EU ACHO …

QUANDO CHORAR

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

BÊ-A-BÁ DESIGUAL

A pandemia exacerba a desigualdade educacional no Brasil. Mas há saídas: investimento no professor e em alternativas às limitações tecnológicas regionais

A pandemia tornou a educação à distância um imperativo. Conseguiram avançar nessa seara os países que dispunham de infraestrutura educacional tanto em seus sistemas públicos e privados como também em sua própria sociedade, organizada para dar amparo aos alunos em casa. O Brasil não faz parte desse grupo. A falta de estrutura das redes de ensino locais – somada à imensa desigualdade social do país – deixou mais de 4,9 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio sem atividades escolares durante todo o ano. O resultado foi um ano quase perdido, em que até mesmo os sistemas que conseguiram implementar métodos de ensino não presenciais fracassaram ao não cumprirem a meta mínima de tempo de aluno em aula por dia. A educação do futuro – e um futuro que já começa no ano que vem – terá de apresentar novos formatos para conseguir absorver os alunos de forma presencial e virtual, enquanto a vacina não for uma realidade para a maioria dos brasileiros. Um estudo coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) durante a quarentena mostra um quadro considerado inaceitável: os pesquisadores constataram que a 13,5% dos estudantes de 6 a 15 anos não foi ofertada nenhuma atividade escolar. A análise por estrato de renda é ainda mais desigual. Alunos mais pobres foram 633% mais afetados do que os mais ricos, prejudicados pela falta de infraestrutura em casa. No ensino fundamental, 4,43 milhões de crianças e adolescentes não têm acesso à internet. No ensino médio, quase 1 milhão de alunos também são 100 % desconectados.

No Reino Unido, um dos países em que a eficácia da educação remota foi maior, um estudo do Institute for Fiscal Studies feito com 5.500 famílias com crianças entre 4 e 15 anos mostrou que o tempo dedicado à atividade escolar caiu para todos – de 6,6 para 4,4 horas por dia, em média. No Brasil, nem os mais ricos chegam perto desses patamares. O levantamento da FGV mostrou que no Acre um aluno em atividade remota fica 1,23 hora estudando virtualmente, enquanto em Brasília, o melhor entre os entes federados, um estudante passa três horas diárias em aula. Bem abaixo dos parâmetros ingleses e insuficiente para atender ao mínimo de horas ­ aula que um aluno deve estudar, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que estipula quatro horas diárias.

Cleiton Augusto Cruz integra o grupo limitado de alunos que conseguiram receber algum conteúdo durante o ano. Aos 16 anos, passou os quatro últimos estudando em escola pública em Goiânia, Goiás. Com o sonho de conseguir cursar Direito, está há nove meses sem pôr os pés na escola. “A pressão é dobrada porque faltou muito conteúdo neste ano”, afirmou, ao se lembrar do desafio do vestibular em 2021. Com o ensino remoto, ele teve dificuldades para manter sua dedicação à escola. “Eu tinha para mim que aprender não dependia do professor ou do colégio, que quem fazia o aprendizado era o aluno. Hoje percebo que não é bem assim”, disse. O estudante tem internet em casa e revezou com a irmã mais nova o uso do computador da mãe. Para ele, pior do que a barreira tecnológica foi a metodológica. Seus professores passavam conteúdos por grupos de WhatsApp, mas eram apenas listas de tarefas, indicação de leituras ou vídeos, sem interação. “Toda a animação da sala, a ambição do conhecimento, nem que fosse para saber mais que o outro, nada disso eu consegui encontrar no remoto”, contou.

Apesar da preocupação por não ter rendido como gostaria, Cruz reconheceu que havia colegas em situação pior. “Alguns não têm Wi-Fi em casa, então viam as mensagens só eventualmente. Tem colega que me disse que preferia repetir de ano”, relatou. Assim como o jovem, Helena Tesserolli, de 9 anos, tem o perfil de uma estudante dedicada e participativa. Ela precisou dividir os recursos tecnológicos da casa com seus irmãos – embora já tenha seu próprio celular. Aluna do quarto ano da rede municipal de Jaguariúna, São Paulo, ela conseguiu ter um ano estimulante. Fez projetos a pedido da professora – e um deles até por curiosidade própria, uma fonte d’água que não precisa de energia elétrica. “Para mostrar o que fiz, eu gravava vídeos e mandava para a professora. Minha irmã ou minha mãe filmavam”, contou.

Para Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, dadas as “profundas” desigualdades educacionais que já existiam no país antes da pandemia, as ações das redes de ensino foram até mesmo surpreendentes. “Muito cedo se constatou que uma resposta com base na conectividade não seria suficiente. Mesmo sem nenhuma coordenação do governo federal, estados e municípios adotaram abordagens combinando diferentes mídias, para chegar ao maior número de estudantes possível”, afirmou.

O Paraná foi o maior exemplo de sucesso em termos de conectividade: 95% dos alunos de ensino médio entraram constantemente na plataforma educacional lançada pela rede estadual em abril. Com o passar dos meses, o serviço foi ganhando novas funcionalidades e cursos extracurriculares, como aulas de programação. Na rede estadual do Rio de Janeiro, as aulas on-line também começaram em abril, mas até o mês de outubro 411 mil estudantes – 58% do total – não tinham acessado nenhuma atividade acadêmica.

Algumas redes municipais e estaduais tentaram minimizar a falta de conectividade por meio de dois modelos. Um deles foi a distribuição de chips de internet para os estudantes. Outro, usado pelo Paraná, foi organizar todos os conteúdos em um aplicativo que consome “dados patrocinados”. Funciona como uma espécie de ligação a cobrar: o estudante usa a banda, mas quem paga é o governo, dono do aplicativo. Ambos, contudo, esbarram na necessidade de os estudantes terem aparelhos relativamente novos e à disposição do uso escolar.

