GESTÃO E CARREIRA

O MITO DA RESILIÊNCIA

O mantra de que ser resiliente é a melhor resposta para aguentar a pressão, encarar o excesso de trabalho e aturar chefes insensíveis traz sérias consequências físicas, mentais e motivacionais. Entenda por que abusar dessa característica é prejudicial

Saltar de novo. Em latim, esse é o significado literal da palavra “resiliência”. O termo vem sendo usado desde o século 19 para descrever, na física, a capacidade de os objetos voltarem ao normal depois de passarem por deformações – como uma mola que, após ser esticada ao extremo, se recompõe como se nada tivesse acontecido. Do ponto de vista psicológico, a resiliência se traduz na capacidade de se adaptar a circunstâncias estressantes e se recuperar de eventos adversos. Há alguns anos, a palavra se espalhou pelo mundo do trabalho a ponto de se tornar um jargão corporativo.

Não é raro encontrar vagas que exijam que o candidato tenha a resiliência corno uma de suas habilidades, ver a palavra estampando os valores de uma companhia ou achar cursos cujo objetivo seja tornar os negócios mais resilientes.

Em momentos de transformações rápidas e de crises profundas, corno a que estamos vivendo com o novo coronavírus, o interesse do mercado pelo tema se intensifica: a resiliência parece ser a resposta para que empresas e profissionais saiam a salvo lá na frente, quando tudo passar. Ouvimos que, se formos resilientes, conseguiremos nos adaptar às mudanças e ter força mental suficiente para seguir em frente e dar a volta por cima.

Mas não é bem assim. Se colocarmos todas as fichas nessa característica acreditando que aguentaremos cargas excessivas – e comprarmos o discurso que, infelizmente, ainda é altamente difundido de que ternos de suportar qualquer coisa para manter o emprego -, o risco de extrapolarmos os limites físicos e mentais será enorme. Se não conseguimos retornar à forma original depois de submetidos a tal deformação elástica, como diz a física, significa que algo está errado. Alguns estudos mostram que mesmo as competências adaptativas se tornam inadequadas quando levadas ao extremo. Uma pesquisa feita por Rob Kaiser, presidente da Kaiser Leadership Solutions, que atua na avaliação e no desenvolvimento de líderes, aponta que forças se tornam fraquezas quando submetidas ao extremo. Isso quer dizer que a resiliência tem, sim, seu lado prejudicial. “Pessoas com esse perfil podem, por exemplo, se tornar altamente persistentes com objetivos inatingíveis, ou tolerantes demais às adversidades”, diz Derek Lusk, Ph.D. em psicologia de negócios e chefe de avaliação executiva da AIIR Consulting, que atua no planejamento de sucessão, transformação de liderança e mudança de cultura. Entre os desfechos comuns está o esgotamento mental e físico. “Começa com resiliência em excesso e termina com burnout, diz Roberto Aylmer, professor na Fundação Dom Cabral, especialista em gestão estratégica de pessoas e diretor da consultoria Aylmer Desenvolvimento Humano.

SINAL VERMELHO

Derek ressalta que algumas análises científicas mostram que a maioria das pessoas perde muito tempo persistindo em objetivos irreais, um fenômeno chamado síndrome da falsa esperança. Mesmo quando comportamentos passados sugerem claramente que é improvável que as metas sejam atingidas, o excesso de confiança e um grau acima da média de otimismo fazem com que as pessoas desperdicem energia em tarefas inúteis. Isso, levado ao limite, gera problemas de saúde sérios.

Além disso, existe outro ponto: a confusão entre resiliência e subserviência, que é aceitar tudo calado. “Ser resiliente é, também, se posicionar, saber dizer não e negociar projetos”, diz a psicanalista Cláudia Cavallini, consultora e professora da HSM Educação Executiva. Segundo ela, uma pessoa resiliente na dose certa se adapta, mas consegue voltar ao seu estado original, que tem a ver com seus valores, sua personalidade e com as coisas de que não abre mão. “Ela sabe onde se reenergizar e se reequilibrar”, afirma. Para encontrar a medida certa, a professora reforça a importância do autoconhecimento e a atenção aos sinais do corpo. Se anda estressado ou ansioso demais, com hábitos alimentares ou físicos em excesso (como comer ou fazer exercícios demais) e reagindo de maneira fria ao que acontece, é hora de rever a postura (veja mais no quadro Por um Triz). Existe uma metáfora que exemplifica bem essa questão. Quando um lutador está no ringue e cai depois de um golpe, a resiliência é o tempo que ele leva para levantar e voltar ao jogo, que é medido na contagem do juiz. “Quando ele volta rapidamente mesmo muito ferido e pede mais, como se não sentisse os golpes, está sendo resiliente demais”, diz. A pessoa resiliente de maneira positiva demora um pouco: sente o impacto, o digere e volta fortalecida.

