EU ACHO …

O QUE A CIÊNCIA TEM DE ESPECIAL

Paradoxalmente, o valor da ciência não está nas ideias ou no conhecimento objetivo, mas na atitude de quem a pratica.

Um dos principais efeitos da pandemia foi trazer a ciência para as manchetes e para o centro do debate público. De uma hora para outra, uma profusão de virologistas, infectologistas, epidemiologistas ou apenas curiosos se converteram em “divulgadores científicos”, receberam contas verificadas nas redes sociais, passaram a assinar colunas em jornais e revistas e a dar entrevistas diárias aos noticiários televisivos, tornaram-se protagonistas num debate que, de modo algo cru, poderia ser classificado como a “grande batalha da verdade contra a mentira”. Ninguém pode negar o poder da ciência. Só ela, por meio de vacinas seguras e eficazes, tirará a humanidade da enrascada em que o novo coronavírus a enfiou. A julgar, porém, pelo número de mortos que se empilham, pela dificuldade de lidar com novas ondas e linhagens, pelo aumento da resistência irracional à vacinação, ninguém pode negar também que, em que pese todo esse poder, a ciência e a verdade não têm se saído lá muito bem na briga.

Seria fácil atribuir a responsabilidade a este ou àquele governante – Donald Trump e Jair Bolsonaro certamente têm culpa em cartório. Fácil e errado. As dificuldades dos cientistas na arena política são bem anteriores à pandemia ou à eleição de qualquer um dos dois. Derivam de uma crise de identidade que, infelizmente, os cientistas foram até hoje incapazes de resolver; de uma visão incorreta – ou incompleta – que têm da própria atividade. “Enquanto seria confortável imaginar a ciência como uma longa série de passos rumo à verdade – com suas falhas causadas apenas pelos cabeças-duras e ignorantes – , tal visão é desmentida pela história, que está repleta de teorias que eram científicas, mas simplesmente se revelaram erradas”, escreve o filósofo da ciência Lee McIntyre em The scientific attitude (A atitude cientifica).

Lançado meses antes que a palavra coronavírus entrasse no vocabulário cotidiano, o livro é uma defesa da ciência diante dos ataques de negacionistas, religiosos ou políticos. McIntyre não tem a ingenuidade missionária que emana do discurso dos cientistas, nem a crença em que a verdade por si só bastará para convencer a todos. “O que deveríamos fazer com aqueles que simplesmente rejeitam os resultados da ciência?”, pergunta. “Podemos ser tentados a desmerecê-los como irracionais, mas fazemos isso por nossa conta e risco.” Quem estiver mesmo interessado em entender por que a ciência é especial, diz ele, tem muito a aprender com quem a rejeita ou a abandonou. “Uma coisa é discernir o que distingue a ciência examinando a transição de Newton para Einstein, outra bem diferente é enfiar as botas na lama das fraudes científicas, do negacionismo e das ciências sociais.”

É exatamente esse o caminho que Mclntyre percorre. Primeiro, destrincha as falhas nas teorias mais usadas para definir ciência – dos filósofos Karl Popper e Thomas Kuhn – e demonstra o tamanho da dificuldade. Em seguida, desfaz os equívocos sobre como a ciência funciona e desvela a contaminação ideológica do tema. Mergulha, por fim, nos pântanos das fraudes, das manipulações estatísticas, do negacionismo climático, do criacionismo e da resistência às vacinas. Em vez da versão oficial que defende um certo “método científico”, é mais modesto. Formula o que prefere chamar de “atitude científica”, uma espécie de armadura capaz de proteger o que os cientistas fazem de mais importante.

“O que é distintivo a respeito da ciência é que ela respeita as evidências e está disposta a mudar suas teorias com base nelas. Não o assunto ou o método de investigação, mas os valores e o comportamento tornam a ciência especial”, escreve. “O mais importante é que tentamos encontrar erros. O perigo real não vem dos erros, mas da enganação. Erros podem ser corrigidos, servem para aprendizado. A enganação costuma ser usada para encobri-los.” A ciência é verdadeira não porque sempre está certa, mas porque sabe se corrigir quando erra.

