EU ACHO …

CHECKLIST ELEITORAL

“Um guia de boas práticas pode ajudar eleitores a escolher melhores governantes”

Governar dá trabalho. Para dar certo requer prática, discernimento, experiência e habilidade. Escolher um governante com boa chance de acertar tampouco é tarefa fácil, desde que se dê importância ao ato. Donde o ideal seria que o eleitorado exigisse de si o mesmo e mais um pouco, tendo o preparo da pessoa escolhida como fator determinante numa eleição.

Não tem sido, no entanto, a regra no período de três décadas e meia de redemocratização. Com exceção de Fernando Henrique Cardoso, eleito duas vezes no primeiro turno com base na questão objetiva de gestão, o que temos visto são escolhas referidas em presunções não raro enganosas que no confronto com a realidade mais adiante geraram decepções.

Em 1989 havia 22 opções, entre as quais umas muito boas, outras com certeza bem melhores que o aludido caçador de marajás. Em 2002 deixou-se de lado a continuidade de FH representada por homem (José Serra) de inequívoco preparo em nome da ideia de que Luiz Inácio da Silva seria, afinal, a redenção dos pobres e a salvação do país.

Seguimos na mesma toada nas outras eleições, levando à Presidência a “mulher do Lula”, de novo em detrimento de José Serra, que já havia dado inúmeras demonstrações de competência no ramo de governo, mas era “muito antipático” para nossos padrões de camaradagem. Até que chegamos a Jair Bolsonaro, cujas credenciais serviam no máximo para lhe assegurar lugar no panteão das figuras folclóricas, mas sem atuação consistente em 27 anos de vida no Congresso com destaque meramente caricato.

Diante de tal jornada de escolhas guiadas pelo impressionismo de ocasião, não é de estranhar que o Brasil tenha destronado pela via constitucional dois presidentes e já esteja pensando em impedir um terceiro, no espaço de menos de trinta anos. Isso fala dos mandatários, mas fala, sobretudo, dos respectivos eleitorados.

Não existe uma receita infalível de bom governante, mas existe uma série de atributos a ser observados como uma espécie de checklist para os cidadãos dispostos a almejar a condição de diligente eleitor.

Pensei em algumas dessas características. Deve haver muitas outras que cada um a seu gosto e consciência pode gravar na mente. Colecionar como precioso patrimônio a ser acionado na urna junto com a tecla do nome de sua escolha para governar, pensando numa durabilidade mínima de quatro anos.

Vamos a elas sem juízo de valor sobre a ordem de entrada em cena, porque tudo é importante quando se trata de transferir temporariamente a outrem o destino da nação. Do que é feito um(a) presidente?

1.  De capacidade de liderança.

2. Da aptidão para que seus atos e palavras sirvam de exemplo e, assim, estabelecer um padrão de ação e pensamento.

3. De habilidade para detectar, aplacar e / ou evitar crises.

4. De vocação para promover o entendimento. Vale para o ambiente político e vale para o trato com a sociedade.

5. Da posse de referências humanitárias de vida.

6. De boa compreensão da realidade.

7. Do conhecimento acima do razoável sobre como funciona o mundo.

8. De perfeito discernimento a respeito dos limites entre o público e o privado.

9. De paciência extrema quando necessário, tolerância zero se for preciso e sabedoria para distinguir as duas situações.

10. Da reverência absoluta, religiosa mesmo, à Constituição.

11. De compreensão do peso e do papel de cada uma das Instituições.

12. Das boas maneiras, dos modos lhanos.

13. Do respeito ao uso correto do Idioma nacional.

14. Da compreensão estreita sobre as limitações do poder.

15. Do compromisso inequívoco com o bem-estar coletivo.

16. De astúcia e conhecimentos suficientes para reunir as melhores pessoas na formação de equipes e saber coordená-las.

17. Da serenidade para se conter diante das permissividades do poder.

18. Do talento para inspirar e motivar as pessoas.

19. Da propensão para o exercício da amabilidade combinada com firmeza.

20. Do senso de urgência para as necessidades do público.

21. De coragem para fazer o que é preciso, ainda que ao custo de enfrentamentos à primeira vista impopulares.

22. Da consciência da autoridade inerente ao cargo sem resquício de concessão ao autoritarismo.

23. Do apreço pela transparência.

24. De resistência a pressões indevidas.

24. Da disposição de ceder a demandas pertinentes, ainda que ao custo de recuos.

Desnecessário que o candidato gabarite o teste. Mas inaceitável que não se enquadre em nenhuma das alternativas.

