhe falar. Meu cunhado voltou e disse: ‘Ela escreve aos sábados.’ Esperei até o próximo sábado (nos outros dias da semana leio outro matutino). E aquele sábado, o seu jornal fez com que Clarice entrasse, nesta manhã de sol e de friozinho bom de abril, aqui em casa.”

Azalea não ficou apenas na carta. Enviou-me, com a carta, um rapaz novo, puro, límpido: era Domenico, com rosas brancas de trepadeira para mim. Essas rosas são muito misteriosas: quanto mais passa o tempo e elas envelhecem, mais perfumadas ficam. Telefonei para Azalea contando e ela disse que essas rosas são assim mesmo e vai me dar de presente uma muda da planta para eu pôr no meu terraço, perto das grades, para elas poderem subir e perfumar a minha vida. (Agora, por falar em perfume, senti tanta saudade, que fui para o meu quarto e passei Scandal de Lanvin pelos meus cabelos. E, como tenho cabelos claros, imaginei que tinham ficado de ouro, como no sonho de Azalea).

Fiquei impressionada com o sonho e só sei que ele é simbólico. Perguntarei a um feiticeiro amigo meu – psicanalista – que interpretação dar ao ouro, e também à minha frase sobre ouro e pão. E eis que cheia de alegria lembrei-me de que pão tem a riqueza do trigo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TALENTOS PRECOCES

Crianças e adolescentes superam atletas mais velhos, surpreendem pelo desempenho excepcional e tornam-se esperança para os Jogos Olímpicos

A voz fina e meiga não deixa dúvida: Rayssa Leal ainda é uma criança. E também é uma das maiores promessas do esporte olímpico brasileiro. Em Imperatriz, no interior do Maranhão, a menina que acaba de completar 13 anos se esforça para equilibrar os estudos, a vida de skatista – ela já é uma das mais destacadas do país – e os momentos de lazer na companhia dos irmãos. A forma descontraída e leve como trata o esporte não é desinteresse, apenas o comportamento inerente à idade. Em 2019, aos 11 anos, Rayssa surpreendeu o mundo, sagrando-se a campeã mais jovem de uma etapa da Street League Skateboarding, uma das principais competições da modalidade, em Los Angeles. Sentiu a pressão? Nada disso. “Nasci preparada”, ela brinca.

Mas Rayssa não está para brincadeira e não é um caso isolado. A americana Cori Gauff, então com apenas 15 anos, superou a poderosa Venus Williams na primeira rodada de Wimbledon em 2019 e hoje se apresenta como uma das principais promessas do tênis. Achinesa Zhang Jiaqi acumula medalhas de ouro em torneios de saltos ornamentais desde 2018, quando tinha apenas 14 anos. A siria Hend Zaza, nascida em 2009, já está classificada para o tênis de mesa da Olimpíada de Tóquio e será uma das atletas olímpicas mais novas a competir desde a participação da patinadora artística romena Beatrice Hustiu nos Jogos de Inverno de 1968, quando tinha apenas 11 anos.

Tanta precocidade levanta um debate: não seria um fardo pesado demais para um corpo em desenvolvimento? Os especialistas afirmam que não. Alguns fatores são preponderantes para que as crianças possam competir em alto nível. “Não vamos ver um atleta de 13 anos numa final olímpica dos 100 metros rasos”, afirma Gustavo Cardozo, diretor da clínica Decordis e estudioso da maturação de jovens atletas. Modalidades que demandam força física requerem a formação completa do corpo. Outras, como o skate, a ginástica e saltos ornamentais, dependem mais da técnica empregada pelos esportistas. “Quando novos, eles têm alia capacidade de aprendizado e treinamento”, diz Cardozo.

