A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PROPENSOS AO EXCESSO

Os jovens tomam contato cada vezmais cedo com o álcool e outras drogas psicoativas; sua vulnerabilidade cerebral e psicológica a essas substâncias merece redobrada atenção da família e da sociedade e demanda estratégias interdisciplinares de prevenção e combate ao uso abusivo antes que ele se torne dependência

A cada ano, estima-se que 1,7 milhão de adolescentes morram no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria é vítima de acidente, suicídio, violência, complicações decorrentes da gravidez e outros motivos passíveis de prevenção e tratamento. O abuso de álcool e outras drogas é um exemplo desta última categoria. O consumo de bebidas alcoólicas, que poderia ser apenas um “rito de passagem” para a vida adulta, traz consigo, a ameaça de um padrão de uso, cuja face mais comprometedora é a dependência.

Diante da instabilidade e das mudanças características da adolescência, período de “crise” no qual está em jogo a reestruturação psíquica, é fundamental compreender de que forma o uso de álcool e de drogas se insere na vida do adolescente. Em muitos casos, pode se tratar de uma fase de experimentação, transitória, decorrente da curiosidade e da elaboração do processo de entrada no mundo adulto.

A escala que vai do uso à dependência obedece a matizes, assim como um dégradé que vai do rosa-claro ao vermelho intenso, que nem sempre delimitam com clareza as fases da construção da dependência, como mostra a psicóloga Jandira Masur, falecida em 1990, em O que é alcoolismo (Brasiliense, 1991). Esse quadro se acentua quando lidamos com a população adolescente, dado que as variações ficam sobrepostas à própria instabilidade dessa fase.

Embora não possamos afirmar que haja um padrão de utilização absolutamente segura, existe a possibilidade da utilização recreativa do álcool e de outras drogas, que reflete o tipo de relação que o indivíduo estabelece com a substância. É importante ressaltar que tal uso não constitui um problema de ordem médica, passível de tratamento, mas muitas vezes requer algum tipo de esclarecimento à família e aos educadores a fim de ampliar sua compreensão sobre esse tipo de consumo.

Os pais, muitas vezes por falta de orientação, tomam medidas desesperadas ao descobrir que o adolescente usa determinadas substâncias, sobretudo se forem ilícitas, a exemplo da maconha. Por outro lado, percebe-se que o consumo de álcool é bastante tolerado pela sociedade, quando não incentivado, ocasionando maior dificuldade na detecção de um uso problemático.

Devemos dedicar particular atenção ao consumo de álcool entre adolescentes, em geral uma das primeiras substâncias psicoativas com as quais o jovem tem contato. Boa parte dos adolescentes começa a beber estimulada pelos pais (para muitos deles, o primeiro “porre” do filho adolescente pode ter conotação de masculinidade) ou é levada a experimentar por curiosidade quando vai comprar bebidas alcoólicas para os adultos.

É fato que a venda de bebidas alcoólicas a menores é pouco fiscalizada no Brasil. Entretanto, é extremamente importante que os pais se conscientizem de que essa é uma norma a ser seguida, e o modo como lidam com ela influirá no futuro comportamento de seus filhos diante do consumo de álcool e drogas.

Diferentemente da recreação, o abuso é um padrão de utilização que causa algum tipo de dano à saúde física ou mental do indivíduo, ou mesmo em outras áreas da vida como a social e a ocupacional, além de conflitos com a lei. Os prejuízos são recorrentes significativos e relacionados ao uso repetido da substância, mas não configuram ainda um quadro de dependência.

O adolescente, por exemplo, pode faltar às aulas, sofrer suspensão ou ter baixo desempenho escolar em decorrência do uso de substâncias psicoativas. É possível, ainda, apresentar-se repetidamente intoxicado em situações em que isso represente risco para sua integridade física, como durante a prática de esportes. Também são comuns problemas legais recorrentes, como condutas desordeiras, agressões, infrações, pequenos delitos e condução de veículos quando está intoxicado ou embriagado.

