A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMAGENS DA FEMINILIDADE

O imaginário acerca da figura feminina sofreu grandes transformações no decorrer do tempo. Inicialmente vistas como donas da vida e da morte, as mulheres foram, aos poucos, com ajuda da literatura e da ficção, reconciliando beleza e virtude; mas é no século XXI que se abrem mais frestas para a diversidade

A imagem tem papel central na construção da ideia de feminino. Ao longo do tempo esse imaginário ganhou contornos diversos, na forma de grandes mães, madonas, deusas como Vênus/Afrodite, stars, pin-ups e top models – até assistirmos a uma significativa ruptura paradigmática pós-moralista, promovida pela sociedade da comunicação. Presenciamos a dessacralização feminina e a relação a seus referenciais religiosos e patriarcais, possibilitando um novo modo de pensar a imagem feminina, tornando-a indeterminada e privilegiando as singularidades da “mulher qualquer”.

As primeiras imagens construídas sobre a mulher na história originam-se de um imaginário comum: o temor ao feminino. Esse tipo pode ser explicado pelo desconhecimento inicial do papel social e biológico do homem na reprodução – e atribuição à mulher da autonomia na geração da vida por supostos poderes sobrenaturais. Eram as chamadas grandes mães, ligadas às forças da natureza valorizadas por sua condição materna não vistas como dotadas de vontades e virtudes, e sim tomadas como donas da vida e da morte (e por isso temidas). E, por possuir esse poder paradoxal, sua imagem foi associada a imagens igualmente contraditórias e cíclicas: a Lua, a serpente, a irracionalidade e ao caos. Deveria, por isso, estar sob domínio constante do controle racional masculino, o que foi representa do em uma série de obras em que homens apareciam matando serpentes, por exemplo.

A mulher não era, nas imagens míticas tradicionais, cultuada por sua beleza, pois sequer era reconhecida como pertencente ao ‘belo sexo” – papel que cabia ao homem. A reverência ao masculino pode ser ilustrada, particularmente, na Grécia pela presença pública de milhares de kouroi, estátuas de rapazes nus. As imagens de mulheres, raras em espaços públicos, guardavam uma forte semelhança com o corpo masculino. Com ombros largos, braços fortes, sem marcação da cintura, distinguiam-se apenas pelos seios. A beleza da mulher, quando valorizada, vinha sempre repleta de contradições: era bela, entretanto, má. Por isso, era um ser perigoso. Personagens como Pandora, a primeira humana criada por Zeus responsável por levar todos os males do mundo aos homens em uma caixa, e Eva, responsável pelo pecado original, representam esse ideário.

A associação entre mulher e beleza efetiva-se apenas no Renascimento, momento em que se legitima o corpo feminino como objeto de contemplação. A mulher ganha centralidade simbólica como figura literária e ficcional, e não como ser humano comum. Idealizada como Vênus-Afrodite, ora com formas femininas e teatrais, ora o símbolo máximo da virtude e da bondade com as célebres e inúmeras Madonas (que representavam a imagem de Maria), o imaginário acerca da mulher reconcilia, assim, beleza e virtude – em uma ruptura com sua tradicional demonização. Esse fato a colocará, definitivamente, como imagem representativa da beleza. Entretanto, trata-se de uma mulher construída simbolicamente para oferecer-se à contemplação e resignar-se com seu papel decorativo e passivo. Um imaginário de aparente reverência aos atributos femininos, mas que impede a intervenção na vida social, como bem alertou Simone de Beauvoir 1908-1986 em O segundo sexo, vol. 1 (1980): Achar-se situada à margem do mundo e não é uma posição favorável para quem quer recriá-lo”.

BONECAS DO LAR

Sob o signo dos centros urbanos do consumo, da imprensa massiva, do cinema e da fotografia, o imaginário social democrático do século XX foi responsável pela transição da estereotipia tradicional /patriarcal e religiosa da imagem do feminino para a autonomia, multiplicada em uma escala nunca antes vista. As estrelas de Hollywood, que nascem nos anos 20, fazem mais do que alimentar os sonhos, mas também comportamentos muito reais, relativos à moda, ao vestuário, ao penteado, à maquiagem e à maneira de ser. Essa imagem cumpre um inicial, mas nem por isso menos importante, papel de incentivo de desregulamentação dos papéis sexuais tradicionais. Pois “desde que Lauren Bacall se aproximou de Bogart para convidá-lo a acender seu cigarro”, no filme À beira do abismo (Howard Hawks, 1945), “o cinema vem contribuindo para legitimar a iniciativa feminina, e nisso ele se mostra menos como reflexo do real do que como produtor de novos modelos de comportamento “, defende o filósofo francês Gilles Lipovetsky.

