EU ACHO …

PERSONA

Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia seu filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo futuro marido e filhos, absorve, no entanto, a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? e o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida.

Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas.

Persona. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.

Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.

Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.

É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. Como pessoa teve que passar pelo caminho de Cristo.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

SÁBIAS ESCOLHAS

Compras de produtos sem procedência e supérfluos estão perdendo espaço na vida das pessoas, e isso pode ser bom para toda a sociedade

Os novos hábitos, impulsionados pela pandemia, insista-se, aceleraram uma atitude cada vez mais visível no século XXI: o consumo consciente. “Será que preciso mesmo de tantas roupas?”, começaram a se questionar as pessoas, trabalhando de bermuda e chinelos, remotamente, em casa. Outras tantas, desempregadas ou com a renda reduzida, tiveram de conter suas tentações e gastar apenas o necessário. O minimalismo está se consolidando até mesmo entre fornecedores – com recursos limitados, vender muito deixou de ser a meta hegemônica das empresas, como era no passado. Na decisão de compra, a busca das sociedades evoluídas será agora por equilíbrio entre satisfação pessoal e compromissos ambientais, sociais e financeiros.

Consumo consciente não é o mesmo que voto de pobreza. Na verdade, em muitos casos, o cliente aceita pagar mais caro para apoiar a marca que respeita uma causa importante para ele: preservação de florestas, bem-estar animal e reversão de parte da renda para causas sociais, apenas para citar alguns exemplos. A ascensão de brechós virtuais é outro sinal de comportamento que atende tanto a uma necessidade quanto a um desejo. Pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Akatu, que mobiliza a sociedade para o consumo consciente, mostrou que mais de 70% dos consumidores, principalmente os mais jovens, querem que a iniciativa privada pare de agredir o meio ambiente e estabeleça metas para tornar o mundo melhor. Algumas marcas acabam fazendo uso desse engajamento de uma forma até mesmo polêmica, como foi o caso da fabricante californiana de roupas Patagonia, que anos atrás lançou uma campanha com o slogan “Não compre esta jaqueta”. Entre a hipocrisia e o real posicionamento da empresa quanto a causas sócio-ambientais, venceu a crença dos clientes na marca: eles compraram do mesmo jeito e, ao que tudo indica, bem cientes do que estavam fazendo. De todo modo, a Patagonia tornou-se referência do consumo da nova era.

“Consciência e lucro não são excludentes. Empresas engajadas atraem clientes fiéis, o que gera mais retorno para seus acionistas a longo prazo”, afirma Hugo Bethlem, presidente do Instituto do Capitalismo Consciente Brasil, que em 2020 viu dobrar o número de associados, incluindo gigantes como Magazine Luiza e Natura. Na mesma medida, companhias que insistem em ir na contramão da história – explorando funcionários, sendo conivente com discriminação e destruindo a natureza – podem ser alvo de buycott, neologismo que mescla palavras em inglês e significa “boicote de compra”. Essa ação bloqueadora acabou, por vezes, ingressando no território de causas menos nobres, como vingança política por parte de grupos sectários em todo o espectro ideológico, no Brasil e em diversos países.

No mundo real, nos assuntos que realmente importam à sociedade, os exemplos de boas práticas por parte das grandes corporações têm se multiplicado. A anglo-holandesa Unilever, maior companhia de bens de consumo do planeta, comprometeu-se a reduzir pela metade o uso de plástico virgem em suas embalagens e excluir do processo mais de 100.000 toneladas de plástico até 2025. “É crucial que toda a indústria faça uma transição rápida para a economia circular “, afirmou o CEO da Unilever, Alan Jope. Na linha de pensamento de Bethlem, nunca a felicidade do consumidor final pode se dar à custa do sofrimento de outra parte da cadeia, sejam pessoas, animais ou o meio ambiente. O plástico é uma das maiores ameaças ao ecossistema, pois demora muitos anos para se decompor – os oceanos estão poluídos com 150 milhões de toneladas do material.

