EU ACHO …

O ABUSO ORIGINAL

Más experiências na infância podem provocar obesidade

É quase impossível não falar de peso no começo do ano. Depois das comilanças de Natal e réveillon, janeiro costuma ser o mês de se preocupar com a silhueta. O assunto rende brincadeiras e memes – você provavelmente já recebeu algum nos primeiros dias de 2021. Mas a preocupação com o peso não é piada ou apena s questão estética. A obesidade é um problema sério, cada vez mais presente na população brasileira, e merece, portanto, toda nossa atenção. Ninguém sabe ao certo o que leva a uma alimentação desregrada, embora não faltem estigmas: muita gente pensa que o obeso é necessariamente alguém indisciplinado, exagerado e preguiçoso, pois não se exercita. A verdade, porém, é que o sobrepeso pode ter raízes psicológicas profundas.

Na Universidade de Kobe, no Japão, pesquisadores da Escola de Medicina analisaram os hábitos de cerca de 20.000 adultos e fizeram importantes descobertas. Ao que tudo indica, o acúmulo de gordura corporal entre as mulheres tem alguma relação com experiências de violência na infância. Sofrer agressões físicas, ser vítima de comentários maldosos e insultos dentro da própria casa, todos esses são eventos que poderiam levar, anos mais tarde, ao excesso de peso.

O estudo, publicado no finalzinho de 2020, foi o primeiro do tipo realizado no Japão, mas confirma uma ideia já apontada por vários especialistas de outros países: situações de abuso físico, psicológico, sexual e até de negligência estão, sim, correlacionadas à obesidade. A criança vítima de abuso desenvolve mais facilmente a dependência de alimentos açucarados ou ricos em gordura.

E, quando adulta, ela tende a comer demais em situações de stress.

Esse é um problema que interessa a todos nós, em especial às mulheres, que acabam sendo as maiores vítimas desse terrível mecanismo de compensação psicológica. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), uma em cada três mulheres já sofreu violência física e/ou sexual. Na pandemia do coronavírus, com muitas famílias em confinamento, aumentam os episódios de violência doméstica, inclusive contra crianças. Além de abusadores e vítimas estarem fechados em um mesmo ambiente por mais tempo, a diminuição do contato com pessoas de fora da casa dificulta o reconhecimento e a denúncia dos casos.

Se quisermos mudar esse cenário, é preciso discutir abertamente o problema, sem tabus. Hoje entendo como minha própria história, aos 7 anos, contribuiu para que eu chegasse aos 120 quilos – e como só pude me livrar da obesidade, perdendo a metade daquele peso, quando reconheci os mecanismos psicológicos por trás da minha alimentação desregrada. Esse processo de reconhecimento das causas da obesidade, tão importante para eliminar o preconceito que atinge homens e mulheres acima do peso, só funciona se a sociedade estiver disposta a um diálogo aberto.

Justamente por isso, tento aqui ajudar a construir esse diálogo. A luta contra a gordura indesejada às vezes exige um mergulho profundo em nossos traumas. Felizmente, com força de vontade e uma rede de apoio familiar e profissional, é possível fazer esse mergulho e voltar com segurança à superfície.

*** LUCÍLIA DINIZ 

OUTROS OLHARES

DISCOS QUE VALEM UMA NOTA

A venda de alguns itens da coleção de Ed Motta por até r$ 45 mil expõe mais uma vez a força imorredoura dos LPs

Na faixa-título de um de seus mais conhecidos LPs, O dia em que a Terra parou, de 1977, o cantor baiano Raul Seixas fez um exercício de futurologia, tentando a imaginação de seus ouvintes ao propor a possibilidade de que, numa data qualquer , “todas as pessoas do planeta inteiro ” resolvessem “que ninguém ia sair de casa”. Mais de 30 anos após a morte de Raul – quase 43 depois do lançamento da canção – a pandemia de Covid-19 tornou real a profecia do artista. E as pessoas, confinadas em suas residências, num clima de desolação e incertezas se agarraram ao que tinham ao alcance das mãos – muitas vezes, seus velhos e novos LPs, que se alternam nas funções de objetos do desejo, depósitos de memórias e narrativas sonoras úteis em tempos difíceis.

Não é por acaso que nos últimos dias proliferam nas redes sociais postagens sobre “os discos que mais influenciaram meus gostos musicais”, selfies com a capas do LPs favoritos e lives de DJs, profissionais e amadores, trocando suas preciosidades. No meio disso tudo, virou notícia a decisão de um dos mais notórios colecionadores do Brasil, o cantor Ed Motta, de pôr à venda no site Discog (principal banco de dados de discos físicos do mundo, que conecta compradores e vendedores em todo o mundo, com mais de 52 milhões de itens) alguns exemplares de seu acervo de mais de 30 mil discos. Entre as raridades que ele começou a anunciar em dezembro estava uma cópia da primeira prensagem de Coisas (1965), influente LP do maestro Moacir Santos, pela qual teria pedido R$ 45 mil.

“Meus discos sempre foram meus melhores amigos eternamente. Meus discos, meus livros, meus DVDs, meus VHS. Eu tenho muito a aprender com eles, o tempo inteiro, e não tem decepção”, disse Ed Motta, ainda ressabiado com a repercussão do caso (sabe-se que alguns dos discos à venda são duplicata ou itens que ele não costuma mais ouvir, mas ele prefere não explicar as  razões da venda). Para o músico, que como muitos trocou os shows pelas lives, a pandemia trouxe todo um lado terrível; a “tristeza em ver tantas pessoas morrendo”, mas também um déjà vu. “Não só eu, mas boa parte dos colecionadores de discos, de filmes ou de gente que lê muito de forma geral já vive em um isolamento social. Não dá tempo de você sorver a arte encontrando com todo mundo o tempo todo.”

