EU ACHO …

COMO SERÁ A ESCOLA DEPOIS DA COVID-19?

Estamos prestes a reabrir gradualmente, as portas das escolas após esse terrível ano, de pandemia que, diga-se de passagem, ainda não terminou. Nesse momento, incontáveis dúvidas. passam pela cabeça dos pais, professores, estudantes e direção. Medos, incertezas, angústias e receios diante do cenário nebuloso que se apresenta. Mas, o objetivo desse texto é ir um pouco além do momento atual. Gostaria de jogar uma luz sobre o cenário futuro das escolas, após o término da pandemia. Quais são as heranças que ela vai nos deixar? Farei agora um breve exercício de futurologia, mas gostaria de esclarecer aos leitores que não, tenho poderes mágicos nem premonitórios. Os pontos a seguir tem como base a minha experiência de quase trinta anos em sala de aula.

As máscaras vieram para ficar. Mesmo com o advento da vacina e a erradicação ou controle da Covid-19, acredito que as pessoas nunca mais agirão do modo como era antes da pandemia. Ela nos mostrou o quanto rápido uma doença desconhecida pode se espalhar e trazer danos. Aliás, o uso de máscara já era um hábito, mesmo antes do momento em que vivemos por habitantes de países como Japão e Coreia. Assim, dentro de escolas que são ambientes de aglomeração por excelência – acredito, que a máscara fará parte do cotidiano daqui para frente. Isso, sem contar os protocolos de higienização frequente das mãos com água, sabão e álcool gel.

Aqueles bebedouros comunitários tão comuns nas escolas também estão fadados a virar peça de museu.

Conheci e trabalhei em alguns colégios que tinham mais de sessenta alunos por sala e quase não havia espaço para andar entre as carteiras. Sinceramente, não consigo enxergar a sobrevivência desse modelo de negócios pós pandemia. Isso sem falar nos cursinhos que muitas vezes chegam a ter mais de duzentos estudantes em uma sala, muitas vezes sem ventilação eficiente. Como falei, esse modelo terá que ser repensado. E quais, suas consequências? Aumentar as mensalidades para compensar a menor quantidade de alunos? Se isso acontecer esse tipo de ensino ficará ainda mais elitizado do que já é, pois poucos conseguirão pagar os valores cobrados.

Uma outra percepção que a maioria das pessoas teve durante a pandemia foi de como desperdiçamos tempo, dinheiro e energia tendo deslocamentos e fazendo trabalhos que poderiam ser feitos em casa, sem qualquer prejuízo. E a escola não passaria ilesa a isso. Creio que o futuro das escolas, mesmo com a volta presencial é manter vários dos processos online, ou seja, teremos um modelo de ensino híbrido dominando daqui para frente. Penso, não só nas escolas, mas para todas as atividades que os encontros presenciais serão os assim chamados momentos nobres e os momentos não tão nobres ficarão para o remoto. O que merecerá ser chamado de nobre e o que não, é a pergunta que não quer calar.

Em resumo, acredito que uma herança que a pandemia vai nos, trazer é que na educação, as atividades presenciais ficarão cada vez mais elitizadas, oferecidas cada vez a menos pessoas que puderem pagar por elas. Enquanto o ensino on-line se tornará a modalidade de ensino massificada disponível à grande maioria das pessoas. Se por um lado isso pode proporcionar contato com ótimos professores on-line e dar acesso à conteúdos de qualidade, por outro lado, os privará de boa parte do contato presencial, tão importante também por outros aspectos como as interações sociais. Lembrando que temos ainda uma grande massa de pessoas e estudantes que nem acesso à internet tem. Esses, infelizmente, ficarão ainda mais excluídos, para exercer sua cidadania e tomar seu papel na sociedade. Se tudo que expus nesse texto vai acontecer só, o futuro nos dirá. Mas uma coisa é certa: a escola será a mesma depois da Covid-19.

*** PROF. JORDY – Educador, Tutor e Mentor de estudos.

jordy@didatike.com.br / Instagram:@didatike

OUTROS OLHARES

CAPITALISMO SENSÍVEL

A crise do coronavírus se transformou na oportunidade de bilionários, financistas e grandes empresários mostrarem que seu comprometimento com as causas sociais vai além da retórica

Um dos economistas mais influentes do século XX, o inglês John Maynard Keynes (1883-1946) não escondia sua opinião sobre a incapacidade do capitalismo de promover por conta própria o bem­ estar da sociedade. Para ele, a lógica por trás do acúmulo de capital estava fundeada de tal forma na obsessão pelo lucro e no individualismo que não havia espaço para questões sociais. “O capitalismo é a crença segundo a qual nem mesmo o mais insignificante dos homens fará a mais insignificante das coisas para o bem comum”, definiu.

