EU ACHO …

A PREPOTÊNCIA DAS BIG TECHS

Conforme cresce a rentabilidade e o poder dos gigantes da internet, aumenta também sua prepotência. A mais recente manifestação disso ocorre agora na Austrália, onde Facebook e Google ameaçaram bloquear o acesso a seus sites. A justificativa para essa medida extrema? É que o governo australiano insiste que as duas empresas paguem um pequeno royalty aos jornais locais e a outros provedores que geram o conteúdo comercializado por elas.

Ao mesmo tempo, iniciou-se nos Estados Unidos um debate sobre a decisão de Facebook e Twitter de excluir Donald Trump de suas plataformas. A ação ganhou muito apoio popular depois que o agora ex-presidente incitou um ataque ao Capitólio, mas surgiram também perguntas e dúvidas pertinentes. Por que proscrever Trump e não outros demagogos uJtradireitistas, como o turco Erdogan, o húngaro Orbán, o indiano Modi e Bolsonaro? E os demagogos de esquerda, como o venezuelano Maduro? Quais os critérios usados para banir um e permitir que o outro siga espalhando mentiras? Não é um precedente perigoso?

Apoio a exclusão de Trump: além do prazer de não ter mais de ler nem ouvir suas asneiras, ele usou as redes sociais para incitar uma insurreição e merece a punição que está sofrendo.

Mas não gosto da ideia de outorgar a apena uma pessoa, como Mark Zuckerberg, o direito de tomar decisões que regulam a praça pública virtual no mundo inteiro, apenas porque é um homem riquíssimo. Como o filme A rede social deixou bem claro, o cara é completamente sem escrúpulos. Então, como perguntou o poeta romano Juvenal há 2 mil anos: Quis custodiei ipsos custodes? Quem vai vigiar o próprio Zuckerberg?

A maneira como esses problemas são resolvidos é muito importante para o Brasil, e não apena devido à questão de como frear Bolsonaro e as fake news. Para algumas plataformas, como Uber, o Brasil é seu segundo maior mercado, e me pergunto: Quem está pensando nos direitos laborais dos motoboys mal pagos que correm nas ruas das principais cidades brasileiras? O pai também foi durante anos o principal sustento da genial rede social inovadora Orkut, que abrigou toda uma comunidade vibrante até ser esmagada pelo Facebook. O mundo não perdeu algo com seu desaparecimento?

Repetidamente, temos observado que os gigantes do Vale do Silício tentam evadir-se de leis que outras empresas aceitam como normais. É como se a função deles fosse tão fundamental e extraordinária que merecesse isenção. Durante anos, a Amazon lutou contra qualquer lei americana, federal ou estadual, para tributar a venda de produto on­line – uma lacuna legal que proporcionou à empresa uma vantagem competitiva artificial e não merecida. Agora, está lentando bloquear toda tentativa de sindicalizar seus empregados, que trabalham muito, ganham pouco e aguentam condições insalubres – tudo para que Jeff Bezos, o dono, possa lucrar e seguir seu sonho de viajar para a Lua.

Mas minha anedota favorita referente à Amazon tem a ver com o nome da empresa. Por volta de 2005, vários negócios brasileiros foram processados nos Estados Unidos sob a alegação de que usurpavam uma marca registrada. Isso mesmo: a empresa americana de Seattle quis impedir que firmas brasileiras, muitas com matriz na Amazônia, comercializassem nos Estados Unidos produtos como sabonete, doces, bebidas e óleos fragrante com o nome Amazon. Pior ainda, algumas das empresas brasileiras acabaram mudando de nome porque não tinham recursos suficientes para contestar a ação legal da Amazon: bastava uma carta intimidatória do Golias e Davi cedia

Agora estamos presenciando a ameaças e arrogância dos serviços de “carona remunerada”, tipo Uber e Lyft. Quando a Califórnia aprovou, em 2020, uma lei classificando os motoristas como empregados, com direito a plano de saúde e outros benefícios, qual foi a resposta dele? Recorreram à chantagem, como Facebook e Google fazem hoje na Austrália. Simplesmente burlaram a nova lei e ameaçaram se retirar do estado cuja economia equivale à quinta maior do mundo. Funcionou: o eleitorado priorizou a comodidade própria em detrimento dos direitos de outrem e, na eleição de novembro, aprovou uma proposta que define como “empreiteiro independente” motoristas e entregadores das duas empresas.