Colecionador com um acervo numericamente similar ao de Ed Motta, ar condicionado no apartamento número 201 (ele mora no 101) de um prédio em Botafogo, no Rio de Janeiro, o ex-administrador de empresa Fábio Pereira tem acompanhado mais de perto o lado social dos discos em tempo de pandemia. Ele toca sozinho o Supernut MaraRecord, grupo de venda de discos on-line cuja origem remonta há mais de 20 anos, quando ele era empregado de uma empresa petrolífera e descobriu que dava para ganhar mais (e viver seu sonho de fissurado por música) vendendo achados da MPB para o exterior. “Enquanto você está numa vida louca, atarefada, você tende a ouvir mais música digital. Todo mundo tem em casa aquela estante de discos que não tinha tempo de escutar. Esta é a hora”, contou ele.

Segundo Pereira, a pandemia fez com que muita gente que andava quieta no grupo do Facebook de sua loja (com mais de 800 membros) voltasse a comprar disco com ele – mesmo sabendo das dificuldades que o isolamento e precariedade do funcionamento do Correio impõem à entrega. “A música salva, existe um tipo de música para cada momento. Você pega um disco e lembra do dia em que comprou”, divagou ele, que cuidou de agitar a rede social com muitas postagens sobre itens raros da grande discografia brasileira (“muita gente usa o grupo para aprender, não só para comprar”). O tempo mais flexível dos dias de Covid-19, o comerciante-colecionador tem aproveitado de forma singular e lúdica: “Subo um lance de escada e de repente lá estou eu, no meio de meus discos. Faço explorações e encontro alguns que não via havia muito tempo. Daí, fico postando no grupo coisas que eu nem sabia que tinha!”.

 De cadeira, Pereira oferece uma explicação para o fenômeno que intriga os não iniciados nas comunidades do vinil raro: o que faz com que uma edição original de um Coisas ou a de um Arthur Verocai (estreia solo do grande arranjador da MPB, lançado em 1972) provoquem inconfessáveis frenesis e alcancem preços estratosféricos no Discogs. “Muitas vezes, é um gênio que lança um disco à frente de sua época, em uma tiragem pequena. Ele não é entendido e não faz sucesso nenhum. Anos depois vão lá os gringos e descobrem ou um conceituado DJ e produtor americano do hip-hop) Madlib sampleia ele. E quando o pessoal descobre, já é tarde demais. A reedição do LP até pode fazer com que o preço do original caia um pouquinho, mas tem sempre o colecionador psicopata, que não vai sossegar até conseguir um exemplar. A vida é feita disso, se não tiver algo que você busque, ela não vale a pena.”

No mês passado o movimento internacional Vinyl Alliance, dedicado ao “fortalecimento da posição do disco de vinil no mundo digital”, alertava em um comunicado de imprensa, sobre o papel que a música em formato físico poderia assumir na pandemia. “O impacto econômico da Covid-19 é severo e atinge fortemente a indústria do vinil, com uma demanda decrescente, lojas fechadas, produção limitada e proibições de transportes. No entanto, uma rápida pesquisa entre nossos    membros mostra o compro misso e a resiliência do setor”, anunciou a organização. “O negócio do vinil tem uma grande vantagem. É abençoado com fãs leais; caso contrário, o formato não poderia ter sobrevivido primeiro à ascensão do CD e depois ao streaming. A crise atual prova isso mais uma vez. Os colecionadores usam seu tempo em casa pata reorganizar as coleções, descobrir joias escondidas ou simplesmente para fazer uma limpeza em seus discos. Outros desenterram toca-discos antigos no sótão e os reformam.”

Fabricante de agulhas para vitrolas, a firma dinamarquesa Ortofon pegou carona no comunicado para aumentar o otimismo, na palavra de seu CEO, Christen Nielsen: “O vinil é uma ótima maneira de as pessoas ajudarem seu artista favorito, principalmente quando eles têm de cancelar um show ou turnê. E, mesmo que não possam comprar novos discos, encontram outras maneiras. Por exemplo, existem tendências on-line, como a exibição de seu álbum mais amado e da loja em que você o comprou. Essa é uma ótima maneira de mostrar amor ao artista e à loja dar publicidade gratuita. “No último dia 14, inclusive, a Discogs e a empresa japonesa de equipamentos sonoros Audio-Technica anunciaram uma parceria: a fábrica ofereceu toca-discos e fones para que DJ de loja de discos selecionadas fizessem a série de lives Homespun, transmitidas em maio e junho, na página da Discogs no Facebook, Instagram e YouTube. A série visa incentivar a compra de vinil nas lojas, por meio da Discogs.

Os LPs já mostravam resiliência antes mesmo da pandemia reforçar seu valor sentimental. No ano passado, a venda de disco nos Estados Unidos no primeiro semestre teve alta de 12% em relação ao ano anterior e superou em faturamento a de CDs pela primeira vez desde 1986. Não deixa de     ser uma vingança, mais de três décadas depois sobre aqueles que vaticinavam que os CDs, eles próprios agora vítimas do streaming, acabariam com os LPs. A disputa, no entanto, é inglória. Juntos, os dois respondem por menos de 10% do total de dinheiro gasto com música no mundo. Todo o resto vai para o digital.

Mas a cultura do álbum – de coleções de canções, formato disseminado pelo advento do LP de vinil, em 1948 – sobrevive na pandemia para além do meio físico. Alguns dos principais artistas da música popular se recusaram a suspender seus lançamentos, como é o caso de uma superestrela do rap: o canadense Drake, que no último dia 1º soltou no streaming a compilação Dark leme demo tapes. Em programa da rádio da Apple Music, ele explicou ao colega, o rapper Lil Wayne: “É um momento interessante para todos nós, como músicos, descobrir como isso funciona e de que as pessoas precisam. E eu simplesmente senti que elas apreciariam talvez algo substancial para ouvir, em vez de apenas uma música isolada”.  O álbum traz colaborações de Drake com artistas como Future, Young Thug, Playboi Carti e Chris Brown, além de faixas lançadas anteriormente no    SoundCIoud, e “Chicago freestyle.