Segundo Keynes, tal posicionamento é uma decorrência do animal spirit (espírito animal) dos empresários e financistas, alimentado pelo laissez-faire liberal Obviamente, vista pelas lentes atuais, essa concepção é hoje exagerada, e o próprio capitalismo já encontrou mecanismos para domar seu lado mais selvagem – coisa que os relatórios de responsabilidade social das empresas costumam exibir com números e imagens tocantes. Ainda assim, chama atenção o comportamento de alguns dos mais notáveis ícones do mundo do dinheiro em meio à pandemia de coronavírus que assola o planeta.

Bill Gates, fundador da Microsoft, tornou-se provavelmente a face mais emblemática do apelo à ação dirigido aos ricos e poderosos do planeta. Dono de uma fortuna estimada em 100 bilhões de dólares, posicionou-se desde o princípio da epidemia como defensor de uma rígida quarentena nos Estados Unidos, mesmo com a ameaça de derrocada financeira e vultosos prejuízos às empresas e a oposição da maioria de seus pares e do presidente Donald Trump. Em seguida, anunciou a doação de 125 milhões de dólares a fundos de amparo a vítimas. Não bastasse, há duas semanas, em 3 de abril, afirmou em um programa de TV que apoiará financeiramente o desenvolvimento de sete novos produtos farmacêuticos com potencial de se transformarem em vacinas contra o coronavírus. “Vamos bancar esses projetos e fazer com que as coisas andem mais rápido. Sabemos que provavelmente apenas um ou dois deles trarão o resultado que esperamos, mas, quando isso acontecer, teremos tudo pronto para produzi-los e nos empenhar para que cheguem mais depressa às pessoas, provavelmente a partir de setembro”, explicou. “Gastaremos alguns bilhões de dólares nisso, mas o que é esse valor diante dos trilhões de dólares e das vidas que perderemos com a epidemia?”

O dono da Microsoft não está sozinho. Por todo o mundo, empresas se envolveram na produção de produtos para uso no combate ao vírus ou para ajudar a atenuar o efeito dos impactos econômicos da epidemia. O investidor húngaro George Soros, que tem uma fortuna de 7 bilhões de dólares, doou 1 milhão de dólares para a luta contra o coronavírus em Milão e quantia similar à sua cidade natal, Budapeste, não sem antes atacar os europeus pelo fracasso no controle da crise. Jack Ma, fundador do Alibaba, colosso chinês do comércio on-line, despachou mais de 500.000 kits de testes contra o Sars-CoV-2 e 1 milhão de máscaras para os Estados Unidos ao saber que o país não dispunha desse material para fazer frente à chegada do vírus a seu território. Da mesma forma, enviou 1,5 milhão de kits para testes rápidos, 20.000 kits para a realização de análises laboratoriais, 100.000 máscaras de uso médico e 1.000 uniformes de proteção para ser distribuídos nos países africanos mais atingidos pela doença.

No Brasil, a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) contabiliza as doações para minimizar os impactos da Covid-19 no país. A boa notícia é que os capitalistas brasileiros parecem ter entrado em sintonia com seus pares globais nesse esforço. Feitas por bancos, empresas e pessoas físicas para ampliar a estrutura hospitalar e amparar a população mais vulnerável, as contribuições já ultrapassaram a casa dos 850 milhões de reais (o que é muito em nossa rala tradição de filantropia). A Fundação Itaú Social e o Instituto Unibanco lideram, juntos, a lista, com 150 milhões de reais empenhados em diversas ações. O BTG, do banqueiro André Esteves, separou 50 milhões. Em paralelo, a ONG Gerando Falcões, ligada ao investidor Jorge Paulo Lemann, levantou 8 milhões de reais para ser aplicados na compra de víveres destinados a famílias afetadas pela crise. “O governo sozinho não vai resolver a situação. É um problema que cabe à sociedade como um todo”, diz Edu Lyra, presidente da entidade.