Como, então, enfrentar o oligopólio das BigTechs que ameaçam estrangular a inovação na internet, minar nossas instituições políticas, deturpar o discurso público e fazer o estado curvar-se perante sua vontade? Confesso que não sei, embora eu goste da ideia de, como primeiro passo, desmembrá-lo. Deixo os detalhes para os advogados e legisladores. Mas sei de uma coisa com absoluta certeza: uma empresa que só consegue lucrar por meio de um plano de negócios brutalmente exploratório não merece existir. Que mude de plano ou desapareça.

*** LARRY ROHTER – é jornalista e escritor. É ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

PIX DO AMOR

Após três meses do lançamento, novo meio de pagamentos instantâneos vira correio elegante e até aplicativo de namoro

 Algumas das frases que mais aparecem em comentários de portais de notícias do País quando um assunto sério vira chacota nas mãos, principalmente, dos jovens são “O Brasil precisa ser estudado” ou o “Brasil não é para amadores”. Esse foi o caso do Pix, o meio de pagamento eletrônico inaugurado em novembro passado pelo Banco Central. Se a ideia inicial era facilitar transferências e pagamentos em estabelecimentos comerciais, o brasileiro encontrou uma maneira de desvirtuar sua função original. Isso porque o serviço permite que a pessoa que realize uma transferência bancária deixe uma mensagem que “justifique” a operação.

Nas redes sociais as brincadeiras envolvendo a modalidade já têm até nome: PixTinder ou PixSexual. A origem vem de outro aplicativo de sucesso, o Tinder, criado especificamente para que pessoas possam se conhecer e se relacionar de maneira íntima. Mas com o Pix, tudo começou quando um perfil do Twitter identificado como Matheus Siqueira pediu ajuda aos internautas sobre como bloquear o número PIX para um determinado usuário. O primo de Matheus havia bloqueado a namorada em todas as redes sociais e eliminado qualquer forma de contato após sofrer uma traição. A menina, no entanto, encontrou no PIX uma maneira de enviar mensagens em busca de uma possível reconciliação.

A usuária decidiu enviar diversos depósitos de R$0,01 para o amado. O conteúdo? Pedido de desculpas e o desejo de reatar o romance. Quem se aproveitou da ideia foi o empresário Wellington Paulo, alguém que nada tinha a ver com o casal e recebeu mais de 200 transferências ao publicar seu número de telefone, que é a sua chave PIX. “Acho que no total deu uns R$ 58 que usei para comprar ração para meus cachorros”, diz. Já a estudante Larissa Maria, de 22 anos, notou que começou a receber transferências de valores baixos de um antigo “crush” do passado. “Eu tinha bloqueado o rapaz em todas as redes porque ele tinha feito uma besteira e eu não queria mais olhar na cara dele”, explica. Papo vai, papo vem (por R$ 2 a mensagem) e os dois pretendem até se encontrar novamente.

O Banco Central é cauteloso e diz que não é possível bloquear números no sistema de pagamento instantâneo. Porém, a instituição aconselha que em casos indesejados, sejam desativadas as notificações do aplicativo, pois também não possui controle sobre o teor das mensagens. O risco dessa forma de paquera está, principalmente, na divulgação de dados pessoais. Wellington Paulo diz que, como empresário, se desejasse agir de má fé, poderia usar todos os números de telefone e CPF das centenas de pessoas que fizeram a transferência e vender esses dados para empresas de telemarketing ou até mesmo para golpistas. Ou seja, se for paquerar, talvez seja melhor apelar para as técnicas do passado: mandar flores? Por que não?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE FEVEREIRO

O JUSTO, FONTE DE ALEGRIA PARA A CIDADE

No bem-estar dos justos exulta a cidade, e, perecendo os perversos, há júbilo (Provérbios 11.10).