*** DORA KRAMER

OUTROS OLHARES

JOGOS (NADA) INOCENTES

Criança e adolescentes se tornam alvos fáceis de negócio atrás do dinheiro gerado por dados, anúncios publicitários e compra dentro de jogo e aplicativo

Enquanto trabalhava em casa durante a pandemia, em Wilton, Connecticut, na Costa Leste do Estados Unidos, a corretora de imóveis Jessica Johnson, de 41 anos, não percebeu que o mais jovem de seus dois filhos tinha ido às compras em seu iPad. Em julho, o garoto de 6 anos comprou anéis vermelhos a U$ 1,99 e de ouro a U$ 99,99 apena com alguns cliques. Nenhuma das compras era de objeto reais, e, sim, de pacotes adicionais ao jogo Sonic forces que lhe permitiram acessar novos personagens emais velocidade, gastando centenas de dólares de cada vez. Em apenas um dia, a criança chegou a gastar U$ 2.500 (cerca de R$ 13.500). Quando Johnson descobriu que a Apple e o PayPal estavam retirando quantia pesadas de sua conta no Chase, ela chegou a pensar que era uma fraude ou erro. Confusa, ligou para o banco. “A forma como as cobranças são agrupadas tornou quase impossível descobrir que eram de um jogo”, disse ela em entrevista à imprensa americana. No total, o menino gastou US 16 mil (cerca de RS 85 mil).

Os jogos eletrônicos e aplicativos, em geral, são feitos para viciar. O tempo de engajamento é uma das principais métricas da indústria de tecnologia, todo o desenvolvimento é pensado para atrair e manter a atenção dos usuários. Com menor discernimento, crianças e adolescentes se tomam alvos fáceis de negócios atrás do dinheiro gerado por dados, anúncios publicitários e compras. Isso pode comprometer a saúde dos jovens e preocupa pais, responsáveis e o próprio setor, que dá passos em direção à maior proteção desse público. De acordo com a última edição da pesquisa TI Kids Online, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 89% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão conectados, e os smartphones são o principal dispositivo para o acesso à rede, sendo usados por 98% dos jovens internautas.

Em média, dois em cada dez relatam algum tipo de problema relacionado com o uso excessivo, como deixar de comerou dormir ou passar menos tempo com as família e os amigos. “As famílias precisam perceber que crianças e adolescentes não são miniadultos. O cérebro deles está em desenvolvimento”, alertou a pediatra Evelyn Einstein,membro do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade brasileira de |Pediatria (SBP). “Eles não podem passar oito horas por dia conectados, precisam de tempo para outras atividades, para os exercícios físicos”.

Existem leis que regulam a forma como as companhias de tecnologia devem lidar com esse público, principalmente no tocante à privacidade, como a americana Children’s Online Privacy Protection Act (Coppa, Lei de Proteção à Privacidade da Criança, na tradução do inglês), que exige o consentimento dos pais para a coleta de dados de menores de 13 anos. Na Europa, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados também oferece proteção a menores de 16 anos. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) tem um artigo específico e em destaque dado por pelo menos um dos pais ou pelo responsável legal” e que informações sobre o tratamento de dados sejam “fornecidas de maneira simples, clara e acessível, consideradas as características físico-motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, (…) adequada ao entendimento da criança”. A própria Constituição tem artigo que cita como dever da família, da sociedade e do Estado a proteção de crianças e adolescentes. Temos ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral”, ressaltou a advogada Patrícia Peck, especialista em Direito Digital e presidente do Instituto iStart

Mas a privacidade é apenas um dos aspectos dessa indústria. “Os jogos de vídeo games aplicam um método que a gente conhece como persuasão. Começam fáceis, para o jogador se ambientar, depois dão as recompensas, com ponto e itens. Sem perceber, o jogador fica dependente”, destacou Eisenstein, da SBP. O problema é tão grave que transtornos relacionados ao jogo eletrônico foram classificados como doença pela Organização Mundial da Saúde. Para ajudar desenvolvedores, que em geral têm formação em áreas tecnológicas, não em humanas, o Unicef criou um guia para orientar o design de jogos e aplicativos para crianças. “Quando a criança está no centro, temos de tomar alguns cuidados. Desde os mais simples, como o controle parental, até a mecânica e o conteúdo”, explicou Luiza Guerreiro, CEO da Explot, que desenvolve aplicativos infantis. Segundo ela, existe um problema com o modelo conhecido como “freemium”, onde o uso é gratuito, mas há venda de itens dentro do app. “Aplicativo que são oferecidos de graça precisam que os usuários gastem muito tempo ali”.

Esse modelo, muito difundido na indústria, também monetiza os desenvolvedores via publicidade, com excesso de anúncios. Diferente de outros meios, como a televisão, não existe um órgão de autorregulação da propaganda na internet. “Pode acontecer de num aplicativo infantil aparecer um anúncio que não é adequado para aquela faixa etária”, alertou Guerreiro. A desenvolvedora chama a atenção ainda para jogos e aplicativos que não são criados com foco nas crianças, mas acabam endo acessados pela garotada, como as redes sociais. Em geral, elas adotam a idade mínima de 13 anos, mas são usadas por mais jovens. Segundo a TIC Kids Online, 28% das crianças com 9 ou 10 ano e 51% das de 11 e 12 anos fazem uso dessas plataformas. “Não dá para jogar toda a responsabilidade para os desenvolvedores.  É uma via de mão dupla, famílias também precisam assumir sua parte”, disse Guerreiro.

