EU ACHO …

RACISMO ESTRUTURAL E PANDEMIA

A mortalidade tem raça e cor

A pandemia do coronavírus nos Estados Unidos e Brasil apresenta dados importantes sobre as pessoas que têm mais chances de morrer, nos quais os negros e latinos são os mais afetados. Os Estados Unidos têm 13% da população negra com 27% de maior chance de morrer, segundo a entrevista do jornalista da New York Times, Eduardo Porter, autor do livro “O preço de todas as coisas”.

O Ministério da Saúde do Brasil estima que a taxa de mortalidade para 100 mil habitantes no país e muito maior para negros (27.4%) do que para brancos (9,6%). Ou seja, os negros têm 62% mais chance de morrer que os brancos. Dados assustadores e considerados resultados do racismo estrutural como uma das questões fundamentais para esse entendimento.

As desigualdades sociais e raciais também podem ser vistas nas doenças em populações de vulnerabilidade, no não acesso a atendimentos de qualidades nos sistemas de saúde, na precarização da moradia, nos trabalhos básicos e fundamentais para o bem-estar social, entre outros fatores. Tudo isso demonstra injustiças comuns em diferentes contextos históricos, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, segundo Eduardo Porter.

Uma das formas de prevenção do coronavírus de ficar ou trabalhar em casa não é privilégio da população negra e latina. Os trabalhadores com maiores chance de contaminação e letalidade são motoristas, domésticas, entregadores e atendentes, todos exclusos de redes de solidariedades já estabelecidas antes da pandemia, redes pautadas na coletividade, na convivência e na cooperatividade. Atualmente, essas redes foram reduzidas na prevenção do coronavírus.

Infelizmente, a naturalização e a banalização das mortes nos dois países são parte do racismo estrutural, como diz Silvio Almeida, autor do livro “O racismo estrutural”. Ele salienta que o racismo aniquila a potência da vida quando banaliza a morte em massa e outras demandas que a sociedade já viveu por muitos anos, com o desaparecimento de pessoas na ditadura, o encarceramento dos jovens pretos e pobres, brutalidade policial, violência à mulher negra e, na atualidade, essa hostilidade racial mais de 200 mil mortes do coronavírus no Brasil, em muitos casos sem direitos a velórios, proibidos na pandemia.

A banalização das mortes – principalmente as mortes negras – criam corpos sem identidade. Uma sociedade que se desumaniza desta forma está em crise, e o racismo é uma doença que vem oprimindo a sociedade globalmente, pois é uma forma de naturalização da morte do outro. Silvio Almeida questiona: “Por que alguém pode pensar que merece viver mais que o outro?” Você tem alguma hipótese?

Uma pessoa negra pode não ser a exceção em estar vivo ou por ser sinônimo de sucesso. Isso deveria ser natural, principalmente no Brasil onde a maioria da população é de origem negra; não é possível negar as necessidades dessa numerosa população. Seria esse, talvez, o motivo da violência ser maior na população negra? São características típicas do racismo estrutural… A população negra vive o tempo todo experienciando situações de exclusões baseadas nas relações raciais.

Os resultados do racismo estrutural e da pandemia se afinam para a sociedade continuar desejando a morte do povo negro. Segundo Silvio de Almeida, é como se a cor da pele também provocasse mais medo e pavor num contexto da pandemia. O racismo é pandêmico e a pandemia produz medo e racismo.

A pandemia configura-se também como forma de in­ justiça e opressão que o Estado e o sistema neoliberal têm como ferramenta de controle de suas instituições, sejam estas econômicas ou políticas. São nesses segmentos que as ações precisam ser ajustadas de forma digna e decente para a população pobre e negra, adjetivos quase sinônimos no Brasil. É preciso reconhecer a “doença racismo”, estruturar ações com representatividade, direitos, moradia, rendas e espaços de decisão para a mudança.

Utilizando uma terminologia de saúde, poderíamos dizer que as vidas negras são vírus e precisam ser controladas por um sistema em crise que não combate o que não lhe interessa. A demora da vacina como prevenção também pode ser parte desse parâmetro. Idealmente, quando se trata de racismo, as ações precisam ser muito mais que preventivas. As ações precisam ser coordenadas por toda a sociedade que está desumanizada. É preciso quebrar a curva do crescimento do racismo pandêmico.

Os casos de opressão, violência, mortes e injustiças precisam cair. Nós precisamos desinfectar pensamentos que não fazem a sociedade avançar e “reinfectar” todo o povo no avanço e num futuro mais civilizado, pois os Estados que não promovam paz e humanidade estão equivocados na condução de suas instituições.

