EU ACHO …

EDUCAÇÃO DE RESULTADO

A pandemia da Covid-19 deixa uma importante lição para os professores do País. Sem dependência de tecnologia e de altos investimentos e com muito trabalho duro é possível promover uma boa aprendizagem. O que importa mesmo é a qualidade do conteúdo

Ensino híbrido, digital, aulas online. Esses três temas têm sido considerados sinônimos de novos rumos educacionais e de boa aprendizagem. A pandemia que tirou os estudantes das salas de aula parecia mostrar que os caminhos da educação levavam à quase substituição radical do ensino presencial pelo remoto. As soluções pareciam adequadas somente aos países desenvolvidos, onde os altos investimentos na área e a igualdade da população tornam os problemas menos graves do que no Brasil. No entanto, escolas públicas, com pouquíssimos recursos e situadas em regiões desprovidas de riquezas econômicas tiraram lições importantes e essenciais da pandemia e mostraram que a educação de resultado não está diretamente ligada ao que chamamos de infraestrutura de ponta, em que a tecnologia vale mais do que o bom e velho giz e lousa. O segredo, desvendado em meio ao caos, foi a junção da mobilização de educadores com foco no conteúdo. A verdade é que os professores mostraram que uma boa qualidade é bem mais analógica do que híbrida. “As escolas que ganharam prêmios de gestão tiveram por trás professores engajados”, diz o catedrático da USP, Mozart Neves. “Ou seja: Eles não deixaram seus alunos”.

Como, então, esses educadores conseguiram transformar o desespero de uma educação à distância em resultados concretos? Para isso, é preciso dividir e separar as etapas que foram desenvolvidas por escolas que atingiram os níveis desejáveis da aprendizagem de seus alunos. No pequeno município paulista de Jarinu, por exemplo, a direção da Escola Orlando Mauricio Zambotto fez, antes de mais nada, um levantamento para saber quais dos mil e setenta e três alunos tinham acesso à internet e qual era a qualidade desse serviço. Afinal, os estudantes, em sua grande maioria, moravam em sítios, periferias e em roças, locais onde até a chegada do rádio e televisão é difícil. Assim que a pandemia fez com que a escola fosse fechada, a diretora, Camila Leme, e o vice-diretor, Eder Pagani, começaram o levantamento de dados para que se tivesse em mãos a situação da conexão dos alunos. Descobriam que apenas 60% deles estavam conectados. “O WhatsApp era a melhor ferramenta para alunos com celular, porque muitas operadoras disponibilizam o uso desse aplicativo sem gasto de dados móveis”, diz Camila. Por meio do aplicativo, os professores estabeleciam comunicação com alunos e dirimiam dúvidas. Já para aqueles que nem acesso ao WhatsApp tinham, o trabalho foi redobrado. “Abrimos a escola para que os pais e os nossos educadores começassem a desenvolver um material impresso, os chamados roteiros adaptados”.

TUTORES DE CLASSE

Os roteiros são materiais impressos nos quais os professores desenvolvem atividades baseadas em habilidades essenciais e entregam aos alunos que têm cerca de uma semana para exercerem as atividades. Os alunos devolvem aos professores, tudo é corrigido e volta às mãos dos estudantes. Um modelo cíclico e analógico. “O resultado foi expressivo. De nossas trinta e três turmas quase todas ficaram no nível proficiente. Conseguimos 100% de aprovação”, diz Pagani. Para buscar os alunos sem conectividade e que, muitas vezes, nem conseguiam ir à escola, os educadores nomearam tutores de classe – responsáveis por acompanhar o desenvolvimento dos colegas e auxiliar na entrega dos roteiros. A fórmula de sucesso da escola Orlando Zambotto não inclui tecnologia e investimentos milionários. “Alunos de famílias pobres têm em geral uma única chance de vida, que é ter um grande professor em uma boa escola”, diz o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

