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DISCOS QUE VALEM UMA NOTA

A venda de alguns itens da coleção de Ed Motta por até r$ 45 mil expõe mais uma vez a força imorredoura dos LPs

Na faixa-título de um de seus mais conhecidos LPs, O dia em que a Terra parou, de 1977, o cantor baiano Raul Seixas fez um exercício de futurologia, tentando a imaginação de seus ouvintes ao propor a possibilidade de que, numa data qualquer , “todas as pessoas do planeta inteiro ” resolvessem “que ninguém ia sair de casa”. Mais de 30 anos após a morte de Raul – quase 43 depois do lançamento da canção – a pandemia de Covid-19 tornou real a profecia do artista. E as pessoas, confinadas em suas residências, num clima de desolação e incertezas se agarraram ao que tinham ao alcance das mãos – muitas vezes, seus velhos e novos LPs, que se alternam nas funções de objetos do desejo, depósitos de memórias e narrativas sonoras úteis em tempos difíceis.

Não é por acaso que nos últimos dias proliferam nas redes sociais postagens sobre “os discos que mais influenciaram meus gostos musicais”, selfies com a capas do LPs favoritos e lives de DJs, profissionais e amadores, trocando suas preciosidades. No meio disso tudo, virou notícia a decisão de um dos mais notórios colecionadores do Brasil, o cantor Ed Motta, de pôr à venda no site Discog (principal banco de dados de discos físicos do mundo, que conecta compradores e vendedores em todo o mundo, com mais de 52 milhões de itens) alguns exemplares de seu acervo de mais de 30 mil discos. Entre as raridades que ele começou a anunciar em dezembro estava uma cópia da primeira prensagem de Coisas (1965), influente LP do maestro Moacir Santos, pela qual teria pedido R$ 45 mil.

“Meus discos sempre foram meus melhores amigos eternamente. Meus discos, meus livros, meus DVDs, meus VHS. Eu tenho muito a aprender com eles, o tempo inteiro, e não tem decepção”, disse Ed Motta, ainda ressabiado com a repercussão do caso (sabe-se que alguns dos discos à venda são duplicata ou itens que ele não costuma mais ouvir, mas ele prefere não explicar as  razões da venda). Para o músico, que como muitos trocou os shows pelas lives, a pandemia trouxe todo um lado terrível; a “tristeza em ver tantas pessoas morrendo”, mas também um déjà vu. “Não só eu, mas boa parte dos colecionadores de discos, de filmes ou de gente que lê muito de forma geral já vive em um isolamento social. Não dá tempo de você sorver a arte encontrando com todo mundo o tempo todo.”

Colecionador com um acervo numericamente similar ao de Ed Motta, ar condicionado no apartamento número 201 (ele mora no 101) de um prédio em Botafogo, no Rio de Janeiro, o ex-administrador de empresa Fábio Pereira tem acompanhado mais de perto o lado social dos discos em tempo de pandemia. Ele toca sozinho o Supernut MaraRecord, grupo de venda de discos on-line cuja origem remonta há mais de 20 anos, quando ele era empregado de uma empresa petrolífera e descobriu que dava para ganhar mais (e viver seu sonho de fissurado por música) vendendo achados da MPB para o exterior. “Enquanto você está numa vida louca, atarefada, você tende a ouvir mais música digital. Todo mundo tem em casa aquela estante de discos que não tinha tempo de escutar. Esta é a hora”, contou ele.

Segundo Pereira, a pandemia fez com que muita gente que andava quieta no grupo do Facebook de sua loja (com mais de 800 membros) voltasse a comprar disco com ele – mesmo sabendo das dificuldades que o isolamento e precariedade do funcionamento do Correio impõem à entrega. “A música salva, existe um tipo de música para cada momento. Você pega um disco e lembra do dia em que comprou”, divagou ele, que cuidou de agitar a rede social com muitas postagens sobre itens raros da grande discografia brasileira (“muita gente usa o grupo para aprender, não só para comprar”). O tempo mais flexível dos dias de Covid-19, o comerciante-colecionador tem aproveitado de forma singular e lúdica: “Subo um lance de escada e de repente lá estou eu, no meio de meus discos. Faço explorações e encontro alguns que não via havia muito tempo. Daí, fico postando no grupo coisas que eu nem sabia que tinha!”.

 De cadeira, Pereira oferece uma explicação para o fenômeno que intriga os não iniciados nas comunidades do vinil raro: o que faz com que uma edição original de um Coisas ou a de um Arthur Verocai (estreia solo do grande arranjador da MPB, lançado em 1972) provoquem inconfessáveis frenesis e alcancem preços estratosféricos no Discogs. “Muitas vezes, é um gênio que lança um disco à frente de sua época, em uma tiragem pequena. Ele não é entendido e não faz sucesso nenhum. Anos depois vão lá os gringos e descobrem ou um conceituado DJ e produtor americano do hip-hop) Madlib sampleia ele. E quando o pessoal descobre, já é tarde demais. A reedição do LP até pode fazer com que o preço do original caia um pouquinho, mas tem sempre o colecionador psicopata, que não vai sossegar até conseguir um exemplar. A vida é feita disso, se não tiver algo que você busque, ela não vale a pena.”