Os números das mortes denunciam o racismo, necessários e fundamentais para pensarmos no futuro além da raça como fator classificatório dos seres humanos, como conclui Sílvio Almeida em seu livro brilhantemente. É preciso sonhar e agir rapidamente nessa direção!

*** TEREZINHA RIBEIRO –  tmjribeiro8@gmail.com Facebook: Terezinha Ribeiro Instagram: @tmjribeiro

OUTROS OLHARES

CELEBRIDADES DIGITAIS (MESMO)

Elas têm milhões de seguidores, fazem campanhas, gravam músicas, falam sobre sexo, mas na verdade não existem no mundo real: são robôs criados em computador

“Estou super agradecida por minha primeira experiência com o amor ter sido com alguém que se importava comigo de todo o coração. E, mesmo com o colapso e a separação embaraçosa que se seguiu, parece que avançamos.” A declaração é emotiva, mas que também exprime maturidade e faz parte de um post publicado no início deste mês pela influenciadora digital californiana Lil Miquela, de 22 anos, em seu perfil no Instagram. A mensagem, dirigida a seus 2 milhões de seguidores, tinha por objetivo anunciar o fim do namoro da moça com um certo Nick. Não é novidade, claro, que celebridades venham a público falar da vida pessoal. No caso de Lil Miquela, no entanto, há uma particularidade. Ela não é de carne e osso ó só existe no maravilhoso mundo virtual. Trata-se de um robô criado em computador graças aos extraordinários avanços da inteligência artificial (IA).

Como assim? E as selfies que inundam suas redes sociais? Simples: não são verdadeiras. E as fotos posadas ao lado de famosos? Resposta: jamais ocorreram em qualquer ponto do território terrestre. E a história de que sua família é metade brasileira e metade espanhola? Pura ficção. Lil Miquela é a mais fulgurante das celebridades virtuais, porém com fama e “influência” ao redor do planeta bastante palpáveis. Ela estreou no Instagram em abril de 2016 e, durante meses, gerou uma série de especulações, principalmente em razão do fato de que seu rosto nunca aparecia focado de forma nítida pelas lentes das câmeras fotográficas. As teorias conspiratórias não demoraram a ser desenvolvidas por muitos que perceberam que aquela não era uma pessoa de verdade e sim, nem sempre isso fica evidente para os fãs, e é preciso reconhecer que seus idealizadores capricharam na hora de provocar a “confusão”. Houve quem apostasse em uma “jogada de marketing” do The Sims, série de jogos eletrônicos que simulam a vida real. Outros diziam acreditar que Lil Miquela estava a serviço de algum misterioso experimento social. Não demorou, entretanto, a ficar evidente a que ela vinha: Lil Miquela surgiu para cumprir o papel de garota-propaganda. Nas fotos que publica no Instagram, ela sempre aparece usando roupas de grife como Prada, acessórios da Chanel e sapatos Dior. Nada mais it girl. Lil Miquela já gravou hits como Not Mine, que viralizou no Spotify, dá dicas de restaurantes e viagens, e usa a web para apoiar causas sociais, como o movimento Black Lives Matter (campanha de denúncia da violência policial contra afrodescendentes nos Estados Unidos) e a organização Black Girls Code, que oferece aulas de programação e robótica a jovens negras. Tudo isso beira as fronteiras entre o mundo real e o virtual. Até hoje nunca ficou claro se Lil Miquela tem partes de seu corpo adaptadas do corpo de mulheres deslumbrantes – e verdadeiras.

No universo em que Lil Miquela circula também cintilam outros modelos digitais de sucesso, como a delicada Imma e o despojado Blawko22. A primeira é apresentada como uma jovem japonesa que, segundo ela mesma, “pode desfrutar a mais alta tecnologia de simulação virtual”. Suas fotos, não se duvida, esbanjam realidade. Imma tem, atualmente, 175.000 seguidores. Blawko22, modelo negro “nascido” na Califórnia, se destaca por ir além das fotografias. Ele também é youtuber. Em seu canal, discute comportamento, corpo e sexo – já fez, inclusive, um vídeo sobre “como contar a seus pais que você se sente atraído por robôs”.