Sensação do novo rock britânico, o grupo Porridge Radio também quis encarar os novos tempos, lançando no dia 13 de março, quando muitos já estavam em confinamento, o álbum Every bad. Em entrevista no início deste mês ao site adhoc.fm, a vocalista e guitarrista Dana Margolin contou: “Estava programada uma grande turnê, que tivemos de cancelar. Por enquanto, temos feito muitas lives, e pude estar mais on-line e me envolver com as pessoas. Foi muito legal poder ouvir que elas estão realmente amando o álbum. A resposta tem sido muito boa até agora, e sinto-me com sorte, mesmo que não possamos conhecer todos pessoalmente e fazer shows. Comprar o álbum e demais produtos da banda é a melhor maneira de nos apoiar, mas, se as pessoas não puderem gastar dinheiro no momento, ouvir nossas músicas no streaming e compartilhá-las será realmente útil”.

As perspectivas para quando a Terra voltar a girar sobre seu eixo são desconhecidas. Mas os discos, esses continuarão a girar, embora, como diz Fábio Pereira, a vida dos colecionadores e    comerciantes deva se alterar a partir do momento em que todos voltem às ruas e um “novo normal” se estabeleça. “Eu não sei como a gente vai sair desse esquema, mas muita coisa vai mudar. A coisa de sujar a mão de poeira nos sebos, de ter alguém ali na loja, para bater papo, isso talvez se perca. E muita gente que desdenhava do on-line agora vai ter de se virar”, apostou.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE JANEIRO

A ESTABILIDADE DO JUSTO

O justo jamais será abalado, mas os perversos não habitarão a terra (Provérbios 10.30).

Salomão mais uma vez faz um vívido contraste entre o justo e o perverso. Mais uma vez a ideia é ressaltar a estabilidade do justo e a instabilidade do perverso. O justo mantém-se firme apesar da tempestade. Ele não é poupado dos problemas, mas nos problemas. Sobre a casa do justo também cai a chuva no telhado, sopra o vento na parede e batem os rios no alicerce. Mas sua casa fica de pé, porque ele a construiu sobre a rocha. Ele não será abalado, não porque é forte em si mesmo, mas porque seu fundamento é o próprio Deus, a rocha dos séculos. O perverso, porém, que muitas vezes parece forte e inexpugnável e manifesta ao mundo a robustez do seu intelecto, a pujança do seu dinheiro e o poder de sua influência política, será desarraigado como uma palha levada pelo vento. Ele não habitará a terra da promessa, não permanecerá na congregação dos justos nem desfrutará a bem-aventurança eterna. O perverso vive um vazio existencial e constrói para o nada, pois de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? De que adianta ter riquezas e bens se o dinheiro não pode nos dar segurança nem felicidade? O justo herdará a terra, pois tem Deus como sua herança e sua eterna fonte de prazer.

GESTÃO E CARREIRA

PARECE COCAÍNA, MAS É DAY TRADE

Todo mundo está virando trader: não falta quem entre na bolsa com a expectativa de transformar R$20 em R$ 1mil – num intervalo de horas. Culpa dos minicontratos – instrumentos que, sim, permitem lucros brutais. Mas que deixam 9 em cada 10 usuários crônicos no prejuízo. E pior: viciados. Entenda essa roubada.

Segunda-feira. Day trader que é day trader acorda cedo. Faz exercícios, prepara um suco verde com água de coco e liga o computador. É um profissional focado, e tudo precisa estar pronto para a abertura do mercado de dólar, às 9 da manhã

Os preços do dólar no home broker começam a piscar, variando o tempo todo. Nosso day trader aposta que a moeda americana vai subir bem nos próximos minutos e faz uma compra a R$ 5,40. O dólar sobe e vai a R$ 5,50 em meia hora. Bora vender. R$ 1 mil de lucro e meta do dia cumprida. Fim de expediente, às 9h30 da manhã.

Terça-feira, 10h30. O Ibovespa cai de 100 mil a 98 mil pontos. Mas o nosso trader já estava preparado. Meia hora antes ele tinha apostado na queda do índice. Quanto mais a bolsa tombasse, melhor seria para ele. Só esses 2% de queda, então, renderam R$ 1,2 mil. Meta batida com louvor. Está chovendo lá fora. Partiu Netflix. E segue assim a vida do nosso day trader. R$ 1 mil a cada dia útil. R$ 20 mil por mês sem fazer nada que dê para chamar de trabalho.

Bom demais para ser verdade? Claro. É impossível ganhar dinheiro na bolsa todos os dias sem ter nascido com o dom de prever o futuro. Mesmo assim, cada vez mais gente tem tentado a sorte no day trade. E o ato de comprar e vender dentro de um único pregão, geralmente de forma “alavancada”, ou seja, sem precisar ter o dinheiro para entrar no esquema, como vamos ver em detalhes mais adiante.

Segundo a CVM, mais de 300 mil pessoas fizeram ao menos uma operação desse tipo em 2020 – um crescimento de 50% na comparação com 2019. E este também é o ano em que as buscas por “day trade” dispararam no Google e a “profissão day trader” entrou em uma lista do LinkedIn como uma das grandes carreiras do futuro. Isso acontece porque muita gente está ganhando dinheiro com day trade. Mas não são os day traders. É gente que lucra com cursos picaretas de como ficar rico da noite para o dia, e as próprias corretoras, que ganham um cascalho a cada operação de compra e venda que você faz.

Hora de entender como a armadilha funciona.

COMO A MÁGICA ACONTECE

Curso de day trade virou tutorial de maquiagem: está cheio de youtuber metido a professor. Eles e elas dizem que bastam três coisas para começar: conta em corretora (abra rapidinho no celular), gráficos para acompanhar a variação de preços (tem no home broker) e quase nenhum dinheiro. Uns R$ 20 já são o suficiente para entrar na jogada.