É preciso prestar atenção, também, no sentido do que está fazendo, como explica Maria Cândida Baurner, sócia da People & Results, especializada em carreira e cultura empresarial. Isso porque, quando a resiliência está desconectada do que tem significado para você, ela se torna tóxica. “Seguir no piloto automático – ‘se eu for resiliente chegarei ao outro lado’ – não se sustenta no longo prazo se não há significado”, diz.

DISCURSO ULTRAPASSADO

O grande problema é que muitos líderes confundem produtividade e otimismo desenfreado com resiliência. Esses ingredientes criam um ambiente de pressão por bons resultados e de produtividade a todo custo, que leva os funcionários a assumir riscos desnecessários, como ir ao escritório mesmo estando doente. Claro que a positividade tem benefícios, mas a obsessão pelo otimismo afasta os líderes da realidade de maneira semelhante ao excesso de confiança. “O otimismo é desejável quando alinhado com a verdade”, diz Derek.

Na visão de Anderson Sant’Anna, professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV, hoje em dia há muitos mitos em torno de que precisamos ser bons e felizes o tempo todo – o que se torna uma ditadura da alegria. Uma das consequências é a sensação de que temos de suportar qualquer absurdo com um belo sorriso no rosto, senão não teremos vez. “Isso acaba virando jargões corporativos que mais prejudicam cio que contribuem. É impossível ser resiliente o tempo todo.” Segundo ele, o discurso da liderança e da própria companhia acabam, algumas vezes, exagerando no argumento de que é preciso aguentar sempre. “Muitos acham que, por meio de incentivos como ‘você é forte’ ou ‘você dá conta’, podem motivar o profissional. Mas, em determinados momentos, isso surte o efeito contrário”, afirma.

Por trás desse discurso de que é preciso aturar tudo pode existir uma ideia perigosa: a pressão para trabalhar o máximo possível. “A resiliência se torna exploração quando é mal definida dentro de uma organização tóxica”, diz Derek. Esse quadro costuma se instalar em empresas administradas por líderes que promovem uma cultura de alto desempenho às custas das pessoas. “Eles farão o que for preciso para atingir seus números, incluindo maus-tratos e exploração de funcionários”, afirma. Por isso, já passou da hora de muitas empresas repensarem o conceito de resiliência. “Não se trata de seguir sem pensar, com confiança e otimismo exacerbados para superar desafios, e sim de saber se adaptar da maneira correta, e dentro da capacidade de cada um, a situações de ameaça ou a adversidades”, diz. Se bem usada, a resiliência é se recompor em momentos de estresse para, de uma maneira humana e equilibrada, buscar objetivos alcançáveis e seguir em frente. Ela não pode ser usada por líderes e pelo mercado como uma desculpa para empurrar os profissionais para o excesso de trabalho e para o abuso psicológico. Resiliência não é saltar para o precipício.

POR UM TRIZ

Cinco indícios de ode você está extrapolando

  1. Apresentar sintomas físicos e emocionais, como muito estresse ou dores no corpo
  2. Insistir em objetivos inalcançáveis
  3. Desperdiçar tempo em tarefas sem sentido
  4. Ter tolerância demais e aceitar tudo sem contestar
  5. Ser mais duro e insensível

SEM PERDER A MÃO

Três pilares que ajudam a encontrar o equilíbrio

1. TENHA UMA REDE DE APOIO

Contar com pessoas de confiança que possam conversar com você é essencial. Por meio de outras perspectivas é possível refletir sobre as situações e ajustar o comportamento

2. APOSTE NO AUTOCONHECIMENTO

Ter clareza de quais são seus valores e objetivos de vida e saber o que traz realização ajuda a escolher caminhos mais conscientes. Quando estamos cientes daquilo que nos faz bem, fica mais fácil identificar o que é prejudicial e, assim, buscar outras alternativas

3. NÃO ESQUEÇA O QUE É RESILIÊNCIA

A resiliência é a capacidade de reagir da forma mais adequada possível – de acordo com a situação que você está vivendo – e, em seguida, voltar ao estado de equilíbrio. Quando vivemos algo ruim, é natural responder com emoções negativas, mas é importante compreender quando é o momento de deixar aquele sentimento ir embora e seguir adiante

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.