Não há dúvida de que os governos, em geral, são muito mais rápidos no anúncio de medidas que em sua execução. Na entrevista em que anunciou seu apoio ao desenvolvimento das vacinas, Gates resumiu o que existe por trás do espírito filantrópico em tempos de coronavírus: “Não é apenas dinheiro. A questão é que nós podemos fazer isso de forma mais rápida, eficaz, sem entraves políticos e burocráticos”. Um discurso afinado com os fundamentos daquilo que os especialistas chamam de capitalismo corresponsável. “A era do capitalismo selvagem, a riqueza pela riqueza, não existe mais. A natureza do capitalismo está mudando, e o sistema está se tornando mais corresponsável”, explica o economista Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Os novos tempos parecem contagiar mesmo aqueles cujo espírito animal é extremamente feroz. Líderes de algumas das instituições mais agressivas nos negócios reconhecem que a situação exige uma transformação. Laurence Fink, fundador e CEO do fundo de investimentos BlackRock, que gere 230 bilhões de dólares em ativos, declarou que “o fracasso dos governos em prover respostas para os problemas que enfrentamos leva a sociedade a olhar para as empresas e chamá-las para ajudar na solução”. Jamie Dimon, presidente do banco JP Morgan Chase, foi na mesma linha e disse recentemente que as instituições mais ricas do mundo precisam deixar de lado o imediatismo do lucro rápido. “Precisamos partilhar as recompensas de nosso crescimento”, afirmou. A pandemia do coronavírus e o caos econômico à vista tornam-se a oportunidade ideal para que os adeptos do capitalismo sensível mostrem que tais frases não são apenas retórica. Mas um novo princípio.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE FEVEREIRO

HUMILDADE, O CAMINHO DA SABEDORIA

Em vindo a soberba, sobrevém a desonra, mas com os humildes está a sabedoria (Provérbios 11.2).

Um indivíduo soberbo é aquele que deseja ser mais do que é e ainda se coloca acima dos outros para humilhá-los e envergonhá-los. O soberbo é aquele que superdimensiona a própria imagem e diminui o valor dos outros. É o narcisista que, ao se olhar no espelho, dá nota máxima e aplaude a si mesmo, ao mesmo tempo que endereça suas vaias aos que estão à sua volta. É por isso que o sábio diz que, em vindo a soberba, sobrevém a desonra. A soberba é a sala de espera da desonra. É o corredor do vexame. É a porta de entrada da vergonha e da humilhação. A Bíblia diz que Deus resiste ao soberbo (Tiago 4.6), declarando guerra contra ele. Por outro lado, com os humildes está a sabedoria. O humilde é aquele que dá a glória devida a Deus e trata o próximo com honra. A humildade é o palácio onde mora a sabedoria. Os humildes são aqueles que se prostram diante de Deus, reconhecendo seus pecados e nada reivindicando para si mesmos; no entanto, são estes também que, em tempo oportuno, Deus exaltará. A Palavra de Deus é categórica em dizer que Deus humilha os soberbos, mas exalta os humildes. O reino de Deus pertence não aos soberbos, mas aos humildes de espírito.

GESTÃO E CARREIRA

O NOVO MERCADO DA SAÚDE

Mais de 3 milhões de brasileiros perderam acesso a seus planos de saúde nos últimos anos. De olho nessa multidão, e nos altos preços dos planos individuais, surge um novo mercado de saúde: clínicas populares, cartões de desconto e operadoras focadas em hospitais próprios – que têm agradado investidores.

Em 2011, quando a primeira clínica do Dr. Consulta foi inaugurada em Heliópolis, uma das maiores favelas do país, o Brasil vivia o auge da chamada ascensão da classe e. A combinação entre o bom momento da economia, programas de inclusão social e maior acesso a crédito elevou a renda e modificou o padrão de consumo de 42 milhões de brasileiros. Foi de olho no poder de compra dessa classe emergente que o empresário Thomaz Srougi resolveu criar uma rede de clínicas que oferecesse consultas por até RS 60, como alternativa às longas filas do SUS e aos altos preços dos planos de saúde tradicionais.

De lá para cá, muita coisa mudou. A economia brasileira deixou de ser um foguete decolando e enfrentou a recessão mais longa da nossa história: 8,1% de queda no PIB entre 2014 e 2016. Mas, em vez de atrapalhar, a crise econômica acabou impulsionando negócios como o Dr. Consulta.