A bolsa serve para você comprar ações de empresas. E isso tende a ser um bom negócio para o longo prazo. A grande ferramenta do day trade, porém, não são ações. São os chamados minicontratos – ferramentas que permitem ganhos de 20%, 30%, 5.000% em questão de minutos, e que, por outro lado, também têm o poder de fazer com que o seu dinheiro desapareça para sempre em questão de segundos.

Funciona assim: você quer ir para a Disney em dezembro. Como Mickey e Pateta não aceitam reais, você vai precisar de dólares. Pessoas comuns, filhas de deus, fazem isso numa visita à casa de câmbio. Mas o mercado financeiro oferece uma outra maneira de fazer a mesma coisa, com uma vantagem. Você sabe quanto vai estar o dólar em dezembro? Não. Nem nós.

Então sempre vai haver alguém (geralmente uma instituição financeira) com dólares na mão a fim de vender hoje para entregar só em dezembro. Que vantagem esse alguém leva? Bom, se o dólar cair daqui até dezembro, ele vai se dar bem. Ele fecha com você de vender os dólares a R$ 5,40. Se em dezembro a moeda do Mickey estiver a R$ 4,80, o sujeito se deu muito, muito bem. Quem vende dólar hoje para entregar depois, então, é sempre alguém que aposta na queda do dólar.

Mas você não está a fim de fazer aposta. Quer garantir a viagem. Se em dezembro o dólar estiver a R$ 6,40, fuén. Rolê miado. Então melhor garantir as verdes a R$ 5,40. O que você pode fazer, então? Dá para entrar na bolsa e comprar a R$ 5,40 do sujeito que está vendendo dólar para dezembro neste momento na esperança de lucrar com uma queda. Pronto. Agora, se a moeda americana subir, não tem mais galho. O dólar pode estar a R$ 6,40 no fim do ano e tudo certo. O outro sujeito vai aceitar que perdeu a aposta, e cobrir a diferença para você.

É assim que funciona o “mercado futuro” de dólar. “Futuro” porque a base do negócio é uma especulação, a de quanto o dólar estará valendo lá na frente. E o que você negocia nesse mercado não são os dólares em si. São só os contratos para comprar uma certa quantidade da moeda por R$ 5,40 (ou seja lá o quanto for) em dezembro (ou seja lá em que mês for). Daí os “minicontratos” de que falamos lá atrás.

Só tem um detalhe. O grosso desse mercado não é formado por gente que pretende ir à Disney. O que você tem são multidões apostando na alta e outras multidões apostando na baixa. Os contratos são as fichas nesse cassino. E a bolsa organiza a ciranda. Vamos lá. Você adquire um contrato para comprar US$ 10 mil em dezembro a R$ 5,40. Você vai gastar R$ 54 mil para isso? Não. Para entrar nessa jogada, basta fazer um depósito de R$ 20 na corretora.

Em troca dessa miséria, a corretora te entrega um presentão: o equivalente a US$ 10 mil em reais para você operar no mercado de câmbio. Se você entrar com o dólar para dezembro a R$ 5,40, então, terá R$ 54 mil no seu home broker. Isso não é exatamente um dinheiro que a corretora coloca na sua conta. A grana serve exclusivamente para você fazer apostas com dólar.

É como se você entrasse num cassino, pagasse R$ 20, e o caixa te desse R$ 54 mil em fichas.

Você ganha o poder de operar uma quantia vultosa de dinheiro. Dinheiro que não lhe pertence. É só uma linha de crédito da corretora. Na prática, porém, é igual operar com dinheiro emprestado. O nome disso é alavancagem.

Mas e aí? Como é que faz dinheiro com isso? Bom, o valor do dólar muda a cada minuto, certo? Então. Isso não vale só para dólar que você compra na casa de câmbio. Vale também para o mercado futuro. O preço do dólar para dezembro muda a cada minuto também – tal como o para janeiro, o para fevereiro…

Se você entrou a R$ 5,40 e ele pula para R$ 5,50 em uma hora, o que acontece? Parabéns: pode vender o seu contrato e embolsar os dez centavos de diferença. Opa. Dez centavos, não. Lembra que o tal contrato envolve US$ 10 mil? Então. Nessa subida, seu lucro foi de R$ 0,10 vezes 10 mil. MIL REAIS. Má oêê!

E isso para um contratinho só. Fossem dez deles, você teria operado mais de meio milhão de reais sem abrir a carteira, apenas para lucrar com a diferença de preço. E nessa brincadeira levantaria R$ 10 mil em questão de horas.

Esse é só um exemplo superficial, ainda que realista. No home broker a conta é um pouco diferente, mas chega aos mesmos R$ 1 mil. Vamos lá.

Cada minicontrato de dólar, como dissemos aqui, representa US$ 10 mil no mercado futuro, certo? Bom, a cotação do tal contrato na bolsa não se dá em reais, mas em pontos. E cada ponto vale R$ 10. Os pontos derivam de uma multiplicação: o preço do dólar futuro por mil. Portanto, se o dólar para dezembro estiver a R$ 5,40, o contrato do dólar para dezembro estará a 5.400 pontos. Caso o câmbio para dezembro vá a R$ 5,50, a pontuação sobe para 5.500. Dá 100 pontos de lucro. 100 X R$ 10 = R$ 1 mil. Pronto.

É assim que se calcula o valor do nosso amigo mini dólar – apelido para o tal do contrato que os day traders tanto amam. Ele é “mini” porque US$ 10 mil é um valor relativamente baixo. Equivale a só 20% do contrato “cheio”, de US$ 50 mil. Esse é para gente grande, ou seja, empresas e bancos. Tem outra coisa que diferencia os pequenos dos grandes nesse mercado. No míni, dá para adquirir um contrato por vez. Já o povo do mercado cheio é obrigado a negociar de cinco em cinco contratos. Nisso, a cada rodada ficam em jogo US$ 250 mil.

Seja no míni, seja no cheio, sempre pode dar ruim. Imagina que o dólar, em vez de subir, caia. Para R$ 5,30. Aí danou-se. Você, com seu míni de US$ 10 mil, vai ter que PAGAR R$ 1 mil. Se você adquiriu dez contratos, vai dormir devendo R$ 10 mil. Serasa na veia.