Lil Miquela e Blawko22 são “assessorados” pela mesma “agência”, a Brud, que na verdade é uma empresa de tecnologia do Vale do Silício envolvida em uma aura de segredos. Seu site, por exemplo, traz apenas um documento, no qual a Brud se descreve como “um grupo de solucionadores de problemas em robótica, inteligência artificial e seu uso para empresas de comunicação”. Em janeiro do ano passado, o site especializado em tecnologia TechCrunch informou que os criadores de Lil Miquela haviam conseguido 125 milhões de dólares do fundo Spark Capital, que investe em startups. O negócio com “pessoas digitais” já despertou a atenção de grandes companhias. Um projeto chamado Neon, por exemplo, da Star Labs, subsidiária da Samsung, apresentou, no início deste ano, os “humanos artificiais”, como a empresa chama os avatares gerados por computação gráfica em tempo real, dotados de IA e capazes de entender o contexto das interações de que participam. A proposta, segundo o gigante sul-coreano, é criar “representantes de serviços, consultores financeiros, profissionais de saúde ou concierges”. Com o tempo, eles também estarão aptos a substituir “âncoras de TV, atores, porta-vozes ou mesmo ser nossos amigos e companheiros”. A ideia é oferecer ao público uma interface mais humana, que tenha expressões genuínas, consiga demonstrar emoções e até reagir diante de determinadas situações – uma sala de conferências cheia de gente como a gente, para citar uma possibilidade. O próprio nome Neon é uma espécie de acrônimo de “NEO humaN”, ou “novos humanos”.

Quando se estuda o impacto provocado por criaturas virtuais como essas esbarra-se, invariavelmente, em um sentimento: temor. Ele é explicado pela teoria do “Vale da Estranheza”, desenvolvida nos anos 1970 pelo roboticista japonês Masahiro Mori. De acordo com Mori, os humanos tendem a apresentar maior repulsa em relação a androides que se assemelham a eles; isso depois de uma simpatia inicial. Em 2010, um estudo da Universidade Harvard confirmou a tese ao analisar a reação de pessoas a seres digitais que gradualmente ganhavam feições humanas. Constatou-se que, quanto mais parecidos conosco, maior é o medo que os robôs nos provocam. Se as novas gerações continuarem a reagir assim, a fama de Lil Miquela e companhia poderá ser tão efêmera quanto a de certas ex-celebridades do mundo real.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE JANEIRO

LONGEVIDADE ABENÇOADA

O temor do Senhor prolonga os dias da vida, mas os anos dos perversos serão abreviados (Provérbios 10.27).

O temor do Senhor é um freio contra o mal. É o princípio da sabedoria. Nada pode deter o homem de praticar o mal senão o temor do Senhor. Haverá momentos em que você estará longe dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos amigos, da pátria, e nessas horas de solidão e isolamento a tentação baterá à porta do seu coração com ímpeto ou com manhosa sedução. Nessas horas o único freio moral é o temor do Senhor. Ele é a sirene que acorda a consciência. O temor do Senhor impediu José do Egito de se deitar com a mulher de Potifar. O temor do Senhor impediu Neemias de ser um político corrupto. O temor do Senhor nos livra de lugares perigosos, atitudes suspeitas e pessoas sedutoras. O temor do Senhor prolonga os dias da vida. Por outro lado, os anos do perverso, que não anda no temor do Senhor, são abreviados. Isso porque ele não conhece a Deus, a fonte da vida. Por não andar no temor do Senhor, ele se envereda pelos caminhos sinuosos do pecado. Por desprezar os conselhos divinos, envolve-se em tramas de morte e encurta seus dias sobre a terra. O temor do Senhor, porém, é o elixir da vida. Quando andamos por esse caminho, desfrutamos de abençoada longevidade.

GESTÃO E CARREIRA

DINHEIRO VELHO, ATITUDE NOVA

Os jovens herdeiros não estão interessados apenas em multiplicar a fortuna da família. Querem usar o dinheiro para transformar o mundo

Ao longo das próximas duas décadas, será feita a maior transferência de riqueza (e poder) da história da humanidade. Cerca de US$ 30 trilhões passarão para as mãos da próxima geração de herdeiros. Mais conscientes, globalizados e engajados, esses jovens querem mudar (e salvar) o mundo. Que ninguém os confunda com filantropos, como fora muitos de seus pais e avós. Eles são mais. Querem usar o dinheiro sobre o qual têm influência para fomentar a construção de um futuro próspero, sustentável e socialmente justo. Estão de olho em ativos e títulos atrelados a negócios e países preocupados com o meio ambiente, com garantia dos direitos humanos, combate à corrupção, boa governança corporativa e desenvolvimento econômico e social – aspectos aglutinados na sigla ESG, do inglês environmental, social and governance. Nesse contexto, retorno significa rentabilidade combinada à mitigação de danos ambientais e ganhos sociais. “Investir e dedicar tempo a causas filantrópicas é de extrema importância. Mas é só uma parte do que podemos fazer pela sociedade”, diz

Marina Cançado, uma das herdeiras do grupo de farmácias Drogai, do interior paulista, é uma das vozes mais ativas dos futuros líderes.