No município amazonense de Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus, os professores embarcaram em uma canoa e foram atrás de alunos que estavam sem lição de casa. Com aulas online eles só conseguiam atingir 50% dos estudantes. Assim que começaram a ir à casa dos alunos, esse número subiu para 90%. A referência é da escola estadual Careiro da Várzea, localizada no rio Amazonas. Em todo o País, quase cinco milhões de crianças e jovens ficaram sem material escolar por falta de conectividade. “Os pais falavam que o ano estava perdido porque não tinham condições de comprar um celular”, diz a coordenadora da Unicef, Márcia Roseth. Entretanto, o pequeno aparelho tão falado e disputado em tempos de distanciamento social e fechamento de escolas, não foi e não é essencial para a aprendizagem. Antes disso, é preciso que a escola tenha um bom relacionamento com os pais, sem nunca inverter os papéis. Família é família e escola é escola. As salas de aula não devem ser ringues de luta, ou seja, o aluno não está lá para competir com o colega. Cada um funciona a sua maneira e as individualidades precisam ser respeitadas. E o foco deve estar no conteúdo. “A ideologia não é arte, não é fato ou fenômeno científico”, explica a fundadora da Unicamp e presidente da Associação Nacional da Educação Básica Híbrida, Maria Inês Fini. “A escola brasileira pode aprender muito com as experiências locais bem-sucedidas.”

ENTRE O MAR E A TERRA

O aprendizado educacional pode vir de dentro do nosso País – e não somente de lugares como, por exemplo, a Finlândia. Até porque o Brasil conta somente com um computador para cada quatro alunos. “Eu penso que o colégio é um local que humaniza, mas jamais pode perder a essência de que é um lugar no qual conteúdos são ensinados”, afirma Eduardo Vieira, diretor da escola capixaba Governador Lindenberg. “A escola precisa trabalhar o conteúdo e, em cima dele, as vivências práticas da vida”. Vieira, durante a pandemia, fez a individualização dos alunos, produziu roteiros de estudos e, também, motivou a independência deles: Quando desenvolvemos a busca do conhecimento, os estudantes conseguem entender que a tecnologia não é a única ferramenta de uma boa aprendizagem”. Já a gestora Marta Ribeiro, da escola cearense Joaquim Moreira de Sousa, defende uma educação nem “tanto ao mar, nem tanto à terra”: “Aqui trabalhamos educação financeira, emocional, familiar, lado a lado com a matemática e o português, por exemplo”.

Fora de uma realidade de educação a distância e em meio a uma pandemia que obrigou brasileiros a ficarem em casa, é possível aprender com o exemplo do Ceará que, apesar de não ser rico como os estados do Sul e Sudeste, garantiu um tratamento igualitário para seus alunos. O Ceará passou a ser modelo de educação quando decidiu investir na alfabetização — hoje atingiu a tão desejada totalidade de alunos alfabetizados. “O maior trunfo da educação cearense é a comunicação integrada entre estado e municípios”, diz o secretário executivo do ensino médio e profissional do Ceará, Rogers Mendes. “Quando conseguimos a meta de cem por cento de alfabetização, os adolescentes passaram a chegar ao ensino médio com nivelamento de conteúdos”. Educar é, afinal, valorizar a individualidade de cada criança, acolhê-la em um mundo que existe antes de ela nascer. É colocá-la a par da realidade, abrindo-lhe caminhos para o futuro. É também estimular pensamentos questionadores. A boa educação está aqui e agora, nos quatro cantos do País, e nela se valoriza o bom e velho lápis e papel, mais do que a rede Wi-fi. Como dizia a pensadora Hannah Arendt, “a função da escola é ensinar as crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver”.