Isso não significa que todo mundo perde quando o dólar cai. Você também pode entrar nessa fazendo o papel de quem aposta na queda da moeda americana. Para entender como isso funciona, é só inverter todos os exemplos que demos até aqui: cada ponto a ‘menos no mini dólar vai significar R$ 10 a mais para você. Seja qual for a modalidade, enfim, o risco é igual: você estará operando com dinheiro emprestado do mesmo jeito. Com isso, suas perdas sempre terão o potencial de ser maiores que o seu patrimônio. Esse é o grande veneno dos minicontratos.

Ah, o mini dólar tem um irmão gêmeo: o mini índice. Com este contrato, você aposta no sobe e desce dos pontos do Ibovespa, não do dólar. De resto, a lógica é a mesma: você entra numa montanha-russa de perdas e ganhos gigantescos, operando com quantidades absurdas de dinheiro alheio.

CAIXA ELETRÔNICO

Por trás da ideia de que é fácil ganhar dinheiro com minicontratos está a noção de que o trader jamais erra. Só lucra. O home broker da corretora vira o novo caixa eletrônico: bastaria abrir e sacar o quanto você quiser.

Há outro elemento que dá a ideia de caixa eletrônico: os R$ 20 que as corretoras pedem não entram no jogo da compra e venda de minicontratos. É só uma garantia mínima contra calotes, caso o trader perca dinheiro. Quanto mais contratos você adquire, maior a garantia que precisa deixar – cinco contratos, R$ 100; dez contratos, R$ 200.

Na prática, é como se fosse o preço do ingresso para entrar numa montanha-russa financeira, que pode garantir dinheiro fácil em marés de sorte e destruir seu patrimônio em todos os outros momentos.

O ponto é que as perdas sempre acontecem e quase nunca serão de apenas R$ 20. É como se cada contrato futuro fosse um sistema fechado: sempre que alguém ganhar R$ 1 mil, outra pessoa terá que pagar os R$ 1 mil. Dá até para chamar de programa de transferência de renda – geralmente com a renda do trader caseiro sendo transferida para um trader de banco.

“Não existe barreira de entrada, mas ser bem-sucedido nesse negócio é bem diferente. [O trader] está lidando com o imponderável”, diz Jayme Carvalho, que foi trader de um grande banco e hoje é planejador financeiro certificado pela Planejar.

Isso não significa que as instituições financeiras tenham uma fórmula mágica para sempre vencer nesse jogo. O ponto é que bancos não arriscam grandes fatias de seu patrimônio nisso. Gente como a gente, por outro lado, tende a fazer justamente o contrário – e perder mais dinheiro do que tem de reserva.

A ONDA

Se o prejuízo pode apagar rapidamente qualquer ganho, e acabar maior do que todo o patrimônio do trader, como é que o day trade amador foi alçado ao posto de “carreira” do futuro?

Bom, nada disso é realmente novo. Os minicontratos existem há quase 20 anos, cursos para operar no mercado financeiro foram o coração da XP desde a fundação, lá no ano de 2001, e as corretoras mantêm pelo menos desde 2016 um analista ao vivo ensinando as pessoas a fazer day trade durante todo o horário de pregão.

Mas, pela primeira vez, essa avalanche de informações e promessas de ganho fácil chegou às massas, via YouTube. O maior canal sobre day trade é o Ports Trader, com 917 mil seguidores. É do gaúcho Suriel Ports, 27, que promete transformar qualquer pessoa que comprar seu curso de cerca de R$ 2 mil em um “trader de elite”. Para ele, um trader de elite é quem ganha de R$ 1 mil a R$ 5 mil por dia.

Ports não declara patrimônio e tampouco abre o resultado dos trades que diz ainda fazer. Aempresa pela qual vende cursos tem capital social de R$ 2 mil e foi enquadrada no regime de tributação de microempresa, cujo faturamento anual não pode superar os R$ 360 mil.

Enquanto isso, posa de milionário nas redes sociais. Em setembro, transmitiu ao vivo o momento em que pilotava um carro esportivo no autódromo de Interlagos, uma amostra do que diz ter conquistado como day trader. Com o ronco do motor dos carros que ostenta, abafa reclamações de alunos que perderam dinheiro. “Não tem fórmula mágica. Eu dou o direcionamento e depende da disciplina da pessoa aprender”, disse.

E o gaúcho nem de longe é o único a atrair clientes usando carros, iates e maços de dinheiro como se isso provasse que ficaram milionários com o day trade. “Se a pessoa tem uma grande habilidade para ganhar dinheiro, por que ela estaria gastando tanto tempo tentando vender curso?”, questiona André Pássaro, gerente de acompanhamento de mercado da CVM.

O aumento na oferta de cursos ganhou de alguma forma o apoio da bolsa brasileira. Em maio, a B3 passou a bancar até R$ 300 mil para corretoras que quisessem difundir educação financeira sobre day trade a seus clientes. A condição era que as empresas investissem montante equivalente. Até agora, 14 iniciativas obtiveram o patrocínio.

Entre os mais recentes está a “Jornada do Trader Profissional”, uma série de lives gratuitas da Toro Investimentos. Nelas, Rafael Panonko, chefe de análises da corretora, explicava o básico do funcionamento de minicontratos, planejamento da operação em planilhas, metas de ganhos e controle de riscos – como o mantra “opere com stop loss” (parar perdas), um comando que precisa ser pré-programado para diminuir a possibilidade de prejuízos vultosos. Na primeira aula, incentivou abertura de conta na Toro, na última, vendeu o curso pago de day trade a R$ 2 mil. Já a XP lançou o curso “Full Trader”. Custa R$ 8 mil.

