EU ACHO …

SENTIR-SE ÚTIL

Exatamente quando eu atravessava uma fase de involuntária meditação sobre a inutilidade de minha pessoa, recebi uma carta assinada, mas só darei as iniciais: “Cada vez que me encontro com a beleza de suas contribuições literárias, vejo ainda mais fortalecida minha intensa capacidade de amar, de me dar aos outros, de existir para meu marido.” Assinada H. M.

Não fiquei contente por você, H. M., falar na beleza de minhas contribuições literárias. Primeiro porque a palavra beleza soa como enfeite, e nunca me senti tão despojada da palavra beleza. A expressão “contribuições literárias” também não adorei, porque exatamente ando numa fase em que a palavra literatura me eriça o pelo como o de um gato. Mas, H. M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão imponentes.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

QUANDO MENOS É MAIS

Cresce o número de mulheres que recorrem à cirurgia para a retirada ou redução das próteses de silicone para deixar os seios com aspecto natural, como vieram ao mundo

Sinuosos, salientes, fartos ou não, os seios são os órgãos da anatomia feminina mais adequados para narrar a história da civilização e seus humores. Para os povos primitivos africanos eles têm um caráter sagrado. Na Renascença, de modo a celebrar a força do leite materno, gênios da pintura os retrataram volumosos. Quando foi necessário protestar, na década de 60, as mulheres tiraram o sutiã para queimar a lingerie, como sinal de liberdade. Agora, os seios fazem parte de um movimento, digamos, de retrocesso – a procura por formatos naturais, tal qual vieram ao mundo. Cresce o número de mulheres que decidem reduzir o volume ou retirar completamente o silicone. Diz o cirurgião Eduardo Kanashiro, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e CEO da Academia da Pele: “Há pacientes que optam por retirar a prótese porque não estão satisfeitas com o resultado, outras não se adaptaram e também há aquelas que simplesmente acham que não faz mais sentido”.  A tendência foi encabeçada por celebridades de diferentes faixas etárias, como a atriz Scarlett Johansson, a modelo Chrissy Teigen e a empresária Victoria Beckham. “Por anos eu neguei que foi algo estúpido, era um sinal de insegurança. Apenas valorize o que você tem”, disse Victoria. A prótese mamária de silicone ainda é a cirurgia plástica mais procurada pelas brasileiras, mas vem caindo a cada ano – cerca de 16% em quatro anos. Dados da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos, em contrapartida, mostram que em um ano houve um aumento de 15% na realização da retirada de próteses. No Brasil, ainda não há números oficiais, mas consultórios médicos e redes sociais confirmam a toada.

Desde as primeiras aplicações de silicone, em 1962, as próteses evoluíram de forma drástica. Com as pioneiras, não havia nem a previsão de resultado, durabilidade ou segurança da substância. Nas décadas seguintes, o material evoluiu de forma a adquirir densidade parecida com a mama normal. O gel é coeso, o que ajuda a dar um aspecto natural. São qualidades que tornaram a necessidade da troca bastante rara. Nos últimos tempos não se fala mais em substituição preventiva a cada dez anos. A complicação mais comum, com ocorrência de 2%, é uma espécie de rejeição chamada de contratura capsular, quando a membrana formada pelo próprio organismo em volta da prótese inflama, o que causa dor. O que acontecia até então nesse caso era a troca do silicone. Agora, as mulheres as retiram totalmente. A extração é simples e pode ser feita pela mesma cicatriz do implante. Diz o cirurgião Dênis Calazans, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: “O que torna o procedimento razoavelmente complexo é, em certos casos, haver a necessidade de realizar a suspensão da mama que eventualmente pode cair com a retirada”. Nada que não se resolva, de olho na volta ao básico.

PARA CIMA E PARA BAIXO

Os números nos Estados Unidos, o país campeão em cirurgias plásticas de mama

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE MARÇO

A BOCA DO PERVERSO, ARMADILHA MORTAL

As palavras dos perversos são emboscadas para derramar sangue, mas a boca dos retos livra homens (Provérbios 12.6).

