EU ACHO …

AMOR & PANDEMIA

A desafiadora tarefa de manter o casamento vivo no isolamento

Um casamento resiste à vida confinada? Hábitos mudaram, o jeito de trabalhar também. Home office transformou-se em realidade. Para boa parte das empresas, é mais lucrativo. Não se gasta com espaço, instalações, cafezinho…As pessoas até trabalham mais! Atividades sociais diminuíram. Sim, eu sei que o Brasil não é a Europa. Praias continuam cheias, há festas, baladas e restaurantes lotados (hospitais também). Mas a atividade social em si caiu. Resultado: os casais são obrigados a ficar juntos. A tomar café da manhã, almoçar e jantar juntos. A conviver.

Muitos casamentos duradouros só se mantinham porque marido e mulher mal se viam. Um vizinho, com trinta anos de casado, resumiu: “Tenho uma inimiga dentro de casa. E ela cresce!”. Talvez ele e ela nem percebessem pequenos defeitos um do outro, como pelinhos no nariz. Depois de décadas, que importância tem? Só se viam após uma longa e exaustiva jornada de trabalho. Existiam as viagens profissionais. Amantes.

A traição ficou mais difícil. Se ninguém sai de casa sem motivo, como fazer? Dizer que vai às compras? E na volta, ela pergunta: “Amor, tomou banho no supermercado?”. Não, não… Mesmo aquele flerte casual, numa saída… rola com máscara?

Quando a convivência é maior, tudo pode crescer. Há mulheres que até desejam assassinar os maridos que não levantam a tampa do vaso sanitário antes de urinar. Os próprios pais que, em sua maioria, ainda jogam a educação dos filhos para a mulher, passam a conviver com choros, gritos, teimas… e a rebelião contra aulas on-line. Justo no horário de trabalho! Alguns pensam em trancar as crianças nos armários, mas não confessam. Pior: quando alguém trabalha em casa, as pessoas têm dificuldade em aceitar que é realmente trabalho. Interrompem, puxam conversa… pedem alguma coisa.

O celular é um risco constante, um dia um deles o esquece à vista e o outro descobre uma conversa com um antigo relacionamento. Ou pior, um novo! Os dois descuidam da aparência. Ele esquece de fazer a barba, ela não fez as unhas esta semana. O botão da camisa que estoura na barriga, os novos pés de galinha em torno do olho, tudo conta! Os dois engordam. Casais veem filmes pornô, para reacender a chama. Alguns chegam a usar artifícios, como amarrar e vendar, partem até para um sexo mais selvagem (se a barriga não atrapalhar). Mas, depois, reclamam entre si: “Ficou marca da mordida”. Nem todo lar pode se transformar em cenário de filme pornô. Há riscos. No meio do sexo arrasador, o filhinho pode bater à porta: “Mamy, você tá gritando?”. Aí, é preciso parar tudo, e voltar à formula da família margarina – “Mamãe teve um pesadelo. Com um urso”.

Tudo fica tão difícil que alguns casais não se suportam mais e se separam. Ou pensam em romper todo o tempo, só aguardam a libertação que virá com a vacina. Mas… há os que resistem, descobrem novas formas de se relacionar. E ficam mais apegados. É uma boa notícia. Se o seu amor sobreviveu à Covid, você não se separa nunca mais.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A VOLTA DO DIREITO DE IR E VIR

Autoridades avaliam implementar um documento digital que comprove imunidade à Covid-19 tanto para viajar quanto para frequentar shows, cinemas e teatros

Desde que as autoridades da China anunciaram a eclosão de um vírus que provocava sintomas semelhantes a pneumonia, em 31 de dezembro de 2019, tudo mudou no trabalho, na escola e nas relações pessoais. A vida agora é feita de máscaras, de permanente lavagem de mãos, de menos abraços e mais toques de cotovelos, de trabalho e educação a distância e de restrições a viagens. À medida que a vacina, o tesouro tão esperado, começa a ser aplicada na população mundial – ainda que a passos lentos -, estuda-se a adoção de uma espécie de passaporte de vacinação.

