EU ACHO …

O ÚLTIMO CONFINADO

Como não ceder aos apelos para ignorar o coronavírus – e cair na farra

Veio o carnaval, eu no Rio de Janeiro. Uma revoada de amigos começou a ligar: “Vamos nos ver?”. Tinham vindo para fazer farra. Respondia: estou confinado. Ouvia um “oh!” de decepção. “Só um papo, um café… eu estou bem…” Como se o fato de ser amigo anulasse os riscos. E me tratavam como chato. Já perdi muitos amigos desde que a pandemia começou. Simplesmente não entendem que confinado quer dizer confinado. Estive em Portugal, em dezembro. Lá, é completamente diferente. Desci no aeroporto, todos de máscara. Logo vieram verificar meu visto e o exame de Covid. Só entrei no país porque tenho residência. Ruas vazias. Comida, só por aplicativo de entrega. Ao voltar, a diferença gritou já no aeroporto. Raríssimos com máscara. Fui para casa e me tranquei. Eu tinha um grupo de amigos no condomínio e todas as quartas tomávamos vinho no quiosque. Descobri que o vinho estava suspenso: casos haviam surgido no condomínio. E beber vinho de máscara é tecnicamente impossível.

Continuei confinado. No Instagram, contemplava amigos em jantares incríveis, erguendo taças de vinho. Sou próximo de um casal que fez teste de Covid para me encontrar. Eu me senti exagerado… A maior parte das pessoas que conheço flutua na inconsciência. Veio o Carnaval. Pensei: vou ressignificar. Ser calmo. A vantagem de ser escritor é que trabalho não falta, dentro de casa. Se falta, a gente inventa um conto, um romance… Agora estou afundado até as orelhas em Verdades Secretas 2, para a Globo. Logo que começou o distanciamento social, eu e meus amigos autores de televisão achamos normal. Estamos todos acostumados a passar meses trancafiados durante uma série, uma novela… demorei para perceber que para boa parte das pessoas o confinamento não é bem assim. Só tomei consciência quando vi as fotos de um amigo numa festa clandestina (que ele postou). “Eu estava precisando” – explicou-se. Bem, mas quem não está?

A ideia de ressignificar o Carnaval era boa. Fazer artesanato… o crochê está voltando à moda. Cozinhar, sempre dá certo. Dedicar-se, ó esperança, a um relacionamento mais profundo. O confinamento não seria para casar? Mas não, a farra continua. Reconheço, muita gente não pode ficar reclusa. Tem de trabalhar, comer. E, se já não está reclusa o ano inteiro, para que se trancar no Carnaval que passou?

Dá vontade de dizer que brasileiro não gosta de seguir regras. Adora quebrar. Não somos só nós. Quem realmente queria pular o Carnaval e tinha dinheiro foi para Cancún. Lá teve balada, festa de todo tipo, gente fervendo na praia. A Riviera Maya transformou-se no novo Rio de Janeiro. (Não é por acaso que a Covid está explodindo no México.)

As pessoas rindo, se divertindo… eu continuo sendo o chato. Que fazer? Sou um chato calmo, meditativo. Estou lendo um livro de 500 páginas, vendo filmes… Mesmo que venha a vacina, a vida nunca será a mesma. Peguei o hábito de ficar em casa. Quieto. Que venham outros Carnavais, continuo lendo!

Esta é minha vocação. Serei o último confinado.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A VIDA NA CASA DA MAMÃE

Mesmo depois dos 30 anos, um número cada vez maior de filhos descobre as delícias de morar junto com os pais. Com isso, livram-se das obrigações dos adultos

Maturidade é sempre um tema em debate. Um adulto com mais de 30 anos morando na casa dos pais é quase um tabu. Mas há uma mudança de comportamento e os casos estão cada vez mais corriqueiros. O ciclo habitual é que os filhos fiquem em casa enquanto não formam uma nova família ou não se sustentem economicamente. Mas há muitos filhos que discordam. O psicólogo Yuri Busin diz que existem vários motivos para a permanência na casa dos pais. “A formação das famílias e a entrada no mercado de trabalho acontecem cada vez mais tarde”, explica o psicólogo. “E também há adultos com a Síndrome de Peter Pan, que não querem crescer, não gostam de responsabilidades e não lidam bem com as frustrações”.

“A cobrança feita às pessoas que ainda moram com os pais depois dos 30 é gigantesca”, relata a relações públicas Ana Paula Prado, 50 anos. Ela mora com a mãe de 83 anos – o pai faleceu há sete anos – e se incomoda com o preconceito que sofre. Diz que sempre morou com os pais e foi assumindo novas responsabilidades dentro da família, especialmente as financeiras, num movimento natural. “Eu me sustento desde os 22 anos, mas sempre gostei do ambiente que tenho em casa. Sair para que?”, questiona. Ana diz que já terminou um relacionamento por morar com os pais. “Um namorado dizia que era uma situação muito infantil”, lembra. Para ela, o problema é quando a pessoa mora com os pais e fica dependente economicamente, não trabalha e nem estuda.