Ainda no contexto dessa primeira fase do imaginário democrático surge outra imagem midiática da mulher que avança, timidamente: as pin-ups. Símbolo da arte gráfica nos anos dourados, elas também são chamadas de garotas de calendário (feitas para pendurar na parede) ou de cheesecake. Elas aparecem ainda em uma segunda variação: as “bonequinhas do lar”. Mulheres belas, maquiadas, de salto agulha e saia rodada que alegremente controlam seus eletrodomésticos e cuidam da casa, do marido e dos filhos. São representadas, frequentemente, vestindo aventais, símbolo do seu lugar doméstico e serviçal. Se, por um lado, a pin-up se distancia da moral cristã, por outro, não se afasta do imaginário masculino, oferecendo-se como um objeto belo, serviçal e facilmente manobrável. A mulher passa, então, a ter apenas duas posições sociais: “boneca do lar” ou “vedete”.

No entanto, a pin-up diferencia-se das musas do cinema em um aspecto importante: não é tão distante, etérea e idealizada, preserva a beleza ideal das estrelas, mas também povoa cenas cotidianas e transita no espaço urbano, faz supermercado, dirige e cozinha. Ela é responsável pela primeira aproximação entre a imagem pública da mulher e a vida comum – mesmo que ainda esteja restrita ao espaço e às atividades domésticas.

Essa iconografia midiática em transição abre caminho para a emancipação do imaginário feminino. Pois, se o objetivo inicial era excluir a mulher da vida pública, sua valorização como rainha do lar torna-se o fundamento para as conquistas que se seguiram – já que o movimento feminista só se tornou uma força quando dominou a linguagem da vida doméstica. “O feminismo politizou a subjetividade – abalou a distinção dentro e fora para problematizar a sexualidade, a família, o trabalho doméstico”, escreveu o sociólogo Stuart Hall em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade. Não por acaso, um dos slogans do feminismo pregava que “o que é pessoal é político”.

Será apenas com o amadurecimento do imaginário democrático na década de 60, que se dará a efetiva ruptura da imagem feminina com imaginário patriarcal. Marcada pelo binômio da magreza e da juventude, essa imagem que tem, agora, a top model como símbolo, apresenta uma mulher que conquistou sua autonomia estética, mesmo que isso custe excesso de auto controle e vigilância do corpo. A crítica ao comando tradicional, a emergência da autoridade racional-legal, a valorização da imagem feminina na sociedade de consumo, o seu poder de compra, a moda, a profissionalização da mulher e a ciência higienista são elemento fundamentais dessa transição.

Produz-se, pela primeira vez, uma imagem voltada exclusivamente para mulheres, mas que, ritmada pelo corpo magro, nega as formas da mulher. moda dos anos 60 traz os cabelos curtos e o vestido tubinho, privilegiando mais o movimento das pernas do que a marcação da cintura e dos seios. Asrevistas femininas passam a revelar os segredos da beleza que pareciam inalcançáveis e há a valorização do rosto e dos olhos, em detrimento do corpo, em uma tentativa de marcar a personalidade. A descoberta da pílula e sua comercialização, em 1961, constituiu “o fundamento de um habeas corpus para mulheres: um filho se eu quiser, quando eu quiser, como eu quiser”, como lembra a historiadora Michelle Perrot. Esse momento é marcado também pela chegada da mulher às universidades e ao mercado de trabalho, bem como por um conjunto de mudanças e conquistas que invertem sentidos e promovem a autonomia do imaginário feminino.