Na prática, funcionaria do seguinte modo: pessoas que já foram vacinadas contra a Covid-19 poderiam voltar a frequentar shows, cinemas e teatros, e principalmente viajar, mediante apresentação do documento. Dinamarca e Israel são os primeiros países a se organizar para implementar o procedimento. Israel, que está com a imunização de seus cidadãos adiantada, vai emitir passaporte verde para os cidadãos vacinados contra o coronavírus. Ele será concedido a quem receber o imunizante e dará ao portador vantagens como frequentar eventos esportivos e culturais, além de não precisar ficar em quarentena ao retornar ao país do exterior. A Dinamarca, por sua vez, anunciou a emissão de um passaporte de vacina digital para que seus cidadãos possam viajar a países que exigem a comprovação de imunização – embora até o momento nenhuma nação tenha formalizado tal obrigatoriedade.

Diversas empresas e grupos de tecnologia também começaram a desenvolver soluções, como aplicativos e cartões digitais que armazenam detalhes de saúde, incluindo resultados de testes de Covid-19 e comprovante de vacinação. A organização sem fins lucrativos The Commons Project fez parceria com o Fórum Econômico Mundial para construir um sistema de passe digital de saúde. O aplicativo Common Pass permite que os usuários carreguem dados médicos, gerando um atestado na forma de QR code, que pode ser apresentado às autoridades sem revelar informações confidenciais. Antes da viagem, o sistema notifica o usuário sobre as regras do local de destino – como prova de teste negativo para o vírus – e, em seguida, verifica se o passageiro atende às exigências, o que lhe possibilita embarcar em voos internacionais.

Dois gigantes da tecnologia, a IBM e a Linux Foundation Public Health, que ajuda autoridades de saúde pública a combater a Covid-19, também estão desenvolvendo softwares nessa direção. A IBM criou o Digital Health Pass, aplicativo que propicia às empresas personalizar os indicadores que julgam necessários para controlar a entrada de funcionários e visitantes, incluindo teste de coronavírus, checagens de temperatura e registros de vacinação. Já a Linux Foundation se juntou à Covid-19 Credentials lnitiative para elaborar um conjunto de padrões universais que sejam utilizados pelos aplicativos. O infectologista e epidemiologista Bruno Scarpellini, da PUC-RJ, explica: “Certificados de vacinação para viajantes já são exigidos para algumas doenças e isso deve ser uma tendência global, porque pandemias são uma questão de segurança nacional e internacional, que impactam a população e o setor produtivo”.

A rigor, esse procedimento já é utilizado no turismo internacional. Na década de 60, em meio à epidemia de febre amarela, a Organização Mundial da Saúde lançou um documento de viagem internacional conhecido como cartão amarelo. Até hoje, viajantes de certas regiões (Equador, Peru e países do Sudeste Asiático) são obrigados a mostrar uma versão desse cartão quando chegam aos aeroportos. Embora sejam restritivas, essas ações podem, sim, ajudar a controlar a pandemia e melhorar a circulação de pessoas. Por outro lado, os passes digitais talvez tragam alguns problemas ao dividir a sociedade entre aqueles que tiveram acesso à vacina e os que não a tomaram.

Episódios semelhantes de segregação, é verdade, já aconteceram no passado. No século XIX, em Nova Orleans, Estados Unidos, a imunidade contra a febre amarela chegou a dividir as pessoas entre as que já haviam contraído a doença e sobrevivido e as que nunca tinham sido acometidas pela febre. No caso, ter a imunidade garantia o direito de ir e vir, liberdade para se casar e pedir emprego. Aos outros, restavam as restrições.

Evidentemente existem algumas dificuldades para a implementação de um passaporte global – a diferença entre a eficácia das vacinas em uso, questões de privacidade e o grande subconjunto da população global que ainda não usa ou tem acesso a smartphones são algumas delas. Para resolver esse último impasse, algumas empresas já estão trabalhando em soluções, incluindo um cartão que seria um meio-termo entre os certificados em papel e a versão on-line mais fácil de armazenar. Quanto à privacidade, caberá ao usuário consentir ou não o compartilhamento de seus dados, além de escolher o nível de detalhe que deseja fornecer. Os defensores do documento lembram que o deslocamento entre países nunca foi livre. Afinal, as nações exigem passaporte e visto. Por isso, não se espante se a Covid-19 inaugurar uma nova era, na qual o certificado da vacina venha a ser o documento mais importante numa viagem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE FEVEREIRO

GUARDAR SEGREDO, UMA ATITUDE SENSATA

O mexeriqueiro descobre o segredo, mas o fiel de espírito o encobre (Provérbios 11.13).

