EU ACHO …

PODEMOS MUDAR A HISTÓRIA

Para quem tem dúvida sobre a inexorabilidade do combate ao racismo estrutural e para os que nunca tiveram dúvidas que a igualdade de oportunidades amplia a diversidade dos insumos e eleva a qualidade do resultado final, o encerramento da seleção dos dez e depois dezenove jovens negros do programa de trainees do Magazine Luiza, apresenta de forma inédita uma oportunidade extraordinária de inflexão, estímulo e entusiasmo. Da mesma forma, desafia aqueles que têm poder de voz e de intervenção, sobretudo os líderes empresariais a realizarem um mergulho profundo num Brasil que sempre esteve aí, mas que agora, desnudado e potencializado pelas novas agendas social e política, global e local, revela para todos os sentidos a estridência de uma realidade insustentável e a potência de uma verdade escamoteada: o discurso e prática racista desiguala os iguais, e o mérito racializado exclui e interdita o acesso isonômico dos talentos e das capacidades, desconsidera e ignora outras dimensões humanas dos indivíduos.

No tempo em que conhecimento é elemento estratégico de competitividade e progresso econômico e social, por conta do racismo estrutural, temos operado na contramão, desperdiçando talentos e deixando de fazer uso inteligente de recursos humanos de extrema qualidade e de altíssimo custo social. Logo, além de irracional e injustificável, tem se constituído numa prática terrivelmente prejudicial à produtividade e desenvolvimento econômico; e, profundamente injusta com os talentosos, esforçados e resilientes jovens negros.

Os mais de 22 mil candidatos negros que apresentaram as credenciais para competirem no programa, demonstraram à sociedade que os negros sempre estiveram prontos e qualificados, e, principalmente, sempre estiveram acessíveis àqueles que verdadeiramente quiseram encontrá-los. Demonstraram mais, que em nenhum momento seria preciso baixar a régua ou nivelar por baixo para permitir a competição justa e equitativa seja para cumprir o direito à isonomia, seja para alcançar os propósitos da diversidade corporativa.

O presidente Frederico Trajano foi inspirador: “há mais de quinze anos eu sempre faço entrevistas com os finalistas. Esta foi a que mais emocionou, estou radiante, contagiado com as histórias das pessoas. Um de nossos defeitos é que, infelizmente, no passado, não conseguimos formar líderes negros. E é isso que pragmaticamente queremos resolver”. Ou seja, podemos construir o país que quisermos, e, nem o racismo estrutural pode limitar a nossa vontade de promover o justo, prestigiar o talento, fazer a coisa certa, e mudar a história.

OUTROS OLHARES

A CRENÇA COMO REMÉDIO

Novo documento lançado por médicos brasileiros ratifica e detalha a importância da espiritualidade no tratamento de doenças

Você tem fé? Frequenta cultos religiosos? Costuma superar rapidamente a tristeza quando alguém machuca seus sentimentos? Perguntas assim, digamos, não propriamente científicas, podem se tornar comuns na rotina dos consultórios médicos do país. A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), referência na medicina brasileira, publicou o mais completo documento sobre a relevância da espiritualidade e de atributos como a compaixão e o perdão no tratamento de diversas doenças. A ideia é que, ao investigar a vida do paciente, o profissional dê a mesma dimensão para questões clássicas, como hábitos alimentares, e aquelas associadas à espiritualidade. “É uma abordagem que pode prevenir problemas e capaz também de detectar causas de enfermidades que não são rastreadas por exames convencionais, como dores crônicas, insônia e até depressão”, diz Álvaro Avezum, diretor da Socesp e cardiologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

O levantamento brasileiro traz 368 referências de estudos internacionais sobre o assunto feitos nos últimos anos. Um dos trabalhos mais interessantes foi desenvolvido pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com cristãos. Ele atestou que ir à igreja ao menos uma vez por semana pode reduzir a mortalidade de 20% a 30% em um período de até quinze anos. O ponto básico para explicar o papel da fé na saúde é associá-lo ao modo de ver a vida. “Esses pacientes costumam ser mais otimistas e aderir ativamente às terapias”, diz Sidnei Epelman, oncologista pediátrico do Hospital Infantil Sabará e presidente da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer. Uma das possíveis explicações lógicas é a associação que a crença pode ter com hormônios. A prática religiosa está ligada a secreção de endorfina e dopamina, substâncias do prazer e bem-estar.

A espiritualidade é uma questão essencial para a maioria das pessoas: cerca de 80% da população mundial está ligada a alguma religião ou acredita em um poder superior. O ponto do novo documento é ajudar os profissionais de saúde na identificação dos pacientes que desejam ou precisem dessa nova abordagem. O trabalho sugere questionários de aferição de comportamento. Um deles aborda especificamente a questão da capacidade de perdoar, forte característica dos que têm fé. A postura faz bem ao coração – a mágoa gerada pelo ressentimento deflagra stress crônico. Por defesa, o organismo estimula a quantidade de hormônios como o cortisol e a adrenalina, que, em excesso, são nocivos. Eles aceleram uma reação que eleva a atividade inflamatória do corpo. O resultado podem ser doenças como arteriosclerose, trombose, infartos, derrames e problemas autoimunes.

Há mais de um século, o canadense William Osler (1849-1919), pensador da medicina moderna, cunhou uma frase inspiradora: “A fé despeja uma inesgotável torrente de energia”. Contudo, até muito recentemente, medicina e espiritualidade não conversavam. Hoje, nove em cada dez universidades médicas nos Estados Unidos incluíram na grade curricular o tema espiritualidade e saúde. No Brasil, ainda engatinha. Convém, portanto, deixar de lado os preconceitos, mas também os exageros religiosos, e crer.

A RELIGIÃO NA PONTA DO LÁPIS

Sucintas e de fácil aplicação, as perguntas presentes na revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo avaliam o envolvimento religioso do paciente

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE JANEIRO

DIVERSÃO PERIGOSA

Para o insensato, praticar a maldade é divertimento; para o homem inteligente, o ser sábio (Provérbios 10.23).

Qual é a sua diversão? O que você mais gosta de fazer? O que lhe dá prazer? A Bíblia diz que o insensato se diverte praticando a maldade. Há muitos programas humorísticos, telenovelas, shows musicais, peças de teatro, rodas de happy hour que não passam de diversão frívola, de maldade travestida de diversão. Aqueles que encontram no mal um prazer mórbido e se divertem revolvendo a lama infecta dos porões sujos da obscenidade são insensatos. O verdadeiro prazer e o sentido da vida não estão na prática da maldade, mas na busca da sabedoria. O inteligente não se imiscui nessa roda dos escarnecedores. Não chafurda nesse pântano pestilento. O inteligente busca reger sua vida pela sabedoria. Não oferece seus ouvidos ao lixo do mundo. Não põe diante dos seus olhos coisas imundas. Não coloca seus pés na estrada do mal nem lança suas mãos naquilo que é uma desonra para sua alma. O inteligente não tem prazer no pecado; antes, o seu deleite está em conhecer a Deus e viver para a glória do Senhor. Ele não busca sua diversão nas sucursais do pecado, mas nos celeiros da sabedoria. Seu prazer não está nos banquetes da terra, mas nas delícias do céu.

GESTÃO E CARREIRA

ELAS MANDAM CADA VEZ MAIS

Ampliar a presença de mulheres é um desafio no mundo corporativo, e ainda mais no mercado financeiro. Mas um grupo crescente de bancos e gestoras tem mais executivas. A diversidade ajuda a atrair mais clientes

Elas são majoritariamente mulheres. e cuidam da fortuna de… mulheres. Cerca de 70% do quadro da gestora de patrimônio Alocc, com 5,5 bilhões de reais na carteira, é composto de funcionárias. Elas são 35 num grupo de 50. Além disso, entre os clientes as mulheres respondem por 55% do patrimônio sob gestão no Rio de Janeiro, onde fica a sede da Alocc. Até no quadro societário elas são maioria: cinco entre nove. As sócias fundadoras apresentam algo em com um: todas têm alguma história de preconceito no trabalho para contar e resolveram empreender para ter mais flexibilidade, inclusive na vida familiar. A Alocc foi criada em 2011 como uma junção da gestora de patrimônio TNA, de Ricardo Taboaço, ex-sócio da seguradora Icatu, e de sua mulher e sócia, Veronica Nieckle, com a Integra Consultoria, de Sigrid Guimarães, ex-executiva das Organizações Globo. Na visão de Sigrid, o tratamento acolhedor, que escuta o cliente e analisa seus objetivos de vida, pode ter contribuído para atrair clientes do sexo feminino. Já no caso das funcionárias, segundo ela, o ambiente no qual homens e mulheres são tratados de forma igual pode ter influenciado na atração. “Contratamos os funcionários mais adequados aos cargos”, diz Sigrid.

Se a inclusão de mulheres é um desafio em todos os setores, no mercado financeiro chega a ser maior. É um ambiente conhecido, ainda hoje, pelas altas doses de truculência e machismo, cristalizadas em personagens como os do filme O Lobo de Wall Street e em expressões como buli market e bearmarket – o “touro” e o “urso”, respectivamente, representam as tendências de alta e baixa do mercado. Uma pesquisa feita pela consultoria de recursos humanos americana Russell Reynolds com 339 executivos do setor financeiro em mais de 20 países, inclusive o Brasil, mostra que apenas metade deles acredita que seus líderes reconheçam políticas de diversidade. Em segmentos mais avançados no tema, como o setor governamental, o de ONGs e o de cultura, a proporção alcança até 87%. A pior pontuação do setor, no mercado financeiro, é a de reconhecimento e premiação de líderes inclusivos. Uma pesquisa da Betania Tanure Associados mostra que 26% das mulheres em cargos de liderança no setor financeiro veem que suas empresas estão iniciando a divulgação de esforços para inclusão e avanço da equidade de gênero, e 21% delas acreditam que essa já seja uma prática incorporada no dia a dia corporativo. Sobre equilíbrio em cargos de liderança, 15% acreditam que a empresa esteja iniciando essa prática, e 35% dizem que isso já é praticado.

Preocupados com a possibilidade de perda de talentos, os bancos vêm lançando iniciativas para atração e retenção de mulheres. O objetivo é obter melhores resultados financeiros com os melhores profissionais. Esse ganho trazido por um ambiente mais heterogêneo é comprovado por pesquisas como a da consultoria McKinsey, que conclui que empresas que investem mais em diversidade de gênero tendem a ter resultados 15% acima da média dos concorrentes diretos. Uma das razões para que essas empresas se saiam melhor é que o maior equilíbrio de cargos entre homens e mulheres diminui em 20% a rotatividade dos  funcionários, ao mesmo tempo que amplia a produtividade em 12%, segundo um levantamento da Organização das Nações Unidas. A evolução feminina no mercado financeiro do Brasil nos últimos anos é visível em cargos da base da pirâmide. De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais 2018, divulgada em novembro, o número de mulheres em cargos como analista de crédito, analista financeiro e corretor de valores somava 33.700, ante 24.000 homens. Mas, quando se olham posições gerenciais, há um longo caminho a ser percorrido, segundo mostra a pesquisa Gender 3000, do banco Credit Suisse. No setor, globalmente, elas ocupam apenas 20% dos cargos gerenciais. No Brasil, em todos os segmentos, o número cai para 8%. Ter mulheres na liderança é, portanto, duplamente importante porque o fomento de uma cultura de diversidade tem de vir, necessariamente, de uma liderança mais inclusiva. “É a forma mais efetiva de mudar a cultura”, afirma Fernando Machado, sócio e consultor da Russell Reynolds.

Em pelo menos quatro bancos de investimento estrangeiro no país, as mulheres já estão à frente do negócio ou em posições executivas. Maria Silvia Bastos Marques é presidente do conselho consultivo do Goldman Sachs; Maite Leite é presidente do Deutsche Bank; Sylvia Brasil Coutinho é presidente do UBS; e Sandrine Ferdane é presidente do BNP Paribas. Esses bancos não fazem feio quando se trata da participação feminina em sua estrutura como um todo. No UBS, as mulheres representam metade do comitê executivo, enquanto ocupam 30% dos cargos de diretoria. No BNP Paribas, as mulheres são 30% do comitê executivo e do time de gestores. Mas ainda há muito espaço para aumentar a participação. Para atrair, reter e desenvolver talentos, as quatro executivas se juntaram e criaram neste ano o Dn’AWomen, um curso gratuito de desenvolvimento pessoal e profissional para estudantes universitárias de todas as áreas, com duração de quatro meses. Há aulas de matemática e de autoconhecimento. O objetivo é que as estudantes ganhem confiança já no início da carreira para assumir cargos de liderança no futuro. Ao longo dos anos criou-se a reputação de que o mercado financeiro é mais duro e exigente. Queremos mostrar que o setor tem apelo para elas”, diz Maite. Na visão de Maria Silvia, o tema da diversidade vem ganhando força principalmente por causa de uma demanda da sociedade. “Hoje, fornecedores e consumidores levam isso em consideração.”

Entre os bancos de varejo, o Santander já tem maioria feminina no quadro. Mas o banco reconhece que precisa buscar a equidade de gênero em posições de liderança. Para encorajar as mulheres, criou um grupo de liderança feminina com 30 participantes e capitaneado por quatro executivas de áreas distintas. As integrantes participam de encontros com vice-presidentes para ganhar mais desenvoltura e visibilidade. Para o ano que vem, a meta é ampliar de 26% para 30% a participação de mulheres em posições executivas. Em 2017, a proporção era de 24%. No Banco do Brasil, o compromisso de aumentar a presença feminina em cargos de gerência faz parte da agenda para o triênio 2019-2021.

O maior objetivo dessas ações é ampliar o número de mulheres para atrair um público estratégico para o setor: as próprias mulheres. Uma das conclusões de uma pesquisa da consultoria americana Center for Talent Innovation é que funcionárias podem inovar um modelo de negócios para conectá-lo a mulheres, e investidoras estão mais inclinadas a aplicar dinheiro em empresas com diversidade no time de liderança sênior. Segundo a consultoria, 67% das mulheres com um consultor financeiro não se sentem compreendidas por esse profissional. Estima-se que 44% das mulheres brasileiras já sejam a fonte primária de renda da família. Em 2007, eram 31%. No entanto, elas ainda são 20% dos investidores da bolsa de valores e 31% dos aplicadores em títulos públicos. De olho no potencial de elevar essa participação foi lançado no mês passado o Ella’s, primeiro escritório de agentes autônomos de investimento dedicado a mulheres. “Não dá para falar em empoderamento feminino sem falar de finanças”, diz Rebeca Nevares, uma das sócias. Uma pesquisa da gestora Franklin Templeton mostra que, enquanto 40% das mulheres acham que sabem menos do que um investidor médio, 23% dos homens têm essa opinião. Para driblar a insegurança, corretoras como a Guide começaram a realizar cursos voltados para o público feminino, além de eventos exclusivos para elas em todo o país. A impressão é que sem homens, e em um formato de bate-papo, as mulheres se sentem mais confortáveis para fazer perguntas. Já o Women in Finance Summit, promovido pela Franklin Templeton em outubro, teve como objetivo inspirar mulheres e mostrar casos de carreiras no setor financeiro. O evento foi pensado para 80 pessoas, mas recebeu 800 inscrições. Interesse das mulheres por finanças não falta.

EM SEGUNDO PLANO

Comparadas a empresas consideradas diversas e inclusivas, as gestoras de serviços financeiros ainda não valorizam a diversidade

CRESCENDO JUNTO

O percentual de mulheres que investem na bolsa brasileira se mantém, seguindo o aumento do número total de investidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AGORA, TODOS JUNTOS

Atividades sincronizadas, como dança e ginástica em grupo, promovem laços sociais surpreendentemente fortes. A causa provável são alterações químicas no cérebro

Para salvar qualquer um de seus companheiros da fanfarra, diz Steve Marx, ele seria capaz de se jogar em meio ao trânsito pesado sem hesitar. Essa fala é comum entre antigos colegas de Exército, não entre músicos. Mas Marx evoca essa cena para mostrar a força de seus sentimentos pelo grupo. O diretor da fanfarra do Gettysburg College, na Pensilvânia, participa de grupos musicais há mais de 20 anos, desde o ensino médio, e diz que “esse tipo de laço que formamos é extremamente forte. Somos como uma família”. Todos usam uniformes combinados e trazem instrumentos musicais nas mãos. Caminham em perfeita harmonia, perna esquerda, perna direita; movimentos e música tão sincronizados que os indivíduos se confundem no grupo maior. O fascínio nem tem tanto a ver com a música, ele admite. Marchar, para ele, está mais relacionado   ao senso de afinidade.

Muitas atividades em grupos estimulam nosso senso de pertencimento, e a pesquisa mostra que fazer coisas em sincronia pode fortalecer laços sociais e criar um sentimento de bem-estar. Remar em equipe, dançar em linha, cantar em coro ou simplesmente tamborilar em sincronia aumenta a generosidade, confiança e tolerância com os outros, muitas vezes mais do que os efeitos vistos em atividades mais desordenadas. Pode até aumentar a tolerância das pessoas à dor. Agora estamos começando a entender por que os movimentos simultâneos e coordenados propiciam essa dose extra de afinidade, diz Laura Cirelli, psicóloga e pesquisadora de sincronia na Universidade de Toronto. Os efeitos poderosos desse fenômeno em nós resultam da combinação de fatores neuro-hormonais, cognitivos e perceptivos.

“É uma interação complexa”, explica ela. Há também evidências de que temos uma propensão à sincronia que pode ter sido selecionada durante o curso da evolução humana, em parte porque nos permite uma ligação com um número maior de pessoas ao mesmo tempo, proporcionando uma vantagem para a sobrevivência.

A capacidade de sincronizar atividades não é exclusivamente humana: certos animais também o fazem. Golfinhos nariz-de-garrafa podem se mover pela água em uníssono, por exemplo, e os machos de algumas espécies de vagalumes harmonizam seus lampejos. Especialistas em comportamento animal teorizam que, como com os humanos, esses movimentos coordenados promovem vários benefícios sociais positivos, como atrair um companheiro. O que nos diferencia é que nossa sincronia abrange uma variedade ampla de comportamentos.

Alguns são organizados: pense em grupos de oração, corais de canto, paradas militares e flash mobs. Alguns são espontâneos: pense em frequentadores de concertos aplaudindo uma música no momento certo ou em um casal caminhando no parque, com seus pés tocando o solo exatamente ao mesmo tempo. Se duas pessoas se sentam lado a lado em cadeiras de balanço, elas impulsivamente começarão a ir para frente e para trás em paralelo, mostram estudos.

Marx atribui sua devoção aos colegas de fanfarra à sincronia, e experimentos psicológicos mostraram que esse tipo de coordenação de fato aprofunda o sentimento de grupo. Em um estudo, pesquisadores da Universidade de Oxford dividiram jovens alunos em dois grupos. Um usou roupa laranja e o outro, verde. Esses figurinos podiam incitar divisões entre as crianças. Os pesquisadores, no entanto, pediram que as crianças passassem um tempo dançando juntas em sincronia. Depois disso, os verdes e os laranjas se uniram mais e brincaram mais próximos do que crianças divididas de forma similar que dançavam de maneira não coordenada.

AFINIDADE APRIMORADA

Não se trata só de brincadeira de criança. Uma série de experimentos na Hungria, publicada em 2019, sugere que andar em sincronia com uma pessoa de uma minoria étnica pode reduzir o preconceito. Na Hungria, predominam os estereótipos negativos sobre os ciganos. Quando os pesquisadores pediram que não ciganos atribuíssem palavras positivas ou negativas a imagens de pessoas tradicionalmente vestidas como ciganos, eles usaram mais palavras negativas. Quando o mesmo grupo olhou para imagens de pessoas com trajes húngaros tradicionais, foram atribuídas mais palavras positivas. Os pesquisadores pediram então que os não ciganos dessem voltas em um salão em sincronia ou não com alguém apresentado como cigano. Quando depois os pesquisadores perguntaram sobre os sentimentos dos voluntários em relação aos ciganos, os que andaram em sincronia manifestaram um maior senso de proximidade e indicaram mais desejo de ver seus parceiros novamente.

Os cientistas não sabem quanto tempo esses efeitos podem durar. Por isso, a coordenação pode não ser um reflexo permanente para o antagonismo. Mas ela parece minimizar o preconceito em algumas situações. Uma possível razão pode ser porque simples mente nos torne mais parecidos uns com os outros. Em um estudo publicado em 2009 em Social Cognition, participantes bateram os dedos em ritmo com um metrônomo e, em alguns momentos, foram acompanhados por um pesquisador que batia no mesmo ritmo ou em ritmo diferente. Os resultados mostraram que os voluntários que estiveram em coordenação com o pesquisador posteriormente tenderam mais a dizer que o acharam agradável.

Esses sentimentos de afinidade se traduzem em comportamentos mais positivos em relação aos outros. Bater os dedos de forma sincronizada, por exemplo, pode levar pessoas a serem mais generosas ao doarem dinheiro. Em uma série de experimentos publicados em 2017em Basic and Applied Social Psychology, pesquisadores dividiram voluntários em grupos de seis, que foram então divididos em subgrupos de três pessoas. Depois de trabalhar brevemente em uma atividade de grupo, os membros receberam vários cenários para dividir dinheiro entre eles e foram perguntados a quem o dariam. Se eles tivessem passado algum tempo tamborilando em sincronia apenas com seu pequeno trio, tendiam a doar para essas pessoas. Mas, se dois desses trios tivessem agido em sincronia, formando um grupo de seis por uns poucos minutos, os membros tinham maior probabilidade de doar para todos os seis. Tocas em sincronia, porém, não ajudou a estimular a generosidade. Uma meta-análise de 2017 de 42 estudos confirmou que atividades sincronizadas, desde correr em sincronia até cadeiras de balanço no mesmo ritmo, incitam o comportamento pró-social das pessoas.

Psicólogos e neurocientistas explicam a forma como a sincronia aproxima as pessoas com um termo seco: fundir-se com o outro. “É um enfraquecimento dos limites entre o eu e o outro. Quando entramos em sintonia com os atos de outras pessoas, seja conscientemente ou não, nós os integramos com os nossos”, diz lvana Konvalinka, neurocientista cognitiva da Universidade Técnica da Dinamarca. Mesmo crianças muito pequenas tendem a ser mais prestativas após agirem em sincronia. Bebês não podem ser orientados a agir em sincronia, evidentemente, portanto os pesquisadores tiveram de desenvolver meios criativos para examinar o efeito. Em um experimento publicado em 20l7 em Music Perception, uma pessoa levava uma criança de 14 meses em um carregador preso ao peito, diante de outra pessoa. Os dois adultos começavam a saltar, algumas vezes em perfeita sincronia, outras vezes, não. Isso fez os bebês saltarem também. Psicólogos conduziram experimentos usando essa concepção. Depois de uma sessão de pulos em uníssono, se o segundo adulto deixasse cair urna bola ou outro objeto, os bebês ficavam ávidos para pegá-los e devolvê-los.

EVOLUINDO EM UNÍSSONO

O psicólogo Robin Dunbar, de Oxford, acredita que, ao facilitar comportamentos pró-sociais e cooperação, a sincronia poderia encorajar a ligação em grupos primordiais de humanos enquanto a população crescia. Ele pesquisa a sincronia há anos, um fascínio que começou em uma conferência sobre arqueologia de música. Uma das sessões vespertinas foi incomum. Um músico da África do Sul convidou Dunbar e outros presentes a participarem do que parecia ser uma tradicional dança zulu. Ele pediu que ficassem em um círculo, distribuiu tubos de plástico de diferentes comprimentos e os instruiu a soprarem no topo dos tubos, fazendo sons ao acaso, e solicitou que começassem a andar em torno do círculo. Primeiramente, conta Dunbar, o ruído era horrível, mas, depois de uns poucos minutos, os sons e movimentos mudaram sem qualquer esforço em particular e os cientistas entraram em sincronia fazendo música em uma afinação adequada uns com os outros. “Todos tiveram esse sentimento de pertencimento, de ser parte do grupo. Eu percebi que era um efeito extraordinário”, relembra.

Dunbar teoriza agora que, ao longo da evolução humana, a sincronia pode ter estimulado o asseio como um importante mecanismo de união. Primatas não humanos asseiam uns aos outros para remover pulgas e outros parasitas, e o tempo gasto em fazer isso promove a coesão grupal. A atividade leva mais tempo e esforço quando o número de indivíduos asseados cresce, e Dunbar argumenta que determina um limite máximo no tamanho de um grupo unido. Quando ele determinou o tempo que diversas espécies de primatas gastam limpando uns aos outros em relação ao tamanho típico do grupo, pareceu haver uma relação direta. O limite máximo correspondente a um grupo de 50 primatas. Nenhuma espécie de macaco forma grupos que sejam, na média, maiores do que isso. Mas humanos, sim. Dunbar calcula que uma comunidade natural para nós seja em torno de 150 pessoas. Ele chegou a esse número com base no tamanho do neocórtex humano comparado com o de outros primatas, assim como as populações de cidades em sociedades em pequena escala e o número de amigos e familiares que as pessoas em sociedades em larga escala tendem a ter. Esse número bate com os primeiros registros históricos: era o tamanho da cidade média na Inglaterra em 1086 d.C. quando Guilherme, o Conquistador, inspecionou seu novo reino. (Nem todos acham que 150 seja um número definitivo; alguns cientistas alegam que esse estudo se baseia em dados excessivamente eletivos.)

Dunbar sugere que uma razão para que os primeiros humanos conseguissem sustentar um grupo com o triplo do tamanho de um agrupamento médio de macacos é que eles chegaram a uma forma de “assear” várias pessoas ao mesmo tempo, usando vozes ou movimentos do corpo em vez de catar parasitas com os dedos. O tamanho maior oferecia proteção ao grupo contra ataques de outros humanos, aumentando sua capacidade de sobrevivência e reprodução. Isso, por sua vez, permitiu que a propensão à sincronia fosse passada por seleção natural para gerações futuras, diz Dunbar.

A adoção desse comportamento com frequência tem bases biológicas. Em primatas não humanos, a ação de assear desencadeia a liberação de substâncias neuroquímicas chamadas endorfinas, que parecem aumentar as sensações boas, diz Dunbar. E a pesquisa sugere que as endorfinas, que o corpo produz para reforçar o prazer e aliviar a dor, podem estar entre os mecanismos que permitiram ao canto e à dança substituírem o asseio como ligação entre pessoas. Alguns pesquisadores os chamam de ”cola neuroquímica” das relações humanas.

CÉREBROS E MOVIMENTO

Um senso de ligação e compromisso infundido pela endorfina tem ficado claro em diversos experimentos, alguns executados no laboratório de Dunbar. Um dos primeiros estudos mostrou não só que comportamentos sincronizados provavelmente acionam os sistemas de endorfinas, mas que isso se dá para além dos efeitos produzidos pela própria atividade física (o famoso “bem-estar dos corredores”). Em um dos estudos de Dunbar, atletas do sexo masculino do Clube de Barco da Universidade de Oxford foram convidados a treinar em máquinas de remo de forma independente e depois a trabalharem em sincronia. Após o exercício, os pesquisadores mediram o nível de dor que cada um dos remadores podia sentir, inflando braçadeiras de pressão arterial em seus braços, até que não pudessem mais suportar o desconforto. (Medir os níveis de endorfina diretamente é difícil, então a percepção de dor breve é comumente usada como um substituto.) Dunbar e seus colegas constataram que os atletas que treinaram em sincronia com outros eram posteriormente muito mais resistentes à dor, e os cientistas calcularam que sua produção de endorfina basicamente cresceu 100%.

Uma série semelhante de experimentos mostrou que, quando se trata de dança, a sincronia estimula os efeitos da endorfina muito mais do que movimentos dissonantes sobreo solo. Os voluntários primeiramente aprenderam passos básicos de dança, tais como “dirigindo”(uma mão é estendida como se descansasse sobre uma direção, cruzando da esquerda para a direita e voltando, enquanto a outra mão permanece relaxada ao longo do corpo) ou “nadando” (joelhos dobrados ritmicamente, braços alternando de lado a lado como se estivessem fazendo nado crawl). Em seguida, os participantes foram divididos em grupos de quatro e foram para a pista de dança onde todos receberam fones de ouvido pelos quais ouviriam a música. O truque, no entanto, era que, em alguns grupos, todos os quatro voluntários ouviam exatamente a mesma música e eram instruídos a fazer a mesma coreografia, resultando em sincronia. Mas em outros grupos de quatro, os membros ouviam sons diferentes ou recebiam instruções para coreografias diferentes – causando uma dança silenciosa estranha e descoordenada. Quando a dança acabou, entraram os   medidores de pressão arterial e a mensuração começou. Mais uma vez, os que estavam em sincronia se mostraram mais resistentes à dor, confirmando que os efeitos não são meramente causados por dançar com outros, mas sim por dançar com outros em sincronia. Os cientistas responsáveis pelos experimentos, que foram publicados em 2016 em  Evolution and Human Behavior, também checaram o grau de ligação entre os participantes. Como em outros estudos de reações emocionais, os que bailaram em sincronia disseram que se sentiram mais próximos dos outros participantes dos que aqueles que dançaram separadamente.

Embora as endorfinas ofereçam uma explicação neuroquímica para os efeitos da sincronia, outros mecanismos biológicos podem estar em ação também. No que tange aos padrões de atividade cerebral, a sincronia parece desencadear efeitos diferentes daqueles gerados por cantar ou dançar sem coordenação. Um estudo de 2020 usando espectroscopia de infravermelho próximo – uma técnica não invasiva que mede quanto oxigênio uma determinada região do cérebro está usando, o que indica o nível de esforço para funcionar – mostrou que, enquanto movimentos sem sincronia ativam apenas o hemisfério esquerdo do cérebro, a sincronia envolve a ativação dos hemisférios esquerdo e direito. Isso sugere que a sincronia é algo bem mais complexo do que apenas executar movimentos.

 RECOMPENSA COORDENADA

Outra pesquisa sugeriu que o sistema de recompensa do cérebro, o qual inclui as estruturas neurais envolvidas no desejo e na motivação, também contribui para o poder da sincronia ao criar um loop de feedback positivo. Uma série de experimentos que usou de imagens obtidas por ressonância magnética funcional – outro meio de medir a atividade cerebral – revelou que, para os que acham fácil tocar em sincronia eleva a atividade no caudado direito, uma área relacionada à recompensa que por sua vez, aumenta a probabilidade de as pessoas ajudarem alguém com quem tenham tocado bateria. “Nós acreditamos que, durante a bateria sincronizada, a atividade do caudado reflete a natureza recompensadora da experiência”, diz Christian Keysers, um neurocientista do Instituto da Holanda para a Neurociência, e principal autor do estudo. “Os participantes terão então maior probabilidade de se engajarem em ações conjuntas com aquela pessoa no futuro”. As pessoas entram em sincronia, nossas áreas de recompensa do cérebro são ativadas e isso nos leva a fazer mais para ajudar nossos parceiros.

 Embora nem todos experimentem os efeitos da sincronia com igual força, a experiência de se movimentar no ritmo com outros ou de harmonizar vozes parece desempenhar um papel importante nas sociedades humanas. É provavelmente por isso que vemos sincronia em tudo, em grandes concertos sinfônicos, em grupos de dança e em performances cerimoniais nas pequenas cidades. Quando estamos em sincronia, nossos hormônios e a atividade de nosso cérebro ajudam a aliviar as rusgas sociais, nos mantendo unidos. Entrar para uma fanfarra pode não ser o caminho para a paz mundial, mas comportamentos como esse podem ajudar a nos tornarmos mais tolerantes e capazes de ver o bem maior em comunidades mais amplas.

*** MARTA ZARASKA – é escritora freelancer residente na França. É autora de Growing Young How friendship. Optimism and Kindness Can Help You live to 100 (Penguin Random House, 2020).