A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM PALAVRAS

Algumas crianças, como Mário, de 6 anos, passam parte da infância sem dizer uma só palavra fora do círculo de sua família, não se comunicam nem com as professoras ou parceiros de brincadeiras; trata-se do mutismo seletivo, um distúrbio da linguagem vinculado à dificuldade de regular o nível de excitação emocional

O menino de 6 anos já frequentava o jardim-de-infância desde os 4 e ninguém na escola jamais ouvira sua voz. Pelo menos não até aquele dia, quando, por puro entusiasmo, ele deixou escapar três palavras: “Deixa eu agora!”. Queria ver uma câmera fotográfica, tocá-la… “Posso apertar?” A criança tímida, normalmente calada, hoje não desgruda da fotógrafa e de mim. E fala conosco – mesmo que em voz baixa e apenas a uma distância segura de todos os outros. Um fato admirável, considerando que há três anos Mário (a mãe quer seu nome alterado para protegê-lo) se cala sempre que uma pessoa estranha entra na sala – e mantém a boca fechada, bem apertada, para que nenhuma palavra escape. A vigilância o transformou em um mestre do silêncio: quando quer alguma coisa de alguém, puxa a manga da própria blusa, e responde às perguntas balançando a cabeça. E quando se sente pressionado, o que ocorre com facilidade, seus olhos se enevoam e ele fica “ausente”, como se uma cortina interna baixasse.

Os terapeutas têm um termo para esse fenômeno: “mutismo seletivo”. Em determinadas situações, as crianças ou adolescentes não conseguem pronunciar nem uma palavra, apesar de (diferentemente dos “mutistas totais”) terem condições fisiológicas de falar normalmente, o que em geral ocorre quando se sentem seguros, por exemplo, em situações em que estão sozinhos com pessoas muito próximas. A maioria desses pacientes engole até mesmo o riso, choro e gritos de dor. Mário também só fala com algumas poucas pessoas “escolhidas”: a mãe intensamente amada, o pai, os avós, um vizinho, uma colega de sua mãe, um menino mais velho com quem costuma brincar e sua terapeuta, Gabriele Biegler-Vitek (que recentemente desenvolveu um estudo sobre o transtorno na Universidade Danúbio, em Krems). E agora ele falou conosco, duas mulheres desconhecidas. Pediu para explicarmos tudo sobre as câmeras, essas máquinas maravilhosas. “Deixa eu agora!”, uma frase curta, mas uma espécie de marco no caminho de muitos passos pequenos e árduos que Mário trilha há meses na terapia.

Os pequenos pacientes vão ao consultório de Biegler-Vitek pelos motivos mais diferentes, mas os integrantes desse grupo têm algo em comum: mostram-se inibidos e hesitantes, os braços permanecem colados ao corpo, e a cabeça, baixa. Encontram-se toda segunda-feira há mais de um ano. “Tudo bem com você?” pergunta a psicoterapeuta ao loirinho ao seu lado. A roda de aquecimento. Uma após outra, as crianças contam o que viveram na semana passada. “Tudo bem”, sussurra Mário, tão baixinho que eu, três poltronas à frente, mal o ouço. Mantém seu olhar fixo na terapeuta, conta apenas para ela aquilo que deveria dizer a todos. Na próxima hora, a profissional volta a solicitar que se dirija diretamente a um colega quando quiser alguma coisa dele. Mário sempre atende ao seu pedido, mas nunca toma a iniciativa. O mais importante, porém, é que faz algo que normalmente não consegue na escola ou no parque: fala! Para Mário é imensamente difícil encontrar seu lugar entre as outras crianças, e, não raro, fica à margem. No grupo de terapia isso é diferente: sabe que está num ambiente protegido e pode falar no seu ritmo. É como se fosse um campo de treinamento que o prepara para a vida “lá fora”.

TONS ACINZENTADOS

Acredita-se que o mutismo seletivo atinja menos de 1% da população abaixo de 15 anos – mas trata-se apenas de estimativas baseadas em pequenas amostras. O número de casos desconhecidos é provavelmente alto, já que crianças quietas passam facilmente despercebidas. Como as pessoas afetadas não querem chamar a atenção de forma alguma, o problema muitas vezes não é diagnosticado. “O mutista é como a cor cinza sobre um fundo cinza”, comenta Mira, 45 anos, integrante do fórum da Associação de Auto Ajuda ao Mutismo da Alemanha. Ela mesma ficou calada durante longo tempo durante a infância. Segundo diversos levantamentos, aquelas que crescem em ambiente multilíngue são as que mais frequentemente sofrem com o problema. Esse é o caso de Mário, com o qual os pais falam tanto alemão quanto italiano. O risco parece ser ainda um pouco mais alto no caso de imigrantes: talvez porque as crianças se encontrem, de uma hora para outra, em um ambiente estranho, no qual não são entendidas, ou tenham de enfrentar a mudança de sua família.