No mês passado o movimento internacional Vinyl Alliance, dedicado ao “fortalecimento da posição do disco de vinil no mundo digital”, alertava em um comunicado de imprensa, sobre o papel que a música em formato físico poderia assumir na pandemia. “O impacto econômico da Covid-19 é severo e atinge fortemente a indústria do vinil, com uma demanda decrescente, lojas fechadas, produção limitada e proibições de transportes. No entanto, uma rápida pesquisa entre nossos    membros mostra o compro misso e a resiliência do setor”, anunciou a organização. “O negócio do vinil tem uma grande vantagem. É abençoado com fãs leais; caso contrário, o formato não poderia ter sobrevivido primeiro à ascensão do CD e depois ao streaming. A crise atual prova isso mais uma vez. Os colecionadores usam seu tempo em casa pata reorganizar as coleções, descobrir joias escondidas ou simplesmente para fazer uma limpeza em seus discos. Outros desenterram toca-discos antigos no sótão e os reformam.”

Fabricante de agulhas para vitrolas, a firma dinamarquesa Ortofon pegou carona no comunicado para aumentar o otimismo, na palavra de seu CEO, Christen Nielsen: “O vinil é uma ótima maneira de as pessoas ajudarem seu artista favorito, principalmente quando eles têm de cancelar um show ou turnê. E, mesmo que não possam comprar novos discos, encontram outras maneiras. Por exemplo, existem tendências on-line, como a exibição de seu álbum mais amado e da loja em que você o comprou. Essa é uma ótima maneira de mostrar amor ao artista e à loja dar publicidade gratuita. “No último dia 14, inclusive, a Discogs e a empresa japonesa de equipamentos sonoros Audio-Technica anunciaram uma parceria: a fábrica ofereceu toca-discos e fones para que DJ de loja de discos selecionadas fizessem a série de lives Homespun, transmitidas em maio e junho, na página da Discogs no Facebook, Instagram e YouTube. A série visa incentivar a compra de vinil nas lojas, por meio da Discogs.

Os LPs já mostravam resiliência antes mesmo da pandemia reforçar seu valor sentimental. No ano passado, a venda de disco nos Estados Unidos no primeiro semestre teve alta de 12% em relação ao ano anterior e superou em faturamento a de CDs pela primeira vez desde 1986. Não deixa de     ser uma vingança, mais de três décadas depois sobre aqueles que vaticinavam que os CDs, eles próprios agora vítimas do streaming, acabariam com os LPs. A disputa, no entanto, é inglória. Juntos, os dois respondem por menos de 10% do total de dinheiro gasto com música no mundo. Todo o resto vai para o digital.

Mas a cultura do álbum – de coleções de canções, formato disseminado pelo advento do LP de vinil, em 1948 – sobrevive na pandemia para além do meio físico. Alguns dos principais artistas da música popular se recusaram a suspender seus lançamentos, como é o caso de uma superestrela do rap: o canadense Drake, que no último dia 1º soltou no streaming a compilação Dark leme demo tapes. Em programa da rádio da Apple Music, ele explicou ao colega, o rapper Lil Wayne: “É um momento interessante para todos nós, como músicos, descobrir como isso funciona e de que as pessoas precisam. E eu simplesmente senti que elas apreciariam talvez algo substancial para ouvir, em vez de apenas uma música isolada”.  O álbum traz colaborações de Drake com artistas como Future, Young Thug, Playboi Carti e Chris Brown, além de faixas lançadas anteriormente no    SoundCIoud, e “Chicago freestyle.

Sensação do novo rock britânico, o grupo Porridge Radio também quis encarar os novos tempos, lançando no dia 13 de março, quando muitos já estavam em confinamento, o álbum Every bad. Em entrevista no início deste mês ao site adhoc.fm, a vocalista e guitarrista Dana Margolin contou: “Estava programada uma grande turnê, que tivemos de cancelar. Por enquanto, temos feito muitas lives, e pude estar mais on-line e me envolver com as pessoas. Foi muito legal poder ouvir que elas estão realmente amando o álbum. A resposta tem sido muito boa até agora, e sinto-me com sorte, mesmo que não possamos conhecer todos pessoalmente e fazer shows. Comprar o álbum e demais produtos da banda é a melhor maneira de nos apoiar, mas, se as pessoas não puderem gastar dinheiro no momento, ouvir nossas músicas no streaming e compartilhá-las será realmente útil”.

As perspectivas para quando a Terra voltar a girar sobre seu eixo são desconhecidas. Mas os discos, esses continuarão a girar, embora, como diz Fábio Pereira, a vida dos colecionadores e    comerciantes deva se alterar a partir do momento em que todos voltem às ruas e um “novo normal” se estabeleça. “Eu não sei como a gente vai sair desse esquema, mas muita coisa vai mudar. A coisa de sujar a mão de poeira nos sebos, de ter alguém ali na loja, para bater papo, isso talvez se perca. E muita gente que desdenhava do on-line agora vai ter de se virar”, apostou.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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