EU ACHO …

ENCONTROS E DESENCONTROS

Com os exames em mãos e devidamente imunizados, Manu e André decidem finalmente se ver

“Tô limpa.” “Eu também.”

Os dois mostraram o resultado do PGR de Covid pela tela do computador. As chamadas de vídeo se tomaram diárias depois de duas semanas falando pelo WhatsApp. Se conheceram no Tinder e não desgrudaram mais.

Manu e André tinham pessoas em comum. Ela tinha estudado com um amigo dele na faculdade, portanto tinham o antecedente de relações passadas minimamente checado, mas até o ponto que não incomoda, porque saber demais é sempre ruim. Ela detestava quando começava a sair com alguém novo e um dos amigos puxava a ficha corrida do cidadão. Torcia para o date não ter sido babaca com nenhuma menina, porque se soubesse disso não ia conseguir continuar. Mas desta vez parecia seguro seguir.

Ambos tinham gosto por corrida, praia e cinema, mas divergiam no quesito musical e séries de TV. Manu sublimou algumas coisas, pensou no que a astróloga comentou do posicionamento de Vênus no mapa astral e disse para si mesma que era exigente demais. “Às vezes a graça está no oposto”, e seguiu dando papo.

Um dia Manu entrou no elevador com o vizinho do apartamento ao lado que estava levando uma garrafa de champanhe “para comemorar 30 anos de casados com a esposa”, disse orgulhoso, e à noite Manu contou do encontro para André. Ficaram comentando o que fazia um relacionamento durar, ambos concordaram que era ter assunto por horas, e riram de felicidade e nervoso da possibilidade de um encontro. De manhã, Manu deixou um bolo na porta dos vizinhos com um cartão bonito que celebrava o amor.

Com os exames de PCR em mãos e devidamente imunizados, decidiram finalmente se encontrar. André chegou trazendo uma garrafa de vinho, “tão boa quanto a champanhe do vizinho, espero”, e Manu pediu para que ele deixasse em cima da pia e tirasse toda a roupa na área enquanto ela desinfetava a garrafa.

Ficou nu antes de chegar na sala, e quando achou que iam transar ali mesmo, ela pediu que ele entrasse no banho. Avisou que tinha toalha limpa e sabonete antisséptico no banheiro, e deixou também um roupão para ele não ter que vestir a roupa que veio da rua.

Quando André chegou na sala, Manu já esperava sem máscara. O roupão de florzinha que usava na natação atrapalhou um pouco o sex appeal dele, mas ela decidiu focar no papo. Pessoalmente não conseguiram reproduzir a cumplicidade das ligações de vídeo, e enquanto André falava, Manu pensava que a internet realmente produz um lugar de intimidade onde é possível falar tudo, mas que no presencial nem sempre era assim. Quando ele chamou sua atenção, ela voltou a cabeça para o momento presente como pedia a analista, e partiu para um beijo.

Tirou o roupão de André e pensou que já estava na hora de trocar, a toalha que revestia a peça já não era mais gostosa assim. Voltou para o momento presente mais uma vez quando ele enfiou a língua em sua orelha. Transaram no chão da sala mais porque ela tinha medo de infectar o quarto do que por tesão. O sexo teve aquela timidez das primeiras vezes, mas ela conseguiu gozar. “Qualquer coisa me faria gozar agora” pensou. Estava tão cansada das reuniões de Zoom – aliás, tinha a impressão de que estava trabalhando mais on-line do que antes presencialmente – que apagou no peito dele sem perceber.

Quanto acordou, André não estava mais lá. Foi embora sem se despedir, deixou um bilhete na geladeira agradecendo o encontro e dizendo que ele precisava ir embora pois tinha compromisso cedo. Manu gelou a espinha pensando aonde ele andava indo na pandemia, e ficou chateada pela fuga e pelo risco. Demorou para perceber, mas caiu a ficha de que tinha forçado a barra esse tempo todo, o cara não gostava de O Poderoso Chefão e nunca tinha escutado Alcione, não podia dar certo.

Procurou o vinho que ele tinha trazido para embalar o sono na madrugada, veria o primeiro da icônica trilogia do Coppola pela décima vez só de teimosia. André não sabia o que estava perdendo. Foi até a bancada da cozinha onde ele tinha deixado, mas não achou a garrafa. Andou a casa inteira, mas nenhum sinal, até que ela se tocou que ele tinha ido embora e levado o vinho junto.

No dia seguinte, puta e frustrada, Manu desinstalou o Tinder pela segunda vez. Na hora que desceu para ir ao mercado, encontrou a vizinha no elevador com uma mala enorme e quis saber se eles estavam indo viajar. “Ter alguém para fugir da cidade na pandemia deve ser maravilhoso”, comentou e perguntou se os dois tinham gostado do bolo. A vizinha agradeceu, disse que comeu tudo sozinha e que, na verdade, aquela mala era parte da mudança do marido. Depois de 30 anos tinha percebido que convivia com um chato intolerante e sem assunto e que, na verdade, esse tempo todo de pandemia ela se sentiu em cárcere privado com o mala.

Aliviada com o fato de estar sozinha, Manu comprou o melhor vinho do supermercado e à noite bebeu fazendo um Facetime com as amigas. Torceu para não ter que passar os próximos 30 anos detestando alguém, e escreveu uma mensagem para a astróloga dizendo que na verdade ela estava muito satisfeita com a posição de Vênus sim.

*** PAULA GICOVATE

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.