A dependência é caracterizada, sobretudo, pela perda de controle sobre o uso da substância, que se manifesta pelo consumo persistente e compulsivo, mesmo na vigência de problemas significativos decorrentes do uso. O quadro, em geral, é acompanhado de tolerância (necessidade de consumo cada vez maior para obter o efeito desejado) e síndrome de abstinência (presença de sintomas físicos e psíquicos ao diminuir ou parar o uso). Como diz o psiquiatra francês Claude Olievenstein em seu livro Destino do toxicômano (Almed, 1985), o estabelecimento da dependência ocorre a partir do encontro do indivíduo com a droga – suas particularidades farmacológicas e seus efeitos – em dado momento marcado por dificuldades específicas.

Sabe-se que a evolução entre os diferentes padrões de uso de substâncias psicoativas não apresenta uma divisão estanque, do mesmo modo que não necessariamente representa um continuum, em que, por exemplo, o uso recreativo passa ao abusivo e este à dependência. Tais fenômenos envolvem uma série de fatores, que incluem características individuais, propriedades farmacológicas e aspectos sociais. Por exemplo, um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) feito no final dos anos 90 indicou que, entre os indivíduos que já fizeram uso de maconha, apenas 5% desenvolveram de fato um quadro de dependência.

No que se refere à dependência de álcool, a história típica de seu desenvolvimento ocorre ao longo de alguns anos. Em geral, a pessoa começa a beber no período da adolescência ou no início da idade adulta, e aumenta de maneira progressiva a quantidade e a frequência do consumo, até chegar aos centros de tratamento por volta dos 35, 40 anos. Entretanto, esse perfil vem mudando. Os jovens estão começando a beber mais cedo e de forma mais intensa, apresentando problemas de saúde e alterações psíquicas ainda mais precocemente.

É por esse motivo que cada vez mais modelos de intervenção sobre o uso abusivo de álcool têm sido desenvolvidos, buscando por meio deles atingir a população jovem para que se interrompa o processo de estabelecimento da dependência.

O álcool distribui-se regularmente por todo o organismo. Quando alguém o consome em grandes quantidades, há o risco de vários órgãos e sistemas do corpo serem danificados.

Ao atingir o sistema nervoso central, a substância pode causar diversos problemas neurológicos e psiquiátricos, como depressão e ansiedade até problemas irreversíveis de memória, como é o caso da síndrome de Wemicke-Korsokoff, em que há perda da memória recente. Os jovens, cujo sistema central ainda está em formação são mais afetados.

O uso crônico de álcool também pode ocasionar a alteração denominada neuropatia periférica, caracterizada pela degeneração das ramificações de nervos, principalmente em membros (braços e pernas), levando a dores e formigamentos bastante desconfortáveis.

É bastante comum a associação do alcoolismo a problemas no fígado como a cirrose hepática – degeneração ocasionada pela agressão crônica ao órgão, em geral levando à morte quando não é possível realizar um transplante. Além disso, o fígado é um órgão vital responsável pela síntese e metabolização de diversas substâncias. Quando seu funcionamento está prejudicado, costumam ocorrer problemas variados, como alterações hormonais, varizes de esôfago, icterícia (coloração amarela da pele) e ascite (acúmulo de líquido no abdômen). Outras estruturas do sistema digestivo podem ser atingidas em decorrência do consumo excessivo de álcool. São bastante frequentes as esofagites e gastrites, problemas no pâncreas e na vesícula biliar.

A boca, que também integra esse sistema, pode sofrer diversas alterações, como mudanças do paladar, ulcerações, que algumas vezes resultam em câncer, sobretudo em tabagistas, e alterações da dentição, porque o consumo crônico de álcool modifica o equilíbrio ácido-base da cavidade oral, predispondo a essas modificações.

Os indivíduos dependentes de álcool são, ainda, mais propensos a problemas de impotência e infertilidade, tanto homens como mulheres. Essas alterações, embora sentidas diretamente, podem ser originárias de falhas na síntese de hormônios no fígado ou alterações no sistema nervoso central.