No entanto, a emancipação da iconografia da mulher na modernidade do século XX é paradoxal. Se, por um lado, é possível, pela primeira vez na história, constituir um imaginário distante das coerções patriarcais, por outro, a sociedade de consumo, por meio de um universo supostamente feminino, cria uma imagem marcada pelo controle: é preciso ser magra, bem-sucedida, boa mãe e estar na moda. As imagens veiculadas pela mídia apresentam demandas de condutas eficientes que se tomam um peso para a mulher, gerando ansiedade, depressão e frustração. Para dar conta das demandas, muitas se tomam vítimas da lógica efêmera da moda e adotam meios radicais, apelando para regimes cíclicos e desenvolvendo comportamentos patológicos, como anorexia e bulimia. Assim, não negamos a importância da magreza, da moda e da publicidade para promover a autonomia do feminino em relação ao imaginário masculino, mas também não devemos nos esquecer de problematizar o novo tipo de controle “pan- ótico” instalado por essa imagem da sociedade de consumo. Ela está mais a serviço – do que efetivamente serve-se – do consumo das imagens. Há, porém, mais controle que prazer, mais sacrifício que fruição, mais busca de identificação com modelos que construção de singularidades. E é justamente a tomada de consciência desse paradoxo que aciona a criação de uma nova imagem social da mulher.

O CULTO A SI MESMO

A imagem feminina da mulher produzida na sociedade pós-moralista não mistifica a mulher, mas amplia a possibilidades de identificação, legitimação e reconhecimento das diversas formas de ser e estar no mundo. Nasce no final do século XX e consolida-se no século XXI sob a denominação de “mulher real” nas imagens veiculada pelos meios de comunicação em massa como resultado do amadurecimento social, que produz uma “mídia em diálogo”, em consonância com a acentuação dos princípios democráticos, que produz imagens fruto da interseção entre a mídia e a sociedade. Surgem mulheres comuns, de diversas etnias, raças, corpos, idades e comportamentos que passam a descentralizar os modelos de beleza, o que se configura, mais visivelmente, na publicidade, em campanhas como as da Natura e dos produtos Dove, por exemplo.

A lógica dessa imagem também se expande para a mídia em geral e as capas das revistas semanais, constantemente, denunciam o modelo rígido de beleza. Existe também o importante lócus contemporâneo de auto representação da imagem da mulher criado com a Internet. Blogs, sites, Facebooks, Orkuts fornecem espaço e incentivo para a produção frenética da própria imagem. É a consagração do “culto de si” em um espaço que concilia, paradoxalmente, individualismo e trocas interativas. Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano e mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem está “próximo”. Há, na base desse fenômeno, uma espécie de democratização dos desejos de expressão individual, na medida em que as mulheres buscam conquistar “espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar da simples condição de consumidora” das imagens alheias, afirma Lipovetsky. As mulheres querem colocar sua imagem no mundo. “Ser ou não ser: existir na tela ou não existir”, indaga o autor.

Mas seria correto anunciar o “crepúsculo das estrelas”, como o fez o sociólogo e filósofo Edgar Morin? Será que abandonamos os modelos estéticos e a contemplação das celebridades, das top models? Já ampliamos a existência da mulher para além da imagem da beleza? A emancipamos? É cedo para afirmar isso. Paradoxalmente, atrizes e celebridades continuam a atrair leitores para as colunas de fofocas e modelos magérrimas protagonizam campanhas publicitárias, impulsionando as vendas de revistas femininas.

Presenciamos, simultaneamente, o nascimento de uma imagem revolucionária sobre a mulher e a permanência das tradicionais e modernas. Isso não impede, no entanto, a emergência, no século XXI, de uma imagem; sem imagem definida, que escapa e abre frestas para uma diversidade de formas singulares de ser mulher. Surge a possibilidade de “um ser qualquer”, algo que, para o filósofo italiano Giorgio Agamben, seria a única possibilidade de uma existência social ética. O termo “qualquer” (do latim, quodlibetens) significa “o ser que, seja como for, não é indiferente”; contém algo que remete à vontade (ibet), o ser qualquer estabelece uma relação original com o desejo. Podemos, enfim, nos apropriar da formulação do psicanalista Comelius Castoriadis (1922-1997) para pensar que a relação da mulher e da imagem socialmente dada do que é o feminino “não pode ser chamada de relação de dependência. É uma relação de inerência, que como tal não é nem liberdade nem alienação, mas está no terreno no qual liberdade e alienação podem existir”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.