Nem toda criança, porém, consegue se desenvolver como atleta. Três fatores são primordiais para o sucesso. O primeiro é o genótipo: já nascer com favorecimento neuromotor e cognitivo. O segundo é o fenótipo, ou seja, o ambiente em que ela está envolvida – na prática, treinamento e alimentação adequados. Por fim, a epigenética, área de estudo dos estímulos internos e externos misturados e a capacidade de aprendizado. A maturação do atleta é outro ponto decisivo. Uma criança de 12 anos pode já ter a idade biológica de 19, dependendo da evolução muscular e hormonal. Seu corpo pode estar pronto para certas atividades e a tecnologia permite que os preparadores identifiquem isso. Uma criança com flexibilidade, força e resistência desenvolvidas cedo tende a ser um atleta de alto rendimento.

A chave é o tipo de treinamento. “A carga tem de ser individualizada. Se a criança tem característica para ganho de força, pode-se aumentar a carga e a frequência de treino”, avalia Paulo Zogaib, especialista em medicina esportiva e fisiologia da Universidade Federal de São Paulo. Isso vale também para campeões adultos, como Rayssa provavelmente se tornará.

RAYSSA LEAL, 13 anos, skatista

Vice-campeã mundial, indicada em 2019 para o Laureus, prêmio dado aos esportistas de maior destaque. Ganhou elogios até de Tony Hawk, lenda do skate: “Ela é fora da curva,” afirmou. A “Fadinha”, como é conhecida, está perto de garantir sua vaga nos Jogos de Tóquio – a classificação depende do ranking mundial e há ainda alguns torneios em andamento

ZHANG JIAQI, 16 anos, saltadora ornamental

O primeiro ouro veio no campeonato asiático de saltos ornamentais em 2018. No mesmo ano, também venceu as duas provas na plataforma de 10 metros da Copa do Mundo em Wuhan. No Mundial de Esportes Aquáticos do ano seguinte, conseguiu mais uma medalha de ouro para a coleção.

CORI “COCO” GAUFF, 16 anos, tenista

Apareceu como promessa em 2019 ao derrotar Venus Williams e avançar até a quarta rodada em Wimbledon, perdendo para a campeã Simona Halep. Vem de uma família de atletas: o pai jogou basquete; a mãe foi ginasta e também competiu no atletismo

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE MARÇO

TRABALHO, FONTE DA RIQUEZA

O que lavra a sua terra será farto de pão, mas o que corre atrás de coisas vãs é falto de senso (Provérbios 12.11).

A preguiça é a mãe da pobreza, mas o trabalho é o útero onde a riqueza é gestada. Aqueles que buscam os atalhos do enriquecimento rápido ou caem na sedução do enriquecimento ilícito demonstram ser insensatos. O que lavra a sua terra será farto de pão. O que investe em seu campo e cultiva a sua terra terá pão com fartura, mas aquele que cruza os braços e se entrega à insolência sofrerá privações. Não importa a área de sua atividade, esmere-se por realizar o melhor. Faça tudo com excelência. Seja um especialista. O mundo hoje não pertence mais aos generalistas. Precisamos lavrar a nossa terra, investir em nossos estudos e colocar no ventre da terra as sementes do nosso trabalho. Aqueles que têm as mãos remissas para o trabalho só enxergarão dificuldades. Esses não lavrarão a sua terra. Por isso, seus campos se cobrirão de urtiga. Na casa do preguiçoso não haverá prosperidade, nem em sua mesa, fartura de pão. A riqueza é fruto do trabalho honesto e consequência da dedicação. Os que se acomodam e cruzam os braços não prosperarão, mas os diligentes terão abundância de bens e fartura de pão. O trabalho não é um castigo, mas um privilégio; não é uma fonte de desgosto, mas um manancial de riqueza.

GESTÃO E CARREIRA

SONY ENCERRA A JORNADA

Gigante japonesa confirma o fechamento da fábrica brasileira neste mês e engrossa a lista de multinacionais que desistem de um país em forte deterioração do ambiente de negócios.