Há uma comodidade evidente no cotidiano do servidor público e bailarino Thomás Côrtes. Aos 30 anos ele mora com o pai de 53 e um irmão de 31. A mãe se separou do pai quando ele tinha 15 anos. “Ficamos eu e meus irmãos com nosso pai. Em casa a gente não tem obrigações. Ele provê tudo, inclusive a empregada doméstica”, diz. O bailarino acha que não seria bom emocionalmente sair de casa e diz que o problema não é financeiro. “Tenho um bom salário, mas tive uma criação muito próxima e tenho dificuldade em sair”, afirma. Para o psicólogo Francesco Pellegatta, o medo é o principal sentimento da relação entre pais e filhos adultos. “Alguns pais ficam felizes por proteger os filhos. E os filhos temem enfrentar a vida. Existe um acordo”, diz. Já o psicólogo Yuri Busin não classifica esses filhos que vivem na casa dos pais como imaturos, embora alerte que a experiência de morar sozinho é importante como aprendizado e lição de vida. Cada vez mais adultos jovens, porém, estão dispensando essa experiência.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE MARÇO

GANHAR ALMAS, GRANDE SABEDORIA

O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio (Provérbios 11.30).

A vida do justo é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, e o fruto do justo é árvore de vida. O fruto do justo alimenta os famintos e fortalece os fracos. Da boca do justo saem palavras de vida eterna, e das suas mãos, obras da bondade. O justo também é sábio, e a maior expressão de sabedoria é investir na salvação dos perdidos. Aquele que ganha almas faz um investimento eterno e ajunta tesouros que os ladrões não podem roubar, nem a traça pode destruir. Investir na salvação de almas é entrar numa causa de consequências eternas. Uma alma vale mais do que o mundo inteiro. De nada adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma. De nada adianta ajuntar tesouros na terra se esses bens não estão a serviço de Deus para ganhar almas. O melhor e mais duradouro investimento que podemos fazer é investir na salvação de vidas. O melhor e mais sábio uso do nosso tempo é proclamar as boas-novas de salvação. A maior alegria que podemos ter é gerar filhos espirituais. A maior recompensa que poderemos receber é ver almas se rendendo aos pés de Jesus como fruto do nosso labor. Seja sábio, invista seu tempo, seu dinheiro e sua vida na grande empreitada de ganhar almas!

GESTÃO E CARREIRA

CAUSA MORTIS: TRABALHO

O ritmo diário, os salários baixos e a falta de tempo para cuidar da própria saúde levam à morte 120.000 pessoas por ano apenas nos Estados Unidos – um prejuízo de 180 bilhões de dólares

As pessoas estão morrendo por um salário. Essa é a conclusão do professor de comportamento organizacional da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas em gestão de pessoas do mundo, Jeffrey Pfeffer. Sua estimativa é que o emprego acabe com a vida de 120.000 pessoas por ano apenas naquele país – um prejuízo de 180 bilhões de dólares, ou 8% do custo total com saúde. Para chegar a esses números, ele avaliou dados coletados por organismos públicos e privados, corrigindo fatores como idade, gênero e classe social. O resultado da análise está no livro Dying for a Paycheck (Harper Business, sem edição no Brasil), lançado em meados de 2018. “A má notícia é que o trabalho está matando,” disse Jeffrey. “E ninguém realmente se importa.”

Esse problema não estaria restrito à nação mais poderosa do planeta. Uma consulta rápida nos dados da Previdência Social no Brasil mostra que, nos nove primeiros meses, foram concedidas pelo INSS 8.015 licenças por transtornos mentais e comportamentais adquiridos no serviço – um avanço de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o afastamento por depressão e ansiedade aumentou quase 5 pontos percentuais. Há uma década, quando começaram a ser mapeadas, as doenças mentais representavam menos de 4% dessas situações. Assim como nos Estados Unidos, a conta brasileira é alta. Em quatro anos (de 2012 a 2016), os gastos públicos ligados a transtornos psicológicos e comportamentais somaram 784,3 milhões de reais, o equivalente a 7% das despesas médicas do país.

Situações relacionadas ao dia a dia do trabalho, aos baixos salários e à falta de tempo para cuidar da própria saúde seriam os principais agentes de causa mortis (veja quadro abaixo). Parte, claro, é consequência da sociedade moderna, que exige indivíduos conectados 24 horas por dia. As pessoas, acredita Sigmar Malvezzi, professor de psicologia da Universidade de São Paulo, têm dificuldade de se adaptar a um ritmo tão intenso. “Oseventos acontecem numa velocidade alta e a competitividade é grande.” Essas condições roubam o ser humano dele mesmo, a fim de colocá-lo a serviço de outros. Variados estímulos repetitivos tornariam os indivíduos reativos, sem tempo de reflexão e, no limite, autoritários. “O que seobserva é que osprojetos de vida são pequenos”, afirma Sigmar. “A gente vive uma situação de desumanização.”