O Brasil também vem ganhando protagonismo no consumo consciente. Grandes redes varejistas e processadores de proteína estão trabalhando para banir, até o fim desta década, a venda de carne suína e de ovos de galinhas oriundos de animais criados em torturantes celas de gestação e gaiolas. O Banco do Brasil, uma instituição financeira bicentenária e fundamental no desenvolvimento do agronegócio, foi considerado a nona empresa mais sustentável do mundo, de acordo com o ranking Global 100, da Corporate Knights, em razão de seus investimentos em economia verde, redução da emissão de carbono e inclusão social. Conscientizar significa adquirir conhecimento: saber o que se está fazendo. Quando a consciência agrega moral e ética, a sociedade melhora e é mais feliz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE FEVEREIRO

CONFIAR NA RIQUEZA, É QUEDA CERTA

Quem confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem (Provérbios 11.28).

As riquezas não são confiáveis. São um falso refúgio. Não podemos depositar nossa confiança na instabilidade das riquezas. Elas não nos podem dar segurança verdadeira nem felicidade permanente. Aqueles que confiam em suas riquezas em vez de confiar em Deus percebem que o dinheiro se evapora como nuvem passageira. O dinheiro não tem raízes. É liso como sabão. Desaparece no horizonte tal como um relâmpago risca os céus como facho de luz e depois desaparece na escuridão. O dinheiro não nos pode dar as coisas mais importantes da vida, como o lar, o amor, a felicidade, a paz e a salvação. O dinheiro não pode transpor conosco os umbrais da morte. Nada trouxemos para este mundo e dele nada levaremos. O dinheiro pode até nos dar um belo funeral, mas não nos garante a vida eterna. Só os loucos pensam que a segurança da sua alma está no dinheiro. Confiar na riqueza é queda certa. Todavia, os justos, aqueles que confiam em Deus, reverdecerão como a folhagem. Mesmo que as crises cheguem, eles não perderão sua beleza nem deixarão de dar seu fruto. É melhor ser um justo pobre do que um rico insensato. É mais seguro confiar em Deus do que depositar a confiança no dinheiro.

GESTÃO E CARREIRA

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA

Empresas obrigadas a demitir funcionários por causa da crise criam programas para auxiliar os desligados e os familiares que perderam o emprego

Não é novidade que as projeções econômicas da crise do coronavírus são desoladoras. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o impacto da covid-19 no número de horas trabalhadas é dez vezes pior do que o vivido na crise financeira de 2007- 2008, por exemplo. O órgão ainda estima que o desemprego em seus países-membros será o dobro no final de 2020 em comparação a 2019. (10% ante 5,3%). No Brasil, o cenário também é desfavorável e há expectativa de um PIB negativo em 6,6%, segundo o Relatório Focus do Banco Central, divulgado em julho. E isso, é claro, reflete-se em desemprego. Em junho, o país atingia 13,3% de pessoas desocupadas, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Continua) mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os líderes têm sentido todos esses índices na pele e precisam tomar decisões difíceis nos meses decorrentes ao início da pandemia. Com queda nos resultados, demitir tornou-se, em muitos casos, uma medida necessária para a sobrevivência dos negócios. Mas esse processo é sempre complicado. Ainda mais porque agora os desligamentos acontecem não por desempenho, mas por custo – o que pode ser cruel. É por isso que tem surgido um movimento no mercado: a ajuda efetiva para que ex funcionários se recoloquem.

“Mais do que estratégicas, essas são ações humanitárias. Há muitos profissionais que não estão sendo demitidos por má avaliação, e sim por necessidade de reestruturação”, diz Alexandre Benedetti, diretor do Talenses Group e especialista em carreira.

“As empresas querem ter mais impacto social, e auxiliar quem está saindo neste momento é algo valorizado, que mostra a cultura corporativa”, explica Maria Eduarda Silveira, gerente de recrutamento da Robert Half.

PEDIDO DA EQUIPE

Esse é o caso da Stone, empresa de maquininhas de cartões e soluções para pagamentos. Com a crise que impactou fortemente o varejo, os negócios da companhia sofreram uma queda brusca. Por isso, em 12 de maio a empresa demitiu 1.300 funcionários, o equiva1ente a quase 20% de sua força de trabalho, que hoje é fornecida por 5.500 pessoas.

Estimulados por seus próprios times, com os quais promovem conversas semanais, os gestores começaram a pensar em como amparar os desligados. Surgiram então quatro pilares de atuação, nas áreas de saúde, alimentação, recolocação e finanças. “Em uma hora delicada, pois sempre tivemos como norte o respeito às pessoas”, diz Fernanda Teich, líder do processo de recolocação e sócia da Stone.

