A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ARTES DA LOUCURA

Obras produzidas por pessoas com transtornos mentais podem estabelecer comunicação entre o universo psíquico e o mundo exterior

A proximidade entre arte, genialidade e doenças psiquiátricas tem exercido, ao longo dos séculos, verdadeiro fascínio sobre cientistas. Já na Antiguidade, o filósofo grego Platão qualificou mania – a “exaltação da alma”- como presente dos deuses a artistas e poetas. No diálogo Fedro, ele escreveu: “Ora, toda grandeza se dá no âmbito da loucura”. Mais de 2 mil anos depois, em 1811, o médico americano Benjamin Rush (1745-1813) observou algo bem parecido acerca da força criativa do “enlouquecimento”: “Mediante uma exaltação sobrenatural, a porção do cérebro livre da manifestação atinge um patamar de consciência capaz de revelar dons até então ocultos”.

Rush comparou a esquizofrenia a um terremoto que desloca placas tectônicas do “espírito civilizado” e libera um potencial submerso equivalente a fósseis valiosos. Essa perspectiva romântica da doença mental ressurge com frequência no pensamento científico. Não se trata, entretanto, de fixar correlações entre criação artística e esquizofrenia: a doença, em si, não faz de ninguém um artista. Trata-se de reconhecer características peculiares nas obras e perceber o que talvez seja uma luta desesperada para reencontrar o self perdido e sua antiga constituição. Para essas pessoas pode ser mais confortável buscar, em vez de na vida real, a identidade no universo hermético da obra de arte. O paciente esquizofrênico parece recobrar, mediante a criação plástica, um momento inestimável de sua liberdade de ação.

No fim do século XIX, o psiquiatra e antropólogo italiano Cesare Lombroso (1835-1909) popularizou a visão romântica das relações entre arte e doenças mentais. Em seu trabalho Gênio e loucura, de 1888, ele analisou importantes pintores e escritores de seu tempo e encontrou sinais de “vulnerabilidade psíquica” relacionada a aspectos genéticos. Ele parecia influenciado pela teoria psiquiátrica da degenerescência, em voga na época, segundo a qual a humanidade estaria sujeita à decadência hereditária. Cinquenta anos depois, os nazistas retomaram as concepções de Lombroso, sobre as quais impuseram seu próprio viés. Na célebre exposição itinerante Arte degenerada (1937-1941), foram mostrados trabalhos de doentes mentais ao lado de obras de artistas contemporâneos, com o intuito de reduzir produções modernas à condição de “doentias” e “desvirtuadas”. Ao mesmo tempo, pintores surrealistas enalteciam os trabalhos de portadores de distúrbios psíquicos como criações revolucionárias, anti racionais, expressões do inconsciente livre de amarras.

Há, de fato, intersecção entre criatividade artística e doenças psíquicas. O pintor alemão Friedrich Schrõder­Sonnenstern (1892-1982) iniciou sua produção logo após manifestação de distúrbio mental. O poeta, pintor e compositor suíço Adolf Wõlfli (1864-1930) criou seu próprio vocabulário e um sistema numérico, além de uma espécie de mitologia particular. Já o holandês Vincent van Gogh (1853-1890) pintava antes do surgimento da psicose. Outros pintores como o norueguês Edvard Munch (1862-1944) e o suíço Louis Soutter (1871-1942) também são conhecidos por seu histórico de distúrbios mentais. Acreditamos que, na maioria dos casos, um artista não cria grandes obras em virtude de seus transtornos psíquicos, mas apesar deles.