Contudo, outra parte é sequela da cultura corporativa instalada nos últimos anos. “Falamos ‘reter’, ‘pipeline’, ‘selecionar’, uma linguagem na qual as pessoas são tratadas como um recurso a explorar”, diz Marcelo Cardoso, ex-CEO do Hopi-Hari e hoje presidente da Chie, consultoria especializada em transformação organizacional. A conjuntura seagrava conforme mudam as relações trabalhistas. cada vez mais gente atua na chamada gig economy, fazendo bicos ou prestando serviços extras com a ajuda de aplicativos, como quem dirige pela Uber ou faz entregas pela Rappi. Isso resulta em uma quantidade maior de trabalhadores que precisam se virar por conta própria, não têm acesso a planos de saúde nem outros benefícios e sofrem de insegurança financeira. “Os profissionais são vistos como únicos responsáveis por si mesmos, e isso intensifica a pressão”, afirma Anderson Sant’Anna, professor do mestrado profissional em Administração na Fundação Dom Cabral, onde também coordena o Observatório de Relações Individuo-Organizações-Sociedade.

Fora ou dentro do mundo empresarial, os humanos se transformaram em meras engrenagens.

CUSTO DE MANUTENÇÃO

Toda máquina, até mesmo a humana, precisa passar por urna revisão. Quando isso não acontece, entra em parafuso. Criou-se até um termo para definir quem se exaure de trabalhar: burnout. A rotina extenuante, o excesso de cobrança, a escassez de recursos são a combinação perfeita para a instalação de doenças crônicas (como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares), que representam três quartos dos gastos com saúde nos Estados Unidos. Para Jeffrey Pfeffer, esses males estão intimamente relacionados ao estilo de vida e à higiene mental dos indivíduos – duas coisas impactadas pelo trabalho. “Se você abusa de um equipamento e faz com que o custo de manutenção seja alto, você é demitido. Mas se abusa de alguém, causando desgaste, ninguém parece prestar tanta atenção”, diz o professor, ao concluir que as empresas são o mal e não a vítima, da famosa inflação médica.

No Brasil segundo Alberto Ogata, conselheiro de gestão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), essa perda poderia representar 6% da folha de pagamentos das organizações só no aumento de taxas de seguro de saúde. Além dos gastos, funcionários adoentados e estressados pioram os índices que os líderes de recursos humanos adoram medir, como os de rotatividade e de produtividade.

Quem tem Burnout, por exemplo, “questiona todo dia a própria capacidade, e isso tem impacto direto no desempenho”, diz Brian Heap, sócio da Gallup no Brasil. De acordo com um estudo da consultoria americana, os funcionários esgotados são 50% menos propensos a conversar com o chefe sobre suasnecessidades de entrega e 63% mais propensos a faltar no trabalho por causa de doença. Ao mesmo tempo, sua probabilidade de procurar um novo emprego é três vezes maior. Resultado: gente infeliz, improdutiva e entrincheirada.

Jeffrey calcula que os custos indiretos provenientes do desengajamento, da desmotivação e do presenteísmo sejam cinco vezes superiores ao montante das despesas médicas diretas.

MARIONETES DO TRABALHO

Um determinante na saúde das pessoas é o nível de controle sobre seus afazeres – o que Jeffrey chama de job control. Em sua análise, ele diz que, assim como o fumo é um fator Importante para predizer o risco de doenças cardíacas, a autonomia sobre horários e local de trabalho e a clareza nas responsabilidades seriam tão ou mais relevantes para avaliar o nível toxicológico de um emprego.

Nem sempre o controle é explícito. Longos períodos de deslocamento, jornadas extensas, mudanças constantes e pressão por resultado também geram a impressão de comando. “O que mata é não ter uma visão de futuro”, diz Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de liderança da empresa que leva seu sobrenome. “Se o trabalho é pesado e o funcionário sente que vai perder o emprego ou que não dará conta, o estresse é duplo.” Às vezes, nem descansar é possível, pois há a percepção de que e-mails e mensagens de WhatsApp precisam ser respondidos em tempo real.

Essa rotina está tão entranhada na cultura corporativa e na forma como gestores lidam com a equipe que é difícil perceber suas consequências. Por isso, Jeffrey Pfeffer defende políticas para limitar as horas trabalhadas – dentro e fora das organizações – e para acabar com a “glamourização” do estresse. Menos radical, Jennifer Deal, pesquisadora do Center for Creative Leadership, nos Estados Unidos, acredita que o fim da microgestão e de prazos impossíveis tornaria o trabalho mais agradável. “As companhias precisam dar autonomia e colocar prazos específicos nas tarefas, para que sejam plausíveis”, diz. “As práticas de carreira devem ser transparentes e apoiar questões pessoais e financeiras.”