Gostem ou não de seu estilo de gestão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é certeiro em suas profecias econômicas. Em março do ano passado, o fiel escudeiro do presidente Jair Bolsonaro afirmou que se o governo fizesse muita besteira, o dólar poderia ir a R$ 5. Acertou. Naquela mesma época, disse que de câmbio a R$ 1,80, que estimulava empregadas domésticas a viajar para a Disneylândia, “numa festa danada”, era coisa do passado e que os brasileiros deveriam passear em Foz do Iguaçu, no Nordeste e em Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal do cantor Roberto Carlos. Em partes, acertou de novo, não fossem a pandemia e a crise que inibem a circulação de turistas. Na semana passada, o ministro voltou a descrever sua visão sobre o Brasil, afirmando que se o País fizer errado pode virar a Argentina em seis meses e a Venezuela em um ano e meio.

A julgar pela debandada de multinacionais, a mais recente profecia de Guedes é uma realidade já em curso. Na segunda-feira (1), a japonesa Sony confirmou que encerrará até o final do mês a venda de aparelhos televisores, câmeras e equipamentos de áudios no País. A fábrica na Zona Franca de Manaus, com cerca de 300 empregados, será fechada após 48 anos. A empresa continuará a operar no Brasil nas áreas de videogames, soluções profissionais, música e audiovisual, mas tudo sob o selo da importação.

A decisão da Sony é uma entre muitas desde o ano passado, dentro de um processo de desindustrialização e fuga de mais de US$ 300 bilhões em investimentos estrangeiros. Apenas no ano passado, 5,5 mil fábricas encerraram suas atividades, conforme levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Segundo a série histórica iniciada em 2002, até 2014, o número de fábricas crescia, mesmo com a indústria de transformação perdendo relevância na economia diante do avanço de outros setores. Há seis anos, o País tinha 384,7 mil estabelecimentos industriais. No acumulado entre 2015 e 2020, Brasil perdeu 36,6 mil estabelecimentos industriais. Isso equivale a quase 17 indústrias extintas diariamente. Além da Sony, a Ford, a Mercedes-Benz e a Roche anunciaram o encerramento de atividades e fechamento de fábricas no Brasil.

Sem capacidade e reputação de atrair novos investimentos, o País segue os passos dos vizinhos sul-americanos. E o êxodo das empresas mostra que, ao menos nas previsões econômicas, Guedes está certo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A ANESTESIA

Um dos principais desafios da pesquisa cerebral atualmente é contribuir para o desenvolvimento de depressores do sistema nervoso, para torná-los cada vez mais potentes, específicos e seguros, sem efeitos colaterais indesejáveis

Muitas pessoas temem acordar em plena cirurgia. A fantasia assustadora é explorada no cinema em filmes como Awake – A vida por um fio (2007), no qual um paciente recobra a consciência durante um transplante cardíaco e, apesar de não poder se mexer, acompanha cada detalhe do procedimento. Situações assim, não ocorrem apenas na ficção. Estima-se que episódios de consciência intraoperatória sob anestesia geral sejam relatados por um paciente em mil. Geralmente são curtos e não envolvem dor nem sofrimento, mas ressaltam um dos vários motivos pelos quais mesmo os anestésicos mais modernos podem deixar a desejar: o conhecimento científico sobre o funcionamento desses produtos não acompanhou o progresso das outras áreas de desenvolvimento de fármacos.

Na verdade, muitos dos anestésicos modernos partilham propriedades estruturais e efeitos clínicos com o éter, cuja aplicação foi demonstrada pela primeira vez, em público, por William Morton, dentista de Boston, em 1846. Desde então, a anestesia é usada em 40 milhões de pacientes.

Hoje, os anestésicos gerais são os mais potentes depressores da atividade do sistema nervoso, afetando até a regulação das funções respiratória e cardíaca. Mas possuem margem de segurança relativamente estreita entre a dose terapêutica e a tóxica, ou mesmo letal. É por isso, também, que indivíduos cuja função pulmonar ou cardiovascular já é instável – como vítimas de trauma submetidas a operações de emergência pacientes em meio a uma cirurgia cardíaca – precisam receber quantidade menor que a normal, o que poderia torna-los suscetíveis a breves episódios de consciência, como no filme.