Com interesse pela área de políticas públicas, a jovem se formou em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), fez pós-graduação em Washington e se engajou no programa de formação para jovens herdeiros ministrado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Também participou de projetos destinados ao programa Bolsa Família, quando circulou pelas periferias para conhecer a realidade dos beneficiários. Aos 31 anos, Marina é o espelho de uma juventude bem-preparada, informada e engajada. “Se você é jovem e tem acesso a capital, precisa se tornar protagonista na construção de um futuro melhor”, defende ela. Quando percebeu que não há filantropia que dê conta das demandas ambientais, sociais e econômicas, Marina viajou o mundo em busca de conhecimento. “Quis entender o que, de fato, eram os investimentos de impacto. Estudei iniciativas na Ásia, Europa e América do Norte”, lembra. Juntou-se então a uma rede global, o The ImPact, um clube exclusivo que reúne famílias com fortuna superior a US$ 700 milhões. Entre os “sócios” estão: Justin Rockefeller, 40 anos, tataraneto do magnata do petróleo John D. Rockefeller; Liesel Pritzker Simmons, 35 anos, herdeira da fortuna dos Hotéis Hyatt; e Jason Ingle, tataraneto de Henry Ford.

O grupo almeja mudar as bases dos negócios e dos mercados de capitais, alinhando a forma como as famílias ultra ricas investem seu dinheiro às métricas ESG, compatíveis com os objetivos de desenvolvimento sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas. Em 2015, a ONU propôs que seus 193 países-membros assinassem a Agenda 2030, um programa global composto por 17 objetivos, nos âmbitos econômico, social e ambiental, a ser alcançado até 2030. Entre as metas sugeridas. estão a erradicação da pobreza e da fome, a promoção da agricultura sustentável e sociedades pacificas e inclusivas, entre outras. Cofundador do The lmPact, em um vídeo para a entidade Justin Rockfeller conta que seu tataravô passou metade da vida fazendo dinheiro e outra metade doando. A família segue com a tradição filantrópica, mas Justin entende que é preciso ir além. “Vejo nos investimentos de impacto a continuidade desses valores. O que cada um faz com seu dinheiro tem consequências, e eu me importo com um mundo pacífico e sustentável”, defende.

Não se trata de deixar dinheiro na mesa. A filantropia é parte da carteira de impacto – o montante que se investe a fundo perdido, sem retorno. Nos negócios, esses herdeiros querem fazer a fortuna crescer, claro, mas sem jamais abrir mão de seus ideais e propósitos. Buscam um novo capitalismo, de bases muito semelhantes às defendidas por Klaus Schwab, 81 anos, fundador do Fórum Econômico Mundial. No final de janeiro, o encontro anual da organização foi marcado por discussões sobre os desafios ambientais e sociais que nós enfrentamos atualmente. O senso de urgência tomou conta das palestras em Davos e a sigla ESG foi unia das mais ouvidas.     

Em um manifesto público, Klaus Schwab clamou por um novo tipo de capitalismo. No “capitalismo stakeholder”, os interesses das empresas estão voltados para qualquer um que dependa, diretamente ou não, do sucesso da companhia – acionistas, funcionários, clientes, a comunidade local e outras empresas naquela cadeia produtiva. Como bem definiu Marc Benioff, 55 anos, CEO e fundador da Salesforce, a terra é nosso maior stakeholder. E assim, o interesse coletivo entra na composição do lucro. “Passou a fase do capitalismo de acionistas”, sentenciou Klaus Schwab, na abertura do fórum. Cabe às empresas pagar sua parte justa dos impostos, mostrar tolerância zero à corrupção, lutar pelos direitos humanos em suas cadeias de suprimentos globais e defender igualdade nas condições de concorrência.

  E o mundo tem pressa. A solução das questões sociais e ambientais exige ação efetiva e investimentos. Há muito a ser feito na próxima década, de modo a cumprir a Agenda 2030, da ONU. Os países em desenvolvimento, por exemplo, demandam recursos em ramos como saneamento básico, energia, gestão de lixo, acesso à água, alimentação, habitação popular e educação. Segundo a Rede Global de Investimentos de Impacto (GIIN, na sigla em inglês), são necessários US$ 2,5 trilhões por ano para habilitar esses países a avançar em suas metas.  Definitivamente, não é um montante que virá da filantropia ou dos cofres públicos. “Os investidores estão aficionados pelas empresas de tecnologia. Mas há retorno concreto em negócios que resolvem necessidades básicas”, comenta Pedro Vilela, 36 anos, sócio da Rise Ventures. Ele já se aventurou em negócios ligados a essa “economia real” que renderam 200 % de retorno.