Muitas vezes, parentes não reconhecem o problema, supõem que a criança é apenas distraída, teimosa ou tímida, principalmente porque raramente é tão reservada em casa. E, não raro, pais, educadores e até psicólogos acreditam que essa dificuldade vai se resolver por si só e “desaparecer com o tempo”. Essa, porém, é uma visão muito simplista, pois o mutismo não é uma recusa a falar, na qual a criança decide, cedo ou tarde, voltar a conversar. Trata-se, na verdade, de um distúrbio grave de fundo emocional e, sem ajuda profissional, ela corre o risco de permanecer continuamente em seu mutismo e solidão. O que significa isso no dia-a-dia? No jardim-de­ infância, por exemplo, Mário não vai ao banheiro porque não consegue falar com a professora. Mais alguns anos sem terapia e ele provavelmente não andaria de metrô na adolescência, não sairia com amigos – caso fizesse algum. E na escola, provavelmente, teria maus resultados. Talvez um psicoterapeuta diagnosticasse um distúrbio do pânico ou uma fobia social.

Frequentemente encontram-se indícios de inibição linguística no decorrer de várias gerações. “Calados nunca vêm de famílias de festeiros”, diz o psicólogo infantil Boris Hartmann, especialista em mutismo. Se essa disposição é transmitida mais fortemente pelos genes ou pela educação ainda é objeto de discussão. De qualquer forma, nas famílias onde há uma criança mutista encontram-se com frequência pais e mães introvertidos, avós extremamente quietas e outros parentes bastante tímidos.

No caso de Mário, o pai também não falava na época em que começou a frequentar a escola, na Itália, mas de alguma forma ele conseguiu escapar de sua mudez. Mas os pais de Mário não querem contar com essa vaga esperança. Junto com Biegler-Vitek, eles formularam uma meta: quando entrar na escola fundamental, Mário terá de estar falando. Uma decisão acertada: quanto mais esperar, mais difícil será o processo. “A criança perde uma parte da socialização que não pode mais ser recuperada. Crianças quietas transformam-se em pessoas fechadas e caladas, algumas não pronunciam nenhuma palavra até a idade adulta”, alerta a psicoterapeuta.

O mutismo precoce começa quase sempre por volta dos 4 anos. Já o “escolar” ou “tardio” aparece entre 5 e 8 anos. Quando Mário entrou no jardim-de-infância se mostrava “tímido e observador”, conta a mãe. Mas adaptou-se rapidamente e, no início, não queria nem mesmo ir embora, de tanto que gostava de lá. Algum tempo depois, porém, ele começou a se retrair e parou de falar com parentes e amigos.

VESTIR PERSONAGENS

No consultório de Biegler-Vitek, as crianças se preparam para a representação semanal de papéis e vestem fantasias: jaquetas, calças e acessórios. Mário pega um chapéu e volta a se sentar. “Quem você quer ser?”, pergunta a terapeuta. “O prefeito”, ele murmura. Por quê? Ele quer cuidar de todos na cidade. Estranho, me dirá Biegler-Vitek mais tarde: “Normalmente, Mário não se arrisca muito”. As regras são combinadas: os “malvados”, o incendiário, o caçador e o espião devem ficar parados e se deixar levar quando o prefeito os encontrar. “Você está preso”, sussurra Mário, e os colegas põem as mãos para a frente. O menino fecha as algemas, mas move-se lentamente, como se o ar fosse composto de gelatina. Para ele, tudo acontece de modo rápido demais.

Segundo a tese de Biegler-Vitek, mutistas têm dificuldades para acompanhar mudanças de emoções e interações sociais. Segundo ela, o distúrbio raramente se desenvolve em consequência de um trauma, como erroneamente supõem alguns. É muito mais provável que seja inato. Enquanto a maioria dos bebês se “desliga” momentaneamente quando recebe estímulos ambientais em excesso, alguns – como Mário – mostram, desde muito cedo, dificuldade de regular seu nível de excitação. Crianças com tendência ao mutismo demoram mais para processar essa auto regulação, acredita Biegler-Vitek. Elas vagam desamparadas nesse mar de sinais que não conseguem classificar nem controlar. Com a pessoa mais próxima, como a mãe, quase sempre se desenvolve uma convivência ativa; mas, tão logo outras pessoas surgem, sente sobrecarregadas. Quando precisa sair do ambiente conhecido que compensa suas fraquezas, essa insegurança se transforma em medo de errar e ser ridicularizadas.

NÃO HÁ CULPADOS

Um perfeccionismo exagerado, típico dessas crianças, reforça o problema: como não consideram a fala e os sinais não verbais suficientes para superar o desconhecido, esses meninos e meninas se calam completamente. Inicia-se então um círculo vicioso: na tentativa de ajudar esses meninos e meninas e tornar as situações menos desagradáveis, outras pessoas passam a falar por eles. Quando a vizinha cumprimenta, a irmã responde. Quando alguém oferece algo, o pai agradece. Se a dona da loja esquece de dar a Mário as balinhas de sempre, ele reclama para a mãe. Rapidamente, aqueles que rodeiam a criança passam a ser seus “intérpretes”. E logo tudo passa a girar em torno dela, muda: em casa ou na escola. Essa posição especial representa ganho secundário do distúrbio. A terapeuta, que também frequenta a casa de seus pacientes, fala sobre pequenos tiranos que dominam, mandam e desmandam em sua família. A família, porém, mal percebe, aceita essa situação ou simplesmente não consegue pôr fim nela.

Tudo isso junto conserva o mutismo. “Mas não o desencadeia”, ressalta a terapeuta. “Nem a mãe nem a família têm culpa da mudez. Elas apenas reagem.” E, quanto mais cedo forem tomadas providências, melhor. Na idade de Mário, com a terapia, a chance de ele voltar a falar normalmente é de nove para uma. Para atingir seu objetivo, a terapeuta aposta na interdisciplinaridade: uma mistura de psicoterapia comportamental, logopedia (conjunto de métodos utilizados para a correção de hábitos de pronúncia) e pedagogia dos distúrbios da fala. Biegler-Vitek começa com consultas individuais nas quais formula regras claras: “Aqui você vai falar – e a mamãe vai lá para fora”, ela disse a Mário logo no início. Na primeira consulta, o primeiro som: “Quando isso funciona, então eu sei que vencemos”.

Mas, nesse momento, ela não se refere à fala propriamente dita. Exigir um “a, e, i, o, u” seria sobrecarregar a criança. Em vez disso, propõe uma brincadeira: pede para Mário soprar. Ele o faz e a pena que segurava sai voando suavemente. Logo ele assopra mais forte, movendo objetos mais pesados: bolinhas de lã, lascas de madeira e caquinhos de vidro. Esse método ajuda a superar barreiras que normalmente prendem as palavras em sua garganta.

Apesar de Mário ter falado na terceira consulta com Biegler-Vitek, a primeira fase da terapia durou aproximadamente seis meses. Então ele entrou no grupo e, lá, a palavra de ordem é treinar: tomar-se ativo em papéis como o do “prefeito”, interferir, impor-se – e falar alto espontaneamente. Um esforço fenomenal para o menino. No final da encenação ele está quente, suas bochechas estão vermelhas e as orelhas queimando

Ao mesmo tempo, Biegler-Vitek realiza um trabalho mais amplo, que chama de “instalar a fala”: envolve as pessoas que estão à volta do menino, amplia a “conversa com a terapeuta” cautelosamente para a “conversa com a terapeuta e outra pessoa”. Se Mário falar com alguém uma vez, então falará com essa pessoa também no futuro. Com a fotógrafa e comigo, por exemplo. Como ele nos encontrou no grupo no qual usa palavras para se comunicar, consegue falar conosco também na escola. No entanto, lá isso só é possível “escondido”, como ele nos confidencia: os outros não podem vê-lo falando. Para mutistas, abrir a boca em lugares onde as pessoas só os conhecem mudos é um grande desafio, pois é preciso abrir mão do lugar “daquele que não fala”. Talvez a frase: “Mas você sabe falar!” seja a mais temida. E é justamente isso que acontece no jardim-de-infância. “Ele falou uma coisa, eu ouvi!”, comenta uma garotinha, cheia de espanto. Quando Mário percebe, o brilho de entusiasmo desaparece de seus olhos e ele aperta a boca com força. Ele ainda não está pronto. Mas logo vai criar coragem.

SINAIS DE ALERTA

  • Ansiedade no trato social, variações de humor, enurese e hábito de roer as unhas
  • O mutismo dura meses e parece não melhorar
  • A criança age normalmente em casa, mas não fala na presença de estranhos
  • Quando alguém se dirige a ela, abaixa a cabeça e fica paralisada
  • A criança se acomoda em sua mudez, desenvolvendo o próprio sistema de sinais
  • Ao brincar, não faz barulho; evita até mesmo tossir, espirrar ou rir
  • Gagueira, atraso no desenvolvimento da fala ou dicção ruim

COM A AJUDA DOS ADULTOS

O mutismo seletivo não é causado por erros na educação, mas pode ser reforçado por eles. Além da terapia, atitudes de pais e educadores podem ajudar a criança a sair desse estado.

•  Principalmente as mães devem ficar atentas para não se envolver de forma simbiótica com os filhos mutistas, deixando de lado outros aspectos da própria vida

• É importante que o paciente enfrente a insegurança diante de situações novas; andar de bicicleta, nadar ou participar de esportes coletivos ajuda a superar o medo

•  A criança deve participar igualmente das tarefas em casa e na escola; assumir trabalhos

domésticos e responsabilidades da mesma forma que irmãos e colegas

•  Adultos devem evitar fazer papel de “pombo-correio” da criança, falando por ela

•  Comemore os aniversários e outros eventos, mesmo que a criança não queira convidar ninguém

•  Se os pais se sentem inseguros, devem procurar terapia individual para lidar melhor com as próprias questões

•  A família deve desenvolver habilidades sociais, por exemplo, convidando regularmente amiguinhos e seus pais para visitas

•  Deixe que a criança realize tarefas adequadas à sua idade, como alimentar-se sozinha, amarrar os próprios sapatos, lavar as mãos etc.

•  O papel do pai deve ser claro e reforçado; é importante que a criança confie nele e os dois tenham um tempo para se divertir juntos

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.