A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MUNDO PELA METADE

Transtorno de atenção pouco comum, causado por lesões no lado direito do cérebro, faz com que pacientes ignorem uma parte daquilo que vem – e só se deem conta disso quando alguém lhes chama a atenção

Uma paciente, que chamaremos aqui de S., sofreu recentemente um acidente vascular cerebral que danificou seu lobo parietal direito sem afetar outras partes de seu cérebro. O lado esquerdo de seu corpo – controlado pelo hemisfério direito – ficou paralisado. Mentalmente ela continuava saudável, falante e inteligente como antes do derrame. Entretanto, seu pai observou sintomas perturbadores que, estranhamente, não eram percebidos pela própria paciente. Ao tentar se movimentar por um cômodo em sua cadeira de rodas, por exemplo, algumas vezes colidia com objetos à sua esquerda. Testes posteriores confirmaram que ela era indiferente a objetos e eventos à sua esquerda, embora não fosse cega para eles, pois se prestasse atenção conseguia vê-los. Seus olhos estavam normais, o problema era prestar atenção a esse lado. Durante as refeições, comia apenas a comida que estava à direita do prato, ignorando a porção à esquerda. Porém, se chamassem sua atenção, conseguia enxergar, reconhecer e pegar os alimentos. Esse déficit indica que ela sofre de heminegligência (ou apenas, negligência), uma desordem que pode ocorrer de forma isolada, sem paralisia significativa.

Como tais perturbações da percepção ocorrem? A negligência é, fundamentalmente, um transtorno de atenção. Embora o cérebro humano possua cerca de 100 bilhões de neurônios, somente um pequeno grupo deles pode estar ativo a cada momento, criando padrões significativos, e esse limite resulta em um gargalo de atenção. É por isso que você consegue enxergar um pato ou um coelho na imagem (a). Isso também explica porque, ao dirigir, você não fica conscientemente alerta das coisas que ocorrem à sua volta, enquanto foca em um pedestre à sua frente. Neste cenário, a síndrome neurológica da negligência é, na verdade, uma versão exagerada da negligência sensorial que, em algum momento, todos apresentamos, para evitar uma sobrecarga sensorial.

PARA COMPENSAR

Para entender a situação, precisamos considerar alguns aspectos anatômicos. As informações visuais coletadas pela retina são enviadas pelo nervo ótico e divergem em dois caminhos paralelos chamados o “novo” e o “velho”, de acordo com sua evolução. O primeiro ramo, também chamado de “onde”, projeta-se para dentro do lobo parietal e está envolvido na orientação e localização das coisas ao redor. O segundo se projeta para o córtex visual, e a partir daí emergem dois novos ramos, chamados “o que” e “como”, que se projetam, respectivamente, para os lobos temporais e parietais. O caminho “o que” está envolvido em reconhecimento e identificação de objetos, enquanto o “como” direciona de que modo devemos interagir com eles. As opções “como” e “onde” convergem para o córtex parietal e são funcionalmente relacionadas – você deve processar tanto o local onde a cadeira está como o movimento para desviar dela. S. apresentou danos no ramo responsável pelo “como”, localizado no hemisfério direito, e, deste modo, ignora tudo que está à sua esquerda.

Curiosamente, a negligência só é vista em pacientes com danos no hemisfério direito do cérebro. Porque prejuízos no lado esquerdo não resultam em negligência da parte direita do mundo? O neurologista Marcel Mesulam, da Universidade Harvard, propôs uma explicação engenhosa: o hemisfério direito, que possui mais recursos de atenção e um papel proeminente na visão espacial, pode pesquisar toda a cena, nos campos direito e esquerdo, simultaneamente. O parietal esquerdo, em contrapartida, só consegue cuidar do lado esquerdo. Então, quando o esquerdo está danificado, o direito pode compensar. Mas se o parietal direito for o prejudicado, o campo visual esquerdo não vai receber atenção, e ocorre a negligência unilateral. É bastante fácil diagnosticar esse transtorno – o paciente tende a olhar para o lado direito constantemente e não procura, espontaneamente, o esquerdo, mesmo se uma pessoa estiver se aproximando nessa direção. Ao tentar acompanhar algo indo da direita para a esquerda, o indivíduo perde o objeto no meio do caminho – não consegue segui-lo quando ele estiver à esquerda do seu nariz. Uma paciente aplica maquiagem apenas no lado direito do rosto. Um homem só, barbeia meio queixo. Ou podem escovar, os dentes apenas do lado direito.