Os justos são a alegria de uma cidade, mas os perversos, o seu pesadelo. Os justos promovem sua paz, mas os perversos a transtornam. Os justos são os agentes do progresso; os perversos, os protagonistas do desastre. Quando os jornais anunciam a morte de um criminoso de alta periculosidade, o povo sente-se aliviado. Quando a imprensa divulga a prisão de um traficante, a cidade respira aliviada. Quando os perversos perecem, há júbilo na cidade. Porém, no bem-estar dos justos a cidade exulta. O justo é alguém que foi salvo pela graça e vive para praticar o bem. Sua descendência é santa, sua vida é irrepreensível, seu testemunho é exemplar. O justo anda na luz, fala a verdade e pratica o bem. Da sua boca procedem palavras de vida, e de suas mãos provêm atos generosos. Quanto mais o justo floresce, mais a cidade é abençoada, pois na casa do justo habita a bênção de Deus. Na casa do justo há prosperidade. Todas as nações que foram colonizadas tendo por base a Palavra de Deus foram prósperas e bem-aventuradas. O justo é uma fonte de alegria para a cidade. A sua cidade é melhor pelo fato de você habitar nela? Sua presença na cidade é abençoadora? Seu exemplo inspira outros a andarem em retidão? Sua vida tem sido fonte de alegria para os que estão à sua volta?

GESTÃO E CARREIRA

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZÃO

Consumidores insatisfeitos podem colocar qualquer empresa na corda bamba. Os bons profissionais de customer experience, então, são disputados a tapa pelo mercado.

O autor americano Philip Kotler diz: “A melhor propaganda é feita por clientes satisfeitos”. Essa frase deveria estar escrita nas tábuas dos Dez Mandamentos do marketing, bem lá em cima. Mas algumas empresas simplesmente desconhecem esse fato.

Em 2008, o músico Dave Carroll estava viajando do Canadá para os Estados Unidos num voo da United. Durante uma escala, ele percebeu que os carregadores de bagagem estavam atirando os equipamentos da sua banda para dentro do avião, sem nenhum cuidado. Ele avisou os comissários de bordo, mas foi tratado com indiferença. Resultado: o seu violão, que custava US$ 3.500, chegou quebrado ao destino.

Depois de um ano tentando fazer a companhia pagar o conserto, de US$ 1.200, Dave mudou sua estratégia. Ele gravou uma música engraçadinha, chamada “United Breaks Guitars” (United quebra violões, em português) e publicou no YouTube. A música viralizou, com mais de 20 milhões de visualizações – e a United acabou com uma bela de uma crise de imagem para resolver.

O fato é que oito em cada dez consumidores trocariam de marca depois de uma experiência ruim, segundo uma pesquisa da empresa de software Zendesk. Não é só isso. Kotler estima que conquistar um novo cliente custa de cinco a sete vezes mais do que manter um cliente antigo. Além disso, a probabilidade de vender para uma pessoa que já é seu consumidor seria 14 vezes maior. Ou seja: não tratar (muito) bem o cliente atual é abater a galinha dos ovos de ouro.

E quem sofre no final é o caixa. Dados da NewVoiceMedia mostram que empresas americanas chegam a perder US$ 75 bilhões ao ano por causa de mau atendimento. O impacto do consumidor nos negócios é tão grande que uma área vem ganhando espaço dentro das companhias: a de customer experience (CX).

O LinkedIn até antecipou um crescimento de 79% na demanda por especialistas na área ao longo de 2020. ((A profissão está crescendo em um ritmo acelerado. Essa cultura da centralidade no cliente é algo que pegou carona com o aumento dos canais de mídia”, afirma Marcelo Custódio, professor da pós-graduação da ESPM.

