EU ACHO …

CÉREBRO ELETRÔNICO: O QUE SEI É QUE É TÃO POUCO

Decididamente estou precisando ir ao médico e pedir um remédio contra a falta de memória. Ou melhor, uma amiga já me deu dois vidros de umas pílulas vermelhas contra a falta de memória, mas exatamente é minha falta de memória que me faz esquecer de tomá-las. Isso parece velha anedota, mas é a verdade.

Tudo isso vem a propósito de eu simplesmente não me lembrar quem me explicou sobre o cérebro eletrônico. E mais: tenho em mãos agora mesmo uma fita de papel cheia de buraquinhos retangulares e essa fita é exatamente a da memória do cérebro eletrônico. Cérebro eletrônico: a máquina computadora poupa gente. Os dados da pessoa ou do fato são registrados na linguagem do computador (furos em cartões ou fitas). Daí vão para a memória: que é outro órgão computador (outra máquina) onde os dados ficam guardados até serem pedidos.

Partindo deste princípio, chegamos ao definidor eletrônico: a partir de um desenho feito num papel magnético a máquina (ou o cérebro) pode reproduzir em matéria o desenho. Isto é: entra o desenho e sai o objeto (cibernética etc.) Há a experiência plástica, visual e também literária da reprodução (número e qualidade). A sensação é de apoio para o homem. Compensação do erro. Há possibilidade de você lidar com uma máquina e seus sensores como a gente gostaria de lidar com o nosso cérebro (e nossos sensores), fora da gente mesmo e numa função perfeita.

Bem. Acabo de dizer tudo, mas mesmo tudo, o que sei a respeito do cérebro eletrônico. Devo inclusive ter cometido vários erros, sem falar nas lacunas que, se fossem preenchidas, esclareceriam melhor o problema todo.

Peço a quem de direito que me escreva explicando melhor o cérebro eletrônico em funcionamento. Mas peço que use termos tão leigos quanto possível, não só para que eu entenda, como para que eu possa transmiti-los com relativo sucesso aos meus leitores.

Quando penso que cheguei a falar no mistério, que continua mistério, do cérebro eletrônico, só posso dizer como a gente dizia lá em Recife: Virgem Maria!…

Mas o amor é mais misterioso do que o cérebro eletrônico e no entanto já ousei falar de amor. É timidamente, é audaciosamente, que ouso falar sobre o mundo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A CULTURA DO DESAPEGO

O minimalismo, estilo de vida que prega ter menos bens e consumir só o essencial (inclusive na internet), faz sucesso com dupla de gurus na Netflix e a adesão de famosos

Há dez anos, Ryan Nicodemus encontrou o amigo Joshua Fields Millburn e ficou intrigado: 30 quilos mais magro e com um sorriso no rosto. Millburn parecia outra pessoa. A história dos jovens de Ohio, no Meio Oeste americano, convergia. Criados em famílias de baixa renda, por mães dependentes químicas, ambos mergulharam no mundo corporativo apostando que o acúmulo de bens seria o passaporte para uma vida melhor. O salário alto trouxe casas enormes e carros de luxo, mas também crises de ansiedade, relacionamentos frustrados e dívidas na casa dos 100.000 dólares. Quando sua mãe morreu de câncer e a então esposa pediu o divórcio, Millburn teve uma epifania: percebeu que “as coisas mais importantes da vida não são coisas”. Em questão de meses, livrou-se de mais da metade de suas posses. “Não sou alérgico a coisas ou dinheiro, mas decidi ter apenas o essencial”, disse ele. Inspirado por Millburn, Nicodemus fez seu próprio ritual de passagem em uma intervenção apelidada de “festa das caixas”. Tudo o que ele tinha em casa foi embalado. Ao longo de 21 dias, abriu só as caixas com utensílios de fato úteis. No fim do prazo, 80% delas continuavam fechadas – os itens sem função acabaram doados, vendidos ou descartados”. Eu me senti, de fato, rico”, disse, após a sessão de desapego.

Surgia assim a dupla de gurus que faz sucesso pregando um novo estilo de vida: o “minimalismo”. Os dois- hoje aos 39 anos – pediram demissão de seus empregos e fizeram fama entoando o mantra de que ter menos bens traz mais felicidade. Em 2010, criaram o blog The Minimalists – que atualmente soma 20 milhões de visitantes. Lançaram livros, podcast, canal no YouTube e viajam o mundo dando palestras. Dois documentários coroaram a jornada de popularidade: Mínimalismo, de 2015, e Minimalismo lá, lançado pela Netflix em janeiro deste ano. Os filmes apresentam desde depoimentos de quem aderiu ao movimento até vislumbres dos excessos das indústrias da moda e da tecnologia, que aceleraram os hábitos de consumo, produzindo mais e poluindo o planeta na mesma medida.