Assim, num primeiro momento, decidiu-se estender os benefícios: o plano de saúde ganhou quatro meses adicionais; o vale-alimentação, também seguiu valendo por até mais quatro meses, proporcionalmente ao tempo de casa; para a recolocação, foi oferecida assinatura do LinkedIn Premium por dois meses; e, para aqueles com mais de seis meses na empresa, foi doado o notebook de trabalho. Por fim, houve um pagamento adicional, também proporcional ao tempo de casa.

Na busca por transparência, a companhia faz todas as sextas-feiras um bate papo online entre líderes e empregados. “Não tentamos em nenhum momento dourar a pílula. Dissemos o que estava acontecendo, pedimos sugestões”, diz Fernanda. Das conversas e do sentimento de desconforto que sempre resta para quem é obrigado a demitir nessas circunstâncias, surgiu a ideia de dar um passo adiante e fazer o processo de recolocação. A Stone montou um time com cerca de 20 pessoas que, durante 30 dias, logo depois das demissões, ficou totalmente focado na missão de selecionar quais ex-funcionários seriam indicados a determinadas companhias. Depois disso, Fernanda passou a coordenar reuniões semanais de acompanhamento com um grupo menor. “Temos várias empresas parceiras, sabíamos que muitas delas estavam contratando e vimos que, com nossa indicação, poderíamos aumentar as chances de os colaboradores que estavam saindo se recolocarem.” Num primeiro momento, foram fechadas mais de 30 parcerias com companhias como OLX, Abastece Aí, Hotel Urbano, Vítreo e Loft. A Stone buscou parceiros em todo o país, visto que ela própria trabalha com grande capilaridade na entrega das maquininhas.

Além disso, o time remanescente ajudou os demitidos via postagens no LinkedIn, dando visibilidade aos currículos dos ex-colegas. A ação provocou um sentimento generalizado de que a empresa se preocupa com seu time. “Indicamos dando um selo de qualidade, uma garantia do profissionalismo dessas pessoas”, explica Fernanda.

FOCO NAS FAMÍLIAS

Os estilhaços da pandemia, no entanto, às vezes não atingem diretamente os funcionários, mas seus entes queridos – o que pode influenciar fortemente os profissionais. A partir dessa percepção, o escritório de advocacia paulistano Stocche Forbes, com atuação voltada para o direito comercial, resolveu agir para minimizar as preocupações de empregados cujos parentes foram desligados.

”Pensamos em ajudar os familiares. Sempre somos procurados para indicar advogados, mas podemos colaborar em outras áreas também. Nosso maior ganho é o bem-estar de nossos colaboradores”, diz Daniela Yuassa, profissional responsável pela área trabalhista do escritório. Daí surgiu o programa Stocche Forbes Conecta, que tem como meta orientar esses familiares e identificar projetos ou oportunidades em que possam se encaixar. O programa foi sugerido por um dos sócios do escritório e prontamente aceito pela direção. Sua estruturação foi feita pela área de recursos humanos.

A ideia do Conecta é oferecer os serviços de RH do escritório em duas frentes: formatação de currículos e ponte direta entre familiares e empresas parceiras, identificando os perfis mais adequados para as funções requeridas. “Criar uma rede de relacionamentos ajuda mais do que a simples solução de distribuir currículos frequente. Damos mais visibilidade aos candidatos e aproveitamos informações privilegiadas que temos em relação ao mercado”, diz a advogada. O escritório, que tem 200 funcionários entre advogados e administradores está fazendo essa ponte por meio de suas redes sociais e de seu mailing. Até agora, 15 pessoas recorreram ao serviço submetendo seus currículos.

A CULTURA SE IMPÕE

Cortes são sempre doloridos, não só para quem os sofre ou é obrigado a fazê-los, mas para a organização como um todo. Estão em jogo sofrimentos e dificuldades individuais dos envolvidos, a percepção dos remanescentes (sempre divididos entre alívio e culpa) e o funcionamento da própria empresa.

Do ponto de vista corporativo, há pontos delicados, como a perda da memória organizacional em razão da saída daqueles que dominam os processos, e diminuição da eficácia e da familiaridade entre as unidades quando a demissão envolve as lideranças. “Com isso, a tomada de decisão perde agilidade, o que pode ter efeito na qualidade de produtos e serviços”, diz Tatiana lwai, professora e pesquisadora de comportamento organizacional e liderança no Insper.