Os investimentos de impacto estão em fase probatória. De acordo com o GIIN, o volume investido em ativos engajados soma USS 502 bilhões. Entre os setores de alocação estão energia renovável, habitação, saúde, educação, microfinanças e agricultura sustentável. Relatórios da instituição mostram que o montante tem crescido, mas é preciso pressionar o mercado financeiro a ampliar a oferta de soluções.

Para Fernando Russo, 42 anos, herdeiro da fortuna dos laboratórios Fleury, um dos maiores desafios da sua geração é provar ser possível fazer negócios em parceria com a natureza. “Um modelo de prosperidade, em que todos ganham”, como define. Depois de vender a P2Com, empresa de eventos corporativos fundada por ele em 2016, Fernando encarou um mestrado no lnsead, em Fontaine Bleau, na França. Foi lá que ele teve o primeiro contato com os conceitos ESG. Em seguida, Fernando se dedicou ao trabalho voluntário, apoiando e transferindo conhecimento para empreendedores em Uganda, na África e em Camboja, na Ásia. “A minha vontade era trabalhar com empreendedorismo, mas seguindo meus propósitos”, lembra. Com seu próprio capital, começou a investir em negócios de impacto. A experiência culminou no que ele chama de filosofia de investimento. Fernando olha seu portfólio com lupa e dá preferência a negócios com preocupação ambiental e boas práticas de governança. Investe em segmentos como agroecologia e manejo florestal. Mas mantêm o foco ESG também em opções tidas como mais tradicionais. “Se vou investir em gado, por exemplo, analiso como a propriedade maneja o rebanho, se está integrando técnicas modernas e como atua para regenerar a natureza”, conta. Para ele, o momento é de transição, de adaptação das carteiras de investimento e de procura por empresas que estão na mesma toada, na busca por se tornarem sustentáveis.

A visão de negócios de Fernando agradou tanto ao pai, o médico Ewaldo Russo, que o jovem é responsável por cuidar da fortuna da família. A orientação é diversificar os investimentos, seguindo uma regra simples: buscar oportunidades com a mesma atenção às boas práticas que o pai sempre defendeu na rede Fleury. Fernando usa as métricas ESG na hora de comprar ações de empresas, letras de crédito ou títulos de países. “O compromisso é ter um portfólio 100% alinhado à visão de impacto”, explica. Segundo ele, a rentabilidade está dentro do esperado e, em alguns casos, os negócios alinhados à nova proposta superam os lucros médios do mercado tradicional.

Aos 31 anos, Fernando Scodro é outro jovem brasileiro com mandato para comandar os neg6cios de impacto da família – cuja fortuna veio com a fábrica de biscoitos Mabel, vendida para a PepsiCo em 2011. Ele despertou para as questões socioambientais quando trabalhou com uma startup do mercado de gestão de energia. O negócio tinha como objetivo reduzir o consumo energético nas empresas. “Nós éramos remunerados em uma atividade sustentável, lembra. No curso “Investimentos de Impacto para a Próxima Geração”, ministrado na Universidade Harvard, em 2014, Fernando foi formalmente apresentado nos conceitos de ESG. Entendeu que era possível trazer essa lógica de negócio para todas as classes de ativo: “Pensei: é tão óbvio, por que é que não estamos fazendo isso?”.

De volta em casa, animado com os novos conhecimentos, Fernando achou que seria fácil convencer a família. Ingenuidade, como ele mesmo define. “Há pouca informação no Brasil sobreo tema, e não adianta falar dos conceitos em inglês”, diz. O jovem decidiu traduzir o curso de Harvard, adaptar os conceitos à realidade brasileira e ministrá-lo para sua família. No processo, um colega de curso, o americano Samuel Bonsey, 31 anos, convidou Fernando para integrar o time de fundadores do The lmPact, oferecendo a ele um escritório na sede da organização, em Nova York. “Acabei me tornando responsável por trazer o grupo para o Brasil”, diz. Hoje Fernando mora em Londres, onde há mais informações e opções para o portfólio de impacto. No Brasil, os pais, Marcha e Sergio Scodro, estão à frente do The lmPact. Entre os negócios em que eles investem estão os de agricultura sustentável e manejo florestal.