Ou seja: a prática, apesar de incrivelmente perigosa, está sendo fomentada pelos gigantes do mercado. Esse fenômeno já aconteceu no passado. Quando a taxa Selic rondava 14% ao ano, e não os atuais 2%, a bolsa criou um programa de incentivo para a migração da poupança que fica nos bancos para o Tesouro Direto (que fica na B3). As corretoras deixaram de cobrar taxas para o investimento e, em troca, passaram a receber uma compensação da bolsa. A diferença é que Tesouro Direto rende mesmo mais que a poupança, enquanto o day trade, principalmente aquele com minicontratos, é nitroglicerina pura.

Executivos da B3 não quiseram conceder entrevista. A assessoria de imprensa encaminhou declarações do presidente da empresa, Gilson Filkenstein, sobre o crescimento da prática de day trade entre pessoas físicas. Ali, ele diz que o day trade é uma porta de entrada para a bolsa, mas não é para qualquer investidor. Essa porta de entrada, enquanto isso, gera receita para a B3, que só no segundo trimestre lucrou R$ 1 bilhão.

MUITO ESFORÇO PARA NADA

92% dos traders pessoa física desistem de operar antes de um ano. É o que diz um estudo da FGV feito em 2019 a partir de uma base de dados com 19.696 pessoas que fizeram day trade em operações com mini índice entre 2013 e 2015.

O que disse Rafael Panonko, da Toro, sobre esse estudo na primeira live em que ensinava os riscos do day trade? “Desistir é uma coisa. Ter prejuízo, na minha avaliação, é outra.”

Continuemos com a pesquisa da FGV, então. Entre os 1.558 traders que permaneceram na ativa por mais de um ano, 91% tiveram prejuízo. 9% conseguiram algum lucro. E 0,06% – só 13 das 19,6 mil pessoas – teve retornos acima de R$ 300 por dia. Em um mês com 22 dias úteis, isso daria um salário de R$ 6,6 mil. É isso que a carreira de trader pode render, mas para apenas seis pessoas a cada 10 mil que tentam a sorte – ou uma a cada 1,6 mil numa notação mais científica. “Ninguém estava informando com clareza que a probabilidade de obter lucro com esse tipo de operação é baixíssima. Claro, porque dar esse tipo de informação não rende dinheiro. O que dá dinheiro é vender curso”, provoca um dos autores do estudo, o economista Fernando Chague.

Fernando e seus colegas voltaram a se debruçar sobre as reais possibilidades de ganhar dinheiro com day trade quando viram aumentar a procura por operações desse tipo em meio à pandemia. Desta vez, olharam o mercado de ações mesmo. “Circulava a ideia de que era mais fácil em comparação aos mercados futuros [os minicontratos]. Porém, os resultados foram igualmente desastrosos”, diz o professor da FGV.

Após analisarem 98.378 pessoas que começaram a fazer day trade com ações entre 2013 e 2016, eles constataram, de novo, que apenas uma pequena parcela persiste por mais de um ano: só 554 pessoas. Destas, somente 127 day traders tiveram lucros diários acima de R$ 100. A coisa é tão feia que a média de rentabilidade por dia dos 554 investidores que permaneceram firmes é, na verdade, um prejuízo – R$ 49 ao dia.

Bom, ao analisar a performance dos 127 investidores que tiveram ganhos, os economistas constataram que quem obtinha retornos diários de, em média, R$ 103 mostrava um desvio padrão de R$ 747. Estatisticamente, isso quer dizer o seguinte: na maior parte dos dias, os ganhos desses investidores variavam entre lucros de R$ 850 e prejuízos de R$ 644. Haja risco.

“Os dados deixam claro que quem conseguiu obter algum lucro fez isso às custas de muita volatilidade. No final, a mensagem é uma só: a ideia de que é possível ganhar dinheiro com day trade de forma fácil ou ficar milionário sem sair de casa é uma ilusão”, afirma Fernando, da FGV.

Estudos de fora corroboram os achados da FGV. Pesquisadores americanos e chineses analisaram em um estudo todas as operações de day trade feitas em Taiwan durante 15 anos. A conclusão: 97% perderam dinheiro. Fora isso, apenas 1% dos que ganharam alguma coisa conseguiu lucros superiores ao retorno de quem investe em fundos de índice (os ETFs; a maneira mais segura de investir em ações).

NÃO ADIANTA TREINAR

De novo: o único jeito de ganhar dinheiro com day trade é ter o dom de prever o futuro. E não consta que existam cursos para isso. A experiência também não ajuda.

De acordo com a FGV, os resultados dos day traders no pregão número 100 de suas vidas foram piores que os do pregão número 1. E melhores que o do pregão 200. Sim. Você vai piorando com o tempo. Motivo: quem começa perdendo dinheiro logo de cara, pula do barco. Já quem dá sorte no começo tende a seguir – daí que vem o mito da “sorte de principiante” – enquanto quem dá azar no início some das estatísticas. Mas uma hora os sortudos iniciais começam a ter prejuízo. Para tentar saná-los, o trader vai aumentando suas apostas. E afunda na lama.

Foi o que aconteceu com o mineiro Matheus Henrique da Silva, de 26 anos. Morador da cidade de Cambuí, a 500 km de Belo Horizonte, ele começou a investir na bolsa em 2018. Influenciado por youtubers, partiu para o day trade em mini dólar.

E veio a sorte de principiante. “Na primeira vez que você consegue transformar R$ 20 em R$ 1 mil, você acha que isso vai acontecer todos os dias”, diz. Pois é. Um viciado em cocaína, crack ou heroína passa o resto da vida em busca do prazer da primeira dose. O corpo, porém, acostuma com a droga. Para voltar a ter a mesma sensação, o sujeito vai aumentando as doses. No day trade, você vai aumentando as apostas. “E se eu colocar R$ 20 mil? Posso ganhar um milhão…”.

Matheus fez basicamente isso depois de amargar o bode dos primeiros prejuízos. Pegou um empréstimo de R$ 20 mil no banco para tentar a sorte grande. Não rolou: Matheus terminou sua aventura no mundo do mini dólar devendo R$ 108 mil para a corretora, mais R$ 55 mil para o banco.