Embora avanços radicais na anestesia geral tenham estabelecido os alicerces para procedimentos complicados como transplante de órgãos e cirurgia cardíaca a céu aberto, os efeitos neurodepressores desses medicamentos fazem com que sejam mais propensos a causar a morte durante uma operação do que o próprio procedimento cirúrgico. Já que a mortalidade relacionada à anestesia se estabilizou em um índice de aproximadamente um paciente em 13 milhões nos últimos 15 anos, parece que os anestesiologistas chegaram aos limites da aplicação dessas toxinas com segurança. Além disso, efeitos colaterais graves – que vão da perda do controle das vias respiratórias a problemas cognitivos e de memória depois da anestesia geral – também podem se originar da grande influência que os anestésicos atuais exercem sobre o sistema nervoso central. A boa notícia é que pesquisas começam a proporcionar melhor compreensão dos anestésicos.

Os principais efeitos da anestesia são sedação, inconsciência (chamada também de estado de hipnose), imobilidade, ausência de dor (analgesia) e lapso de memória do período em anestesia (amnésia). Com o estudo dos mecanismos pelos quais os anestésicos obtêm esses resultados desejados, muitos grupos, incluindo o meu da Universidade de Toronto, estão começando a desvendar tais efeitos. As pesquisas revelam que a atividade desses fármacos envolve interações específicas com subpopulações de células do sistema nervoso, para criar cada uma das propriedades da anestesia. Com esse conhecimento, poderemos finalmente desenvolver uma nova geração de medicamentos com riscos mínimos. A pesquisa também pode melhorar tratamentos com sedativos e remédios para dormir, que compartilham os mesmos mecanismos.

Os anestésicos são classificados em duas categorias principais: os aplicados por inalação, como o isoflurano, ou por via intravenosa, como o propofol. Eles parecem induzir a um sono profundo, mas o estado produzido pelos anestésicos gerais modernos está mais próximo de um coma farmacológico. Para elucidar os mecanismos que fundamentam seus efeitos, tecnologias como o mapeamento por ressonância magnética (RM) e a tomografia por emissão de pósitrons (TEP) ajudaram a identificar regiões cerebrais e circuitos neurais envolvidos no processo. Por exemplo, a ação anestésica sobre a medula espinhal explica a imobilidade produzida pelos fármacos, enquanto as alterações no hipocampo (estrutura cerebral que participa da formação da memória) foram vinculadas à amnésia. O comprometimento crônico da memória após uma cirurgia pode também representar influência residual das drogas sobre o hipocampo.

Como a consciência é uma experiência complexa, e as propriedades que a definem ainda são tema de debates entre neurocientistas, não é tão fácil identificar com precisão uma única origem anatômica da inconsciência durante a anestesia. Uma das principais teorias defende que a perda da consciência seria simplesmente o resultado de “desligamento cognitivo”- o corte da comunicação entre as várias regiões cerebrais que geralmente cooperam no processamento cognitivo superior. Mesmo em nível local, se imaginarmos grupos de neurônios criando linhas de uma vasta rede telefônica, o efeito da anestesia geral é análogo a desconectar plugues da central. No entanto, os pesquisadores estão fazendo progressos em descobrir como os anestésicos atuam fisicamente sobre as células individuais do sistema nervoso para bloquear transmissões.

Durante a maior parte do século XX, acreditava-se que os anestésicos desorganizavam os componentes lipídicos das membranas celulares. Ainda hoje, a maioria dos produtos são compostos lipossolúveis com estruturas químicas bem distintas, que variam de simples gases inertes a esteroides complexos. A enorme diversidade física e química apoiava a ideia de que os anestésicos devem operar de alguma maneira não específica para deprimir o funcionamento neuronal. Pesquisas modernas, contudo, revelam que eles interagem com muitos tipos de proteínas dos receptores encontrados na superfície de células neurais. A presença de subtipos particulares de receptores apenas em determinadas subpopulações de células determinará quais delas são influenciadas por um anestésico.