O Grupo Algar, que reúne empresas de tecnologia a turismo, tenta seguir esses conselhos. No fim de 2018, optou por dar autonomia aos 19.000 funcionários. Dessa forma, eles, que já contavam com práticas de home office e horário flexível, foram beneficiados com o Talento Flex, que abre a possibilidade do horário intermitente e de cada um acertar sua jornada. “A gente via que algumas mulheres, por exemplo, paravam de trabalhar quando tinham filhos”, diz Eliane Garcia Melgaço, vice-presidente de gente do grupo Algar. A ideia é que, em vez de se demitirem, elas reajustem o expediente com o gestor de forma a facilitar a vida. Já o horário Intermitente permite aos empregados entrar e sair do serviço conforme necessário, em acordo com o chefe. Agora, o time de RH busca casos de sucesso para divulgá-los ao restante da corporação: o desafio é convencer a liderança. “Precisamos identificar pontos de resistência e criar um ambiente propício para a nova política”, diz Eliane. O foco tem sido explicar a estratégia dessas ações, motivadas pela crença de que dá para cobrar pela entrega de resultados, e não pelo tempo no escritório. “Isso se torna um fator de atração, principalmente de jovens, que buscam liberdade.” Em dezembro também foi lançado o projeto Estação, uma unidade especial da Algar Telecom que pretende testar modelos ágeis de gestão, com as equipes organizadas em squads, com menos hierarquia e mais liberdade. “Precisamos ser um bom lugar para trabalhar, porque é uma questão de longevidade do negócio”, diz a executiva. A expectativa é que cerca de 10.000 funcionários possam se beneficiar das novas modalidades.

Rever uma mentalidade enraizada há tanto tempo não é tarefa fácil. Ainda mais quando isso exige mudar radicalmente a forma como se enxerga o emprego: em vez de um local de cobrança, um de confiança; diferentemente de trabalhadores tratados como centros de despesa, eles seriam parceiros necessários para atingir a estratégia do negócio. O professor de Stanford sugere que as pessoas sejam geridas não com base nos custos que incorrem, mas como ativos.

Enquanto essa mudança não acontece, as companhias investem em ações sutis para minimizar os danos. Foi o que fez a Multiplus, empresa de planos de fidelidade. Há três anos, o escritório saiu do centro de São Paulo para Alphaville, a 26 quilômetros de distância. O risco de perder gente e sofrer uma queda na motivação era alto. Isso fez com que o RH buscasse ouvir a opinião dos empregados. Um canal de comunicação foi aberto para receber as preocupações; em paralelo, o time de recursos humanos revia os benefícios. A Multlplus decidiu assumir o dinheiro gasto com pedágio e gasolina, e ainda contratou fretados. Para compensar as horas de deslocamento, deu força ao home office (permitido por dois dias) e à flexibilidade de horário. Os chefes passaram por um mês de teste antes de o projeto serestendido. “No começo, as pessoas achavam que quem ficava em casa estava de folga ou inacessível”, diz Heloísa Scarantino, gerente sênior de gestão de pessoas. Essa crença foi sedissipando conforme a prática se consolidava. Hoje, os benefícios estão claros. “Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é nosso segundo fator de retenção, só perde para oportunidade de crescimento”, diz Heloísa, que comemora 89% de satisfação na última avaliação de clima.

ATIVOS PRECIOSOS

Além de mudar a cultura de comando e controle, as empresas teriam de repensar suas práticas de qualidade de vida, uma vez que a maioria delas foca o comportamento dos indivíduos, mas não faz uma mea culpa das condições corporativas. “Você diz para as pessoas fazerem meditação, massagem, mas o problema é a organização do trabalho, com pouca transparência, comunicação falha e sensação de injustiça”, afirma Alberto Ogata, da ABQV. Uma alteração significativa exigiria a criação de indicadores médicos que fossem além do gasto com sinistros e afastamentos por licença. Afinal, a saúde, estudos científicos já provaram, engloba aspectos como relacionamentos, lazer, realização e estabilidade financeira – nenhum deles isolado entre si.

Uma das melhores formas de medir essa relação é perguntando diretamente aos funcionários. A autoavaliação, segundo indica Jeffrey em seu livro, é um preditor importante de problemas, podendo ser mais eficiente do que check-ups.

Essa é a abordagem do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que desde 2010 mantém o programa Bem-Estar, premiado internacionalmente. Sua principal ferramenta é o questionário de autoavaliação que os mais de 3.000 funcionários preenchem. Com ele, o RH analisa indicadores como sedentarismo e estado emocionai. E, graças a ele, o time de gestão de pessoas colocou em prática coisas como aulas de canto e toga e uma academia com orientação de um profissional para fortalecimento e fisioterapia. O ambulatório conta ainda com médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e farmacêuticos. “Isso se alinha ao nosso lema, que é “quando somos bem cuidados, podemos cuidar melhor”, diz Cleusa Ramos, superintendente de desenvolvimento humano e institucional do Oswaldo Cruz.

Mais de 50 profissionais foram certificados em coaching de saúde e bem-estar para atuar no programa. “Essa capacitação é para auxiliar o empregado a montar uma agencia única com o objetivo de melhorar sua vida”, diz Cleusa. Ao longo dos anos, essa equipe, coordenada pelo gerente de qualidade de vida Leonardo Mendonça, começou a ser procurada com frequência para orientar em mudanças de hábito, com foco em atuação preventiva, o que trouxe às pessoas uma nova mentalidade em relação às consultas de rotina. Para aumentar a adesão, o RH implantou um sistema de milhagem: as equipes concorrem entre si para ver qual teve mais participação e as vencedoras recebem prêmios. Os setores que apresentam problemas são acompanhados de perto e o gestor é chamado para conversar. Os resultados vieram. Em 2010, a empresa tinha apenas 48% de adesão aos exames periódicos – que, aliás, são obrigatórios por lei. Hoje, ela é de 98%. Além disso, de 2010 a 2017, houve uma redução de 37% na média de pressão arterial, de 35% no colesterol e de 46% no tabagismo. O nível de estresse, avaliado por meio do questionário, caiu 31%; já o absenteísmo passou de 3,6% para 2,4% a partir de 2013. Graças ao quadro saudável, o hospital passou três anos sem renegociar os valores do plano de saúde. No fim do ano passado, o programa foi ampliado aos dependentes e agora são 6.500 vidas atendidas.