Também é possível diagnosticar negligência com alguns testes simples. Peça para o indivíduo desenhar, de cabeça, uma flor ou outro objeto qualquer, e ele irá desenhar apenas metade (b), na página seguinte. Estranhamente, esse efeito “desenho pela metade” é verdadeiro mesmo que a pessoa trabalhe com os olhos fechados, o que mostra que o paciente está negligenciando a parte esquerda do objeto que se forma em sua mente. Quando pedimos para que o paciente desenhe um relógio, ele apenas desenhará metade. O círculo será traçado completamente, em parte, por ser uma resposta “balística ” já aprendida, que não exige atenção focal. Mas os números estarão todos na metade direita do relógio (c), ou inseridos apenas de 1 a 6. Peça para que o paciente divida uma linha ao meio. Seu corte estará muito fora do centro, para a direita, porque estará dividindo ao meio apenas a parte direita.

Poderíamos concluir que, se a linha fosse movida inteiramente para o lado direito (não negligenciado), poderia dividi-la corretamente. Mas não conseguirá. Mesmo que seu prato seja inteiramente posicionado em seu campo visual direito, a pessoa continuará a comer apenas a parte da comida que está na metade direita. Ou seja: além de negligenciar o lado esquerdo do mundo, o paciente também ignora o lado esquerdo de objetos, mesmo quando colocados totalmente à sua direita.

SEM HESITAÇÃO

Não existe uma linha dividindo ao meio o campo visual, separando a esquerda afetada da direita não negligenciada. Em vez disso, devemos pensar em um gradiente de negligência. O efeito do dano no lobo parietal é diferente do visto quando há prejuízo no córtex visual. Nesse caso, o resultado é um limite preciso entre a região cega, à esquerda, e a região intacta, à direita de seu campo visual. E, obviamente, pacientes com danos no córtex visual não podem enxergar objetos à sua esquerda, mesmo quando forçados a prestar atenção na área cega. E também não enxergam melhor o lado afetado do que veem atrás de sua cabeça.

Um aspecto curioso da negligência é que o paciente não tem ciência dela. Ele negligencia sua negligência. Em alguns pontos pode perceber, vagamente, que há algo errado, e dizer que precisa de óculos. O desligamento de S. para sua condição sugere ainda que o que apresenta não é meramente um defeito sensorial nas informações visuais que entram por seu lado esquerdo, nem apenas uma falha em dar atenção a esse lado. Em vez disso, devemos pensar em uma aniquilação do lado esquerdo do universo. Para ela, a esquerda simplesmente parou de existir. Talvez até mesmo tenha problemas com ideias abstratas que envolvem a palavra “esquerda”, mas não testamos ainda essa ideia.

Extraordinariamente, esses pacientes podem não ter consciência da paralisia de seu braço esquerdo, uma condição chamada de anosognosia. Quando pedimos a S. que tocasse o nariz com sua mão direita não paralisada, ela prontamente conseguiu. Quando perguntamos se ela conseguia mover a mão esquerda, ela respondeu: “Sim, posso movê-la bem”. Mas, ao pedirmos para ela tocar seu nariz com a mão esquerda, ela agarrou a mão sem vida com a direita e levantou-a na direção do nariz, usando uma ferramenta para levantar a mão paralisada. Claramente, mesmo que a pessoa consciente não soubesse da paralisia no braço esquerdo, alguma parte de seu cérebro saberia. Por que outra razão ela iria, sem hesitação, agarrar o braço e movê-lo em direção ao nariz?