Apesar de reconhecer que muitos alunos acabaram excluídos, Costin ressaltou que o esforço foi sem precedentes. “Temos histórias de professores levando tarefas a cavalo para alunos da zona rural, de visitação domiciliar para tirar dúvidas com docentes indo de barco”, explicou a educadora. Ensino à distância não é sinônimo de aula on-line. Há diferentes maneiras de estimular a aprendizagem de maneira remota e, se bem estruturadas, as atividades educacionais podem cumprir mais do que uma função puramente acadêmica. “Teve secretário estadual enviando materiais impressos para redes municipais de cidades pequenas, que não tiveram condições de fazer esses materiais, de redes que não eram sua responsabilidade”, contou.

Costin reforçou que, apesar dos desafios de aprendizado, o ano trouxe aos alunos o desenvolvimento de outras aptidões. “Eles desenvolveram habilidades socioemocionais, como se abrir para novas experiências, se adaptar, ter persistência. Ainda que não seja na escola, estão aprendendo sobre vírus, contaminação, sobre como adultos podem ser irresponsáveis”, afirmou. Para 2021, sem certezas sobre como ficará o controle da pandemia, ela defendeu a prioridade de os professores receberem as vacinas. E lembrou ainda que escola é uma atividade tão essencial que, mesmo em meio a uma segunda onda muito forte, os países da Europa optaram por manter as aulas.

Outro passo essencial para o país é avançar na conectividade dos colégios públicos, já que muitas vezes nem mesmo a escola dispõe de uma rede capacitada para uma aula on-line. “Nada vai substituir o professor presencial, mas os professores hoje precisam usar as novas tecnologias para melhorar o processo de ensino-aprendizagem”, afirmou Mozart Neves Ramos, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-secretário estadual de Educação de Pernambuco. Ele lembrou que o Brasil tem um fundo especifico para a universalização dos serviços de telecomunicação, o Fust. “Parte desses recursos deveria ter sido usada para fazer a transição para a educação digital. O que aconteceu é que os governos, pela área econômica, usaram o Fust para superávit”, criticou. O Congresso chegou a votar um projeto de lei que previa utilizar a verba para universalizar a banda larga em escolas públicas, mas o presidente Jair Bolsonaro, por recomendação do Ministério da Economia, vetou. No Congresso, há um projeto de lei que prevê a oferta de conexão emergencial para 18 milhões de estudantes e 1,5 milhão de professores. O texto já foi aprovado na Câmara e aguarda votação no Senado.

O consenso entre os especialistas é que, sem uma perspectiva de fim da pandemia, o ensino híbrido, ora virtual, ora presencial, se torne a regra – o que exigira investimento e preparo pedagógico. “Ele é importante para as pedagogias ativas, que centram o processo na aprendizagem do aluno. Cada jovem poderia estudar pela manhã com todos os colegas e, à tarde, mediado por tecnologias, se aprofundar em assuntos mais pertinentes”, defendeu Ramos.

O modelo de ensino-aprendizagem com apoio de tecnologias já conta com a aceitação em massa dos professores. “Existem dois tipos de barreira: a hard, que é a falta de internet e aparelhos. A outra, que é a soft, é que era o receio dos professores. Antes da pandemia, muitos se perguntavam se valia a pena usar tecnologias para ensinar, mas boje eles querem”, afirmou Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann. Após a crise sanitária, uma pesquisa encomendada pela fundação constatou que 73% dos educadores disseram que vão utilizar mais tecnologia no ensino do que usavam antes. E só 3% disseram não se sentir preparados para o uso de tecnologias.

Em Sobral, no Ceará, município que tem um dos melhores resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), assim que as aulas foram suspensas a Secretaria de Educação investiu no aperfeiçoamento do corpo docente. Organizou um curso on-line sobre como lidar com as ferramentas digitais e passou a fazer duas lives semanais com professores por meio do canal do YouTube Tecnologias Digitais na Educação, que hoje tem mais de 62 mil inscritos. O aperfeiçoamento do ensino remoto foi além da internet. Na cidade, 36% dos alunos, sobretudo nos distritos rurais, não têm acesso a conexão e computadores e tablets. Para esses, os professores foram orientados a enviar atividades impressas semanalmente.

Um trabalho de articulação nas políticas educacionais poderia ser liderado pelo Ministério da Educação, na avaliação de Alexandre Schneider, presidente do Instituto Singularidades e ex-secretário municipal de educação de São Paulo. Contudo, diante da atual conduta do governo em relação ao problema como um todo, ele é cético quanto à possibilidade de essa liderança se concretizar. “As idas e vindas do governo federal e a falta de comunicação geraram muita insegurança para a retomada”, disse. Entre as funções que podem ser lideradas no âmbito federal está a confecção de um programa de transição digital na educação. Para isso, seria necessário desenhar um plano de recepção dos professores e estabelecer os parâmetros de um currículo híbrido. ” Para ter um plano de aulas híbridas, o professor precisa de formação para entender o que deve ser trabalhado presencialmente e o que funciona bem à distância”, explicou ele. A tecnologia é imprescindível, mas a boa pedagogia também.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRONTOS PARA GUERREAR?

A necessidade de viver em sociedade modula a agressividade humana; já o confronto rompe barreiras psicológicas, o que nos faz desqualificar o adversário e trata-lo como presa a ser caçada; ainda assim pesquisas apontam para uma conclusão surpreendente: empreender grandes batalhas não é o destino de nossa espécie

A agressividade contribui para determinar identidade social, limites simbólicos e fronteiras territoriais. Embora não seja programado geneticamente, esse aspecto importante da evolução se manifesta de diferentes formas na interação de indivíduos semelhantes ou de espécies distintas, por exemplo, por meio da luta, da competição, da fuga, da hostilidade e da submissão. Os correspondentes emocionais desses comportamentos são reações de medo, raiva, ataque e ameaça – que ativam uma ampla série de respostas físicas e variações de humor coordenadas pelo sistema nervoso simpático e parassimpático.