A nova cultura do desapego empresta o nome de um dos ”ismos” da arte contemporânea. Só que a corrente pós-moderna conhecida como minimalismo passa longe do evangelho da simplicidade dos gurus da Netflix: por trás de suas obras cerebrais, há uma superabundância de teorização. Faz mais sentido buscar as raízes do minimalismo comportamental em religiões orientais associadas a hábitos austeros, como o budismo e o hinduísmo. No Ocidente, a ideia já ganhava evidência nos anos 30, quando o filósofo Richard Gregg (1885-1974) criou o conceito da “simplicidade voluntária”. O americano deixou Harvard rumo à Índia para virar discípulo de Mahatma Gandhi (1869-1948) e, passou a condenar o “materialismo”.

No hiper conectado século XXI, o desapego ganhou novo fôlego e abarca uma ampla (e por vezes vaga) gama de hábitos, da compra de bens às refeições, passando pela espiritualidade. Celebridades como Keanu Reeves e Robert Pattinson seguem a vertente e doam boa parte dos milhões de dólares que embolsam. Buscas sobre o minimalismo alcançaram um pico no Google em 2019. Desde março de 2020, quando a pandemia obrigou a população a ficar em casa – e a notar a quantidade de coisas que possuía -, a média de visualizações de vídeos sobre o tema cresceu 70% no YouTube. Neles, casas pintadas de branco e com poucos móveis viram cenário para falar de meditação, decoração minimalista ou como ser um “consumista consciente”.

O que os minimalistas preconizam, no fundo, é uma nova ética do consumo, alicerçada em hábitos racionais. Um minimalista não para de fazer compras, mas o faz com menos frequência e prioriza itens de melhor qualidade. É o caso da curitibana Ana Desidério, de 33 anos, que inverteu a lógica do “tempo é dinheiro”. “Toda vez que compro algo desnecessário estou gastando meu tempo de trabalho nisso”, diz. A atriz cria o filho, Arthur, de 3 anos, à luz do conceito. “Fazemos brinquedos com material reciclável,” afirma. Tais hábitos se expandiram para a vida digital. A assistente social paulista Regina Lima, de 49 anos, “enxugou” os contatos nas redes sociais para alimentar relações mais intimas e perder menos tempo on-line. O minimalismo veio depois que ela se viu com uma dívida de 70.000 reais e precisou de um empréstimo de emergência. “Consumismo é uma doença difícil de vencer”, diz. Regina congelou o cartão de crédito – literalmente – no freezer. Hoje, só compra à vista e investe o que sobra. O mínimo pode ser o máximo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE MARÇO

MENTE LÚCIDA, HONRA CERTA

Segundo o seu entendimento, será louvado o homem, mas o perverso de coração será desprezado (Provérbios 12.8).

Deus nos criou à sua imagem e semelhança, por isso podemos pensar, refletir e ter entendimento acerca das coisas visíveis e invisíveis, materiais e espirituais. A falta de entendimento é uma degradação da natureza humana. Torna o homem uma fera selvagem ou faz dele uma mula que precisa de freio para ser governada. É por isso que o perverso de coração será desprezado, pois toda a cogitação da sua mente mira a autogratificação ou a exploração do próximo. Ele emprega sua inteligência para fazer o mal, e não para promover o bem. Por isso, sua memória será maldita na terra. Por outro lado, aqueles que usam seu entendimento para promover o bem alcançam os maiores louvores. Nossa inteligência é uma dádiva de Deus. Devemos usá-la para desenvolver nossos dons e talentos e colocá-los a serviço do nosso próximo. Não vivemos nem morremos para nós mesmos. Nossa vida precisa ser útil, e nossa morte deve ser um exemplo. Nossa vida tem de desafiar as pessoas no presente, e nossa morte precisa deixar um legado para o futuro. Não devemos entrar para o rol daqueles que são desprezados; podemos fazer parte daqueles que são louvados na terra e amados no céu.