Estudos atuais se concentram em determinar quais variantes de receptor são alvo dos anestésicos, buscando compreender como as drogas interagem para mudar a função da célula e como essas alterações produzem os efeitos da anestesia. Minha equipe decidiu se concentrar mais especificamente na identificação dos receptores que influenciam o comprometimento da memória pelos anestésicos e, portanto, focalizou os estudos nos receptores do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico subtipo A (GABA) no hipocampo. O GABA é um neurotransmissor inibitório: ajuda a manter o equilíbrio geral do sistema nervoso, deprimindo a capacidade dos neurônios de responder a mensagens excitatórias de outras células. Assim, acredita-se que desempenhe um papel central nas ações dos anestésicos. A maioria dos receptores pós-sinápticos nas células que interagem com o GABA pertence à classe dos canais de íons com abertura para ligante.

Sabe-se que os anestésicos causam amnésia em doses consideravelmente menores que as necessárias para a inconsciência ou para a imobilidade. No entanto, por razões desconhecidas, alguns pacientes conseguem se lembrar de eventos durante a própria cirurgia. A descoberta dos receptores-alvo responsáveis pelos efeitos indutores da amnésia na anestesia poderá permitir a identificação dos pacientes em risco de consciência intraoperatória, exatamente por não possuírem esses receptores. Estratégias farmacológicas para evitar a consciência, ou, no mínimo, lembranças, também poderiam ser desenvolvidas. Ficamos surpresos ao constatar que mesmo os receptores fora da sinapse poderiam ter papel na ação anestésica. Se a sinapse serve de “central telefônica” na junção entre duas células, então poderíamos imaginar que os receptores na periferia da sinapse ou espalhados ao longo do corpo da célula nervosa residem na própria linha telefônica. Esses receptores CABA extra sinápticos são ativados até por concentrações bem baixas de CABA naturalmente presentes no espaço extracelular, ou que transbordam das sinapses vizinhas. Assim, há grande número de receptores extra sinápticos em certas regiões do cérebro, como o hipocampo e o tálamo envolvido na consciência e no processamento da dor, bem como partes do córtex e do cerebelo.

LINHA DE TELEFONE

No estudo, descobrimos a relevância dos receptores GABA A extra sinápticos como alvos anestésicos. Procurávamos também por populações de receptores pós-sinápticos sinergicamente moduladas pelo midazolam e propofol, dois dos fármacos neurodepressores intravenosos mais empregados, mas a busca foi frustrada. No entanto, nosso trabalho era baseado na obtenção de registros eletro fisiológicos de correntes geradas nos neurônios hipocampais de cultura tissular, e realmente notamos que as concentrações de anestésicos causadoras de amnésia aumentavam significativamente uma corrente persistente de baixa amplitude gerada pelos receptores GABA, extra sinápticos. Mais que provocar uma resposta na central telefônica, os fármacos aumentavam um tipo de ruído estático ou inibitório na própria linha de telefone e interferia na comunicação.

Constatamos que os anestésicos injetáveis propofol e tomidato e até isoflurano, inalatório, aumentavam a amplitude dessa corrente em até 35 vezes em concentrações muito menores que as necessárias para causar mobilidade. Outros investigadores, da “University College of London (UCL) tinham descrito essa corrente baixa e estável mesmo na ausência de anestésicos. Mas o que surpreendeu nosso grupo foi a incrível sensibilidade dos receptores extra sinápticos nas quantidades diminutas de anestésicos inalatórios intra venosos, enquanto as baixas concentrações de anestésicos causaram apenas alterações insignificantes -, correntes pós-sinápticas. Estudos anteriores, como os nossos, tinham aparentemente se concentrado na família correta de proteínas receptoras, mas examinado os locais errados.