A razão é simples. Os planos de saúde empresariais correspondem a quase 70% da cobertura de saúde privada do país. Logo, o número de desempregados, que bate recorde ano após ano desde o início da crise, tem efeito direto no tamanho da carteira de clientes das operadoras de seguros médicos. Desde dezembro de 2014, auge da cobertura de saúde privada no Brasil, quando mais de 50 milhões tinham acesso ao serviço, o setor perdeu 3 milhões de clientes. A pandemia deve deixar essa época ainda mais distante: só entre março e junho de 2020, 364 mil pessoas engrossaram a fila de quem deixou de contar com uma carteirinha de convênio, um recorde de evasão para tão pouco tempo.

TERCEIRA VIA

Quem perdeu o emprego e não quer depender do SUS se vê com um problema na mão: os planos de saúde para pessoa física foram se tornando cada vez mais caros. Entre 2000 e 2018, os preços dessa modalidade subiram aproximadamente 382%, contra uma inflação de 208%. Hoje, segundo a ANS, é preciso desembolsar mais ou menos R$ 500 para arcar com convênio mediano do próprio bolso. É mais do que uma empresa paga por funcionário (coisa de RS 350). E pouco viável para quem perdeu o emprego e provavelmente está se virando na informalidade.

As operadoras colocam a culpa na ANS. É que, diferentemente dos planos empresariais, os individuais não podem ser reajustados de acordo com a “sinistralidade”. Sinistros são as consultas, cirurgias ou outros atendimentos feitos pelo convênio. Para as empresas, quanto maior o número de procedimentos, maior é o valor da conta para o próximo ano. Já para as pessoas físicas existe um teto máximo de correção definido anualmente pela ANS. Esse índice, segundo as empresas de plano de saúde, torna inviável vender planos individuais mais em conta.

As operadoras também reclamam das exigências legais da ANS – coberturas para tratamentos específicos, como cânceres raros e outras doenças de alta complexidade. Especialistas defendem que esse roll elevado de coberturas deve existir, sim, porque o setor de saúde é marcado pelo que os economistas chamam de assimetria de informação: o cliente compra o produto sem saber qual procedimento, de fato, vai precisar. “Não dá para virar para o consumidor e falar: diz aí que tipo de câncer você vai querer incluir no seu plano. É importante cobrir todo tipo de atendimento”, afirma Matheus Falcão, advogado e especialista em saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Por essas razões, várias operadoras nem oferecem a modalidade pessoa física. Em meio a essa realidade, inaugurou-se um verdadeiro mercado paralelo de saúde: o de clínicas populares e cartões de desconto. Eles não são planos de saúde e oferece m apenas consultas e exames simples, mas, por conta dos preços baixos, estão atraindo cada vez mais gente nos últimos anos.

“Muitos empresários viram que existia um nicho que não estava sendo atingido: o de pessoas que, embora não pudessem arcar com planos de saúde privados, possuíam condições financeiras para custear alguns serviços e não ficar totalmente à mercê do sistema público”, afirma José Cechin, superintendente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).

Um filão desse movimento, as redes de clínicas populares, não é exatamente novo. Os primeiros empreendimentos do tipo datam dos anos 1980. “O Brasil sempre teve um problema de acesso a saúde de qualidade e com preço justo, então essa discussão é uma velha conhecida, mas deve se acelerar com a crise da Covid-19”, afirma Eliane Kihara, sócia e líder de saúde da consultoria PwC Brasil.

Embora existam há décadas, foi só nos últimos anos que grandes redes com preços populares começaram a proliferar. As primeiras experiências eram quase negócios filantrópicos administrados por médicos. Com as clínicas da nova leva, a história é outra. Elas atraíram investidores de peso, como fundos internacionais. O Dr. Consulta, grande referência no modelo, é um exemplo. Fundada por Thomaz Srougi e integrantes do fundo Galícia Investimentos (de ex-executivos da Ambev), nos últimos seis anos a empresa levantou mais de USS 95 milhões de pesos-pesados, como Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira, Nizan Guanaes e os fundos Kaszek Ventures e Madrone Capital Partners.

Os recursos garantiram uma rápida expansão da empresa. De 2014 para cá, a quantidade de clínicas do Dr. Consulta saltou de uma para 45. O número de clientes atendidos por ano também aumentou desde então: de 23 mil para 461 mil. Em 2018, a companhia faturou RS 265 milhões. “Mas, em um cenário em que 77% da população brasileira não possui plano de saúde, ainda há muito espaço para crescer”, diz Renato Velloso, CEO do Dr. Consulta.

Outra que recebeu atenção de fundos estrangeiros foi a rede Clínicas SIM. Criada em 2007 pelo médico cearense Denis Cruz, a empresa atua na região Norte e Nordeste. “Fora do Sul e Sudeste, há mais informalidade. Nessa região, a rede privada cobre de 10% a 15% da população apenas. Ou seja, há um altíssimo mercado potencial”, afirma Ivan Cordeiro, diretor de expansão da Clínica SIM.

Logo nos primeiros anos, a rede SIM atraiu investidores – anjos, como Rodrigo Galindo, da Cogna Educação. Em 2017, os fundos bilionários Monashee e Temasek entraram na dança, realizando duas rodadas de investimentos por valores não revelados. Depois disso, a rede passou de seis unidades para 19 em funcionamento nas capitais dos Estados de Ceará, Pernambuco e Pará. Até o final do ano, a 20ª clínica foi inaugurada em Salvador, na Bahia. Pelo menos 1 milhão de pessoas já passaram pelos consultórios da SIM. “Queremos alcançar uma atuação nacional e ir para outras regiões, como o Centro-Oeste. Mas é igual jogar War: precisamos conquistar um Estado de cada vez”, afirma Ivan. Para continuar esse processo, a SIM deve ir atrás de uma nova rodada de investimentos ainda em 2021. Mas não se trata de um jogo simples. Para ter uma noção do desafio, basta olhar para os dados de faturamento de hospitais particulares. Segundo informações da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), a receita líquida por dia de internação de um paciente nos hospitais cresceu 3,16% em 2019, enquanto a despesa para realizar o atendimento aumentou outros 4,99%. Não é trivial fechar as contas.

O caminho mais rápido para melhorar a saúde financeira do setor é abraçar tecnologias pouco óbvias. É o que as clínicas populares fazem.

O Dr. Consulta, por exemplo, investiu em um sistema de inteligência artificial que prevê a demanda de determinadas especialidades médicas em cada clínica, de acordo com dia e horário. Assim, dá para montar as escalas dos médicos com mais precisão, e gastar menos dinheiro com o tempo ocioso dos profissionais. “Outra ferramenta importante é o prontuário único eletrônico, que unifica as informações do paciente durante toda a sua trajetória como nosso cliente. Com esse histórico, o médico consegue dar um diagnóstico mais preciso, prescrevendo um número menor de exames”, afirma Renato Velloso, do Dr. Consulta.

Por isso que, após queimar caixa montando novas clínicas, o Dr. Consulta agora quer ser visto como uma healthtech, como são chamadas as startups de saúde. “Nossa essência sempre foi a de uma plataforma de tecnologia a serviço de saúde, o mercado é que nos carimbou como uma clínica popular – e nós surtamos na onda já que era uma forma fácil de explicar o que fazíamos”, diz Renato. A Clínica SIM vai pelo mesmo caminho e, além do uso de prontuários eletrônicos, está desenvolvendo um aplicativo para que os clientes tenham acesso aos próprios dados de saúde – e apresentem as informações em uma consulta, por exemplo, acelerando o diagnóstico. “Nada impede que o usuário utilize essas informações no concorrente, mas apostamos que essa transparência vai nos ajudar a fidelizar mais pessoas”, diz Ivan.

Outra forma de disputar os órfãos do plano de saúde é apostar na oferta de cartões de desconto. Funciona assim: os clientes pagam mensalidades baixinhas, por volta de R$ 20, e em troca recebem a possibilidade de se consultar com médicos e dentistas, por menos da metade dos preços normais.

Esse modelo é o que mais difunde-se hoje.  O Dr. Consulta e a Clínica SIM já oferecem o serviço de assinatura, por exemplo. Até mesmo gigantes, como a Porto Seguro, entraram nessa. Em setembro, a seguradora (e operadora de planos) lançou o Porto Cuida, serviço de assinatura que oferece descontos em consultas, exames e remédios. “Pretendemos incluir, em breve, parcerias com academias de ginástica e acesso a outros tratamentos terapêuticos”, afirma Marcelo Zorzo, diretor-executivo da Porto Seguro.

É tudo uma questão de acordos entre empresas. Para as companhias que administram esses cartões é um bom negócio, já que elas não precisam oferecer, de fato, os serviços médicos. E para as clínicas parceiras que atendem os beneficiários, a vantagem é a oportunidade de atrair mais clientes. Apostando nisso, algumas empresas, inclusive, optaram por fazer do cartão de desconto o seu principal produto. É o caso do Cartão de Todos, a maior companhia do segmento do país.