Os investidores têm pressionado o mercado financeiro por mais opções na composição de uma carteira engajada. No mês passado, Larry Fink, 67 anos, CEO e presidente do conselho da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, com quase USS 7 trilhões de ativos sob sua administração, anunciou, em carta ao mercado, que vai colocar a sustentabilidade no centro de suas decisões de investimento. A meta é utilizar as métricas ESG como padrão na oferta de soluções financeiras. Segundo o executivo, os riscos climáticos estão forçando os investidores a reavaliar seus pressupostos de finanças, o que vai mudar a estrutura do mercado de capitais. “Instituições com compromisso de rentabilidade no longo prazo estão saindo do ramo de energia fóssil”, exemplifica Marina Cançado. Segundo dados da organização não governamental 350.org, 1.176 instituições, com a soma de USS 12 trilhões em ativos, não querem mais investir em negócios relacionados a carvão, petróleo e gás. Em Davos, o Fórum Econômico Mundial formou uma coalizão de investidores institucionais – com quase US$ 4 trilhões sob gestão. Eles se comprometeram a migrar suas carteiras para investimentos que buscam a neutralidade de emissões de carbono até 2050.

Uma semana depois da divulgação da carta de Larry Fink, o Citi lançou um fundo de impacto no valor de USS150 milhões, para investir em empresas do setor privado que querem dar retorno financeiro e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento da sociedade com seus negócios. A Microsoft revelou sua ambição de atingir emissões líquidas zero até 2030 ecompensar, até 2050, todas as emissões que produziu em sua história. Já a Nestlé pretende investir US$ 2 bilhões em embalagens sustentáveis. Essa resposta das instituições financeiras e empresas é o que os investidores querem. Não é uma questão de bondade. Mantidos o ritmo atual de degradação da natureza e os problemas sociais sem solução, todos nós seremos atingidos.

“É ruim para o sistema”, comenta Fabio Alperovitch, 48 anos, sócio da Fama Investimentos. Simples assim.

A Fama tem avaliado negócios de impacto e constatado que empresas mais preocupadas com a sustentabilidade apresentam menor risco ao investidor. “Há uma ideia errada de que elas não buscam retorno financeiro”, comenta Fabio. Na realidade, explica ele, companhias com esse perfil arriscam menos nos terrenos regulatórios e ambientais – reduzindo perdas financeiras com indenizações e processos. “Elas também agradam a nova geração de consumidores”, completa.

Negligenciar a natureza é um tiro no pé para os negócios. Estudo realizado pelo Fórum Econômico Mundial, em parceria com a consultoria PwC, aponta: metade do produto interno bruto (PIB) global, ou US$ 44 trilhões, depende, em maior ou menor grau, da natureza – da polinização, da qualidade da água e da manifestação de doenças, por exemplo. O levantamento englobou 163 setores da indústria e suas cadeias de suprimentos. Estão mais expostos às intempéries e mudanças nos padrões naturais segmentos como o da construção, da agricultura e da indústria de alimentos e bebidas. De acordo com os resultados do trabalho, há ainda uma diversidade de negócios com a chamada “dependência oculta” da natureza. Essa denominação serve para a indústria química e de logística, entre outras. São setores que não dependem diretamente da natureza, mas que estão na cadeia produtiva dos que estão intrinsecamente ligados às alterações do tempo ou de pestes. Isso significa que, em um cenário de degradação socioambiental mais intensa, podem simplesmente desaparecer.

A pressão também recai sobre os países, que precisam vender títulos públicos e atrair investimentos. Em Davos, Úrsula Von der Leyen, 61 anos, presidente da Comissão Europeia, mandou um recado amargo para as nações usuárias pesadas de combustíveis fósseis, como a China. A União Europeia pode taxar os produtos desses países se eles não encontrarem alternativas para mitigar as emissões de CO2. A executiva cobra transparência no inventário de carbono e a precificação das emissões. Para ela, não faz sentido limpar a matriz europeia e continuar importando produtos de grandes emissores de gases do efeito estufa.

Para o Brasil, as queimadas na Amazônia, mantidas fora de controle, podem prejudicar acordos de comércio internacional. Outro problema, destacou Roberto Campos Neto, 50 anos, presidente do Banco Central, está no impacto que as questões ambientais exercem sobre o fluxo de capitais. Segundo ele, a política brasileira tem se baseado na capacidade de atrair investimento privado, e parte desse investimento vem de fora do país. “O investidor externo vai olhar esses critérios de governança ambiental. Precisamos estar em conformidade”, disse o presidente do BC.