GESTÃO E CARREIRA

UMA OPERAÇÃO DE GUERRA                                               

O que as empresas devem fazer para amenizar os efeitos da pandemia que ameaça a saúde dos funcionários – e o futuro dos negócios

No final do século 17, havia um consenso por toda a Europa de que cisnes eram brancos. Até que ornitólogos depararam com uma ave negra, derrubando uma teoria já consagrada. Desde então, a expressão “cisne negro” se tornou sinônimo de um evento imponderável, que vira nossas crenças de cabeça para baixo. No mundo dos negócios, o termo indica problema – e dos grandes. E foi justamente assim que a Sequoia Capital, um dos fundos mais importantes do Vale do Silício, definiu a atual situação. Em um relatório intitulado Coronavírus: o Cisne Negro de 2020 e enviado a CEOs e fundadores de startups no início de março, a empresa escreveu: “Ao resistir a todas as crises em quase 60 anos, aprendemos uma lição: ninguém se arrepende de fazer ajustes rápidos e decisivos para mudar as circunstâncias. Uma característica que diferencia empresas, duradouras é a maneira como seus líderes reagem a momentos como esses. Os seus empregados sabem da covid-19 e se questionam como você reagirá. Evite o falso otimismo, seja clinicamente realista e aja de forma decisiva. Demonstre a liderança de que sua equipe precisa neste período estressante”.

A crise é incomum. Diferentemente das demais, ela ataca várias frentes: ameaça a saúde de funcionários, causa ruptura na cadeia de suprimentos, afeta vendas e impõe o isolamento social. “Nenhuma companhia, seja microempresa, seja multinacional, está 100% preparada para algo assim”; diz Marcelo Rivani, professor de gestão de pessoas e inovação no lbmec.

Até o fechamento desta matéria no início de março, o vírus já havia contaminado mais de 2,5 milhão de pessoas mortas e 114,5 milhões de contaminados em todo o mundo, segundo a Universidade Johns Hopkins. No Brasil as previsões econômicas pessimistas se confirmaram: a FGV projetou, uma retração de 4;4 % na economia, e a gestora de investimentos XP previu 40 milhões de desempregados.

Nesse contexto, diz Jerri Ribeiro, professor de gestão de riscos na escola de negócios Saint Paul e sócio da PwC, duas preocupações devem orientar as demais: a saúde dos empregados e a continuidade da operação – nessa ordem. Definida essa premissa, vem o plano de ação. O primeiro passo é criar um comitê de crise com os principais executivos. “Sem isso, não há capacidade de reação nem velocidade nas respostas”, afirma o especialista.

Foi o que fez a Linx desenvolvedora de softwares de gestão para redes de varejo. Com 3.500 empregados em São Paulo e 15 filiais em nove estados brasileiros e em cinco países (Estados Unidos, Argentina, Chile, México e Holanda), assim que o problema ganhou  corpo no Brasil  em meados de março, a empresa formou um comitê gestor de crise com o CEO, Alberto Menache, os cinco vice-presidentes e pessoas imprescindíveis, como a médica-chefe do ambulatório da matriz, onde está um terço da equipe. Flávio Menezes, vice-presidente de pessoas e marketing, conta que a partir daí várias ações simultâneas foram adotadas. Para começar, houve um mapeamento do efetivo considerado de risco: gestantes, pessoas com mais de 60 anos, hipertensos, fumantes e diabéticos foram imediatamente migrados para o esquema de home office; e todos que tinham voltado de viagem de países considerados endêmicos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ficaram 14 dias em casa, mesmo sem sintomas. “Cancelamos participações em eventos, suspendemos viagens e determinamos que todo contato com clientes e fornecedores fosse virtual. Também reforçamos a infraestrutura tecnológica para atingir 100% de trabalho remoto e conscientizamos as pessoas dando a elas o máximo de informações”, afirma o executivo.

Fátima Motta, especialista em gestão de crise da plataforma de educação HSM e professora de gestão de competências na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), diz que deixar uma única pessoa despachar sozinha (ainda que seja o dono da companhia) é desaconselhável e insensato em cenários confusos e complexos como o do coronavírus. ”Estou vendo e ouvindo sobre profissionais que trabalham 12, 14 ou até mais horas por dia. Não há ser humano que aguente isso. Líderes também precisam descansar.” Por isso, de acordo com ela, é essencial “compartimentar a crise”, dividindo as tarefas e descentralizando a tomada de decisão: Um executivo cuida da disseminação de boas práticas no home office; outro, do monitoramento do grupo de risco; um terceiro, dos funcionários que não podem deixar a empresa; e assim por diante.