OUTROS OLHARES

A POLÍTICA DO CHÁ DE SUMIÇO

O bilionário Jack Ma, dono do gigante Alibaba, engrossa a lista dos empresários que criticam o regime chinês e, em seguida, desaparecem misteriosamente

Era para ser o maior IPO – termo em inglês para oferta inicial de ações – de todos os tempos. O Ant Group, braço financeiro do gigante do comércio eletrônico Alibaba, superaria os dois recordes anteriores: o da própria holding e o da Saudi Aramco, companhia saudita líder em petróleo. Abrir o capital em bolsa significa ganhar milhares de sócios que, por meio de ações, fortalecem o caixa da empresa. O mercado esperava que o Ant Group levantasse 35 bilhões de dólares quando fizesse sua oferta em novembro, mas, de repente, por ordem do governo da China, o processo foi cancelado. Na sequência, o bilionário Jack Ma, fundador da Alibaba, não foi mais visto em público.

Até o fechamento da matéria, seu paradeiro era desconhecido. Sabe-se que ele vinha fazendo críticas aos reguladores do sistema financeiro chinês, os quais chamou, em uma conferência em Xangai, de “retrógrados que impediam que o crédito fluísse a indivíduos e pequenas empresas”. Ninguém do Ant Group e da Alibaba comentou o sumiço do chefe, o que aumentou ainda mais o mistério. Não foi um caso isolado: de acordo com levantamento da revista americana Forbes, pelo menos seis bilionários e grandes empresários desapareceram por um tempo após quebrar regras impostas pelo Partido Comunista Chinês.

Portanto, é fácil relacionar o desaparecimento de Jack Ma com a suspensão do IPO de sua empresa. Difícil é compreender o que está por trás da recente mobilização do partido em direção à Alibaba e a outras big techs, que cresceram exponencialmente nos últimos dez anos – com a infraestrutura do governo, é verdade, mas também com criatividade, velocidade e empreendedorismo de causar inveja a estrangeiros.

A Alibaba é uma multinacional de trilhão de dólares em faturamento, que engloba, além dos serviços financeiros do Ant Group, o aplicativo de pagamentos AliPay e as vendas on-line AliExpress, Taobao e Tmall. Graças a seu avanço e ao de outros empreendedores, o modo de consumir na China tornou-se quase inteiramente digital e o dinheiro físico desapareceu nos grandes centros urbanos. Costuma-se dizer que até mendigos pedem esmolas por transferência.

Jack Ma,o fundador desse império, é um empreendedor de 56 anos, pai de três filhos, que aprendeu a falar inglês ainda pequeno. Nascido em Hangzhou, a capital da província de Zhejiang, Ma teve forte influência ocidental em sua formação, o que faz dele um entusiasta da livre-iniciativa. Estrela em ascensão, é o criador de um programa de TV de empreendedores africanos. Chamado Africa’s Business Heroes, é similar ao Shark Tank exibido no Brasil e tem o magnata em pessoa como um dos jurados. Mas ele não se apresenta desde novembro.

Por várias razões, a importância de Jack Ma vai além de sua fortuna. Expondo-se à mídia ocidental, ele se tornou embaixador das demais big techs chinesas, afiançando ao mercado que elas estariam fora do alcance do partido comunista – asserção que se mostrou precipitada. Ao que tudo indica, o presidente XiJinping não quer ver as companhias que estão moldando seu país longe do controle do governo. Supostamente por esse motivo, a administração Trump empenhou uma cruzada de banimento de empresas chinesas da bolsa de Nova York.

Semanas atrás, o Ant Group passou a restringir acesso a empréstimos. Mesmo alegando ser uma campanha de consumo consciente, a Alibaba não conseguiu esconder que está passando por uma investigação antitruste: ela teria chegado a um nível de poder inaceitável para o partido. Especula­ se que as demais empresas de tecnologia sejam o próximo alvo.

O certo é que o poder central não tolera desafios. Em setembro passado, o rei do mercado imobiliário Ren Zhiqiang foi condenado a dezoito anos de prisão por corrupção. Seis meses antes, ele havia criticado Xi Jinping na eclosão da Covid-19. Jack Ma é mais poderoso do que Zhiqiang. É possível que só tenha se isolado para refletir sobre sua impetuosa cutucada em um dragão que estaria ficando sonolento mas que, na verdade, nunca dorme.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE FEVEREIRO

MALDADE, UM LAÇO PARA OS PÉS

A justiça dos retos os livrará, mas na sua maldade os pérfidos serão apanhados (Provérbios 11.6).