Um indivíduo que não guarda segredo não merece a confiança das pessoas. Quem tem a língua solta torna-se uma ameaça para seu próximo. O mexeriqueiro é um assassino de relacionamentos. As pessoas que vivem bisbilhotando a vida alheia à procura de informações sigilosas para espalhá-las com malícia tornam-se agentes de intrigas e inimizades. A Bíblia diz que o pecado que Deus mais odeia é o de espalhar contendas entre os irmãos. O mexeriqueiro não apenas descobre o segredo dos outros, mas, ao divulgá-lo com astúcia e maldade, lhes destrói a reputação. Não é assim a vida de um indivíduo fiel. Ele é confiável. Com ele podemos abrir o coração, na certeza de que não nos desprezará por causa de nossas fraquezas nem as espalhará ao vento para nos envergonhar. O fiel de espírito encobre os segredos em vez de descobri-los. Protege o próximo em vez de expô-lo ao ridículo. Ele é agente de vida, e não coveiro da morte. É bálsamo que consola a alma, e não vinagre na ferida. É instrumento de Deus que cura, e não agente do maligno que fere e mata. Precisamos de gente assim na família e na igreja, na academia e na política, na indústria e no comércio. Gente que seja instrumento de vida e portadora de esperança.

GESTÃO E CARREIRA

DA TERRA PARA O PRATO

Com a proposta de entregar marmitas orgânicas, com alimentos produzidos por agricultores parceiros, a startup Liv Up cresceu de cinco para 600 funcionários em quatro anos.

Seja no home office, seja no presencial, bateu 13h a barriga ronca. E aí? Qual vai ser? Aquela feijoada que vai te fazer pescar em frente à tela até às 15h? Ou o tradicional bife a cavalo, com quilos de salitre para beber água a tarde inteira? Não gostou das opções?

Os amigos Víctor Santos e Henrique Castellani também não gostavam. lá em 2015, quando ainda eram engenheiros recém-formados, famintos, em busca de almoço na Faria Lima. Foi então que, enquanto procuravam pelas (raras) opções de comida saudável a um preço que não fizesse o vale-refeição acabar no dia 15, eles viram aí uma oportunidade de empreender.

E assim nasceu em 2016 a Liv-up, uma startup de comida saudável que entrega refeições prontas e congeladas, com um diferencial: eles firmaram parcerias com pequenos agricultores para o fornecimento da matéria-prima (sempre orgânica).

Funcionou. No início, a operação contava com cinco pessoas e oferecia 30 pratos diferentes, somente na cidade de São Paulo. Hoje, já são mais de 600 funcionários, 150 opções no cardápio de refeições prontas, além da venda de sucos, legumes, verduras e papinhas para bebês. E entrega em 50 cidades.

INOVAÇÃO EM MEIO AO CAOS

No final de 2019, a Liv Up ainda recebeu um gás: um aporte de RS 90 milhões do fundo americano ThornTree Capital Partners. A grana entrou que nem o salário na conta – caiu e sumiu: foi ela que financiou a expansão do portfólio de produtos da startup. E o resultado veio rápido: o faturamento dobrou, de RS 50 milhões em 2019 para RS 100 milhões em 2020.

A intenção dos fundadores para 2020 era ingressar no segmento de alimentos para consumo imediato (só havia congelados e pré-cozidos até então). Nisso, lançaram dois spin-offs da Liv Up: o Salad Stories e o Brotto.

O Salad Stories é um delivery de saladas. O Brotto, um de pizza. Claro, é impossível dizer que qualquer pizza possa ser algo realmente saudável, mas aí eles usam outros chamarizes para atestar a diferença: massa de fermentação natural, molho de tomate orgânico, linguiça artesanal.