DRIBLANDO DIFICULDADES

De acordo com uma pesquisa da Citrix, multinacional americana especializada em workplaces digitais apenas 32% das companhias brasileiras permitiam o home office em 2019. O levantamento sugere o tamanho do susto que a maioria delas tomou diante da necessidade de mandar os empregados para casa. Segundo especialistas, de supetão, muitas organizações mal conseguiram garantir uma infraestrutura mínima. Nessa hora, o RH precisa ser funcional, seguindo passos ordenados, como levantamento das necessidades dos funcionários, disponibilização de computadores com acesso a VPN, que permite conexão remota segura, criação de plantão de dúvidas e organização de treinamentos para auxiliar na nova rotina.

Tão complicado quanto colocar 100 % das pessoas em home office é não ter essa prerrogativa, caso de companhias com força fabril ou negócios que demandam presença física. Nesses casos, o desafio é grande. Isso por que estudos sugerem que o novo vírus sobrevive por até nove dias em superfícies de metal, vidro e plástico. Em baixas temperaturas, por até 28 dias. “É uma doença nova, em grande parte desconhecida pela comunidade científica, e por isso exige cuidados redobrados”, diz o médico Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da OMS para as Américas.

Na Ambev, gigante multinacional do setor de bebidas, com quase 50.000 funcionários, nem todos puderam ser liberados para atuar de casa. Por isso, Ricardo Melo, vice-presidente de gente e gestão, faz reuniões diárias para acompanhar a situação com o comitê de crise contra o coronavírus. Uma das medidas imediatas da companhia foi criar um protocolo de segurança detalhado e rígido para os times comerciais. “Reduzimos o tempo de permanência no ponto de venda e criamos uma nova política de conduta social, sem aperto de mão nem compartilhamento de itens, como canetas”, afirma o executivo.

Nas cervejarias, a rotina de limpeza foi ampliada nas áreas de maior contato e circulação de pessoas, e refeitórios foram reposicionados para garantir a distância recomendada pela Organização Mundial da Saúde entre o pessoal. O número de fretados também aumentou para que ninguém embarque ao lado de um colega no mesmo assento.

Para evitar o pânico e as fake news, a empresa reforçou a comunicação divulgando em detalhes as medidas adotadas e distribuindo guias sobre como se manter seguro e evitar transmissão e contágio. “A desinformação é perigosa porque pode confundir os funcionários sobre como agir. Combatemos a covid-19 espalhando informação. Além dos comunicados, produzimos vídeos com nossa médica esclarecendo as principais dúvidas.”.

A FORÇA DA TRANSPARÊNCIA

A comunicação é uma das armas mais poderosas para combater os efeitos da coronavírus no moral das equipes. Quando a empresa hesita ou falha em suas orientações e explicações, os trabalhadores ficam tensos, desengajados e com raiva da companhia o que compromete a produtividade. E dá para evitar esse tipo de sentimento com medidas simples, como o envio de boletins diários sobre as diretrizes tomadas, encontros virtuais com CEO e executivos para passar atualizações do negócio e videoconferências entre as equipes para que troquem experiências e se mantenham sintonizadas.

A plataforma Glassdoor captou relatos de trabalhadores em mais de 100 países e ouviu companhias para montar uma fotografia da situação. Concluiu que, neste momento, os profissionais estão ávidos por atualizações e desejam ouvir das lideranças o que está sendo feito para combater a crise, inclusive estrategicamente, visto que temem por seus empregos. “Notamos muitas empresas pressionadas a dar respostas rápidas, estruturar home office e reforçar os procedimentos de segurança. Valores são lindos no papel, mas a vida real é o que conta”, diz Luciana Caletti, vice-presidente para a América Latina do Glassdoor. Se não priorizam a transparência e o foco nas pessoas, os negócios correm o risco de acabar na UTI, morrendo por falta de ar.

DE TEMPOS EM TEMPOS

Relembre outras epidemias que assolaram o planeta

DICAS SANITÁRIAS

O que fazer se você não pode colocar todos os empregados em home office

*** Limpe superfícies com desinfetantes à base de hipoclorito de sódio (o popular cloro.) Eles são mais eficazes do que o álcool em gel nesse caso.

