EU ACHO …

BOLINHAS

Não tomo bolinhas. Quero estar alerta, e por mim mesma. Fui convidada para uma festa onde na certa tomavam bolinha e fumavam maconha. Mas minha alerteza me é mais preciosa. Não fui à festa: disseram que eu não conhecia ninguém, mas que todos queriam me conhecer. Pior para mim. Não sou domínio público. E não quero ser olhada. Eu ia ficar calada. Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não? Dizem que é delicada. Vou resolver. Dizem que fala muito de como é. Estou fazendo isso? Não quero. Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. Maria Bethânia me conhece dos livros. O Jornal do Brasil me está tornando popular. Ganho rosas. Um dia paro. Para me tornar tornada. Por que escrevo assim? Mas não sou perigosa. E tenho amigos e amigas. Sem falar de minhas irmãs, das quais me aproximo cada vez mais. Estou muito próxima, de um modo geral. É bom e não é bom. É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AGORA É ASSIM

Adaptadas à cartilha antivírus, escolas brasileiras reabrem seus portões, dando a largada para sanar as lacunas do ano que passou e com o imenso desafio de atrair a atenção da garotada que perdeu o hábito de estudar

Nesses últimos tempos, aconteceu de tudo na vida estudantil. Muita gente confinada por causa da pandemia se viu de repente sem aula. Aí veio o ensino 100% remoto, depois a fase híbrida, com uma parte da lição na escola e a outra em casa, até que chegaram as férias. E essas foram únicas, com pais, professores e alunos compartilhando a sensação de que a montanha-russa acadêmica acabou por comprometer a aquisição de conhecimento e daquelas habilidades socioemocionais que se aprendem nas trocas humanas. A situação enche a todos de ansiedade e dúvidas sobre o que está por vir no ano letivo que se inicia agora para boa parte dos 47,3 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Meu filho estará mesmo seguro na sala de aula? Como recuperar o que não foi assimilado em 2020? E, após tanto sacolejo, como retomar a rotina de estudos de forma saudável e produtiva?

Para tentar responder a essas perguntas, ouvimos especialistas, famílias e mais de uma dezena de escolas de todas as regiões do país, empenhadas em proporcionar um regresso às carteiras sem solavancos, cercado dos cuidados sanitários que a presença do novo coronavírus ainda impõe. Todas elas vão oferecer a modalidade híbrida, sempre deixando aberta a opção àqueles que preferem por ora manter os filhos em casa. Outro traço que as une é a estratégia de retomar os trabalhos a partir de avaliações que indiquem em que pé da matéria os alunos verdadeiramente estão. “Vamos demorar um tempo para conseguir dar conta doque ficou para trás”, reconhece Christina Sabadell, diretora do colégio Pueri Domus; em São Paulo. Até lá, dá-lhe revisão de disciplinas passadas, mas não sedimentadas. “Sem uma boa revisão de conteúdos-chave, a aprendizagem fica comprometida”, diz Felipe Sundin, diretor-geral do Colégio e Curso AZ, no Rio de Janeiro. Nesse caso, o reforço está sendo oferecido em chamadas virtuais em que as dúvidas são sanadas pelos professores em tempo real e à base de encontros individuais.

Entrar em uma escola nos dias de hoje é um passeio pelo novo normal, recheado de protocolos estabelecidos mundialmente. Máscara, álcool em gel e divisórias de acrílico nas mesas são só o começo. A visão algo distópica segue no pátio, com número reduzido de crianças, monitoradas para que respeitem a distância umas das outras. No Colégio Seriõs, em Brasília, as turmas foram divididas em “bolhas”, compostas de quinze estudantes cada uma. O cronograma é montado para que uma não esbarre com a outra. Ao deixar a garotada no colégio, pede-se aos pais que não saiam do carro. “Como não tivemos nenhum caso de Covid-19 quando abrimos, em outubro, a confiança das famílias em mandar os filhos para o colégio saltou de 42% para 70%”, conta a diretora pedagógica Vanessa Araújo. A vigilância precisa ser permanente. Em São Paulo, o colégio Avenues, por exemplo, fará toda semana testes de Covid-19 nos alunos e na equipe pedagógica.