O aplicativo TikTok, que é proibido para menores de 13 anos, vem reforçando sua medida de proteção para menores de idade. No início da configuração-padrão de contas de usuários entre 13 e 15 anos para privada, removeu a publicação de comentários por desconhecidos e proibiu o download de vídeos, publicados por eles. “As novas configurações para as contas definem um patamar mais elevado de segurança para a privacidade dos usuários”, afirmou Tracy Elizabeth, líder global de Política de segurança de menores do TikTok. Por meio desse engajamento dos adolescentes desde cedo na jornada da privacidade, esperamos ajuda-los a tomar decisões mais conscientes sobre sua presença on-line”.

Existe ainda a questão das compras, que dão dor de cabeça para muitos pais. Para maximizar os lucros, as empresas de tecnologia investem tempo e dinheiro para simplificar o processo. A Amazon se tornou referência ao lançar, ainda no século passado, a compra com um clique onde todas as informações de crédito eentrega ficam pré- cadastradas. Hoje, a prática é difundida por toda a indústria, e avançou tanto que o ato de comprar ficou tão simples que pode ser realizado por uma criança.

Foi isso que aconteceu na casa do juiz trabalhista Fábio Câmera Capone, que, em meio à pandemia, deixou seu filho Guilherme, de 4 anos, jogar Roblox em seu console Xbox. ”Ele passou a manhã jogando, paramos para almoçar e voltei a trabalhar, em home office. Quando chequei meu e-mail, vi uma mensagem da Microsoft agradecendo a aquisição de 350 robux, que é a moeda usada no jogo, por R$ 400″, relembrou Capone. “Imediatamente, solicitei o ressarcimento, dizendo que a compra tinha sido feita por engano por uma criança, e a resposta que me deram foi que o cancelamento não era possível por ser um produto consumível.” Ciente de seus direitos, Capone apresentou uma queixa no Procon e publicou seu relato no site Reclame Aqui.

Para Guilherme Farid, chefe de gabinete do Procon- SP, jogos e aplicativos, muitas vezes, não expõem claramente que o cartão cadastrado para uma compra continua habilitado para outras. Além disso, os consumidores têm o direito ao arrependimento. “Crianças e adolescentes não têm condição de realizar uma compra. Não à toa, a empresa tem negociado com os consumidores”, disse Farid. “A Roblox colocou o mercado de games em nosso radar. Trata-se de um setor que precisa ser acompanhado. Além das questões de pagamento, é preciso estar atento a outros pontos, como a publicidade direcionada à criança.”

Alguns dias depois da queixa de Fábio Capone, a Microsoft entrou em contato com o juiz para resolver a questão, com o estorno do valor da compra e a remoção das moedas no jogo: “Se eu não tive acionado o Procon, a resposta dele já tinha sido negativa. Mas eu estava disposto a seguir atrás dos meus direitos, nem tanto pelo valor, mas pela sensação de injustiça”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 15 DE FEVEREIRO

NÃO SEJA AVALISTA, ISTO É PERIGOSO

Quem fica por fiador de outrem sofrerá males, mas o que foge de o ser estará seguro (Provérbios 11.15).

O fiador é aquele que dá garantias de que o devedor irá cumprir sua palavra e pagar suas dívidas; caso contrário, ele mesmo arcará com esse ônus. O fiador empenha sua palavra, sua honra e seus bens, garantindo ao credor que o devedor saldará seus compromissos a tempo e a hora. O fiador fica, assim, obrigado, mediante a lei, a pagar em lugar do devedor caso este não cumpra seu compromisso. Multiplicam-se os exemplos dos muitos sofrimentos e prejuízos sofridos pelos fiadores. Há pessoas que perdem tudo o que granjearam com seu trabalho honrado para pagar as dívidas dos outros. Não poucos, de boa-fé, ficaram por fiadores de gente desonesta e acabaram pobres e desamparados. A Bíblia nos alerta a fugir dessa prática. Quem foge de ser fiador estará seguro. Não temos a responsabilidade de financiar a irresponsabilidade dos outros. Não podemos comprometer o sustento e a estabilidade financeira da nossa família para assegurar os negócios arriscados daqueles que nos pedem um aval. Fuja de ser avalista. Esse é um caminho escorregadio, e o fim dessa linha é o desgosto.

GESTÃO E CARREIRA

A CRISE DOS ESTAGIÁRIOS

A taxa de desemprego entre os jovens é de 31% – o dobro do índice geral. Por trás disso, temos uma tempestade per feita, que junta economia débil, pandemia e mudanças na estrutura do mercado de trabalho. Entenda.

O Brasil atingiu a sua maior taxa de desemprego na história. Você já sabe: são 14 milhões de pessoas que buscam trabalho e não encontram – o que dá 14,3% da população economicamente ativa no terceiro trimestre. O número assusta, mas tem um outro, tão preocupante quanto: o do desemprego entre jovens. Segundo o IBGE, 31% das pessoas entre 18 e 24 anos estão procurando um emprego para chamar de seu, e dando com a cara na porta. Ou seja: essa é a situação de um a cada três jovens – contra uma proporção de um a cada sete na média geral. Trata-se da maior já registrada. Um recorde que ninguém gostaria de bater.