*** Oriente seus profissionais a manter a distância social de pelo menos 1 metro entre as pessoas

*** Abra janelas, deixando o sol e o ar entrar no ambiente de trabalho, e higienize constantemente maçanetas, botões de elevadores, corrimãos, bancadas compartilhadas, marcadores de ponto, catracas e todos os objetos tocados por diversas pessoas.

*** Banheiros são críticos e, como não podem ser fechados, devem ter limpeza reforçada em torneiras, pias, descargas e vasos sanitários.

*** Trabalhadores que têm contato com o público precisam limpar as mãos sempre que tocarem em dinheiro e objetos de terceiros

*** Qualquer funcionário que apresente um dos principais sintomas (tosse seca, dores no corpo ou febre) deve ficar em casa por 14 dias.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O JOGO DAS EMOÇÕES

Alegria, tristeza, indignação, raiva, medo… O que sentimos influi em nossos pensamentos e ações. Ou seriam resultado do que vivemos e pensamos? A forma como os afetos surgem, suas funções e influências sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores

Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois, irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu lado ou sente medo do pit bull que um homem leva preso à coleira. No momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional para ajudá-lo; ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem esqueceu o aniversário de um grande amigo.

Algumas emoções nos absorvem – completamente, outras ressoam discretamente; algumas são terríveis, outras muito boas – mas todas vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo menos é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem nem mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, ou têm dificuldade em perceber o que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos, quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?

As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, “animalescos” e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do século XIX – com o surgimento da primeira teoria das emoções, desenvolvida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange (1834-1900). Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos.

Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que experimentamos quando esse estado se altera devido a acontecimentos do meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que não choramos porque estamos tristes, mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações físicas, como a dilatação dos vasos sanguíneos, fossem emoções. No entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações corporais permaneciam frias e insípidas.

SENTIR PARA PENSAR

A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso estado físico não se altera, mas experimentamos, mesmo assim, diversos sentimentos – e isso frequentemente depende apenas do que pensamos, seja na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.

Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher lança-lhe um olhar indignado – o que inevitavelmente lhe desperta sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia ter evitado a situação se tivesse prestado mais atenção, então provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.

ESPIÃO E ADRENALINA

Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer comprovaram por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem – os voluntários foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados, um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um “cúmplice” dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação – sempre de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.

Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções representadas pelo “espião”. Ao que tudo indica, portanto, estímulos internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos experiências emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.

As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho cerebral percorrido pelo sinal que passa ao largo do córtex cerebral – a sede da consciência. Esse atalho possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de queimado ou visão de algo perigoso.

As duas clássicas teorias das emoções – a “centrada no físico”, de James e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer – são parciais e não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes características:

1. típicas alterações fisiológicas, como coração acelerado, suor ou inquietação motora;

2. comportamentos específicos, como a mímica corporal;

3. a vivência subjetiva de perceber como é estar em um determinado estado emocional;

4. pensamentos associados a essa experiência;

5. existência de “objeto intencional”, ao qual se refere a emoção. É comum que se recorra também a “checagens avaliadoras”: entre outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento, pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente perigoso. Em seguida, coloca-se a questão: se esse acontecimento deve ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo (temerário, doloroso, desagradável). A isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e se ela “se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.

Inúmeras combinações dessas s características determinam a enorme extensão de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer, que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o que ele chama de “um complexo modelo processual das emoções” que, resumido em linhas gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento – digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida – inicialmente apenas a sua excitação interna cresce. Se o julgamento a seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente surpreso; se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus objetivos e contribui para melhorar sua autoimagem, esse sentimento acaba se transformando em orgulho. Do ponto de vista da psicologia evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis: pré-emoções, emoções básicas, emoções cognitivas primárias e secundárias.As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas.

ORGULHO OU VERGONHA?

Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, autoeficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral – e sentimos medo. Ao lado desse processamento rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma representação mais exata do objeto – o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim como reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maioria de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.

Nos níveis seguintes, os pensamentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação – como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua-se uma “mini-teoria” sobre expectativas e normas sociais – por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso de pende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.

Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal; já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas qualidades nobres.

Imagine que um menino de 10 anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogio-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente – e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amor dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.

MARCADORES SOMÁTICOS

O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas:

1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida;

2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir);

3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias intenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável);

4. ajuda ia no controle das relações sociais.

O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de “filtro” para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto externos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos – e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros -, mais fácil fica manter o equilíbrio e nos cuidar.