Vale a pena ser honesto. Mesmo que a integridade prive você dos tesouros desta terra, ela lhe concederá paz na pobreza e livramento na hora da crise. A consciência sem culpa é melhor do que a riqueza iníqua, e o caráter íntegro vale mais do que o sucesso meteórico. A justiça dos retos os livrará, senão diante dos homens, certamente diante de Deus. José do Egito foi considerado culpado pelo tribunal dos homens, mas era inocente diante do tribunal de Deus. Daniel foi condenado à cova dos leões pelos homens, mas sua integridade o livrou da morte. João Batista, mesmo tendo sido degolado por ordem de um rei bêbado, tem sua memória abençoada na terra. Não é assim, porém, com o ímpio. Ele pratica o mal às escondidas, na calada da noite. Mas o que ele faz no anonimato Deus traz à tona, à plena luz do dia. Os pérfidos serão apanhados na sua maldade. Eles cairão na própria armadilha que arquitetaram para os outros. Receberão a maldita recompensa de seus próprios atos malignos. A Bíblia diz que só os loucos zombam do pecado, pois eles serão apanhados pelas próprias cordas do seu pecado, e o salário do pecado é a morte (Provérbios 5.22; 14.9a; Romanos 6.23).

GESTÃO E CARREIRA

MERCADO MACHISTA

Qualquer um que não viva em Júpiter sabe da discrepância salarial entre homens emulheres: em 2019, o rendimento médio mensal deles no Brasil foi 28,7% maior. Mas há outra informação, também preocupante: as mulheres são maioria entre quem busca trabalho e não encontra. Veia esse eoutros dados aqui.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ARTES DA LOUCURA

Obras produzidas por pessoas com transtornos mentais podem estabelecer comunicação entre o universo psíquico e o mundo exterior

A proximidade entre arte, genialidade e doenças psiquiátricas tem exercido, ao longo dos séculos, verdadeiro fascínio sobre cientistas. Já na Antiguidade, o filósofo grego Platão qualificou mania – a “exaltação da alma”- como presente dos deuses a artistas e poetas. No diálogo Fedro, ele escreveu: “Ora, toda grandeza se dá no âmbito da loucura”. Mais de 2 mil anos depois, em 1811, o médico americano Benjamin Rush (1745-1813) observou algo bem parecido acerca da força criativa do “enlouquecimento”: “Mediante uma exaltação sobrenatural, a porção do cérebro livre da manifestação atinge um patamar de consciência capaz de revelar dons até então ocultos”.

Rush comparou a esquizofrenia a um terremoto que desloca placas tectônicas do “espírito civilizado” e libera um potencial submerso equivalente a fósseis valiosos. Essa perspectiva romântica da doença mental ressurge com frequência no pensamento científico. Não se trata, entretanto, de fixar correlações entre criação artística e esquizofrenia: a doença, em si, não faz de ninguém um artista. Trata-se de reconhecer características peculiares nas obras e perceber o que talvez seja uma luta desesperada para reencontrar o self perdido e sua antiga constituição. Para essas pessoas pode ser mais confortável buscar, em vez de na vida real, a identidade no universo hermético da obra de arte. O paciente esquizofrênico parece recobrar, mediante a criação plástica, um momento inestimável de sua liberdade de ação.