Eugênio Mattar, 67 anos, cofundador e presidente da Localiza, lembra que o investidor não é ingênuo. Ele sempre vai procurar o investimento atrelado à sua expectativa de retorno económico. Parte do trabalho está em avaliar impactos sociais e ambientais, buscar dados que estão além dos prospectos e verificar se empresas e países são transparentes nas respostas. “Tem de pesar tudo na balança e ver se compensa”, diz. Para Eugênio, as empresas não podem se alienar de seu papel na sociedade. ”É algo que tem de estar no cerne do negócio. Todas as decisões que tomamos possuem impacto”, defende o executivo. Na Localiza, ele direcionou a renovação de frotas com a aquisição de veículos leves e menos poluentes. Também baixou o preço dos aluguéis, para oferecer uma solução de mobilidade capaz de desencorajar a compra de um automóvel próprio. Como efeito colateral positivo, a empresa caiu no gosto dos motoristas de aplicativo, que locam veículos a taxas de R$ 60 por dia e geram renda com esses ativos. “Os veículos são a ferramenta de trabalho de muitos desempregados”, completa Eugênio.

Para Roberta Goulart, 40 anos, sócia da Turim Family Office, a falta de métricas padronizadas para medir impacto é um gargalo relevante do setor e atrapalha a disseminação dos conceitos. “Gestores de fortunas ou fundos precisam dar retorno. O mercado tem metodologias disponíveis para medir o financeiro”, diz. De fato, uma das missões do encontro em Davos é o de costurar as propostas para criar uma métrica única, permitindo assim, mais transparência nas avaliações para os investidores e o nivelamento na concorrência. Do jeito que está hoje, é difícil separar o joio do trigo. “Tem produto que diz que é verde, mas não é”, completa Fabio Alperowitch, da Fama.

Outro desafio, no Brasil, está na falta de conhecimento sobre o tema. “Ainda é muito incipiente e há dificuldade em encontrar oferta de produtos ESG no mercado financeiro”, aponta Márcio Correia, 43 anos, sócio da JGP Investimentos. Segundo ele, nem mesmo os profissionais do setor sabem como avaliar e indicar negócios de impacto. ”A pressão virá dos investidores, que devem demandar essas soluções”, comenta. Roberta Goulart, da Turim, lembra que os estrangeiros já cobram opções de impacto quando querem investir no Brasil. Os dois especialistas admitem que temos muito trabalho pela frente para educar o mercado e fomentar negócios engajados.

Nesse contexto, Marina Cançado bate o pé sobre a importância de articular os herdeiros. “Temos de fazer pressão”, diz. Neste mês, ela vai reunir famílias ricas em um evento no Rio de Janeiro, o Converge Capital Conference 2020, para explicar os conceitos de impacto, demonstrar casos de sucesso e provocar ações para criar massa crítica no mercado financeiro nacional. O objetivo é expandir o olhar do investidor e estimular a criação de produtos financeiros. Com o resultado, ela espera iniciar um ciclo de transformação nas carteiras de investimento das fortunas brasileiras. ”Precisamos alinhar a aplicação de capital com as metas de futuro, pensando no desenvolvimento econômico sustentável do país, resume a jovem. O documento de apresentação da Converge Capital Conference 2020 instiga: “Qual é o nosso papel como indivíduos com grande patrimônio, ou como instituições financeiras brasileiras? Já paramos para pensar em que mundo estamos investindo? Afinal, no que investimos hoje determinará o mundo no qual iremos viver amanhã”.

– A história nos julgará pela diferença que fazemos no dia a dia das crianças.

A frase, de Nelson Mandela, foi citada por Bill Gates, 64 anos, durante evento da União Africana, realizado em 2018, em Adis-Abeba, Etiópia. No discurso, o executivo lembrou sua surpresa quando recebeu a ligação de Mandela pedindo ajuda para financiar a primeira eleição livre da África do Sul, há 26 anos. “Naquele tempo, eu passava a maior parte dos meus dias na Microsoft, pensando em softwares. Não sabia muito sobre a África. Mas admirava o Mandela, fiz a doação e prometi visitá-lo”, contou.

Além de cumprir a promessa, Gates adotou o continente como destino dos investimentos filantrópicos da Fundação Bill & Melinda Gates, que já aplicou mais de US$ 15 bilhões em iniciativas de saúde e erradicação da pobreza na região. Orientado pela matemática, o filantropo mede o impacto das iniciativas: para cada dólar investido, outros 20 são gerados em benefícios sociais e econômicos. A fundação financia de acesso a vacinas a empreendimentos em áreas como agricultura e energia renovável. Entre os exemplos, está o empréstimo inicial de US$ 5 milhões para uma startup queniana, a M-Kopa, que levou kits para produção de energia solar a mais de 750 mil clientes. A empresa vende os equipamentos, em prestações. Cerca de 80% de seus clientes vivem com menos de USS 2 por dia, e 75% dependem da agricultura de subsistência. São pessoas que antes dependiam do querosene e hoje se orgulham de suas lâmpadas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FARTURA E FOME