A língua é um pequeno órgão do nosso corpo, mas tem um grande poder. Assim como o leme governa um navio e o freio controla um cavalo, a língua dirige todo o nosso corpo. Quem domina a sua língua controla todo o seu corpo. A língua tanto arma emboscadas de morte como desarma bombas devastadoras. Tem a capacidade de matar e também de dar vida. A Bíblia diz que a morte e a vida estão no poder da língua (Provérbios 18.21). Esta é tanto remédio que sara as feridas como veneno que acarreta a morte. A boca dos perversos é uma tocaia perigosa. Seus lábios são mais venenosos do que uma víbora peçonhenta. Quando os perversos abrem a boca, o inocente é apanhado por sua emboscada mortal. Uma emboscada é uma armadilha invisível cuja finalidade é o derramamento de sangue. No entanto, a boca dos retos desfaz as tramas, desata os nós e desarticula os planos diabólicos dos perversos. Na boca dos retos há palavras de vida e paz. Os retos são mensageiros da paz e agentes da reconciliação. Não são semeadores de contendas, mas pacificadores que constroem pontes onde os perversos só cavaram abismos.

GESTÃO E CARREIRA

O DESAFIO DE SELECIONAR  

”É preciso saber escolher, selecionar e acessar o que vale a pena. Além disso, é fundamental lembrar que cada um de nós é responsável pelo que joga dentro de sua mente”

Muitas pessoas, inclusive empresários e empreendedores, têm me relatado um sentimento de perda de propósito na vida, de vazio existencial, de ausência de energia e desejo de abandonar a luta.

Ao conversar com essas pessoas, vejo que elas têm se exposto de forma demasiada e indisciplinada à leitura de assuntos irrelevantes, fofocas, fake news e opiniões de pessoas sem nenhuma formação que estão presentes às centenas nas redes sociais e mesmo nas mídias tradicionais.

Vejo que essas pessoas passam horas rolando suas telas, assistindo a filmes sem conteúdo algum para a sua formação ou desenvolvimento, assistindo a telejornais e lendo notícias devastadoras que só podem dar desesperança às suas vítimas.

Expostas a um turbilhão de asneiras, palpites, falsas receitas de sucesso que querem dizer como viver, o que comer, o que vestir, aonde ir ou deixar de ir, essas pessoas perderam o autodomínio, não se comandam mais, são verdadeiros robôs que deixaram de pensar por si próprias, de ter um objetivo e propósito na vida, a não ser rolar a tela dos smartphones e tablets e ficar grudadas em uma tela de televisão.

É preciso selecionar o que lemos e ao que assistimos, o que fazemos e mesmo as nossas amizades.

Existem na internet bons sites, bons filmes, documentários sérios, enfim, boas fontes de informação e de formação. Com centenas de canais fechados e provedores de filmes e séries via streaming, a própria televisão pode nos oferecer conteúdo de valor.

É preciso saber escolher, selecionar e acessar o que vale a pena. Além disso, é fundamental lembrar que cada um de nós é responsável pelo que joga dentro de sua mente. Se jogarmos lixo, é claro que só teremos lixo.

Em um mundo de muitas opções, cabe a cada um de nós fazer esforço de parar e pensar no que está lendo, assistindo, acessando, consumindo, com quem está se relacionando e aonde está indo. Do contrário, só nos restará a angústia, o desconsolo, a preguiça, a descrença, a desesperança.

Pense em suas escolhas e veja se você não está se deixando contaminar por escolhas erradas.

LUIZ MARINS – é antropólogo, professor e consultor de empresas no Brasil e no exterior. Tem 13 livros e mais de 300 vídeos e DVDs publicados. // http://www.marins.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O SIGNO DA INTUIÇÃO

Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta

Às vezes nos perguntamos se vale a pena dar ouvidos à voz interior que, como um alarme, pode sugerir algo inusitado ou mudanças de rumo em nossas vidas. Ou podemos acreditar que o apelo – vindo sabe-se lá de onde – não passa de cisma. O fato é que o modo como reagimos a esses “avisos” pode fazer toda a diferença em nosso cotidiano. E não são poucos os relatos a respeito.

Você provavelmente deve se lembrar dos comentários, logo após o terrível acidente que matou Airton Senna (1960-1994), em 12 de maio de 1994, em Ímola, na Itália. Quem compartilhava sua intimidade chegou a dizer que na noite anterior à fatídica corrida o piloto estava inquieto, arredio, como que prevendo algo que não soubesse explicar. O mesmo insight aconteceu com um dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, o vocalista Dinho, que num vídeo amador deixou gravado seu mau presságio em relação àquela viagem, de março de 1996, sem, entretanto, dar a devida importância à sua percepção. As consequências dessas atitudes todos nós conhecemos.