Mas a cultura sempre se impõe nessas situações e mostra qual é o verdadeiro comprometimento da empresa com os funcionários. Um exemplo negativo, que ficou famoso recentemente, foi a faculdade que demitiu professores por um aviso no sistema interno e substituiu aulas por palestras motivacionais. “É preciso fazer o corte de forma digna”, diz Tatiana.

A comunicação é crucial. Se os funcionários acompanham a situação da empresa por meio de informes claros, mostrando as etapas que podem levar à demissão em caso de um cenário negativo, como um corte de benefícios antes da efetivação de um desligamento, por exemplo, fica mais fácil aceitá-lo. “Nenhuma comunicação acontece no vácuo. A mais efetiva é aquela que ocorre de forma periódica. Só assim, você toma a narrativa para si”, diz a professora do Insper, dando a entender que, do contrário, abre-se espaço para conjecturas e fantasias as mais diversas, verdadeiras ou não.

Também é importante gerenciar os remanescentes. Além do emocional abalado, eles podem ter de suportar sobrecarga de trabalho. O normal é que o corte deixe resíduos que exigem tempo para ser absorvidos. O histórico da empresa pode tornar isso um momento difícil. A cultura institucional é um dos pilares,” afirma Tatiana.

MOMENTO DELICADO

A manutenção de um bom ambiente e a superação das demissões ampliam a necessidade de os líderes terem uma postura mais humanizada. “Um desligamento feito com frieza e distância pode gerar um grande dano psicológico”, diz Rebeca Toyama, especialista em estratégia de carreira. “A cultura de que o bom gestor é aquele que investe nos controles foi superada pela gestão do capital humano. É imprescindível ter interesse por pessoas, pelo bem-estar geral.”

O ideal é que o líder esteja preparado para esse tipo de decisão. Ele precisa ser treinado não só para dar feedbacks que mostrem concretamente acertos e pontos a melhorar dos funcionários, mais também para saber quem escolher na hora do desligamento, com critérios justos e transparentes para o demitido e para a equipe. E, sobretudo, precisa realizar o processo de maneira saudável. O demitido deve ser comunicado antes de outros membros da equipe, e o desligamento não pode ser feito em horários inadequados. “A comunicação tem um contexto: deve ser oportuna, no momento certo, de forma adequada, num local reservado, sempre sem exposições desnecessárias. Tem de ser feita com um bom tom de voz, uma boa maneira de se portar, com o uso de palavras corretas e exemplos e justificativas do porquê”, diz Alexandre, do Talenses Group.

CUIDAR DA EXPERIÊNCIA

A crise atual trouxe elementos diferente para as empresas e para a área de pessoas. Segundo Alexandre, nas crises recentes, como a de 2014, a questão mais visível era econômico-financeira. Agora, apesar de esse item também estar presente, o cenário é diverso. “Até então, o braço direito do CEO era o CFO. Neste momento, o diretor de RH é quem tem um papel fundamental para ajudar a escolher quem reter na empresa”, avalia. O grande diferencial acaba sendo o engajamento do funcionário. E, para que ele exista, a companhia tem de trabalhar outros dois aspectos que formam um trio essencial: atração e retenção. Maria Eduarda Silveira, da Robert Half, lembra que depois de anos falando em foco no cliente, agora a experiência do empregado está no topo da preocupação das empresas. “O capital humano tem sido mais bem tratado. E isso é fundamental para a atração de novos funcionários”, diz Maria Eduarda.

Essa experiência começa na contratação e termina na demissão – por isso humanidade e empatia e, se possível, auxílio para encontrar um novo emprego durante uma das crises mais severas da história farão com que o ex-funcionário mantenha um laço de admiração com sua antiga contratante.

DEMISSÃO SEM TRAUMAS

Quatro passos para seguir durante os desligamentos

LIDERANÇA

O RH deve dar informações sobre como proceder. O demitido não pode ser o último a saber, não pode haver bloqueio de senha, retirada de computadores, muito menos demissão na sexta-feira às 18 horas.

TRANSPARÉNCIA

A comunicação deve justificar os motivos e o contexto da empresa, se passível ressaltando as qualidades do funcionário.

OBJETIVIDADE

Se a motivação for mau desempenho ou mau comportamento, é recomendável munir-se de exemplos das oportunidades dadas anteriormente. Se as razões forem éticas, é mandatório que o RH esteja presente.