Nossos experimentos finalmente determinaram que, estruturalmente, os receptores GABAA extra sinápticos eram um pouco diferentes das populações de receptores dentro da sinapse, pois continham predominantemente uma subunidade alfa-5, geralmente ausente nos receptores pós-sinápticos. Essa única alteração parecia explicar a sensibilidade mesmo a minúsculas quantidades de anestésicos. Evidências cada vez mais numerosas de neurocientistas trabalhando em outras questões também indicavam que os receptores GABAA com a subunidade alfa-5 estão envolvidos em processos normais de memória hipocampo dependentes, corroborando nossa teoria de que os receptores alfa-5 extra sinápticos eram responsáveis pelos efeitos do anestésico sobre a memória. Para testar nossa hipótese, usamos camundongos geneticamente modificados que não possuíam a subunidade alfa-5, e camundongos comuns que tinham o receptor normal. Como esperado, nos testes comportamentais, os camundongos comuns foram sensíveis a doses de etomidato causadoras de amnésia, enquanto aqueles sem o alfa-5 não manifestaram os efeitos da droga sobre a memória.

Também estabelecemos que a perda dos receptores GABAA alfa-5 não tinha nenhuma consequência sobre qualquer um dos outros efeitos desejados da anestesia: sedação, imobilidade, hipnose e resposta a um estímulo doloroso foram iguais nos dois grupos de camundongos. Os resultados demonstraram que os efeitos de comprometimento da memória poderiam estar dissociados das outras propriedades do medicamento. Eles também forneceram o primeiro modelo animal de variações de receptor que poderiam ocorrer em seres humanos, e explicaram alguns casos de resistência à capacidade de um anestésico de reduzir à amnésia. Estudos em andamento em outros grupos determinarão se outros anestésicos gerais também têm os receptores GABA alfa-5 como alvo preferencial para causar a amnésia.

DERIVADO DO ESTEROIDE

Ao mesmo tempo laboratórios da Europa e dos Estados Unidos têm empregado técnicas semelhantes parar explorar os efeitos hipnóticos e imobilizadores dos anestésicos.

Gregg E Homanics, da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, por exemplo, desenvolveu um camundongo que não possui a subunidade delta do receptor GABA, – que confere alta sensibilidade aos neuroesteroides. Sua pesquisa verificou que os camundongos sem delta eram previsivelmente menos sensíveis à alfaxalona, um anestésico derivado de esteroide, nos testes do poder da droga de induzir à inconsciência. Os camundongos mutantes, contudo, não exibiram nenhuma diferença nas respostas ao ipropofol, etomidato e outros anestésicos não derivados de esteroides, em comparação com os controles dos animais comuns. Hoje, os anestésicos derivados de esteroides não são usados com frequência, mas esses resultados também demonstraram o princípio de que classes diferentes de anestésicos têm como alvo subpopulações distintas de receptores GABA A.

Esses experimentos realmente derrubaram a antiga noção de que, por serem quimicamente bem diferentes entre si, os anestésicos devem produzir seus efeitos por algum mecanismo geral. Na verdade, o desenvolvimento empírico dos anestésicos parece ter ido ao encontro de compostos químicos que produzem efeitos finais semelhantes, mas cada um com seu próprio mecanismo.

Pesquisadores acreditam que, associado a outros anestésicos, um bloqueador potente da memória poderia ser usado para evitar os episódios de consciência intraoperatória. Sozinho, poderia ser útil no tratamento de pacientes que sofrem do transtorno do stress pós-traumático, pela inibição de certas lembranças dolorosas.

O controle dos efeitos da anestesia sobre a memória é apenas um exemplo da nova abordagem da anestesiologia que se tornará possível com os fármacos dirigidos. Em várias situações, a neurodepressão ampla e profunda dos anestésicos atuais é desnecessária e indesejável. Com um coquetel de compostos, cada qual produzindo um único e desejável efeito final, a versão futura da anestesia poderá deixar o paciente comunicativo, mas sem dor, enquanto se submete a uma operação no caso de um membro quebrado, ou imóvel e sedado, embora ciente, durante uma cirurgia no quadril. Essa abordagem polifarmacêutica já é amplamente empregada em outros aspectos dos procedimentos cirúrgicos, principalmente no tratamento da dor pós-operatória.