*** HELIO GUROVITZ – é jornalista, editor de opinião do jornal O Globo

OUTROS OLHARES

A QUEDA DOS ANJOS

Os padrões estéticos mudaram e evoluíram, a Victoria’s Secret ficou ultrapassada com suas mulheres altas, magras e inalcançáveis e teve de cancelar seu tradicional desfile de lingeries

Desde o início da década de 2000, as modelos da marca de lingerie Victoria’s Secret eram referência de sensualidade e de padrão de beleza para a mulher americana e, consequentemente, para a brasileira. Porém, esses ícones do comportamento perderam seu lugar. Este ano, pela primeira vez, não acontecerá o tradicional desfile das “angels” da marca. O evento tinha repercussão mundial: mulheres altas e magras surgiam vestindo asas e sutiãs cravejados com joias, transformando-se instantaneamente em “sex symbols” globais.

O que era considerado um dos maiores acontecimentos do ano na moda, responsável por turbinar a carreira das modelos que dele participavam, hoje perdeu seu sentido. O cancelamento do desfile significa uma mudança de paradigma do papel feminino na sociedade. Do ponto de vista comercial, revela a dificuldade da marca em administrar crises e acompanhar os novos tempos. “Estamos descobrindo como avançar com o posicionamento da marca e nos comunicar melhor com os clientes”, disse Stuart Burgdoerfer, diretor financeiro da L Brands, a holding bilionária que detém a grife, sobre a não realização do evento.

FEMINISMO

São diversos os fatores que contribuíram para a queda dessa que já foi uma das marcas mais fortes no mundo. Um dos principais é a sua demora da marca em rever a sua régua para definir o que é uma mulher bonita e sensual e que, portanto, merece estampar o seu material publicitário. Enquanto a Victoria’s Secret mantém em suas campanhas apenas mulheres magérrimas, revistas, jornais, redes sociais e marcas ligadas à beleza já as selecionam há anos com diferentes formatos de corpo em suas campanhas — vitória de campanhas feministas, entre elas a #MeToo. O novo padrão envolve os mais variados tipos estéticos. Empresas como Dove, por exemplo, foram pioneiras em enfatizar a importância da beleza natural. Além disso, há uma tendência de mulheres postarem em seus perfis no Instagram fotos de biquíni independentemente de seu padrão, conquistando milhares de seguidores e, portanto, mostrando que todos devem ter o seu espaço.

Para se ter ideia do tamanho da mudança cultural, o evento da Victoria’s Secret começou a ser televisionado em 1995 e logo ganhou projeção. Em 2001, atingiu o recorde de audiência, com 12,4 milhões de telespectadores. Com as transformações sociais, sua audiência foi caindo ano a ano. Em 2017, os números despencaram para 4,98 milhões de espectadores e, no ano seguinte, mais ainda: havia apenas 3,27 milhões de pessoas na audiência. Se nas telinhas o número de interessados caiu, não foi diferente nas vendas no varejo. No ano passado, elas caíram 40%. Além disso, 2018 foi um ano com um grande número de fechamento de lojas: 30 delas encerraram suas atividades, bem acima da média de 15 fechamentos que ocorriam anualmente. No início de 2019, a empresa anunciou um enxugamento ainda maior: 53 pontos eliminados na América do Norte. Mesmo com a aposta de reduzir o preço para atrair consumidores, estima-se que as vendas vão crescer apenas 1% anualmente nos próximos cinco anos, de acordo com a consultoria Ibisworld.