ESTILO ORIGINAL

A psicose, entretanto, parece operar uma transformação na forma de expressão e no estilo. Talvez por isso Van Gogh tenha pintado suas telas mais importantes nos primeiros quatro anos e meio a contar da manifestação da doença. Também Munch criou muitos de seus trabalhos mais conhecidos por volta de 1895, durante severas crises de depressão e abuso de álcool. Evidentemente, nem todos os artistas com transtornos mentais se tornam célebres. A imensa maioria permanece no anonimato, em arquivos de instituições. Uma coleção bastante conhecida de criações de artistas esquizofrênicos leva o nome do psiquiatra e historiador da arte alemão Hans Prinzhorn 11886-1933). Em 1919 ele encarregou o então diretor da clínica psiquiátrica de Heidelberg, o médico Karl Wilmanns (1873-1945), de organizar um “museu para a arte patológica”, com a produção plástica de doentes mentais. Três anos depois Prinzhorn deixou Heidelberg e os planos não se concretizaram. O projeto possibilitou, entretanto, reunir produções de diversos estabelecimentos psiquiátricos, inclusive de fora da Alemanha. Entre 1885 e 1925, foram selecionados cerca de 5 mil trabalhos de aproximadamente 450 internos. Sem influência de medicamentos antipsicóticos, inexistentes na época, essas obras revelam características peculiares, ao mesmo tempo universais e singulares. São desenhos ou guaches, pinturas a óleo, trabalhos com fiação e tecidos, colagens e esculturas de madeira. Os pacientes improvisaram cores e formas usando materiais à sua disposição no hospital: folhas de papel ofício, calendários, formulários, jornais ou papel higiênico. Surgiu daquele material uma profusão de cores em obras de arte providas de certa engenhosidade e, é preciso reconhecer, ímpares. Com essa produção, Prinzhorn organizou o livro Expressões da loucura (1922), considerado referência no estudo da relação entre distúrbios psíquicos e arte. O psiquiatra analisou e classificou as obras segundo sinais figurativos característicos, de simples rabiscos a exemplares simbolicamente bastante complexos. Em dez peças escolhidas na coleção, ele conseguiu relacionar a obra à história de vida do autor, resgatando a individualidade dos pacientes. Como o processo de criação era voluntário e não precedido de preparação, restava saber o que impelia os portadores de transtornos psíquicos a expressar-se daquela forma. Prinzhorn acreditava que cada pessoa contém em si um ímpeto criador, escondido sob o processo civilizatório. A esquizofrenia possibilitava a expressão desse impulso, mesmo em indivíduos sem nenhum conhecimento artístico.

Era precisamente essa a concepção de artistas de vanguarda. Criações muitas vezes excêntricas e grotescas eram, para eles, formas originais da expressão figurativa, comparáveis à arte produzida por crianças ou povos primitivos. Com essa forma de interpretação, o desenhista e escritor austríaco Alfred Kubin (1877-1959) visitou o acervo de Heidelberg e redigiu um relatório surpreendente a respeito da coleção. O trabalho de Prinzhorn acabou influenciando também Salvador Dalí, Paul Klee, Max Ernst e Pablo Picasso, entre outros representantes do surrealismo europeu. A história posterior do acervo reflete mudanças culturais do século passado. Numerosas exposições foram organizadas até 1933, quando os nazistas passaram a usar as obras como propaganda ideológica. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a coleção caiu no esquecimento e somente na década de 60 voltaram a ser realizadas algumas pequenas mostras do acervo. No início dos anos 80, a médica lnge Jádi, da clínica psiquiátrica da Universidade de Heidelberg, submeteu as obras a processo científico de catalogação e conservação, preparando-as para apresentações em Londres, Lisboa e Nova York. Em setembro de 2001 a coleção foi reunida na exposição permanente Visão de Wilmanns, em Heidelberg, para inauguração do Acervo Prinzon.

EXPRESSÃO INCONSCIENTE

O símbolo oficial da coleção é uma tela de Josef Forster (1878-?), paciente da clínica Regensburg. A obra, produzida em 1916, traz a forma delicada de um homem sustentado por longas pernas de pau com pesos em suas extremidades. Distante do chão, ele se equilibra sobre muletas, parecendo flutuar. Seu rosto está coberto por um tecido, como máscara ou mordaça. No canto superior direito da gravura, Forster escreve: “Temos aqui algo a representar uma pessoa já sem o peso incômodo de seu corpo; ela pode, nessa medida, com mais velocidade mover-se pelo ar”. De fato, a tela mostra uma pessoa que parece já não sentir o próprio corpo, não tem o chão firme sob os pés e busca se conceder, pela arte, um peso que, de outro modo, já não experimenta; talvez a enfermidade tenha lhe roubado a capacidade natural de comunicar-se. O paciente empreende sua busca “sobre pernas de pau”, sem contato com as pessoas: é o modo como encontra o seu caminho. Mesmo assim expressa possibilidade de alegria: capacidade de criar é, assim, “se locomover pelo ar a grande velocidade. O psiquiatra suíço Ludwig Binswarger (1881-1966) descreveu esse traço como maneirismo ou extravagância. Segundo seus estudos, falta “aderência ao esquizofrênico, que teria perdido o chão de sua existência e o contato com os outros; por isso precisaria do auxílio da arte solitária. Binswanger complementou sua análise com a declaração de um de seus pacientes: “Sou lançado ao mundo preso apenas por uma linha: a qualquer momento esse fio pode ser cortado e eu irei embora de vez”.

As possibilidades de expressão dos portadores de transtornos mentais transcendem o ímpeto constitutivo desordenado. Os esquizofrênicos são com frequência inundados por associações e sensações expressas de maneira intensa – um processo difícil de ser descrito com precisão. Abre-se, assim, para o doente, um mundo individual e peculiar, onde ele pode dar forma e organizar vivências inominadas e, para ele, ameaçadoras.