Se engana quem pensa que o setor é responsável só pelo SAC. Na verdade, o CX acompanha toda a jornada do consumidor, do momento em que ele ouviu falar da marca até o pós-venda. No caso da United, por exemplo, a equipe de customer experience é encarregada de aprimorar a usabilidade do site; identificar problemas que estejam afetando os passageiros; treinar os funcionários que lidam com os clientes; simplificar serviços (não que tudo isso funcione sempre, como vimos no caso do violão quebrado).

Segundo Diego Azevedo, CEO da plataforma de educação CS Academy, quanto mais claro o problema do consumidor for para a empresa, e a sua maior capacidade competitiva. (Esse é o caso dos bancos digitais). Eles perceberam que o cliente não queria mais ter que ir até uma agência para abrir conta ou ligar para conseguir um cartão de crédito. Isso atraiu muita gente e obrigou os bancos tradicionais a se reinventarem quanto “a experiência do cliente.”

CURRÍCULO

Não existe um curso de graduação específico para quem quer atuar na área. O que o mercado procura são profissionais que tenham conhecimento em marketing, publicidade e vendas – logo, algum curso de graduação, pós ou especialização nessas áreas é bem-vindo.

Também vale ter familiaridade com o conceito de data driven, que é uso de dados para a tomada de decisões estratégicas. Por exemplo, se a United estiver em dúvida se é melhor servir amendoim ou pipoca em seus voos, os dados podem mostrar qual é a preferência dos clientes. Melhor que o achismo.

Por último, é preciso saber trabalhar com softwares de CRM (gestão de relacionamento com o cliente, em português) e CX, além de inteligência artificial. Você não precisa saber programar – essa é função da equipe de tecnologia. Mas os canais digitais usam cada vez mais chatbots, então o profissional de consumer experience precisa saber qual é o conteúdo ideal para atender os clientes.

“Quem trabalha com CX tem que saber interagir com todas as outras áreas das empresas, porque é ele que está em contato direto com o cliente. É ele que vai decidir sobre quais produtos vender, quais benefícios oferecer, como melhorar processos, como incentivar a inovação”, completa Marcelo, da ESPM.

CX NA PRÁTICA

A varejista de artigos esportivos Decathlon é conhecida por deixar os clientes testarem os produtos dentro da loja; algumas unidades chegam até a ter espaço para andar de bicicleta, parede de escalada e quadras de esportes. E quem está à frente disso tudo no Brasil é o Vitor Veneroso, gerente de conceito e experiência de loja da marca.

Natural de Santos (SP), o publicitário de 40 anos começou na Decathlon como gerente de loja em 2007. Passou pelas áreas de comunicação, marketing, RH e acompanhou a abertura do e-commerce, até assumir o atual cargo em 2018. (Fiz uma especialização em processos de gestão que me deu um conhecimento de metodologias ágeis, que aplico muito no dia a dia da equipe. Mas acho que a minha trajetória dentro da empresa fez toda a diferença na hora de conhecer o negócio e entender o cliente.”

Segundo Vitor, a função de sua área é permitir que o consumidor encontre o produto que quer de forma rápida. A Decathlon trabalha com 65 esportes diferentes e em lojas que variam de mil a 4 mil metros quadrados – perder-se ali no meio pode ser um pesadelo para o cliente. Por isso, além da identificação das seções, os produtos ficam em gôndolas separadas de acordo com a habilidade da pessoa no esporte (de iniciante até avançado) e os vendedores também praticam esportes. Se você for comprar um tênis de corrida, vai ser atendido por um vendedor que também corre. Ajuda no diálogo.

E tem a parte dos test drives. ((Se você vai comprar bota de trekking para fazer uma caminhada na natureza, com certeza vai passar por pedras. Então, a gente criou um piso que simula um ambiente de trilha para a pessoa sentir se a bota é adequada.”

Já a análise de dados permite que Vítor customize melhor as lojas de acordo com o que cada clientela busca. Por exemplo, se ele identifica que na unidade de Piracicaba a procura maior é por esportes de montanha, então o local vai ter mais vendedores especializados e test drives de trilhas e escaladas.