Dados do CIEE mostram que os primeiros meses da pandemia foram os mais difíceis. Em abril, a contratação de estagiários caiu 83%. E, mesmo com um aumento gradual das ofertas de emprego, a realidade ainda está longe do patamar de 2019. Entre janeiro e outubro, foram 38% de contratações a menos.

Além da seca de novas contratações, houve a tempestade de demissões. Foi o que aconteceu com Carolina Santos, de 26 anos. A estudante de Administração estava há um ano e dez meses estagiando em uma empresa alimentícia em São Paulo quando recebeu, em setembro, a notícia de que seria demitida por conta de um corte de custos. “Isso me deixou em uma saia justa, porque o trabalho estava fluindo, eu estava aprendendo coisas de outras áreas e seria efetivada em poucos meses. A demissão veio do nada, no meio de uma crise, e preciso trabalhar para pagar a faculdade.”

Nos últimos meses, Carolina já participou de cinco processos seletivos e não conseguiu passar em nenhum. O motivo é que ela se forma no primeiro semestre de 2021 e as empresas não querem contratar – um problema comum entre alunos em fim de curso.  “Teriam que me demitir ou me efetivar com pouco tempo de emprego. Nas vagas CLT, querem que eu esteja formada e que tenha experiência, mas, para conseguir experiência, preciso trabalhar. Caí nesse ciclo sem fim.”

Wemerson Parreiras, de 21 anos também está em uma corrida contra o tempo. O mineiro nascido em Betim, estuda Engenharia de Produção e já trabalha como estagiário em uma empresa que fornece equipamentos industriais ”É o meu primeiro estágio. Demorei para conseguir porque não tinha experiência, e as companhias sempre pedem isso. Fiz vários processos seletivos até conseguir passar nesse. Concorri com outros 300 candidatos.”

O problema é que o contrato de Wemerson termina em fevereiro. Ele já precisava ter outro emprego na agulha, mas, até agora, nada. “Se antes da pandemia já estava difícil, agora está dez vezes pior.”

PRECARIZAÇÃO

75% dos estagiários contribuem com o orçamento familiar, segundo um levantamento da Companhia de Estágios, uma empresa de recursos humanos especializada na área. E estamos falando daquele salário magrinho de estagiário, claro: 53% recebem até um salário mínimo. A pandemia pressionou ainda mais a parte financeira, já que os pais desses jovens também perderam o emprego ou sofreram redução salarial. “Procurar um estágio para complementar a renda não chega a ser uma situação grave, mas acende um sinal amarelo. Ele vai deixar de fazer um curso ou comprar um livro para contribuir com arroz e feijão. E o foco do estágio não deveria ser esse, e sim a busca por experiência para complementar a formação”, diz Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios. O estudo ainda apresenta um agravante: o aumento do número de estagiários que trabalham praticamente de graça, sem receber bolsa-auxílio. O salto foi de 4% em 2019 para 10%. Acontece o seguinte: a Lei de Estágio determina dois tipos de atividade, a obrigatória e a facultativa. No primeiro caso, o estágio faz parte da grade curricular; ou seja, o estudante precisa estagiar para receber o diploma. Por causa disso, as empresas não precisam pagar salário – se precisassem, a obtenção do diploma estaria condicionada às flutuações do mercado de trabalho. Essa modalidade é comum nos cursos da área da saúde, além de Pedagogia e em licenciaturas (Letras, História, Matemática e outros que capacitam o formando a dar aulas).

No caso do estágio não obrigatório, a lei prevê o pagamento de auxílio-transporte, seguro contra acidentes pessoais, férias remuneradas e bolsa-auxílio ou “outra forma de contraprestação”. Aí é que está a pegadinha. Essa contraprestação pode ser, por exemplo, o pagamento da mensalidade da faculdade ou de algum curso.

A alta registrada na pesquisa não está relacionada ao aumento no número de estudantes em cursos que exigem o estágio. Vamos aos fatos. A quantia de alunos que ingressam em cursos de bacharelado é maior que os de licenciatura. De acordo com o lnep, em 2019, 66% dos universitários eram de bacharelado, contra 19,7% de licenciatura e 14,3% de tecnólogos. Os dados de 2020 ainda não foram divulgados, mas é improvável uma mudança nesse cenário, já que essa proporção se mantém desde 2009.

Além disso, dos dez cursos que mais formaram profissionais, só quatro fazem parte dos que exigem o estágio obrigatório (Pedagogia, Enfermagem, Psicologia e Educação Física com formação de professor), e eles somam 233 mil dos 1,2 milhão de universitários que vestiram a beca em 2019.

Por fim, os dados históricos do levantamento da Companhia de Estágios registravam uma queda de estagiários sem bolsa-auxílio antes da crise: de 17% (em 2016 e 2017) para 6% (2018) e depois 4% (2019). Com a pandemia, a prática voltou a crescer, e agora um em cada dez estagiários trabalha sem ser remunerado basicamente pela esperança de que surja uma vaga CLT até o final do contrato.

Como toda essa precarização, a taxa de inadimplência nas faculdades tem aumentado, idem para o número de jovens que desistem da universidade. Segundo dados do Sindicato de Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino Superior, a quantidade de alunos que deixaram de pagar mensalidades aumentou 30% no primeiro semestre de 2020. Já a evasão universitária subiu 14% – 423 mil alunos trancaram seus cursos.

NEM ESTUDA, NEM TRABALHA

A dificuldade para os mais jovens é um clássico do mercado de trabalho. No primeiro trimestre de 2012, a taxa de desemprego no grupo de 18 a 24 anos era de 16,4%, enquanto a média nacional estava em 7,9%.

A falta de emprego deu um salto em 2015, por conta da recessão iniciada no ano anterior. A distância entre a taxa geral e a dos mais jovens aumentou, e seguiu crescendo desde então.

“A ausência de um crescimento econômico expressivo nos últimos anos impede que as empresas absorvam todos os jovens que estão entrando no mercado. Não tem espaço. Além disso, os profissionais mais velhos estão se aposentando cada vez mais tarde, porque o valor pago pelo INSS não é suficiente para se manter”, afirma Marcelo Gallo, superintendente nacional de operações do CIEE.

Tem mais. Com as empresas sem dinheiro, é cada vez mais comum esticar os contratos de estágio até não poder mais. A companhia pede para o estagiário adiar a entrega do TCC, por exemplo, para poder continuar contando com a mão de obra barata por mais tempo.

Os cenários que vimos aqui têm a ver com baixo crescimento econômico. Se o PIB voltar a crescer com alguma força, tudo muda de figura. Mas há outra questão, que parece mesmo ser um caminho sem volta: o mercado de trabalho passa por uma mudança drástica no mundo todo. A ascensão dos robôs deixou de ser ficção científica, e tem destruído vagas menos qualificadas, justamente aquelas que são ocupadas pelos mais jovens (e pelos mais pobres, mas aí é outra história, ainda mais complexa). O telemarketing, por exemplo, sempre foi uma porta de entrada para quem não tinha experiência e precisava de emprego. Nos últimos anos, porém, o número de vagas na área diminuiu brutalmente por conta dos sistemas de inteligência artificial, que fazem o trabalho sozinhos sem pedir salário em troca.

Nisso, cada vez mais jovens ficam na mão, no mundo todo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que o número de jovens que não trabalham nem estudam – os famosos “nem-nem” – chegue a 273 milhões de pessoas em 2021 (eram 259 milhões em 2016).

O presidente da Associação Brasileira de Estágios (Abres), Carlos Henrique Mencaci, ressalta que a baixa escolaridade agrava a situação do Brasil. “A gente tem um problema na qualidade da educação básica que dificulta a entrada no ensino superior. No final, isso afeta a empregabilidade e o salário. E, se formos analisar a vida desse jovem como um todo, vai interferir na renda familiar, moradia, estudo e saúde dos filhos.”

De fato, apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos têm diploma universitário, de acordo com a OCDE. É a média mais baixa entre as nações analisadas na América Latina. A Argentina lidera o ranking, com 40%. Depois vêm Chile (34%), Colômbia (29%) e Costa Rica (28%). Além disso, o IBGE identificou que a escolaridade dos pais é decisiva na vida acadêmica dos filhos. 69% das pessoas cujos pais fizeram faculdade seguiram o mesmo caminho. Já entre aqueles cujos pais não estudaram, apenas 4,6% terminam um curso superior.

DESALENTO

“Se ninguém contrata, então porque mandar currículo?” É isso que uma parte dos jovens tem pensado. Dados do IBGE mostram que o número de desalentados, ou seja, daqueles que desistiram de buscar por uma vaga e nem como desempregados contam mais, triplicou entre 2014 e 2018, chegando a 1,7 milhão de jovens. Além disso, a pesquisa da Companhia de Estágios identificou que a maioria dos candidatos de até 24 anos não é chamada para uma entrevista de emprego desde 2018 (56% no caso dos estagiários e 61% dos formados). E, quando parecia que não tinha mais para onde piorar, veio a pandemia. O IPEA estima que 30% dos jovens que ainda mantinham a esperança acesa deixaram de procurar emprego em 2020.

Lorena Ávila, de 23 anos, faz parte do grupo que está sem trabalho há mais de um ano. Nascida em Santo André (SP), ela se formou em Jornalismo em dezembro de 2019, mas não consegue se recolocar no mercado desde julho do mesmo ano. “Comecei a estagiar em 2018 na agência-escola da faculdade e depois passei seis meses em um jornal do ABC paulista. Mando currículo todos os dias, de domingo a domingo, mas a maioria nem responde.”