A batalha que se inicia com a volta às aulas exige um imenso esforço de adaptação de todas as partes. Os alunos se desacostumaram de suas rotinas e, como já foi vastamente medido, isso impactou no desempenho geral. Uma pesquisa da FGV-SP, encomendada pela Fundação Lemann, indica que, se as escolas não agirem ativamente, o atraso em português e matemática pode superar um ano. “A preocupação nesse momento é cultivar o hábito do estudo, difícil de adquirir e fácil de perder”, disse o matemático americano Salman Khan, dono da maior plataforma de aulas on-line do planeta. Também os pais têm um papel relevante no caminho de volta. Os especialistas recomendam que, sobretudo no caso de crianças pequenas, eles redobrem a atenção e, diante de sinais de que o processo está emperrado, acionem o colégio. “A comunicação entre as famílias e a escola é fundamental para que funcione”, enfatiza Olavo Nogueira, da ONG Todos pela Educação.

Para dar conta das matérias que ficaram para trás, os pedagogos de plantão também estão quebrando a cabeça para rearranjar os currículos e fazer caber neles tópicos fundamentais que acabaram não sendo bem absorvidos no ano que passou. Com isso, nasce uma espécie de dois em um, uma fusão entre o que estava programado para 2020 e o previsto para 2021. No Bandeirantes, de São Paulo, o conteúdo que não se encaixar agora será dado ao longo das séries seguintes, de forma diluída. A rede estadual paulista, que retomou o modo presencial na segunda 8, avisa que 2020/2021 serão como “um ciclo único” e lançou um quarto ano do ensino médio, para quem acharque precisa correr atrás do tempo perdido. As escolas municipais do Rio, de portas abertas no próximo dia 15, promoverão remexida semelhante no currículo e, para tentar frear a revoada de alunos sem computador nem celular para embarcar no ensino remoto (um nó que deixou muita gente sem lição), darão acesso às aulas em TV aberta e fechada.

O regresso à lição presencial, mesmo em sistema híbrido, inclui ainda um delicado desafio que extrapola a zona do aprendizado propriamente dito. A quarentena provocou em uma parte da turma mudanças de comportamento que merecem atenção. Uma pesquisa realizada na Espanha e na Itália, países bastante atingidos pela pandemia, revela que 85% dos pais perceberam nos filhos dificuldade de concentração (76%), tédio (52%), irritabilidade (39 %), nervosismo (38%) e solidão (31%). Uma parcela ainda demonstra ansiedade crescente e, às vezes, depressão. “Iniciativas para manter a criançada saudável e com a sensação de acolhimento são essenciais neste período”, frisa Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV. Para os mais novos, isso conta muito. “Desde dezembro, meus filhos participam de um programa de ressocialização. Vão para a escola só para brincar”, fala Carima Orra, 27 anos, mãe de um trio de 2, 4 e 5 anos que volta ao batente no colégio Pen Life, de São Bernardo do Campo, em 18 de fevereiro. “Estamos lidando com uma comunidade que se encontra em patamares diferentes de ansiedade e, por isso, é vital dar acompanhamento psicopedagógico a cada aluno”, afirma Nigel Winnard, diretor da Escola Americana do Rio.

Mandar ou não os filhos à escola é uma decisão individual, mas abrir os portões, dando a opção para quem quer frequentá-la, tem se demonstrado um caminho acertado. Mundo afora, o retorno às aulas presenciais, sempre aplicando a cartilha antivírus, não levou a uma alta de infecção entre os estudantes – ao contrário, ela foi baixíssima, segundo um relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças. Baseada nisso, a agência americana CDC recomendou a retomada das aulas nos Estados Unidos, mantendo-se o olhar atento para as boas regras sanitárias. O Brasil, um dos países que por mais tempo suspenderam a lição in loco – foram quarenta semanas de salas desertas em 2020, segundo a Unesco – , não destoa de tantos outros ao voltar às aulas entre quatro paredes. Se bem que, nestes tempos tão diferentes, até as paredes estão sendo derrubadas. Várias escolas começam a ensinar a matéria em praças, centros esportivos e parques. “Adaptamos sete estações de aprendizagem em parque recém-inaugurado para educar nossas crianças”, orgulha-se Vasti Ferrari, gestora da rede municipal de Jundiaí, a 57 quilômetros de São Paulo. São novos e bem-vindos ares.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE FEVEREIRO

MÃOS ABERTAS, BOLSOS CHEIOS

A quem dá liberalmente, ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo, ser-lhe-á em pura perda (Provérbios 11.24).