No fim do século XIX, o psiquiatra e antropólogo italiano Cesare Lombroso (1835-1909) popularizou a visão romântica das relações entre arte e doenças mentais. Em seu trabalho Gênio e loucura, de 1888, ele analisou importantes pintores e escritores de seu tempo e encontrou sinais de “vulnerabilidade psíquica” relacionada a aspectos genéticos. Ele parecia influenciado pela teoria psiquiátrica da degenerescência, em voga na época, segundo a qual a humanidade estaria sujeita à decadência hereditária. Cinquenta anos depois, os nazistas retomaram as concepções de Lombroso, sobre as quais impuseram seu próprio viés. Na célebre exposição itinerante Arte degenerada (1937-1941), foram mostrados trabalhos de doentes mentais ao lado de obras de artistas contemporâneos, com o intuito de reduzir produções modernas à condição de “doentias” e “desvirtuadas”. Ao mesmo tempo, pintores surrealistas enalteciam os trabalhos de portadores de distúrbios psíquicos como criações revolucionárias, anti racionais, expressões do inconsciente livre de amarras.

Há, de fato, intersecção entre criatividade artística e doenças psíquicas. O pintor alemão Friedrich Schrõder­Sonnenstern (1892-1982) iniciou sua produção logo após manifestação de distúrbio mental. O poeta, pintor e compositor suíço Adolf Wõlfli (1864-1930) criou seu próprio vocabulário e um sistema numérico, além de uma espécie de mitologia particular. Já o holandês Vincent van Gogh (1853-1890) pintava antes do surgimento da psicose. Outros pintores como o norueguês Edvard Munch (1862-1944) e o suíço Louis Soutter (1871-1942) também são conhecidos por seu histórico de distúrbios mentais. Acreditamos que, na maioria dos casos, um artista não cria grandes obras em virtude de seus transtornos psíquicos, mas apesar deles.

ESTILO ORIGINAL

A psicose, entretanto, parece operar uma transformação na forma de expressão e no estilo. Talvez por isso Van Gogh tenha pintado suas telas mais importantes nos primeiros quatro anos e meio a contar da manifestação da doença. Também Munch criou muitos de seus trabalhos mais conhecidos por volta de 1895, durante severas crises de depressão e abuso de álcool. Evidentemente, nem todos os artistas com transtornos mentais se tornam célebres. A imensa maioria permanece no anonimato, em arquivos de instituições. Uma coleção bastante conhecida de criações de artistas esquizofrênicos leva o nome do psiquiatra e historiador da arte alemão Hans Prinzhorn 11886-1933). Em 1919 ele encarregou o então diretor da clínica psiquiátrica de Heidelberg, o médico Karl Wilmanns (1873-1945), de organizar um “museu para a arte patológica”, com a produção plástica de doentes mentais. Três anos depois Prinzhorn deixou Heidelberg e os planos não se concretizaram. O projeto possibilitou, entretanto, reunir produções de diversos estabelecimentos psiquiátricos, inclusive de fora da Alemanha. Entre 1885 e 1925, foram selecionados cerca de 5 mil trabalhos de aproximadamente 450 internos. Sem influência de medicamentos antipsicóticos, inexistentes na época, essas obras revelam características peculiares, ao mesmo tempo universais e singulares. São desenhos ou guaches, pinturas a óleo, trabalhos com fiação e tecidos, colagens e esculturas de madeira. Os pacientes improvisaram cores e formas usando materiais à sua disposição no hospital: folhas de papel ofício, calendários, formulários, jornais ou papel higiênico. Surgiu daquele material uma profusão de cores em obras de arte providas de certa engenhosidade e, é preciso reconhecer, ímpares. Com essa produção, Prinzhorn organizou o livro Expressões da loucura (1922), considerado referência no estudo da relação entre distúrbios psíquicos e arte. O psiquiatra analisou e classificou as obras segundo sinais figurativos característicos, de simples rabiscos a exemplares simbolicamente bastante complexos. Em dez peças escolhidas na coleção, ele conseguiu relacionar a obra à história de vida do autor, resgatando a individualidade dos pacientes. Como o processo de criação era voluntário e não precedido de preparação, restava saber o que impelia os portadores de transtornos psíquicos a expressar-se daquela forma. Prinzhorn acreditava que cada pessoa contém em si um ímpeto criador, escondido sob o processo civilizatório. A esquizofrenia possibilitava a expressão desse impulso, mesmo em indivíduos sem nenhum conhecimento artístico.