O desemprego é só um dos problemas. Lorena também está sentindo na pele a crise econômica causada pela Covid-19. Seus estágios não eram remunerados. Como tinha bolsa de estudos e a família estava com as finanças em dia, ela guardava o pouco dinheiro que recebia de alguns trabalhos freelancers e do auxílio-transporte – chegou a juntar RS 3 mil. Acontece que os pais dela tinham duas lanchonetes e um restaurante, e com o isolamento social os negócios encolheram para uma lanchonete só. Lorena usou o dinheiro para ajudar nos negócios. “Você não consegue um emprego e começa a ver o tempo passar. A parte mais difícil de lidar é a emocional.”

MENOS LIVROS, MAIS CONTAS

Dos jovens que conseguem entrar no mercado de trabalho, a grande maioria precisa ajudar nas contas de casa.

O ELO MAIS FRACO

A taxa de desemprego entre os jovens sempre foi mais alta do que em outras faixas etárias. E o indicador disparou a partir de 2015.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ARTES DA LOUCURA

Obras produzidas por pessoas com transtornos mentais podem estabelecer comunicação entre o universo psíquico e o mundo exterior

A proximidade entre arte, genialidade e doenças psiquiátricas tem exercido, ao longo dos séculos, verdadeiro fascínio sobre cientistas. Já na Antiguidade, o filósofo grego Platão qualificou mania – a “exaltação da alma”- como presente dos deuses a artistas e poetas. No diálogo Fedro, ele escreveu: “Ora, toda grandeza se dá no âmbito da loucura”. Mais de 2 mil anos depois, em 1811, o médico americano Benjamin Rush (1745-1813) observou algo bem parecido acerca da força criativa do “enlouquecimento”: “Mediante uma exaltação sobrenatural, a porção do cérebro livre da manifestação atinge um patamar de consciência capaz de revelar dons até então ocultos”.

Rush comparou a esquizofrenia a um terremoto que desloca placas tectônicas do “espírito civilizado” e libera um potencial submerso equivalente a fósseis valiosos. Essa perspectiva romântica da doença mental ressurge com frequência no pensamento científico. Não se trata, entretanto, de fixar correlações entre criação artística e esquizofrenia: a doença, em si, não faz de ninguém um artista. Trata-se de reconhecer características peculiares nas obras e perceber o que talvez seja uma luta desesperada para reencontrar o self perdido e sua antiga constituição. Para essas pessoas pode ser mais confortável buscar, em vez de na vida real, a identidade no universo hermético da obra de arte. O paciente esquizofrênico parece recobrar, mediante a criação plástica, um momento inestimável de sua liberdade de ação.

No fim do século XIX, o psiquiatra e antropólogo italiano Cesare Lombroso (1835-1909) popularizou a visão romântica das relações entre arte e doenças mentais. Em seu trabalho Gênio e loucura, de 1888, ele analisou importantes pintores e escritores de seu tempo e encontrou sinais de “vulnerabilidade psíquica” relacionada a aspectos genéticos. Ele parecia influenciado pela teoria psiquiátrica da degenerescência, em voga na época, segundo a qual a humanidade estaria sujeita à decadência hereditária. Cinquenta anos depois, os nazistas retomaram as concepções de Lombroso, sobre as quais impuseram seu próprio viés. Na célebre exposição itinerante Arte degenerada (1937-1941), foram mostrados trabalhos de doentes mentais ao lado de obras de artistas contemporâneos, com o intuito de reduzir produções modernas à condição de “doentias” e “desvirtuadas”. Ao mesmo tempo, pintores surrealistas enalteciam os trabalhos de portadores de distúrbios psíquicos como criações revolucionárias, anti racionais, expressões do inconsciente livre de amarras.

Há, de fato, intersecção entre criatividade artística e doenças psíquicas. O pintor alemão Friedrich Schrõder­Sonnenstern (1892-1982) iniciou sua produção logo após manifestação de distúrbio mental. O poeta, pintor e compositor suíço Adolf Wõlfli (1864-1930) criou seu próprio vocabulário e um sistema numérico, além de uma espécie de mitologia particular. Já o holandês Vincent van Gogh (1853-1890) pintava antes do surgimento da psicose. Outros pintores como o norueguês Edvard Munch (1862-1944) e o suíço Louis Soutter (1871-1942) também são conhecidos por seu histórico de distúrbios mentais. Acreditamos que, na maioria dos casos, um artista não cria grandes obras em virtude de seus transtornos psíquicos, mas apesar deles.

ESTILO ORIGINAL

A psicose, entretanto, parece operar uma transformação na forma de expressão e no estilo. Talvez por isso Van Gogh tenha pintado suas telas mais importantes nos primeiros quatro anos e meio a contar da manifestação da doença. Também Munch criou muitos de seus trabalhos mais conhecidos por volta de 1895, durante severas crises de depressão e abuso de álcool. Evidentemente, nem todos os artistas com transtornos mentais se tornam célebres. A imensa maioria permanece no anonimato, em arquivos de instituições. Uma coleção bastante conhecida de criações de artistas esquizofrênicos leva o nome do psiquiatra e historiador da arte alemão Hans Prinzhorn 11886-1933). Em 1919 ele encarregou o então diretor da clínica psiquiátrica de Heidelberg, o médico Karl Wilmanns (1873-1945), de organizar um “museu para a arte patológica”, com a produção plástica de doentes mentais. Três anos depois Prinzhorn deixou Heidelberg e os planos não se concretizaram. O projeto possibilitou, entretanto, reunir produções de diversos estabelecimentos psiquiátricos, inclusive de fora da Alemanha. Entre 1885 e 1925, foram selecionados cerca de 5 mil trabalhos de aproximadamente 450 internos. Sem influência de medicamentos antipsicóticos, inexistentes na época, essas obras revelam características peculiares, ao mesmo tempo universais e singulares. São desenhos ou guaches, pinturas a óleo, trabalhos com fiação e tecidos, colagens e esculturas de madeira. Os pacientes improvisaram cores e formas usando materiais à sua disposição no hospital: folhas de papel ofício, calendários, formulários, jornais ou papel higiênico. Surgiu daquele material uma profusão de cores em obras de arte providas de certa engenhosidade e, é preciso reconhecer, ímpares. Com essa produção, Prinzhorn organizou o livro Expressões da loucura (1922), considerado referência no estudo da relação entre distúrbios psíquicos e arte. O psiquiatra analisou e classificou as obras segundo sinais figurativos característicos, de simples rabiscos a exemplares simbolicamente bastante complexos. Em dez peças escolhidas na coleção, ele conseguiu relacionar a obra à história de vida do autor, resgatando a individualidade dos pacientes. Como o processo de criação era voluntário e não precedido de preparação, restava saber o que impelia os portadores de transtornos psíquicos a expressar-se daquela forma. Prinzhorn acreditava que cada pessoa contém em si um ímpeto criador, escondido sob o processo civilizatório. A esquizofrenia possibilitava a expressão desse impulso, mesmo em indivíduos sem nenhum conhecimento artístico.

Era precisamente essa a concepção de artistas de vanguarda. Criações muitas vezes excêntricas e grotescas eram, para eles, formas originais da expressão figurativa, comparáveis à arte produzida por crianças ou povos primitivos. Com essa forma de interpretação, o desenhista e escritor austríaco Alfred Kubin (1877-1959) visitou o acervo de Heidelberg e redigiu um relatório surpreendente a respeito da coleção. O trabalho de Prinzhorn acabou influenciando também Salvador Dalí, Paul Klee, Max Ernst e Pablo Picasso, entre outros representantes do surrealismo europeu. A história posterior do acervo reflete mudanças culturais do século passado. Numerosas exposições foram organizadas até 1933, quando os nazistas passaram a usar as obras como propaganda ideológica. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a coleção caiu no esquecimento e somente na década de 60 voltaram a ser realizadas algumas pequenas mostras do acervo. No início dos anos 80, a médica lnge Jádi, da clínica psiquiátrica da Universidade de Heidelberg, submeteu as obras a processo científico de catalogação e conservação, preparando-as para apresentações em Londres, Lisboa e Nova York. Em setembro de 2001 a coleção foi reunida na exposição permanente Visão de Wilmanns, em Heidelberg, para inauguração do Acervo Prinzon.

EXPRESSÃO INCONSCIENTE

O símbolo oficial da coleção é uma tela de Josef Forster (1878-?), paciente da clínica Regensburg. A obra, produzida em 1916, traz a forma delicada de um homem sustentado por longas pernas de pau com pesos em suas extremidades. Distante do chão, ele se equilibra sobre muletas, parecendo flutuar. Seu rosto está coberto por um tecido, como máscara ou mordaça. No canto superior direito da gravura, Forster escreve: “Temos aqui algo a representar uma pessoa já sem o peso incômodo de seu corpo; ela pode, nessa medida, com mais velocidade mover-se pelo ar”. De fato, a tela mostra uma pessoa que parece já não sentir o próprio corpo, não tem o chão firme sob os pés e busca se conceder, pela arte, um peso que, de outro modo, já não experimenta; talvez a enfermidade tenha lhe roubado a capacidade natural de comunicar-se. O paciente empreende sua busca “sobre pernas de pau”, sem contato com as pessoas: é o modo como encontra o seu caminho. Mesmo assim expressa possibilidade de alegria: capacidade de criar é, assim, “se locomover pelo ar a grande velocidade. O psiquiatra suíço Ludwig Binswarger (1881-1966) descreveu esse traço como maneirismo ou extravagância. Segundo seus estudos, falta “aderência ao esquizofrênico, que teria perdido o chão de sua existência e o contato com os outros; por isso precisaria do auxílio da arte solitária. Binswanger complementou sua análise com a declaração de um de seus pacientes: “Sou lançado ao mundo preso apenas por uma linha: a qualquer momento esse fio pode ser cortado e eu irei embora de vez”.

As possibilidades de expressão dos portadores de transtornos mentais transcendem o ímpeto constitutivo desordenado. Os esquizofrênicos são com frequência inundados por associações e sensações expressas de maneira intensa – um processo difícil de ser descrito com precisão. Abre-se, assim, para o doente, um mundo individual e peculiar, onde ele pode dar forma e organizar vivências inominadas e, para ele, ameaçadoras.

CONTRA ALUCINAÇÕES

Pintar ou desenhar significa a possibilidade de imputar, a esquemas internos, uma forma concreta, visível. O paciente pode atribuir, à imagem por ele criada, a leveza que não encontra a realidade. Se o esquizofrênico é condenado à passividade ante suas vivências psicóticas, ele confere à sua criatividade plástica uma experiência de “efeito-resposta”. O esquema interno é sucedido pela ação, que pode levá-lo a ancorar-se novamente na realidade. Alguns artistas esquizofrênicos como Adolf Wolfli conseguiram deslocar o foco de suas alucinações. O artista americano Richard Lachman, nascido em 1928, mostra esse movimento. Seu trabalho The voices never stop foi concebido durante uma aguda crise psicótica.

Podemos imaginar como é, para pessoas como Lachman, ser conduzido por vozes. “No período de internação eu as ouvia me dizendo o que fazer. Quando pintei o quadro, estava tão doente que já não conseguia distingui-las de meu pensamento. Eu me via sob ataques e agressões de pessoas e forças à minha volta.” Mais tarde Lachman contou como lhe foi possível, durante as crises, comunicar algo, e assim se fortalecer psiquicamente deixando a condição de vítima para adquirir alguma autonomia por meio da arte. “Em vez de direcionar os pensamentos para mim mesmo, passei a, de novo, entabular relações com os outros.”

O paciente pode se expressar em um espaço simbólico protegido como sujeito determinado e ativo. O objeto de sua criação ocupa o lugar do outro ou do espelho no qual ele reconhece seu próprio mundo, ainda que desfigurado. Com sua produção artística oferece informações a outras pessoas, mesmo que o universo de conteúdos abstratos, cores e formas com o qual estamos acostumados nem sempre seja compatível com representações mais elaboradas.

A mudança no conceito de arte no século XX permite observar as excentricidades dessas criações, sem considerá-las – ou a seus autores – estritamente sob a óptica da doença. Na expressão da dor, amenizada artisticamente nesses quadros, é possível apreender algo sobre a tragicidade da condição humana em face do insondável abismo da alma: as imagens representam pontes para o mundo do paciente – mesmo que demoremos a reconhecê-las como tal.

TALENTOS BRASILEIROS

Em 1957, durante o Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique, o suíço Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, viu, pela primeira vez, as obras de arte produzidas por pacientes internados em hospitais psiquiátricos no Brasil. O trabalho o surpreendeu. “Fiquei impressionado com a pintura dos brasileiros, pois elas apresentam, no primeiro plano, características habituais da pintura esquizofrênica, mas em outros planos há harmonia de formas e de cores que não é habitual nesse tipo de obra”, comentou. A grande incentivadora da expressão do inconsciente foi a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), fundadora do Museu das Imagens do Inconsciente. Trabalhos dos pacientes psiquiátricos Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) e Adelina Gomes (1916-1984) se destacam. Ela produziu cerca de 17.500 peças, entre quadros e esculturas. Bispo costumava dizer que suas peças eram “uma homenagem aos anjos e à Virgem Maria” e, no dia do juízo final, seriam “apresentados ao Todo-Poderoso”. Sua obra ultrapassou os limites do manicômio e em 1995 foi exposta na Bienal de Veneza.

INTERMINÁVEIS CALENDÁRIOS DA MORTE

Muitos trabalhos do Acervo Prinzhorn revelam conteúdos carregados de racionalidade. É o que mostram as telas do comerciante alemão Heinrich Josef Grebing (1879-1940), impregnadas de conteúdo quase lexical. Grebing foi vítima de psicose aguda que transformou completamente sua vida. Ele reunia informações desesperadamente, produzia listas intermináveis, criava calendários, ordenava colunas de números posteriormente ornamentadas com requinte artístico, como se buscasse um antigo significado para fenômenos, situações e para a própria vida. A atividade tornou-se obsessiva: numa folha de papel coberta com números minúsculos que representavam a contagem de centenas de anos, o surgimento de um erro o levava a cancelar o cálculo, arruinando seu trabalho, reiniciado posteriormente. Além desse, Grebing escreveu calendário mórbido, acreditando que a disposição dos algarismos escondia a numerologia da morte.

Grebing parece revelar a fragilidade do mundo, dos construtos de pensamentos enganosos. Seus trabalhos costumam ser descritos como “obras de arte do engano”. Embora não tenham sido concebidas como contraposição à ameaça de morte e da dissolução egóica, tinham uma função organizadora para o paciente.