ESCUTA ATIVA

Ouvir o demitido, suas impressões e sugestões é muito importante. Isso valoriza a pessoa e, ainda, pode ajuda-la na busca por um novo emprego.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMAGENS DA FEMINILIDADE

O imaginário acerca da figura feminina sofreu grandes transformações no decorrer do tempo. Inicialmente vistas como donas da vida e da morte, as mulheres foram, aos poucos, com ajuda da literatura e da ficção, reconciliando beleza e virtude; mas é no século XXI que se abrem mais frestas para a diversidade

A imagem tem papel central na construção da ideia de feminino. Ao longo do tempo esse imaginário ganhou contornos diversos, na forma de grandes mães, madonas, deusas como Vênus/Afrodite, stars, pin-ups e top models – até assistirmos a uma significativa ruptura paradigmática pós-moralista, promovida pela sociedade da comunicação. Presenciamos a dessacralização feminina e a relação a seus referenciais religiosos e patriarcais, possibilitando um novo modo de pensar a imagem feminina, tornando-a indeterminada e privilegiando as singularidades da “mulher qualquer”.

As primeiras imagens construídas sobre a mulher na história originam-se de um imaginário comum: o temor ao feminino. Esse tipo pode ser explicado pelo desconhecimento inicial do papel social e biológico do homem na reprodução – e atribuição à mulher da autonomia na geração da vida por supostos poderes sobrenaturais. Eram as chamadas grandes mães, ligadas às forças da natureza valorizadas por sua condição materna não vistas como dotadas de vontades e virtudes, e sim tomadas como donas da vida e da morte (e por isso temidas). E, por possuir esse poder paradoxal, sua imagem foi associada a imagens igualmente contraditórias e cíclicas: a Lua, a serpente, a irracionalidade e ao caos. Deveria, por isso, estar sob domínio constante do controle racional masculino, o que foi representa do em uma série de obras em que homens apareciam matando serpentes, por exemplo.

A mulher não era, nas imagens míticas tradicionais, cultuada por sua beleza, pois sequer era reconhecida como pertencente ao ‘belo sexo” – papel que cabia ao homem. A reverência ao masculino pode ser ilustrada, particularmente, na Grécia pela presença pública de milhares de kouroi, estátuas de rapazes nus. As imagens de mulheres, raras em espaços públicos, guardavam uma forte semelhança com o corpo masculino. Com ombros largos, braços fortes, sem marcação da cintura, distinguiam-se apenas pelos seios. A beleza da mulher, quando valorizada, vinha sempre repleta de contradições: era bela, entretanto, má. Por isso, era um ser perigoso. Personagens como Pandora, a primeira humana criada por Zeus responsável por levar todos os males do mundo aos homens em uma caixa, e Eva, responsável pelo pecado original, representam esse ideário.

A associação entre mulher e beleza efetiva-se apenas no Renascimento, momento em que se legitima o corpo feminino como objeto de contemplação. A mulher ganha centralidade simbólica como figura literária e ficcional, e não como ser humano comum. Idealizada como Vênus-Afrodite, ora com formas femininas e teatrais, ora o símbolo máximo da virtude e da bondade com as célebres e inúmeras Madonas (que representavam a imagem de Maria), o imaginário acerca da mulher reconcilia, assim, beleza e virtude – em uma ruptura com sua tradicional demonização. Esse fato a colocará, definitivamente, como imagem representativa da beleza. Entretanto, trata-se de uma mulher construída simbolicamente para oferecer-se à contemplação e resignar-se com seu papel decorativo e passivo. Um imaginário de aparente reverência aos atributos femininos, mas que impede a intervenção na vida social, como bem alertou Simone de Beauvoir 1908-1986 em O segundo sexo, vol. 1 (1980): Achar-se situada à margem do mundo e não é uma posição favorável para quem quer recriá-lo”.