Faltam evidências de muitos dos supostos benefícios do jejum intermitente

Um saudável controle de peso traz muitos benefícios comprovados: risco menor de diabetes, menos dores nas articulações, chances menores de certos tipos de câncer e um sistema cardiovascular mais equilibrado. Alguns regimes, em particular a dieta mediterrânea, parecem muito adequados para gerar essas vantagens, embora somente quando as pessoas conseguem evitar a sobre alimentação ao segui-los. Agora, novas pesquisas sugerem que outro regime pode oferecer benefícios ainda maiores. Pelo menos essa é a afirmação de alguns que estudam uma abordagem chamada jejum intermitente.

O jejum intermitente (Jl) tem suas raízes em décadas de estudos que mostram que, se alimentarmos roedores em dias alternados, eles não só ficam esguios como desenvolvem menos doenças relacionadas ao envelhecimento e vivem de 30% a 40% mais tempo. Em um artigo de 2019 no New England Journal of Medicine, o gerontologista Rafael de Cabo e o neurocientista Mark Mattson sintetizaram uma grande quantidade de descobertas feitas em animais e, em número menor, em pessoas. Em roedores, e até certo ponto em macacos, o JI reduz peso corporal, pressão arterial e os níveis de colesterol, e melhora o controle glicêmico, reduz inflamações sistêmicas, mantém a saúde cerebral e até aumenta a resistência e a coordenação. Em humanos, estudos mostrara m que várias formas de Jl podem ser eficazes para perder peso, controlar o açúcar no sangue e abaixar a pressão arterial. “Mas, muitos benefícios que vemos em animais não estão ocorrendo em humanos”, diz Krista Varady, professora de nutrição na Universidade de Illinois.

O JI ocorre de três maneiras principais: jejum em dias alternados, quando as pessoas alternam entre dias de fartura (comendo normalmente ou um pouco a mais) e dias de jejum, com uma refeição “magra”, de cerca de 500 calorias; o plano 5:2, que significa comer normalmente cinco dias na semana, mas ingerir uma refeição bem pouco calórica nos outros dois; e a alimentação de tempo restrito, quando a refeição se restringe a uma janela de oito horas (ou, em algumas versões, de seis ou 10 horas).

Cientistas atribuem muitos dos efeitos positivos do JI à chamada alternância metabólica; após 10 ou 12 horas de jejum, o corpo exaure seu suprimento de glicogênio e começa a queimar cetonas. Essa alternância afeta fatores de crescimento, sinais imunes e outras substâncias químicas. “Mas isso não explica tudo”, diz Mattson. “Esses períodos de jejum-comer-jejum-comer ativam genes e caminhos de sinalização que tornam os neurônios mais resilientes”, diz ele, baseado principalmente em pesquisas em animais. “Isso estimula um processo chamado autofagia: as células entram em um modo de resistência ao estresse e reciclagem no qual se livram de proteínas danificadas, diz.

Há boas evidências de que o JI ajuda a emagrecer. Dois estudos compararam o regime 5:2 com uma dieta que reduzia as calorias diárias em 25%; ambos constataram que os dois regimes levaram à mesma perda de peso ao longo de três a seis meses. Mas o JI trouxe um melhor controle do açúcar sanguíneo e uma maior redução em gordura corporal. E um estudo de 2019, feito pela equipe de Varady, mostrou que o jejum em dias alternados favoreceu uma melhora na resposta corporal à insulina mais de duas vezes superior à gerada pela dieta de redução calórica.

O JI também pode ter uma vantagem em reduzir a pressão arterial, diz Courtney Peterson. Em um estudo pequeno, porém rigoroso, com homens pré-diabéticos, o laboratório de Peterson mostrou que restringir refeições a uma janela de seis horas que terminava às 15h levava a uma melhor sensibilidade à insulina e pressão arterial, mesmo sem perda de peso. Quanto a outros benefícios, dezenas de ensaios humanos estão em andamento para testar o JI como uma forma de desacelerar o crescimento de um câncer e reduzir os sintomas de esclerose múltipla, acidente vascular cerebral, doença de Crohn e outras enfermidades.

No fim das contas, as únicas dietas bem-sucedidas – qualquer que seja a meta – envolvem mudanças permanentes em hábitos alimentares. O JI pode funcionar bem no longo prazo para quem gosta de pular refeições e detesta contar calorias. Mas Varady viu uma alta taxa de desistência em um estudo de um ano de duração e é cética quanto a janelas de tempo restrito que fecham muito cedo: “Ninguém quer pular o jantar”.