EM PRIMEIRO PLANO

Casos como o do Oswaldo Cruz mostram que investir é a melhor estratégia no longo prazo. Em tempos de crise econômica e política, como esta pela qual passa o Brasil, torna-se ainda mais urgente propiciar um ambiente de segurança psicológica para os trabalhadores. Contudo, na prática acontece o contrário. Na tentativa de equilibrar o caixa, as companhias entoam o mantra “cortar, cortar, cortar”. De acordo com uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh com 690 organizações no país, metade delas pretende redesenhar o programa de benefícios com foco no controle dos custos – muitas rebaixaram ou mudaram de operadora de saúde nos últimos trêsanos para economizar. Apenas 38% planejavam expandir os programas voltados para o bem-estar nos próximos dois anos. A fabricante de cosméticos Avon segue esse caminho. Há três anos, o RH notou um número maior de funcionários faltando no emprego para ir ao pronto-socorro, mas a ida ao médico não solucionava o problema e a visita se tornava recorrente. Foi quando veio a percepção de que era preciso melhorar a qualidade de vida. “Se não temos um ambiente em que o funcionário possa cuidar de sua saúde, ele vai deixá-la em segundo plano, mesmo que diga que é prioridade”, diz Meire Blumen, gerente de saúde e bem-estar na Avon. As práticas e os benefícios foram consolidados num só programa, o VivaBem. A evolução começou do básico, com a reforma do ambulatório, que passou a ocupar um lugar mais visível e a oferecer consultas odontológicas, ginecológicas e de clínica-geral, além de coleta de exames básicos. Como o público é em grande parte feminino, há salas específicas para amamentação e creches. Todas as informações ficam armazenadas em um sistema único, junto com atestados e dados de medicamentos comprados com o subsídio da empresa (de75%), e são usadas em análises preditivas. A Avon ainda acompanha cerca de 600 funcionários e dependentes com doenças crônicas, que recebem orientação continua. “Mostramos às lideranças que isso não é uma questão de custo, mas de valor”, diz Meire. E os gastos diminuíram. O contrato do plano de saúde foi renegociado para o modelo de pós-pagamento, já que o conhecimento da população possibilita prever o uso. Entre 2017 e 2018, o sinistro teve queda de quase 14% com exames, 19% com consultas e 13% com Internações.

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE

Se nas últimas décadas, em meio à competição acirrada pela globalização, o discurso em relação à carreira foi se alterando, com Ideias como “empregabilidade” (que colocam a responsabilidade da vida no trabalho sobre as próprias pessoas), para Jeffrey Pfeffer isso não exime as companhias dos efeitos que seu ambiente causa aos indivíduos. “Esse argumento presume que se pode facilmente encontrar outro emprego, o que não é verdade”, diz. Além disso, há uma série de fatores psicológicos que dificultam a troca de serviço, especialmente quando o trabalhador está doente, estressado e esgotado. Segundo Jeffrey, aspessoas não podem ser responsabilizadas por questões de estrutura ou gestão.

Mas o professor de Stanford não acredita que, sozinhas, as organizações farão muita coisa para rever esse quadro. Seria preciso os funcionários se organizarem politicamente. Um dos motivos de sua descrença está na competitividade exacerbada e nas mudanças aceleradas, que fazem com que o pensamento no mundo corporativo seja de curto prazo. “Quando asempresas precisam se reportar aos acionistas a cada trimestre, isso cria um conflito de interesses”, diz o consultor Roberto Aylmer. O padrão é cobrar (e priorizar) o retorno financeiro imediato.

Para Andersen Sant’Anna, da Dom Cabral, isso prejudica a todos: “Pode parecer vantagem no curto prazo, mas para o negócio é danoso. O risco é de minar a inovação e a competitividade”. Ambientes inseguros provocam medo de inovar e arriscar com novas ideias. E nenhum serhumano é capaz de pensar – nem em inovação nem em nada – com a cabeça cheia e o corpo cansado. O organismo entra em colapso.

Por isso, Jeffrey Pfeffer insiste: “Só se cria valor e se oferece o melhor serviço por meio de melhores funcionários”. Mirar a redução de custos não acrescenta perenidade ao negócio, pelo contrário.

Da mesma forma, cortar gente traz consequências nefastas. É preciso começar a impor limites – a pensar na sustentabilidade humana.