O executivo também ressalta a necessidade de trabalhar em sintonia com os outros setores da empresa. “Minha equipe direta é de três pessoas, mas a gente atende 40 lojas. Então estamos sempre em contato com diretores, gerentes de loja, vendedores, equipe de arquitetura e obras, comunicação. Sem essa rede de apoio de todos os departamentos, nada que falamos aqui funcionaria.”

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADES-CHAVE

Identificar o comportamento do consumidor, melhorar (e simplificar) o processo de compra, criar uma identidade de experiência, fidelizar o cliente, integrar os canais de comunicação, cuidar do pós­ venda e coletar dados dos compradores.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Trabalhar com outras áreas da empresa, conhecer metodologias ágeis, ouvir o consumidor e, claro, ser criativo.

PONTOS POSITIVOS

Tem emprego sobrando. Segundo os especialistas, existe uma escassez de profissionais capacitados e com experiência em customer experience.

PONTOS NEGATIVOS

A área de CX costuma ser desvalorizada em empresas que não têm uma cultura centrada no cliente (ninguém assume que não tem, mas elas existem aos montes, você sabe). Além disso, algumas companhias colocam a carroça na frente dos bois: elas investem em tecnologia de atendimento antes de colocar recursos na melhora da experiência dos usuários. Frustrante para quem é do ramo.

QUEM CONTRATA

Grandes empresas e multinacionais. As pequenas e médias ainda são incipientes nessa área.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Os profissionais de marketing e publicidade são os mais procurados. Também vale investir em cursos de gestão, CRM e dados.

SALÁRIO* – Até R$ 9,6 Mil

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DUPLO SENTIDO

A cumplicidade entre gêmeos é um privilégio, mas pode distanciá-los do convívio social; cabe a pais e educadores incentivar o desenvolvimento autônomo, sem prejudicar o intenso vínculo afetivo dessas crianças

O nascimento de gêmeos sempre provoca alguma inquietação nos pais e nos parentes mais próximos. As dúvidas geralmente dizem respeito a situações corriqueiras, como por exemplo, a ordem de amamentar os bebês, a conveniência de vesti-los ou não com as mesmas roupas, a forma de lidar com as diferenças e as semelhanças. O chamado “efeito dupla” sempre interessou psicólogos, que reconhecem no vínculo de irmãos nascidos da mesma gestação uma relação diferente da existente entre não-gêmeos O tipo de identificação que existe entre dois indivíduos que compartilharam simultaneamente o mesmo útero vai além das questões biológicas O convívio no ventre materno pode ter importantes implicações nessa fase, anterior ao nascimento.

Embora se dediquem também ao estudo de casos de trigêmeos, de quadrigêmeos ou de quíntuplos, os especialistas mostram maior interesse pelas duplas, cujo vínculo afetivo, segundo eles, seria mais intenso. Um dos aspectos analisados nessas pesquisas é a afinidade e a sincronicidade dessas relações. A psicóloga Piera Brustia, professora da Universidade de Turim, alerta para o fato de que a cumplicidade estabelecida entre os gêmeos pode tornar o relacionamento entre eles tão exclusivo a ponto de distanciá-los de outras crianças. Nesses casos, o acompanhamento psicológico é fundamental para prevenir o isolamento, segundo a psicóloga.

As adolescentes italianas Ângela e Marina são idênticas e participam de uma associação coordenada por Brustia que promove encontros entre famílias com filhos gêmeos. “Nossa relação é intensa e única; difícil de ser comparada a qualquer outra em minha vida”, diz Ângela. Ela e a irmã compartilham atividades e preferências: estudam e trabalham juntas, gostam das mesmas roupas e têm os mesmos hábitos alimentares. “O risco de isolamento é real; essa convivência intensa pode, muitas vezes, eliminar o interesse em relações com outras pessoas”, explica. Os eventos promovidos pela associação são oportunidades para troca de informações com pessoas em condições semelhantes. Ambientes herméticos, muitas vezes estimulados pela família, trazem dificuldades mais tarde. “Pode acontecer de os pais reforçarem o isolamento, seja por acreditar que gêmeos não devem ser separados, seja pela comodidade de ter as crianças brincando juntas”, diz Brustia.