Essas respostas podem ser mais facilmente interpretadas nos mamíferos como gatos e cachorros, e em primatas não humanos. Isso foi evidenciado por Charles Darwin, em sua famosa obra A expressão das emoções no homem e nos animais (lançada pela Companhia das Letras no Brasil). O naturalista inglês comparou as diversas expressões faciais dos animais – particularmente os movimentos dos músculos e a postura da cabeça – com as dos homens para esclarecer a natureza das respostas e dos efeitos emocionais e somáticos como raiva e medo.

Entretanto, observar comportamentos num ambiente natural é muito diferente de acompanhá-los no laboratório. Se na presença de sinais ambientais conhecidos ou de comportamento combativo com indivíduos da mesma espécie o animal pode evitar a agressividade, optando pela fuga, no laboratório, em geral, escolhe o enfrentamento, o que torna a situação um tanto artificial. Em outros termos, as condições anormais que induzem agressividade no laboratório (isolamento compulsório, administração de choques elétricos etc.) alteram os dados experimentais, tornando-os pouco confiáveis.

Todavia, não há uma definição suficientemente clara, capaz de abarcar a vasta gama de comportamentos agressivos no animal e no homem. Se para o mundo animal podemos definir como agressivo qualquer comportamento que vise prejudicar ou ofender outros membros da mesma espécie, para o humano é bastante difícil especificar que comportamentos poderiam ser definidos como agressivos, violentos e, sobretudo, em que situações um comportamento poderia ser interpretado como uma forma de oposição, de defesa ou de protesto. Além disso, os comportamentos agressivos humanos frequentemente assumem características simbólicas extremamente sofisticadas, expressões permeadas por elementos da cultura ou explicitamente violentas no plano psíquico.

No âmbito neurobiológico, a violência e a agressividade estão associadas à ativação de estruturas subcorticais e do sistema nervoso autônomo que controla os demais órgãos internos do organismo (visceral autônomo), ao passo que a violência “culturalizada” (não menos destrutiva) se baseia predominantemente em estruturas corticais. Na realidade, os fatores que determinam violência e agressividade não são apenas neurobiológicos e individuais, mas também coletivos e socioculturais. Em geral, o reconhecimento e a elaboração das mensagens de alarme que anunciam atos violentos são efetuados por estruturas complexas como o córtex pré-frontal, a amígdala, o hipocampo, o córtex cingulado anterior e outras áreas cerebrais específicas. Parece, no entanto, que os correlatos neurobiológicos da agressividade se encontram no sistema límbico e no tronco encefálico. Por exemplo, diversos estudos demonstraram que estimulações elétricas leves no sistema límbico de ratos os levam a atacar animais próximos. Além disso, investigações sobre a influência do sistema neuro­endócrino identificaram a testosterona (hormônio sexual masculino) como um importante modulador de comportamentos agressivos, o que também explicaria, segundo alguns pesquisadores, a maior agressividade do homem em relação à mulher. Além disso, altas taxas de testosterona foram encontradas em mulheres particularmente violentas.

Embora a relação causal entre hormônio e agressividade não esteja clara, pois não se sabe se ela poderia induzir altos níveis do hormônio ou vice-versa, pesquisas recentes apontam para a possível influência, mesmo que indireta, de fatores genéticos sobre a agressividade e sua relação com problemas no desenvolvimento cognitivo – por exemplo, déficit de atenção – que podem resultar em condutas anti-sociais como demonstrou o neurologista Antônio Damásio, da Universidade do Sul da Califórnia. Em 1939, num estudo histórico, Heinrich Kluver e Paul Bucy, da Universidade de Chicago, descobriram que a retirada cirúrgica da amigdala reduzia a agressividade a hostilidade em animais e nos pacientes psiquiátricos violentos.

Esses resultados indicam existência de centros que exercem efeito inibidor e excitante da agressividade localizados no hipotálamo, no núcleo caudado, no septo e na amigdala, tanto no animal quanto no homem. E, um experimento famoso, em 1965, José Delgado, da Universidade Yale, demonstrou que a estimulação elétrica a distância dos centros inibidores cerebrais é eficaz a ponto de parar abruptamente o ataque de um touro. Por outro lado, alterações do sistema límbico (estrutura cerebral arcaica que recebe impulsos inibidores das regiões neocorticais) podem estar na base do comportamento fortemente violento de alguns indivíduos.

Essa sintomatologia configuraria a síndrome do descontrole, cuja origem seria uma patologia cerebral não especificada. Apesar destas evidências, estudos atuais indicam relações mais complexas entre a agressividade e o funcionamento cerebral. A antiga concepção que atribuía a regulação de funções a áreas específicas do cérebro, ou a um grupo isolado de neurônios, é claramente insuficiente à luz das mais recentes pesquisas neurofisiológicas. Parece muito mais plausível supor a existência de circuitos funcionais, constituídos por vias e áreas nervosas diferentes, que contribuem para a regulação de funções específicas. Todavia, embora a realidade seja mais intrincada do que julgavam os estudiosos que empreenderam as primeiras pesquisas nessa área, questionar a existência de centros da agressividade não implica necessariamente excluir a ação de circuitos neurais. Pesquisadores que usam ressonância magnética nuclear funcional (fMNR), tomografia computadorizada por emissão de fóton único (Spect) e tomografia por emissão de pósitrons (PET) orientam as pesquisas para a identificação de circuitos cerebrais responsáveis por comportamentos impulsivos e violentos.