BONECAS DO LAR

Sob o signo dos centros urbanos do consumo, da imprensa massiva, do cinema e da fotografia, o imaginário social democrático do século XX foi responsável pela transição da estereotipia tradicional /patriarcal e religiosa da imagem do feminino para a autonomia, multiplicada em uma escala nunca antes vista. As estrelas de Hollywood, que nascem nos anos 20, fazem mais do que alimentar os sonhos, mas também comportamentos muito reais, relativos à moda, ao vestuário, ao penteado, à maquiagem e à maneira de ser. Essa imagem cumpre um inicial, mas nem por isso menos importante, papel de incentivo de desregulamentação dos papéis sexuais tradicionais. Pois “desde que Lauren Bacall se aproximou de Bogart para convidá-lo a acender seu cigarro”, no filme À beira do abismo (Howard Hawks, 1945), “o cinema vem contribuindo para legitimar a iniciativa feminina, e nisso ele se mostra menos como reflexo do real do que como produtor de novos modelos de comportamento “, defende o filósofo francês Gilles Lipovetsky.

Ainda no contexto dessa primeira fase do imaginário democrático surge outra imagem midiática da mulher que avança, timidamente: as pin-ups. Símbolo da arte gráfica nos anos dourados, elas também são chamadas de garotas de calendário (feitas para pendurar na parede) ou de cheesecake. Elas aparecem ainda em uma segunda variação: as “bonequinhas do lar”. Mulheres belas, maquiadas, de salto agulha e saia rodada que alegremente controlam seus eletrodomésticos e cuidam da casa, do marido e dos filhos. São representadas, frequentemente, vestindo aventais, símbolo do seu lugar doméstico e serviçal. Se, por um lado, a pin-up se distancia da moral cristã, por outro, não se afasta do imaginário masculino, oferecendo-se como um objeto belo, serviçal e facilmente manobrável. A mulher passa, então, a ter apenas duas posições sociais: “boneca do lar” ou “vedete”.

No entanto, a pin-up diferencia-se das musas do cinema em um aspecto importante: não é tão distante, etérea e idealizada, preserva a beleza ideal das estrelas, mas também povoa cenas cotidianas e transita no espaço urbano, faz supermercado, dirige e cozinha. Ela é responsável pela primeira aproximação entre a imagem pública da mulher e a vida comum – mesmo que ainda esteja restrita ao espaço e às atividades domésticas.

Essa iconografia midiática em transição abre caminho para a emancipação do imaginário feminino. Pois, se o objetivo inicial era excluir a mulher da vida pública, sua valorização como rainha do lar torna-se o fundamento para as conquistas que se seguiram – já que o movimento feminista só se tornou uma força quando dominou a linguagem da vida doméstica. “O feminismo politizou a subjetividade – abalou a distinção dentro e fora para problematizar a sexualidade, a família, o trabalho doméstico”, escreveu o sociólogo Stuart Hall em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade. Não por acaso, um dos slogans do feminismo pregava que “o que é pessoal é político”.

Será apenas com o amadurecimento do imaginário democrático na década de 60, que se dará a efetiva ruptura da imagem feminina com imaginário patriarcal. Marcada pelo binômio da magreza e da juventude, essa imagem que tem, agora, a top model como símbolo, apresenta uma mulher que conquistou sua autonomia estética, mesmo que isso custe excesso de auto controle e vigilância do corpo. A crítica ao comando tradicional, a emergência da autoridade racional-legal, a valorização da imagem feminina na sociedade de consumo, o seu poder de compra, a moda, a profissionalização da mulher e a ciência higienista são elemento fundamentais dessa transição.

Produz-se, pela primeira vez, uma imagem voltada exclusivamente para mulheres, mas que, ritmada pelo corpo magro, nega as formas da mulher. moda dos anos 60 traz os cabelos curtos e o vestido tubinho, privilegiando mais o movimento das pernas do que a marcação da cintura e dos seios. Asrevistas femininas passam a revelar os segredos da beleza que pareciam inalcançáveis e há a valorização do rosto e dos olhos, em detrimento do corpo, em uma tentativa de marcar a personalidade. A descoberta da pílula e sua comercialização, em 1961, constituiu “o fundamento de um habeas corpus para mulheres: um filho se eu quiser, quando eu quiser, como eu quiser”, como lembra a historiadora Michelle Perrot. Esse momento é marcado também pela chegada da mulher às universidades e ao mercado de trabalho, bem como por um conjunto de mudanças e conquistas que invertem sentidos e promovem a autonomia do imaginário feminino.