SIMBIOSE AMEAÇADA

Dinâmicas familiares corriqueiras podem se tornar complexas. Um exemplo é a ligação simbiótica necessária entre mãe e filho, fundamental para a constituição do self, comprometida pela presença do outro bebê, constantemente também à espera de atenção. “Para a mãe é difícil agradar apenas a uma das crianças; enquanto frusta a outra, deixando-a esperar por seus cuidados, até o contato visual é menos frequente e mais fragmentado, o que leva muitas mulheres a se sentir em falta com seus bebês”, explica Brustia. Ao mesmo tempo, a presença de gêmeos quase sempre leva a um maior envolvimento do pai, muitas vezes fascinado pela fantasia da superpotência na concepção de duas crianças. Além disso, ao envolver-se nos cuidados, o homem se sente menos excluído da relação dual entre mãe e filho. “Em geral, apesar do atordoamento inicial, o nascimento de gêmeos é recebido como um privilégio.”

A psicóloga enfatiza, contudo, a necessidade de procedimentos que estimulem o desenvolvimento autônomo das crianças. “A distinção precisa começar durante a gravidez: a futura mãe deve evitar pensar em seus filhos como ‘os gêmeos,’ e considerar cada um separadamente.” Segundo ela, a diferenciação tem de ser mantida durante todo o processo de desenvolvimento das crianças. “A família não deve ceder ao desejo de formar uma ‘duplinha idêntica’, com roupas iguais e o mesmo corte de cabelo, por exemplo.” A escolha de brinquedos e, mais tarde, de escolas, também deve levar em conta os interesses de cada criança, nem sempre coincidentes. É importante criar oportunidades para que os irmãos se envolvam, cada um por si, em atividades diversas.

Nos casos em que as crianças são tratadas quase como clones, a separação tem de ser feita com cautela, para não interferir no desejo dos irmãos de brincar ou estudar juntos. Segundo a psicóloga, as duplas costumam responder bem à separação; mesmo assim, as escolas devem incentivar esse processo de forma gradativa, inserindo cada irmão em novos grupos. Nesse relacionamento, é comum que a curiosidade dos colegas torne os gêmeos mais requisitados. “É quando podem brincar com a turma, trocando de identidade sem ser notados.”

CÓDIGO SECRETO

Muitas crianças gêmeas adotam a criptofasia, isto é, criam códigos de comunicação exclusivos. Essa linguagem é expressa por meio de gestos, sussurros, silêncios, palavras inventadas, expressões comuns que assumem sentidos diversos. Muitas vezes essa cumplicidade se estende à fase adulta. Estudos mostram que a maioria dos gêmeos cria uma forma secreta de conversação em algum momento da vida. “Alguns pais e professores se incomodam com a situação, sentindo-se mais distanciados da dupla” afirma Brustia. Segundo ela, tais códigos ricos em expressões aparentemente desconexas – mas cheios de significados ocultos – surgem em crianças com idades entre 2 e 4 anos. Trata-se de uma forma de comunicação espontânea, que valoriza a simbiose gemelar, mas pode comprometer compreensões linguísticas e sociais. Embora revele cumplicidade, a criptofasia pode restringir outros contatos. Para não comprometer o desenvolvimento linguístico, os pais devem estimular a comunicação individual.