Se a agressividade é um fenômeno biológico, individual e interno ao grupo, a guerra é, antes, um resultado da evolução cultural que ultrapassa determinantes biológicas, fazendo predominar condicionamentos culturais que levam o homem a matar. Diferentemente do confronto bélico, a agressividade é indispensável à sobrevivência, à evolução, às funções adaptativas e ao crescimento psicológico da criança – que tem de explorar o ambiente, avaliar a si mesma, descobrir o que lhe é permitido. Para o etólogo austríaco Eibl-Eibesfeld, a natureza da guerra é cultural, ao passo que a agressividade é um impulso inato, que podemos orientar em direção à evolução ou à autodestrutividade. O que impele o homem a guerrear são questões críticas como crescimento demográfico, devastação do ambiente, destruição da biodiversidade, competição violenta, ameaça de destruição em massa, recusa violenta da tradição, doutrinamento exasperado.

No curso da evolução, os grandes predadores desenvolveram forte inibição do uso das próprias armas naturais contra os membros da mesma espécie, sob pena de extinção. Essa inibição é praticamente ausente no homem, desprovido, como é, de armas naturais que lhe permitam matar rapidamente uma grande presa. Em outras palavras, na história humana faltou uma pressão seletiva que impulsionasse o desenvolvimento de mecanismos inibidores da matança de indivíduos da mesma espécie. Somente a invenção de armas que atingem de longe e de maneira anônima conseguiu inverter esse equilíbrio entre a capacidade de matar e as inibições sociais.

Proliferou ao longo da história, valores éticos como tolerância e solidariedade não foram suficientes para mitigar a destrutividade humana desencadeada por instintos arcaicos como a defesa de si, de seus pares e territórios. Quando, por mutação cultural, os mecanismos inibidores enfraquecem, o conflito transforma-se em guerra. Assim, se de um lado a agressividade individual entre os membros de um grupo é modulada por adaptações filogenéticas para evitar a intensificação destruidora, de outro a agressividade entre os grupos se expressa por meio do ferimento ou da matança dos inimigos com o uso de armas.

A guerra moderna, porém, não se realiza apenas com equipamentos que matam à distância. Também recorre uma doutrina voltada a menosprezar o inimigo. Isso demonstra como a agressividade entre os grupos se transformou num produto da evolução cultural, embora mobilize tendências inatas. O fenômeno contemporâneo baseia-se inteiramente na organização e na disciplina: o uso de armas que matam rapidamente permite eliminar o inimigo antes que ele envie sinais ou apelos capazes de inibir a violência. Para prevenir isso o inimigo é visto pelos combatentes como uma presa, uma caça ou um ser inferior. A finalidade é eludir os sistemas de inibição de agressividade, culturalmente mediados, que poderiam neutralizar o desdobramento do impulso para a guerra.

Nos conflitos que implicavam ataques a distâncias curtas, os combatentes poderiam perceber sinais de submissão e identificar-se com o adversário, o que poderia induzir sentimentos de compaixão capazes de frear comportamentos hostis. Freud formulou a hipótese de que os mecanismos de inibição da agressividade para com os semelhantes têm um fundamento psicobiológico. Com base em uma comparação etnográfica, ele notou que em diferentes populações primitivas os guerreiros que matavam seus semelhantes eram considerados imediatamente impuros e tinham de cumprir ritos de purificação para ser reinseridos em sua comunidade. “De todas essas proibições nos damos conta de que no comportamento para com os adversários também se exprimem outros impulsos além dos exclusivamente hostis. Vislumbramos expressões de arrependimento, de estima para com o inimigo, de remorso por ter lhe tirado a vida. Diria até que nesses selvagens esteja vivo o mandamento não matarás, como escreve Freud.”

Em tribos nilóticas da Etiópia, os sentimentos que animam um guerreiro vencedor são representados, como noutras culturas, por uma mistura de culpa e de orgulho pela ação realizada.

De um lado, pela admiração por parte do grupo a que pertence, de outro, pelo medo dos espíritos dos mortos e da vingança de seu grupo. O guerreiro que matou é obrigado a isolar-se numa choupana, enquanto as mulheres dançam à sua volta para propiciar o seu renascimento numa vida social normal. Em certos casos, o vencedor chega a assumir o nome do vencido, que, deste modo, se faz reviver simbolicamente. Em Etologia da guerra, Eibl-Eibsfeld relatou um notável volume de exemplos que indicam que a inibição para matar é inata. Além disso, ele mostrou que a ela se sobrepõem impulsos para matar inimigos fortemente culturalizados, mas incapazes de anular “o filtro das normas biológicas”. Nos conflitos tradicionais, nos quais prevalece o contato direto, um soldado não pode ignorar a natureza humana do adversário. Não raro, isso provoca um conflito interior, uma espécie de remorso.  Por esse motivo, no início de um conflito, quando a inibição à matança ainda está muito presente, adotam-se para superá-la por meio da psicologização do conflito estratégias voltadas a desumanizar o inimigo e a impedir qualquer contato interpessoal. A proibição de falar com pessoas da tribo inimiga, que vigora em diversas populações primitivas, ou as mais sofisticadas estratégias atuais dos governos,  para separar as operações de guerra do controle da consciência, como normas que visam a “não-fraternização”, com uso de armas a distância, proibição de ouvir a rádio inimiga e assim por diante, ilustram a estratégia de distanciamento.