IMPACTO DA DEMISSÃO

Segundo Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford nos Estados Unidos, ninguém ganha com dispensas em massa – nem empresas nem sociedade. Para as companhias, há gastos com multas, outplacement e impostos, além de novas contratações. Já o custo social é grande. Taxas de suicídio crescem duas vezes e meia depois de uma demissão; mortes decorrentes de doenças cardiovasculares aumentam até 40%

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O ATAQUE DA MENTE

Da mesma forma que a sugestão é capaz de beneficiar a saúde, o efeito nocebo, espécie de “gêmeo mau” do placebo, pode levar pessoas a adoecer gravemente; em alguns casos, a convicção de morte iminente conduz de fato a esse desfecho

Tarde da noite, atravessando um pequeno cemitério no Alabama, nos Estados Unidos, Vance Vanders deu de cara com um curandeiro local que espirrou um líquido mal cheiroso de uma garrafa em seu rosto, dizendo que ele iria morrer e ninguém poderia salvá-lo. Ao voltar pra casa, Vanders enfiou-se na cama, sentindo-se mal. E desde então passou a definhar. Algumas semanas depois, muito magro e debilitado, parecendo estar à beira da morte, ele foi internado no hospital de sua cidade, onde os médicos não conseguiram encontrar a causa de seus sintomas – e nada que fizessem trazia melhora. Foi então que sua mulher contou a um dos médicos, Drayton Doherty, sobre o feitiço. Na manhã seguinte, ele chamou a família do paciente para a cabeceira de sua cama. Disse que, na noite anterior, havia atraído o médico-feiticeiro para o cemitério e o pressionado até que ele explicasse como funcionava a maldição. Segundo Doherty, o curandeiro havia posto ovos de lagarto no estômago de Vander, que eclodiram em seu corpo. Um dos répteis sobrevivera e estava devorando suas entranhas.

Em seguida, convocou uma enfermeira que, antecipadamente, havia enchido uma grande seringa com um líquido, que Doherty disse ser “poderoso”. Com gestos teatrais, como se participasse de uma grande cerimônia, ele inspecionou o instrumento e injetou o conteúdo no braço do paciente. Alguns minutos depois, o homem começou a vomitar descontroladamente. No meio da confusão, sem que ninguém visse, Doherty deu seu golpe de mestre – apresentou a todos um lagarto verde que estava escondido em sua mala preta. “Veja o que saiu de você, Vanders! A maldição está quebrada”, gritou.

O paciente recuou para a cabeceira da cama e caiu em um sono profundo. Quando acordou, na manhã seguinte, estava alerta e faminto. Rapidamente recuperou suas forças e recebeu alta depois de uma semana.

Os fatos desse caso, ocorridos há 80 anos, foram corroborados por nossos pesquisadores. Talvez, o mais notável seja o fato de Vanders ter sobrevivido, pois existem, em muitas partes do mundo, vários casos documentados de pessoas que morreram após serem amaldiçoadas. Sem registros médicos ou resultados de autópsias, porém, não há como ter certeza do que, exatamente, causou a morte dessas pessoas. Mas essas histórias, em geral, começam com uma figura respeitável, que ocupa um lugar de suposto saber, e amaldiçoa uma pessoa. Algum tempo depois, a vítima morre, aparentemente de causas naturais.

Você pode pensar que esse tipo de coisa é cada vez mais rara e limitada a tribos remotas. Mas, de acordo com o pesquisador Clifton Meador, médico da Escola de Medicina Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, Estados Unidos, que documentou casos como o de Vanders, maldições têm hoje uma “nova cara”. Um exemplo é o caso de Sam Shoeman, que faz parte da literatura médica. O paciente recebeu diagnóstico de câncer terminal de fígado na década de 70. Os especialistas lhe deram apenas alguns meses de vida. E Shoeman morreu pontualmente dentro do período de tempo estimado – entretanto, a autópsia revelou que os médicos haviam cometido um equívoco. O tumor era minúsculo e não havia se espalhado. “Ele não morreu de câncer, mas por acreditar que estava morrendo de câncer. Se todos o tratam como se estivesse no fim, você acredita e todas as partes do seu ser começam a morrer”, afirma Meador.

Situações como a de Shoeman podem ser exemplos extremos de um fenômeno amplamente distribuído. Estudos comprovam que aqueles que acreditam ter risco de desenvolver certas doenças mostram maior probabilidade de apresentá-las que os que têm os mesmos fatores de risco, mas não se consideram em situação de perigo. E mais: muitas pessoas que sofrem com efeitos colaterais negativos de algum tratamento, de fato, apresentam os sintomas após saber que essas reações eram esperadas. Isso nos faz pensar que os feiticeiros modernos usam jaleco branco e carregam estetoscópios. Ou têm um diploma de psicólogo pendurado numa parede.

ESTRANHO FENÔMENO

A ideia de que acreditar que está doente pode realmente adoecer uma pessoa parece ilógica. Mas estudos rigorosos estabeleceram que, sem sombra de dúvida, o inverso é verdade – o poder da sugestão é capaz de beneficiar a saúde. É o conhecido efeito placebo. Placebos não fazem milagres, mas produzem efeitos físicos mensuráveis.

E esse efeito tem um gêmeo do mal: o nocebo, no qual pílulas falsas e expectativas negativas podem produzir um efeito nocivo. O termo, criado em 1960, vem do latim, e significa “fazer mal”, “prejudicar”. Trata-se de um fenômeno que é muito menos estudado do que o efeito placebo, uma vez que não é nada fácil conseguir aprovação ética para estudos que planejam fazer com que as pessoas se sintam mal.