Também já passei por várias experiências semelhantes, e a mais marcante aconteceu anos atrás, numa viagem. Eu e uma amiga havíamos planejado férias de um mês, mas duas semanas depois de nossa partida tive uma noite péssima: sonhos terríveis me acordavam praticamente de hora em hora, como que impondo a decisão de antecipar minha volta para dali a dois dias. Foi o tempo necessário para despedir-me de minha irmã, que morreu exatamente na manhã seguinte ao meu desembarque em São Paulo.

Tanto o senso comum quanto pesquisadores poderiam atribuir à minha percepção o rótulo de premonição bruxaria. Mas é certo que algum atributo do nosso aparelho psíquico tem essa fantástica habilidade de enviar mensagens, que cada pessoa interpreta à sua maneira. É assim que a intuição age: segundos preciosos carregados de significado, e isso tanto para a vida afetiva quanto nas atividades profissionais. Todos nós temos a capacidade de registrar e compreender ou excluir essa linguagem de nossa vida. Chamada popularmente de sexto sentido, ela não é um predicado restrito às mulheres, embora muitos afirmem que nós somos mais intuitivas que os homens. Entretanto, há quem tenha maior ou menor facilidade para lidar com essa habilidade e desenvolvê-la que aparece nas mais variadas manifestações do nosso psiquismo: nos sonhos, nas sensações corporais, nos insights e nos atos criativos. Dizem que os gênios da música Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) atribuíram à intuição suas maiores realizações.

A intuição capta fragmentos das experiências de forma simbólica, imaginativa, de maneira que esses pequenos estilhaços possam ser organizados para compor uma espécie de vitral ou caleidoscópio, cuja combinação faz surgir um todo inovador. Mas para que essa nova informação aconteça deve-se abrir mão do raciocínio e da lógica, pois apesar de ela não se opor à razão, situa-se fora dos seus domínios.

Enquanto uma procura organizar os fragmentos de forma coerente, a outra busca uma combinação harmoniosa, obtida pela via da imaginação, do relaxamento e da quietude.

O psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961) criador da psicologia analítica, chamou a prontidão para compor esse vitral, tirando o máximo proveito do jogo que se forma entre luzes e sombras, de intuição, no qual flashes criativos desvendam possibilidades. A intuição é nossa habilidade de perceber o que pode vir a acontecer; pressentir o que ainda não está visível e reconhecer potencialidades ainda não realizadas. Essa característica é muito comum em empresários audaciosos, que têm a ousadia de projetar e comercializar projetos inovadores; em jornalistas e editores que “farejam” no mercado qual título será bem aceito no ano que vem; nos corretores da bolsa de valores, cuja destreza em prever a alta de determinado papel no mercado financeiro pode tornar seus clientes milionários; nos marchands, cuja capacidade de avaliar o potencial criativo de um pintor ou escultor surge antes mesmo que eles se deem conta da real qualidade de suas obras; em videntes, cartomantes, tarólogos e outros profissionais que trabalham com terapias alternativas, cuja extrema sensibilidade à atmosfera do lugar e às características das pessoas que os procuram, são capazes de revelar inúmeras coisas a seu respeito.

Fruto de seu próprio processo individual e de um período que Jung chamou de “doença curativa”, descrito em sua autobiografia Memórias, sonhos, reflexões (1961) o capitulo “Confronto com o inconsciente”, no volume VI de suas obras completas no qual expõe a teoria dos tipos psicológicos, ajuda-nos a compreender o que, na época, o autor sistematizou sobre o psiquismo. Aliás, nunca mais se viu uma obra sua com tal característica, tão cientificista. Publicado em 1921, o texto é o resultado de quase 20 anos de trabalho na prática clínica e a primeira produção intelectual depois do seu rompimento com Freud. Nele, o psiquiatra suíço constata que além das muitas diferenças individuais na psicologia das pessoas, existem também diferentes maneiras de nos relacionarmos com os fatos cotidianos.

No lugar de dividi-las em categorias, Jung tentou diferenciar os indivíduos por meio de suas singularidades, propondo duas atitudes e quatro movimentos psíquicos como os modos pelos quais a alma registra e reage às experiências da vida. Jung percebeu que o destino de uns é fortemente determinado pelos objetos de seu interesse, enquanto o de outros é regido pelo seu mundo interior, pela subjetividade. Isso faz com que as pessoas se inclinem naturalmente a lidar com a realidade sob a influência desses fatores. Ou seja, de um modo bem genérico, há quem tenha mais interesse pelo mundo dos objetos, dando a eles um valor preponderante que os atrai como um ímã (os extrovertidos) e aqueles cujo movimento psíquico não vai para o objeto, mas se volta para o sujeito e para seus próprios processos psicológicos (os introvertidos).