CAMINHO DA PAZ

Durante a Primeira Guerra Mundial registraram-se inúmeros episódios de confraternização entre soldados de exércitos inimigos, os quais podiam pôr em risco os objetivos da guerra caso o ódio organizado viesse a faltar. Isso diz muito sobre a ambiguidade do comportamento humano: por um lado, os soldados arremessam-se uns contra os outros, pondo em campo todas as pulsões destrutivas da luta, quer inatas, quer suscitadas pela doutrinação; por outro, entram em conflito consigo mesmos quando, num confronto corpo a corpo, levam a cabo, pessoalmente, o homicídio.

A guerra como conflito armado entre grupos é tão antiga quanto o homem. Entretanto, em tempos pré-históricos os homens enfrentavam-se com utensílios rudimentares para conquistar territórios de caça e colheita, limitando-se a incursões repentinas que visavam surpreender pela tática da caça. Atualmente, os exércitos enfrentam-se numa espécie de “guerra total”. Como instrumento de política internacional, a guerra tem a finalidade de subjugar o inimigo. Alguns estudiosos chegaram até a defini-la como uma criação da civilização, na esteira da notória “continuação da política com outros meios”. Diferentemente dos embates tradicionais, a guerra deflagrada por conflitos entre Estados conferiu uma enorme importância a aspectos ideológicos e psicológicos. O recrutamento militar, por exemplo, só é eficaz se precedido por uma guerra psicológica preventiva.

A guerra fria – que só permaneceu fria por causa do risco de holocausto nuclear – foi um longo conflito. Mais do que qualquer outro, privilegiou batalhas psicológicas e ideológicas com o objetivo de enfraquecer a oposição adversária, reduzir a disposição de compreender a ideologia do inimigo e, ao mesmo tempo, repudiar seu sistema de valores. Por isso, antes de qualquer outra coisa, as tradições que conferem identidade à sociedade inimiga são repudiadas. Além disso, explora-se a eterna tensão entre a aspiração à liberdade do indivíduo e o poder do Estado, conflito que tem raízes na aspiração à autonomia e na rebelião contra o domínio ligado a essa aspiração.

Por outro lado, é possível incentivar as pessoas à desobediência simplesmente lhes oferecendo outra autoridade como alternativa mais segura. Até os profetas da antiautoridade erguem num pedestal modelos a ser honrados. Uma guerra desse gênero, não cruenta, pode ser vencida pelo grupo dominante quando este incute o seu próprio modo de pensar, seus próprios códigos, sua ideologia na mente dos adversários. Os slogans são as armas típicas dos conflitos ideológicos, precisamente como diz o termo alemão Schlagwort (de schlaghen = bater e wort= palavra). Esses conflitos podem ser incubadores de uma guerra quente, mas com maior frequência são apenas a forma humana do conflito como tal, pois proporcionam uma rejeição ao “inimigo” e podem levar à cisão da comunidade, destruição dos espaços de pluralidade e até mesmo a mudanças culturais.

Para os grupos dominantes, a guerra não é uma patologia, mas uma função: superá-la significa, em primeiro lugar, compreendê-la. Não basta mostrar aos homens a crueldade da guerra para que desistam dela. São ilusórias tanto as ideias de “pacifismo choroso”, de Aldous Huxley, quanto as ideias do “bom selvagem” e de sociedades animais idílicas. Uma cultura da paz tem de se livrar de qualquer preconceito antropocêntrico e reconhecer a realidade instintiva que condiciona nossos comportamentos. Antes de qualquer outro, o caminho da resolução não violenta dos conflitos provém, justamente, do mundo animal: as lutas pela posição e pelo território entre os vertebrados raramente levam à matança de um indivíduo da mesma espécie porque o conflito assume formas ritualizadas. Da destrutividade originária resta apenas um rastro e o caminho da pacificação permanece aberto.

UM INSTINTO COMO OUTRO QUALQUER?

Avaliar a importância relativa dos fatores inatos, por um lado, e dos fatores motivacionais e ambientais, por outro, tem sido decisivo na análise da agressividade humana. É necessário perguntar, com efeito, se a agressividade deve ser considerada um instinto que é parte da natureza animal ou um comportamento dependente de outros fatores, como a motivação, a frustração, a imitação e a aprendizagem. Com base nas teorias instintuais, entre elas a psicanálise, o comportamento agressivo vive de dinâmicas espontâneas, ou seja, elas se acumulam lentamente no organismo até alcançar níveis-limite que permitem uma descarga por meio de uma ação agressiva.

Para Konrad Lorenz, considerado o criador da etologia, a agressividade pode ser comparada a qualquer outro instinto, uma vez que é desencadeada por estímulos específicos e entra em ação por meio de comportamentos estereotipados, motivada por um impulso interno. Ora, o que ocorre se a tensão interna aumenta sem que um impulso alimentar, sexual ou agressivo seja satisfeito por falta de um estímulo desencadeador ou porque ele encontra obstáculo? É provável que o impulso aumente a um nível tal que qualquer estímulo não específico provoque descarga ou que, na falta de estímulos ambientais, aquele impulso se manifeste sob formas e expressões agressivas não reativas. Qual é, então, o significado da agressividade intra-específica? Em termos evolutivos, ela poderia significar vantagens relativas a posse de território, seleção sexual, autodefesa, cuidado com a prole e assim por diante. Para os etólogos, a agressividade estaria submetida ao controle de mecanismos inibidores, de modo a não se tornar disfuncional ou perigosa para a espécie. Após examinar uma ampla variedade de casos de aversão e frustração, em 1941, o pesquisador John Dollarde destacou a importância das situações reativas para os comportamentos agressivos do ser humano. Todavia, é preciso perguntar se reagimos desse modo em decorrência de frustrações ou as frustrações têm dinâmicas motivacionais autônomas. Parece mais plausível aceitar a segunda hipótese.