GATILHOS E VÍCIOS

Não é cocaína em si que vicia. É a dopamina, o neurotransmissor que a droga ativa no cérebro. Dopamina é o biscoito de cachorro da evolução das espécies. Quando você faz algo bacana para a sua sobrevivência, tipo fazer exercícios ou se alimentar, o cérebro libera dopamina. Quando você faz algo ok para passar seus genes adiante – no caso, sexo -, mesma coisa, e numa quantidade bem maior (obrigado, evolução). Drogas driblam esse sistema. Cocaína, crack, álcool e cigarro são dopaminérgicos. Eles enganam o corpo, fazendo com que ele produza doses cavalares de dopamina sem que você tenha feito nada de útil para sua sobrevivência ou reprodução.

Com day trade é a mesma coisa. Ver R$ 20 se transformar em R$ 80 em meia hora já é um dopaminérgico poderoso. Seu corpo é tomado por um rush de prazer. Ver R$ 20 virar R$ 1 mil, então, minha nossa. É melhor do que sexo. Vicia. Você vai topar qualquer aposta só para sentir isso de novo.

O psiquiatra Hermano Tavares, da USP, alerta para o perigo: “A excitação de apostar, por si só, já é capaz de acionar o disparo dopaminérgico, mesmo que o lucro não venha”.

O analista de sistemas Fernando Barros da Silva, de 38 anos, sabe bem o que é isso. “É igual cocaína. Toma conta da sua mente e, quando você vê, está sempre atrás de alguma forma de ganhar dinheiro com as operações”, diz, admitindo que o day trade se tornou um vício para ele.

No começo, em 2015, Fernando fazia apenas operações de longo prazo (as que de fato são recomendáveis), mas logo a promessa de conseguir enriquecer de forma fácil fez seus olhos brilharem. “Me chamou a atenção o fato de que, com pouco capital, é possível ganhar muito dinheiro. Então fui atrás de cursos para entender”, diz.

Em 2016, ele fechou o ano com um prejuízo de R$ 15 mil. Mas achava que, para reverter isso, bastava ganhar mais experiência. “Em todos os cursos dizem que existe uma ‘curva de aprendizado’ na qual você queima dinheiro, que isso é normal”, explica. Entre muitas perdas e poucos ganhos, Fernando persistiu. “Não pensava em parar. Sempre achei que encontraria uma maneira de recuperar o que tinha perdido. Eu dormia e acordava pensando na bolsa, até nos finais de semana sentia vontade de abrir o home broker”, diz.

Três anos depois, o prejuízo já estava em R$ 150 mil. Ele tinha vendido o carro e levantado empréstimos. Não conseguia mais dormir direito. Foi aí que, com a ajuda de uma amiga psicóloga, Fernando percebeu que tinha um problema. Em fevereiro de 2020, desinstalou o home broker. Está limpo há oito meses. “A qualquer momento posso ter uma recaída. Agora eu tenho consciência de que sou um viciado.” É isso. Se algum youtuber ou corretora lhe oferecer day trade, diga não.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GUERRA CONTRA A DOR

Esse mal afeta boa parte das pessoas e interfere na qualidade de vida. Saiba como a dor age no cérebro e de que forma sua mente pode ajudar você a enfrentá-la

Qual foi a última dor que você sentiu’? Caso não saiba responder, pode se considerar um (a) privilegiado (a). De acordo com dados de 2015 de urna parceria entre o Ibope Conecta e uma marca de analgésico, três em cada quatro brasileiros são afetados por algum tipo de dor. Dentre as mais de mil pessoas analisadas, 65% sofrem com dores de cabeça e cerca de 41% com dores nas costas. Com isso, atividades como emprego (69%), sono (32%), funções domésticas (30%) e lazer (29%) são prejudicadas. No entanto, apesar dos sinais, apenas 6% dos entrevistados deixam de fazer suas obrigações por causa de algum sintoma. Seja onde for, esse incômodo pode atrapalhar (e muito!) a rotina de quem convive com esse mal.

CONHECENDO O INIMIGO

O caminho da dor começa no momento em que alguma parte do corpo é lesada, isto é, sofre um trauma. “Quando isso ocorre, alguns receptores (denominados nociceptores) são estimulados, desencadeando um disparo doloroso que é transmitido até a medula espinhal. Esse estimulo é transmitido de um neurônio a outro até chegar ao cérebro, onde há a percepção da dor”, explica Alexandra Raffaini, médica especialista em tratamento de dor.

Ou seja, apesar das lesões partirem de um local específico, o cérebro é o responsável pela sensação de dor. O chamado estímulo álgico pode surgir em um órgão, um nervo, na pele, entre outros locais. “É no cérebro que essa informação é detectada e processada; e, então, temos a percepção da dor. Isso tudo ocorre em uma fração de segundo, mas é neste órgão que o estímulo é reconhecido como doloroso”, complementa Alexandra. Além disso, alguns fatores pessoais podem interferir diretamente nesse processo. “Após a captação dos sinais de dor e envio ao cérebro, as emoções e as memórias podem modular a percepção desse incômodo”, descrevem a neurologista Marcela Jacobina e o neurocirurgião Marcelo Amato. Dessa forma, uma sensação desagradável, já sentida anteriormente, pode parecer muito pior se houver lembranças negativas.

CAMPO DE BATALHA

Para que haja essa interpretação, diversas regiões do cérebro são estimuladas e contribuem nesse resultado nada agradável. Segundo Alexandra Raffaini, dentre os principais neurotransmissores envolvidos na transmissão da dor, estão “glutamato (responsável pela velocidade da comunicação neuronal, pela resposta imediata a um estímulo), aspartato, substância P (age aumentando a sensação de dor) e neurotensina, peptídeo relacionado, ao gene da calcitonina e co!ecictocinina”. Mas é possível citar outros exemplos, como as endorfinas e encefalinas, que influenciam na modulação da dor.