Na economia de Deus, você tem o que dá e perde o que retém. O dinheiro é como uma semente: só se multiplica quando é semeado. A semente que se multiplica não é a que comemos nem a que guardamos, mas a que semeamos. A semeadura generosa terá uma colheita farta, pois a quem dá liberalmente ainda se lhe acrescenta mais e mais. É o próprio Deus quem multiplica a nossa semente e faz prosperar a nossa sementeira quando abrimos a mão para abençoar. Mãos abertas produzem bolsos cheios. O contrário, porém, também é verdadeiro. Ao que retém mais do que é justo, isso lhe será em pura perda (Provérbios 11.24). Vazará dentre os dedos. É como receber salário e colocá-lo num saco furado. Aqueles que acumulam com avareza o que poderia socorrer o aflito descobrem que esse dinheiro acumulado não lhes pode dar felicidade nem segurança. Aqueles que ajuntaram fortunas e viveram no fausto e no luxo, deixando na penúria o próximo à sua porta, descobrirão que, quando a morte chegar, não poderão levar um centavo. Não há caminhão de mudança em enterro, nem gaveta em caixão. Mas o que você dá com generosidade é como uma semente bendita que se multiplica e alimenta milhares.

GESTÃO E CARREIRA

ATENÇÃO NA DESPEDIDA

Entrevistas demissionais são um mecanismo importante de coleta de dados e podem evitar a judicialização de conflitos

Desde a Reforma Trabalhista de 2017, o número de novos processos trabalhistas em primeira instância caiu cerca de 30% no país, segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Isso se deve ao fato de os trabalhadores precisarem arcar com os custos caso percam suas ações. Mesmo assim, no ano passado o Brasil contabilizou 1,5 milhão de processos trabalhistas – e as empresas precisam usar diferentes estratégias para se protegerem de questões judiciais.

Uma maneira de fazer isso é aproveitar as entrevistas demissionais, conduzidas pela empresa depois de o funcionário ser informado de que não faz mais parte do quadro da companhia, para mapear problemas de conduta de colegas ou chefes e insatisfações que, no futuro, poderão se transformar em processos (como o não pagamento de horas extras).

“É uma oportunidade para resolver eventuais dúvidas ou conflitos existentes entre as partes, evitando, com isso, que o trabalhador saia da empresa com mágoas ou com a sensação de que foi injustiçado em razão de ter sido desligado”, explica Manoela Pascoal, advogada trabalhista no escritório Souto Correa Advogados. “A empresa sempre tem alguma coisa que precisa ser ajustada, e, nesse momento em que já não faz parte da companhia, a pessoa se sente mais à vontade para contar o que se passa”, complementa Luciana Cordeiro, gerente de RH da Reamp + Jellyfish, companhia de marketing digital.

Renato Santos, sócio da S2 Consultoria, especializada em prevenir e tratar atos de fraude e de assédio nas organizações, destaca que as empresas costumam ser dedicadas aos processos de admissão, mas não dão atenção ao processo demissional. “Esquecem que esse momento pode ensinar a organização sobre vários aspectos, que vão do clima à liderança.”

Foi conduzindo uma entrevista demissional para um de seus clientes que Renato deparou com um caso de corrupção, por exemplo. O funcionário confessou que seu chefe o convidou para participar de um esquema, que já contava com dois colegas da área. O profissional se recusou e, dois meses depois, foi demitido pelo gestor. Ele acreditava que isso havia ocorrido por não ter se juntado ao grupo de corruptos.

O caso foi levado à direção, que o apurou e tomou as medidas cabíveis. “Existem algumas empresas que entrevistam somente quem pediu demissão, porque acreditam que, quando o desligamento parte do gestor, a motivação é clara. Mas isso é uma mentira”, diz Renato.