No entanto, a emancipação da iconografia da mulher na modernidade do século XX é paradoxal. Se, por um lado, é possível, pela primeira vez na história, constituir um imaginário distante das coerções patriarcais, por outro, a sociedade de consumo, por meio de um universo supostamente feminino, cria uma imagem marcada pelo controle: é preciso ser magra, bem-sucedida, boa mãe e estar na moda. As imagens veiculadas pela mídia apresentam demandas de condutas eficientes que se tomam um peso para a mulher, gerando ansiedade, depressão e frustração. Para dar conta das demandas, muitas se tomam vítimas da lógica efêmera da moda e adotam meios radicais, apelando para regimes cíclicos e desenvolvendo comportamentos patológicos, como anorexia e bulimia. Assim, não negamos a importância da magreza, da moda e da publicidade para promover a autonomia do feminino em relação ao imaginário masculino, mas também não devemos nos esquecer de problematizar o novo tipo de controle “pan- ótico” instalado por essa imagem da sociedade de consumo. Ela está mais a serviço – do que efetivamente serve-se – do consumo das imagens. Há, porém, mais controle que prazer, mais sacrifício que fruição, mais busca de identificação com modelos que construção de singularidades. E é justamente a tomada de consciência desse paradoxo que aciona a criação de uma nova imagem social da mulher.

O CULTO A SI MESMO

A imagem feminina da mulher produzida na sociedade pós-moralista não mistifica a mulher, mas amplia a possibilidades de identificação, legitimação e reconhecimento das diversas formas de ser e estar no mundo. Nasce no final do século XX e consolida-se no século XXI sob a denominação de “mulher real” nas imagens veiculada pelos meios de comunicação em massa como resultado do amadurecimento social, que produz uma “mídia em diálogo”, em consonância com a acentuação dos princípios democráticos, que produz imagens fruto da interseção entre a mídia e a sociedade. Surgem mulheres comuns, de diversas etnias, raças, corpos, idades e comportamentos que passam a descentralizar os modelos de beleza, o que se configura, mais visivelmente, na publicidade, em campanhas como as da Natura e dos produtos Dove, por exemplo.

A lógica dessa imagem também se expande para a mídia em geral e as capas das revistas semanais, constantemente, denunciam o modelo rígido de beleza. Existe também o importante lócus contemporâneo de auto representação da imagem da mulher criado com a Internet. Blogs, sites, Facebooks, Orkuts fornecem espaço e incentivo para a produção frenética da própria imagem. É a consagração do “culto de si” em um espaço que concilia, paradoxalmente, individualismo e trocas interativas. Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano e mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem está “próximo”. Há, na base desse fenômeno, uma espécie de democratização dos desejos de expressão individual, na medida em que as mulheres buscam conquistar “espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar da simples condição de consumidora” das imagens alheias, afirma Lipovetsky. As mulheres querem colocar sua imagem no mundo. “Ser ou não ser: existir na tela ou não existir”, indaga o autor.

Mas seria correto anunciar o “crepúsculo das estrelas”, como o fez o sociólogo e filósofo Edgar Morin? Será que abandonamos os modelos estéticos e a contemplação das celebridades, das top models? Já ampliamos a existência da mulher para além da imagem da beleza? A emancipamos? É cedo para afirmar isso. Paradoxalmente, atrizes e celebridades continuam a atrair leitores para as colunas de fofocas e modelos magérrimas protagonizam campanhas publicitárias, impulsionando as vendas de revistas femininas.

Presenciamos, simultaneamente, o nascimento de uma imagem revolucionária sobre a mulher e a permanência das tradicionais e modernas. Isso não impede, no entanto, a emergência, no século XXI, de uma imagem; sem imagem definida, que escapa e abre frestas para uma diversidade de formas singulares de ser mulher. Surge a possibilidade de “um ser qualquer”, algo que, para o filósofo italiano Giorgio Agamben, seria a única possibilidade de uma existência social ética. O termo “qualquer” (do latim, quodlibetens) significa “o ser que, seja como for, não é indiferente”; contém algo que remete à vontade (ibet), o ser qualquer estabelece uma relação original com o desejo. Podemos, enfim, nos apropriar da formulação do psicanalista Comelius Castoriadis (1922-1997) para pensar que a relação da mulher e da imagem socialmente dada do que é o feminino “não pode ser chamada de relação de dependência. É uma relação de inerência, que como tal não é nem liberdade nem alienação, mas está no terreno no qual liberdade e alienação podem existir”.