Os dois entregam só em São Paulo por enquanto, e funcionam no sistema de cloud kitchens, que são como coworkings, mas de cozinha. Têm fornos, pias e geladeiras para a preparação dos alimentos. E empresas e deliveries podem alugar o espaço. Não que a Liv Up não tenha suas próprias cozinhas. Mas elas são equipadas para a preparação dos congelados e pré-cozidos, e não de pratos para consumo imediato.

Em 2021, a expectativa é de expansão desses novos serviços, que vão se juntar à operação da startup que está distribuída pelo país. O escritório fica em São Paulo, mas há 14 centros de distribuição espalhados pelos Estados. E os 25 núcleos de agricultura familiar ficam em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais.

Para o fundador e CEO Victor Santos, a pandemia ajudou na consolidação da marca. Afinal, 2020 foi o grande ano do delivery de comida. Quem só pedia pizza e hambúrguer aprendeu a variar – já que não havia mais o quilo para a refeição balanceada do dia.

LIÇÃO DE CASA EM DIA

O investimento da startup não foi só em produtos, mas em pessoas também. Com o aumento no número de funcionários e mudança no sistema de trabalho para o modelo remoto, alguns processos tiveram que evoluir. Os líderes contaram com um treinamento de longo prazo, com módulos como produtividade e autonomia no home office.

Outro assunto que ganhou mais espaço foi a inclusão de minorias. Desde 2018, a empresa tem o grupo Liv Up Pride, que promove debates entre os funcionários e atua junto ao RH na inclusão da comunidade LGBTI+. Depois dele, foram criados outros dois que funcionam da mesma forma, o She’s Up, para mulheres, e o Negritude, para pretos e pardos. Segundo o CEO, metade dos cargos gerais e também de liderança são ocupados por mulheres. E as posições preenchidas por pretos e pardos avançaram, de 22% em 2019 para 27% em 2020, com foco em cargos administrativos. “Estamos crescendo rapidamente e nos esforçando para fazer isso de forma estruturada”, diz Victor.

Uma das ferramentas que eles usam como norte para a expansão é o feedback 360°. Nesse modelo, não é somente o gestor direto que dá um retorno sobre a atuação do profissional, mas todos os outros colegas e chefias que trabalham com a pessoa. Isso estimula o convívio entre diversas áreas da empresa e nutre o que eles consideram competência essencial para os funcionários: a compreensão de que cada setor é importante para o todo.

GESTÃO DE PESSOAS

1. CARONA

O setor administrativo da empresa está em home office desde o começo da pandemia. Já as equipes da cozinha e dos centros de distribuição passaram a ter ónibus fretados que levam e buscam os funcionários todos os dias.

2. TOTAL FLEX

Nada de home office eterno. O escritório em São Paulo já está aberto para quem quer voltar ao presencial e, passada a crise, as duas opções continuarão à disposição.

3. TREINAMENTO

Há um voltado para líderes, que neste ano focou em gestão remota de pessoas. A Liv Up também organiza debates entre funcionários, nos quais eles escolhem o tema com antecedência – já rolou sobre produtividade e viés inconsciente, por exemplo.

4. BEM-VINDOS

Ao entrar na Liv Up, os novos funcionários conhecem todos os setores da empresa: administração, produção e logística. A partir do isolamento, o tour passou a ser feito por vídeo.

5. DIVERSIDADE

A Liv Up diz que metade dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. E que o número de funcionários pretos e pardos aumentou de 22% para 27% em 2020.

6. FAMÍLIA

Héteros ou homos, com filhos biológicos ou adotados, os novos papais e mamães têm direito a licenças de um e seis meses, respectivamente.

7. FEEDBACK

Na startup não é somente o gestor direto que dá uma posição sobre o desempenho do funcionário, e sim todos que atuam em contato com a pessoa. É chamado de feedback 360° – que estimula um convívio melhor entre colegas e entre gestores de diferentes departamentos.

8. SALÁRIO 2.0

Todos têm 40% de desconto nos produtos da empresa, além de um crédito mensal de R$100 com a mesma finalidade. Outros benefícios são Gympass subsídio de educação para cursos e um cartão flash que pode ser usado em serviços aleatórios, como Uber e Netflix.