Ao lado das duas atitudes predominantes (a extrovertida e a introvertida), Jung também constatou a preponderância de quatro movimentos psíquicos básicos: pensamento, sentimento, sensação e intuição, funções da consciência que se interrelacionam com certo grau de mobilidade e fluidez, permitindo à pessoa experimentar todas as funções sem fixar-se naquela com a qual tenha mais familiaridade. Essa relativização das funções significa que não há um tipo puro, pois todas as atividades psíquicas são importantes para a vida saudável do indivíduo. Para tirar o máximo proveito da função intuitiva, ela precisa estar conectada com as outras funções, porque o pensamento é indispensável para organizá-la e só por meio da sensação somos capazes de realizá-la.

Jung comparou a intuição a uma bússola interior – uma função psíquica na qual a percepção dos fatos se dá por meio do inconsciente, utilizando os cinco sentidos (visão, paladar, audição, olfato e tato) para chegar a uma nova conclusão, que não depende da realidade concreta. Para ele, a intuição é uma espécie de apreensão instintiva e seu conhecimento é dotado de certeza e convicção intrínsecas. A atividade imaginativa da intuição descortina novos horizontes e perspectivas indispensáveis ao nosso tempo, sendo o desenvolvimento dessa função uma das mais importantes tarefas da psicoterapia contemporânea.

OLHAR DE LONGE

Do verbo intuire, que significa olhar para dentro, a intuição não é uma sensação dos sentidos (apesar de se utilizar deles), nem um sentimento ou uma conclusão intelectual, ainda que também possa aparecer sob essas formas. Nele, qualquer conteúdo se apresenta como um todo acabado, sem que saibamos explicar ou descobrir como esse conteúdo chegou a existir. Jung menciona que o filósofo Bento de Spinoza (1632-1677) considerou a scientia intuitiva como a forma mais elevada de conhecimento, sendo sua exatidão atribuída a algum conteúdo que repousa no inconsciente.

As pessoas que orientam sua atitude geral pelo princípio da intuição e, portanto, pela percepção por meio do inconsciente, pertencem ao tipo intuitivo. E assim como as demais funções, a intuição pode ser extrovertida ou introvertida conforme seja a sua utilização: para o conhecimento ou contemplação interior, ou para fora, para as realizações e o desempenho.

Segundo a psicóloga Marie-Louize von Franz (1915 – 19990, no livro A tipologia de Jung (1967 para a intuição “funcionar”, as coisas precisam ser olhadas de longe, ou de modo vago. Só assim é possível captar esse pressentimento vindo do inconsciente, porque quando o foco está voltado para os fatos da realidade exterior essa qualidade quase mágica não tem espaço para se manifestar.

É por isso que os intuitivos quase sempre são imprecisos e vagos. Pessoas “visionárias”, no bom sentido, cujas habilidades ganham um papel indispensável no mundo competitivo. Tanto que, atualmente, as empresas valorizam um novo perfil de profissional: indivíduos com aptidão para identificar tendências sem precedentes e com boa noção intuitiva para extrair tendências coerentes de dados conflitantes; que tenham capacidade para pensar além dos limites convencionais; dotadas de habilidade para influenciar atitudes e opiniões, além de disponibilidade para abraçar as incertezas. É o que Katharine Cook Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers – criadoras do Myers Briggs Type lndicator (indicador de tipos Myers Briggs) -, com base na tipologia junguiana, propõem como solução para o sucesso empresarial: a busca de profissionais capazes de descobrir novas formas de fazer as coisas, equilibrando um planejamento calculado com ações intuitivas.

Ao emprestar do matemático Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C.), a expressão “Eureca!”, o jornalista Nelson Blecher definiu com precisão o que a intuição significa para o mundo dos negócios. Em um artigo publicado em outubro de 1997, na revista Exame, ele apresenta inúmeros motivos para sua crescente valorização, entre eles a imprevisibilidade dos consumidores, a aceleração das mudanças econômicas e tecnológicas, que tornaram as coisas extremamente complexas, a exigência de soluções adequadas aos novos esquemas de produção e fontes de suprimentos. E se para essa habilidade inata do ser humano só existe um freio – aquele que nós mesmos colocamos -, a atitude fielmente junguiana para deixá-la seguir seu curso ou facilitar sua emersão da profundidade do inconsciente é um mergulho no autoconhecimento: um processo capaz de tirar da escuridão essa habilidade, ainda hoje, frequentemente menosprezada.