O humor inadvertido de sua resposta estava perdido nela. É importante ficar claro que, em todos os outros aspectos, S. era completamente lúcida, inteligente e articula da. As implicações totais da negligência foram trazidas a nós mais vividamente quando penduramos um espelho de 6,5m x 6,5m na parede à sua direita. Quando ela virou a cabeça para a direita para se olhar, viu sua face e, é claro, reflexos dos objetos à sua esquerda, que ela estava negligenciando, e sabia que estava vendo seu rosto refletido. Nossa pergunta, entretanto, era: iria o espelho “corrigir” sua negligência deixando óbvio que havia um mundo inteiro do lado esquerdo que ela estava ignorando? Pedimos a um estudante para segurar uma caneta à esquerda de S., de forma que ela pudesse ver o reflexo do objeto à sua direita no espelho – e ela disse que o via. Quando pedimos para que pegasse essa caneta para escrever seu nome em um bloco que estava no seu colo, ficamos chocados ao vê-la ir em direção ao espelho para tentar pegar o reflexo. Perguntamos onde estava a caneta, e obtivemos uma resposta frustrante: “A caneta está dentro do maldito espelho”. Em outras ocasiões, tentou alcançar o objeto atrás do espelho, e tateou insistindo que “a caneta estava atrás do espelho”. Era como se seu cérebro estivesse dizendo “este é um reflexo no espelho, então a caneta deve estar à minha esquerda, mas como esse lado não existe no meu universo, ela deve estar dentro do espelho. Essa é a única solução para o problema”.

ESPERANÇA DE RECUPERAÇÃO

O que é surpreendente é a resistência da ilusão à correção intelectual. Seu alto grau de conhecimento sobre espelhos e o que eles fazem não pôde corrigir seu comportamento, mesmo depois de falhar consecutivamente ao tentar pegar a caneta. Na verdade, é o oposto: seu conhecimento sobre ótica de espelhos foi distorcido, para acomodar o estranho mundo sensorial no qual está presa (de forma a racionalizar sua ação dizendo “a caneta está dentro do maldito espelho, doutor”). Nós apelidamos esse novo transtorno (ou sinal) neurológico de agnosia do espelho.

A agnosia do espelho, provavelmente, não é um déficit restrito aos espelhos. Na verdade, já vimos pacientes se recuperarem temporariamente da negligência (por meio da irrigação do ouvido com água gelada), mas continuarem tentando pegar a caneta no espelho. Devemos considerar essa característica como manifestação específica – se não dramática – de uma desordem mais genérica: uma inabilidade para lidar com relações especiais mais complexas, causada por dano parietal direito. O reconhecimento de uma imagem no espelho como uma figura de fato, requer uma representação dupla peculiar cerebral. Com um lobo parietal danificado, o cérebro de S. não pode lidar com essa justaposição peculiar. Até mesmo uma criança de quatro anos e um orangotango, raramente confundem a imagem de uma banana no espelho com um objeto real, mas S., mais velha e mais sábia, confunde, mesmo com toda a sua experiência de vida com espelhos.

A negligência é um problema clínico extremamente frustrante para os terapeutas que tentam reeducar os pacientes para voltar a usar o braço paralisado durante as primeiras semanas após o derrame. A indiferença do indivíduo quanto ao lado esquerdo se toma um impedimento para a terapia.

Descobrimos que, com esforços repetidos, S. começaria a procurar a caneta do lado esquerdo, mas se voltássemos depois de algumas horas, a agnosia do espelho retomava. Sessões repetidas de treinamento, espalhadas em diversos dias, corrigiriam, finalmente, essa condição? O paciente seria capaz de se livrar completamente da negligência? Essa cura ainda não foi vista. Por enquanto, fica claro que o estudo de pacientes com o déficit de S. pode nos dar informações valiosas sobre como o cérebro constrói a realidade.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

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