9. ATUALIZADOS

Uma vez por semana, a diretoria faz reuniões com a frente administrativa e operacional para atualizar os resultados dos últimos dias, revisar estratégias e manter a comunicação em dia.

10. SOLIDARIEDADE

Logo no começo da pandemia, a startup participou de movimentos solidários. Ao todo, 39 toneladas de alimentos orgânicos dos produtores parceiros foram doadas para famílias carentes do Estado de São Paulo.

COMPETÊNCIAS

Saber trabalhar em equipe e entender que cada setor da empresa é importante para o todo. “Tem que ter interesse em fazer a coisa certa, do jeito certo. Se um elo falha, o problema é coletivo”, diz Victor Santos, CEO e cofundador da Liv Up.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MUNDO PELA METADE

Transtorno de atenção pouco comum, causado por lesões no lado direito do cérebro, faz com que pacientes ignorem uma parte daquilo que vem – e só se deem conta disso quando alguém lhes chama a atenção

Uma paciente, que chamaremos aqui de S., sofreu recentemente um acidente vascular cerebral que danificou seu lobo parietal direito sem afetar outras partes de seu cérebro. O lado esquerdo de seu corpo – controlado pelo hemisfério direito – ficou paralisado. Mentalmente ela continuava saudável, falante e inteligente como antes do derrame. Entretanto, seu pai observou sintomas perturbadores que, estranhamente, não eram percebidos pela própria paciente. Ao tentar se movimentar por um cômodo em sua cadeira de rodas, por exemplo, algumas vezes colidia com objetos à sua esquerda. Testes posteriores confirmaram que ela era indiferente a objetos e eventos à sua esquerda, embora não fosse cega para eles, pois se prestasse atenção conseguia vê-los. Seus olhos estavam normais, o problema era prestar atenção a esse lado. Durante as refeições, comia apenas a comida que estava à direita do prato, ignorando a porção à esquerda. Porém, se chamassem sua atenção, conseguia enxergar, reconhecer e pegar os alimentos. Esse déficit indica que ela sofre de heminegligência (ou apenas, negligência), uma desordem que pode ocorrer de forma isolada, sem paralisia significativa.

Como tais perturbações da percepção ocorrem? A negligência é, fundamentalmente, um transtorno de atenção. Embora o cérebro humano possua cerca de 100 bilhões de neurônios, somente um pequeno grupo deles pode estar ativo a cada momento, criando padrões significativos, e esse limite resulta em um gargalo de atenção. É por isso que você consegue enxergar um pato ou um coelho na imagem (a). Isso também explica porque, ao dirigir, você não fica conscientemente alerta das coisas que ocorrem à sua volta, enquanto foca em um pedestre à sua frente. Neste cenário, a síndrome neurológica da negligência é, na verdade, uma versão exagerada da negligência sensorial que, em algum momento, todos apresentamos, para evitar uma sobrecarga sensorial.

PARA COMPENSAR

Para entender a situação, precisamos considerar alguns aspectos anatômicos. As informações visuais coletadas pela retina são enviadas pelo nervo ótico e divergem em dois caminhos paralelos chamados o “novo” e o “velho”, de acordo com sua evolução. O primeiro ramo, também chamado de “onde”, projeta-se para dentro do lobo parietal e está envolvido na orientação e localização das coisas ao redor. O segundo se projeta para o córtex visual, e a partir daí emergem dois novos ramos, chamados “o que” e “como”, que se projetam, respectivamente, para os lobos temporais e parietais. O caminho “o que” está envolvido em reconhecimento e identificação de objetos, enquanto o “como” direciona de que modo devemos interagir com eles. As opções “como” e “onde” convergem para o córtex parietal e são funcionalmente relacionadas – você deve processar tanto o local onde a cadeira está como o movimento para desviar dela. S. apresentou danos no ramo responsável pelo “como”, localizado no hemisfério direito, e, deste modo, ignora tudo que está à sua esquerda.