Mas o que se sabe sugere que o efeito nocebo tem amplo alcance. “As mortes por vodu, se existirem, podem representar apenas uma forma estranha do fenômeno nocebo”, diz o antropólogo Robert Hahn, do Centro para Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos, em Atlanta, Geórgia, que estudou o assunto.

Em testes clínicos, cerca de um quarto dos pacientes nos grupos de controle – que recebem terapias supostamente inertes – apresentam efeitos colaterais negativos. A severidade dessas reações adversas, em alguns casos, é igual à associada à droga real. Um estudo retrospectivo de 15 experimentos que envolviam milhares de pacientes que receberam betabloqueadores ou um medicamento com propriedades inócuas mostrou que ambos os grupos relataram níveis comparáveis de efeitos colaterais, incluindo fadiga, sintomas depressivos e disfunções sexuais. Um número similar de participantes das duas equipes teve de ser afastado dos estudos por causa disso.

Ocasionalmente, os efeitos podem representar risco para a vida dos pacientes. “Crenças e expectativas não são apenas um fenômeno consciente e lógico e também têm consequências físicas”, diz Hahn. Os efeitos nocebo são também vistos na prática médica cotidiana. Cerca de 60% dos pacientes que passam por quimioterapia começam a se sentir mal antes mesmo que o tratamento surta efeito. “Isso pode acontecer até alguns dias antes do procedimento ou no caminho para o hospital”, diz o psicólogo clínico Guy Montgomery, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York. Algumas vezes, um mero pensamento sobre o tratamento ou a voz do médico é o suficiente para fazer com que o paciente se sinta mal. Essa “náusea antecipada” pode ocorrer, em parte, pelo condicionamento – quando os pacientes ligam subconscientemente algo na experiência ao mal-estar – e, em parte, pela expectativa. Não raro, a pressão arterial das pessoas também sobe apenas porque um profissional da saúde se aproxima para fazer a medição.

É alarmante: o efeito Nocebo pode ser, até mesmo, contagioso. São conhecidos há séculos casos em que sintomas, sem razão aparente, se espalham entre integrantes de um grupo – é o chamado distúrbio psicogênico em massa. Um caso inspirou um estudo recente, desenvolvido pelos psicólogos Irving Kirsch e Giuliana Mazzoni, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Os pesquisadores disseram aos estudantes que participavam da investigação que estavam testando uma amostra de gás que continha “uma toxina ambiental suspeita”, capaz de provocar dores de cabeça, náuseas, coceiras e tontura. Em seguida, pediram a alguns dos voluntários que inalassem uma porção de ar comum durante alguns segundos, sem dizer exatamente do que se tratava. Metade dos jovens também assistiu à cena de uma mulher inalar a amostra e, aparentemente, desenvolver esses sintomas. Embora o ar fosse inócuo, os estudantes que fizeram a aspiração se mostraram mais propensos a relatar os sintomas, que também eram mais pronunciados em mulheres, especialmente naquelas que haviam visto a moça ficar “doente”.

Os cientistas observaram que, ao assistir à expressão de um possível efeito colateral ou ouvir sobre ele, as pessoas se tornam mais propensas a desenvolvê-lo. Isso coloca os médicos em uma situação difícil. “Por um lado, pessoas têm o direito de ser informadas sobre o que devem esperar, mas isso torna mais provável que sofram com esses efeitos”, diz Mazzoni. Isso significa que os médicos precisam escolher suas palavras cuidadosamente para tentar minimizar expectativas negativas. “Tudo está relacionado mais com o como você fala do que com o que se fala”, afirma Montgomery. Em sua opinião, em muitos casos a hipnose pode ajudar a diminuir expectativas, ansiedade e stress.

BECO SEM SAÍDA

Especialistas reconhecem que há atualmente muitas questões em torno do nocebo – e grande parte delas ainda sem resposta. Não se sabe ao certo, por exemplo, se há predisposição determinada por traços de personalidade, em que circunstâncias ocorre o efeito e quanto tempo os sintomas duram. Parece que seus resultados variam bastante e dependem muito do contexto. “Em espaços clínicos, os placebos, por exemplo, são frequentemente muito mais potentes do que os induzidos em laboratório. Talvez em relação aos nocebos o ambiente também tenha grande influência”, comenta o psicólogo Paul Enck, do Hospital Universitário de Tübingen, na Alemanha.

Também não está claro se há pessoas mais ou menos suscetíveis. Sabe-se que estados de humor, o nível de labilidade, o otimismo ou o pessimismo podem ter papel nas dinâmicas psíquicas, mas não há indicadores consistentes. Indivíduos de ambos os sexos podem sucumbir ao distúrbio, embora as mulheres relatem mais sintomas do que os homens. Enck mostrou que, em homens, os sintomas nocebo são mais influenciados pela expectativa do que pelo condicionamento. Nas mulheres, ocorre o oposto. “Elas tendem a se deixar influenciar mais por experiências passadas, enquanto que os homens parecem mais relutantes em levar o próprio histórico para uma situação atual”, diz ele. Está se tomando claro que o fenômeno, aparentemente psicológico, tem consequências reais no cérebro. Usando técnicas de neuroimagem, o cientista Jon-Kar Zubieta, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Estados Unidos, observou o cérebro de pessoas que haviam recebido um placebo ou nocebo, no ano passado. Ele constatou que os efeitos negativos estavam ligados à diminuição da dopamina e da atividade opioide. Isso explicaria por que os nocebos podem aumentar a dor – e o placebos produzem a resposta oposta.