ESCÂNDALOS

Como se não bastasse, somou-se ao ultrapassado marketing da marca a infeliz frase do seu diretor de marketing, Ed Razek, no ano passado. Em entrevista, ele disse que seria melhor não incluir transexuais no desfile. Depois da repercussão negativa, o executivo pediu desculpas publicamente e deixou a empresa. Para contornar a crise, a companhia incluiu uma transexual no time, a top model brasileira Valentina Sampaio. Mesmo assim, a grife não recuperou sua reputação. Para manchar ainda mais sua imagem, veio à tona ainda a antiga amizade de Leslie Wexner, o fundador da marca, com Jeffrey Epstein, bilionário americano que foi detido por inúmeras acusações de tráfico sexual e pedofilia — ele cometeu suicídio esse ano, na prisão. Para se ter ideia, Epstein chegou a ser empregado como assessor da grife. É o pacote perfeito para se abalar o grande império que um dia foi a Victoria’s Secret.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE FEVEREIRO

HONESTIDADE NOS NEGÓCIOS, O PRAZER DE DEUS

Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer (Provérbios 11.1).

A lei do levar vantagem em tudo está na moda. Vivemos a cultura da exploração desde a descoberta do Brasil. Nossos colonizadores vieram para cá a fim de explorar nossas riquezas, não para investir nesta terra. Essa tendência ainda permanece nas relações comerciais. A falta de integridade nos negócios é um mal crônico. A balança enganosa é um símbolo dessa desonestidade. Nos dias do profeta Amós, os ricos vendiam um produto inferior ao trigo por um peso menor e um preço maior, a fim de explorar os pobres e encher os seus cofres com riquezas mal adquiridas. Esquecem-se os avarentos que Deus abomina a balança enganosa. Deus não tolera a desonestidade nas transações comerciais, pois o peso justo é o seu prazer. A riqueza da impiedade, fruto da corrupção, produto do roubo e da exploração, granjeada sem trabalho honesto e sem a bênção de Deus, traz pesar e desgosto. Essas riquezas se tornarão combustível para a destruição daqueles que as acumularam. A bênção de Deus, porém, enriquece e com ela não traz desgosto. A honestidade nos negócios é o prazer de Deus. Aquele que é o dono de todas as coisas e a fonte de todo o bem requer dos seus filhos integridade em todas as áreas da vida.

GESTÃO E CARREIRA

PECADOS CAPITAIS DE UM LÍDER

Pesquisa da Talenses Executive mostra como os CEOs brasileiros se comportaram na crise

Centralizar decisões, guiar-se pela emoção, não enxergar a realidade como ela é ou ser conservador demais. Para 103 conselheiras e conselheiros ouvidos pela consultoria Talenses Executive, esses foram os principais erros dos CEOs nos primeiros meses de pandemia. “Em momentos de crise, as empresas não costumam tomar decisões drásticas e agem com o menor nível de ousadia e de investimento”, afirma João Marcio Souza, CEO da consultoria. É bem provável que nenhum CEO, diretor ou executivo brasileiro tivesse previsto em seu planejamento estratégico e de risco uma crise de saúde humana com efeitos sobrea economia global. A diferença foi como cada líder recebeu o impacto da covid-19, e como reagiu. “Uns foram rápidos, outros mais lentos, uns otimistas demais, outros tão pessimistas que demoraram a tomar atitude”, diz. Para os conselheiros, o que mais influencia positivamente uma organização em momento de turbulência é montar equipes multidisciplinares, comitês de gestão de crise e recorrer a conselhos consultivos. Inteligência emocional e coragem para tomar decisões são as duas principais habilidades comportamentais para enfrentar mares revoltos. Comunicação humanizada, ética e transparente com a companhia como um todo, para baixo e para os lados, aparece como uma alternativa para criar engajamento na organização. A crise traz oportunidade para economizar recursos, automatizar processos, digitalizar pessoas e, principalmente, repensar a estratégia do negócio, diz Souza.

COM A PALAVRA, OS CONSELHEIROS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ESTIGMA DO VÍCIO

Muitas pessoas ainda pensam que a dependência revela uma fraqueza moral

O abuso de drogas e bebidas alcoólicas gera dezenas de milhares de mortes todos os anos e afeta as vidas de muitas pessoas mais. Há tratamentos eficazes, incluindo medicações para distúrbios de uso de opioides e álcool, que poderiam evitar muitas mortes, mas não são suficientemente utilizados, e muitas vezes as pessoas que poderiam se beneficiar sequer os buscam. Um motivo é o estigma que cerca as pessoas que têm uma adição.

A estigmatização afeta pessoas com patologias que variam do câncer até diversas doenças mentais, mas ela é especialmente poderosa no contexto de problemas por uso de substâncias. Ainda que há muito a medicina tenha chegado ao consenso de que a adição é um complexo distúrbio cerebral, os adictos continuam a ser culpabilizados por suas condições. O público, assim como trabalhadores de saúde e do sistema judiciário, ainda veem a adição como fraqueza moral e falha de caráter.

A estigmatização por parte de profissionais de saúde, que culpam os próprios adictos por seus problemas com drogas ou álcool pode levar a cuidados menos eficientes ou até à rejeição de indivíduos que procuram tratamento. Atendentes em unidades de prontos-socorros (PS), por exemplo, podem desdenhar de adictos por não acharem que tratar de problemas ligados a drogas seja parte de suas funções. Como resultado, pacientes que exibem sinais de aguda intoxicação ou sintomas de abstinência às vezes são expulsos dos PS por funcionários que temem seus comportamentos ou que acham que eles só estão em busca de drogas. Adictos podem interiorizar este estigma, sentindo vergonha e recusando-se a procurar tratamento.

Há vários anos, visitei um sitio onde drogados podem se injetar, e conheci um homem que injetava heroína em sua perna. Ele estava infectado, e eu o instei a buscar um PS, mas ele fora maltratado em outras ocasiões e preferiu arriscar a vida, ou uma provável amputação, à perspectiva de reviver sua humilhação.

Além de impedir a busca por atendimento, o estigma pode levar adictos a continuar usando drogas. Uma pesquisa de Marco Venniro, do Instituto Nacional de Abuso de Drogas, mostrou que roedores dependentes de entorpecentes preferem a interação social à droga quando têm escolhas, mas quando essa escolha social é punida, os animais revertem ao uso da substância. Humanos também são seres sociais, e alguns de nós respondem tanto a castigos sociais como a físicos recorrendo a substâncias ilícitas para aliviar a nossa dor. A humilhante rejeição experienciada por aqueles que são estigmatizados por seu uso de drogas age como um poderoso castigo social, levando-os a continuar e talvez a intensificar seu consumo de substâncias.

A estigmatização de adictos pode ser ainda mais problemática na atual crise da Covid-19. Além do maior risco associado à falta de moradia e ao uso de drogas, o legítimo medo que cerca o contágio pode significar que os socorristas relutarão em ministrar Naloxona, uma droga que salva vidas, em pessoas que tiveram uma overdose. E há o risco de que hospitais ignorem aqueles que têm problemas com drogas ao tomarem decisões sobre para quem direcionar pessoal e recursos.

Aliviar o estigma não é fácil, em parte porque a rejeição a pessoas com problemas de adição ou doença mental brota da inquietação porque elas violam normas sociais. Até profissionais de saúde podem não saber como interagir com alguém que age ameaçadoramente devido à abstinência ou aos efeitos de certas drogas se não tiverem recebido treinamento adequado.

Tem de haver um reconhecimento de que a suscetibilidade às alterações cerebrais na adição é influenciada por fatores que estão fora do controle de um indivíduo, tais como a genética e o ambiente em que alguém nasceu e foi criado, e quais cuidados médicos são necessários para facilitar a recuperação, assim como para evitar os piores resultados. Quando pessoas com alguma adição são estigmatizadas e rejeitadas, isso só contribui para o vicioso ciclo que torna suas doenças tão arraigadas.