Curiosamente, a negligência só é vista em pacientes com danos no hemisfério direito do cérebro. Porque prejuízos no lado esquerdo não resultam em negligência da parte direita do mundo? O neurologista Marcel Mesulam, da Universidade Harvard, propôs uma explicação engenhosa: o hemisfério direito, que possui mais recursos de atenção e um papel proeminente na visão espacial, pode pesquisar toda a cena, nos campos direito e esquerdo, simultaneamente. O parietal esquerdo, em contrapartida, só consegue cuidar do lado esquerdo. Então, quando o esquerdo está danificado, o direito pode compensar. Mas se o parietal direito for o prejudicado, o campo visual esquerdo não vai receber atenção, e ocorre a negligência unilateral. É bastante fácil diagnosticar esse transtorno – o paciente tende a olhar para o lado direito constantemente e não procura, espontaneamente, o esquerdo, mesmo se uma pessoa estiver se aproximando nessa direção. Ao tentar acompanhar algo indo da direita para a esquerda, o indivíduo perde o objeto no meio do caminho – não consegue segui-lo quando ele estiver à esquerda do seu nariz. Uma paciente aplica maquiagem apenas no lado direito do rosto. Um homem só, barbeia meio queixo. Ou podem escovar, os dentes apenas do lado direito.

Também é possível diagnosticar negligência com alguns testes simples. Peça para o indivíduo desenhar, de cabeça, uma flor ou outro objeto qualquer, e ele irá desenhar apenas metade (b), na página seguinte. Estranhamente, esse efeito “desenho pela metade” é verdadeiro mesmo que a pessoa trabalhe com os olhos fechados, o que mostra que o paciente está negligenciando a parte esquerda do objeto que se forma em sua mente. Quando pedimos para que o paciente desenhe um relógio, ele apenas desenhará metade. O círculo será traçado completamente, em parte, por ser uma resposta “balística ” já aprendida, que não exige atenção focal. Mas os números estarão todos na metade direita do relógio (c), ou inseridos apenas de 1 a 6. Peça para que o paciente divida uma linha ao meio. Seu corte estará muito fora do centro, para a direita, porque estará dividindo ao meio apenas a parte direita.

Poderíamos concluir que, se a linha fosse movida inteiramente para o lado direito (não negligenciado), poderia dividi-la corretamente. Mas não conseguirá. Mesmo que seu prato seja inteiramente posicionado em seu campo visual direito, a pessoa continuará a comer apenas a parte da comida que está na metade direita. Ou seja: além de negligenciar o lado esquerdo do mundo, o paciente também ignora o lado esquerdo de objetos, mesmo quando colocados totalmente à sua direita.

SEM HESITAÇÃO

Não existe uma linha dividindo ao meio o campo visual, separando a esquerda afetada da direita não negligenciada. Em vez disso, devemos pensar em um gradiente de negligência. O efeito do dano no lobo parietal é diferente do visto quando há prejuízo no córtex visual. Nesse caso, o resultado é um limite preciso entre a região cega, à esquerda, e a região intacta, à direita de seu campo visual. E, obviamente, pacientes com danos no córtex visual não podem enxergar objetos à sua esquerda, mesmo quando forçados a prestar atenção na área cega. E também não enxergam melhor o lado afetado do que veem atrás de sua cabeça.

Um aspecto curioso da negligência é que o paciente não tem ciência dela. Ele negligencia sua negligência. Em alguns pontos pode perceber, vagamente, que há algo errado, e dizer que precisa de óculos. O desligamento de S. para sua condição sugere ainda que o que apresenta não é meramente um defeito sensorial nas informações visuais que entram por seu lado esquerdo, nem apenas uma falha em dar atenção a esse lado. Em vez disso, devemos pensar em uma aniquilação do lado esquerdo do universo. Para ela, a esquerda simplesmente parou de existir. Talvez até mesmo tenha problemas com ideias abstratas que envolvem a palavra “esquerda”, mas não testamos ainda essa ideia.

Extraordinariamente, esses pacientes podem não ter consciência da paralisia de seu braço esquerdo, uma condição chamada de anosognosia. Quando pedimos a S. que tocasse o nariz com sua mão direita não paralisada, ela prontamente conseguiu. Quando perguntamos se ela conseguia mover a mão esquerda, ela respondeu: “Sim, posso movê-la bem”. Mas, ao pedirmos para ela tocar seu nariz com a mão esquerda, ela agarrou a mão sem vida com a direita e levantou-a na direção do nariz, usando uma ferramenta para levantar a mão paralisada. Claramente, mesmo que a pessoa consciente não soubesse da paralisia no braço esquerdo, alguma parte de seu cérebro saberia. Por que outra razão ela iria, sem hesitação, agarrar o braço e movê-lo em direção ao nariz?