CONTRA ALUCINAÇÕES

Pintar ou desenhar significa a possibilidade de imputar, a esquemas internos, uma forma concreta, visível. O paciente pode atribuir, à imagem por ele criada, a leveza que não encontra a realidade. Se o esquizofrênico é condenado à passividade ante suas vivências psicóticas, ele confere à sua criatividade plástica uma experiência de “efeito-resposta”. O esquema interno é sucedido pela ação, que pode levá-lo a ancorar-se novamente na realidade. Alguns artistas esquizofrênicos como Adolf Wolfli conseguiram deslocar o foco de suas alucinações. O artista americano Richard Lachman, nascido em 1928, mostra esse movimento. Seu trabalho The voices never stop foi concebido durante uma aguda crise psicótica.

Podemos imaginar como é, para pessoas como Lachman, ser conduzido por vozes. “No período de internação eu as ouvia me dizendo o que fazer. Quando pintei o quadro, estava tão doente que já não conseguia distingui-las de meu pensamento. Eu me via sob ataques e agressões de pessoas e forças à minha volta.” Mais tarde Lachman contou como lhe foi possível, durante as crises, comunicar algo, e assim se fortalecer psiquicamente deixando a condição de vítima para adquirir alguma autonomia por meio da arte. “Em vez de direcionar os pensamentos para mim mesmo, passei a, de novo, entabular relações com os outros.”

O paciente pode se expressar em um espaço simbólico protegido como sujeito determinado e ativo. O objeto de sua criação ocupa o lugar do outro ou do espelho no qual ele reconhece seu próprio mundo, ainda que desfigurado. Com sua produção artística oferece informações a outras pessoas, mesmo que o universo de conteúdos abstratos, cores e formas com o qual estamos acostumados nem sempre seja compatível com representações mais elaboradas.

A mudança no conceito de arte no século XX permite observar as excentricidades dessas criações, sem considerá-las – ou a seus autores – estritamente sob a óptica da doença. Na expressão da dor, amenizada artisticamente nesses quadros, é possível apreender algo sobre a tragicidade da condição humana em face do insondável abismo da alma: as imagens representam pontes para o mundo do paciente – mesmo que demoremos a reconhecê-las como tal.

TALENTOS BRASILEIROS

Em 1957, durante o Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique, o suíço Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, viu, pela primeira vez, as obras de arte produzidas por pacientes internados em hospitais psiquiátricos no Brasil. O trabalho o surpreendeu. “Fiquei impressionado com a pintura dos brasileiros, pois elas apresentam, no primeiro plano, características habituais da pintura esquizofrênica, mas em outros planos há harmonia de formas e de cores que não é habitual nesse tipo de obra”, comentou. A grande incentivadora da expressão do inconsciente foi a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), fundadora do Museu das Imagens do Inconsciente. Trabalhos dos pacientes psiquiátricos Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) e Adelina Gomes (1916-1984) se destacam. Ela produziu cerca de 17.500 peças, entre quadros e esculturas. Bispo costumava dizer que suas peças eram “uma homenagem aos anjos e à Virgem Maria” e, no dia do juízo final, seriam “apresentados ao Todo-Poderoso”. Sua obra ultrapassou os limites do manicômio e em 1995 foi exposta na Bienal de Veneza.

INTERMINÁVEIS CALENDÁRIOS DA MORTE

Muitos trabalhos do Acervo Prinzhorn revelam conteúdos carregados de racionalidade. É o que mostram as telas do comerciante alemão Heinrich Josef Grebing (1879-1940), impregnadas de conteúdo quase lexical. Grebing foi vítima de psicose aguda que transformou completamente sua vida. Ele reunia informações desesperadamente, produzia listas intermináveis, criava calendários, ordenava colunas de números posteriormente ornamentadas com requinte artístico, como se buscasse um antigo significado para fenômenos, situações e para a própria vida. A atividade tornou-se obsessiva: numa folha de papel coberta com números minúsculos que representavam a contagem de centenas de anos, o surgimento de um erro o levava a cancelar o cálculo, arruinando seu trabalho, reiniciado posteriormente. Além desse, Grebing escreveu calendário mórbido, acreditando que a disposição dos algarismos escondia a numerologia da morte.

Grebing parece revelar a fragilidade do mundo, dos construtos de pensamentos enganosos. Seus trabalhos costumam ser descritos como “obras de arte do engano”. Embora não tenham sido concebidas como contraposição à ameaça de morte e da dissolução egóica, tinham uma função organizadora para o paciente.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.