Enquanto isso, Fabrizio Benedetti, da Escola de Medicina da Universidade de Turim, na Itália, descobriu que a dor induzida pelo nocebo pode ser suprimida por uma droga chamada proglumida, que bloqueia receptores para o hormônio colecistocinina (CCK, na sigla em inglês). Normalmente a expectativa de dor induz a ansiedade, que ativa os receptores de CCK – aumentando a sensação dolorosa. A causa final do efeito nocebo, entretanto, não é neuroquímica, mas sim, uma crença.

De acordo com o antropólogo Robert Hahn, é muito comum que cirurgiões fiquem receosos ao operar pessoas que acreditam que vão morrer – porque esses pacientes em geral morrem durante ou logo após a intervenção. Da esma forma, a mera crença de uma pessoa de que é suscetível a um ataque cardíaco pode ser um fator de risco. Um estudo descobriu que mulheres que acreditavam ser propensas a ter um ataque cardíaco tenham quatro vezes mais chances de morrer de condições coronarianas do que outras com os mesmos fatores de risco.

Mas mesmo com as evidências crescentes de que o efeito nocebo é real, é difícil, numa era racional, aceitar que a crença de uma pessoa pode matá-la. Afinal, a maioria de nós riria de um homem estranhamente vestido pulando, acenando com um osso na mão e dizendo que vamos morrer. Mas imagine corno você se sentiria se ouvisse a mesma coisa de um médico bem vestido, com uma parede cheia de diplomas e um computador repleto de resultados de exames. A base socio­cultural é crucial. Meador discute que o erro no diagnóstico de Shoernan e seu falecimento subsequente têm os mesmos elementos essenciais de uma “morte por bruxaria”. Um médico poderoso pronuncia uma sentença de morte, que é aceita sem questionamento pelo paciente vítima e sua família – e todos passam a agir de acordo com a crença. Shoeman, seus parentes e médicos acreditavam que ele estava morrendo de câncer. Isso se tornou uma profecia – que se completou quase que automaticamente.

“Más notícias promovem má fisiologia. Por isso é possível persuadir pessoas dizendo que elas vão morrer e isso, de fato, acontecer. Não existe nada místico nisso, embora muitos de nós se sintam desconfortáveis com a ideia de que palavras ou ações simbólicas podem causar a morte porque isso desafia nosso modelo biomolecular do mundo”, observa Meador.

A OVERDOSE

Deprimido, depois de terminar com sua namorada, Derek Adams tomou todas as suas pílulas… e se arrependeu. Com medo de morrer, pediu a um vizinho para levá-lo ao hospital, onde teve um colapso. Tremendo, pálido e tonto, a pressão caiu e sua respiração ficou acelerada. Mesmo assim, os testes toxicológicos voltaram limpos. Nas quatro horas seguintes, Adams recebeu 6 litros de solução salina, mas melhorou pouco. Então, chegou um médico do estudo clínico de antidepressivos do qual Adams participava, havia cerca de um mês. Ele contou que, inicialmente, se sentira bem-humorado e calmo ao tomar a droga, mas a briga com a ex-namorada o motivou a engolir os 29 tabletes que restavam. Foi então que o médico revelou que Adams fazia parte do grupo Controle e as pílulas que havia tomado eram inofensivas. Ao ouvir isso, Adams ficou muito surpreso, emocionado – e aliviado. Em 15 minutos, sua pressão e taxa cardíaca voltaram ao normal.

O CONTÁGIO PELA OBSERVAÇÃO

Em novembro de 1998, uma professora de uma escola no Tennessee notou um cheiro parecido com gasolina e começou a reclamar de dor de cabeça, náusea, falta de ar e tontura. A escola foi evacuada e, na semana seguinte, mais de cem funcionários e alunos apareceram no pronto-socorro local reclamando de sintomas semelhantes. Depois de muitos testes, não foi encontrada uma explicação médica para a doença relatada. Um questionário, feito um mês depois, revelou que as pessoas que apresentaram os sintomas eram, na maioria, mulheres e haviam visto ou sabido de um colega de classe doente. “Foi o efeito do nocebo em grande escala. Não havia nenhuma toxina no ambiente, mas as pessoas começaram a se sentir realmente mal”, diz o pesquisador Irving Kirsch, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Ele acredita que ver os colegas desenvolverem os sintomas moldou as expectativas de doença em outras crianças e adolescentes, disparando um distúrbio psicogênico de massa. Há registros desse tipo em várias partes do mundo. Na Jordânia, em 1998, 800 crianças, aparentemente, sofreram efeitos colaterais de uma vacina e 122 foram internadas, mas não foi encontrado nenhum problema com a vacina.