O humor inadvertido de sua resposta estava perdido nela. É importante ficar claro que, em todos os outros aspectos, S. era completamente lúcida, inteligente e articula da. As implicações totais da negligência foram trazidas a nós mais vividamente quando penduramos um espelho de 6,5m x 6,5m na parede à sua direita. Quando ela virou a cabeça para a direita para se olhar, viu sua face e, é claro, reflexos dos objetos à sua esquerda, que ela estava negligenciando, e sabia que estava vendo seu rosto refletido. Nossa pergunta, entretanto, era: iria o espelho “corrigir” sua negligência deixando óbvio que havia um mundo inteiro do lado esquerdo que ela estava ignorando? Pedimos a um estudante para segurar uma caneta à esquerda de S., de forma que ela pudesse ver o reflexo do objeto à sua direita no espelho – e ela disse que o via. Quando pedimos para que pegasse essa caneta para escrever seu nome em um bloco que estava no seu colo, ficamos chocados ao vê-la ir em direção ao espelho para tentar pegar o reflexo. Perguntamos onde estava a caneta, e obtivemos uma resposta frustrante: “A caneta está dentro do maldito espelho”. Em outras ocasiões, tentou alcançar o objeto atrás do espelho, e tateou insistindo que “a caneta estava atrás do espelho”. Era como se seu cérebro estivesse dizendo “este é um reflexo no espelho, então a caneta deve estar à minha esquerda, mas como esse lado não existe no meu universo, ela deve estar dentro do espelho. Essa é a única solução para o problema”.

ESPERANÇA DE RECUPERAÇÃO

O que é surpreendente é a resistência da ilusão à correção intelectual. Seu alto grau de conhecimento sobre espelhos e o que eles fazem não pôde corrigir seu comportamento, mesmo depois de falhar consecutivamente ao tentar pegar a caneta. Na verdade, é o oposto: seu conhecimento sobre ótica de espelhos foi distorcido, para acomodar o estranho mundo sensorial no qual está presa (de forma a racionalizar sua ação dizendo “a caneta está dentro do maldito espelho, doutor”). Nós apelidamos esse novo transtorno (ou sinal) neurológico de agnosia do espelho.

A agnosia do espelho, provavelmente, não é um déficit restrito aos espelhos. Na verdade, já vimos pacientes se recuperarem temporariamente da negligência (por meio da irrigação do ouvido com água gelada), mas continuarem tentando pegar a caneta no espelho. Devemos considerar essa característica como manifestação específica – se não dramática – de uma desordem mais genérica: uma inabilidade para lidar com relações especiais mais complexas, causada por dano parietal direito. O reconhecimento de uma imagem no espelho como uma figura de fato, requer uma representação dupla peculiar cerebral. Com um lobo parietal danificado, o cérebro de S. não pode lidar com essa justaposição peculiar. Até mesmo uma criança de quatro anos e um orangotango, raramente confundem a imagem de uma banana no espelho com um objeto real, mas S., mais velha e mais sábia, confunde, mesmo com toda a sua experiência de vida com espelhos.

A negligência é um problema clínico extremamente frustrante para os terapeutas que tentam reeducar os pacientes para voltar a usar o braço paralisado durante as primeiras semanas após o derrame. A indiferença do indivíduo quanto ao lado esquerdo se toma um impedimento para a terapia.

Descobrimos que, com esforços repetidos, S. começaria a procurar a caneta do lado esquerdo, mas se voltássemos depois de algumas horas, a agnosia do espelho retomava. Sessões repetidas de treinamento, espalhadas em diversos dias, corrigiriam, finalmente, essa condição? O paciente seria capaz de se livrar completamente da negligência? Essa cura ainda não foi vista. Por enquanto, fica claro que o estudo de pacientes com o déficit de S. pode nos dar informações valiosas sobre como o cérebro constrói a realidade.

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