A empresa mineira surgiu em 2001 como uma clínica popular, mas alguns anos depois encontrou no modelo de assinatura o caminho para crescer. Desde 2009, quando passou a oferecer o serviço, o Cartão de Todos amealhou 3,8 milhões de famílias (uma vez que o serviço inclui dependentes). E boa parte dessa engorda aconteceu agora, na pandemia: entre abril e setembro foram 1 milhão de novos clientes. A expansão da empresa se deu pelo modelo de franquias. São 266 lojas hoje, responsáveis por prospectar e gerir as assinaturas dessa multidão. Em 2016, a companhia também lançou uma rede de clínicas próprias, a Amor Saúde, que hoje possui 197 unidades. “No começo tínhamos que explicar o que era o nosso serviço, mas hoje o entendimento sobreo que fazemos aumentou”, afirma Tales Vilar, vice-presidente do Grupo Todos.

LIMITAÇÕES

Embora as clínicas populares tenham crescido a passos largos nos últimos anos, especialistas alertam que os serviços prestados, tanto por elas quanto por cartões de descontos, têm suas limitações. Simplesmente não resolvem o problema de acesso à saúde. No caso das assinaturas, por conta do pagamento mensal, há ainda o risco de serem confundidos com um plano de saúde.

Mas são coisas bem diferentes. A começar pelo fato de que os planos tradicionais são regulados pela ANS – e os cartões de desconto em saúde, não. “Embora os planos de saúde tenham suas falhas, há contrapartidas, como garantias mínimas de cobertura, proteção contra reajustes abusivos e diminuição da rede de prestadores, por exemplo”, diz Matheus Falcão, do Idec.

Outra crítica é a de que o atendimento de baixa complexidade que esses serviços prestam deixa de fazer sentido quando há a necessidade de internação ou de cirurgias. Sem opção, os clientes voltam aos altos preços do serviço tradicional ou apelam para o SUS. “Hoje, essas clínicas estão isoladas. O desafio vai ser criar um sistema integrado entre elas e o sistema público ou privado para dar atenção aos casos que não se resolvem em uma consulta”, diz Eliane Kihara, da PwC Brasil.

MODELO HIBRIDO

Seja como for, as operadoras de saúde tradicionais começam a usar as clínicas populares para diminuir seus custos. E criar planos mais em conta. A Sul América, por exemplo, lançou o Direto, um plano 25% mais barato que o normal, disponível em São Paulo, campinas, Curitiba, Rio de Janeiro e João Pessoa.

Uma das diferenças ali é uma parceria com o Dr. Consulta para fazer o atendimento ambulatorial dos clientes do Direto em São Paulo. A Sul América faz isso usando um sistema chamado de “capitação”, – com “i” depois do “p” mesmo, porque se refere a “per capita”.

Ela paga ao Dr. Consulta um valor definido por cada inscrito (“por cabeça”),     independentemente de as pessoas usarem ou não o serviço. Se a conta de quem utilizar sair mais cara do que o previsto, quem arca com a diferença é o Dr. Consulta. Assim, o custo (para mais ou para menos) é compartilhado.

Embora esteja sujeito às mesmas regras da ANS para os pares mais caros, no Direto há menos opções de hospitais e clínicas, além de cobertura regional em vez de nacional – o que também ajuda a baixar os custos.

O plano é empresarial, mas, de olho na multidão sem acesso a convênio médico, neste ano a companhia reduziu a exigência mínima para adesão: apenas duas pessoas. Desse jeito, quem tem um MEI pode se juntar com mais alguém e se tornar cliente do Direto. “É preciso encontrar soluções que alinhem sustentabilidade do negócio e qualidade do serviço”, diz Raquel Giglio, vice-presidente de Saúde e Odonto da Sul América.

Outra forma de reduzir custos é investir na verticalização, jargão usado para as operadoras que possuem hospitais e clínicas próprias. Nesse modelo dá para acompanhar de perto as despesas e melhorar a gestão, evitando desperdícios. É nele que tem apostado a Notre Dame Intermédica. No final de outubro, a operadora deu mais um passo nessa estratégia e comprou o Hospital Santa Brígida, em Curitiba, por RS 48 milhões.