Era precisamente essa a concepção de artistas de vanguarda. Criações muitas vezes excêntricas e grotescas eram, para eles, formas originais da expressão figurativa, comparáveis à arte produzida por crianças ou povos primitivos. Com essa forma de interpretação, o desenhista e escritor austríaco Alfred Kubin (1877-1959) visitou o acervo de Heidelberg e redigiu um relatório surpreendente a respeito da coleção. O trabalho de Prinzhorn acabou influenciando também Salvador Dalí, Paul Klee, Max Ernst e Pablo Picasso, entre outros representantes do surrealismo europeu. A história posterior do acervo reflete mudanças culturais do século passado. Numerosas exposições foram organizadas até 1933, quando os nazistas passaram a usar as obras como propaganda ideológica. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a coleção caiu no esquecimento e somente na década de 60 voltaram a ser realizadas algumas pequenas mostras do acervo. No início dos anos 80, a médica lnge Jádi, da clínica psiquiátrica da Universidade de Heidelberg, submeteu as obras a processo científico de catalogação e conservação, preparando-as para apresentações em Londres, Lisboa e Nova York. Em setembro de 2001 a coleção foi reunida na exposição permanente Visão de Wilmanns, em Heidelberg, para inauguração do Acervo Prinzon.

EXPRESSÃO INCONSCIENTE

O símbolo oficial da coleção é uma tela de Josef Forster (1878-?), paciente da clínica Regensburg. A obra, produzida em 1916, traz a forma delicada de um homem sustentado por longas pernas de pau com pesos em suas extremidades. Distante do chão, ele se equilibra sobre muletas, parecendo flutuar. Seu rosto está coberto por um tecido, como máscara ou mordaça. No canto superior direito da gravura, Forster escreve: “Temos aqui algo a representar uma pessoa já sem o peso incômodo de seu corpo; ela pode, nessa medida, com mais velocidade mover-se pelo ar”. De fato, a tela mostra uma pessoa que parece já não sentir o próprio corpo, não tem o chão firme sob os pés e busca se conceder, pela arte, um peso que, de outro modo, já não experimenta; talvez a enfermidade tenha lhe roubado a capacidade natural de comunicar-se. O paciente empreende sua busca “sobre pernas de pau”, sem contato com as pessoas: é o modo como encontra o seu caminho. Mesmo assim expressa possibilidade de alegria: capacidade de criar é, assim, “se locomover pelo ar a grande velocidade. O psiquiatra suíço Ludwig Binswarger (1881-1966) descreveu esse traço como maneirismo ou extravagância. Segundo seus estudos, falta “aderência ao esquizofrênico, que teria perdido o chão de sua existência e o contato com os outros; por isso precisaria do auxílio da arte solitária. Binswanger complementou sua análise com a declaração de um de seus pacientes: “Sou lançado ao mundo preso apenas por uma linha: a qualquer momento esse fio pode ser cortado e eu irei embora de vez”.

As possibilidades de expressão dos portadores de transtornos mentais transcendem o ímpeto constitutivo desordenado. Os esquizofrênicos são com frequência inundados por associações e sensações expressas de maneira intensa – um processo difícil de ser descrito com precisão. Abre-se, assim, para o doente, um mundo individual e peculiar, onde ele pode dar forma e organizar vivências inominadas e, para ele, ameaçadoras.

CONTRA ALUCINAÇÕES

Pintar ou desenhar significa a possibilidade de imputar, a esquemas internos, uma forma concreta, visível. O paciente pode atribuir, à imagem por ele criada, a leveza que não encontra a realidade. Se o esquizofrênico é condenado à passividade ante suas vivências psicóticas, ele confere à sua criatividade plástica uma experiência de “efeito-resposta”. O esquema interno é sucedido pela ação, que pode levá-lo a ancorar-se novamente na realidade. Alguns artistas esquizofrênicos como Adolf Wolfli conseguiram deslocar o foco de suas alucinações. O artista americano Richard Lachman, nascido em 1928, mostra esse movimento. Seu trabalho The voices never stop foi concebido durante uma aguda crise psicótica.

