A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SOLIDÃO DA PASSAGEM

Apesar de a morte ser um dos principais medos do ser humano, morrem hoje mais pessoas por suicídio do que nas guerras e as tentativas chegam a 10 milhões

Tabu profundo, aquilo que ninguém quer lembrar. Desejo de não mais desejar, dilema de toda a vida. Algumas pessoas não pensam nisso e outras evitam pensar. Quantas pensam todo dia? Por tristeza, vergonha, dor, ódio, culpa ou ansiedade, a cada ano 1 milhão de pessoas em todo o planeta tiram voluntariamente a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número anual de tentativas fracassadas de suicídio chegue a 10 milhões. Eis aí, afinal, um comportamento tipicamente humano?

Talvez. Muitos animais são capazes de expressar tristeza, mas em geral lutam arduamente para permanecerem vivos. Dessa regra não escapa nem mesmo o lemingue, roedor do Ártico que ficou famoso em filmes de Walt Disney – como o documentário de 1958, White wildemess, sem título em português, mas – que poderia ser Imensidão branca – pela suposta propensão ao suicídio em massa. Na verdade, o comportamento de lançar-se coletivamente de altas falésias é um desafortunado acidente migratório na história natural da espécie, fruto de superpopulação e desconhecimento da rota. Com seres humanos não é tão simples. Morre mais gente por suicídio do que nas guerras. Uns porque almejam o paraíso pós-morte e outros porque não suportam o inferno da vida. Na maior parte dos casos, por uma angústia insuportável de existir. O que há de errado conosco?

Se nascemos e morremos sós, nada lembramos do parto, pois nessa hora a consciência está em fase de formação. Entretanto, na porta de saída, temos encontro marcado com a suprema solidão. Quando partimos rumo ao desconhecido, esperar uma vida nova causa menos ansiedade do que encarar o vazio de frente. Com ou sem expectativa de continuação, o temor da morte é o maior de todos os medos. Por isso, mesmo no sofrimento mais atroz, grande parte das pessoas se agarra à vida com unhas e dentes. O que faz o suicida é o sofrimento psíquico. No momento derradeiro, prestes a cometer o ato, pior do que estar sozinho é não ter nem a si mesmo por perto.

O suicídio é uma opção, e o tratamento também. Há 100 anos, usava-se ópio para amortecer o desespero. Atualmente, os antidepressivos se baseiam no aumento direto ou indireto dos níveis de neurotransmissores como a serotonina. Eficaz no início, a terapia farmacológica frequentemente esbarra no problema da tolerância. Doses cada vez maiores podem ser necessárias para manter um estado que não chega a ser de felicidade, mas de conformação. Nos quadros de extrema depressão, por vezes apenas a eletroconvulsoterapia consegue retirar o paciente do mundo em que tudo é triste, doloroso e frustrante.

Mas existe outro caminho, difícil e precioso, que precisa ser trilhado bem antes do precipício. Com disciplina e coragem, voltar-se para dentro. Nutrir a mente integrada ao corpo, enraizar-se no real, mergulhar no infinito íntimo e celebrar o mistério último. Cantar, dançar, meditar e criar. Sem pressa de chegar, sorver a emoção de viajar. Acompanhar-se integralmente na passagem, na presença completa de si. Deve ser melhor assim.

SIDARTA RIBEIRO – é neurobiólogo com Ph.D. pela Universidade Rockefeller e pós-doutorado pela Universidade Duke. Atualmente é chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde investiga as bases neurais do aprendizado, comunicação, sono e sonhos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.