O uso crônico de álcool pode também fazer com que o indivíduo apresente diversas alterações nos sistemas imunológico e hematológico. Uma importante causa para isso deriva da desnutrição, com frequência verificada nessas pessoas, já que por conter uma concentração elevada de açúcares, o álcool diminui a fome. Na ausência de vitaminas, proteínas e sais minerais, o organismo fica predisposto ao aparecimento de doenças. No caso em questão, as comorbidades (presença de mais de um quadro patológico em um mesmo indivíduo) dizem respeito à presença de outro transtorno psiquiátrico, além do relacionado ao uso de substâncias. Diversos estudos têm mostrado as altas taxas de prevalência de comorbidades psiquiátricas, sobretudo depressão e ansiedade, entre usuários de álcool e drogas. Sabe-se que a comorbidade psiquiátrica modifica a evolução da dependência, exigindo abordagens terapêuticas específicas, como o uso de medicamentos.

Na população de adolescentes, fazer um diagnóstico adequado nem sempre é tarefa fácil. Muitas vezes, a presença de estados depressivos ou outros tipos de alterações de comportamento são encarados como parte “normal” do processo da adolescência, contribuindo para o agravamento do quadro. Os principais transtornos psiquiátricos associados ao uso de álcool e outras drogas nessa fase são os de humor, de ansiedade, de conduta, alimentares e do déficit de atenção e hiperatividade.

De acordo com dados do Cebrid, existem alguns fatores que, embora não possam ser apontados como desencadeantes, são úteis como “termômetros” para atentarmos à questão do uso de drogas nessa população. Embora não fique estabelecida uma relação direta entre seu consumo e a defasagem escolar em nosso meio, existem vários trabalhos científicos relatando forte associação entre uso de substâncias psicotrópicas e baixo rendimento escolar.

Outro fator que apresenta correlação importante com o uso de drogas é o absenteísmo às aulas. Levantamentos do Cebrid e diversos estudos internacionais têm demonstrado que, quanto mais intenso o uso de álcool e drogas, maior o número de faltas escolares. Com relação às classes socioeconômicas, algumas pesquisas afirmam que nos países em desenvolvimento há relação positiva entre o uso de certas drogas e o baixo nível socioeconômico. Ainda segundo dados do Cebrid, isso foi observado no Brasil, mas em uma população específica: meninos e meninas em situação de rua, ou seja, em crianças e adolescentes totalmente desprovidos de qualquer recurso social.

Com relação ao gênero, conforme pesquisa realizada em 1989 pela professora Beatriz Carlini-Cotrim, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e colaboradores, os indivíduos do sexo masculino tendem a fazer mais uso de substâncias como cocaína, maconha e álcool, enquanto os do sexo feminino tendem a usar mais medicamentos, como anfetaminas (remédios para emagrecer) e ansiolíticos (tranquilizantes). Tem-se notado, além disso, aumento do uso de esteroides anabolizantes e energéticos entre indivíduos do sexo masculino. No que se refere às idades, constata-se aumento de uso de drogas em pessoas acima dos 18 anos, mas com faixas estáveis de uso frequente nos últimos cinco levantamentos. Observa-se que os jovens têm, de forma geral, experimentado menos álcool que outros tipos de droga.

Diversos estudos nacionais, segundo dados do Cebrid, vêm apontando que a primeira experiência com drogas ocorre após contato prévio com álcool ou tabaco. Isso sugere que as estratégias preventivas devam ser orientadas para retardar as primeiras experiências com essas substâncias, aumentando a margem de segurança da experimentação de outras drogas. Quanto mais tardia for a experimentação de drogas, menores as chances de a pessoa desenvolver padrões de abuso e dependência.

Vários trabalhos têm mostrado que o tratamento ideal para indivíduos dependentes de drogas deve ser, a princípio, de caráter voluntário, em sistema ambulatorial e com equipe multidisciplinar em centros especializados. Ao pensar no tratamento ideal dirigido a adolescentes, sabe-se que, além desses fatores, deve-se contar com intervenções de apoio e suporte às famílias e com o emprego de atividades lúdicas e/ou artísticas, como forma de melhorar a adesão a este.