Ele se soma aos outros 21 hospitais da Notre Dame. Dessa forma, a operadora consegue oferecer planos de saúde por adesão (nos quais é preciso ser vinculado a algum sindicato ou entidade de classe) a preços baixos, a partir de RS 127. Assim como o Direto, da Sul Améríca, a opção da Notre Dame possui uma rede de cobertura regional e mais restrita. Um exemplo é a disponibilidade de hospitais ofertados pela modalidade mais barata: apenas dois, ambos da rede própria.

Outra operadora “verticalizada” e com planos populares é a Hapvida. focada no Norte e Nordeste, ela tem 32 hospitais próprios, e seus planos mais baratos custam a partir de RS100.

Ah, claro: as ações da Notre Dame e da Hapvida subiram 160% nos últimos dois anos, mesmo com as duas gastando um bom dinheiro com aquisições de hospitais e clínicas nesse meio- tempo. A aposta do mercado financeiro, então, é clara: é nesse modelo de negócio que está boa parte do futuro da saúde brasileira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CÉREBRO E A VISÃO

Entenda como o órgão pode afetar esse sentido

A visão humana é um dos sentidos que mais demoram para se desenvolver após nascimento. Segundo o oftalmologista Paulo Polisuk, os recém-nascidos têm essa capacidade limitada e só conseguem enxergar imagens que estejam até uma distância de 35 centímetros. “Eles são capazes de perceber luz, sombras e movimentos, mas as vias neurais que retransmitem a informação visual para o cérebro ainda não estão maduras. Pois isso, é difícil para um bebê entender o que vê”, explica.

Durante a vida, porém, alguns contratempos podem acontecer e comprometer o funcionamento da visão. O oftalmologista conta que “qualquer alteração que prejudicar o olho, a condução do estímulo visual ou a região do córtex visual pode afetar o sentido”.

DESVENDANDO O SENTIDO

O funcionamento da visão depende da interação entre a luz que entra pelos olhos, os mecanismos presentes no órgão e o processamento dessas informações pelo cérebro. Para você ler essa matéria, seu globo ocular precisou captar a luz que foi refletida da página. “Inicialmente, essa luz chega à córnea, um tecido transparente que recobre a parte colorida dos olhos, chamada íris”, explica Polisuk. Em seguida, a luz passa pelos fluidos que preenchem a cavidade ocular e a pupila, chegando no cristalino.

Essa estrutura é responsável pela focalização dos raios luminosos em um ponto sobre a retina, que transforma a luz em impulsos elétricos. Quando chegam ao cérebro, as imagens, que foram recebidas pelos olhos, são processadas.

ATENÇÃO REDOBRADA.

Segundo o oftalmologista, alguns dos fatores que comprometem a visão, originários nos olhos, podem ser evitados, como o glaucoma. O aumento da pressão intraocular pode resultar em uma lesão no olho, se não for tratada a tempo, podendo, inclusive, causar a cegueira.

Para evitar a deterioração, o tratamento visa regular a pressão ocular. “Dependendo do tipo de glaucoma, isso pode ser feito tanto por meio de medicamentos quanto por cirurgia”, explica. A visão também pode ser afetada por fatores presentes no cérebro, em doenças neurológicas, como na esclerose múltipla (EM). De acordo com Polisuk, a EM “é uma doença neurológica crônica, inflamatória, não contagiosa, degenerativa e progressiva do sistema nervoso central”. Em geral, a patologia tem maior incidência entre mulheres brancas e indivíduos jovens que possuam o gene de suscetibilidade, agente que não é hereditário. Entre os sintomas mais comuns estão a perda temporária unilateral da vista, aparecimento de visão dupla (também chamada de diplomia), descontrole dos movimentos oculares e perda do campo visual. “Ainda não existe tratamento medicamentoso descrito, cabendo aos esteroides a missão de conter o processo inflamatório, sem, no entanto, controlar o avanço do processo”, conclui.

NÃO SE ESQUEÇA DA PREVENÇÃO

Independentemente da existência de tratamentos para as diversas doenças que podem prejudicar a visão, o ideal é que sejam descobertos antes de atingirem um estado avançado, podendo conter o avanço ou chegar à cura.

É importante que pessoas com mais de 35 anos passem por exames periódicos, tanto de fundo de olho quanto do campo de visão, principalmente se tiverem casos de doenças oculares na família. Então, você já visitou o seu oftalmologista esse ano?