PASSIVO E DOMINANTE

A psicóloga Serena Lecce, professora da Universidade de Pavia desenvolve pesquisas com crianças desde o início da fase escolar com o objetivo de identificar o grau de autonomia nas relações entre irmãos (gêmeos ou não) e colegas. Ela já constatou que os univitelinos tendem a ter menos amigos e parecem aproveitar pequenas diferenças entre si de modo hierárquico, estabelecendo papéis a serem desempenhados por cada um. Estudos semelhantes realizados pela psicóloga Marta Bassi, professora da Universidade de Milão, indicam que pode surgir um tipo de identidade de dupla com atuações complementares entre os irmãos. Paralelamente, cada um desenvolve a própria percepção das situações, constituindo sua individualidade. Bassi também investiga a evolução do relacionamento entre gêmeos durante a adolescência. “Embora menos intensas que na infância, as trocas nessa fase revelam vínculos alicerçados no cotidiano compartilhado”, diz.

O psicólogo francês René Zazzo (1910-1995) classificou o fenômeno como “paradoxo gemelar”, referindo-se ao fato de indivíduos tão próximos e cúmplices desenvolverem, ao mesmo tempo, personalidades distintas e muitas vezes, conflitantes.

Numa dupla de gêmeos é comum haver o dominante e o passivo. O primeiro se responsabiliza pelo contato com as pessoas, enquanto o outro cuida da relação da dupla, mostrando-se mais tolerante e dependente da aprovação do outro. Essa diferenciação parece menor entre bivitelinos, capazes de construir vínculos mais equilibrados, menos hierárquicos. Alguns pesquisadores investigam se o contraste no comportamento de gêmeos idênticos poderia interferir na construção de relacionamentos afetivos.

Para as irmãs Ângela e Marina não é fácil estabelecer relações estáveis fora da dupla. “Talvez por não experimentarmos a carência que leva as pessoas a procurar um companheiro. Quem é gêmeo dificilmente se sente sozinho, mesmo em momentos difíceis”, diz Ângela. Ela lembra ainda a necessidade de compreensão por parte da terceira pessoa. “Quem se relaciona com um gêmeo deve aceitar, racional e emocionalmente, uma espécie de relação a três que pode ser trabalhosa.”

As pesquisas de Brustia identificaram vários casos em que os gêmeos evitavam envolvimento afetivo, com receio de que uma nova união comprometesse o relacionamento com o irmão. Não é raro o casamento entre duplas de gêmeos.

Uma maneira de buscar a própria identidade, mas sem se desligar da cumplicidade mais arcaica.

ETERNA LUTA ENTRE O BEM E O MAL

Na ficção, enredos que envolvem gêmeos fisicamente idênticos, mas com personalidades opostas e conflitantes, são bastante comuns. Segundo esses enredos, um sempre é o exemplo da bondade e da perfeição e outro, pérfido e invejoso. As telenovelas já exploraram esse argumento inúmeras vezes. O caso mais recente é o das irmãs Paula e Taís, interpretadas por Alessandra Negrini, em Paraíso Tropical, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Outros pares também se tornaram famosos na telinha: em 1981 foi a vez de Quinzinho e João Victor, vividos por Toni Ramos em Baila comigo, de Manoel Carlos; Ruth  e Raquel, em Mulheres de areia, de lvani Ribeiro, interpretadas por Eva Wilma em 1973 e, 20 anos depois, por Glória Pires. Em 1988 o ator britânico Jeremy lrons protagonizou os irmã os Mantle em Gêmeos, mórbida semelhança, de David Cronenberg. Os personagens, dois ginecologistas de sucesso, passam por um processo de enlouquecimento. O fenômeno, conhecido como “perturbação psicótica partilhada”, envolve duas pessoas da mesma família com os mesmos interesses e modos de vida. Em geral, um deles desenvolve a perturbação primária e induz o outro, mais suscetível, ao distúrbio. A literatura também tem bons exemplos de histórias de gêmeos. Em Dois irmãos, prêmio Jabuti de melhor romance em 2001, o escritor amazonense Milton Hatoum mostra as diferenças entre Omar, boêmio e mimado, e Yaqub, um engenheiro conservador. No clássico Esaú e Jacó, de 1904, Machado de Assis inspira-se na passagem bíblica sobre a rivalidade entre irmãos para contar a história dos gêmeos Pedro e Paulo.