EVITANDO A JUDICIALIZAÇÃO

Apesar de as entrevistas demissionais não terem força de prova em eventuais processos justamente por acontecerem em um ambiente controlado pelo empregador, recentemente o TST indeferiu o pedido de uma funcionária que solicitava o pagamento de horas extras e indenização por danos morais com base em sua conversa demissional e em um depoimento inicial ao entrar na empresa. “Fundamentaram ser incabível o acolhimento dos pedidos quando a própria empregada declarou em sua entrevista de desligamento que pedia demissão porque conseguira outra oportunidade de trabalho, fazendo comentários positivos acerca de sua relação com a ex-contratante e dizendo que trabalhava em outra companhia no horário em que supostamente teria feito horas extras”, diz Manoela, do Souto Correa Advogados.

Apesar de importantes, as entrevistas demissionais não podem ser obrigatórias e, para que sejam eficazes, devem abordar temas como cultura corporativa, políticas internas e condições de trabalho.

Além disso, é necessário treinar muito bem quem irá conduzir essas conversas para antecipar respostas e condutas, como explica Renato, da S2. “Se existir um relato de assédio sexual, por exemplo, a empresa já precisa ter um direcionamento definido. Se a companhia não fizer nada diante de um caso como esse, a entrevista demissional poderá ser mais prejudicial do que benéfica”.

CJHECK-LIST

Três passos para conduzir boas conversas de desligamento

1. SEM OBRIGAÇÃO

As entrevistas demissionais devem ser facultativas e conduzidas por um profissional neutro – melhor até se for de uma empresa contratada

2. ACOLHIMENTO

Lembre-se de que o funcionário pode estar abalado e deixe claro que o bate-papo é para sanar dúvidas e ouvir feedbacks sobre processos que podem ser melhorados ou sobre condutas inadequadas de chefes ou colegas

3. COLHA EVIDÊNCIAS

Embora as entrevistas não tenham peso de prova, podem compor evidências em eventuais processos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM PALAVRAS

Algumas crianças, como Mário, de 6 anos, passam parte da infância sem dizer uma só palavra fora do círculo de sua família, não se comunicam nem com as professoras ou parceiros de brincadeiras; trata-se do mutismo seletivo, um distúrbio da linguagem vinculado à dificuldade de regular o nível de excitação emocional

O menino de 6 anos já frequentava o jardim-de-infância desde os 4 e ninguém na escola jamais ouvira sua voz. Pelo menos não até aquele dia, quando, por puro entusiasmo, ele deixou escapar três palavras: “Deixa eu agora!”. Queria ver uma câmera fotográfica, tocá-la… “Posso apertar?” A criança tímida, normalmente calada, hoje não desgruda da fotógrafa e de mim. E fala conosco – mesmo que em voz baixa e apenas a uma distância segura de todos os outros. Um fato admirável, considerando que há três anos Mário (a mãe quer seu nome alterado para protegê-lo) se cala sempre que uma pessoa estranha entra na sala – e mantém a boca fechada, bem apertada, para que nenhuma palavra escape. A vigilância o transformou em um mestre do silêncio: quando quer alguma coisa de alguém, puxa a manga da própria blusa, e responde às perguntas balançando a cabeça. E quando se sente pressionado, o que ocorre com facilidade, seus olhos se enevoam e ele fica “ausente”, como se uma cortina interna baixasse.

Os terapeutas têm um termo para esse fenômeno: “mutismo seletivo”. Em determinadas situações, as crianças ou adolescentes não conseguem pronunciar nem uma palavra, apesar de (diferentemente dos “mutistas totais”) terem condições fisiológicas de falar normalmente, o que em geral ocorre quando se sentem seguros, por exemplo, em situações em que estão sozinhos com pessoas muito próximas. A maioria desses pacientes engole até mesmo o riso, choro e gritos de dor. Mário também só fala com algumas poucas pessoas “escolhidas”: a mãe intensamente amada, o pai, os avós, um vizinho, uma colega de sua mãe, um menino mais velho com quem costuma brincar e sua terapeuta, Gabriele Biegler-Vitek (que recentemente desenvolveu um estudo sobre o transtorno na Universidade Danúbio, em Krems). E agora ele falou conosco, duas mulheres desconhecidas. Pediu para explicarmos tudo sobre as câmeras, essas máquinas maravilhosas. “Deixa eu agora!”, uma frase curta, mas uma espécie de marco no caminho de muitos passos pequenos e árduos que Mário trilha há meses na terapia.