Em relação às áreas do cérebro, muitas estão envolvidas. “Há a participação do tálamo (responsável pela transmissão de estímulos da medula espinhal), formação reticular, hipocílamo e sistema límbico (que agem no controle de emoções, entre outras funções), e áreas somestésica do córtex cerebral”, apontam Marcela e Marcelo. Após a interação de todos esses setores, um sinal é emitido e, com isso, percebemos a dor.

NA CABEÇA, DE CABEÇA

A dor de cabeça, provavelmente, é a que mais incomoda a população brasileira todos os anos. E não é de hoje. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federai de São Paulo concluiu que 72% da população nacional sofreu com esse mal em 2008.

Nesse contexto, a dor de cabeça pode ser dividida em dois grupos. O primeiro é chamado primário e, nele, se encaixam as dores que são os próprios males, ou seja, não há nenhum outro fator que dá origem a esse quadro (por exemplo, as oriundas de desgaste físico). Já o segundo, denominado secundário, a dor de cabeça surge como um indício de alguma outra disfunção do organismo, como sinusite, aneurisma ou tumor. ”A dor de cabeça é um sintoma que pode estar presente em muitas doenças, e sua identificação vai depender de quais outros sintomas e sinais estão associados nesse quadro”, frisam Marcela e Marcelo.

MENTE PULSANTE

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, existem mais de 150 tipos de dores de cabeça. Sem dúvidas, um dos mais temidos pelas pessoas é a enxaqueca, que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta cerca de 90% da população mundial.

Em nossa sociedade, criou-se um senso comum de que a enxaqueca é uma dor de cabeça mais forte. No entanto, apesar de fazer parte das cefaleias primárias, ela vai muito além disso: suas crises podem durar dias e, geralmente, provocam dores latejantes no paciente. “O desencadeador deste processo pode ser uma associação entre predisposição genética e agressões do meio ambiente”, alertam Marcela e Marcelo. Algumas dessas situações são o estresse, cansaço, emoções fortes, variações hormonais e sedentarismo, que vão desgastando a capacidade de resistência do organismo. “Existem várias teorias para a causa da enxaqueca. A mais aceita é a de que o sistema nervoso, quando submetido a mudanças bruscas corporais ou do ambiente externo, torna-se vulnerável, causando uma inflamação nos vasos sanguíneos do cérebro”, relatam Marcela e Marcelo.

“AI, MINHAS COSTAS”

Dados da OMS apontam que cerca de 80% das pessoas sofrerão com dores nas costas pelo menos uma vez na vida. Esse sintoma pode interferir negativamente nas atividades diárias. “As dores na coluna são, geralmente, causas de graus de incapacidade, queda de produtividade no trabalho, aumento do estresse emocional, abandono de atividade física e diminuição da qualidade do sono”, esclarece a fisioterapeuta Isabela Laynes. Além disso, é possível que diversos movimentos, antes considerados naturais, sejam comprometidos ou perdidos.

A origem desse mal pode variar desde hábitos incorretos até questões físicas e doenças. “Sedentarismo, tabagismo, sobrepeso, hérnia de disco, desvios posturais, doenças metabólicas (como artrite reumatoide e espondilite anquilosante), doenças degenerativas (como a artrose, fatores psicossociais), entre outros fatores são as causas de dores nas costas”, justifica Isabela.

O fisioterapeuta Ricardo Regi reitera que a postura também interfere, pois “as alterações como hiperlordose, hipercifose e escolioses podem, com passar do tempo, devido à mudança de eixo anatômico, provocar maiores desgastes nas articulações e, consequentemente, serem geradoras de dores nas costas”.

CORPO E MENTE

Além das questões físicas provocadas pelas dores nas costas, é comum que também apareçam algumas consequências pessoais. “É praticamente impossível desassociar os dois conceitos, principalmente quando falamos nas questões das dores crônicas. Por isso, cada vez mais a abordagem da dor lombar tornou-se biopsicossocial”, complementa Ricardo.

Nesses casos, além de tratar os aspectos músculo esqueléticos, o especialista explica que são estudadas questões “comportamentais ligadas aos fatores de recidiva (reaparecimento de um sintoma) ou piora (ansiedade, estresse, medo e evitação), assim como outras relacionadas à melhora (por exemplo, motivação e confrontamento)”.

ALIADA NO COMBATE

Na busca pela cura desse mal, grande parte dos pacientes procuram médicos e tratamentos tradicionais. No entanto, muitos esquecem que a própria mente também pode ser uma aliada no combate a diversos sintomas. Nesse quesito, a hipnose é uma das técnicas utilizadas para o tratamento de algumas dores. Apesar de apresentar resultados positivos em muitos casos, geralmente as pessoas só procuram essa alternativa quando a dor já alcançou um estágio mais grave. “A hipnose pode ser aplicada para tratar qualquer tipo de dor. Lógico que não vai curar um processo inflamatório, mas alivia a dor enquanto o remédio leva o tempo necessário para a cura. É mais usada nos casos crônicos, pois há um componente emocional intensificando os sintomas”, frisa o psiquiatra e hipniatra João Cabral.

O especialista explica que o desespero ea desesperança invadem o paciente, e a hipnose age também no âmbito emocional. No tratamento, diversas técnicas conduzem a intervenção. “Os métodos empregados podem ser uma indução direta para bloquear a dor, mas geralmente é utilizada a regressão para busca da sua causa. Se for um trauma, ao tratá-lo, a dor desaparece. Há também a técnica de visualização dirigida para alívio da dor enquanto se faz o tratamento adequado para cada caso”, menciona João.

Mas os benefícios não param por aí; além de reduzir a ingestão de medicamentos, inúmeros casos e pacientes podem receber essa ajuda. “Em cirurgias, diminui o uso de anestésicos e melhora a cicatrização, o edema e a dor pós-operatória. Há ainda a possibilidade de utilização no parto sem dor, facilitando o nascimento sem trauma”, conclui João.