A emotividade – função adaptativa determinada pelas estruturas sociais – é o terreno necessário para a passagem da frustração à agressividade. Além dos aspectos naturais, foram investigadas também as determinantes culturais da violência. Mas nesse ponto as coisas não parecem fáceis. Diversas pesquisas realizadas com gêmeos e crianças, adotadas, com o objetivo de avaliar a predominância da conduta agressiva, não produziram resultados coerentes. A investigação do ambiente social evidenciou como a pobreza, a superlotação das periferias metropolitanas, a ausência de espaços para qualquer forma de atividade recreativa e a carência de higiene causam uma sensação de abandono e desespero que pode provocar comportamentos agressivos e desejo de desforra social. Um papel semelhante é desempenhado por crises econômicas, guerras, fome, doenças, que podem estar relacionadas a fenômenos ainda mais evidentes de criminalidade.

O ALTO PREÇO DOS CONFLITOS

Vítimas de traumas neurológicos sofrem declínio cognitivo mais rapidamente que a população em geral. Um estudo recente realizado nos Estados Unido com veteranos da guerra do Vietnã em processo de envelhecimento, com traumas causados por balas ou estilhaços alojados no cérebro, oferece um quadro sombrio do futuro de seus colegas que retornam do Iraque com ferimentos semelhantes, segundo o neurocientista Jordan Grafman, do Instituto Nacional de Transtornos Neurológicos e Trauma, que conduziu pesquisa equipe de Grafman descobriu que as funções cognitivas desse pacientes decaem quase duas vezes mais rapidamente que a de seus colega que não se feriram dessa forma. Porém, aqueles que tinham um alto grau de inteligência antes do trauma parecem ter ficado mais “protegidos” contra essa decadência. A educação tem também efeito protetor. “Quanto mais elevado o nível cultural da pessoa, mais apta se mostra para se recuperar” salienta o neurocientista. Os pesquisadores identificaram variáveis genéticas que podem ajudar a prever a deterioração pronunciada. As conclusões provavelmente se aplicam a combatentes do Iraque com o mesmo tipo de ferimento. “Sabemos que, em algum grau, essas pessoas sofrerão declínio cognitivo mais acelerado. Resta-nos oferecer-lhes acompanhamento neurológico adequado”, diz Grafman. Segundo os pesquisadores, dois terços dos soldados americanos atendidos no Walter Reed Medical Center ao retornar do Iraque já sofrem as consequências dos traumas neurológicos.

ENTRE PULSÕES DE VIDA E DE MORTE

Sigmund Freud, que num primeiro momento considerou as condutas agressivas como reação à busca frustrada do prazer, formulou a teoria das pulsões – sendo a de morte representada por Thanatos, antagonista do instinto de vida, Eros. Neste esquema, a primeira aproxima o indivíduo do estado inorgânico, opõe-se ao impulso vital, Eros. Segundo o modelo, o comportamento agressivo teria, por um lado, o objetivo de dirigir essa força para fora do organismo e, por outro, o de reduzir o estado de tensão. Na perspectiva freudiana, a guerra revela o homem primitivo que vive em nós, aquele que transforma o estrangeiro em inimigo a ser eliminado e banaliza a morte. Essa alteração na percepção da realidade de modo que as perdas pareçam estranhas ou irreais contrasta com a elaboração saudável do luto. Em dezembro de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, em carta ao amigo psiquiatra holandês Frederik van Eeden, publicada em 17 de janeiro de 1915, na revista The Amsterdammer, Freud escreveu: “Prezado colega, sob a influência desta guerra permito-me recordar-lhe duas assertivas que a psicanálise introduziu e que decerto contribuíram para tomá-la impopular com o público”. Do estudo dos sonhos e dos atos talhos das pessoas sadias, e também dos sintomas neuróticos, a psicanálise tirou a conclusão que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram de maneira alguma, mas continuam vivendo, ainda que recalcados, no inconsciente de cada pessoa·, esperando a oportunidade de reativar-se. A psicanálise, além disso, ensinou-nos que nosso intelecto é algo frágil e dependente, bibelô (futilidade, passatempo) e instrumento de nossas pulsões e de nossos afetos, e que somos obrigados a agir ora com inteligência ora com estupidez, conforme o querer de nossas atitudes íntimas e de nossas resistências. Pois bem, veja o que está acontecendo nesta guerra, veja as crueldades e as injustiças das quais se tomam responsáveis as nações mais civilizadas, a má-fé com que se comportam diante de suas próprias mentiras e iniquidades; e observe enfim como todos perderam a capacidade de julgar com retidão: é forçoso admitir que ambas as assertivas da psicanálise eram exatas”. Freud vislumbra no homem impulsos destrutivos primários prontos a reaflorar quando falham as ligações afetivas da comunidade.

A propensão gregária da maioria das pessoas supera a improvável submissão de suas pulsões à razão. Para Freud a salvação reside no (frágil) processo de civilização. Claro, as pulsões de morte não são neutralizadas pelas de vida. Aliás, uma interiorização excessiva, em outras palavras, uma intensa incorporação inconsciente das pulsões destrutivas não é desejável. Não obstante, para o criador da psicanálise, uma civilização deve ter em máxima consideração a potencialização do intelecto e a interiorização da agressividade, com todas as vantagens e os perigos que daí derivam. A guerra se contrapõe a todas as conquistas psicológicas alcançadas por meio da civilização. E é por isso que tudo o que favorece o ato de civilizar age também contra a guerra

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE FEVEREIRO

O HOMEM MAU RECEBE O CASTIGO CERTO

O mau, é evidente, não ficará sem castigo, mas a geração dos justos é livre (Provérbios 11.21).