O CÉREBRO NOCAUTEADO

Os efeitos desejáveis e indesejáveis dos anestésicos originam-se de seu poder de suprimir a atividade neuronal por todo o sistema nervoso central, que abrange o cérebro e a medula espinhal e controla a frequência cardíaca e a respiração. Pesquisas atuais buscam identificar com exatidão as estruturas e regiões neurais cujo funcionamento alterado produz cada uma das propriedades definidoras do estado de anestesia.

EFEITOS ANESTÉSICOS

SEDAÇÃO

Excitabilidade reduzida, evidenciada por tempos de resposta mais longos, fala arrastada e diminuição de movimento. A atividade neuronal cai em todas as áreas corticais cerebrais.

INCONSCIÊNCIA (também chamada de hipnose)

Comprometimento da percepção dos estímulos e das respostas a eles. A depressão cortical é mais profunda que na sedação. A atividade no tálamo, área importante para a integração dos processos cerebrais, também cai significativamente.

IMOBILIDADE

Ausência de movimento em resposta a um estímulo, como sacudidela ou calo r. A supressão da atividade neuronal da medula espinhal é a principal causa dessa paralisia temporária, embora o cerebelo, uma área de controle motor, também possa contribuir.

AMNÉSIA

Ausência de lembrança do período em anestesia. Muitas estruturas cerebrais envolvidas na formação da memória, entre elas o hipocampo, a amígdala, o córtex pré-frontal e as áreas sensoriais e motoras, exibem alterações induzidas por anestésico.

OUTROS

O relaxamento muscular e a ausência de dor (analgesia) às vezes são incluídos nas definições do estado de anestesia e amplamente atribuídos à depressão da atividade da medula espinhal.

EM BUSCA DO CONTROLE DA DOR

Etimologicamente, a palavra anestesia vem do grego, anesthesia-a n (sem) e esthesia (sensibilidade – E significa sem sensibilidade. É justamente da Grécia que vem os primeiros registros sobre sua primeira utilização. A história indica que Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), conhecido como “pai da medicina” utilizava uma esponja soporífera embebida em substâncias sedativas e analgésicas extraídas de plantas para controlar a dor de seus pacientes. Por volta do século IV, o cirurgião também grego, Pedanius Dioscórides (40-90), descobriu os efeitos da mandrágora, uma erva que contém hioscina, substância com efeitos anestésicos. Os chineses usavam a acupuntura e os assírios comprimiam a carótida para impedir que o sangue chegasse ao cérebro. O primeiro passo para a descoberta da anestesia geral foi dado em 1773 por Joseph Priestley 73l- 804 ao usar o dióxido de nitrogênio (N0). Já em 1796, o químico Humphry Davy (1778-1829) experimentou os efeitos da inalação do N0 2 e verificou que o gás produzia uma sensação agradável, um desejo de rir. Apenas em 1846 John Collins Warren (1778-1856) realizou no anfiteatro do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, a primeira intervenção com anestesia geral com éter, para extirpar um tumor no pescoço de Gilbert Abbot, um jovem de 17 anos. Em 1847, essa anestesia chegou ao Brasil e a primeira cirurgia aconteceu no Hospital Militar do Rio de Janeiro, feita pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo (1817-1869).

TRANSMISSÃO INTERROMPIDA

Foi demonstrado que os anestésicos deprimem a comunicação neuronal, em parte pela amplificação dos efeitos do neurotransmissor GABA, uma molécula de sinalização que inibe a excitação das células nervosas. As pesquisas atuais se concentram no modo de interação dos fármacos com os receptores GABA celulares para bloquear a atividade neural.

MUDANÇA DE CARGA

Um subtipo de receptor chamado GABAA é um canal que se encaminha para dentro da célula pós-sináptica, composto por cinco subunidades proteicas. Quando o GABA se liga a ele, o receptor permite a entrada de íons carrega­ dos negativamente, o que aumenta a polarização da membrana celular e impede que o neurônio gere um pulso elétrico (à esquerda). Acredita-se que a ação dos anestésicos ocorra pela ligação com as fendas no receptor GABAA e pelo prolongamento da abertura do canal, que causa a hiperpolarização ela membrana celular (à direita).