Do ponto de vista médico, é essencial que os pacientes sejam avaliados por um psiquiatra com o objetivo de verificar a presença de comorbidades e a necessidade de intervenção medicamentosa, bem como efetuar uma avaliação clínica criteriosa em função dos possíveis danos causados à saúde física desses indivíduos.

A indicação de internação no tratamento da dependência deve ser relativizada, sobretudo porque existe um mito em nosso meio de que ela tem capacidades “curativas”. O que se observa na prática, entretanto, é que diversas pessoas, uma vez internadas, dão início a um processo de sucessivas internações visando garantir a abstinência, mas com resultados frustrantes.

A internação não possui, de fato, caráter curativo e deve ser indicada, no que concerne ao uso de álcool e drogas, com o propósito de desintoxicação, para que o indivíduo se restabeleça e dê continuidade ao acompanhamento extra-hospitalar. Ela também pode ser levada em conta em casos semelhantes às internações psiquiátricas- por exemplo, na vigência de comportamentos que coloquem em risco a vida do usuário e dos outros, agressividade extrema e risco de suicídio -, bem como constituir uma forma de preservar a saúde física em situações em que a pessoa esteja extremamente debilitada ou haja risco de exposição social.

Os profissionais de saúde devem estar atentos às expectativas dos familiares quanto aos resultados do tratamento, é bastante frequente esperarem que o paciente consiga atingir um padrão de abstinência total logo no início do tratamento, não tolerando recaídas e fazendo julgamento moral sobre o uso. É por esse motivo que um sistema de apoio aos familiares dos pacientes deve fazer parte do tratamento, na forma de atendimentos individuais ou grupais, com o objetivo de fornecer informações, melhorar a comunicação entre eles e, não raras vezes, encaminhar a família para tratamento psicoterápico.

QUANTO MAIS CEDO, MAIS PERIGOSO

As chamadas drogas de abuso, como nicotina, cocaína e maconha, afetam o sistema límbico, conhecido como área de recompensa cerebral. Em geral, ela responde a experiências agradáveis, lançando no corpo o neurotransmissor dopamina, que proporciona sentimentos de prazer. Determinadas drogas, com tamanho e forma similares aos neurotransmissores naturais, aumentam a ação da dopamina e de outros neurotransmissores, como a noradrenalina e a serotonina.

Pesquisadores acreditam que a liberação de dopamina no núcleo accumbens seja o fator preponderante para o desenvolvimento da dependência. O hipocampo registra a satisfação rápida provocada pela droga e a amígdala cria uma resposta condicionada a esses estímulos.

A idade da exposição inicial a substâncias que viciam é inversamente proporcional ao risco de desenvolver drogadição, afirmam especialistas.

Estudos realizados com camundongos e cocaína têm favorecido a hipótese de que o cérebro adolescente seja mais vulnerável à dependência. A pesquisadora Michelle

Ehrlich, do Instituto Farber de Neurociências, da Universidade Thomas Jefferson, nos Estados Unidos, pesquisa as “adaptações moleculares” no cérebro em resposta a drogas psicoestimulantes.

Em 2002, um estudo liderado por ela, feito com camundongos, revelou que um fator de transcrição denominado delta-FosB (proteína envolvida na indução da síntese de outras proteínas) era produzido no corpo estriado desses animais quando expostos a cocaína e a anfetaminas com regularidade. A principal função dessa região cerebral parece ser o controle da motricidade. Os pesquisadores supõem que tal proteína integre um processo de “adaptação” do cérebro que programa respostas em longo prazo, como a dependência de drogas.

Eles descobriram que, em camundongos adolescentes, a proteína era produzida em escalas muito maiores em uma parte específica da estrutura associada à sensação de recompensa após o consumo de drogas. A experiência sugere que indivíduos jovens expostos a efeitos psicoestimulantes de drogas podem ter o equilíbrio químico do cérebro muito mais afetado do que se imaginava.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.