É impossível praticar o mal e ficar sem castigo. É até possível que esse castigo não seja visto. É até possível que nesta vida a recompensa do mal não seja paga. Contudo, mesmo aqueles que escaparam do juízo dos homens jamais escaparão do justo julgamento de Deus. Asafe entrou em crise ao ver o ímpio, que blasfemava contra Deus, prosperando e vendendo saúde, enquanto ele, sendo um homem íntegro e fiel, era castigado todas as manhãs. Chegou a pensar que não valia a pena manter sua integridade e lavar suas mãos na inocência. Todavia, quando entrou na casa de Deus e atinou com o fim do ímpio, os olhos da sua alma foram abertos, e ele percebeu que o ímpio será irremediavelmente desamparado. O homem mau não prevalecerá na congregação dos justos nem encontrará amparo quando tiver de enfrentar o tribunal de Deus. A geração dos justos, porém, será poupada e desfrutará da verdadeira liberdade. Aqueles que buscam a Deus e confiam na sua graça recebem perdão para seus pecados e justificação diante do tribunal divino. Enquanto o homem mau será apanhado pelas cordas do seu pecado, o justo ficará livre dos seus para sempre. O mau recebe o castigo certo, mas o justo não ficará sem o seu galardão.

GESTÃO E CARREIRA

SAUDADE DO ESCRITÓRIO?

Os meses em home office nos ensinaram que o trabalho remoto funciona. Começa agora uma discussão sobre a volta às empresas. Mas qual é o propósito desses ambientes?

Em março, logo no início da pandemia, a Sephora do Brasil se viu forçada a fechar sua sede e todas as lojas no país, obrigando seus 600 funcionários a trabalhar de casa. Depois de cinco meses, a varejista de cosméticos decidiu reabrir as portas de seu escritório central, em São Paulo, para até dez funcionários diariamente. No primeiro dia, 17 de agosto, apenas oito dos que haviam se inscrito compareceram. No dia seguinte, nenhum. Desde então, a adesão tem sido mínima.

Voltar ao escritório tem se revelado uma frustração para quem esperava reencontrar o clima de antes da crise sanitária. Há uma proliferação de mesas vazias, com os objetos deixados para trás por quem esperava voltar em algumas semanas, e uma escassez de gente. As interações e a energia que caracterizavam o ambiente não estão mais lá.

Mesmo com o fim das medidas mais duras de isolamento, em todo o mundo prédios corporativos seguem esvaziados. Nos Estados Unidos, até 30 de agosto, menos de 35% dos trabalhadores relataram ter ido ao trabalho no dia anterior, segundo um monitoramento da consultoria Gallup. Gigantes do setor financeiro, como Goldman Sachs e J. P. Morgan, anunciaram em setembro que um número maior de funcionários deveria retornar, oferecendo benefícios para atrair o pessoal. A empresa de mídia Bloomberg passou a cobrir até 75 dólares de despesas com transporte individual como forma de incentivo.

Frente a esse desafio, mais do que questionar “se” e “quando” os ambientes de trabalho serão habitados novamente, o líder de RH deve provocar uma discussão mais profunda: o que será o escritório do pós-coronavírus? Qual será seu propósito existencial?

O TRABALHO EM XEQUE

Os seis meses de quarentena levantaram discussões. Nas metrópoles, perder horas e nervos para ir e voltar do trabalho nunca foi tão questionado. As viagens de negócios semanais se mostraram desnecessárias. A falta de confiança de gestores que queriam ter os subordinados por perto para controlar sua produtividade ficou evidente. E o desequilíbrio entre homens e mulheres na divisão das tarefas domésticas e nos salários foi escancarado.

As constatações advêm de uma crise que também é antropológica, segundo a consultora Betânia Tanure, sócia fundadora da empresa que leva seu nome. “Muda a dinâmica das relações e do que a gente valoriza no morar bem”, afirma Betânia. “E isso vai rebater diretamente no home office.

Para os indivíduos, o novo acordo está interessante. Uma pesquisa com 1.123 pessoas realizada pela Morning Consult com o The Times indica que quase 90% dos trabalhadores   remotos se dizem satisfeitos com o arranjo atual, mesmo que às vezes isso signifique atuar do quarto ou de outro cômodo travestido de escritório.

LIÇÕES DA PANDEMIA

Se os funcionários estão satisfeitos, as organizações buscam entender o seu papel no mundo pós-covid em meio aos aprendizados trazidos pela crise. O maior deles: nenhuma deixou de existir apenas por não poder aglomerar seus times sob o mesmo teto.

Suspeitas anteriores à pandemia, como a de que o home office comprometeria a produtividade e a inovação, não se confirmaram. Ao menos não ainda. Em uma recente entrevista ao The Wall Street Journal, Mary Barra, CEO global da GM, afirmou, como exemplo, que uma área em processo de mudança, com todos os funcionários trabalhando de casa, concluiu em um dia um projeto que, antes, levaria semanas.

Efeito similar foi percebido na varejista de cosméticos Sephora e na fabricante de produtos de limpeza Ypê. No meio da crise, a Ypê, que manteve suas fábricas funcionando por ser uma indústria essencial, passou a doar álcool em gel para hospitais da região. Foi impulso para o engajamento. ”Alguns funcionários se ofereceram para trabalhar no domingo, sem receber hora extra”, diz Bruno Szarf, vice-presidente de gente e gestão corporativa da Ypê, destacando que os trabalhadores registraram o ponto nesses dias.

O home office ainda abriu espaço para o RH inovar. A Ypê, por exemplo, com     sede em Amparo (SP), contratou profissionais de Belém (PA), Inglaterra e Estados Unidos para atuar remotamente até o fim da pandemia. O home office dá ao empregador a flexibilidade de buscar talentos em qualquer lugar.  Mas traz questionamentos. As companhias definem a remuneração pelo local em que os profissionais ficarão registrados, baseada em pesquisas com empresas da região.  “Se a pessoa vai trabalhar de casa, qual salário deve valer?”, pondera Bruno.