Os neurobiólogos Hanna e Antônio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos da Universidade de Iowa, demonstraram na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo e a consequente concretização de planos estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível de inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas e não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais. Nesse caso fica claro que a avaliação emocional no córtex pré-frontal do lobo frontal é crucial: se ela falha devido a algum distúrbio, as pessoas afetadas tomam decisões insensatas. Falta-lhes a memória emocional necessária de situações anteriores semelhantes, o que constitui nosso patrimônio emocional.

Damásio havia tornado esse conceito popular há alguns anos como “teoria dos marcadores somáticos”, segundo a qual todas as experiências de um indivíduo são assinaladas afetivamente. Assim, quando uma pessoa precisa decidir, faz uma rápida avaliação inconsciente da situação. Pessoas com um córtex pré-frontal lesionado, no entanto, não conseguem resgatar as marcas anteriores, sendo consequentemente obrigadas a reavaliar toda situação desde o início. É como se nunca aprendessem com suas escolhas, como se cada vez fosse a primeira.

Outros processos cognitivos são também fortemente dependentes de processos emocionais. Podemos, por exemplo, lembrar melhor de eventos associados a alguma emoção que de conteúdos matemáticos abstratos (a não ser que eles nos provoquem grande alegria ou irritação). O aprendizado é quase sempre mais fácil quando nos encontramos bem emocionalmente ou estamos afetivamente ligados àquele que nos ensina. Por outro lado, sentimentos negativos duradouros decorrentes de distúrbios afetivos como a depressão ou o estado de excitação exagerada (mania), assim como suas fases intermediárias alternantes, afetam a sensibilidade geral – e a capacidade cognitiva, que também se apresenta de maneira deprimida ou excitada.

O fato é que as emoções são indispensáveis para a interação e ação interpessoal: sem elas, os fundamentos para uma rotina bem-sucedida deixariam de existir. Além disso, as emoções estão intimamente ligadas aos processos cognitivos – elas são essenciais para a capacidade de aprendizagem implícita e inconsciente, assim como para as decisões sensatas. Em outras palavras: nossos sentimentos definem essencialmente quem somos e o que fazemos.

FUNCIONAMENTO DOS CIRCUITOS AFETIVOS

O sistema nervoso central desperta, regula e integra respostas emocionais. O córtex cerebral está envolvido na identificação, avaliação e tomada de decisões com base em dados sensoriais. Os pensamentos, expectativas e percepções desempenham papéis importantes para manter e dissolver afetos. A formação reticular, uma rede de células neurais alerta o córtex para informações sensoriais. Os dados a respeito de eventos despertadores de emoção são filtrados por esse sistema. A formação reticular desperta a atenção do córtex.

O sistema límbico, um grupo de circuitos inter-relacionados desempenha papel regulatório nas emoções e motivações. Embora as funções precisas de cada estrutura ainda não sejam claras, é certo que a informação sensorial passa pelo sistema límbico em sua trajetória para o córtex. Esse emite mensagens para outras áreas cerebrais. O hipotálamo, uma estrutura límbica responsável pela ativação do sistema nervoso simpático durante emergências está envolvido em situações de medo, raiva, fome, sede e atração sexual.

Interior Design And Decor Ideas

Here, we are going to unveil the Modern and Trending interior design ideas.

Chihuz Eats

COOKING AND BAKING.

JaZzArt en València

Faith saved us from the savages that we were, losing faith makes us savages again

erkekler soruyor

umutlar bir vadiye mahkum ...

YOUNGREBEL

Blog about life, positivity, selfcare, food and beauty.

Big Dreams

Quotes, Stories and life tips by Author Ceco

tlcof

True love cast out fear

pflkwy

Blog sobre notícias e política com um viés de esquerda, onde os bravos nunca ousaram percorrer e que não espere deste o obsequioso silêncio dos covardes, amortecendo consciências, desarmando resistências que só no fátuo da retórica da ideia, da moral e da ética é que se venera seu oponente evitando a sedição!

When The Soul Writes

A Place For Readers

Mila Detti

"Antes y después el mundo se ha hecho pedazos y hay que nombrarlo de nuevo, dedo por dedo, labio por labio, sombra por sombra." Julio Cortazar.

Chica de Campo

Your country girl living the country life!

Infinitividades

Alguns Pedaços de Eternidade

Realismo Antimágico

Los propios dioses