Podemos imaginar como é, para pessoas como Lachman, ser conduzido por vozes. “No período de internação eu as ouvia me dizendo o que fazer. Quando pintei o quadro, estava tão doente que já não conseguia distingui-las de meu pensamento. Eu me via sob ataques e agressões de pessoas e forças à minha volta.” Mais tarde Lachman contou como lhe foi possível, durante as crises, comunicar algo, e assim se fortalecer psiquicamente deixando a condição de vítima para adquirir alguma autonomia por meio da arte. “Em vez de direcionar os pensamentos para mim mesmo, passei a, de novo, entabular relações com os outros.”

O paciente pode se expressar em um espaço simbólico protegido como sujeito determinado e ativo. O objeto de sua criação ocupa o lugar do outro ou do espelho no qual ele reconhece seu próprio mundo, ainda que desfigurado. Com sua produção artística oferece informações a outras pessoas, mesmo que o universo de conteúdos abstratos, cores e formas com o qual estamos acostumados nem sempre seja compatível com representações mais elaboradas.

A mudança no conceito de arte no século XX permite observar as excentricidades dessas criações, sem considerá-las – ou a seus autores – estritamente sob a óptica da doença. Na expressão da dor, amenizada artisticamente nesses quadros, é possível apreender algo sobre a tragicidade da condição humana em face do insondável abismo da alma: as imagens representam pontes para o mundo do paciente – mesmo que demoremos a reconhecê-las como tal.

TALENTOS BRASILEIROS

Em 1957, durante o Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique, o suíço Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, viu, pela primeira vez, as obras de arte produzidas por pacientes internados em hospitais psiquiátricos no Brasil. O trabalho o surpreendeu. “Fiquei impressionado com a pintura dos brasileiros, pois elas apresentam, no primeiro plano, características habituais da pintura esquizofrênica, mas em outros planos há harmonia de formas e de cores que não é habitual nesse tipo de obra”, comentou. A grande incentivadora da expressão do inconsciente foi a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), fundadora do Museu das Imagens do Inconsciente. Trabalhos dos pacientes psiquiátricos Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) e Adelina Gomes (1916-1984) se destacam. Ela produziu cerca de 17.500 peças, entre quadros e esculturas. Bispo costumava dizer que suas peças eram “uma homenagem aos anjos e à Virgem Maria” e, no dia do juízo final, seriam “apresentados ao Todo-Poderoso”. Sua obra ultrapassou os limites do manicômio e em 1995 foi exposta na Bienal de Veneza.

INTERMINÁVEIS CALENDÁRIOS DA MORTE

Muitos trabalhos do Acervo Prinzhorn revelam conteúdos carregados de racionalidade. É o que mostram as telas do comerciante alemão Heinrich Josef Grebing (1879-1940), impregnadas de conteúdo quase lexical. Grebing foi vítima de psicose aguda que transformou completamente sua vida. Ele reunia informações desesperadamente, produzia listas intermináveis, criava calendários, ordenava colunas de números posteriormente ornamentadas com requinte artístico, como se buscasse um antigo significado para fenômenos, situações e para a própria vida. A atividade tornou-se obsessiva: numa folha de papel coberta com números minúsculos que representavam a contagem de centenas de anos, o surgimento de um erro o levava a cancelar o cálculo, arruinando seu trabalho, reiniciado posteriormente. Além desse, Grebing escreveu calendário mórbido, acreditando que a disposição dos algarismos escondia a numerologia da morte.

Grebing parece revelar a fragilidade do mundo, dos construtos de pensamentos enganosos. Seus trabalhos costumam ser descritos como “obras de arte do engano”. Embora não tenham sido concebidas como contraposição à ameaça de morte e da dissolução egóica, tinham uma função organizadora para o paciente.