Os pequenos pacientes vão ao consultório de Biegler-Vitek pelos motivos mais diferentes, mas os integrantes desse grupo têm algo em comum: mostram-se inibidos e hesitantes, os braços permanecem colados ao corpo, e a cabeça, baixa. Encontram-se toda segunda-feira há mais de um ano. “Tudo bem com você?” pergunta a psicoterapeuta ao loirinho ao seu lado. A roda de aquecimento. Uma após outra, as crianças contam o que viveram na semana passada. “Tudo bem”, sussurra Mário, tão baixinho que eu, três poltronas à frente, mal o ouço. Mantém seu olhar fixo na terapeuta, conta apenas para ela aquilo que deveria dizer a todos. Na próxima hora, a profissional volta a solicitar que se dirija diretamente a um colega quando quiser alguma coisa dele. Mário sempre atende ao seu pedido, mas nunca toma a iniciativa. O mais importante, porém, é que faz algo que normalmente não consegue na escola ou no parque: fala! Para Mário é imensamente difícil encontrar seu lugar entre as outras crianças, e, não raro, fica à margem. No grupo de terapia isso é diferente: sabe que está num ambiente protegido e pode falar no seu ritmo. É como se fosse um campo de treinamento que o prepara para a vida “lá fora”.

TONS ACINZENTADOS

Acredita-se que o mutismo seletivo atinja menos de 1% da população abaixo de 15 anos – mas trata-se apenas de estimativas baseadas em pequenas amostras. O número de casos desconhecidos é provavelmente alto, já que crianças quietas passam facilmente despercebidas. Como as pessoas afetadas não querem chamar a atenção de forma alguma, o problema muitas vezes não é diagnosticado. “O mutista é como a cor cinza sobre um fundo cinza”, comenta Mira, 45 anos, integrante do fórum da Associação de Auto Ajuda ao Mutismo da Alemanha. Ela mesma ficou calada durante longo tempo durante a infância. Segundo diversos levantamentos, aquelas que crescem em ambiente multilíngue são as que mais frequentemente sofrem com o problema. Esse é o caso de Mário, com o qual os pais falam tanto alemão quanto italiano. O risco parece ser ainda um pouco mais alto no caso de imigrantes: talvez porque as crianças se encontrem, de uma hora para outra, em um ambiente estranho, no qual não são entendidas, ou tenham de enfrentar a mudança de sua família.

Muitas vezes, parentes não reconhecem o problema, supõem que a criança é apenas distraída, teimosa ou tímida, principalmente porque raramente é tão reservada em casa. E, não raro, pais, educadores e até psicólogos acreditam que essa dificuldade vai se resolver por si só e “desaparecer com o tempo”. Essa, porém, é uma visão muito simplista, pois o mutismo não é uma recusa a falar, na qual a criança decide, cedo ou tarde, voltar a conversar. Trata-se, na verdade, de um distúrbio grave de fundo emocional e, sem ajuda profissional, ela corre o risco de permanecer continuamente em seu mutismo e solidão. O que significa isso no dia-a-dia? No jardim-de­ infância, por exemplo, Mário não vai ao banheiro porque não consegue falar com a professora. Mais alguns anos sem terapia e ele provavelmente não andaria de metrô na adolescência, não sairia com amigos – caso fizesse algum. E na escola, provavelmente, teria maus resultados. Talvez um psicoterapeuta diagnosticasse um distúrbio do pânico ou uma fobia social.

Frequentemente encontram-se indícios de inibição linguística no decorrer de várias gerações. “Calados nunca vêm de famílias de festeiros”, diz o psicólogo infantil Boris Hartmann, especialista em mutismo. Se essa disposição é transmitida mais fortemente pelos genes ou pela educação ainda é objeto de discussão. De qualquer forma, nas famílias onde há uma criança mutista encontram-se com frequência pais e mães introvertidos, avós extremamente quietas e outros parentes bastante tímidos.

No caso de Mário, o pai também não falava na época em que começou a frequentar a escola, na Itália, mas de alguma forma ele conseguiu escapar de sua mudez. Mas os pais de Mário não querem contar com essa vaga esperança. Junto com Biegler-Vitek, eles formularam uma meta: quando entrar na escola fundamental, Mário terá de estar falando. Uma decisão acertada: quanto mais esperar, mais difícil será o processo. “A criança perde uma parte da socialização que não pode mais ser recuperada. Crianças quietas transformam-se em pessoas fechadas e caladas, algumas não pronunciam nenhuma palavra até a idade adulta”, alerta a psicoterapeuta.

O mutismo precoce começa quase sempre por volta dos 4 anos. Já o “escolar” ou “tardio” aparece entre 5 e 8 anos. Quando Mário entrou no jardim-de-infância se mostrava “tímido e observador”, conta a mãe. Mas adaptou-se rapidamente e, no início, não queria nem mesmo ir embora, de tanto que gostava de lá. Algum tempo depois, porém, ele começou a se retrair e parou de falar com parentes e amigos.

VESTIR PERSONAGENS

No consultório de Biegler-Vitek, as crianças se preparam para a representação semanal de papéis e vestem fantasias: jaquetas, calças e acessórios. Mário pega um chapéu e volta a se sentar. “Quem você quer ser?”, pergunta a terapeuta. “O prefeito”, ele murmura. Por quê? Ele quer cuidar de todos na cidade. Estranho, me dirá Biegler-Vitek mais tarde: “Normalmente, Mário não se arrisca muito”. As regras são combinadas: os “malvados”, o incendiário, o caçador e o espião devem ficar parados e se deixar levar quando o prefeito os encontrar. “Você está preso”, sussurra Mário, e os colegas põem as mãos para a frente. O menino fecha as algemas, mas move-se lentamente, como se o ar fosse composto de gelatina. Para ele, tudo acontece de modo rápido demais.

Segundo a tese de Biegler-Vitek, mutistas têm dificuldades para acompanhar mudanças de emoções e interações sociais. Segundo ela, o distúrbio raramente se desenvolve em consequência de um trauma, como erroneamente supõem alguns. É muito mais provável que seja inato. Enquanto a maioria dos bebês se “desliga” momentaneamente quando recebe estímulos ambientais em excesso, alguns – como Mário – mostram, desde muito cedo, dificuldade de regular seu nível de excitação. Crianças com tendência ao mutismo demoram mais para processar essa auto regulação, acredita Biegler-Vitek. Elas vagam desamparadas nesse mar de sinais que não conseguem classificar nem controlar. Com a pessoa mais próxima, como a mãe, quase sempre se desenvolve uma convivência ativa; mas, tão logo outras pessoas surgem, sente sobrecarregadas. Quando precisa sair do ambiente conhecido que compensa suas fraquezas, essa insegurança se transforma em medo de errar e ser ridicularizadas.

NÃO HÁ CULPADOS

Um perfeccionismo exagerado, típico dessas crianças, reforça o problema: como não consideram a fala e os sinais não verbais suficientes para superar o desconhecido, esses meninos e meninas se calam completamente. Inicia-se então um círculo vicioso: na tentativa de ajudar esses meninos e meninas e tornar as situações menos desagradáveis, outras pessoas passam a falar por eles. Quando a vizinha cumprimenta, a irmã responde. Quando alguém oferece algo, o pai agradece. Se a dona da loja esquece de dar a Mário as balinhas de sempre, ele reclama para a mãe. Rapidamente, aqueles que rodeiam a criança passam a ser seus “intérpretes”. E logo tudo passa a girar em torno dela, muda: em casa ou na escola. Essa posição especial representa ganho secundário do distúrbio. A terapeuta, que também frequenta a casa de seus pacientes, fala sobre pequenos tiranos que dominam, mandam e desmandam em sua família. A família, porém, mal percebe, aceita essa situação ou simplesmente não consegue pôr fim nela.

Tudo isso junto conserva o mutismo. “Mas não o desencadeia”, ressalta a terapeuta. “Nem a mãe nem a família têm culpa da mudez. Elas apenas reagem.” E, quanto mais cedo forem tomadas providências, melhor. Na idade de Mário, com a terapia, a chance de ele voltar a falar normalmente é de nove para uma. Para atingir seu objetivo, a terapeuta aposta na interdisciplinaridade: uma mistura de psicoterapia comportamental, logopedia (conjunto de métodos utilizados para a correção de hábitos de pronúncia) e pedagogia dos distúrbios da fala. Biegler-Vitek começa com consultas individuais nas quais formula regras claras: “Aqui você vai falar – e a mamãe vai lá para fora”, ela disse a Mário logo no início. Na primeira consulta, o primeiro som: “Quando isso funciona, então eu sei que vencemos”.