Outra mudança é na avaliação de desempenho. Existe um pensamento de que não faz sentido manter o modelo tradicional, baseado em metas, num ano como 2020. Na Sephora, a recomendação é que os gestores conversem não sobre metas, mas sobre prioridades – e que não sejam muitas. Já a Ypê criou um modelo chamado Diário de Competências. Por meio de uma plataforma, o funcion6rio pode dar, fazer e pedir feedback 3G0 graus, o ano todo. Um sistema de inteligência artificial monitora a ferramenta e, se perceber que há “coleguismo”, vai tirando peso das respostas. Para ajudar na análise, o empregado pode adicionar evidências, como uma apresentação.

UM DIA POR VEZ

A pandemia e a vida à distância também abriram espaço para novos comportamentos. Na Ypê, percebeu Bruno, graças ao uso massivo da tecnologia, as pessoas passaram a pensar de forma digital e robôs estão sendo construídos para otimizar os processos. Na Sephora, dos 600 funcionários, 75% trabalhavam nas lojas e nunca tinham feito home office. Com uma grade intensa de cursos, todos se voltaram para o e-commerce, ajudando a marca a aumentar as vendas online.

Novas atitudes passaram a ser vistas também na liderança. Chefes têm reconhecido sua fraqueza diante da crise, dando a sensação de uma gestão mais humanizada. Na primeira conversa com funcionários, Silene Rodrigues, vice-presidente de RH da Sephora, e os demais executivos explicitaram sua vulnerabilidade. “Demonstramos que os diretores também tinham medo de morrer, de ter um familiar doente, de ser demitido”, diz. O grupo ainda se comprometeu a falar a verdade. “Quando a gente não soubesse, iria dizer “não sei”, afirma. Desde então, ela tem se acostumado a não ter respostas. Qual será o futuro do escritório? Acho que o home office nunca irá ac abar, mas teremos de definir diretrizes para o trabalho.” E se os funcionários não quiserem voltar à empresa? ”Não sei. Estou vivendo um dia de cada vez.”

CHANCE DE MUDAR

Se o home office se comprovou efetivo, por que discutir um retorno ao escritório? A resposta mais comum é “por causa das relações pessoais e para manter a cultura”. Uma pesquisa do Gartner revela que a principal preocupação é não conseguir administrar o jeito de ser da empresa com o time disperso. “Existia um vínculo forte entre o lugar em que a gente trabalhava e o que a gente produzia. Isso foi realidade por muito tempo. Agora está sendo quebrado”, diz Russell McCall, conselheiro executivo do Gartner, em Washington.

Todos os ritos, cultos e heróis que moldara o jeito de ser corporativo foram desenvolvidos com base na interação presencial. Mas o fato de ser a forma que conhecemos não significa que é a única. Anderson de Souza Sant’Anna, professor na Fundação Getúlio Vargas, acredita ser possível construir e manter um ambiente – e as relações humanas – por meio da tecnologia. “Não preciso estar com gente no mesmo local geográfico para criar”.  O contato pode ser por holograma, Zoom – isso é pouco relevante.” Nessa transição, mais desafiador do que discutir o espaço será se livrar da amarra do tempo. “Antes, as pessoas tinham horas para o trabalho, para o deslocamento (que criava o rito de passagem) e para a vida pessoal. Isso será adaptado. Ainda não criamos uma cultura de trabalho remoto”, diz o professor.

A CASA NOVA

É provável que a maioria das empresas demore para criar uma cultura digital alinhada ao trabalho remoto. Antes disso, grande parte deve se mover para um novo conceito de escritório. O desafio é moldar um ambiente que, além de seguro contra o vírus, tenha um propósito forte capaz de convencer os funcionários a se deslocar.

Nos Estados Unidos já se fala do dynamic workplace (local de trabalho dinâmico, em tradução literal), uma versão flexível, com layout e gestão do open office. A ideia é que, com menos gente indo à empresa diariamente, parte atuando remotamente para sempre e parte seguindo um modelo misto, o ambiente corporativo seja um local de colaboração. Diferentemente do espaço aberto, desenhado para as pessoas irem pelo menos cinco dias por semana, o dynamic considera a rotatividade dos times e uma agenda elástica. O primeiro conceito foi criado para mudar a mentalidade das pessoas. O segundo surge para persuadir as pessoas a aparecer.

É nessa linha que os líderes de RH de Sephora e Ypê imaginam o escritório do futuro: um local para os times se encontrarem em reuniões importantes e comungarem nos projetos.  Na Sephora, apenas 1% dos respondentes de uma pesquisa interna afirmaram que gostariam de voltar ao prédio corporativo todos os dias. A maioria prefere ficar em casa três vezes por semana. Desde então, Silene tem refletido. “É importante ter endereço comercial e espaço físico. Mas ele muda de propósito: deixa de ser o ambiente onde vai trabalhar e passa a ser onde vai colaborar. Talvez as empresas não tenham mais um estilo formal, com mesa, cadeira, e mudem para um conceito tipo WeWork.” O tempo (e o espaço) dirão.

POR DENTRO DO TRABALHO REMOTO

Levantamento do Global Workplace Analytics mostra a relação das companhias e das pessoas com o home office

VAI DEMORAR

Pesquisa da revista Fortune perguntou aos CEOs das 500 maiores empresas listadas em 2020 quando eles acreditavam que pelo menos 90% da sua mão de obra retornaria ao ambiente de trabalho. Veja as respostas: