EU ACHO …

CALOR HUMANO

Não, não fazia vermelho. Era quase de noite e estava ainda claro. Se pelo menos fosse vermelho à vista como o era intrinsecamente. Mas era um calor de luz sem cor, e parada. Não, a mulher não conseguia transpirar. Estava seca e límpida. E lá fora só voavam pássaros de penas empalhadas. Mas era um calor visível, se ela fechava os olhos para não ver o calor, então vinha a alucinação lenta simbolizando-o: via elefantes grossos se aproximarem, elefantes doces e pesados, de casca seca, embora molhados no interior da carne por uma ternura quente insuportável; eles eram difíceis de se carregarem a si próprios, o que os tornava lentos e pesados.

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos, mas duros – e sobretudo boca voraz de nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada.

Seus olhos abertos e diamantes. Nos telhados os pardais secos. “Eu vos amo, pessoas”, era frase impossível. A humanidade lhe era como uma morte eterna que, no entanto, não tinha o alívio de enfim morrer. Nada, nada morria na tarde enxuta, nada apodrecia. E às seis horas da tarde fazia meio-dia. Fazia meio-dia com um barulho atento de máquina de bomba de água, bomba que trabalhava há tanto tempo sem água e que virara ferro enferrujado. Há dois dias faltava água na cidade. Nada jamais fora tão acordado como seu corpo sem transpiração e seus olhos diamantes, e de vibração parada. E Deus? Não. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.

Enquanto isso era verão. Verão largo como um pátio vazio nas férias da escola. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada: como a da casca lenta dos elefantes de couro ressequido. A esqualidez límpida e quente. Pensar no seu homem? Não, farpa na sola do pé. Filhos? Quinze filhos dependurados, sem se balançarem à ausência de vento. Ah, se as mãos começassem a se umedecer. Nem que houvesse água, por ódio não tomaria banho. Por ódio não havia água. Nada escorria. A dificuldade é uma coisa parada. É uma joia-diamante. A cigarra de garganta seca não parava de rosnar. E Deus se liquefez enfim em chuva? Não. Nem quero. Por seco e calmo ódio, quero isso mesmo, este silêncio feito de calor que a cigarra rude torna sensível. Sensível? Não se sente nada. Senão esta dura falta de ópio que amenize. Quero que isto que é intolerável continue porque quero a eternidade. Quero esta espera contínua como o canto avermelhado da cigarra, pois tudo isso é a morte parada, é a eternidade, é o cio sem desejo, os cães sem ladrar. É nessa hora que o bem e o mal não existem. É o perdão súbito, nós que nos alimentávamos da punição. Agora é a indiferença de um perdão. Não há mais julgamento. Não é o perdão depois de um julgamento. É a ausência de juiz e de condenado. E a morte, que era para ser uma única boa vez, não: está sendo sem parar. E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são duas pérolas secas. Vou vos dizer a verdade: por ódio enxuto, quero é isto mesmo, que não chova.

E exatamente então ela ouve alguma coisa. É uma coisa também enxuta que a deixa ainda mais seca de atenção. É um rolar de trovão seco, sem nenhuma saliva, que rola, mas onde? No céu absolutamente azul, nem uma nuvem de amor. Deve ser de muito longe o trovão. Mas ao mesmo tempo vem um cheiro adocicado de elefantes grandes, e de jasmim da casa ao lado. A Índia invadindo, com suas mulheres adocicadas. Um cheiro de cravos de cemitério. Irá tudo mudar tão de repente? Para quem não tinha nem noite nem chuva nem apodrecimento de madeira na água – para quem não tinha senão pérolas, vai vir a noite, vai vir madeira enfim apodrecendo, cravo vivo de chuva no cemitério, chuva que vem da Malásia? A urgência é ainda imóvel, mas já tem um tremor dentro. Ela não percebe, a mulher, que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava não era a tarde encalorada e sim o seu calor humano. Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MINHA CASA É O MEU MUNDO

Confinadas durante a quarentena, com o dinheiro das viagens parado no banco, as pessoas aproveitaram para renovar o lar, de modo a adaptá-lo à rotina transformada

Entre as dezenas de lições ensinadas à humanidade pela pandemia (nem todas aprendidas, diga-se), uma das mais permanentes é a importância de um lar confortável e completo. Durante alguns meses, casas e apartamentos se tornaram o universo exclusivo das famílias enclausuradas no trabalho remoto e no ensino a distância – e assim muitas seguem, com a rotina radicalmente reformulada. Entre quatro paredes, os quarenteners tiveram tempo de sobra para olhar em volta e avaliar cômodos, objetos e móveis do lar não mais tão doce e perceber seus defeitos no detalhe. Com novas demandas à mesa, necessidade de rearranjo de espaços e dinheiro (das viagens canceladas) para gastar, deu-se o estalo: é hora de reformar. O resultado é que nunca antes neste país, mesmo tendo ele passado meses parado e desanimado, se investiu tanto em melhorias domésticas.

O setor que engloba construção, arquitetura e decoração teve em 2020 um de seus anos mais surpreendentes. No início da crise, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) chegou a prever um encolhimento de até 11%, mas em dezembro, diante da demanda inesperada, a projeção recuara para 2,8%. Mais: em pleno avanço do desemprego, até outubro haviam sido criados quase 140.000 postos de trabalho. E a expectativa é de que o impulso se mantenha e alavanque uma subida de 4% em 2021 – a maior em quase uma década. “Após quatro anos de pouca procura, fico feliz em dizer que nunca trabalhei tanto”, diz a arquiteta Julia Oddone, que decidiu se tornar autônoma no fim de 2019 e não parou desde então. Outra pesquisa, essa do grupo Consumoteca, uma consultoria voltada para padrões de consumo, cultura e inovação, mostrou que 55% das pessoas de maior poder aquisitivo no Brasil fizeram alguma mudança na casa durante a quarentena. Nem só os ricos reformaram – 39% de famílias da classe C também mexeram em sua moradia.

O cômodo que mais atraiu as atenções foi, como era de se esperar, o escritório, um espaço que nem existia, ou se apertava em um vão de escada, na maioria das casas. ”As pessoas precisam de um mínimo de privacidade e conforto para fazer home office. Poucas tinham um local exclusivo e só perceberam isso quando a necessidade bateu à porta”, diz o arquiteto Alberto Barbour. Em segundo lugar nas reformas, empatadas, estão a cozinha e a sala. A psicóloga Jamile Gomes, que divide o apartamento no Rio de Janeiro com a mãe, o marido e um filho de 3 anos, teve de redesenhar a disposição dos eletrodomésticos para conseguir armazenar os mantimentos necessários à elaboração de três refeições diárias para a família. “A gente comia fora, no trabalho ou em restaurantes. De uma hora para outra, fiquei sem espaço”, conta Jamile, carioca de 36 anos, que ainda aproveitou para remodelar a varanda do apartamento.

A família de Jamile, como muitas, teve a renda reduzida durante a quarentena, mas as despesas também diminuíram bastante com o fim dos passeios no shopping, cinema, restaurantes e viagens – o que lhe permitiu poupar para a reforma. “Conseguimos nos organizar para adequar o espaço onde passamos quase 100% do nosso tempo”, diz. Transferir para a melhoria da casa os recursos economizados com o lazer interrompido foi a regra na pandemia. “Em um primeiro momento, quando ainda não se sabia quanto tempo ela ia durar, as pessoas investiram em coisas pequenas, como a compra de um ou outro móvel. Conforme o tempo passou, vieram as reformas mais ambiciosas”, diz Marina Roale, analista de pesquisa do Consumoteca.

Quem não conseguiu amealhar um pé de meia partiu para o plano B: pôr a mão na massa (corrida, no caso). No Google, as buscas por “como pintar parede” e “decoração” deram um salto, principalmente a partir de junho. A psicóloga paulista Ana Paula Figueiredo, de 54 anos, decidiu aproveitar o tempo livre e os dotes artísticos para repaginar diversos cômodos. “Sempre fui de deixar para depois. Ficando só dentro de casa, finalmente mudei o que me incomodava”, comemora. Além de pintar as paredes, Ana Paula trocou lâmpadas para melhorar a iluminação, comprou plantas para alegrar o ambiente e costurou novas almofadas. “Nunca gostei de chamar pessoas de fora para trabalhar na minha casa. Além de resolver problemas, me diverti muito”, afirma.

Segundo especialistas, a relação das pessoas com sua casa nunca mais será a mesma de antes da quarentena. “Ela foi reinventada. Ao nos isolarmos, valorizamos imensamente a segurança e o conforto do lar”, avalia Marina. A reviravolta tem sido comemorada pelos varejistas. A multinacional Saint-Gobain, dona de redes como Telhanorte, Tumelero e Norton, registrou aumento de vendas de quase 40% desde abril e fechou o ano com um crescimento de 12% em relação a 2019. “Nossos best-sellers são sofás, escrivaninhas e itens de cozinha, como panelas”, diz Flavia Marcolini, CEO do CasaShopping, no Rio de Janeiro, especializado em design de interiores, onde as vendas cresceram 50% desde o início do ano. A procura por matéria-prima de marcenaria e mobiliário foi tanta que houve até falta de alguns itens, como chapas de madeira e espuma para sofá. “Algumas fábricas acabaram parando no início da pandemia e não tiveram tempo de se recuperar antes do boom das vendas”, explica o arquiteto carioca Mauricio Nóbrega, que precisou reagendar a entrega de projetos. A indústria, no entanto, assegura que o abastecimento voltou ao normal e que está preparada para os próximos meses. Haja tinta para tanta parede a ser pintada.

LISTA DE COMPRAS

Os produtos de casa mais procurados por quem não sai dela

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE MARÇO

CONSELHO DO PERVERSO, ENGANO PERIGOSO

Os pensamentos do justo são retos, mas os conselhos do perverso, engano (Provérbios 12.5).

O justo é uma fonte de onde jorram a justiça e a retidão. Nas suas palavras há sabedoria, e nos seus conselhos, verdade; mas, quando o perverso abre a boca, seus conselhos são traiçoeiros e enganosos. Suas palavras produzem morte. Um clássico exemplo dessa fatídica realidade foi o conselho maligno que Jonadabe deu a Amnom, filho do rei Davi. O jovem príncipe apaixonou-se doentiamente por sua meia-irmã, Tamar. Em vez de buscar conselho em homens sábios, abriu seu coração para um jovem sagaz e perigoso, uma víbora venenosa. Os lábios de Jonadabe destilaram peçonha mortal. Seus conselhos deram início a uma tragédia irremediável na vida de Amnom e de sua família. Tamar foi violentada. Amnom foi assassinado. Absalão tornou-se homicida, e a casa de Davi foi transtornada. Os conselhos do perverso são como uma fagulha que incendeia toda uma floresta e trazem destruição e morte. Os pensamentos do justo, porém, são retos. O justo não se insurge contra Deus nem maquina o mal contra o próximo. Ele tem a mente de Cristo e o coração transformado. De sua boca fluem palavras de vida, e não conselhos de morte.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA EMPATIA

Colocar-se no lugar do outro nas crises é a melhor estratégia para preservar os resultados, inspirar a liderança e fortalecer o engajamento. Saiba como disseminar essa habilidade valorizada pela maioria dos CEOs

No início de março, a Organização Mundial da Saúde declarou uma pandemia global, ocasionada pela disseminação do novo coronavírus. Desde então, surgiram muitas histórias de solidariedade envolvendo pessoas de todo o mundo. Muitos casos de fabricantes de cosméticos suspendendo a operação para produzir álcool em gel, empresas oferecendo abastecimento de materiais e equipamentos gratuitos para profissionais de saúde, e até pessoas de cidades inteiras tocando instrumentos musicais de suas varandas para deixar a quarentena mais leve. A questão é que a empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro, nunca esteve tão em alta – seja nas ruas, seja nos corredores dos escritórios. Comum aos psicólogos, há um tempo essa palavra se tornou muito utilizada no vocabulário empresarial.

Um estudo da consultoria Businessolver divulgado em 2019, que ouviu 1.850 trabalhadores, profissionais de RH e executivos dos Estados Unidos, revelou que 79% dos CEOs reconhecem a empatia como chave para o sucesso das companhias. E essa percepção se fortaleceu nos últimos anos. Em 2017, a mesma pesquisa mostrava que 57% dos executivos acreditavam ser importante investir nessa habilidade no ambiente de trabalho. Em 2019, o índice saltou para 79%.

Por que isso acontece? uma das explicações é o fato de que profissionais que compreendem como os outros se sentem criam laços de afetividade com colegas e clientes conseguem resultados melhores. Prova disso é que as dez primeiras empresas no ranking Global Empathy Index de 2016, feito pela consultoria The Empathy Business e que analisou 170 empresas americanas, indianas e europeias em categorias como liderança e cultura organizacional lucravam 50% mais em comparação com as dez piores.

Mas a valorização da empatia pode ter explicações que vão além dos simples indicadores financeiros. “A globalização faz com que tenhamos mais contato com grupos diversos e os profissionais precisam desenvolver um bom relacionamento com pessoas cada vez mais diferentes”, explica Joana Story professora na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp).

É importante não confundir empatia com sociabilidade – as características são muito diferentes. Prova disso é uma pesquisa feita pela Universidade Estadual de Michigan que avaliou o nível de empatia em 63 países perguntando aos entrevistados se eles se importavam com situações que pudessem acontecer aos outros. O estudo ranqueou o Brasil, conhecido por seu calor humano, na 51ª colocação. O campeão foi o Equador: “O fato de sermos uma população comunicativa não significa que sabemos nos colocar no lugar dos outros, e isso explica muito a questão da polarização que vivemos hoje em dia: não conseguimos mais conversar”, afirma Virgínia Planet, sócia da House of Feelings, consultoria que trabalha os sentimentos dentro das companhias.

TRÊS PILARES

Ser empático envolve um processo ele compreensão emocional do outro, tocando suas reais necessidades e sentimentos diante de alguma situação. Daniel Goleman, jornalista especializado em estudos do cérebro e autor do já clássico Inteligência Emocional exemplificou bem o que é a empatia em um artigo escrito para a Harvard Business Review.  Ele disse que os executivos empáticos “são aqueles que encontram um consenso, cujas opiniões têm mais peso e com quem as outras pessoas querem trabalhar. Surgem como líderes naturais, independentemente da hierarquia organizacional ou social”.

Ainda de acordo com ele, essa habilidade é envolta por três pilares. O primeiro é a empatia cognitiva, a capacidade de compreender a perspectiva da outra pessoa e pensar em seus sentimentos. O segundo é a empatia irracional que diz respeito a sentir o que a outra pessoa sente, sem precisar refletir profundamente sobre isso. E o terceiro é a preocupação empática: interpretar e entender de quais formas a outra pessoa precisa de você.

Na teoria é até simples. O desafio é colocar isso na prática. “Quais são as atitudes que eu, como líder, parceiro ou alguém que é liderado, vou ter diante do conhecimento aprofundado de todas essas emoções? Isso é algo que não aprendemos na escola, na faculdade, em lugar nenhum”, explica Eduardo Albuquerque, fundador da Escola Conquer. Mas existe um alento: todos nós somos, em maior ou menor grau, naturalmente empáticos. “A empatia é própria do ser humano, nascemos com ela. A questão é quanto ao longo da vida nós a utilizamos e a desenvolvemos”, diz Regina Giannetti, coach de desenvolvimento pessoal, instrutora de mindfulness e criadora do podcast “Autoconsciente”.

Um dos primeiros passos para ser mais empático – e estimular esse comportamento internamente nas empresas – tem a ver com a diversidade. Isso porque, para entender o diferente, temos de necessariamente, nos colocar no lugar do outro. Grupos de afinidade, por exemplo, ajudam nesse sentido. Além de possibilitarem discussões de vieses inconscientes, eles estimulam a troca entre pessoas de diferentes origens, formações e histórias, o que permite ampliar o olhar de todos.

Também é importante desenvolver a escuta ativa (e atenta), algo fundamental na busca por sensibilidade. O ideal é conseguir formar um ambiente em que todos, independentemente do nível hierárquico, consigam ter disposição para se despir de conceitos preconcebidos e simplesmente se abrir para o que o outro tem a dizer. “É muito fácil você ouvir alguém e julgá-lo segundo suas próprias ideias. Já escutar sem julgar, essa, sim, é a prática que deve ser alimentada nas empresas e em todos os lugares”, diz Regina. Para conquistar isso, apoie-se também em seu lado emocional – importantíssimo para notar expressões corporais, tom de voz e como o outro se sente ao falar sobre determinado assunto (se está animado, apreensivo, estressado, sereno etc.).

SENSIBILIZANDO A LIDERANÇA

Importante saber que, além dos líderes que citamos no início da reportagem, os profissionais também estão mais atentos quando o assunto é empatia: 82% deles considerariam deixar o atual emprego para trabalhar em uma empresa mais empática, segundo o estudo da Businessolver. No entanto, as percepções de chefes e empregados sobre o grau empático da companhia são diferentes. Para 92% dos CEOs, a organização que lideram tem empatia – o índice cai para 72% sob a lente dos trabalhadores. O motivo dessa discrepância talvez esteja revelado em outro dado do levantamento: 58% dos CEOs não se sentem à vontade para criar vínculos. Isso pode ter a ver com o difícil equilíbrio entre a empatia e a cobrança por resultados.

“Em muitas empresas, a empatia só vai até a última semana do mês, quando está chegando a hora de bater as metas. Ainda existe uma dificuldade de falar de emoções e vulnerabilidade no ambiente de trabalho”, explica Lísia Prado, outra sócia da House of Feelings. Ela dizainda que a chefia não sabe lidar com a vulnerabilidade do outro. “Desde criança aprendemos a engolir o choro, ignorar os sentimentos e ir em frente. Fomos ensinados a seguir um padrão que não faz mais sentido hoje. Agora é parte do papel da liderança entender as dificuldades e os problemas dos funcionários é saber como direcioná-los.”

Esse foi um desafio para o RH da ExxonMobil, multinacional americana de petróleo e gás com 1.600 funcionários no Brasil. Em 2019, a pesquisa anual de clima revelou que a liderança não estava sendo tão bem avaliada quanto a companhia gostaria. “Mapeamos chefes que haviam sido apontados como focados em resultados práticos, e não na gestão humana”, diz Samantha Franco, gerente de recursos humanos da ExxonMobil.

Na busca pela solução do problema, a área de gestão de pessoas apostou em treinamentos de habilidades interpessoais e também de empatia. O programa dura três meses e trata temas como diversidade, vulnerabilidade e autoconhecimento – além de trocas de experiências com outras empresas no intuito de ampliar a visão de mundo. “Nossa intenção é criar um ambiente de trabalho psicologicamente seguro em que todos os funcionários se sintam livres para ser quem são e trazer suas dores quando precisarem”, diz Samantha.  Além dos cursos para os chefes, os funcionários também podem participar de dinâmicas sobre empatia. “É uma açãoeducacional voluntária”, diz. O sucesso foi tamanho que há lista de espera para ingressar nas novas turmas – e o feedback positivo de quem já participou chega a 80%. “As pessoas estão mais seguras em ser autênticas e compartilhar suas necessidades. O clima da empresa melhorou muito”.

EM OUTRA REALIDADE

Um dos aspectos cruciais do desenvolvimento da empatia é colocar-se no lugar do outro. Só assim conseguimos compreender, com profundidade quais são as dores e os desejos de quem está ao nosso lado. Mas essa é uma atitude que precisa ser cultivada dia a dia – pois demanda prática e treinamento. Para proporcionar esse olhar em seus futuros líderes, a Votorantim Cimentos criou, há dois anos, uma dinâmica de empatia em seu programa anual de trainees. Durante a seleção dos jovens profissionais, que é feita às cegas, existe uma dinâmica na qual eles trabalham lado a lado com coletores de materiais recicláveis que fazem parte da Pimp My Carroça, instituição que dá apoio a catadores e cooperativas de reciclagem. Os futuros trainees rodam as ruas de São Paulo procurando materiais recicláveis que, no final do dia são doados aos catadores. Além disso, há mentorias – para os postulantes às vagas e para os gestores que compartilham o projeto – com os catadores da organização parceira da Votorantim Cimentos. Cento e quarenta jovens passaram pelo processo.

“Nós começamos essa dinâmica de forma incipiente. Percebemos que a metodologia funciona e já estamos aplicando-a em outras temáticas, como o programa de estágio técnico para mulheres e o programa de liderança. Esse trabalho de empatia estimula a consciência social e humana de nosso público interno e externo”, afirma Aldo Frachia, gerente de diversidade da Votorantim Cimentos. As mudanças no processo seletivo dos trainees permitiram que a empresa ampliasse a presença de grupos minoritários entre os candidatos. Na edição para 2020, dos 80 concorrentes que participaram da dinâmica com os catadores, 62% eram mulheres; 31%, negros; e 15%, LGBT+.

A troca de papéis também é um método utilizado pela Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ) da lll Região. Em 2017, foi criado o projeto Vivendo o Trabalho Subalterno, que discute o tema da invisibilidade pública para melhorar a empatia dos juízes. “O juiz passa a matar parte do tempo escutando a narrativa de outras pessoas e tomando decisões. Esse projeto possibilita uma melhor capacidade de escuta”, explica Roberto Fragale Filho, Juiz auxiliar da Escola Judicial do TRT-RJ. Para isso, os juízes trabalham por um dia como garis, caixas de supermercado, auxiliares de limpeza, cobradores de ônibus, entre outras profissões.

Os participantes passam por urna carga horária de 60 horas, que são divididas entre atividades teóricas (aulas sobre relações sociais e metodologia de criação de um diário de campo), práticas (treinamentos para a função que será exercida) e momentos de feedback. Em três anos, 52 juízes já fizeram o curso e o sucesso foi tanto que a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho (Enamat) chegou a reformular seu ano acadêmico para melhorar as relações que existem entre a sociedade e o judiciário. ‘Isso permite formar juízes mais atentos, capazes de se colocar no lugar dos outros e com a oitiva aguçada”, explica Roberto.

É DANDO QUE SE RECEBE

Outra maneira de demonstrar o alcance empático das companhias é por meio de benefícios que são expandidos para a família dos funcionários. A pesquisa da consultoria americana Businessolver revela que 95% dos profissionais acham que empresas que cuidam dos parentes dos empregados são mais empáticas. Não é à toa que um dos programas mais valorizados pelos funcionários do Banco – RCI Brasil, braço financeiro das montadoras Renault e Nissan é o Programa de Apoio Pessoal Especializado (Pape), que     realiza atendimento sigiloso aos empregados por meio de um telefone 0800. Problemas financeiros, psicológicos, de saúde, inclusive de familiares, podem ser relatados em segredo. “Buscamos atender até mesmo a necessidades específicas em que, por vezes, cobrimos a despes do que foi pedido”, conta Roberta Nascimento, gerente de RH do banco. Casos como cobertura de plano de saúde, ajuda com dívidas e viagens emergenciais se enquadram no projeto, que já atendeu 5% do quadro de 161 trabalhadores.

EXISTEM LIMITES

As empresas podem – e devem – incentivar a prática da empatia, mas importante lembrar que ela tem limites que variam em cada um de nós. “Para qualquer palestra, aula ou ação funcionar, a pessoa tem de estar disposta àquele aprendizado. Ter autoconhecimento para entender os próprios sentimentos e julgamentos internos é fundamental na hora de estender a mão ao outro”, diz Regina. Nenhuma ação é infalível: sempre haverá aquelas pessoas que não conseguem ter empatia com seu próximo ou que não se importam o suficiente para mudar de comportamento ou atitude. Nesses casos, as empresas devem usar uma última abordagem: o hábito. Incentivar diálogos, promover grupos de afinidade, manter a liderança apta para a escuta ativa, são todas ações que se complementam e colocam os funcionários em             contato com a cooperação e a generosidade. “Mesmo que no início o sentimento não seja verdadeiro, o estímulo por meio do ambiente pode internalizá-lo”, diz Regina. O exemplo e a prática farão com que a empatia se espalhe – e é a disseminação de atitudes desse tipo o que precisamos com tanta urgência para enfrentar os grandes desafios do mundo hoje.

O QUE É SER EMPÁTICO?

Como os profissionais enxergam a empatia nos negócios, segundo o relatorio State of Workplace Empathy de 2019, feito pela consultoria Businessolver

EM SINTONIA

Como encorajar a empatia no ambiente de trabalho

1. FALE SOBRE O ASSUNTO:

Explique para os funcionários, independentemente do cargo que ocupam, por que a c0mpetência é importante para melhorar o desempenho das equipes. Leve dados objetivos e exemplos de outras companhias para conseguir convencer a todos.

2.ENSINE HABILIDADES DE ESCUTA:

Para entender os outros e sentir o que eles estão sentindo, precisamos ser bons ouvintes. demonstrar que estamos prestando atenção no que é dito e expressar entendimento sobre as preocupações e os problemas ajudam a aumentar a sensação de respeito.

3. INCENTIVE A DIVERSIDADE:

Cerca de 75% dos funcionários afirmam que empresas são mais empáticas quando têm diversidade em sua liderança, e nove em cada dez profissionais de RH e diretoria concordam, segundo dados da consultoria Businessolver.

4. CULTIVE COMPAIXÃO:

Crie um ambiente para que os gestores possam se preocupar com a forma como a equipe se sente no dia a dia de trabalho. E premie aqueles que se destacarem em promover isso em seus times. Ter uma cultura que proporcione boas relações entre as pessoas ajuda.

5. TREINE A LIDERANÇA:

Realize treinamentos de empatia e de vieses inconscientes com a liderança. A relação deles c0m os liderados é o cerne do clima da empresa. Além disso, se os chefes não derem o exemplo, fica mais difícil ter um time que queira agir com mais empatia na organização.

A TRÍADE DE OURO

Entenda o que são os três tipos de empatia, de acordo com o escritor Daniel Goleman

1. EMPATIA COGNITIVA:

O exercício da empatia cognitiva exige que os líderes racionalizem sobre os sentimentos dos outros. Essa é uma habilidade resultante da autoconsciência. A reflexão sobre nossos próprios pensamentos e o monitoramento dos sentimentos que fluem a partir deles permitem aplicar o mesmo raciocínio à mente de outras pessoas.

2. EMPATIA EMOCIONAL:

O acesso à empatia emocional depende da combinação de dois focos. O primeiro está centrado nas ideias e nos sentimentos da outra pessoa. O segundo se forma pelo rosto, pela voz e por sinais externos de emoção. Ter essa habilidade ajuda em trabalhos em grupo, momentos de feedback e apresentações.

3. PREOCUPAÇÃO EMPÁTICA:

Intimamente relacionada à empatia emocional, essa competência ajuda a compreender as expectativas dos outros em relação a nós. Aqui é importante ponderar até onde podemos ir para satisfazer as necessidades alheias.

PRONTAS PARA O FUTURO

Três características que serão importantes para as companhias acompanharem as transformações do mundo do trabalho, de acordo com Eduardo Albuquerque, fundador da escola Conquer

1. EMPATIA:

Muito além de se colocar no lugar do outro, empatia é a capacidade de tomar decisões com base não somente na perspectiva individual, mas na perspectiva dos demais.

2. COLABORAÇÃO:

Essa característica tem como principal papel acelerar a solução de problemas por meio da união de diferentes competências e habilidades. Esse é um traço essencial de empresas e pessoas que estão adaptadas à revolução digital em curso.

3. VULNERABILIDADE:

Cometer erros tem se mostrado a melhor maneira de aprender mais rápido e criar produtos e serviços. Para incentivar esse comportamento, a liderança precisa mostrar que é vulnerável, que pode falhar e que os deslizes são toleráveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PROPENSOS AO EXCESSO

Os jovens tomam contato cada vezmais cedo com o álcool e outras drogas psicoativas; sua vulnerabilidade cerebral e psicológica a essas substâncias merece redobrada atenção da família e da sociedade e demanda estratégias interdisciplinares de prevenção e combate ao uso abusivo antes que ele se torne dependência

A cada ano, estima-se que 1,7 milhão de adolescentes morram no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria é vítima de acidente, suicídio, violência, complicações decorrentes da gravidez e outros motivos passíveis de prevenção e tratamento. O abuso de álcool e outras drogas é um exemplo desta última categoria. O consumo de bebidas alcoólicas, que poderia ser apenas um “rito de passagem” para a vida adulta, traz consigo, a ameaça de um padrão de uso, cuja face mais comprometedora é a dependência.

Diante da instabilidade e das mudanças características da adolescência, período de “crise” no qual está em jogo a reestruturação psíquica, é fundamental compreender de que forma o uso de álcool e de drogas se insere na vida do adolescente. Em muitos casos, pode se tratar de uma fase de experimentação, transitória, decorrente da curiosidade e da elaboração do processo de entrada no mundo adulto.

A escala que vai do uso à dependência obedece a matizes, assim como um dégradé que vai do rosa-claro ao vermelho intenso, que nem sempre delimitam com clareza as fases da construção da dependência, como mostra a psicóloga Jandira Masur, falecida em 1990, em O que é alcoolismo (Brasiliense, 1991). Esse quadro se acentua quando lidamos com a população adolescente, dado que as variações ficam sobrepostas à própria instabilidade dessa fase.

Embora não possamos afirmar que haja um padrão de utilização absolutamente segura, existe a possibilidade da utilização recreativa do álcool e de outras drogas, que reflete o tipo de relação que o indivíduo estabelece com a substância. É importante ressaltar que tal uso não constitui um problema de ordem médica, passível de tratamento, mas muitas vezes requer algum tipo de esclarecimento à família e aos educadores a fim de ampliar sua compreensão sobre esse tipo de consumo.

Os pais, muitas vezes por falta de orientação, tomam medidas desesperadas ao descobrir que o adolescente usa determinadas substâncias, sobretudo se forem ilícitas, a exemplo da maconha. Por outro lado, percebe-se que o consumo de álcool é bastante tolerado pela sociedade, quando não incentivado, ocasionando maior dificuldade na detecção de um uso problemático.

Devemos dedicar particular atenção ao consumo de álcool entre adolescentes, em geral uma das primeiras substâncias psicoativas com as quais o jovem tem contato. Boa parte dos adolescentes começa a beber estimulada pelos pais (para muitos deles, o primeiro “porre” do filho adolescente pode ter conotação de masculinidade) ou é levada a experimentar por curiosidade quando vai comprar bebidas alcoólicas para os adultos.

É fato que a venda de bebidas alcoólicas a menores é pouco fiscalizada no Brasil. Entretanto, é extremamente importante que os pais se conscientizem de que essa é uma norma a ser seguida, e o modo como lidam com ela influirá no futuro comportamento de seus filhos diante do consumo de álcool e drogas.

Diferentemente da recreação, o abuso é um padrão de utilização que causa algum tipo de dano à saúde física ou mental do indivíduo, ou mesmo em outras áreas da vida como a social e a ocupacional, além de conflitos com a lei. Os prejuízos são recorrentes significativos e relacionados ao uso repetido da substância, mas não configuram ainda um quadro de dependência.

O adolescente, por exemplo, pode faltar às aulas, sofrer suspensão ou ter baixo desempenho escolar em decorrência do uso de substâncias psicoativas. É possível, ainda, apresentar-se repetidamente intoxicado em situações em que isso represente risco para sua integridade física, como durante a prática de esportes. Também são comuns problemas legais recorrentes, como condutas desordeiras, agressões, infrações, pequenos delitos e condução de veículos quando está intoxicado ou embriagado.

A dependência é caracterizada, sobretudo, pela perda de controle sobre o uso da substância, que se manifesta pelo consumo persistente e compulsivo, mesmo na vigência de problemas significativos decorrentes do uso. O quadro, em geral, é acompanhado de tolerância (necessidade de consumo cada vez maior para obter o efeito desejado) e síndrome de abstinência (presença de sintomas físicos e psíquicos ao diminuir ou parar o uso). Como diz o psiquiatra francês Claude Olievenstein em seu livro Destino do toxicômano (Almed, 1985), o estabelecimento da dependência ocorre a partir do encontro do indivíduo com a droga – suas particularidades farmacológicas e seus efeitos – em dado momento marcado por dificuldades específicas.

Sabe-se que a evolução entre os diferentes padrões de uso de substâncias psicoativas não apresenta uma divisão estanque, do mesmo modo que não necessariamente representa um continuum, em que, por exemplo, o uso recreativo passa ao abusivo e este à dependência. Tais fenômenos envolvem uma série de fatores, que incluem características individuais, propriedades farmacológicas e aspectos sociais. Por exemplo, um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) feito no final dos anos 90 indicou que, entre os indivíduos que já fizeram uso de maconha, apenas 5% desenvolveram de fato um quadro de dependência.

No que se refere à dependência de álcool, a história típica de seu desenvolvimento ocorre ao longo de alguns anos. Em geral, a pessoa começa a beber no período da adolescência ou no início da idade adulta, e aumenta de maneira progressiva a quantidade e a frequência do consumo, até chegar aos centros de tratamento por volta dos 35, 40 anos. Entretanto, esse perfil vem mudando. Os jovens estão começando a beber mais cedo e de forma mais intensa, apresentando problemas de saúde e alterações psíquicas ainda mais precocemente.

É por esse motivo que cada vez mais modelos de intervenção sobre o uso abusivo de álcool têm sido desenvolvidos, buscando por meio deles atingir a população jovem para que se interrompa o processo de estabelecimento da dependência.

O álcool distribui-se regularmente por todo o organismo. Quando alguém o consome em grandes quantidades, há o risco de vários órgãos e sistemas do corpo serem danificados.

Ao atingir o sistema nervoso central, a substância pode causar diversos problemas neurológicos e psiquiátricos, como depressão e ansiedade até problemas irreversíveis de memória, como é o caso da síndrome de Wemicke-Korsokoff, em que há perda da memória recente. Os jovens, cujo sistema central ainda está em formação são mais afetados.

O uso crônico de álcool também pode ocasionar a alteração denominada neuropatia periférica, caracterizada pela degeneração das ramificações de nervos, principalmente em membros (braços e pernas), levando a dores e formigamentos bastante desconfortáveis.

É bastante comum a associação do alcoolismo a problemas no fígado como a cirrose hepática – degeneração ocasionada pela agressão crônica ao órgão, em geral levando à morte quando não é possível realizar um transplante. Além disso, o fígado é um órgão vital responsável pela síntese e metabolização de diversas substâncias. Quando seu funcionamento está prejudicado, costumam ocorrer problemas variados, como alterações hormonais, varizes de esôfago, icterícia (coloração amarela da pele) e ascite (acúmulo de líquido no abdômen). Outras estruturas do sistema digestivo podem ser atingidas em decorrência do consumo excessivo de álcool. São bastante frequentes as esofagites e gastrites, problemas no pâncreas e na vesícula biliar.

A boca, que também integra esse sistema, pode sofrer diversas alterações, como mudanças do paladar, ulcerações, que algumas vezes resultam em câncer, sobretudo em tabagistas, e alterações da dentição, porque o consumo crônico de álcool modifica o equilíbrio ácido-base da cavidade oral, predispondo a essas modificações.

Os indivíduos dependentes de álcool são, ainda, mais propensos a problemas de impotência e infertilidade, tanto homens como mulheres. Essas alterações, embora sentidas diretamente, podem ser originárias de falhas na síntese de hormônios no fígado ou alterações no sistema nervoso central.

O uso crônico de álcool pode também fazer com que o indivíduo apresente diversas alterações nos sistemas imunológico e hematológico. Uma importante causa para isso deriva da desnutrição, com frequência verificada nessas pessoas, já que por conter uma concentração elevada de açúcares, o álcool diminui a fome. Na ausência de vitaminas, proteínas e sais minerais, o organismo fica predisposto ao aparecimento de doenças. No caso em questão, as comorbidades (presença de mais de um quadro patológico em um mesmo indivíduo) dizem respeito à presença de outro transtorno psiquiátrico, além do relacionado ao uso de substâncias. Diversos estudos têm mostrado as altas taxas de prevalência de comorbidades psiquiátricas, sobretudo depressão e ansiedade, entre usuários de álcool e drogas. Sabe-se que a comorbidade psiquiátrica modifica a evolução da dependência, exigindo abordagens terapêuticas específicas, como o uso de medicamentos.

Na população de adolescentes, fazer um diagnóstico adequado nem sempre é tarefa fácil. Muitas vezes, a presença de estados depressivos ou outros tipos de alterações de comportamento são encarados como parte “normal” do processo da adolescência, contribuindo para o agravamento do quadro. Os principais transtornos psiquiátricos associados ao uso de álcool e outras drogas nessa fase são os de humor, de ansiedade, de conduta, alimentares e do déficit de atenção e hiperatividade.

De acordo com dados do Cebrid, existem alguns fatores que, embora não possam ser apontados como desencadeantes, são úteis como “termômetros” para atentarmos à questão do uso de drogas nessa população. Embora não fique estabelecida uma relação direta entre seu consumo e a defasagem escolar em nosso meio, existem vários trabalhos científicos relatando forte associação entre uso de substâncias psicotrópicas e baixo rendimento escolar.

Outro fator que apresenta correlação importante com o uso de drogas é o absenteísmo às aulas. Levantamentos do Cebrid e diversos estudos internacionais têm demonstrado que, quanto mais intenso o uso de álcool e drogas, maior o número de faltas escolares. Com relação às classes socioeconômicas, algumas pesquisas afirmam que nos países em desenvolvimento há relação positiva entre o uso de certas drogas e o baixo nível socioeconômico. Ainda segundo dados do Cebrid, isso foi observado no Brasil, mas em uma população específica: meninos e meninas em situação de rua, ou seja, em crianças e adolescentes totalmente desprovidos de qualquer recurso social.

Com relação ao gênero, conforme pesquisa realizada em 1989 pela professora Beatriz Carlini-Cotrim, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e colaboradores, os indivíduos do sexo masculino tendem a fazer mais uso de substâncias como cocaína, maconha e álcool, enquanto os do sexo feminino tendem a usar mais medicamentos, como anfetaminas (remédios para emagrecer) e ansiolíticos (tranquilizantes). Tem-se notado, além disso, aumento do uso de esteroides anabolizantes e energéticos entre indivíduos do sexo masculino. No que se refere às idades, constata-se aumento de uso de drogas em pessoas acima dos 18 anos, mas com faixas estáveis de uso frequente nos últimos cinco levantamentos. Observa-se que os jovens têm, de forma geral, experimentado menos álcool que outros tipos de droga.

Diversos estudos nacionais, segundo dados do Cebrid, vêm apontando que a primeira experiência com drogas ocorre após contato prévio com álcool ou tabaco. Isso sugere que as estratégias preventivas devam ser orientadas para retardar as primeiras experiências com essas substâncias, aumentando a margem de segurança da experimentação de outras drogas. Quanto mais tardia for a experimentação de drogas, menores as chances de a pessoa desenvolver padrões de abuso e dependência.

Vários trabalhos têm mostrado que o tratamento ideal para indivíduos dependentes de drogas deve ser, a princípio, de caráter voluntário, em sistema ambulatorial e com equipe multidisciplinar em centros especializados. Ao pensar no tratamento ideal dirigido a adolescentes, sabe-se que, além desses fatores, deve-se contar com intervenções de apoio e suporte às famílias e com o emprego de atividades lúdicas e/ou artísticas, como forma de melhorar a adesão a este.

Do ponto de vista médico, é essencial que os pacientes sejam avaliados por um psiquiatra com o objetivo de verificar a presença de comorbidades e a necessidade de intervenção medicamentosa, bem como efetuar uma avaliação clínica criteriosa em função dos possíveis danos causados à saúde física desses indivíduos.

A indicação de internação no tratamento da dependência deve ser relativizada, sobretudo porque existe um mito em nosso meio de que ela tem capacidades “curativas”. O que se observa na prática, entretanto, é que diversas pessoas, uma vez internadas, dão início a um processo de sucessivas internações visando garantir a abstinência, mas com resultados frustrantes.

A internação não possui, de fato, caráter curativo e deve ser indicada, no que concerne ao uso de álcool e drogas, com o propósito de desintoxicação, para que o indivíduo se restabeleça e dê continuidade ao acompanhamento extra-hospitalar. Ela também pode ser levada em conta em casos semelhantes às internações psiquiátricas- por exemplo, na vigência de comportamentos que coloquem em risco a vida do usuário e dos outros, agressividade extrema e risco de suicídio -, bem como constituir uma forma de preservar a saúde física em situações em que a pessoa esteja extremamente debilitada ou haja risco de exposição social.

Os profissionais de saúde devem estar atentos às expectativas dos familiares quanto aos resultados do tratamento, é bastante frequente esperarem que o paciente consiga atingir um padrão de abstinência total logo no início do tratamento, não tolerando recaídas e fazendo julgamento moral sobre o uso. É por esse motivo que um sistema de apoio aos familiares dos pacientes deve fazer parte do tratamento, na forma de atendimentos individuais ou grupais, com o objetivo de fornecer informações, melhorar a comunicação entre eles e, não raras vezes, encaminhar a família para tratamento psicoterápico.

QUANTO MAIS CEDO, MAIS PERIGOSO

As chamadas drogas de abuso, como nicotina, cocaína e maconha, afetam o sistema límbico, conhecido como área de recompensa cerebral. Em geral, ela responde a experiências agradáveis, lançando no corpo o neurotransmissor dopamina, que proporciona sentimentos de prazer. Determinadas drogas, com tamanho e forma similares aos neurotransmissores naturais, aumentam a ação da dopamina e de outros neurotransmissores, como a noradrenalina e a serotonina.

Pesquisadores acreditam que a liberação de dopamina no núcleo accumbens seja o fator preponderante para o desenvolvimento da dependência. O hipocampo registra a satisfação rápida provocada pela droga e a amígdala cria uma resposta condicionada a esses estímulos.

A idade da exposição inicial a substâncias que viciam é inversamente proporcional ao risco de desenvolver drogadição, afirmam especialistas.

Estudos realizados com camundongos e cocaína têm favorecido a hipótese de que o cérebro adolescente seja mais vulnerável à dependência. A pesquisadora Michelle

Ehrlich, do Instituto Farber de Neurociências, da Universidade Thomas Jefferson, nos Estados Unidos, pesquisa as “adaptações moleculares” no cérebro em resposta a drogas psicoestimulantes.

Em 2002, um estudo liderado por ela, feito com camundongos, revelou que um fator de transcrição denominado delta-FosB (proteína envolvida na indução da síntese de outras proteínas) era produzido no corpo estriado desses animais quando expostos a cocaína e a anfetaminas com regularidade. A principal função dessa região cerebral parece ser o controle da motricidade. Os pesquisadores supõem que tal proteína integre um processo de “adaptação” do cérebro que programa respostas em longo prazo, como a dependência de drogas.

Eles descobriram que, em camundongos adolescentes, a proteína era produzida em escalas muito maiores em uma parte específica da estrutura associada à sensação de recompensa após o consumo de drogas. A experiência sugere que indivíduos jovens expostos a efeitos psicoestimulantes de drogas podem ter o equilíbrio químico do cérebro muito mais afetado do que se imaginava.