Mas, nesse momento, ela não se refere à fala propriamente dita. Exigir um “a, e, i, o, u” seria sobrecarregar a criança. Em vez disso, propõe uma brincadeira: pede para Mário soprar. Ele o faz e a pena que segurava sai voando suavemente. Logo ele assopra mais forte, movendo objetos mais pesados: bolinhas de lã, lascas de madeira e caquinhos de vidro. Esse método ajuda a superar barreiras que normalmente prendem as palavras em sua garganta.

Apesar de Mário ter falado na terceira consulta com Biegler-Vitek, a primeira fase da terapia durou aproximadamente seis meses. Então ele entrou no grupo e, lá, a palavra de ordem é treinar: tomar-se ativo em papéis como o do “prefeito”, interferir, impor-se – e falar alto espontaneamente. Um esforço fenomenal para o menino. No final da encenação ele está quente, suas bochechas estão vermelhas e as orelhas queimando

Ao mesmo tempo, Biegler-Vitek realiza um trabalho mais amplo, que chama de “instalar a fala”: envolve as pessoas que estão à volta do menino, amplia a “conversa com a terapeuta” cautelosamente para a “conversa com a terapeuta e outra pessoa”. Se Mário falar com alguém uma vez, então falará com essa pessoa também no futuro. Com a fotógrafa e comigo, por exemplo. Como ele nos encontrou no grupo no qual usa palavras para se comunicar, consegue falar conosco também na escola. No entanto, lá isso só é possível “escondido”, como ele nos confidencia: os outros não podem vê-lo falando. Para mutistas, abrir a boca em lugares onde as pessoas só os conhecem mudos é um grande desafio, pois é preciso abrir mão do lugar “daquele que não fala”. Talvez a frase: “Mas você sabe falar!” seja a mais temida. E é justamente isso que acontece no jardim-de-infância. “Ele falou uma coisa, eu ouvi!”, comenta uma garotinha, cheia de espanto. Quando Mário percebe, o brilho de entusiasmo desaparece de seus olhos e ele aperta a boca com força. Ele ainda não está pronto. Mas logo vai criar coragem.

SINAIS DE ALERTA

  • Ansiedade no trato social, variações de humor, enurese e hábito de roer as unhas
  • O mutismo dura meses e parece não melhorar
  • A criança age normalmente em casa, mas não fala na presença de estranhos
  • Quando alguém se dirige a ela, abaixa a cabeça e fica paralisada
  • A criança se acomoda em sua mudez, desenvolvendo o próprio sistema de sinais
  • Ao brincar, não faz barulho; evita até mesmo tossir, espirrar ou rir
  • Gagueira, atraso no desenvolvimento da fala ou dicção ruim

COM A AJUDA DOS ADULTOS

O mutismo seletivo não é causado por erros na educação, mas pode ser reforçado por eles. Além da terapia, atitudes de pais e educadores podem ajudar a criança a sair desse estado.

•  Principalmente as mães devem ficar atentas para não se envolver de forma simbiótica com os filhos mutistas, deixando de lado outros aspectos da própria vida

• É importante que o paciente enfrente a insegurança diante de situações novas; andar de bicicleta, nadar ou participar de esportes coletivos ajuda a superar o medo

•  A criança deve participar igualmente das tarefas em casa e na escola; assumir trabalhos

domésticos e responsabilidades da mesma forma que irmãos e colegas

•  Adultos devem evitar fazer papel de “pombo-correio” da criança, falando por ela

•  Comemore os aniversários e outros eventos, mesmo que a criança não queira convidar ninguém

•  Se os pais se sentem inseguros, devem procurar terapia individual para lidar melhor com as próprias questões

•  A família deve desenvolver habilidades sociais, por exemplo, convidando regularmente amiguinhos e seus pais para visitas

•  Deixe que a criança realize tarefas adequadas à sua idade, como alimentar-se sozinha, amarrar os próprios sapatos, lavar as mãos etc.

•  O papel do pai deve ser claro e reforçado; é importante que a criança confie nele e os dois tenham um tempo para se divertir juntos

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